Mostrando postagens com marcador Grecia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Grecia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de julho de 2015

GRÉCIA - Plano da UE para a Grécia é inviável sem perdão da dívida.

Plano da UE para Grécia é inviável sem perdão de dívida, diz FMI

  • AP
Para o FMI, as expectativas dos países europeus para a economia grega não são realistas
Em um surpreendente comunicado emitido na noite de terça-feira, o Fundo Monetário Internacional (FMI) fez duras críticas à União Europeia pela recusa do bloco em considerar o perdão de parte das dívidas da Grécia nas negociações para o terceiro pacote de ajuda financeira ao país em cinco anos.
O órgão, que também faz parte da lista de credores gregos, tendo emprestado 10% do mais de R$ 1 trilhão devido por Atenas, afirmou que apenas uma anistia considerável poderá evitar o colapso econômico do país.
Segundo uma porta-voz, o FMI, que vinha resistindo a participar da nova leva de empréstimos sem o que chamou de um plano claro para a recuperação econômica grega, fez a recomendação diretamente aos ministros da área econômica dos países que adotam o euro como moeda. E também ofereceu possíveis cenários de perdão de dívidas.
Leia mais: Crise na Grécia: os possíveis cenários para os próximos dias
Especialistas do fundo recomendaram um período de 30 anos para o pagamento das dívidas - entre elas, a dos novos empréstimos -, além de uma extensão considerável da incidência de juros. Sem isso, segundo o órgão, apenas uma redução considerável na massa de débitos poderá fazer do endividamento um processo sustentável.
null
A presidente do FMI, Christine Lagarde

Drama no Parlamento

Foi a primeira vez que divergências mais substanciais entre o FMI e a União Europeia vieram a público.
O novo pacote de ajuda grega, além de não conter qualquer tipo de perdão de dívidas, impõe duras condições a Atenas que incluem o compromisso de levantar um fundo com ativos gregos no equivalente a R$ 170 bilhões, além de medidas de austeridade que não apenas o governo grego tinha prometido não adotar, mas que também foram recusadas por 61% dos gregos em um plebiscito realizado há duas semanas.
As divergências internas dão contornos mais dramáticos aos compromissos dessa quarta-feira, quando vence o prazo dado à Grécia para aprovar no Parlamento quatro projetos de lei exigidos em troca de mais crédito.
Para o editor de economia da BBC, Robert Peston, as críticas do FMI podem ter "implodido" um novo acordo.
"Fica difícil imaginar os deputados gregos votando por algo que um dos credores gregos condena."

terça-feira, 14 de julho de 2015

GRÉCIA - O sol dos gregos.

O sol dos gregos

           
                                     Autor: José Augusto Ribeiro
 
Naturalmente o resultado do referendo na Grécia sobre a dívida do país não agradou aos mais intransigentes dos credores, em especial as criaturas do FMI. Nem o resultado, nem a decisão do governo grego de convocar o referendo, pois essa turma toda entende que o povo, o eleitor, o contribuinte, o desempregado, o homem comum que acaba pagando por tudo não deve se meter nem ser metido nisso. Imagino a reação não vocalizada (por deferência ao politicamente correto) de alguns deles: “Mas essa gente decidir isso?”
A Grécia chegou ao referendo depois de cinco anos da tal austeridade imposta pelo FMI e pelos credores. E apenas cinco meses depois da eleição e investidura do Primeiro-Ministro Alexis Tzipras. A austeridade de cinco anos não resolveu coisa alguma, só agravou os problemas criados pelos governos anteriores, a tal ponto que nas eleições de janeiro o povo grego escolheu o partido de Tzipras, um partido dito de extrema esquerda, mas que se tem mostrado bem menos extremista, aliás nada extremista, que os porta-vozes dos credores.
O Google já oferece a quem se der ao trabalho de lê-la a íntegra do discurso de Tzipras no Parlamento Europeu, um discurso sóbrio, conciliador e muito digno: basta digitar “Alexis Tzipras” que a oferta do discurso aparece imediatamente, antes até do item que remete à biografia de Tzipras na Wikipédia.
Com a maior elegância, Tzipras deixou claro que a Grécia e seu atual governo têm sido chantageados e submetidos a um arrastão de terrorismo midiático – o que continuou a acontecer pelos dias seguintes, até o fim da longa reunião de 17 horas seguidas, no domingo, 12 de julho, quando afinal se anunciou um acordo.
Um acordo que condena a Grécia à submissão em matéria econômica, mas que, espero, permita aos poucos ao Primeiro-Ministro Alexis Tzipras, se seu governo sobreviver, retomar a luta pela reconquista gradual de sua soberania.
Aqui no Brasil a mídia abduzida pelos interesses do mercado financeiros não permitiu a seus melhores jornalistas e a seus mais lúcidos entrevistados que mostrassem o outro lado da questão grega, mas não teve como impedir que alguma coisa escapasse aos limites da monocórdia insistência nos chavões habituais a respeito do “calote” grego, da irresponsabilidade grega, do dever dos gregos de fazerem o dever de casa – todo esse bestialógico que a impostura neoliberal considera a suma teológica de uma verdade eterna.
A mídia européia e mesmo a norte-americana não se comportaram assim, porque operam num cenário de opinião publica muito mais informado e não se sujeitariam a cair no ridículo. Não encontrei nem no Figaro, de Paris, um jornal assumidamente de direita, qualquer alusão explícita ou implícita à palavra “calote”, aqui repetida a todo momento.
Do que escapou e pôde ser dito, quero registrar dois fatos que me parecem dos mais importantes no conjunto da questão grega.
Primeiro: a bela, talentosa e experiente jornalista Ilse Scamparini, correspondente da Globo e da Globonews na Itália e enviada especial a Atenas, informou que desde a ditadura militar de 1967, há quase cinquenta anos, as riquíssimas empresas gregas de navegação estavam isentas de impostos, mas agora o governo Tzipras passou a cobrá-los. Quem não se lembra da riqueza quase obscena do fabuloso armador grego Aristóteles Onassis, que no fim da vida casou com a viúva do Presidente John Kennedy, Jacqueline Kennedy Onassis? Pois é, a empresa ou as empresas do fabuloso Onassis não pagavam impostos, embora o negócio da navegação seja dos mais lucrativos do mundo.
Segundo fato, revelado por economista entrevistado: boa parte da dívida que hoje corresponde a cerca de 150% do PIB da Grécia refere-se ao financiamento concedido (ou imposto) à Grécia em 2011 por países como a Alemanha, para a compra de armas nesses mesmos países. A chanceler Angela Merkel já chefiava o governo da Alemanha e foi sob sua responsabilidade que se negociou esse empréstimo, a pretexto de necessidades urgentes de defesa do território grego contra ameaças externas.
Em 2011 já não existia, por mais de dez anos, a ameaça suposta ou verdadeira da antiga União Soviética. E o conflito potencial com a Turquia já não era tão ameaçador. A Grécia, integrante da OTAN desde os tempos da Guerra Fria, gasta hoje cerca de 5% de seu PIB com um orçamento de defesa indiscutivelmente superdimensionado (o Brasil, tão grande, gastou, em 2014, apenas 1,4% do PIB).
Quanto mais ignorarmos fatos como esses e outros da mesma ordem, menos entenderemos a crise grega. E os arrogantes e ignorantes evangelistas do mercado financeiro continuarão a repetir, sem contestação, as tolices habituais, em especial as que se pretendem engraçadas.
Um deles, por exemplo, fez muito sucesso e provocou muito riso entre os circunstantes, ao dizer que a Grécia não trabalha, vive da venda de pacotes turísticos e de azeitonas. E os navios do falecido Onassis e dos outros armadores? Não valem nada, não produzem?
Quanto ao turismo, os gregos dispõem de um grande ativo que é o sol – o sol sob o qual os europeus das geladas e sombrias regiões de seu setentrião (inclusive os alemães de Frau Merkel) recompõem as energias nas férias de verão. Naturalmente a contabilidade desta era de pensamento único neoliberal não saberia (para usar uma palavra que ela própria inventou) como precificar o sol e muito menos planejar sua privatização. Mas o faraó egípcio Akhenaton já sabia, há mais de três mil anos, do papel e da importância do sol no destino humano.
Como os precificadores só entendem de dinheiro (se é que entendem), questões como a da Grécia e de outros países periférico aos grandes centros financeiros da atualidade continuarão a ser objeto de incompreensão e desinformação. Sobretudo desinformação.

