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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

REINO UNIDO - A emblemática virada no trabalhismo inglês.




Por Pablo Iglesias, The Guardian




Parece surpreendente, paradoxal, inclusive irônico, que muitas mídias comparem um veterano trabalhista, como [o novo líder do Partido Trabalhista britânico], Jeremy Corbyn, conosco. E, no entanto, têm toda a razão ao fazê-lo. O que pode ter em comum o novo chefe do velho partido fundado pelos sindicatos ingleses com uma formação nascida há apenas um ano e meio em Espanha? Basicamente uma coisa: o fracasso do social-liberalismo da chamada “Terceira Via”.
Diz-se do Podemos que somos o partido dos indignados. Não é incorreto de todo, mas a explicação é incompleta. O 15-M e o movimento dos indignados em Espanha foram a expressão social da revolta contra aquilo a que se chamou neoliberalismo. É aquele modo de organização política que arrasou as instituições de proteção social, que destruiu a indústria e os sindicatos, que produziu bolhas especulativas e que baseou o consumo no crédito — e se revelou incapaz de apresentar soluções aceitáveis, quando a crise financeira acelerou a destruição dos serviços públicos e dos direitos sociais, empobrecendo os setores médios e a classe trabalhadora. No momento em que a crise chegou à Espanha, o Partido Socialista (PSOE), tradicionalmente identificado com o Estado Social, estava no governo e não soube dar nenhuma alternativa. Não é apenas que já não se atrevesse a ser socialista. É que nem sequer se atreveu a recusar as políticas de cortes e a “austeridade”, ou a propor um mínimo programa neokeynesiano de resgate cidadão. [O então primeiro-ministro], José Luis Rodríguez Zapatero simplesmente rendeu-se ante a crise, tomando as mesmas medidas que teria tomado um governo conservador. Ele mesmo reconheceu, num livro de memórias, que sabia que as medidas que ia tomar lhe custariam as eleições.
Isso contribuiu para que os dois grandes partidos espanhóis fossem identificados como sendo quase o mesmo — como elites políticas que encarnavam privilégios de casta, ao mesmo tempo em que decidiam cortes sociais que empobreciam a população. A maior expressão social desse descontentamento foi o 15-M, um movimento cuja principal mensagem foi a sua rejeição às elites políticas e econêmicas. O Podemos foi, quem sabe, a expressão político-eleitoral desse movimento que, no entanto, não se explica sem ter em conta o fato de o nosso Partido Socialista já se ter convertido, para muitos cidadãos, em algo muito parecido ao Partido Popular, [de centro-direita].
A história no Reino Unido não é tão diferente. Lá, o sucesso do neoliberalismo significou a derrota do trabalhismo e da classe trabalhadora britânica, que teve muitas expressões simbólicas. A que mais me comove é a derrota que Thatcher impôs aos mineiros, que protagonizaram uma resistência heróica. A que mais me ofende é a implementação da Terceira Via do [ex-primeiro-ministro trabalhista] Tony Blair (convertido no melhor herdeiro de Thatcher), que fazia da social-democracia uma espécie de novo social-liberalismo e acabaria por converter-se numa referência para todos os partidos socialistas europeus, em particular para o espanhol.
Se o Podemos foi a melhor expressão da crise de identidade do PSOE (não é por acaso que estão há um ano tentando disfarçar-se de nós), no Reino Unido, Corbyn é a melhor expressão da crise de identidade do Partido Trabalhista. Poderia ter ocorrido desde fora, mas ocorreu de dentro.
Que ocorra de dentro ou de fora é, no fundo, o menos importante. Finalmente vamos contar com um aliado no Reino Unido com o qual compartilhamos um diagnóstico e um projeto de defesa dos direitos sociais mediante políticas que combatam a desigualdade. O nosso papel é sermos as forças que representam a maioria social, as classes populares golpeadas por um modelo de governança desenhado para favorecer as elites financeiras e a sua clientela.
São cada vez mais numerosos os socialistas que vêm ter dialogar conosco para defender a democracia, lutar contra a austeridade e a desigualdade. Só podemos dizer-lhes: bem-vindos colegas, caminhemos juntos.
A campanha contra Corbyn já começou. Escutamos os mesmos insultos que recebeu o governo grego e que nós recebemos, ou a mesma condescendência de quem diz que o seu papel será só o de dar uma chacoalhada — mas que nunca poderá governar. E, no entanto, cada vez somos mais e mais fortes na Europa. Bem-vindo, Jeremy.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

