sábado, 6 de junho de 2015

POLÍTICA -Isso você não vai assistir no JN.

     
        

Lula na FAO: "Fim da fome é essencial para a construção da paz"

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu neste sábado (6), em Roma, a 39ª Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que reelegeu  o brasileiro José Graziano, como diretor-geral da entidade. “Repartir o pão é o primeiro passo para construir a paz", foi a mensagem de Lula à Conferência.



Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Lula: “Estamos vendo crescer a primeira geração de brasileiros que não conheceram o drama da fome”Lula: “Estamos vendo crescer a primeira geração de brasileiros que não conheceram o drama da fome”
Em seu discurso, o ex-presidente citou outro brasileiro que colaborou com a FAO, o médico Josué de Castro, que estudou o problema da fome no mundo, e que cunhou a frase “fome e guerra são, na realidade, criações humanas”.

Lula lembrou que 12 anos atrás havia 11 milhões de famílias na extrema pobreza no Brasil. E falou dos avanços feitos no combate à fome e miséria desde 2003, quando foi assumida essa luta como prioridade de governo. “Estamos vendo crescer a primeira geração de brasileiros que não conheceram o drama da fome”. E que o exemplo brasileiro mostra que “é possível superar a fome”. Para isso é necessário incluir os pobres no orçamento público, e não tratá-los como estatística, mas como seres humanos.

Lula criticou setores da imprensa e da sociedade brasileira que tiveram preconceito contra programas de transferência de renda. “Eu nunca pensei que dar comida aos pobres causasse tanta indignação.” O tempo mostrou, com os resultados na melhoria das condições sociais, que os críticos estavam errados.

O Programa Luz Para Todos, criado pela presidenta Dilma Rousseff quando era ministra, foi explicado para os diplomatas presentes. Além do desenvolvimento econômico trazido, o programa enfim permitiu que uma mãe tivesse o direito de ver seu filho dormindo, que uma criança tivesse o direito de estudar com o mínimo de conforto em sua casa.

O ex-presidente também homenageou em sua fala três pessoas pelo papel que tiveram no combate à fome no Brasil: José Graziano, diretor-geral da FAO; Patrus Ananias, ex-ministro de Desenvolvimento Social e Combate à Fome e atual ministro do Desenvolvimento Agrário, e a ministra do Desenvolvimento Social Tereza Campello.

O ex-presidente citou a reunião, promovida pela FAO, Instituto Lula e União Africana em Adis Abeba (Etiópia), em 2013, quando foi assumido o compromisso de erradicar a fome na África até 2015. Compromisso este que foi confirmado pela Conferência de Chefes de Estado e de Governo da União Africana da União Africana em 2014.


A fala de abertura é conhecida desde 1958 como Conferência McDougall e foi instituída em homenagem a Frank L. McDougall, um dos fundadores da organização. Também participaram da cerimônia o presidente da Itália, Sergio Mattarella, a presidente do Chile Michelle Bachelet, o presidente do Mali, Ibrahim Keita, além de representantes dos 194 países membros da entidade.


Leia abaixo a íntegra do discurso do ex-presidente na abertura da Conferência da FAO

"Agradeço a honra de ter sido convidado pela FAO para proferir, em sua 39a Conferência, a palestra que reverencia Frank McDougall, um dos grandes inspiradores desta organização e da causa da alimentação no mundo.

Na verdade, esta homenagem pertence ao povo brasileiro, pelos êxitos alcançados na superação da fome e da pobreza no meu país.

Esta é uma ocasião para recordar os laços históricos entre a FAO e o Brasil, que é um dos 44 países fundadores desta grande organização, na conferência de 1943.

Na década de 1950, aqui trabalhou, ao lado de Frank McDougall, um dos mais importantes cientistas brasileiros, Josué de Castro.

Ele dedicou sua vida a estudar as causas profundas da fome, no Brasil e no mundo, e escreveu dois livros fundamentais sobre o tema: Geografia da Fome e Geopolítica da Fome.

O pensamento de Josué de Castro contribuiu para compreendermos que a fome não é um fenômeno natural. É um fenômeno social que resulta, principalmente, de estruturas econômicas desequilibradas.