GRÉCIA - O "Não", uma resolução histórica.



Europa?

O 'NÃO' do povo grego foi um 'não' aos eurocratas que a cada dia confirmam que são incapazes de arrancar a Europa da inércia.


Slavoj Zizek
reprodução
O “NÃO” inesperadamente forte do referendo grego marcou uma resolução histórica, lançada em uma situação de desespero. Em minha obra, frequentemente me valho da conhecida piada soviética da década passada sobre Rabinovitch, um judeu que quer emigrar. O burocrata do departamento de emigração pergunta o motivo, e ele responde: “Bem, há dois motivos. O primeiro é que temo que os comunistas percam o poder aqui na União Soviética, e que consequentemente o novo governo venha a colocar sobre nós, judeus, toda a culpa pelos crimes dos comunistas – inaugurando uma nova leva de pogroms anti-semitas…” “Mas que bobagem”, interrompe o burocrata, “nada vai mudar na União Soviética. O poder dos comunistas durará para sempre!” “Pois então, esse é o meu segundo motivo”, responde Rabinovitch tranquilamente.

Me disseram que uma nova versão dessa piada está agora circulando em Atenas. Um jovem grego visita o consulado australiano na capital grega e solicita um visto de trabalho. “Mas por que você quer sair da Grécia?” pergunta o funcionário. “Por dois motivos,” responde o grego. “Estou preocupado que a Grécia caia for a da União Européia, que levará a mais miséria e caos no país…” “Mas não se preocupe,” interrompe o sujeito, “a Grécia vai permanecer na União Europeia e se submeter à disciplina financeira.” “Bem,” responde o grego calmamente, “esse é justamente meu segundo motivo.”

Seriam então ambas as escolhas, para parafrasear o camarada Stalin, “escolhas piores”?

Chegou a hora de irmos além dos debates irrelevantes sobre os possíveis enganos e erros de avaliação do governo grego. O que está em jogo agora é simplesmente grande demais para isso.

O fato das tentativas de fechar os termos de uma formula de compromisso sempre acabarem se esvaindo no último momento das negociações em curso entre a Grécia e os gestores da União Europeia já é algo profundamente sintomático. Pois não se trata efetivamente de detalhes financeiros – a diferença, a esse ponto é mínima. A União Europeia acusa os gregos de falarem só em termos mais gerais, fazendo promessas vagas sem detalhes específicos, ao passo que os gregos acusam a União Europeia de tentar controlar seu país até os menores detalhes e impondo condições à Grécia que são mais duras que as impostas no governo anterior. Mas o que espreita essas repreensões é um conflito muito mais profundo.

O primeiro ministro grego Alexis Tsipras recentemente comentou que se ele se reunisse a sós com Angela Merkel para um jantar, eles teriam encontrado uma formula poucas horas. O que ele queria dizer é que ele e Merkel, dois políticos, tratariam o desacordo como uma problema fundamentalmente político. À diferença portanto dos gestores tecnocráticos como Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogroup. Aliás, se há um “malvadão” emblemático nessa história toda é esse sujeito, cujo lema é: “Se eu entrar para o lado ideológico das coisas, não resolverei nada.”

Isso nos traz ao ponto chave da questão: Tsipras e Yanis Varoufakis, o ex-ministro das finanças que renunciou no dia 6 de julho, falam como se eles fossem parte de um processo político aberto em que as decisões são essencialmente “ideológicas” (baseadas em preferências normativas), enquanto os tecnocratas da União Europeia falam como se tudo fosse uma questão de medidas regulatórias detalhadas. Quando os gregos rejeitam essa abordagem e levantam questões mais fundamentalmente políticas, eles são acusados de mentirosos, de estarem evitando soluções concretas etc. E está claro que a verdade aqui está do lado grego: a negação do “lado ideológico” advogada por Dijsselbloem é o que há de mais puramente ideológico. Ela mascara (no sentido de apresentar falsamente) como medidas peritas puramente regulatórias, medidas que estão efetivamente enraizadas em decisões politico-ideológicas.

Por conta dessa assimetria básica, o “diálogo” entre Tsipras ou Varoufakis e seus interlocutores da União Européia muitas vezes fica parecendo um diálogo entre um jovem estudante que quer travar um debate sério sobre questões básicas, e um professor arrogante que, em suas respostas, humilhantemente ignora a questão principal e repreende o aluno com questões técnicas (“Você não formulou corretamente a questão! Você esqueceu de levar em conta tal e tal ponto!”). Ou ainda, fica parecendo um diálogo entre uma vítima de estupro que desesperadamente relata o que lhe aconteceu, e um policial que continuamente a interrompe exigindo detalhes técnicos. Essa passagem da política propriamente dita à administração especialista e pretensamente neutra caracteriza a totalidade do nosso processo politico: decisões estratégicas baseadas em poder são cada vez mais mascaradas como regulamentações administrativas baseadas em avaliações técnicas neutras, e são cada vez mais negociadas secretamente e implementadas sem consulta democrática alguma.

A luta que se trava hoje é luta pela cultura econômica e política dominante (Leitkultur) na Europa. As potências da União Europeia defendem o status quo tecnocrático que preserva e mantém há décadas a inércia da Europa.

Como costumo lembrar, em suas Notas para uma Definição de Cultura, o grande conservador T.S.Eliot ensina que há momentos em que a única escolha que resta é entre a heresia e a descrença — nessas horas, a única maneira de poder manter viva uma religião é fazendo um corte sectário no âmago de seu corpo principal. Essa é nossa posição hoje, em relação à Europa: só uma nova “heresia” (representada hoje pelo Syriza) pode salvar o que ainda vale a pena salvar do legado europeu: a democracia, a confiança no povo, a solidariedade igualitária. A Europa que vencerá, se o Syriza for atropelado, é uma “Europa com valores asiáticos” (o que, é claro, nada tem a ver com a Ásia, mas tem tudo a ver com a tendência visível e atual no capitalismo contemporâneo, de suspender a democracia).

Na Europa Ocidental gostamos de olhar para a Grécia como se fôssemos observadores distanciados que acompanham, com compaixão e simpatia, o suplício de uma nação empobrecida. Esse confortável ponto de vista repousa sobre uma ilusão fatídica. Verdade é que o que se passa na Grécia nessas últimas semanas nos diz respeito a todos: o que está em jogo é o futuro da Europa. Portanto, quando lemos sobre a Grécia desses dias, não nos esqueçamos que, como diziam os antigos, de te fabula narratur (trocando o nome, a fábula vale para você também).

Um ideal de Europa

Um ideal está gradualmente emergindo da reação do establishment europeu ao referendo grego. Talvez a melhor expressão dele esteja na manchete de uma recente coluna de Gideon Rachman no Financial Times: “O elo mais frágil da Eurozona são seus eleitores.”

Nesse mundo ideal, a Europa se livra desse “elo mais frágil” e os peritos são concedidos o poder para impor diretamente as medidas econômicas necessárias – se é que houverem eleições, sua função só será a de confirmar o próprio consenso dos especialistas. O problema é que essa política de especialistas está baseada numa ficção, a ficção de “prorrogar e fingir” (prorrogar o período da reembolso, fingindo que todas as dívidas serão eventualmente pagas).

Por que essa ficção é tão teimosa? Não é só que essa ficção faz com que a prorrogação da dívida seja mais aceitável aos eleitores alemães; e também não é só que a anulação da dívida grega possa desencadear reivindicações semelhantes em Portugal, na Irlanda e na Espanha. É que quem está no poder não querem de fato que a dívida seja plenamente quitada. Os credores e gestores da dívida acusam os países endividados de não sentirem culpa suficiente – são acusados de sentirem-se inocentes. Seu prazer se encaixa perfeitamente no que a psicanálise chama de “superego”: e o paradoxo do superego, como bem percebeu Freud, é justamente que o quanto mais obedecemos suas demandas, mais culpa sentimos.

Imaginem um professor pervertido, que dá aos alunos tarefas impossíveis, e depois, sadicamente, goza quando vê a ansiedade e o pânico deles. O verdadeiro objetivo de emprestar dinheiro ao devedor não é receber de volta a dívida paga e o lucro, mas a continuação indefinida da situação de dívida, que mantém o devedor em dependência e subordinação perpétuas. Vale para a maior parte dos devedores, porque há devedores e devedores. Não só a Grécia, mas também os EUA nunca, nem teoricamente, conseguirão pagar sua dívida – o que hoje já reconhecem publicamente. Quer dizer que há devedores que podem chantagear os credores, porque os credores não podem ser deixados entregue à própria sorte e falir (caso de grandes bancos), devedores que podem controlar as condições dos pagamentos (governo dos EUA), e, finalmente, devedores que podem ser arrastados em praça pública e humilhados (a Grécia).

