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quinta-feira, 18 de maio de 2017

GEOPOLÍTICA - Vem aí uma globalização à chinesa?

Vem aí uma globalização à chinesa?

Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He – como "emissário amistoso" – antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear.
“Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He, antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear”
Pequim lança Nova Rota da Seda, megaprojeto de infraestrutura que terá enorme impacto na Ásia e chegará à Europa Ocidental. Presidente Xi afirma que não se trata de neocolonialismo disfarçado
Por Pepe Escobar
O presidente Xi Jinping invoca heróis da dinastia Ming, estratégias geopolíticas de desenvolvimento e analogias com os gansos selvagens asiáticos para retratar a iniciativa chinesa Novas Rotas da Seda como nave madrinha de uma nova ordem mundial focada no comércio.
O presidente Xi Jinping usou o Fórum Internacional Nova Rota da Seda, de dois dias, em Pequim, para fixar a China como a nave madrinha de nova ordem mundial benigna, focada no comércio. Esse é, disse Xi, um “novo modelo de ganha-ganha e cooperação” que prevalecerá sobre a diplomacia dos canhões.
No início da conferência, a rede estatal chinesa Xinhua cuidou de esclarecer que a iniciativa – oficialmente chamada, antes, de “Um Cinturão, Uma Estrada” [ing. One Belt, One Road (OBOR)] e chamada agora “Iniciativa Cinturão e Estrada” [ing. Belt and Road (BRI)] — nada tinha de “neocolonialismo disfarçado”.
TEXTO-MEIO “A China não carece de estados fantoches” – disse Xinhua, repetindo, na essência, o que Xi disse em seu discurso histórico.
“A China quer partilhar sua experiência de desenvolvimento com o resto do mundo” – disse Xi –, “mas não intervirá nos assuntos internos de outros países, não trabalhará para exportar nosso sistema social e nosso modelo de desenvolvimento, nem forçará outros países a aceitá-los.”
O Comunicado que o Fórum distribuiu – um resumo dos pontos principais do discurso de Xi – registrava que as nações representadas em Pequim comprometiam-se a promover “cooperação prática por estradas, ferrovias, portos, vias marítimas e internas de transporte por água, aviação, oleodutos e gasodutos de energia, eletricidade e telecomunicações “.
170516-China
O Big Business também estava lá representado e, pelo que se diz, entusiasmadíssimo.
Jack Ma de Alibaba, tão comprometido com promover uma Plataforma eletrônica de Comércio Mundial, falou à mídia chinesa durante o Fórum e saudou o movimento da iniciativa BRI para “incluir jovens, mulheres, empresas pequenas e países em desenvolvimento.”
No último dia do Fórum, Pequim construiu até uma espécie de Nações Unidas da Nova Rota da Seda, no formato de uma Mesa Redonda de Líderes, com microfones igualmente abertos e acessíveis a todos. O evento foi ilustração elegante e cheia de estilo de como Xi deseja que o mundo veja a iniciativa chinesa.
“A intenção primária e mais alto objetivo da ‘Iniciativa Cinturão e Estrada'” é permitir que cada membro se associe ao processo de enfrentar os desafios econômicos globais, encontre novas oportunidades e motores de crescimento, alcance situação de ganha-ganha e continue a andar na direção de uma comunidade com destino coletivo” – disse Xi.
Xi elogiou o mestre da navegação da dinastia Ming, almirante Zheng He – como “emissário amistoso” – antes de oferecer uma metáfora da nova ordem comercial mundial que acabava de delinear.
“Os gansos-cisnes selvagens“, disse ele, de uma grande ave selvagem, rara, encontrada na Ásia, mas não na Europa” – voam muito longe e em plena segurança vencendo ventos e tempestades, porque voam em bandos e ajudam-se uns os outros, como equipe.”
Monte num cisne selvagem
Não há dúvidas de que as Novas Rotas da Seda encontrarão turbulência pela frente. No Fórum, a ministra de Economia e Energia da Alemanha, Brigitte Zypries, ameaçou não assinar o comunicado final, se não houvesse firmes garantias para livres concorrentes – sem favoritismos para empresas chinesas – relacionados a outros projetos futuros de OBOR/BRI.
Sim, mas… em termos de expansão/exploração/construção de ferrovias, quem poderia competir com a China?
Trens de carga partem já regularmente da China oriental e da China central, atravessando as estepes da Ásia Central e apontam pontualmente a milhares de quilômetros de distância em 17 dias, antes de chegar a Londres, Madrid, Duisburg ou Lyon. Partem lotados de produtos domésticos, roupas e peças de reposição de maquinário, e voltam com produtos químicos, vinhos e produtos para bebês.
É duas vezes mais rápido que o comércio por mar, ainda que um trem de carga carregue menos de 100 contêineres, comparados com os mais de 20 mil que viajam por navios cargueiros. Mas o que realmente interessa é que até aí é só a primeira perna de uma futura rede de ferrovias para trens de alta velocidade que ligarão o leste da China à Europa via a Ásia Central.
Estão previstas no plano de expansão também parcerias público-privadas. Por exemplo, o primeiro ramo da Ferrovia Rota da Seda, que liga Chongqing a Duisburg, foi promovida na verdade, há seis anos passado, não por políticas de Pequim, mas pela gigante Hewlett-Packard do Vale do Silício, para embarcar milhões de notebooks para a Europa, por trem.
Mas agora a política da China avança rapidamente por toda a Europa. No Fórum, a Europa Oriental estava pesadamente representada e a região está sendo ajudada por um fundo criado há três anos, para investir, inicialmente, US$10 bilhões de euros.
Ano passado, China Everbright comprou o aeroporto de Tirana, na Albânia. O China Exim Bank está financiando a construção de rodovias em Macedônia e Montenegro. Em 2014, China Road & Bridge Corporation construiu uma ponte sobre o rio Danúbio em Belgrado, a chamada “ponte da amizade sino-sérvia”, a maior parte da qual foi financiada pelo China Exim Bank.
E há a ferrovia de trens de alta velocidade entre Atenas e Budapeste, via Macedônia e Belgrado. O ramo crucial Budapeste-Belgrado – não liberado pela União Europeia – deve entrar em operação finalmente ainda esse ano.
Mais uma vez, a geoeconomia empurra a geopolítica. Ao investir num corredor do Mar Egeu até a Europa Central, Pequim estará estimulando ativamente o comércio a partir do famoso porto grego de Pireu, que na verdade já está sob controle chinês desde 2010.
E agora a batalha por soft power

Zhou Wenzhong, secretário-geral dos fóruns regionais de negócios de alto nível, o Boao Forum para Ásia, fala das Novas Rotas da Seda como “a resposta da China à globalização”. Mas é realmente mais que isso. É realmente a visão do novo mundo. Visão composta de tantas partes, todas em movimento constante, que até agora continua difícil de definir.
Xi usou o Fórum para tentar esclarecer o conceito, mas verdade é que só as condições e circunstâncias em campo definirão as diferentes estratégias no futuro. Incluirão, para cada projeto, coordenação política e de financiamento que tenham potência para empurrar a iniciativa além de um boom de infraestrutura.
O Fórum já deixou claro como atores muito significativos disputam posições. Já se observa surto de competição entre Hong Kong e Londres sobre quem será a fonte privilegiada de financiamento. Enquanto Hong Kong mantém-se como centro offshore número um do mundo para compensações em yuan, o chanceler britânico Philip Hammond já enfatiza que Londres continua a ser o principal centro financeiro do mundo, insuperável para prover as necessidades “de banking internacional” das Novas Rotas da Seda.
A revoada dos gansos-cisnes já começou. A próxima grande pergunta é com que ênfase as Novas Rotas da Seda reescreverão as regras do jogo do comércio global, sem agitar demais atores ultrassensíveis, como a Índia. Mas é bem aí que se insere o chip do soft power.
Agora, os gansos-cisnes de Pequim começam a trabalhar para seduzir o Sul Global e trazê-lo para uma parceria irresistível que transcende o mero comércio

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O avião russo e o mundo próximo à guerra.