“Fome e guerra são, na realidade, criações humanas”, advertia Josué de Castro.

Em janeiro de 2012, outro brasileiro veio dar sua contribuição à FAO: o professor José Graziano da Silva, que foi eleito diretor-geral, expressando um amplo consenso entre países.

Para nossa alegria, o companheiro Graziano cumpriu seu primeiro mandato honrando o compromisso de vida que o trouxe até aqui: a luta permanente contra a fome e a pobreza.

Ao lado de outras organizações multilaterais, dos governos e da sociedade civil dos países, a FAO atuou com ousadia para que o maior número de países cumprisse as metas de segurança alimentar dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

72 países alcançaram a meta de reduzir à metade a população sujeita à fome. E 29 países alcançaram as metas mais ambiciosas da Cúpula Mundial da Alimentação.

Foi com justificado orgulho que recebemos, ano passado, a notícia de que o Brasil deixou de fazer parte do Mapa da Fome.

Isso significa que estamos vendo crescer a primeira geração de brasileiros que não conheceram o drama da fome.

A experiência brasileira provou que é possível, sim, superar a fome, quando o combate à pobreza é elevado a política de Estado, com recursos assegurados no orçamento.

Quando se combinam programas sociais de alimentação, saúde, educação e apoio aos pequenos e médios agricultores.

Quando se adotam estratégias permanentes de distribuição de renda, geração de empregos e valorização dos salários.

Por isso, quero compartilhar com vocês o caminho que nos levou a essa conquista.

Meus amigos, minhas amigas

Em 2002, ano em que fui eleito presidente, havia no Brasil 11 milhões de famílias sobrevivendo com menos de um dólar por dia.

Eram mais de 50 milhões de pessoas passando fome, quase um terço da população brasileira de então.

Eram crianças condenadas desde o nascimento a sofrer com a desnutrição e suas doenças; e condenadas ao estigma da pobreza e da exclusão, caso sobrevivessem.

Milhões de pais e mães em permanente aflição, porque não tinham como prover a família com o pão de cada dia.

Na realidade, havia um país governado para apenas um terço da população, enquanto a grande maioria permanecia esquecida, como se não vivêssemos todos na mesma pátria.

Em meu discurso de posse, afirmei que teria cumprido a missão de minha vida se, ao final do governo, cada brasileiro pudesse tomar o café da manhã, almoçar e jantar todos os dias.

Nós nos preparamos para esse desafio viajando pelo país, debatendo com cientistas, com organizações sociais, estudando experiências locais e internacionais. Criamos o Fome Zero, sob a coordenação do companheiro José Graziano.

O Fome Zero é um conjunto articulado de políticas públicas que envolve transferência de renda, crédito aos produtores agrícolas, reforma agrária, saúde, educação, alimentação escolar e formação profissional, entre muitas outras ações.

Uma estratégia dessa abrangência só podia dar certo com a participação da sociedade. Por isso, instalamos o Conselho Nacional de Segurança Alimentar, formado por diversos setores sociais, de trabalhadores e de empresários.

O Conselho atuou na formulação e definição dos programas e permanece atuando na fiscalização, avaliação de resultados e elaboração de novas estratégias de segurança alimentar.

A face mais conhecida do Fome Zero é o programa Bolsa Família, que transfere uma renda mensal às famílias mais pobres, mediante três condições: que as crianças frequentem a escola, que tomem todas as vacinas e que as mulheres grávidas façam todos os exames de saúde.

Considerado um dos melhores programas de transferência condicionada de renda no mundo, o Bolsa Família atende hoje 14 milhões de famílias, cerca de 54 milhões de pessoas.

A presidenta Dilma Rousseff aperfeiçoou essa estratégia, criando o programa Brasil Sem Miséria, que complementa a renda necessária para que todas as famílias atendidas ultrapassem a linha de pobreza.

O investimento do governo no Bolsa Família este ano é de R$ 28 bilhões (cerca de 10 bilhões de dólares), o que corresponde a 0,5% [zero vírgula cinco porcento] do PIB brasileiro.

