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sexta-feira, 18 de julho de 2014

URUGUAI - Lucia e Pepe Mujica.


12/07/2014 - Copyleft

Lucia e Pepe Mujica, amor e guerrilha

Como dois guerrilheiros tupamaros, que nem sabiam os nomes recíprocos, mantiveram, por doze anos, um romance nas masmorras da ditadura uruguaia.


Victor Farinelli, na Rede LatinAmérica
Arquivo
Ana, quando voltou a ser Lucía Topolansky, e Ulpiano, quando voltou a chamar-se Pepe Mujica. Na foto, o recomeço, quando vendiam flores no mercado de Montevidéu.

 
Primavera de 1973. Ela não se chamava Ana, mas era assim que todos a conheciam. Ana, a guerrilheira, detida numa prisão militar feminina, construída especialmente para mulheres da guerrilha tupamara, nalgum lugar desconhecido no interior do Uruguai, com uma carta na mão, que era de Emiliano, ou Ulpiano, ou seja lá qual fosse o seu verdadeiro nome.

 
Em junho daquele ano, o fim do MLN-T (Movimento de Libertação Nacional, também conhecido como Tupamaros), foi um dos episódios que marcou o início da ditadura uruguaia, e levou centenas de jovens revolucionários à prisão, quinze deles como reféns de guerra. Ulpiano era um deles. Se os tupamaros ainda livres voltassem a atuar, ele seria fuzilado.

 
Um torturador pontapeia as grades da cela, enquanto ri jocosamente e relembra as últimas humilhações, de diferentes tipos, que a fez sofrer. Ana continua a ler a carta. Ele insiste: "és a nossa preferida, bebê. Vais ficar aqui milhares de anos".

 
A raiva fá-la apertar o papel nas suas mãos até quase rasgá-lo: "olha, daqui a doze anos eu vou sair daqui e viver a minha vida. Você viverá com o fantasma dessas perversões, atormentando até ao dia da sua morte".

 
Enquanto ele aumentava o volume das gargalhadas, Ana buscava algo onde escrever uma resposta. Precisava contar a sua verdade, que o seu nome não era Ana, que era filha de uma família de classe média de Pocitos, bairro nobre de Montevidéu. Tinha uma irmã gémea, tinha uma família enorme, sofria pelas saudades e pelo medo, mas não medo da morte, era o único medo que não tinha, pois bastava-lhe a certeza de sair dali e para se encontrar com ele.

 
(Lucía Topolansky)
 
Dias depois, o seu advogado forneceu-lhe papel, caneta e a grande coincidência das suas vidas. Ele era casado com a advogada de Ulpiano. Os dois nada podiam fazer pelos dois guerrilheiros. Livrá-los da prisão no meio a uma ditadura era impensável. Mas puderam ser um casal de carteiros, trabalhando por um amor que lutava para sobreviver.

 
Dois prisioneiros a viver um típico amor tupamaro. O MLN surgiu em meados dos anos 60, fundado por um grupo de estudantes socialistas que queriam fazer a revolução no Uruguai. Diferente das guerrilhas urbanas de outros países, os tupamaros começaram a atuar antes de instalada a ditadura. A vida na clandestinidade impedia que houvesse relações fora da organização e não se podia saber o verdadeiro nome da pessoa amada. O amor deles nasceu quando ela se chamava Ana e ele Ulpiano, e não importava a verdade.

 
Amor que nasceu com um passo para fora da prisão. Ela, uma estudante de arquitetura com talento para a falsificação de documentos, fazia-lhe uma identidade falsa, e assim se conheceram. Ana tinha um namorado que também era do MLN, chamava-se Blanco Katrás, que meses depois seria capturado junto com ela. Ana só passou alguns meses na cadeia, mas Blanco seria executado pela polícia uruguaia. “Não era o primeiro namorado que eu perdia naquelas condições, e naquela altura, já tinha visto muitos outros companheiros morrerem. Não há tempo para sentir pena quando é preciso salvar a própria pele”, pensava Ana, libertada em 1972, antes de encontrar refúgio na mesma taberna em que estava escondido Ulpiano – na época, um dos homens mais procurados do país.