Imagine um professor cruel que prescreve tarefas impossíveis para seus alunos, e sadicamente goza quando vê a ansiedade e pânico dos estudantes. O verdadeiro objetivo de emprestar dinheiro ao devedor não é o de receber depois a dívida reembolsada junto com determinado lucro, mas sim a continuação indefinida da dívida que mantém o devedor em permanente situação de dependência e subordinação. É claro que isso vale só para a maior parte dos devedores, porque há devedores e devedores. Vale lembrar que não apenas a Grécia mas também os próprios EUA não seriam, nem teoricamente capazes de quitar sua dívida, como agora já se admitiram publicamente. Então, quer dizer, há devedores que podem chantagear seus credores porque não podem se permitir entrar em falência (grandes bancos), há devedores que podem controlar as condições de sua quitação (governo estadunidense), e por fim, devedores que podem ser usurpados e humilhados (Grécia).

Os credores e gestores da dívida basicamente acusam o governo do Syriza de não sentir culpa o suficiente – são acusados de se portarem como inocentes. É por isso que o Syriza incomoda tanto o estabilshment da União Européia: ele reconhece a dívida, mas sem culpa. Eles se livraram da pressão do superego. Varoufakis personificou essa postura em suas negociações com Bruxelas: ele plenamente reconheceu o peso da dívida, e argumentou um tanto racionalmente que, na medida que a política da União Europeia obviamente não funcionou, outra opção deveria ser encontrada.

Paradoxalmente, o que Varoufakis e Tsipras estão defendendo repetidamente é que o governo do Syriza é a única chance para que os credores recebam ao menos parte do seu dinheiro de volta. O próprio Varoufakis se pergunta sobre o enigma do porquê dos bancos estarem despejando dinheiro na Grécia e colaborando com um estado clientelista sabendo muito bem como as coisas – a Grécia nunca teria se endividado tanto sem a conivência do establishment ocidental. O governo no Syriza tem plena consciência de que a principal ameaça não vem de Bruxelas – ela está no interior da própria Grécia, um estado clientelista e corrompido. O que se deve criticar na burocracia da União Europeia é que, ao mesmo tempo em que criticava a corrupção e a ineficiência da Grécia, apoiava a própria força política (o Nova Democracia) que encarnava essa corrupção e ineficácia.

O governo do Syriza busca justamente romper esse impasse – tome por exemplo a declaração programática de Varoufakis (publicada no Guardian) que concentra o objetivo estratégico fundamental do partido:

“Uma saída da Grécia, de Portugal ou da Itália da Eurozona logo levaria a uma fragmentação do capitalismo europeu, produzindo uma região de grave superávit recessivo ao leste do Reno e norte dos Alpes, enquanto o resto da Europa estaria sujeita a uma pesada estagflação. Quem você acha que se beneficiaria com esse movimento? Uma esquerda progressista, que irá ressurgir como uma fênix das cinzas das instituições públicas europeias? Ou os nazistas do Aurora Dourada e toda sorte de neofascistas, xenófobos e especuladores oportunistas? Eu não tenho dúvida alguma a respeito de qual dos dois se sairá melhor de uma desintegração da eurozona. Eu, pelo menos, não estou preparado para cair no embalo dessa versão pós-moderna do que foi a década de 1930. Se isso significa que sobrou para nós, os marxistas adequadamente erráticos, salvar o capitalismo europeu de si mesmo, que seja. Não por amor ao capitalismo europeu, nem pela Eurozona, tampouco por Bruxelas e muito menos pelo Banco Central Europeu, mas simplesmente porque queremos minimizar o desnecessário custo humano da crise.”

A política financeira do governo do Syriza seguiu à risca essas diretrizes: sem déficit, disciplina estreita, mais dinheiro arrecadado por impostos. Certa imprensa alemã recentemente caracterizou Varoufakis como um psicótico que vive em seu próprio universo paralelo – mas será que ele é tão radical?

O que irrita tanto em Varoufakis não é seu radicalismo mas sua pragmática modéstia racional – se olharmos atentamente às propostas oferecidas pelo Syriza, não se pode evitar de perceber que elas já fizeram parte do próprio padrão de programa social-democrata moderado (na Suécia na década de 1960, o programa do governo era muito mais radical). É um triste sintoma dos nossos tempos que hoje você tem que pertencer a uma esquerda “radical” para advogar essas mesmas medidas – um sinal de tempos sombrios mas também uma chance para a esquerda ocupar o espaço que, décadas atrás, era o da centro-esquerda moderada.

Mas talvez ficar insistindo no quão modestas são na verdade as políticas do Syriza, de que não passam da boa e velha social democracia, de certa forma erre o ponto principal. Será mesmo que se repetirmos isso o bastante, eventualmente convenceremos os eurocratas de não somos realmente perigosos e passarão a nos ajudar? Essa posição passa ao largo do fato de que o Syriza é efetivamente perigoso, e ele representa sim uma ameaça à presente orientação da União Europeia. Porque o capitalismo global de hoje não dá conta de voltar para o velho welfare state.

Então há algo de desentendido nas reafirmações da suposta modéstia do projeto do Syriza: ele efetivamente quer algo que não é possível no interior das coordenadas do sistema global existente. Uma séria escolha estratégica terá de ser feita: e se tiver chegado o momento de tirar a máscara da modéstia e abertamente defender uma mudança muito mais radical como necessária para garantir um ganho ainda que modesto?

Muitos críticos do referendo grego alegaram que tratou-se de um caso de pura encenação demagógica, ironicamente assinalando que não estava nem claro o que efetivamente o referendo estava determinando. Mas a verdade é que o referendo não tinha a ver com Euro vs Drachma, com “Grécia dentro da UE” vs “Grécia fora da União Europeia”: o governo grego repetidamente sublinhou sua disposição de continuar na UE e na Eurozona. Mais uma vez, os críticos pegaram uma questão política fundamental levantada pelo referendo e traduziram ela como uma decisão administrativa que versava sobre medidas econômicas específicas.

Um novo começo

Em uma entrevista ao Bloomberg em 2 de julho, Varoufakis deixou claro o que estava de fato em jogo no referendo. A escolha era entre a continuidade das políticas da União Europeia dos últimos anos que levaram a Grécia à beira da ruína – a ficção do “prorrogar e fingir” (prorrogando o período de quitação, mas fingindo que todas as dívidas seriam eventualmente pagas) – e um novo começo realista que não dependerá mais sobre tais ficções e forneceria um plano concreto sobre como dar início à efetiva recuperação da economia grega. Sem um plano como esse, a crise simplesmente voltaria a se recolocar. No mesmo dia, o próprio FMI admitiu que a Grécia precisa de uma alívio de dívida para criar uma “margem de respiro” e fazer com que a economia volte a andar (ele propõe um moratório de 20 anos em cima dos pagamentos da dívida).

O “NÃO” do referendo grego foi portanto muito mais que uma escolha entre duas abordagens diferentes diante da crise econômica. O povo grego heroicamente resistiu à vergonhosa campanha de medo que mobilizava os mais baixos instintos de autopreservação. Os gregos anteviram a brutal manipulação de seus oponentes que falsamente apresentaram o referendo como uma escolha entre o Euro e o Drachma, entre a Grécia na Europa e a “Gréxit”.

O “NÃO” do povo grego foi um “não” aos eurocratas que a cada dia confirmam que são incapazes de arrancar a Europa de sua inércia. Foi um “não” à continuidade do business as usual; um clamor desesperado dizendo a todos que as coisas não podem continuar da forma de sempre. Foi uma decisão por autêntica visão política contra a estranha combinação de fria tecnocracia e frases racistas fáceis e esquentadas a respeito da preguiça e da irresponsabilidade financeira dos gregos. Foi uma rara vitória de princípios contra o oportunismo egoísta e essencialmente autodestrutivo. O “não” que venceu foi um “sim” à consciência plena da crise na Europa; um “sim” à necessidade de encenar um novo começo.