Por Antonio Martins, no site Outras Palavras:

O fantasma de uma guerra global voltou a se manifestar esta manhã, quando dois aviões de caça turcos dispararam contra um bombardeiro russo, que atacava instalações militares do Califado Islâmico na Síria. O avião, que voava próximo à fronteira sírio-turca (há controvérsias sobre a localização exata) foi derrubado e destruído. Os dois pilotos ejetaram-se da cabine, mas foram capturados e mortos por terroristas. A Turquia integra a OTAN, aliança militar dirigida pelos EUA. É a primeira vez, desde os anos 1950, que ocorre uma escaramuça de tal natureza entre duas potências nucleares. Ainda não se sabe como reagirá Moscou (Vladimir Putin considerou-se “apunhalado pelas costas”), mas num mundo à beira de um ataque de nervos as consequências podem ser dramáticas. Por que a Turquia agiu deste modo? Quais podem ser os desdobramentos?Dois textos de Noam Chomsky, intelectual norte-americano dissidente, ajudam a explicar os motivos – e, ao fazê-lo, tornam o fato ainda mais dramático. O primeiro, ainda sem tradução em português, foi publicado ontem, na revista digital Alternet. A Turquia está se convertendo rapidamente num foco de grandes tensões, bem no centro de uma região tradicionalmente explosiva, explica o filósofo e linguista. Pressionado por oposição de esquerda e por uma situação geopolítica desconfortável, seu governo tenta manter-se com base em repressão interna e na busca de um inimigo externo. Seus serviços de segurança são acusados de cumplicidade no atentado a bomba que matou 99 manifestantes pela paz, em meados de outubro (a autoria direta foi reivindicada pelo ISIS). Mais recentemente, o presidente Recep Tayyip Erdogan voltou-se contra a liberdade de expressão.

Para reconquistar maioria parlamentar nas eleições de 1º de Novembro, Erdogan silenciou a imprensa opositora. Os prédios do grupo de comunicação Ikea – sedes de dois jornais (Bugun e Millet) e duas redes de TV – foram
invadidos pela polícia. O Estado assumiu o controle do grupo, demitiu 71 jornalistas e impôs nova linha editorial. No dia das eleições, ambos estamparam, em manchete, fotos do chefe de Estado, acompanhadas dos títulos “O presidente entre o povo” e “Turquia unida”. Após o pleito, dois jornalistas foram encarcerados e 30 processados, a pretexto de “insultar o presidente” e “fazer propaganda terrorista”. Na recente reunião do G-20, realizada na cidade turca de Antalya, dezenas de jornalistas locais foram barrados. Tudo isso, num país que os governos ocidentais rotulam como aliado democrático.

O descontrole de Erdogan deve-se, em parte, à situação delicada em que ele próprio colocou a Turquia, no cenário de um Oriente Médio em que o poder norte-americano declina. Aliado de Washington, o país foi pivô, desde 2011, do esforço norte-americano para usar a mão-de-gato do ISIS contra Bashar Assad, o presidente da Síria. Pela fronteira turco-síria, propositalmente escancarada, passaram milhares de fundamentalistas e enorme quantidade de material militar que alimentaram o terrorismo, relata Patrick Cockburn em
A origem do Estado islâmico – um livro indispensável sobre o tema.

Porém os EUA, perdidos num emaranhado de alianças contraditórias na região, precisaram atender também a outros interesses – o que deixou a Turquia em sinuca geopolítica. Há dois meses, quando Moscou aliou-se ao governo sírio e lançou sua aviação contra o ISIS, Washington viu seu poder ameaçado. Reagiu dando apoio militar às guerrilhas curdas. Quando o fez, contrariou Erdogan, que promove uma guerra implacável contra o possível surgimento de um Estado curdo. A situação do presidente turco tornou-se ainda mais delicada após os atentados de Paris. Erdogan teme que os Estados Unidos fortaleçam os curdos, ao ampliar o apoio militar que dão a eles.

O ataque ao avião russo é certamente uma provocação com objetivo de sacudir o tabuleiro. Erdogan tem instrumentos para tentar reconquistar os EUA. O New York Times 
especulou há pouco que, a pedido da Turquia, a OTAN realizará, ainda hoje, uma reunião de emergência. Washington estará dividida. Manterá o apoio militar aos curdos, correspondendo à pressão da opinião pública internacional para derrotar o ISIS? Ou cederá à Turquia, um aliado que não deseja abandonar, para que as ambições geopolíticas norte-americanas não se degradem ainda mais no Oriente Médio?

O segundo texto de Chomsky –
uma entrevista concedida em março último à revistaJacobine e já traduzida por Outras Palavras – enxerga o problema de uma perspectiva de mais longo prazo. O filósofo dissidente vê os EUA como um império decadente, que já não é capaz de construir hegemonia, porque tornou-se incapaz de satisfazer aliados ou neutralizar inimigos e agora age apenas segundo seus próprios interesses.

Foi esta condição declinante, explica Chomsky, que levou Washington a criar, no Oriente Médio, a situação ideal para formação do ISIS. Os EUA devastaram Iraque, Afeganistão e Líbia, em três guerras insanas. Estes países são exatamente, os santuários onde os fundamentalistas formam e treinam os terroristas que promoverão atentados como os que abalaram Paris.

Embora sempre esperançoso, Chomsky reconhece, na entrevista, que há razões para uma atitude mais cautelosa e alerta. Do contrário, frisa ele, “o mundo que estamos criando para nossos netos será cada vez mais ameaçador”.

domingo, 15 de novembro de 2015

GEOPOLÍTICA - O califado contra o resto do mundo.

O Califado contra o resto do mundo
      
Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?
Nos infindáveis realinhamentos geopolíticos do Médio Oriente, o Califado do Estado Islâmico (antes ISIS ou ISIL) parece ter assustado quase todos os envolvidos na política da região, o que os levou a uma aliança geopolítica de facto. De repente, encontramos o Irão e os Estados Unidos, os curdos (tanto na Síria quanto no Iraque) e Israel, a Turquia e o governo sírio de Bashar al-Assad, a Europa ocidental (Grã-Bretanha, França e Alemanha) e a Rússia, todos eles a procurar atingir de formas diferentes o mesmo objetivo: impedir a expansão e a própria consolidação do Califado.
Isto ainda não alterou significativamente outros pontos de conflito geopolítico, tais como Israel/Palestina e Ucrânia, mas certamente terá impacto neles. Todos estes atores perseguem, evidentemente, objetivos de médio prazo muito diferentes. No entanto, olhem o que aconteceu apenas na primeira metade de agosto.
Nuri al-Maliki foi afastado do cargo de primeiro-ministro do Iraque pelas pressões combinadas dos Estados Unidos, do Irão, do Grande Ayatollah Ali al-Sistani e dos curdos, principalmente por ter resistido a dar aos sunitas um papel significativo no governo iraquiano. E por que era isso tão importante? Porque, para todos estes atores, parecia ser a única forma de minar o Califado por dentro.
Os Estados Unidos comprometeram-se a envolver os seus drones e uma nova força de cerca de 1000 marines e forças especiais para impedir o massacre dos yazidis e dos cristãos iraquianos (uma operação que requer a assistência de facto de Bashar al-Assad), impedindo o avanço do Califado de Ebril – a capital curda iraquiana, onde há um consulado dos EUA e um número significativo de cidadãos norte-americanos – e outras coisas, provavelmente, que se descobrirão depois de um levantamento em curso no terreno. O presidente Barack Obama recusa-se a indicar uma data para o fim desta operação e por isso quase certamente deixará sem cumprimento a sua assinada promessa de uma retirada total do Iraque durante a sua Presidência.
O governo turco encerrou a fronteira aberta às forças anti-Assad na Turquia, que fora um elemento-chave da sua política para a Síria. O ex-senador Joseph Lieberman, conhecido falcão e defensor ardoroso das políticas israelitas, elogiou publicamente Obama pelo que acabou de fazer, ao mesmo tempo que os iranianos se abstinham de criticá-lo. Os sauditas, que parecem não conseguir decidir-se acerca da sua estratégia síria, resolveram aparentemente que o silêncio e o mistério são a melhor tática.
O que virá em seguida? E quem está a aproveitar-se deste realinhamento? A curto prazo, parece haver três óbvios vencedores. O primeiro é o próprio Califado. A reentrada dos Estados Unidos no conflito militar do Iraque permite que o Califado se apresente como uma força fundamental para desafiar o demónio incarnado, os Estados Unidos. Servirá para atrair muitos novos recrutas, especialmente do mundo ocidental. E pode-se esperar que tentará envolver-se em atividades hostis no interior dos Estados Unidos e na Europa ocidental. Esta vantagem de curto prazo irá evidentemente entrar em colapso se o Califado sofrer revezes militares pesados. Mas vai demorar algum tempo antes que isto ocorra, se é que vai acontecer. O exército do Califado parece ainda ser a força militar mais moralizada e treinada na região.
Um segundo grande vencedor é Bashar al-Assad. O apoio externo às forças anti-Assad foi sempre inferior a decisivo, e é provável que diminua mais ainda a curto prazo, à medida em que mais e mais opositores sírios se alinhem com o Califado.
O terceiro grande vencedor são os curdos, que consolidaram a sua posição no Iraque e melhoraram as suas relações com os curdos da Síria. Irão agora receber mais armas dos países ocidentais e possivelmente de outros, fortalecendo ainda mais as suas forças militares, os peshmerga.
Há derrotados evidentes? Um, suspeito, são os Estados Unidos. A menos que o Califado desmorone no futuro próximo (o que parece muito improvável), este esforço militar irá em breve expor uma vez mais os limites das capacidades militares dos EUA, bem como a inconsistência das suas posições públicas sobre o Iraque, a Palestina e a Ucrânia. E Obama terá perdido a oportunidade de proclamar a sua maior realização geopolítica. O povo dos Estados Unidos apoia o sucesso, não o pântano.
E há pelo menos três grupos cujo futuro imediato como vencedores ou derrotados ainda não é claro. Um é o Irão. Se os Estados Unidos e o Irão estão do mesmo lado no Iraque e no Afeganistão, podem os EUA rejeitar que haja algum compromisso com o Irão sobre a questão da energia nuclear? A posição iraniana nesta negociação saiu pelo menos reforçada.
Um segundo é o Hamas. Os israelitas já estão sob forte pressão internacional para reformular as suas posições em relação à Palestina. Esta ênfase sobre os perigos do Califado irão aumentar a pressão? Muito provavelmente, mas os israelitas vão procrastinar o máximo que puderem.
O terceiro é a Rússia. Enquanto escrevo este texto, o governo de Kiev resiste à entrada da camiões russos que Moscovo garante serem uma missão humanitária para ajudar os sitiados habitantes de Lugansk, cercada por tropas ucranianas que procuram obter a sua rendição pela fome. Será que isto é muito diferente dos esforços do Califado de forçar à rendição pela fome os yazidis que estão refugiados nas montanhas? Se os Estados Unidos e a Europa ocidental são a favor da ajuda humanitária num lugar, como podem ser contra no outro?
Vivemos tempos interessantes.
Immanuel Wallerstein
Comentário n.º 383, 15 de agosto de 2014
Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o Esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo e professor universitário norte-americano.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