REINO UNIDO - Jeremy Corbyn

    Corbyn sacudiu o Parlamento britânico


A quatro dias de ser eleito líder da oposição, em meio a uma implacável ofensiva midiática, Jeremy Corbyn conseguiu uma considerável vitória ao mudar o formato dos debates parlamentares com David Cameron e apresentar seis das 42.000 perguntas que os britânicos lhe enviaram por e-mail. Com um tom sóbrio, tranquilo e equilibrado, que contrastou com o raivoso extremista pintado pelos meios de comunicação, Corbyn deixou claro que continuará apostando na mudança da forma de fazer política no Reino Unido.
A reportagem é de Marcelo Justo, publicada por Página/12, 17-09-2015. A tradução é do Cepat.
A fúria midiática contra ele teve o paradoxal efeito de torná-lo o centro das atenções. Em sua primeira aparição na Prime Minister Question Time (PMQT), Corbyn bateu todos os ratings para esta tradicional batalha na Câmara dos Comuns entre o primeiro-ministro e o líder da oposição. Corbyn conseguiu algo mais. A PMQT, que costuma ser uma guerra de “sound bites” (frases sintéticas e pré-fabricadas) e rasteiras no oponente, tornou-se uma equilibrada troca de ideias. “É o que me pediram os eleitores em todos os encontros que tive durante minha campanha. Acabar com a teatralidade destes embates”, esclareceu Corbyn, no início do debate.
Mais acostumado à esgrima britânica do “wit” (engenho) rápido e venenoso, o primeiro-ministro Cameron teve que se adequar a este estilo. Custou-lhe. Em um momento, diante de uma pergunta dos nacionalistas escoceses, teve uma reação pavloviana e respondeu com o típico ataque frontal destas trocas parlamentares. Não se limitou a uma questão de estilos. A interação no Parlamento deixou claro uma linha divisória inapagável entre conservadores e este trabalhismo que deixou para trás o centrismo de Tony Blair-Gordon Brown-Ed Miliband.
Corbyn repassou a Cameron, ao vivo, seis perguntas enviadas por eleitores britânicos para esta ocasião, centradas no forte déficit de moradia, a eliminação de um benefício em impostos para os salários mais baixos (convertida em lei, na terça-feira) e a crise na atenção aos problemas de saúde mental. Cameron defendeu sua política nestas frentes acrescentando que só com uma economia que cresce é possível atender estes problemas sociais. “Só nós, conservadores, levamos adiante a política econômica necessária para realizar isto, uma política que não colocará em jogo a segurança dos britânicos”, disse.
Esta referência de Cameron à economia e a segurança não é por acaso. A menos de um dia da confirmação da vitória de Corbyn, os conservadores se lançaram na ofensiva com um tweet de Cameron que o acusava de colocar em risco a segurança do país e a segurança econômica dos lares, repetido por deputados conservadores em outros tweets e com o acréscimo de um vídeo sobre “Labour’s new leader. The facts”. Os “fatos” que nomeava o vídeo pareciam ter saído de uma usina de propaganda ditatorial: “Pensa que a morte de Bin Laden foi uma “tragédia”, que os terroristas são ‘amigos’, quer abandonar nossa proteção nuclear, quer desmantelar as forças armadas”.
O ataque foi tão exagerado que acabou sendo ridicularizado pelos humoristas e comentadores. Uma das mais divertidas foi a humorista Viki Stone, em uma foto com um capacete de guerra, com apenas o rosto por trás de uma janela, e um texto a Cameron: “Estou aterrorizada, em sua opinião, aqui, ficarei a salvo do Partido Trabalhista?”. Um comentarista de políticas midiáticas, Jonathan Jones, resumiu o impacto contraproducente dos ataques. “Dá a impressão de que os conservadores estão apavorados com Jeremy Corbyn”, escreveu.
A realidade é que os seguidores de Cameron não deveriam ter se incomodado em lançar este ataque. Os meios de comunicação, absurdamente conservadores, estavam fazendo o trabalho sujo para eles, conforme se viu desde o próprio momento de sua eleição. Seguindo o velho princípio midiático da gata Flora, disseram que Corbyn significava o fim do trabalhismo e o maior perigo que a Grã-Bretanha enfrentava, que estava traindo suas promessas e que era um rígido estreante, que os sindicatos o trataram como um herói ou com extrema frieza quando falou, na terça-feira, para a Central dos Trabalhadores, que era maquiavélico e um “caos”, que era um misógino apesar do fato de que em seu gabinete, na sombra (que replica os postos do gabinete governamental), há mais mulheres que homens e que era um traidor da pátria porque em uma cerimônia não cantou o hino “God Save the Queen” (Corbyn é um republicano). Em poucos dias, a lista de denominações e ataques se tornou interminável.
A estratégia comandada pela poderosa maquinaria de Ruppert Murdoch é a de identificar Corbyn com o extremismo e a incompetência, assimilando-o a Michael Foot, o líder trabalhista que perdeu por goleada de Margaret Thatcher, nas eleições de 1983, com a última plataforma programática de esquerda do partido. O bombardeio será incessante e ilimitado. No blog Guido Fawkes, muito lido entre conservadores, um fotógrafo disse que Corbyn havia roubado sanduíches que eram para os veteranos de guerra, em um serviço religioso comemorativo celebrado na terça-feira.
A resposta de Corbyn a este assédio midiático foi uma mistura de silêncio e indiferença. É uma tática que lhe deu resultado na eleição trabalhista, porque o mostra mais centrado nos temas concretos do que em sua projeção midiática, mas que é de incerto resultado diante do restante dos britânicos. Para Corbyn, temas mais delicados do que o sanduíche roubado, como a renovação ou não do programa nuclear britânico (diferente de seus deputados, Corbyn se opõe) e com apenas 20 deputados dos 232 firmemente corbynistas, cedo ou tarde, o novo líder da oposição precisará coordenar uma estratégia midiática que ao mesmo tempo seja eficiente, evite o endurecimento da velha política e chegue a todo o eleitorado.