Agora cabe à União Europeia agir. Será que ela será capaz de despertar de sua inércia auto-satisfeita e compreender o sinal de esperança lançado pelo povo grego? Ou despencará sua ira sobre a Grécia para poder continuar com seu sonho dogmático?

GRÉCIA - "Devemos parar de fingir que estamos resolvendo o problema.

Devemos parar de fingir que estamos resolvendo o problema, diz Varoufakis sobre novo acordo grego
Poucas horas após o acordo o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, fechar um rígido tratado de austeridade com credores europeus em troca de liquidez, o ex-ministro das Finanças Yanis Varoufakis criticou a decisão, alegando que o novo acordo só prolongará a crise econômica grega.
“Este país [Grécia] deve parar de estender e de fingir, temos de parar de assumir novos empréstimos, fingindo que estamos resolvendo o problema, quando não estamos”, afirmou em entrevista à revista britânica New Statement.

“Nós fizemos a nossa dívida ainda menos sustentável em uma condição que prolongou ainda mais a austeridade e afundou a economia, transferindo essa carga para os pobres e criando uma crise humanitária”, acrescentou.
A informação é publicada por Opera Mundi, 13-07-2015.
Para Varoufakis, a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) nunca negociou genuinamente com o governo grego durante seus cinco meses como ministro das Finanças.
Aos seus olhos, esse programa de austeridade falhou nos últimos cinco anos, pois colocou mais de um quarto dos gregos fora do mercado de trabalho e criou a pior depressão econômica para um país nunca mais vista desde a crise de 1929.
Nos meses em que esteve responsável pela pasta das Finanças, Varoufakis explica que tinha um plano para a economia grega, mas não recebera o apoio do chefe de Governo, que decidiu fazer "novas concessões".
Na madrugada após a vitória do “não” no referendo de oito dias atrás, Yanis Varoufakis diz que elaborou um novo plano econômico que foi rejeitado por quatro a dois em uma votação da liderança do partido de esquerda Syriza.
Como ele também não conseguiu convencer Tsipras sobre um projeto de resistência face às chantagens de credores, sua renúncia do ministério se tornou inevitável. "Aquela noite, o governo decidiu que a vontade do povo, o retumbante 'não', não era suficiente para adotar uma abordagem mais enérgica", conta o ex-ministro.
Conhecido por cultivar inimizades com sócios europeus, Varoufakis aproveitou a entrevista para criticar o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble.
"É um órgão totalmente subjugado pela Alemanha. É uma orquestra dirigida pelo ministro Schäuble. O Eurogrupo não está previsto em nenhum tratado, mas tem o grande poder de determinar a vida dos europeus, de decidir sobre questões quase de vida ou morte", atacou.
“Eu confio e espero que nosso governo vá insistir na reestruturação da dívida, mas eu não consigo ver como o ministro das Finanças alemão irá um dia assinar a favor disso. Se ele fizer isso, será um milagre”.
Pagamento ao FMI
Após quase duas semanas desde que deu oficialmente calote de 1,6 bilhão de euros ao FMI, o organismo financeiro internacional anunciou nesta noite que Atenas falhou em pagar outra parcela da dívida, programada para hoje, no valor de 450 milhões de euros.

GRÉCIA - Crise política por causa das concessões.

Crise política na Grécia por causa das concessões de Tsipras à Europa
O “catálogo de atrocidades” que o governo da Grécia “foi forçado a assinar com uma arma apontada para sua cabeça” — as duas citações são textuais, a primeira da revista semanal alemã Der Spiegel, a segunda, de fontes do Governo em Atenas — hipoteca o futuro imediato do primeiro-ministro, Alexis Tsipras, para muitos o bode expiatório do acordo.
A aceitação da proposta dos sócios, com exigências vergonhosas de revisão de toda a legislação aprovada desde fevereiro — exceto as medidas para aliviar a crise humanitária —, foi vivida nesta segunda-feira como uma bofetada de humilhação, ou como uma cruel aterrissagem na realidade, não só no Executivo, mas, acima de tudo, dentro do Syriza. Sua ala esquerda vai rechaçar no Parlamento os projetos de lei que Bruxelas exige que sejam aprovados antes de quinta-feira para começar a negociar o resgate europeu; outros grupos menores estão exigindo uma nova direção no partido e ameaçam formar outro. A ruptura no Syriza é algo possível.
A reportagem é de María Antonia Sánchez-Vallejo, publicada por El País, 14-07-2015.
Em seu regresso de Bruxelas, Tsipras se reuniu com seus ministros e assessores, além de seu sócio de governo, Panos Kamenos, líder dos ultranacionalistas Gregos Independentes (ANEL, na sigla em grego) que, com seus 13 deputados, deu a maioria absoluta ao Syriza (149 deputados de uma Câmara de 300). Nas últimas horas, Kamenos, atual ministro da Defesa, manifestou no Twitter sua oposição ao conteúdo do acordo, e é previsível que seus deputados façam o mesmo na votação parlamentar.
Na manhã de terça-feira também se reúne o grupo parlamentar do Syriza sob o comando de Tsipras. Mais de trinta dos seus deputados poderiam votar contra o Governo.
Nas próximas horas, Tsipras também deve decidir sobre o futuro da presidenta do Parlamento, Zoi Konstandopulu, que no sábado se absteve na votação sobre a proposta grega enviada a Bruxelas (no total, os deputados dissidentes do Syriza foram 17, o que fez com que perdesse a maioria parlamentar), já que não parece disposta a renunciar voluntariamente. “Os deputados [do Syriza] assinaram todos um código de conduta pelo qual são obrigados a renunciar e devolver seus cargos se quebrarem a disciplina de voto”, lembra Elias Nikolakopoulos, professor da Universidade de Atenas; “no entanto, não sabemos se farão isso nessas circunstâncias especiais”.
A próxima tarefa de Tsipras, pura questão de horas, é a remodelação do Governo, com a substituição de pelo menos quatro ministros rebeldes, embora pareça que as alterações poderiam permitir um Gabinete de unidade nacional, que Tsipras só poderia constituir com ajuda dos três partidos da oposição pró-europeia, com cujos líderes entrou em contato após o acordo de Bruxelas.
Stavros Theodorakis, líder do liberal To Potami, está há semanas defendendo a formação de um governo deste tipo, embora não pense em participar dele, só quer propor ao primeiro-ministro uma lista de nomes para integrá-lo. O socialista PASOK e o conservador Nova Democracia também defenderam a conveniência de um Executivo de colaboração, do qual não rejeitam serem parte.
Essa opção foi citada na manhã desta segunda-feira por um dos homens mais próximos a Tsipras, o ministro do Trabalho, Panos Skurletis, que, ecoando os sentimentos da maioria do Syriza, disse que se trataria de um Gabinete provisório, para realizar as ações prioritárias exigidas por Bruxelas —a segunda rodada de medidas deve ser votada antes de 22 de julho—, e depois de alguns meses, realizar eleições. A oposição e os credores, no entanto, preferem um Governo de maior duração.
Como efeito imediato do acordo, além do fechamento dos bancos pelo menos por mais alguns dias, a paz social que imperou desde as eleições de janeiro já foi perturbada, com a realização de várias manifestações contra o acordo e pelo não, além da realização de greves, uma de farmacêuticos e outra —de 24 horas— convocada para a quarta-feira pelo poderoso sindicato de funcionários públicos (Adedy, na sigla em grego). “É culpa da falta de preparação e da inexperiência do Governo, não souberam negociar com pesos pesados como Merkel e pagaram caro sua ingenuidade; não podem existir outras razões para aceitar essa humilhação, especialmente quando sabiam perfeitamente que o partido ia se voltar contra eles”, afirma Lefteris Pandakis, membro do Adedy e com um cargo intermediário no Syriza.

GRÉCIA - Acordo ainda mais rígido.