AS APOSTAS GEOPOLÍTICAS NO ORIENTE MÉDIO.

"Gênios" e genocídio: Síria, Israel, Rússia e muito petróleo

As apostas geopolíticas no Oriente Médio acabam de subir uma ordem de magnitude. Misture uma pouco conhecida empresa de petróleo de Newark, no New Jersey, as disputadas colinas do Golan entre Síria e Israel, acrescente uma recém descoberta grande reserva de petróleo bem ali, exatamente quando a campanha de bombardeio russo em território sírio entra em altíssima rotação, agite bem, e aí está um potenCIAl detonador da 3ª Guerra Mundial.

Por F. William Engdahl



F. William EngdahlF. William Engdahl

IniCIAlmente – se se volta mais de uma década, até quando os think-tanks conservadores em Washington e o governo Bush-Cheney estavam concebendo a sua agenda de 'mudança de regime' para o Oriente Médio Expandido – gasodutos para gás natural para concorrer com os países da região através da Síria até a Turquia, ou via Líbano até o Mediterrâneo tiveram papel coadjuvante na guerra de Washington contra Assad da Síria. Agora, petróleo, muito, muito petróleo entram em cena, e Israel anda dizendo que pertence ao "Estado judeu". O único problema é que não pertence.

O petróleo está nas colinas do Golan, que Israel tomou ilegalmente, em assalto, da Síria, na Guerra dos Seis Dias em 1967.
Gênio em garrafa putrefata
O que têm em comum Dick Cheney, James Woolsey, Bill Richardson, Jacob Lord Rothschild, Rupert Murdoch, Larry Summers e Michael Steinhardt? Todos eles são membros do Conselho de Aconselhamento Estratégico de uma empresa de de gás e petróleo chamada Genie Energy, com sede em Newark, New Jersey. Toda uma coleção de
nomes.

Dick Cheney, antes de ser 'presidente-sombra' de George W. Bush em 2001, foi presidente executivo da maior empresa de serviços para campos de petróleo do mundo, a Halliburton, ligada à CIA, pelo que se diz, e também conectada à gangue da família Bush.

James Woolsey, neoconservador e ex-diretor da CIA no governo de Bill Clinton; é hoje presidente da "Fundação para Defesa das Democracias" (
Foundation for Defense of Democracies) think-tank neoconservador, e é membro do Instituto Washington para a Política do Oriente Médio (Institute for Near East Policy (WINEP)), que opera a favor do partido Likud de Israel. Foi membro do infame Projeto para um Novo Século Americano (Project for a New American Century (PNAC)), ao lado de Cheney, Don Rumsfeld e da escória dos neoconservadores que, adiante, constituíram o governo Bush-Cheney. Depois do 11/9/2001, Woolsey referia-se à Guerra ao Terror de Bush-Cheney como " IV Guerra Mundial " (a Guerra Fria seria a III GM).

Bill Richardson é ex-secretário de energia dos EUA.

Rupert Murdoch, proprietário de vasta rede de veículos de comunicação nos EUA e Reino Unido, dentre os quais o Wall Street Journal, é o maior financiador do neoconservador Weekly Standard de Bill Kristol, que financiou o PNAC.

Larry Summers foi secretário do Tesouro dos EUA e inventor propositor das leis que desregularam os bancos nos EUA, tirando-os do alcance da Lei Glass-Steagall de 1933. De fato, com esse movimento, abriram-se completamente as comportas da inundação que ficou conhecida como crise finanCIA-eira dos EUA de 2007-2015.

Michael Steinhardt, o especulador dos fundos hedge é filantropo amigo de Israel, de Marc Rich e membro também da Fundação para a Defesa das Democracias de Woolsey.

E Jacob Lord Rothschild é ex-parceiro comercial do oligarca (petróleo) russo Mikhail Khodorkovsky, já condenado. Antes de ser preso, Khodorkovsky transferiu secretamente suas ações na Yukos Oil para Rothschild. E Rothschild é dono de parte das ações da Genie Energy que, em 2013 recebeu direitos exclusivos para explorar o petróleo e o gás num raio de 153 milhas quadradas [quase 400 mil quilômetros quadrados] na parte sul das colinas do Golan, direitos que lhe foram outorgados pelo governo Netanyahu.

Para encurtar a conversa, a Genie Energy é empresa de deixar qualquer um
embasbacado.
Colinas do Golan e lei internacional
O governo de Israel deu a concessão à Genie, nas disputadas colinas do Golan em 2013, quando o processo liderado pelo EUA para desestabilizar o regime sírio do presidente Assad estava a pleno vapor. Convenientemente, no mesmo momento Israel também começou a construir fortificações que vedassem completamente o acesso da Síria às colinas do Golan ilegalmente invadidas e ocupadas, sabendo que pouco haveria que Assad ou a Síria pudessem fazer para impedir. Em 2013, com a Genie Energy já iniciando sua mudança para as colinas do Golan, engenheiros militares israelenses reforçaram a cerca de 45 milhas que acompanha a fronteira com a Síria, substituindo-a por uma barricada de aço que inclui arame farpado, sensores táteis, detectores de movimento, câmeras de infravermelho e radares no solo, construção que só se compara ao Muro que Israel construiu na
Cisjordânia.

E agora, quando Damasco luta pela vida, parece que, de repente, a Genie Energy encontrou enorme campo de petróleo exatamente ali..

Mas a ocupação israelense nas colinas do Golan é absolutamente ilegal. Em 1981, Israel fez aprovar uma "Lei das Colinas do Golan", que impõe "leis, jurisdição e poder de governo" de Israel também nas colinas do Golan. Reação a essa violência, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução n. 242, que declara que Israel tem de retirar-se de todas as terras sírias ocupadas na guerra de 1967, inclusive das
Colinas do Golan.

Novamente, em 2008, uma sessão da Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução n. 161-1, a favor de uma moção sobre as colinas do Golan que reafirmou a Resolução n. 497 do Conselho de Segurança, aprovada em 1981, depois de Israel ter feito o que se define por "anexação de facto; a Resolução n. 161-1 declarou a Lei das Colinas do Golan "nula, vácua e sem efeito legal internacional"; e convocou Israel a desistir de "modificar o caráter físico, a composição demográfica, a estrutura institucional e o status legal do Golan sírio ocupado, e, especialmente, a desistir de estabelecer colônias (...) e de impor a cidadania israelense e documentos de identidade israelenses aos cidadãos sírios no Golan sírio ocupado, e a cancelar todas as medidas repressivas contra a população do Golan sírio ocupado."