 
A caça aos tupamaros no Uruguai passou a ser mais intensa nos anos 70, com a ajuda dos Estados Unidos. Os tupamaros sequestraram e assassinaram um agente do FBI, em agosto de 1970 (Dan Mitrione, que anos antes esteve no Brasil, ensinando técnicas de tortura aos militares). Ulpiano era acusado de fazer parte dessa operação – que é narrada pelo filme “Estado de Sítio”, de Costa Gravas.

 
Ninguém sabe se foi aí, no ocaso do movimento tupamaro, quando viviam de taberna em taberna pelos bairros do centro velho de Montevidéu, que começou a história de amor de Ana e Ulpiano. “Eles passaram a andar juntos na época mais dura, quando nem sempre havia um teto. Às vezes, era preciso dormir em pântanos fora do perímetro urbano da cidade. Talvez a relação, digamos, física, não tenha começado nessa época, mas com certeza o carinho mútuo sim”, relata Henry Engler, um ex-tupamaro, amigo pessoal de Ulpiano.

 
O pouco que se sabe sobre o começo da relação é que eles se tornaram imprescindíveis um para o outro nesses últimos meses do MLN, antes do fim definitivo da organização, em junho de 1973. Ambos foram presos. Ana foi levada a uma prisão de mulheres. Ulpiano tornou-se refém, ficava numa solitária, sob ameaça de morte se algum ex-companheiro voltasse a atuar1.

 
Tentaram trocar correspondências entre si para sobreviver, com a ajuda dos advogados-carteiros. Ela se confessou, disse que se chamava Lucía, Lucía Topolansky, e que sonhava em sair dali e encontrá-lo. Ele respondeu com a sua própria revelação: “o meu nome é José Alberto Mujica”.

 
A carta-desabafo de Pepe Mujica, ex-Ulpiano, era a mais bela carta de amor de todos os tempos, segundo as companheiras de presídio de Lucía – “era toda sentimentalona, como todas as coisas do Pepe”, segundo María Elia Topolansky, irmã gémea de Lucía, também ex-tupamara. Passou por todas as mãos e fez sucesso até entre os carcereiros – “naqueles anos, cada carta que chegava era para todas”, conta Lucía, sobre a falta de ciúmes com o bilhete.

 
(José Mujica)
 
Diz a lenda que a ternura das palavras de Mujica amoleceu as restrições que havia para correspondência entre presos, e assim eles puderam trocar mais cartas que os demais casais tupamaros separados entre prisões.

 
Essa situação durou exatamente os doze anos que Lucía deu de prazo ao seu torturador, até que o seu amor renasceu como na primeira vez, com um passo para fora da prisão. No dia 14 de março de 1985, ela e a irmã gémea saíram da cadeira e foram para a enorme casa da família – no mesmo dia em que Pepe foi libertado, depois de onze anos na solitária, “conversando com os ratos e agarrado na esperança”, segundo ele mesmo. “No dia seguinte, Lucía foi-se embora, foi morar com o Pepe, e nunca mais voltou”, conta María Elia Topolansky.

 
Desde então, vivem juntos numa quinta de um bairro de classe baixa, na periferia de Montevidéu. Começaram por cultivar flores e vendê-las no mercado municipal, mas sem esquecer os ideais políticos. Pepe candidatou-se e foi eleito deputado em 1995. Em 2000, passou a ser senador, e Lucía deputada. Em 2005, ela foi eleita senadora, e nesse mesmo momento, trinta anos depois do começo da relação, vinte anos depois de começarem a viver juntos, decidiram formalizar o matrimónio. Cinco anos antes de Pepe assumir como presidente do Uruguai.

_______________

 
A melhor forma de mergulhar na história de amor de Pepe Mujica e Lucía Topolansky, e também na história dos Tupamaros, é mergulhar na história dela. Por isso os jornalistas e historiadores uruguaios Nelson Caula Alberto Silva escreveram o livro “Ana, La Guerrillera”, que traz detalhes de tudo o que se contou neste tópico e muito mais episódios sobre a criação do MLN, a vida na clandestinidade e a disputa política que levou o Uruguai à sua mais recente ditadura.

 
Publicado originalmente pela Rede LatinAmérica.