Grécia sai de negociações com acordo ainda mais rígido

Apesar de maioria dos gregos ter dito "não" à austeridade em referendo, nova ajuda financeira a Atenas prevê termos em parte ainda mais duros do que os que haviam sido rejeitados. Tsipras diz que pacto é positivo.
A reportagem é publicada por Deutsche Welle, 13-07-2015.
Uma semana após mais de 60% dos eleitores gregos terem rejeitado num referendo a austeridade imposta pelos credores internacionais à Grécia, um novo acordo aprovado nesta segunda-feira (13/07) prevê medidas ainda mais rígidas para o país.
O primeiro-ministro Alexis Tsipras cedeu em diversos pontos, concordando com medidas radicais, incluindo o corte de gastos públicos, o aumento de impostos e reformas previdenciárias. O líder grego também se comprometeu a aprovar amplas reformas para o mercado de trabalho e a vender ativos estatais.
Antes do referendo, as exigências dos credores internacionais – rejeitadas pela população – incluíam a ampliação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) e uma redução na quantidade de pessoas que têm direito a aposentadoria antecipada, por exemplo.
Agora, tanto um aumento do IVA e uma ampliação da base de cobrança quanto reformas no sistema de aposentadorias estão previstas no acordo sobre o terceiro pacote de resgate à Grécia, aprovado nesta segunda-feira.
Uma das maiores concessões de Tsipras é a promessa de colocar num fundo independente 50 bilhões de euros, provenientes de títulos estatais, para pagar a dívida do país. No fundo, administrado pela Grécia sob supervisão dos credores europeus, os ativos serão rentabilizados através de privatizações e outros meios.
Analistas manifestaram ceticismo diante da proposta. "A meta de privatização parece extremamente ambiciosa para uma economia que ainda está imersa na pior depressão de sua história moderna", afirma Diego Iscaro, da consultoria IHS.
Para Charles Wyplosz, professor de Economia Internacional no Instituto de Graduação em Estudos Internacionais e de Desenvolvimento, em Genebra, criar o fundo independente é uma manobra "extraordinariamente intrusiva". "O que eles vão fazer? Privatizar os monumentos históricos?"
Tsipras também disse que aceitaria um papel maior do Fundo Monetário Internacional (FMI) no novo pacote de resgate, cujo valor pode chegar a 86 bilhões de euros. Tal concessão foi uma demanda-chave da Alemanha, que a vincula ao apoio do Parlamento alemão.
Além disso, segundo o acordo, será necessária consulta prévia com as instituições europeias para qualquer lei que Atenas queira aprovar em "áreas relevantes".
Sobrevivência política em jogo
Apesar de analistas afirmarem que os termos do novo acordo, que agora o Parlamento grego deverá aprovar, são mais rígidos em alguns aspectos do que aqueles que os gregos rejeitaram no referendo, Tsipras insiste que se trata de algo positivo para a Grécia.
"Travamos uma batalha justa até o fim", disse o premiê, afirmando que o acordo deve aliviar o peso da dívida sobre a Grécia e reavivar o sistema bancário do país. "A grande maioria da população grega vai apoiar este esforço."
Tsipras conquistou apoio no próprio país após o "não" que ele defendia ter vencido no referendo, recebendo o consentimento dos legisladores gregos no último sábado para negociar um terceiro pacote de resgate ao país. Para impor o acordo em casa, o premiê pode enfrentar resistência dentro da própria coalizão.
O site de tendência esquerdista Iskra, alinhado à visão do ministro da Energia grego, Panagiotis Lafazanis, principal oponente de Tsipras no Syriza, criticou a manobra do premiê.
"Após 17 horas de negociações, os líderes dos países da zona do euro alcançaram um acordo humilhante para a Grécia e para o povo grego", disse o site, afirmando que o país se tornaria uma "colônia da dívida" numa "UE supervisionada pela Alemanha".
Após sacrificar a maior parte de suas promessas de campanha, a sobrevivência política de Tsipras pode estar em jogo, apesar de sua popularidade. O ministro do Trabalho, Panos Skourletis, ex-porta-voz de Tsipras, previu nesta segunda-feira que o governo perderá a maioria no Parlamento e terá de convocar novas eleições ainda neste ano.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

GRÉCIA - A austeridade falhou.

A austeridade falhou: uma carta aberta de Thomas Piketty à Angela Merkel

Cinco economistas importantes alertam a chanceler alemã, 'a história irá lembrar de você pelas suas ações essa semana.'


Thomas Piketty, Jeffrey Sachs, Heiner Flassbeck, Dani Rodrik e Simon Wren-Lewis
Universitat Pompeu Fabra / Flickr
A austeridade ‘que nunca acaba’ e que a Europa está forçando ‘guela abaixo’ ao povo grego simplesmente não está funcionando. Agora a Grécia disse ‘não mais’.

Assim como a maioria mundial sabia que iria, as demandas financeiras feitas pela Europa destroçaram a economia grega, levaram ao desemprego em massa, a um colapso do sistema bancário, fez com que a crise da dívida externa ficasse pior, com o problema da dívida subindo para impagáveis 175% do PIB. A economia agora jaz quebrada com as receitas fiscais em queda livre, produção e emprego em baixa e os negócios com fome de capital.

O impacto humanitário foi colossal – 40% das crianças agora vivem na pobreza, a mortalidade infantil sobe aceleradamente e o desemprego dos jovens chega perto de 50%. Corrupção, evasão de impostos e uma terrível contabilidade do governo grego anterior ajudaram a criar o problema da dívida. Os gregos cumpriram com muito do pedido de austeridade da chanceler alemã Angela Merkel – cortaram salários, cortaram os gastos do governo, reduziram as pensões, privatizaram e desregularam e aumentaram os impostos. Mas nos anos recentes, a série dos chamados ‘programas de ajuste’ inflingiram no que diz respeito a Grécia ter servido apenas para fazer uma Grande Depressão de um jeito que não era visto na Europa desde 1929-1933. O remédio prescrito pelo Ministério ds Finanças alemão e Bruxelas sangrou o paciente, não curou a doença.

Juntos, estimulamos a chanceler Angela Merkel e a Troika a considerarem uma correção de curso, para evitar maiores desastres e permitir que a Grécia continue na Zona do Euro. Agora, a Troica está pedindo ao governo grego que aponte uma arma para sua cabeça e atire. Infelizmente, a bala não ira somente matar o futuro grego na Europa. O dano colateral irá matar a zona do euro como um baluarte de esperança, democracia e prosperidade, e poderia levar a consequências econômicas mais distantes ao redor do mundo.

Nos anos 1950, a Europa foi fundada pelos perdões de dívidas passadas, notadamente as alemãs, as quais geraram uma contribuição massiva a um crescimento econômico e pacífico em um pós-guerra. Hoje, precisamos reestruturar e reduzir a dívida grega, dar à economia um espaço para se recuperar e permitir que a grécia pague uma parte menor da divida em um longo período de tempo. Agora é a hora para um pensamento humano do programa falido e punitivo da austeridade nos últimos anos e concordar com uma redução massiva das dívidas gregas em conjunção com reformas necessárias no país.

À chanceler Merkel nossa mensagem é clara; a alertamos a tomar essa ação vital de liderança para a Grécia e Alemanha, e também para o mundo. A história irá lembrar de você pelas suas ações esta semana. Contamos com você para fornecer os passos corajosos e generosos em direção à Grécia e que irá servir à Europa por muitos anos ainda.

Atenciosamente,

Heiner Flassbeck, ex Secretário de Estado no Ministério Federal das Finanças alemão

Thomas Piketty, Professor de Economia na Escola de Economia de Paris

Jeffrey D. Sachs, Professor de Desenvolvimento Sustentável, Professor de Políticas Públicas e Gestão e Diretor do Instituto Terra na Universidade de Columbia

Dani Rodrik, Professor da Fundação Ford de Economia Política Internacional, Escola Harvard Kennedy

Simon Wren-Lewis, Professor de Política Econômica, Escola de Governo Blavatnik, Universidade de Oxford 

GRÉCIA - "Banco de Merkel"