Israel foi a única nação a votar contra a resolução.

Em junho de 2007, o primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert enviou comunicado secreto ao presidente Bashar al-Assad, dizendo que Israel daria as colinas de Golan, em troca de um amplo acordo de paz e do rompimentos de quaisquer laços entre a Síria e o Irã, e entre a Síria e grupos militantes na região.


Genie 'comunica' grande descoberta
Dia 8 de outubro, na segunda semana dos ataques russos, a pedido do governo Assad, contra o ISIS e outros terroristas ditos "moderados", Yuval Bartov, geólogo chefe da subsidiária israelense da Genie Energy, Afek Oil & Gas, disse à Channel 2 TV que sua empresa havia descoberto enorme reserva de petróleo nas colinas do Golan: “Encontramos estrato de 350 metros de altura no sul das colinas do Golan. A média mundial da altura dos estratos é de 20-30 metros; e essa é dez vezes maior; por isso estamos falando de
quantidades significativas.”

Esse petróleo agora encontrado gás das colinas do Golan um "prêmio" estratégico que claramente está pondo o governo Netanyahu ainda mais determinado a semear o caos e a desordem em Damasco, e usá-los para criar uma ocupação israelense de facto irreversível do Golan e daquele petróleo todo. Um ministro do governo de coalizão de Netanyahu, Naftali Bennett, da Educação, ministro para as questões da diáspora, e líder do partido religioso de extrema direita O Lar Judeu, propôs que Israel, em cinco anos, implante 100 mil colonos israelenses nas colinas do Golan. Diz que com a Síria "em desintegração" depois de anos de guerra civil, é difícil imaginar algum estado estável ao qual as colinas do Golan possam ser devolvidas. Como se não bastasse, cresce em Telavive o coro dos que querem que Netanyahu exija dos EUA que reconheçam a anexação do Golan, em 1981, por Israel, como “salvaguarda adequada com vistas à segurança israelense, depois de assinado o acordo nuclear com o Irã”.

Guerras de energia sempre foram componente significativo da estratégia de EUA, Israel, Qatar, Turquia e, até recentemente, também da Arábia Saudita, contra o regime de Assad na Síria. Antes da recente descoberta de petróleo nas colinas do Golan, o foco contra Assad tinha a ver com grandes reservas de gás natural do Qatar e do Irã, como opostos e concorrentes do Golfo Persa, que incluem as maiores reservas de gás confirmadas, em todo o mundo, até hoje.

Em 2009, o governo do Qatar, hoje lar da Fraternidade Muçulmana e grande financiador do ISIS na Síria e Iraque, reuniu-se com Bashar al-Assad em Damasco.

O Qatar propôs a Bashar que a Síria assinasse acordo que permitisse a passagem por seu território de um gasoduto que sairia do enorme Campo Norte do Qatar, no Golfo Persa, adjacente à também enorme reserva Pars Sul, de gás iraniano. O gasoduto do Qatar passaria por Arábia Saudita, Jordânia, Síria até a Turquia, para abastecer mercados europeus. Mais cruCIAlmente importante: deixava a Rússia de fora.

Matéria da Agência France-Presse noticiava que Assad só se interessara por "proteger os interesses de seu aliado russo, principal fornecedor de gás natural para a Europa”.

Em 2010, Assad integrou-se às conversações com Irã e Iraque, para construir gasoduto alternativa, de $10 bilhões, que potencialmente permitiria ao Irã abastecer a Europa com o gás de seu campo Pars Sul nas águas iranianas do Golfo Persa. Os três países assinaram um Memorando de Entendimento em julho de 2012 – exatamente quando a guerra na Síria alastrava-se para
Damasco e Aleppo.



Agora, uma aparente descoberta de grandes volumes de petróleo, por empresa de New Jersey de cujo board participam o arquiteto da guerra do Iraque, Dick Cheney; o neoconservador e ex-CIA James Woolsey e Jacob Lord Rothschild, parceiro de negócios de um dos mais furiosos críticos de Vladimir Putin, Mikhail Khodorkovsky, eleva muito as apostas em torno da intervenção russa a pedido da Síria de Assad, contra os terroristas do ISIS, Al-Qaeda e outros "terroristas moderados" apoiados pela CIA – e dá-lhes nova dimensão geopolítica.

O golpe dos EUA na Ucrânia em 2014, o treinamento e o financiamento para o ISIS e outras gangues de terroristas "moderados" na Síria, todos têm um alvo primário – a Rússia e sua rede de aliados, rede a qual, ironicamente, as políticas de Washington e Israel só fazem ajudar a expandir quase de hora em hora.


*Frederick William Engdahl é historiador, pesquisador econômico e jornalista freelance. Autor de Seeds of Destruction; Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century; A Century of War: Anglo-American Oil Politics e the New World Order and Full Spectrum Dominance: Totalitarian Democracy in the New World Order.
**Traduzido por Coletivo de tradutores Vila Vudu

sábado, 17 de outubro de 2015

GEOPOLÍTICA - Suas implicações na Lava Jato.

As implicações geopolíticas da Lava Jato


"Na Lava Jato não foram poucas as demonstrações de desprezo em relação a projetos nacionais. O grupo de procuradores que visitou os Estados Unidos forneceu elementos para que a Justiça e acionistas norte-americanos processassem a Petrobras", escreve Luis Nassif, jornalista, em artigo publicado por Jornal GGN, 15-10-2015.


Eis o artigo.


Desde o nascimento da economia como ciência, os países se dividiram em duas linhas bastante nítidas de política econômica: uma internacionalista, com predominância do grande capital; outra desenvolvimentista, das forças locais em torno de projetos nacionais.
Vem sendo assim desde os pioneiros norte-americanos e do momento em que o então Secretário do Tesouro Hamilton, em 1792, apresentou o "Report of Manufactures", o primeiro projeto de defesa das manufaturas norte-americanas, em reação ao protecionismo que havia na Europa.
No caso da América Latina, aos primeiros impulsos industrializantes de Getúlio Vargas seguiu-se uma escola de pensamento abrigada na Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) tendo como principais ideólogos o argentino Raul Prebisch, o chileno Aníbal Pinto e o brasileiro Celso Furtado, trabalhando os conceitos de industrialização autônoma.

O avanço geral das investigações contra o crime organizado, os tratados de cooperação internacional e a possibilidade de rastrear contas nos paraísos fiscais representam notáveis avanços na luta contra a corrupção.

Mas colocam na disputa capital financeiro x desenvolvimentistas um novo e imprevisto ator: as autoridades investigadoras, Polícia Federal e Ministério Público agora reunidas em acordos internacionais de cooperação.

As formas do capital financeiro se apropriar das políticas públicas é através de privatizações ou de operações no mercado financeiro e de capitais – especialmente aquelas envolvendo títulos públicos e políticas cambiais.

Essas operações estão sujeitas aos crimes de “insiders” (vazamentos de informação), informações privilegiadas sobre movimentos do Banco Central com câmbio ou títulos públicos permitindo ganhos de bilhões em poucos segundos.
Outros tipos de operação são institucionalizados – como a combinação de juros altos-câmbio apreciados ou de swaps cambiais que representam enormes transferências de ganhos para capitais financeiros. Não há um ganhador específico, mas todo um setor que ganha em cima dessas formulações respaldado em teorias supostamente científicas.

Já as políticas desenvolvimentistas permitem o poder de arbítrio, a escolha dos setores vencedores ou dos chamados “campeões nacionais”. Por isso mesmo, demandam muito estudo técnico e o máximo possível de regras claras e impessoais. Mesmo porque é facílimo identificar o beneficiário, o poder concedente e os
financiamentos de campanha – no caixa 1 e 2.

Por um conjunto de circunstâncias, operações contra jogadas financeiras – Satiagraha, CPI do Banestado – foram abortadas por pressões de governos (FHC e Lula) e da mídia.

Já a Lava Jato, contra as jogadas com contratos públicos – prosperou.
Mais que isso, trouxe da Operação Mãos Limpas a visão ideológica pró-internacionalização da economia e criminalizadora de todas as políticas de promoção da economia interna.
Não se tratou de nenhuma preferência ideológica prévia, mas do desenvolvimento de conceitos e pré-conceitos a partir das análises das relações de fornecedores com governos.
Na Mãos Limpas, a força tarefa identificou na economia fechada italiana a raiz da corrupção. Considerava que a abertura econômica, com a expansão da União Europeia, trouxe a competição que desnudou as jogadas. E imaginava que o sistema político corrupto era fruto da guerra fria, da polarização esquerda-direita, forma simplória de descrever a disputa mercado x social democracia.
Para os novos tempos – pensavam os Mani Puliti – haveria que ter novos partidos com novos conceitos. Veio Silvio Berlusconi cavalgando o poder da mídia, impulsionada pela parceria com a Mãos Limpas.