terça-feira, 9 de abril de 2013

REINO UNIDO - Tatcher - Uma herança maldita para o Brasil.



Do blog Sandálias do Pirata


Vitima de derrame, a dama de ferro, como era conhecida Margareth Tatcher, faleceu neste dia 08 em Londres.

Seu legado político é bastante controverso. Amada e odiada, era uma liderança incontestável da direita européia e foi defensora ferrenha do neoliberalismo.

Foi premiê do Reino Unido de 1979 a 1990 e sua obra deixou males que se espalharam pelo mundo com rapidez: privação social, opressão de sindicatos, confronto com opositores de forma dura e implacável, como no episódio da Guerra das Malvinas. Em resumo, governou de modo tão conservador que seu próprio partido, o Partido Conservador!, voltou-se contra ela e a retirou do poder.

Sua forma de ver a economia era voltada exclusivamente ao protecionismo do capital. Gerou desemprego e queda da produção industrial na Inglaterra mas nunca desamparou os banqueiros. Seu processo político de privatizações e culto ao livre mercado foi determinante para que alguns países, o Brasil inclusive, adotassem medidas conservadoras drásticas e danosas.

Sobretudo no período de governo do PSDB, na figura de FHC, o Brasil experimentou o remédio mais amargo que Tatcher criou: a economia foi atirada no colo do mercado, empresas públicas tradicionais foram privatizadas depois de saneadas com dinheiro público, o desemprego aumentou na proporção do crescimento da dívida interna e externa, apesar da entrada de recursos da venda de Estatais, a taxa básica de juros crescente era mantida para atender os banqueiros e a população, ora, permanecia estagnada, pobre e sem perspectivas.

Passadas duas décadas desde a queda de Tatcher, depois que parte do mundo ocidental abusou de venerar o livre mercado, vimos Nações de joelhos implorando recursos ao FMI e tendo que, em troca, adotar medidas ainda mais drásticas na área econômica, com corte de programas sociais e elevação da taxa de juros. Os resultados foram desastrosos principalmente para os países menos desenvolvidos da América Latina.

Hoje, ao abandonar as teorias malucas do neoliberalismo, o Brasil e parte importante do mundo capitalista descobriu nova fórmula de crescimento: participação direta do Estado na economia com intervenções pontuais e injeção de capitais. É hilário ler, por exemplo, como certos veículos de comunicação resmungam sobre o déficit em conta corrente do governo, sobre aumento das despesas de custeio e de pessoal. Reclamam que o governo gasta muito ...

Mas não vemos xororô da midia fundamentalista quando o governo dos EUA coloca, mensalmente, quase 90 bilhões de dólares na economia com o objetivo de incentivar o consumo e a geração de emprego; não vemos os “analistas” dizendo que é errado o Japão expandir sua base monetária em quase 1,5 trilhão de dólares para fazer frente ao baixo crescimento.

Seria um escândalo a intervenção do governo do Brasil na economia na época FHC, ditado pelas regras de austeridade da Dama de Ferro. Ou foi um escândalo manter a pobreza e a miséria do jeito que estavam?

Felizmente, isso mudou.
E, por certo, as novas gerações de Primeiros Ministros do Reino Unido aprenderam que tudo o que Margareth Tatcher produziu foi aumentar ainda mais a diferença entre ricos e pobres. Lá e no resto do mundo neoliberal. 

Ela morreu, e tomara que morra com ela a teoria da concentração de renda.