Damos bem mais pela prosperidade da Alemanha do que para ajudar a Grécia

"Banco de Merkel", diz pichação sobre o letreiro original "Banco da Grécia", em agência de Atenas. A referência é à chanceler alemã Angela Merkel, vista no país como uma das responsáveis pela crise que levou o país a optar por não honrar suas dívidas com os credores europeus em referendo realizado neste domingo.
A reportagem é de Stéphane Foucart, publicada no jornal Le Monde e reproduzida pelo portal UOL, 08-07-2015.
Só desta vez, diante dos últimos acontecimentos, aqui falaremos de Grécia, Alemanha e dívidas. Não se preocupem, as linhas que se seguem não acrescentarão em nada à inflação dos comentários recentes sobre a desgraça helênica. Todos sabem que Atenas deve a seus credores uma soma de quase 320 bilhões de euros (R$ 1,1 trilhão); todos sabem que ela deu calote no FMI; por fim, todos sabem que os gregos rejeitaram em massa, no domingo (5), as exigências de seus credores.
Disso, todos sabem. Um fato mais discreto é que a virtuosa e intransigente Alemanha também arrasta dívidas pendentes, que possivelmente ultrapassam de longe a conta grega. E não estamos falando aqui da Alemanha exaurida do pós-guerra. Estamos falando é da Alemanha de hoje, com sua poderosa indústria, seu orçamento impecável etc.
Para entender a natureza dessa "dívida" alemã, é preciso se debruçar sobre um número recente do "Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism" (JCEM). Em abril, a revista publicou uma série de estudos conduzidos por cerca de vinte pesquisadores internacionais e coordenados por Leonardo Trasande, especialista em saúde das populações e professor na Universidade de Nova York. O objetivo deles era avaliar o custo econômico dos danos para a saúde causados pela contaminação química na União Europeia. Usando o ano de 2010 como referência, a estimativa deles avalia o valor médio desses danos em 1,3% do PIB dos 28 Estados-membros da UE. Ou seja, 157 bilhões de euros (R$ 550 bilhões) por ano, em gastos com saúde e tratamento de certos distúrbios, em perda de produtividade dos funcionários etc. E isso é somente um valor médio: a parte superior da margem ultrapassa os 260 bilhões de euros (R$ 911 bilhões) anuais.
E qual seria a relação com nossos vizinhos alemães? Simples. Na Europa, a indústria química é representada pela Alemanha. O país domina de longe o setor, com gigantes como a Bayer e a BASF, e é muito claro que grande parte desses 157 bilhões de euros são responsabilidade dela. A Alemanha teria muito a perder, caso as medidas adequadas fossem aplicadas para evitar esses danos colaterais. Berlim sabe perfeitamente disso. Através de uma de suas agências de segurança sanitária, a Alemanha sempre procurou entravar a implantação de novas regulamentações europeias destinadas a regular os produtos mais problemáticos, os chamados disruptores endócrinos.
Se nos ativermos à última década, esses custos colaterais ocultos –-as chamadas "externalidades negativas", segundo os economistas-– associados à indústria química provavelmente custaram pelo menos 1,57 trilhão de euros (R$ 5,5 trilhões) à economia europeia. Nessa década, a dívida grega passou dos 195 bilhões (R$ 685 bilhões) para 320 bilhões de euros (R$ 1,1 trilhão), ou seja, um crescimento de 125 bilhões de euros (R$ 440 bilhões). Dez vezes menos que as externalidades negativas dos químicos no mesmo período, e certamente muito, muito menos que a dos gigantes alemães do setor.
E seriam confiáveis esses estudos? É inegável que se trata de uma tarefa delicada. "O impacto dos poluentes químicos no ambiente sobre a saúde pode parecer elusivo e é um conceito difícil de entender", escreve Tracey Woodruff, professora da Universidade da Califórnia em San Francisco, a quem o "JCEM" confiou seu editorial de abril. "Faltam-nos dados exaustivos sobre a maneira como as substâncias químicas presentes em nossa vida cotidiana –-na alimentação, na água, no ar e nos produtos de uso corrente-– afetam nossa saúde."
"Verdadeiro fardo"
Diante dessa falta de dados, Trasande e seus coautores focaram, de acordo com Woodruff, "nos efeitos de somente sete produtos e famílias químicas –-pesticidas organofosforados, plastificantes etc.--, em três categorias de distúrbios (problemas no sistema reprodutor masculino, distúrbios neuro-comportamentais, obesidade e diabetes)". Os autores, portanto, só levaram em conta o custo dos efeitos quantificáveis sobre a saúde, graças aos estudos epidemiológicos sérios disponíveis, assim como às medições de impregnação da população. Todo o resto, tudo aquilo que é suspeito mas não suficientemente estudado, foi ignorado.
Não somente não é possível estimar todos os efeitos sobre a saúde, como a indústria química também produz outras externalidades sustentadas pela coletividade: fontes de água potável contaminadas por resíduos de pesticidas, perda de biodiversidade e serviços associados (polinização, preservação da fertilidade dos solos etc.). "O que é preciso entender", diz Woodruff, "é que esse cálculo de 157 bilhões de euros só representa a parte visível do verdadeiro fardo que se pode atribuir aos poluentes químicos do meio ambiente."
Essa "dívida" não revolta a ninguém. No entanto, ela é bem mais tangível que a dívida grega: além de enormidade de seu peso econômico, ela interfere em nossa biologia e degrada a saúde das populações, altera os ecossistemas e modifica as paisagens.
Essas constatações pertencem a uma ciência consensual, convencional e citada como tal pelo Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente. O fato é que a indústria química só se desenvolve às custas de externalidades gigantescas, assumidas pelos países, pelas coletividades, pelos sistemas de saúde e por outros setores econômicos. É claro, uma externalidade não é uma dívida stricto sensu. "A primeira pode ser vista como uma dívida moral, enquanto a segunda é contratual", diz o economista Alain Grandjean. Pode ser, mas tudo isso nós já pagamos, estamos pagando ou vamos pagar de uma maneira ou de outra.
Sem saber, estamos dando bem mais pela prosperidade da orgulhosa Alemanha do que para ajudar a pequena Grécia.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

GRÉCIA - A Europa e a democracia de voo curto e nariz comprido.

A Europa e a democracia de voo curto e nariz comprido

A constatação é de que a União Europeia e em particular o euro se transformaram numa jaula onde os sonhos vão se apequenando e os pesadelos se amplificando


Flávio Aguiar
Guido Bergmann/ Bundesregierung
A crise grega - que não é somente grega - está no auge. O governo grego não pagou a quota de 1,5 (1,6 segundo algumas fontes) bilhões de euros que deveria pagar a o FMI até ontem, 30/06. Há um referendo sobre o plano de austeridade que querem continuar enfiando garganta abaixo do pais no domingo. Os lideres do establishment europeu insistem em dizer que o referendo é, na verdade, sobre se o povo grego quer ou não quer permanecer no euro. Com as limitações de saque impostas, o governo de Atenas liberou o transporte público. Ouvi nas rádios alemãs o comentário de que isto era uma medida demagógica destinada a garantir que o povo votaria não no domingo, tomada “como se o governo não necessitasse desse dinheiro. Manifestações pró e contra as medidas de austeridade acontecem na frente do Parlamento grego, na Praça Sintagma, com milhares de manifestantes de ambos os lados. As bolsas estão nervosas e em queda. Também caem as ações dos bancos europeus. Quem investe sabe que, se países como a Grécia, Portugal, Espanha e outros se encalacraram com suas dívidas, o sistema financeiro europeu está também encalacrado nas dividas públicas, apelidadas de “soberanas”. Cresce no sistema de apostas britânico, o mais sensível do mundo depois do jogo do bicho brasileiro, a cotação de que a Grécia vai sair do euro e retornar ao dracma. Analistas conservadores na mídia perguntam-se perplexos, porque o povo grego não se mostra dócil como o português e o espanhol (apesar do Podemos) e simplesmente obedece aos ditames da Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI).

Na confusão e no meio da adrenalina que corre nas veias fechadas do continente, algumas coisas ficaram muito claras em meio à crise.

1. Nunca houve disposição real de negociar alternativas por parte do establishment da zona do euro. O governo grego fez varias concessões a partir do programa com que foi eleito, claramente anti-austeridade, mas nada disto foi suficiente. O establishment da zona do euro não queria uma negociação, queria a rendição do governo de Atenas e a desarticulação do Syriza desde o começo do processo, a menos que estes traíssem seus eleitores e seu programa. Exigiram sempre a manutenção das balizas principais da política recessiva que destruiu a economia grega em 25% e criou taxas de desemprego gigantescas (60% entre os jovens) mais impostos sobre as camadas populares, menos salários, menos pensões, menos impostos sobre as corporações e os grandes lucros.