Na Lava Jato não foram poucas as demonstrações de desprezo em relação a projetos nacionais. O grupo de procuradores que visitou os Estados Unidos – comandados pelo próprio Procurador Geral da República – forneceu elementos para que a Justiça e acionistas norte-americanos processassem a Petrobras.

Em todos os demais casos, empresas eram acusadas de corromper autoridades públicas atrás de bons contratos – da IBM à Siemens. No caso da Petrobras, os próprios procuradores transformaram a empresa de vítima em coautora das fraudes, advogando contra o próprio Estado brasileiro em favor dos interesses de acionistas norte-americanos.

Não se minimize os interesses de Estado, especialmente a influência norte-americana, nessa nova ordem global contra a corrupção.

A ofensiva contra a Eletronorte e o Almirante Othon – pai da indústria nuclear brasileira – começou a partir de informações repassadas ao PGR pelo Departamento de Justiça norte-americano. Nada que minimize a gravidade das acusações, mas uma demonstração inequívoca de que os Estados Unidos passaram a incluir a cooperação internacional em suas estratégias geopolíticas.
O mesmo ocorre com as tentativas de procuradores e delegados em criminalizar ações de promoção comercial na África, concessão de financiamentos à exportação de serviços. Ou do Procurador da República no TCU decretar, por conta própria, a inviabilidade do pré-sal. Aí, não se trata mais de repressão ao crime, mas de atuação nitidamente inspirada por contendores externos de disputas geopolíticas.

Para o bem ou para o mal, a Lava Jato obrigará a uma revisão de todos os conceitos de políticas públicas pró-ativas. Na Itália, o estrago produzido pela Mãos Limpas e a ascensão de Berlusconi matou o dinamismo da economia nacional. Provavelmente, a maior culpa foi a demora do sistema político italiano assimilar a nova ordem.

O mesmo se passará no Brasil.
Qualquer tentativa de protagonismo público na economia exigirá a montagem de sistemas impessoais de análises, implementação e controles. Ou se aprofundam as políticas participativas ou se entregue o Ministério do Planejamento e o Itamaraty aos doutos procuradores da Lava Jato.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

GEOPOLÍTICA - A perseguição ao Wikileaks.

Por que Washington precisa perseguir o Wikileaks

Síria, Honduras, Venezuela: a política americana deixou de ser segredo de estado e nos revelou que os Estados Unidos não mudaram suas táticas golpistas.


Mark Weisbrot, tradução de Inês Castilho para o Outras Palavras
Pete Souza
Parte das informações históricas mais importantes para a compreensão de eventos atuais vem, não por coincidência, de fontes que previa-se estarem ocultas das sociedades. De novembro de 2010 a setembro de 2011, mais de 250 mil comunicações entre diplomatas norte-americanos, que nunca deveriam vir à luz do dia, foram tornadas públicas. Elas estão disponíveis no WikiLeaks, a organização de mídia sem fins lucrativos que aceita informação confidencial de fontes anônimas e as divulga para fontes jornalísticas e para o público. Alguns pesquisadores reuniram um tesouro de informações e análises que pode ser imensamente esclarecedor. (O livro recém-lançado a partir dessa pesquisa, publicado pela editora londrina Verso, é Wikileaks files: The World according to US Empire [Os Arquivos do Wikileaks: o Mundo egundo o Império dos EUA, ainda sem edição em português].

Considere a Síria, hoje no centro do noticiário internacional por causa da crescente intervenção militar russa, assim como a onda de meio milhão de refugiados da região chegando à Europa. Por que passou tanto tempo até que Washington começasse – sim, infelizmente está apenas começando – a reconsiderar a política de exigir que o presidente Bashar al-Assad renuncie, antes que aconteçam negociações significativas de paz? Qualquer diplomata poderia ter dito à Casa Branca que exigir o suicídio político de uma das partes envolvidas numa guerra civil, como condição para as negociações, não ajuda a acabar com o fim do conflito. Em termos práticos, esta política é um compromisso com a guerra sem fim.

A resposta pode ser encontrada em comunicações diplomáticas divulgadas pelo WikiLeaks, que revelam que a mudança de regime na Síria tem sido a política do governo norte-americano desde 2006. E evidenciam, ainda pior – depois de centenas de milhares de mortos, incontáveis vidas em ruínas e mais de 4 milhões de refugiados que fogem do país – que Washington mantém uma política de promoção da guerra sectária no país com o objetivo de desestabilizar o governo Assad. Uma mensagem do principal diplomata dos EUA (o chargé d’affaires) em Damasco, em dezembro de 2006 oferece sugestões sobre como Washington podia exacerbar certas “vulnerabilidades” do governo da Síria e tirar vantagem delas. Vulnerabilidades a ser exploradas incluem “a presença de extremistas islâmicos em trânsito” e “medo sunita da influência iraniana”.

Ao descrever essa estratégia em “Os Arquivos WikiLeaks”, o cientista político  Robert Naiman escreve:

Naquele tempo, ninguém no governo dos EUA podia alegar inocência sobre as possíveis implicações de tal política. Esta mensagem foi escrita no auge da guerra civil sectária entre sunitas e xiitas no Iraque, que os militares dos EUA tentavam sem sucesso conter. O desconforto do público norte-americano com a guerra civil sectária no Iraque, desencadeada pela invasão dos EUA, acabava de custar aos republicanos o controle do Congresso, nas eleições de novembro de 2006. O resultado do pleito precipitou, de imediato, a demissão de Donald Rumsfeld como secretário de Defesa. Ninguém trabalhando para o governo dos Estados Unidos na política externa, naquele momento, podia ignorar as implicações de promover o sectarismo entre sunitas e xiitas.

As mensagens revelam também que o apoio aos esforços para derrubar o governo sírio, iniciados em 2011, não eram uma resposta à repressão do governo Assad contra os protestos, mas antes a continuação de uma estratégia de anos, executada por meios mais violentos. Elas explicam por que o governo dos EUA podia empolgar-se tanto com os protestos e depois com a luta armada que ajudara a promover, chegando a ignorar o que um grande número de sírios pensava: independentemente de sua própria visão sobre Assad, bastava enxergar o caos no Iraque (mesmo antes do surgimento do ISIS) para perceber que um destino muito pior para o seu país era possível.

Aquele cenário se materializou. Com centenas de milhares de pessoas mortas e um impasse militar, ambos facilmente previsíveis, finalmente o governo de Barack Obama está mostrando alguma flexibilidade em torno de negociações significativas — um movimento fortemente encorajado por muitos democratas da Câmara. Por que isso não poderia ter acontecido antes?

Relatórios de diplomatas dos EUA na América Latina jogam muita luz na política norte-americana também nesta região. Eles mostram um padrão consistente não somente de hostilidade mas de ação contra governos de esquerda — Bolívia, Equador, Honduras, Venezuela e outros. As mensagens veem a Venezuela como tão influente que é quase como se estivessem falando de uma nova União Soviética a ser contida. Esboçado em 2006, um plano de cinco pontos para frear o sucesso político do presidente Hugo Chávez na Venezuela (morto de câncer em 2013), registrado em mensagem de William Brownfield, embaixador dos EUA no país à época, inclui “penetrar na base política do chavismo”, “dividir o chavismo” e “isolar Chávez internacionalmente.” Outros memorandos fornecem mais detalhes de como isso foi tentado. Por exemplo, a pressão dos Estados Unidos foi exercida sobre países tão pequenos e carentes como Haiti, Honduras e Jamaica, para que rejeitassem ajuda da Venezuela em petróleo, o que lhes permitiria economizar centenas de milhões de dólares.

As mensagens também mostram como Honduras, sob o governo do presidente Manuel Zelaya, tornou-se um Estado inimigo, ao aproximar-se de outros governos de esquerda. Zelaya foi derrubado pelos militares em 2009, e ficou claro desde o dia do golpe, quando o governo Obama emitiu uma declaração esclarecendo de que não se opunha ao fato, de que lado Washington estava. Aqui os telegramas do WikiLeaks respaldam o que poderia ser deduzido no momento pela informação pública.

Emails recentemente divulgados pela então Secretária de Estado Hillary Clinton fornecem detalhes sobre como o governo dos EUA ajudou a garantir que o presidente de Honduras, eleito democraticamente, não voltasse até que “eleições” – que quase toda a América Latina recusou-se a reconhecer – fossem realizadas sob o governo golpista.