 
Reproduzido de Outras Palavras

 

1Depois do golpe de Estado de 27 de junho de 1973, os militares mantiveram na prisão os dirigentes tupamaros Raúl Sendic, Eleuterio Fernández Huidobro, Mauricio Rosencof, José Mujica, Adolfo Wasem, Julio Marenales, Henry Engler, Jorge Manera e Jorge Zabalza, na qualidade de reféns e como troféus de guerra durante todo o tempo que durou a ditadura, quer dizer, até 1985. Os dirigentes tupamaros ficaram reclusos em condições sub-humanas de contínua tortura, em quase total incomunicação (comprovadas posteriormente por organismos como a Cruz Vermelha Internacional) e sob a ameaça de serem executados se houvesse alguma ação do MLN-T, qualquer que fosse.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

URUGUAI - A terra uruguaia será para uruguaios.

A terra uruguaia será para uruguaios

Um projeto de lei, de sete artigos, que foi aprovado na segunda-feira na Câmara de Representantes e é inspirado em sua argumentação na legislação similar impulsionada na Argentina, contou com o apoio de todos os partidos.
 
Fonte: http://bit.ly/1n030IY  
A reportagem está publicada no jornal argentino Página/12, 03-07-2014. A tradução é de André Langer.
Quase por unanimidade dos legisladores, 62 de 63, a Câmara baixa aprovou na terça-feira à noite o projeto de lei que proíbe a compra e propriedade de terra para fins de exploração agropecuária por empresas estrangeiras ou instaladas no país das quais participe direta ou indiretamente um Estado estrangeiro. O único voto contrário foi do deputado Juan Angel Vázquez, do Vamos Uruguai, mas que, quando foi consultado pelo jornal uruguaio La República para justificar seu voto, confessou que estava de acordo com o projeto de lei do governo.
O projeto que agora passou para o Senado para sua sanção definitiva inspira-se em regulamentações similares de outros países em que se limita a área de terras como em legislações da Nova Zelândia, Brasil, Argentina e Austrália. O projeto declara em seu artigo 1º que “é do interesse geral a preservação e defesa da plena soberania do Estado uruguaio em relação aos recursos naturais em geral e em particular à terra”. A iniciativa, de sete artigos, que foi aprovada na segunda-feira na Câmara de Representantes e é inspirada em sua argumentação na legislação similar impulsionada na Argentina, contou com o apoio de todos os partidos.
Nos argumentos do texto ressalta-se a lei argentina Nº 26.737, promulgada em dezembro de 2011, que estabelece um “regime de proteção ao domínio nacional”, na Argentina, e “limita a titularidade do domínio ou posse de terras por parte de pessoas estrangeiras, físicas ou jurídicas, das terras a 15% do território nacional” argentino, entre outras menções.
Na exposição de motivos, o texto também aduz que, em função da importância econômica do fator terra para o Uruguai, o Estado tem a responsabilidade de garantir a soberania e um impacto positivo das atividades produtivas no bem-estar dos uruguaios. Para a situação, é preciso consolidar a soberania nacional e defender um recurso natural como o solo, cobiçado por empresas e países, principalmente para a produção de alimentos.
Não é a primeira vez que o governo de José Mujica impulsiona uma lei de terras.
Em dezembro de 2011, o Congresso uruguaio aprovou uma lei para gravar os latifúndios. Essa lei, chamada de ICIR, prevê que quem tem de 2.000 a 5.000 hectares pagará oito dólares ao ano por cada unidade; quem possui de 5.000 a 10.000 hectares desembolsará 12 dólares, e quem for dono de extensões de terra maiores deverá pagar 16 dólares. Em todos os casos, o imposto aplica-se a terras com índice Coneat (utilizado para medir a fertilidade do solo) superior a 100 ou equivalente: assim, 3.000 hectares com índice 60 não pagariam, mas 1.500 hectares com índice Coneat 200, sim. Em sua exposição de motivos, o projeto sustenta que, em dólares correntes, o valor do hectare multiplicou-se por nove em 20 anos e que em dólares constantes multiplicou-se por quatro, e assinala que esta valorização da terra não se refletiu em nível fiscal.
O ICIR, mais conhecido como lei do agro ou imposto sobre a terra, permitirá arrecadar 60 milhões de dólares anuais, que serão destinados ao melhoramento do meio rural, com a construção de estradas, portos e vias férreas que deem acesso aos estabelecimentos industriais e comerciais nos Departamentos não relacionados aos grandes projetos viários. O objetivo dessa lei é frear a concentração da propriedade.
Um relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgado no Uruguai indica que nos países vizinhos houve alguns negócios mediante mecanismos diretos ou através de acordos com empresas privadas nos quais alguns governos asiáticos facilitam a operação em troca da entrega futura de alimentos.

sexta-feira, 28 de março de 2014

URUGUAI - Refugiados de Guantánamo.