2. Quem conduziu as negociações, definiu-lhes o ritmo, e as imposições, foram os ministros das áreas financeiras, não os presidentes e chanceleres. À frente daqueles estava o assim chamado na mídia europeia “Hawkish” (“falcão”, termo derivado da Guerra Fria) Wolfgang Schäuble, o ministro alemão, inspirado em seu credo econômico ortodoxo. A constatação é significativa porque ilustra o predomínio destas áreas dentro e sobre a política e os políticos tradicionais. Nas manifestações anti-austeridade quem aparece com bigodinho de Hitler é a chanceler Angela Merkel (esta ilação é bastante inadequada, mas mostra o quanto a imagem da Alemanha vem se deteriorando no continente), mas quem dá as tintas, o pincel e a escada para os pintores, além de definir as cores e o design, são os avatares e sacerdotes da área econômica, não se descartando presidentes de bancos centrais, como Jens Weidman, do BCA. Mario Draghi, presidente do BCE, ensaiou uma outra musica durante algum tempo, mas depois da reunião do Conselho do Banco que suspendeu o financiamento de liquidez para os bancos gregos a partir de 30 de junho, passou não só a tocar mas também a dançar de acordo com a mesma melodia de fechar as portas para o governo de Tsipras. No Reino Unido, que não participa do euro, quem define o que o governo de Cameron pode ou não pode fazer é o chamado “chanceler” George Osborne, o grão-vizir, o xamã, o sumo-sacerdote do orçamento público, comprovando que em matéria de despesas e investimentos Cameron governa mas não reina.

3. A rebeldia grega mostrou que o voo da democracia na Europa de hoje tem alcance curto: quem quiser voar por sobre a cerca que define a jaula da “austeridade” neoliberal está condenado ao ostracismo, no que depender da hegemonia neoliberal que informa não só os governantes, mas igualmente grande parte da mídia, seus comentaristas, e as escolas de economia majoritariamente no continente. Tsipras, Varoufakis, o governo e o povo gregos se transformaram num caso “exemplar”, que deve servir de baliza para outros possíveis ensaios de independência e soberania, como no caso hipotético do Podemos na Espanha. Além disto, ela tem um nariz de Pinóquio, pois o establishment que a controla nega continuamente a realidade. Os planos de austeridade não funcionam, não funcionaram nem vai funcionar, mas eles são mantidos contra todas as evidências. Bom, em grande parte devido ao fato de que, de outro modo e sob outro ângulo, funcionam sim, isto é, no sentido de a) desorganizarem o que resta do estado de bem estar herdeiro da finada social-democracia europeia de antanho, b) reorganizarem este mundo social de acordo com as balizas do sistema financeiros descontrolado que levou às crises provocadas pela debacle financeira de 2007/2008, e c) redefinirem a geografia europeia em torno da hegemonia do chamado “norte”, uma cortina de fumaça para o predomínio dos sistemas financeiros da Alemanha, Reino Unido, Holanda, em parte o da França, que desfrutam de grande apoio entre os países nórdicos e exercem um enorme poder de sedução sobre os países do antigo leste europeu, sobre os demais sistemas e países.

4. Aos governantes do proscênio deste Grand Guignol que é a política europeia cabe providenciar as retóricas que sustentem a ideia da inevitabilidade das políticas neoliberais de “austeridade", frequentemente de inspiração algo populista e disfarçadamente nacionalista para seus eleitores, embora neguem de pés juntos e mãos postas esta condição, que dê sustentação eleitoral a esta “democracia no aprisco” que tem algo de farsa, como aquele teatro francês inspirado no antigo mundo dos fantoches contemporâneos do Iluminismo. O melhor exemplo desta retórica, que tem algo de tragicômico devido a quem o ofereceu, foi dado pelo vice-chanceler alemão, o social democrata (!) Sigmar Gabriel, ao dizer há algum tempo atrás que o governo de Berlim ”não permitiria que os trabalhadores alemães e suas famílias pagassem pelas promessas exageradas de um governo {o de Atenas} cheio de comunistas”.

5. A situação evoluiu, depois que Tsipras chamou o referendo de domingo próximo, para um plebiscito para o seu governo. De um lado, está agora o povo cansado e exaurido pela política de “austeridade” que devastou a sua vida (11 mil suicídios desde que elas começaram), submetido à pressão algo chantagista da “catástrofe da saída do euro" (como se catástrofe já não tivesse acontecido dentro do euro), um enorme e assustador fantoche carregado pelos equivalentes gregos aos nossos “coxinhas” brasileiros das manifestações de direita recentes, a mídia privatista e conservadora do pais, a mídia conservadora europeia, e todo o establishment econômico-político (nessa ordem) hegemônico na zona do euro e na União Europeia. Na manifestação pró-euro da terça-feira, 30, em Atenas, o que se ouvia eram palavras de ordem do tipo “fora Tsipras”, levadas a cabo, como no caso brasileiro, por quem perdeu a eleição anterior. O fato é que neste cenário a posição do governo de Tsipras é bastante difícil. Está isolado dentro do espectro politico largamente majoritário nos países europeus. Rússia e China, que poderiam lhe dar algum alívio financeiro, não vão afrontar a União Europeia nem - é bom não esquecer - a OTAN, que vê na Grécia uma pedrinha menor mas indispensável do seu dominó balcânico e europeu. Se perder o plebiscito, terá muito provavelmente que no mínimo chamar novas eleições. Se ganhar, continuará frente aos mesmos credores e adversários ávidos por provar sua inviabilidade e provocar a sua queda.

6. Num quadro destes, talvez não haja outro caminho senão de fato abandonar o euro e voltar ao dracma, por mais penoso que isto seja no curto prazo. Dizem vários economistas, inclusive conservadores, que o governo teria de cotar a “nova-antiga” moeda em 50% do euro, encarecendo as importações, com possíveis reflexos inflacionários negativos na economia, mas restabelecendo a competitividade desta diante do restante da Europa e catapultando o turismo, importante fonte de renda para o pais. Mas isto nos conduz à outra ponta do quebra-cabeças, ou seja,

7. a constatação de que a União Europeia e em particular o euro se transformaram numa jaula onde os sonhos vão se apequenando e os pesadelos se amplificando. A UE foi um sonho plantado num momento histórico em que a social-democracia europeia, voltada para o bem-estar social, era hegemônica como alternativa ao capitalismo desenfreado e ao comunismo que se esclerosava. Mas o sonho foi colhido pela hegemonia conservadora que se sucedeu ao fim da Guerra Fria (que está de volta, se é que sumiu um dia) e à devastação provocada pela um tanto fugaz mas escachapante hegemonia Reagan - Tatcher - João Paulo II - que demoliu os alicerces da social-democracia, convertendo os social-democratas e socialistas (e também muitos verdes) de hoje em fantasmas desarticulados e pálidos de seus antecessores, vestidos com o sambenito da fogueira (ou banho-maria) neoliberal. O euro foi um passo mais arriscado, concebido ou melhor, vendido, como um paraíso onde os leões, tigres e ursos (as economias mais fortes da U. E.) conviveriam em paz com os cordeiros, cervos e alces (as economias mais fracas), todos bebendo da mesma fonte e se auxiliando e se tolerando mutuamente. Na verdade o que aconteceu foi que os mais fortes continuam ameaçando, subjugando e segregando os mais fracos, para que, no fundo, as raposas, os abutres e os tubarões do sistema financeiro continuem disputando a carniça e sugando o sangue de todo mundo. O paraíso, de onde ninguém deveria querer sair, virou uma jaula de onde ninguém escapa.


PS: Nesta quarta-feira à tarde (horário europeu) o Financial Times divulgou noticia segundo a qual Tsipras havia enviado nova carta aos credores disposto a aceitar “a maior parte” das exigências destes. Ainda não se sabe o teor exato da carta nem o que esta “maior parte” seria, muito menos qual será a reação destes credores. Mas esta informação não altera o quadro politico, econômico e ideológico traçado neste artigo.

GRÉCIA - Entre o sim e o não.

Entre o sim e o não, Grécia tira a máscara do neoliberalismo cruel da Troika

Com bancos fechados, controle de capital e democracia ameaçada, o mundo aguarda a decisão do povo grego em referendo convocado pelo governo.


Jon Queally, do CommonDreams
common dreams
Segundo observadores, o discurso feito pelo presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker em Bruxelas na segunda-feira teria aumentado dramaticamente a tensão sobre o referendo na Grécia marcado para o próximo domingo – votação que poderá resultar na saída do país da zona do euro.

Com a reação dos mercados financeiros globais ao anúncio, feito no domingo, de que os bancos e a bolsa de valores gregos estariam fechados esta semana, e com a imposição de controles de capital, a crise na Grécia, ou 'Grisis’, atinge agora seu ápice. Além disso, a população do país financeiramente devastado foi convidada a escolher entre "sim" ou "não", se aceitam ou rejeitam o acordo que continua a impor a política de austeridade em troca de novo de aporte de dinheiro e crédito estendido apresentado pela Troika – como se chama a trinca Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu.