Todos esses documentos, antes classificados como secretos, ajudam a explicar as intenções e estratégia do governo norta-americano atual, e quanta coerência interna elas mantiveram em tantas ocasiões e lugares – exceto no acordo histórico com o Irã. Na América Latina, esses documentos ajudam a entender por que os EUA ainda se recusam a aceitar um embaixador da Venezuela, mesmo depois de ter aceito um embaixador de Cuba. Essas políticas são consistentes entre si e com os últimos cinquenta anos das relações entre EUA e América Latina. Quem quer que esteja fazendo política internacional no governo Obama (não é assim tão transparente) está ainda calculando que na Venezuela a oposição pode ser melhor ajudada pela tentativa de deslegitimizar o governo, enquanto, em relação a Cuba, aposta-se na abertura de relações diplomáticas e de comércio com os EUA. Não se trata de negar o significado histórico e simbólico do restabelecimento de relações diplomáticas dos Estados Unidos com Cuba. Mas em ambos os casos, a meta se mantém a mesma: mudança do regime.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

GEOPOLÍTICA - A profecia de Kadhafi.

Se Cumpre a "Profecia" de Kadafi

terça-feira, 22 de setembro de 2015 |

Em março de 2011, Kadafi advertiu que sem um governo forte e estável na Líbia, não haveria ninguém para controlar o fluxo de imigrantes da África e Oriente Médio que tentariam fugir para a Europa.

"Há milhões de negros que poderiam chegar ao Mediterrâneo para cruzar a França e a Itália, e a Líbia desempenha um papel na segurança do Mediterrâneo", declarou Kadafi ao canal de televisão France 24.


Bem, a recente crise dos refugiados, demonstra que a profecia de Kadafi estava certa.


Mesmo assim, Saif, filho de Kadafi, que agora se encontra no corredor da morte esperando execução, ampliou a "profecia" de seu pai.

"A Líbia pode se tornar na Somália do Norte da África do Mediterrâneo. Veremos os piratas atacando a Sicília, Creta, Lampedusa. Vocês verão milhares de imigrantes ilegais. O terror está próximo".

Ninguém ouviu estas advertências e em vez disso, o Ocidente lançou uma intervenção militar para derrubar Kadafi.


As Primaveras Árabes, apoiadas pelo Ocidente e as intervenções militares lideradas pelos EUA em todo o Oriente Médio, são consideradas em grande parte os principais fatores que acabaram provocando o atual êxodo dos refugiados.

Agora começamos a sofrer algumas consequências, que por outro lado, eram facilmente previsíveis, o que nos leva a questionar: quando os EUA e seus aliados ocidentais irão instaurar esta ação? O que fizeram precisamente para provocar a situação atual?


Leia mais: http://www.anovaordemmundial.com/2015/09/se-cumpre-a-profecia-de-kadafi.html#ixzz3n9xQOd67

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

GEOPOLÍTICA - O mito da intervenção humanitária.

O mito da intervenção humanitária

Desde 2011 foram alocados cerca de US$ 16 bilhões em 'ajuda militar' para o conflito Sírio, abastecendo várias facções - inclusive o Estado Islâmico.


João Fernando Finazzi e Reginaldo Nasser
The U.S Army
A atual crise de refugiados volta a ficar na mira dos holofotes midiáticos e coloca novamente o tema na discussão sobre a responsabilidade que cabe à chamada “comunidade internacional” - seja em relação ao acolhimento das pessoas, seja em relação a sua causa: os conflitos que assolam o Oriente Médio (Síria e Iraque). No que se refere a essa ultima questão, os EUA e aliados europeus invocaram, recentemente, a linguagem da doutrina da "responsabilidade de proteger" para justificar o uso de força militar na Líbia a fim de prevenir um possível ataque aos civis. Ora, questionam os entusiastas da intervenção militar, inclusive por aqueles que estão realmente comprometidos com a proteção da população civil, por que deveríamos estar satisfeitos com medidas paliativas diante de uma grave crise humanitária? Mesmo com todos os problemas decorrentes de uma ação militar, não seria mais desastrosa uma atitude de passividade em que se encontra a comunidade internacional?

Desde o início da década de 90 fortaleceu-se a ideia de que é preciso intervir militarmente nos cenários de conflitos armados dentro dos países, invocando como justificativa os mais nobres objetivos, como a proteção dos direitos humanos de uma população que já não pode contar com a segurança de seu Estado. "Responsabilidade de Proteger" foi uma "norma" internacional proposta pelo Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, na sequência do genocídio em Ruanda, em 1994, e os assassinatos em massa na Bósnia. O termo fundamentava-se na obrigação que a "comunidade internacional" teria em impedir ou suspender atrocidades em massa mesmo que para isso fosse necessário o uso da força militar.

Em discurso proferido na ONU em 1998, o então Secretário-Geral, Kofi Annan, reconhecia os problemas decorrentes das intervenções militares feitas pelas grandes potências - equiparando-as às invasões militares - e, ao mesmo tempo, esclarecia que as intervenções poderiam manifestar seu “lado benigno”. Para isso, recorreu a uma comparação com a medicina, que emprega o termo ‘intervenção’ para descrever o ato do cirurgião que salva vidas ao ‘intervir’ para remover tumores malignos, ou para reparar os órgãos doentes. Está claro que os métodos de tratamento mais intrusivos não devem ser recomendados, pondera Annan, mas esclarece que “um doutor que nunca intervém terá poucos admiradores e, provavelmente, menos pacientes.” Assim, busca encontrar um meio termo entre as consequências desastrosas da intervenção nos Balcãs e a passividade em Ruanda.

Nessa argumentação, Annan supõe que o corpo humano seja uma unidade autônoma, pouco influenciada pelo ambiente que a cerca. Assim, diante de uma disfunção interna do organismo, a solução se resume à possibilidade de salvação por uma ação de fora. Ou seja, não se admite a possibilidade de que a interferência de fatores externos podem inclusive ser a causa do agravamento da doença. Em outras palavras: não se abordam as razões históricas ou estruturais que condicionam os acontecimentos no território desse Estado (corpo humano). No fundo, ancora-se na ideia de Estado Falido. Isto é: que as causas da falência são internas, mas suas consequências (difusão do conflito, refugiados, etc.) são internacionais e,  portanto, de responsabilidade da comunidade internacional. Não se questiona que, no fundo, os chamados elementos internos estão estreitamente conectados aos fatores externos que acabam sendo causas dessa falência, e não apenas consequência.

É preciso constatar que, desde 1980, os EUA invadiram, ocuparam ou bombardearam ao menos 14 países do chamado “mundo islâmico” (Irã, Líbia, Líbano, Kuwait, Iraque, Somália, Bósnia, Arábia Saudita, Afeganistão, Sudão, Kosovo, Iêmen e Paquistão), sendo a incursão na Síria para, segundo o Departamento de Defesa norte-americano, “degradar e derrotar o EI” a mais recente. Somente a invasão dos EUA ao Iraque, em 2003, teve como consequência cerca de 4 milhões de refugiados (30% da população iraquiana). Não se pode esquecer que a guerra civil na Síria se intensificou em decorrência da ação dos EUA e seus aliados. Nada mais nada menos que o próprio vice-presidente dos EUA para atestar a responsabilidade de seu pais e seus parceiros no conflito Sírio. Em discurso proferido no Fórum John F. Kennedy Jr, Joe Biden declarou que “A Arábia Saudita, a Turquia e os Emirados Árabes estavam muito determinados a derrubar Assad e provocar uma guerra patrocinada entre sunitas e xiitas…" O que fizeram os EUA? Destinaram centenas de milhões de dólares e dezenas de toneladas de armas a qualquer um disposto a lutar contra Assad. Porém, as pessoas que estavam sendo abastecidas eram da al-Nusra e al-Qaeda e extremistas da Jihad vindos de outras partes do mundo, segundo dados do Serviço de Pesquisa do Congresso norte-americano. (Cockburn, Patrick. A Origem do Estado Islâmico, Autonomia Literaria, 2015).

Desde 2011 foram alocados por volta de 16 US$ bilhões em “ajuda militar” para o conflito Sírio, abastecendo as mais variadas facções - incluindo o Estado Islâmico - e o próprio regime de Bashar. EUA, Rússia, Qatar, Canadá, Reino Unido, Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita são as principais fontes de recursos para que o conflito siga adiante. Ao mesmo tempo, são estes mesmos países aqueles que menos aceitam os sírios provenientes da guerra.