Rafael Reis e Felipe Amorim | Montevidéu e São Paulo 

Como contrapartida para receber os "refugiados" no Uruguai, presidente pediu que Washington liberte os três cubanos que ainda estão presos nos EUA
Ao confirmar que o Uruguai abrigará cinco presos da base militar de Guantánamo na qualidade de "refugiados", o presidente José Pepe Mujica disse que a acolhida é uma "questão de direitos humanos". Após aceitar colaborar com Barack Obama, o mandatário assegurou que a polêmica prisão localizada dentro da ilha de Cuba "tem funcionado como uma verdadeira vergonha para a humanidade e muito mais vergonhoso para um país como os Estados Unidos".
"O Uruguai tem sido um país de refúgio. Para nós, é uma questão de princípios", disse Mujica, que, em seus tempos de líder guerrilheiro tupamaro, permaneceu preso pela ditadura uruguaia por 14 anos.
Embora tenha afirmado que não está colaborando por questões financeiras, Mujica pediu como contrapartida que Washington liberte os três presos cubanos que ainda estão sob custódia dos EUA, após terem sido presos, há mais de dez anos, enquanto atuavam como espiões para identificar organizações terroristas anticastristas na Flórida.
“Não fazemos por dinheiro ou conveniência material, mas não temos problema em dizer que pedimos, por favor, ao governo norte-americano que faça o possível, porque esses três prisioneiros cubanos que há muitos anos, muitos anos, estão ali, se busque a maneira de liberá-los. Porque também isso é uma vergonha”
Agência Efe

Cercado de jornalistas, Mujica dá explicações sobre sua decisão conceder abrigo a presos de Guantánamo

"Se quiserem formar um lar e trabalhar, que fiquem no país", explicou, durante seu programa semanal de rádio na emissora local M24 na última quinta-feira (20/03). Segundo Mujica, os cinco presos transferidos teriam que permanecer pelo menos dois anos dentro das fronteiras do país, mas não como uma imposição: "Seria um gesto voluntário deles [presos] para sair dessa situação de vergonha".
O ministro do Interior uruguaio, Eduardo Bonomi, afirmou hoje em uma entrevista para o diário La Republica que o governo já verificou os antecedentes dos prisioneiros e foi comprovado que “não existe risco ou perigo algum que habilite a implementação de cuidados especiais”.  Os prisioneiros seriam de nacionalidade síria e paquistanesa. O ministro também asseverou que Uruguai deverá proteger os futuros refugiados e dar as garantias necessárias que estão previstas nos convênios internacionais.
Herança a Obama
Na entrevista, Mujica ainda defendeu o colega norte-americano, dizendo que Obama herdou o problema de Guantánamo de administrações anteriores.
"Não se deve fazer novela, não há nenhum acordo. É um pedido por uma questão de direitos humanos. Mais de cem pessoas que estão presas há 13 anos. Não viram um juiz, não viram um promotor, e o presidente dos Estados Unidos quer tirar esse problema das costas. O Senado lhe exige 60 coisas, então pediu a um montão de países se podiam dar refúgio a alguns e eu lhe disse que sim", explicou Mujica à imprensa.
Carlos Latuff

Pesquisa indica que médicos violaram código de ética ao participar de torturas em Guantánamo