Recomendando aos eleitores gregos a votar "sim" e aceitar a proposta da Troika, o jornalista do The Guardian Graeme Wearden classificou a fala de Junker como um discurso “de cair o queixo" por suas implicações. Wearden argumenta que “o medo da morte não deveria levar o povo grego a cometer suicídio”, e diz que Juncker “disse ao povo grego que, no domingo, este estará escolhendo entre o euro e a porta de saída, que o governo mentiu para eles, e que ele (Junker) tem sido seu verdadeiro amigo e aliado na mesa das negociações".

Na segunda-feira, o Governo liderado pelo Syriza anunciou que o transporte público seria gratuito esta semana, para suavizar o peso da situação econômica e que alguns bancos ofereceriam acesso exclusivo aos aposentados, que do contrário poderiam enfrentar dificuldades em acessar suas economias.

Na noite de domingo, o primeiro-ministro Alexis Tsipras fez um discurso na TV sobre os últimos acontecimentos – incluindo a decisão de fechar os bancos para restringir os saques – e disse: "quanto mais calma tivermos para enfrentar as dificuldades, mais cedo vamos vencê-las”.

A mensagem de Tsipras vai no sentido oposto ao discurso feito por Juncker na segunda-feira, e o Partido Syriza deixou claro que se opõe aos termos do acordo apresentado pela Troika, e vai exortar a população a dizer "não" à proposta.

O que aconteceu no fim de semana, de acordo com o colunista do New York Times e Nobel de Economia Paul Krugman, foi um "Corleone às avessas" – em referência ao filme O poderoso chefão – em que a Troika fez uma oferta que o governo Syriza "não poderia aceitar”. “Os comissários da Troika provavelmente fizeram isso de propósito", afirmou Krugman, para pressionar ostensivamente o governo de esquerda. Exceto o aspecto econômico da proposta, explicou Krugman, "o ultimato foi, na verdade, um movimento para derrubar o governo grego. E, mesmo para quem não gosta do Syriza, isto é perturbador para quem acredita nos ideais europeus".

Nick Dearden, diretor-executivo da Global Justice Now, com sede no Reino Unido, criticou violentamente o comportamento da Troika, especificamente a recusa em permitir uma pequena extensão do programa de liquidez bancária que precedeu o referendo do próximo domingo.

"As políticas intransigentes e desumanas da União Europeia agora ameaçam provocar uma crise mundial”, disse Dearden ao CommonDreams. "A UE e o FMI parecem obcecados em punir impiedosamente a Grécia por se atrever a se opor às condições da dívida, manifestamente abusivas e injustas, e que estão causando enorme sofrimento. Recusar-se a aceitar um pequeno adiamento para a realização do referendo é colocar a aplicação brutal de um capitalismo sem freios acima da democracia e das necessidades da população”.

Com manifestações em toda a Europa pela anulação da dívida grega, continuou Dearden, a recusa em tratar o povo grego com dignidade é simplesmente imperdoável. "Esta imposição violenta da austeridade na Grécia vai manchar de mais sangue ainda as mãos da classe financeira da UE", disse.

Como escreveu o ministro das Finanças grego Yanis Varoufakis no Twitter, no fim de semana, o principal agora é assegurar que o povo da Grécia – aqueles que já se sacrificaram demais no altar da austeridade imposta e que serão os mais impactados pela aceitação ou rejeição do acordo – possa participar da decisão. Em seguida ao anúncio do referendo, ele afirmou, também no Twitter:

“A democracia merecia um impulso nos assuntos referentes à Europa. Acabamos de dá-lo. Deixemos o povo decidir. (Engraçado como este conceito soa radical!)”.

Mais tarde, em um post em seu blog, Varoufakis descreveu o que aconteceu no sábado, na reunião da Comissão Europeia:

A reunião do Eurogrupo de 27 de junho de 2015 não será um momento de orgulho na história da Europa. Os Ministros rejeitaram o pedido do governo grego para que o povo grego tenha direito a uma única semana para responder “sim” ou “não” às propostas das instituições – propostas cruciais para o futuro da Grécia na zona do euro. A própria ideia de que um governo consultaria o povo sobre uma proposta problemática apresentada pelas instituições foi tratada com incompreensão e muitas vezes com desdém, beirando o desprezo. Chegaram a me perguntar: "Como você espera que pessoas comuns compreendam questões tão complexas?". De fato, a democracia não teve um bom dia na reunião do Eurogrupo ontem! Nem as instituições europeias. Após a rejeição ao nosso pedido, o Presidente do Eurogrupo rompeu a convenção da unanimidade (emitindo um comunicado sem o meu consentimento) e tomou a decisão questionável de convocar uma reunião de acompanhamento sem o ministro grego, supostamente para discutir os "próximos passos".

Democracia e união monetária podem coexistir? Ou uma delas deve capitular? Esta é a pergunta fundamental que o Eurogrupo respondeu ao colocar a democracia na lista de tarefas impossíveis. Não para nós, esperamos.

Com a subida das tensões e o temor de um pânico financeiro, no entanto, não são apenas os dirigentes do Syriza que afirmam que os eleitores gregos estariam certos em rejeitar a continuação da austeridade imposta pela Troika, mesmo se for preciso deixar a moeda única da zona euro.

Em sua coluna no NY Times, na segunda-feira, Krugman deu três razões para a Grécia votar "não" ao acordo:

Em primeiro lugar, sabemos agora que uma austeridade cada vez mais rígida é um beco sem saída: depois de cinco anos, a Grécia está pior do que nunca. Em segundo lugar, muito do tão temido caos que representaria a saída da zona do euro já aconteceu. Com bancos fechados e controle de capital, não há muitos outros danos possíveis.

Finalmente, aceitar o ultimato da Troika representaria o abandono definitivo de qualquer pretensão de independência grega. Não se deixem levar por alegações de que os representantes da Troika são apenas tecnocratas explicando aos gregos ignorantes o que deve ser feito. Estes supostos tecnocratas têm se mostrado delirantes, ignorando tudo o que conhecemos de macroeconomia, e têm se provado repetidamente equivocados. Não se trata de análise, mas de poder – o poder dos credores de desligar os aparelhos que manteriam viva a economia grega, um poder que vai durar enquanto a saída do euro for considerada impensável.

Então é hora de tornar esta possibilidade pensável. Caso contrário, a Grécia enfrentará uma austeridade e uma depressão sem fim.

Costas Panayotakis, professor associado de sociologia na City University of New York, fez a mesma argumentação na segunda-feira. "Desde sua eleição, em janeiro, o Governo grego, na tentativa de chegar a um acordo, tem feito muitas concessões à agenda de austeridade da zona do euro", explicou. "O fato de os parceiros europeus da Grécia, no decurso das negociações, terem sempre pedido mais, sugere que eles talvez não desejassem de fato um acordo, mas esmagar o único governo europeu com a audácia de criticar abertamente o consenso neoliberal. A resposta europeia ao anúncio de um referendo também expõe a antiga aversão das elites econômicas e políticas europeias aos processos democráticos que permitem ao povo europeu ter voz quanto ao futuro do projeto europeu”.

Enquanto isso, o correspondente do The Guardian Jon Henley conversou com alguns dos gregos mais afetados pelos muitos anos de ruína financeira. Como Henley relata:

Após sete anos de uma crise que deixou 26% da força de trabalho da Grécia sem emprego, 30% da população abaixo da linha de pobreza, 17% sem meios de fazer três refeições por dia, e 3,1 milhões de pessoas sem acesso ao sistema de saúde, é difícil ver como qualquer decisão tomada em Bruxelas ou Atenas na próxima semana poderá mudar de fato a vida de um grande número de gregos num futuro próximo.

“Quem já estava na margem foi empurrado para bem longe do sistema, e quem estava no meio foi empurrado para as margens", disse Ioanna Pertsinidou, do Praksis, uma instituição de caridade que acolhe pessoas vulneráveis %u20B%u20Be oferece assistência jurídica e auxilia na busca de emprego.

"Tantas pessoas – comuns, de renda média a baixa, que tinham empregos, casas e vidas organizadas – perderam tudo rapidamente", disse Pertsinidou. "Pessoas que nunca imaginariam que um dia não poderiam pagar a conta de luz ou alimentar seus filhos”.


Tradução de Clarisse Meireles