Fonte: http://usuncut.com/world/syrian-refugees-to-weapons/

Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, ao final de 2014, o número de pessoas que foram forçosamente deslocadas em um ano atingiu a maior taxa da história. Foram 59,5 milhões de pessoas que tiveram que deixar suas casas em razão de perseguição e violência generalizada. São cerca de 42.500 pessoas por dia ou 2,5 milhões a cada dois meses, o equivalente a toda a população da região do grande ABC em São Paulo. Os principais locais de origem são exatamente aqueles de maior engajamento norte-americano: Síria, Afeganistão e Somália. Creio que os EUA e aliados europeus fariam uma grande contribuição humanitária se adotassem o lema liberal preconizado por Jeremy Bentham: Be quite!


Joao Fernando Finazzi – mestrando do programa de Pós graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas ( Unesp, Unicamp, PUC)
Reginaldo Nasser – prof do programa de Pós graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas ( Unesp, Unicamp, PUC) e curso de RI da PUC(SP)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

GEOPOLÍTICA - Quem mandou ser capacho dos EUA.

Servil aos EUA, Europa colhe o que plantou

Por Mauro Santayana, em seu blog:

Embora não o admita - principalmente os países que participaram diretamente dessa sangrenta imbecilidade - a Europa de hoje, nunca antes sitiada por tantos estrangeiros, desde pelo menos os tempos da queda de Roma e das invasões bárbaras, não está colhendo mais do que plantou, ao secundar a política norte-americana de intervenção, no Oriente Médio e no Norte da África.
Não tivesse ajudado a invadir, destruir, vilipendiar, países como o Iraque, a Líbia, e a Síria; não tivesse equipado, com armas e veículos, por meio de suas agências de espionagem, os terroristas que deram origem ao Estado Islâmico, para que estes combatessem Kadafi e Bashar Al Assad, não tivesse ajudado a criar o gigantesco engodo da Primavera Árabe, prometendo paz, liberdade e prosperidade, a quem depois só se deu fome, destruição e guerra, estupros, doenças e morte, nas areias do deserto, entre as pedras das montanhas, no profundo e escuro túmulo das águas do Mediterrâneo, a Europa não estaria, agora, às voltas com a maior crise humanitária deste século, só comparável, na história recente, aos grandes deslocamentos humanos que ocorreram no fim da Segunda Guerra Mundial.

Lépidos e fagueiros, os Estados Unidos, os maiores responsáveis pela situação, sequer cogitam receber - e nisso deveriam estar sendo cobrados pelos europeus - parte das centenas de milhares de refugiados que criaram, com sua desastrada e estúpida doutrina de "guerra ao terror", de substituir, paradoxalmente, governos estáveis por terroristas, inaugurada pelo "pequeno" Bush, depois do controvertido atentado às Torres Gêmeas.

Depois que os imigrantes forem distribuídos, e se incrustarem, em guetos, ou forem - ao menos parte deles - integrados, em longo e doloroso processo, que deverá durar décadas, aos países que os acolherem, a Europa nunca mais será a mesma.

Por enquanto, continuarão chegando à suas fronteiras, desembarcando em suas praias, invadindo seus trens, escalando suas montanhas, todas as semanas, milhares de pessoas, que, cavando buracos, e enfrentando jatos de água, cassetetes e gás lacrimogêneo, não tendo mais bagagem que o seu sangue e o seu futuro, reunidos nos corpos de seus filhos, irão cobrar seu quinhão de esperança e de destino, e a sua parte da primavera, de um continente privilegiado, que para chegar aonde chegou, fartou-se de explorar as mais variadas regiões do mundo.

É cedo para dizer quais serão as consequências do Grande Êxodo. Pessoalmente, vemos toda miscigenação como bem-vinda, uma injeção de sangue novo em um continente conservador, demograficamente moribundo, e envelhecido.

Mas é difícil acreditar que uma nova Europa homogênea, solidária, universal e próspera, emergirá no futuro de tudo isso, quando os novos imigrantes chegam em momento de grande ascensão da extrema-direita e do fascismo, e neonazistas cercam e incendeiam, latindo urros hitleristas, abrigos com mulheres e crianças.

Se, no lugar de seguir os EUA, em sua política imperial em países agora devastados, como a Líbia e a Síria, ou sob disfarçadas ditaduras, como o Egito, a Europa tivesse aplicado o que gastou em armas no Norte da África e em lugares como o Afeganistão, investindo em fábricas nesses mesmos países ou em linhas de crédito que pudessem gerar empregos para os africanos antes que eles precisassem se lançar, desesperadamente, à travessia do Mediterrâneo, apostando na paz e não na guerra, o velho continente não estaria enfrentando os problemas que encara agora, o mar que o banha ao sul não estaria coalhado de cadáveres, e não existiria o Estado Islâmico.

Que isso sirva de lição a uma União Europeia que insiste, por meio da OTAN e nos foros multilaterais, em continuar sendo tropa auxiliar dos EUA na guerra e na diplomacia, para que os mesmos erros que se cometeram ao sul, não se repitam ao Leste, com o estímulo a um conflito com a Rússia pela Ucrânia, que pode provocar um novo êxodo maciço em uma segunda frente migratória, que irá multiplicar os problemas, o caos e os desafios que está enfrentando agora.

As desventuras das autoridades europeias, e o caos humanitário que se instala em suas cidades, em lugares como a Estação Keleti Pu, em Budapeste, e a entrada do Eurotúnel, na França, mostram que a História não tolera equívocos, principalmente quando estes se baseiam no preconceito e na arrogância, cobrando rapidamente a fatura daqueles que os cometeram.

Galinha que acompanha pato acaba morrendo afogada.

É isso que Bruxelas e a UE precisam aprender com relação a Washington e aos EUA.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

GEOPOLÍTICA - Guerra contra-insurgente na Venezuela.

Guerra contrainsurgente na Venezuela:Paramilitarismo e Parajornalismo PDF Imprimir E-Mail
Escrito por Bianka de Jesus   
       
  (Prensa Latina) No momento em que se retomam as relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, sem dúvida um processo a longo prazo, como afirma o governo cubano já que continua o bloqueio de mais de meio século, a ilegal permanência militar em Guantánamo e outros aspectos que afetam a soberania da ilha do Caribe, o governo estadunidense intensifica uma ofensiva contrainsurgente sobre vários países da região, que projeta mais sombras que luzes.
É impossível não duvidar de uma certa vontade de pôr fim a uma longa política terrorista para Cuba, que este país tem derrotado com uma resistência heroica, quando o secretário de Estado John Kerry hasteia a bandeira estadunidense reabrindo a embaixada em Havana no momento em que seu governo intensifica os ataques contra todos os governos progressistas da América Latina, que ajudaram a romper o cruel isolamento da ilha, que nunca deveria ter ocorrido.

De fato, foi altamente contraditório que em dezembro passado, quando se fez o anúncio da retomada de relações entre Cuba e Estados Unidos, o governo deste país ameaçasse duramente a Venezuela, e se tomassem medidas intervencionistas que esquentaram o clima na região.

Em 9 de março passado, o presidente Barack Obama declarou "emergência nacional" ante o que considerava uma "ameaça extraordinária e incomum à segurança nacional e à política exterior estadunidense" por parte da Venezuela.

Que Venezuela fosse uma ameaça à segurança dos EUA é incrível quando analisamos de onde parte tal acusação quando estudamos a situação, pois sabemos de todas as mentiras com as quais se começa uma ação ingerencista e intervencionista. Argumentos tão incríveis como este têm servido para as centenas de intervenções no mundo, e para as novas e genocidas guerras coloniais que se desenvolvem contra países irmãos no Oriente Médio, Ásia, Europa (Ucrânia).

O real deste momento é que vários governos da América Latina estão sob um ataque simultâneo de uma Guerra de Baixa Intensidade (GBI) que há tempos deixa seus rastros de "Golpes Brandos" mais fáceis de aplicar na Europa que em uma região que está tentando um verdadeiro processo de Integração emancipatória, com tudo o que isto significa.

A simultaneidade do ataque que se apresenta no Equador, Brasil, El Salvador, Bolívia, Argentina e Venezuela, especialmente, está desenvolvida para atingir a solidariedade, que sempre deve atuar rapidamente ante qualquer evento na região. Nestes momentos, cada país atacado está organizando suas próprias defesas e é evidente que resta força à reação solidária.

Isto, por uma parte, e pela outra Estados Unidos e seus sócios da direita em toda a América Latina, a mais dependente e financiada na história regional, estão atuando nestas desestabilizações simultâneas, para facilitar a "tarefa" nos planos de recolonização. Se conseguem dar o duro golpe em qualquer destes países, estimam que será mais fácil organizar um "efeito dominó" graças à "avançada golpista" já instalada em várias nações.