Em comunicado, a embaixada dos Estados Unidos no Uruguai disse que ainda não há acordo oficial com Montevidéu. Segundo o informe, a Casa Branca segue "consultando vários países da região" para acelerar o fechamento de Guantánamo. O Uruguai foi um dos primeiros procurados "devido a seu papel de liderança do presidente Mujica".
O fechamento da base militar de Guantánamo foi uma das principais bandeiras da corrida presidencial de 2008. Após ser eleito, reafirmou o compromisso de encerrar a prisão. Em abril do ano passado, em meio a uma greve de fome dos detentos — ainda há 155 pessoas sob custódia —, Obama disse que Guantánamo "não é necessária para manter os EUA seguros. É uma ferramenta de recrutamento para extremistas e precisa ser fechada". Um mês depois, a Casa Branca suspendeu a moratória de alguns países para transferir presos ao Iêmen e pediu ao Congresso que diminuísse as restrições.
Reação no Uruguai
A oposição no Uruguai realizou pelas redes sociais várias críticas à decisão do presidente Mujica. Em clima de campanha eleitoral — as eleições gerais estão marcadas para o mês de outubro —, o pré-candidato e senador pelo Partido Colorado, José Amorín Batlle, disse esperar que “Obama e os cinco presos de Guantánamo não tapem a inflação, a insegurança e a educação. Esses são os problemas reais do Uruguai”.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

URUGUAI - O presidente José Mujica.



O jardineiro uruguaio

Mauro Santayana
O New York Times publicou, no fim de semana, um perfil do presidente do Uruguai, José Mujica. Não é a primeira vez que seus hábitos modestíssimos ocupam alguns importantes jornais do mundo. Mais instigante do que o estranho chefe de Estado e de governo, que doa quase todos os seus subsídios presidenciais aos pobres, e que cultiva crisântemos, é o próprio Uruguai, que chegou a ser comparado com a Suíça nas primeiras décadas do século passado.
 Mujica, um exemplo
A comparação foi injusta para com o Uruguai, embora o país meridional tenha servido também de paraíso fiscal para os meliantes de sempre: lavadores de dinheiro e ladrões de recursos públicos dos países vizinhos.
O Uruguai se destacou, na América Latina, pela coragem de um grande presidente, José Battle y Ordoñez. Quando o continente se encontrava sob a influência reacionária da Igreja Católica, ainda em 1906, o presidente, que era homem da poderosa oligarquia uruguaia (seu pai foi presidente da República e a família continuou poderosa até recentemente), mandou retirar os crucifixos dos hospitais, promoveu a legislação que instituiu o divórcio, e proibiu a evocação de Deus e dos Evangelhos nos juramentos oficiais.
Mais ainda: determinou o sufrágio universal, reformou, ampliando-o, o sistema de ensino, na confessada e obstinada decisão de construir uma poderosa classe média. Em seu segundo mandato, de 1911 a 1915, Battle se declarou contra o imperialismo, estabeleceu o seguro desemprego, com a lei de compensação contra a falta de trabalho, ao mesmo tempo em que acabou com os grandes monopólios privados, estatizando-os.
UM PAÍS PRIVILEGIADO
O Uruguai era, e continua a ser, país privilegiado pela fertilidade de suas terras, o que o fez um dos maiores exportadores de carne e de lã do continente. A população sempre foi reduzida, e urbana: no campo só ficavam os vaqueiros e os cultivadores de trigo. Isso favoreceu a evolução do país, e contribuiu para que a sua sociedade fosse a menos desigual do continente, até a onda golpista dos anos 60 e 70 na nossa América Latina, promovida pelos norte-americanos, e a adesão ao neoliberalismo.
Com os recursos obtidos no comércio internacional, o Uruguai foi o pioneiro no mais exitoso sistema de bem-estar social do hemisfério. A aposentadoria era precoce para os trabalhadores mais sacrificados, fosse pelas condições físicas da atividade, fosse pela sua pressão psicológica (como os pilotos de aviões, por exemplo).
José Mujica talvez exagere em seus hábitos, ao desprezar a residência oficial dos chefes de Estado e mesmo, como fez, usá-la como abrigo para os moradores de rua, que o neoliberalismo está produzindo em seu país. Mas, com isso, ele – como de alguma forma já fizera seu antecessor, Tabarez Vázquez – despe o poder de seus ornamentos costumeiros. Constantino, o grande imperador, vestia roupas novas e cobertas de ouro, todos os dias. Mujica, o antigo guerrilheiro tupamaro, que passou 14 anos preso, não usa gravatas.
Ao receber, em sua casa (sem empregados domésticos) o repórter que o entrevistou, Mujica ofereceu-lhe um trago de cachaça uruguaia, enquanto demonstrava a sua cultura, citando Spinoza. Lembrou uma passagem de Dom Quixote e Sancho Pança, que, hóspedes de pastores de cabras, bebem vinho e comem cabrito assado, com seus anfitriões, e observou que os pastores são os homens mais pobres da Espanha.
“Provavelmente, por isso mesmo, sejam os mais ricos”, completou o presidente, que é contra a reeleição, e pretende voltar a plantar flores, quando seu mandato terminar.
(Do Blog do Santayana)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

URUGUAI - Jose Mujica

Aos 77 anos, o uruguaio José Mujica, presidente do Uruguai, é um ex-guerrilheiro tupamaro que passou 14 anos preso, a maioria durante a ditadura uruguaia (1973-1985). Ele vive em uma pequena chácara nos arredores de Montevidéu junto com sua esposa, a senadora Lucía Topolansky. Ali cultiva flores e hortaliças que vende nos mercados locais.


Quando não está realizando trabalhos oficiais, o chefe de Estado faz questão de dirigir o seu próprio carro, um fusca azul, de 1987, avaliado em pouco mais de US$ 1.000. Mujica dispensa empregados. Faz suas próprias compras no bairro onde vive e frequentemente é visto em restaurantes populares com seus colaboradores no entorno da sede do Governo, no centro de da capital uruguaia.


Seu salário, de US$ 12,5 mil mensais, não fica todo com ele. O presidente uruguaio fica com US$ 1.250 e doa 90% para a construção de casas populares. Segundo sua última declaração de renda, de abril passado, seu patrimônio e o de sua esposa somam cerca de US$ 212 mil. 

Eles possuem três terrenos, três tratores e dois carros de 1987."Se tenho poucas coisas, preciso de pouco para sustentá-las", disse recentemente em uma à BBC.



Por conta dessa vida frugal, Mujica é considerado 'o presidente mais pobre do mundo'. 

E agora é inspiração para um novo perfume. Martín Sastre pretende criar uma fragância com as flores que Mujica cultiva em sua chácara. Segundo o artista, as flores do presidente uruguaio guardam "a essência do autêntico luxo".



A ideia ainda não recebeu o sinal verde do presidente. Mas já tem até nome, "U from Uruguay", e anúncio publicitário. 

Sastre, artista audiovisual e diretor de cinema nascido em Montevidéu em 1976 e que mora em Madri, disse reconhecer Mujica como "ícone global por causa de sua filosofia de vida", por isso a intenção de criar o perfume.

Se o projeto for concretizado, a fragrância de "Pepe" (como o presidente é popularmente conhecido) seria vendida através de fundações públicas para arrecadar dinheiro e criar um fundo de fomento da produção artística.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

URUGUAI - Pesquisas dão vitória a Mujica.

O candidato da esquerda à Presidência do Uruguai, o senador José Mujica, tem a dianteira para o segundo turno que acontece no final deste mês, mostrou uma pesquisa divulgada ontem.

A notícia é do jornal Valor, 10-11-2009.

Mujica, um ex-guerrilheiro de 74 anos que é apoiado pelo governo do presidente Tabaré Vázquez, tem o apoio de 47% dos eleitores na votação de 29 de novembro, segundo uma pesquisa feita pela Interconsult. Ele recebeu 47,96% dos votos no primeiro turno, em 25 de outubro.

Pela oposição, 39,2% dos eleitores preferem o ex-presidente Luis Lacalle, de centro-direita. E 10,6% dos eleitores uruguaios ainda estão indecisos, mostrou a pesquisa do instituto Interconsult.

A pesquisa cobriu 800 residências entre 31 de outubro e 2 de novembro. Tem uma margem de erro de 3,3 pontos percentuais para mais ou para menos.

Segundo avaliou o especialista Juan Doyenart, da Interconsult, Lacalle deverá ficar "à frente no interior do país; enquanto Mujica mantém a maioria em Montevidéu com quase 56%".

Na última semana, duas pesquisas coincidiram sobre o favoritismo do senador da Frente Ampla, com 50% das intenções de voto, segundo a Equipos Mori, e 49%, de acordo com a Factum. As consultorias apontavam Lacalle com 42%.
Fonte:IHU