O ataque contrainsurgente produz-se com velhas e renovadas táticas e está castigando a Venezuela com todo tipo de guerra: econômica, psicológica (mirando golpes midiáticos diariamente), sabotagens, uma série de assassinatos de militares, camponeses militantes chavistas, escolta da segurança dos mais importantes funcionários governamentais, desabastecimento, infiltração de paramilitares colombianos. É um incremento notável no marco de todas as tentativas golpistas que têm deixado dezenas de vítimas e destruição nesse país. Não pode ser descartada a infiltração de comandos de Forças Especiais estadunidenses, que têm sua sede nas bases militares e estabelecimentos dos Estados Unidos na Colômbia. E todos sabemos o que são essas Forças Especiais. Sabem bem os povos vítimas de guerras coloniais em pleno século XXI.

Nestes últimos tempos e quando já se tem desgastado o tema dos chamados "presos políticos" venezuelanos, como se o governo de Nicolás Maduro e não os Estados Unidos fosse o maior violador dos direitos humanos em nossa região e no mundo, agora giram para o tema da quente fronteira colombo-venezuelana, com uma incendiária campanha midiática, mentindo descaradamente, colocando o agressor como vítima, uma vez mais.

O fechamento da fronteira em Táchira e o decreto de estado de exceção decidido pelo governo do presidente Maduro, no dia 20 de agosto passado, é um necessário ato de defesa de um país que praticamente desde o fracassado golpe de Estado em abril de 2002 até hoje é vítima de um esquema de golpismo eterno, que se intensificou de forma desmedida quando a morte do comandante Hugo Chávez Frias em março de 2013, criou expectativas falsas de se conseguir render facilmente a Venezuela.

Toneladas de alimentos que foram escondidos, roubados, em uma ação de fato terrorista, pelos setores opositores, empenhados em derrubar Nicolás Maduro, têm passado por essa fronteira, por onde também entram os grupos paramilitares colombianos, que estão vinculados há anos a todas as tentativas violentas que se deram na Venezuela.

No mesmo momento em que foi decretado o fechamento da fronteira com a Colômbia e o estado de exceção em vários municípios de Táchira, por onde transcorria dia após dia o saque de gasolina, alimentos e outros artigos em um caso de contrabando para contribuir para o desabastecimento e o caos, ajudando a oposição golpista da Venezuela, começou o ataque opositor e midiático.

Sabe-se agora que grupos paramilitares formavam sociedades para tornar mais efetivo "o trabalho" de apoio ao golpismo, inclusive uma suposta "cooperativa" colombiana que negociava com o Mercal venezuelano, uma instituição de bem social, era de paramilitares desse país, disfarçados de cooperativistas.

A Venezuela teve paciência mais que suficiente, pois o governo venezuelano já havia comunicado ao governo da Colômbia sobre estes graves acontecimentos.

Imediatamente após o fechamento da fronteira em diversos pontos de Táchira, onde as forças armadas bolivarianas descobriram esconderijos do paramilitarismo e até um lugar onde os chamados "paracos" colombianos administravam o tráfico de pessoas entre outros crimes, foi ativada a oposição e o parajornalismo dos grandes meios de comunicação da região.

Montaram um cenário de violência contra cerca de um milhar de pessoas que estavam ilegalmente nestes lugares, onde se camuflava o paramilitarismo... A difusão de rumores e notícias falsas estendeu-se em segundos, sem esclarecer que na Venezuela há mais de 5 milhões e 600 mil colombianos que fugiram da violência e do terror em seu país, bem como da pobreza, e estão integrados e protegidos pelas leis nacionais, muitos dos quais participaram nas marchas populares de apoio ao governo de Maduro.

NADA É NOVO

Já em 2012, o jornalista Raúl Bracho havia adiantado uma denúncia que hoje poucos recordam. Comparava a situação na Venezuela com o ocorrido na Síria, relembrando como infiltraram os mercenários disfarçados de Exército Livre da Síria, sob o comando da OTAN, que têm matado milhares e milhares de sírios, destruído cidades, infraestruturas, utilizando armas fornecidas pelos Estados Unidos, e Israel, especialmente. Estes dois países e a Grã-Bretanha criaram o chamado Exército Islâmico, infiltrando efetivos destes mercenários de 80 países do mundo, disfarçados de islamitas, pelas zonas fronteiriças.

Argumentando que vão combater seus próprios mercenários, destroem as infraestruturas como se viu na Síria e também os patrimônios da humanidade nesses países para apagar toda a história e memória cultural.

Bracho havia advertido nesse momento, que uma "oposição que se sabe derrotada contratará os mercenários de (Álvaro) Uribe para criar um massacre próximo da fronteira com a Colômbia e bem alertas devemos estar para impedi-los".

Nestes últimos dias, após encontros entre as chancelarias de ambos países, autoridades colombianas comprovaram que não houve os maus tratos que difundiram os meios de imprensa do poder hegemônico.

Na Argentina, se alguém quer saber por onde virá o ataque midiático contra a Venezuela, basta procurar "Infobae" para saber. Ou os diários Clarín e La Nación e seus repetidores.

Nestas horas tentam jogar mais lenha na fogueira, que está ardendo desde a semana passada. "Nicolás Maduro expulsa colombianos e também debocha deles. O presidente venezuelano dançou "La Pollera Colorá" durante a marcha chavista para respaldar as deportações em massa do regime. A cumbia é um símbolo na Colômbia e muitos consideram-na o segundo hino do país". Isso dizia Infobae.

Leia-se nas entrelinhas: "Maduro pisoteia o hino do país irmão". Falta algo mais para saber por onde vem a linha de Washington e a guerra entre irmãos que há muito tempo sonha o ex-presidente Álvaro Uribe Vélez?

Na "frente de batalha" do lado colombiano, Washington tem o agora senador Álvaro Uribe - que deveria estar na prisão pelos crimes de lesa humanidade que cometeu em seu país - amparando o paramilitarismo, que é sua "melhor" base política. No fim de 2011, Uribe criou em Washington a Fundação Internacionalismo Democrático que preside, na tentativa de estar à frente de um movimento de extrema-direita a nível continental.

Também foi promotor da criação da Fundação UnoAmérica na Colômbia no fim de 2008, reunindo os mais atuantes entre os ex-militares e policiais das ditaduras latino-americanas, para trabalhar infiltrando-se nas forças policiais e militares e ativá-las contra os governos progressistas. Já mostraram sua efetividade em Honduras, onde o presidente golpista desse país, Roberto Micheletti, condecorou o presidente da UnoAmérica.

Nada menos que o venezuelano Alejandro Peña Esclusa, envolvido em ações terroristas na Venezuela e na tentativa de assassinar o falecido presidente Hugo Chávez.

E mais ainda, Leopoldo López, que em 2014 encabeçou outra tentativa golpista contra o governo do presidente Maduro e o Partido Socialista Unificado Venezuelano (PSUV), anunciando que se manteria nas ruas até derrubar o presidente, havia mantido uma reunião com Uribe, já presidente da Fundação, que pretende liderar o golpismo em toda a região, financiado pela CIA estadunidense.

Essas são as baterias para a guerra suja ativadas na fronteira colombo-venezuelana. Menos de uma semana após a medida tomada pelo presidente Maduro, encontraram-se 70 toneladas de alimentos já preparadas para serem enviadas à Colômbia; e o vice-presidente Jorge Arreaza também confirmou que em horas se reduziram as filas em Táchira para conseguir gasolina e apareceram alimentos nos supermercados.

O presidente Maduro propôs a criação de uma Comissão sul-americana pela verdade na fronteira. "Como há tanta manipulação eu vou propor que se estabeleça de maneira paritária uma comissão sul-americana da verdade que venha ver a situação fronteiriça da Venezuela com a Colômbia, que venha ver a situação do paramilitarismo, do narcotráfico, da guerra econômica e que venha dizer a verdade que não quer dizer nem a CNN, nem a Caracol (da Colômbia), nem muitos meios internacionais", enfatizou.

Uma grande manifestação de venezuelanos e colombianos que vivem na Venezuela tornou evidente a mentira dos meios de comunicação e das oposições, que têm recebido milhões de dólares das fundações estadunidenses, transformadas em forças especiais de desestabilização em todos os nossos países.

O que é urgente e necessário é que a América Latina e o Caribe implementem as medidas necessárias e respondam à "simultaneidade" operante dos poderes imperiais, com a solidariedade simultânea dos povos nuestroamericanos. "Sim nós podemos".

Por Stella Calloni *

*Prestigiada intelectual argentina.