O maior obstáculo que enfrentamos foi o preconceito por parte da imprensa brasileira e de alguns setores privilegiados da sociedade.

Diziam que o Bolsa Família iria estimular a preguiça. Que não passava de esmola do governo, ou pior: de compra de votos.

O tempo e a prática demonstraram que essas críticas eram totalmente infundadas, mas elas se repetem em outros países que estão adotando programas de transferência condicionada de renda.

Por isso, quero destacar algumas lições que aprendemos com o Bolsa Família.

O programa não gerou acomodação. Ao contrário: mais de 70% dos responsáveis pelas famílias inscritas têm trabalho fixo, embora o rendimento não seja suficiente.

O Bolsa Família não substitui o trabalho; ele complementa a renda familiar e estimula as pessoas a romper o ciclo da pobreza.

Além disso, a renda básica assegurada liberta a consciência política do cidadão, que não se vê mais forçado a trocar seu voto por um par de sapatos ou uma sacola de feijão, como era comum ocorrer antes do Bolsa Família.

A renda básica é um direito de cidadania, conquistado pelos que sempre foram esquecidos.

Para garantir esse direito de forma republicana, criamos o cadastro nacional único das famílias em situação de pobreza. O cadastro é fiscalizado pelo Ministério Público e atualizado permanentemente.

O pagamento da renda mensal é feito por meio de cartão magnético de um banco do governo, sem burocracia e sem intermediários. Não é preciso pedir favor a ninguém para receber o dinheiro.

Outra estratégia que adotamos foi emitir os cartões no nome das mães. A experiência mostrou que as mulheres têm mais compromisso com o objetivo do programa, que é alimentar as crianças.

Dessa forma, as mulheres conquistaram uma nova posição, mais relevante e mais respeitada, na família e na comunidade.

A transferência de renda para os pobres é benéfica para o conjunto do País; faz crescer a demanda, o comércio, a produção e os empregos. Gera um ciclo virtuoso de desenvolvimento.

Meus amigos, minhas amigas,

O fortalecimento da agricultura é essencial em nossa estratégia de segurança alimentar, e o Brasil praticamente dobrou sua produção agrícola nos últimos 12 anos.

Nesse período, o crédito especial para a agricultura aumentou de R$ 21,7 bilhões para R$ 180 bilhões, cerca de 60 bilhões de dólares levando o Brasil a tornar-se o maior produtor e exportador mundial de suco de laranja, açúcar e café; e o segundo em soja, carne bovina e frango.

Parte importante do aumento da produção se deve à atenção especial que demos à reforma agrária e aos pequenos e médios agricultores.

Nosso governo desapropriou 51 milhões de hectares de terras, o que representa mais da metade de toda a reforma agrária que se fez ao longo da História do Brasil.

O país tem cerca de 4 milhões de pequenas propriedades, que são responsáveis por 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros.

O crédito especial para os pequenos agricultores aumentou de R$ 2,8 bilhões, em 2003, para R$ 28 bilhões, quase 10 bilhões de dólares, na safra atual.

Adotamos um sistema eficaz de seguro da safra e de garantia de preço, para dar estabilidade e garantir perspectivas aos pequenos produtores.

Aprovamos uma lei que faz os governos locais comprarem 30% dos alimentos para as escolas diretamente dos agricultores de sua região. Isso garante mercado para os pequenos agricultores e melhora a qualidade da alimentação escolar.

Investimos em educação ambiental e incentivamos – inclusive financeiramente – a recomposição e preservação de matas nativas e nascentes de rios.

Asseguramos o acesso à agua nas regiões do semiárido brasileiro, por meio de um programa que abriu mais de 1 milhão de cisternas em pequenas propriedades.

Criamos outro programa, chamado Luz Para Todos, que levou energia elétrica a mais de 3 milhões de pequenas propriedades rurais.

O Luz Para Todos foi financiado com uma pequena parte das contas de eletricidade. Esse programa de eletrificação rural gerou quase meio milhão de empregos na produção e instalação de postes, cabos elétricos e transformadores.

A proporção de domicílios rurais com energia elétrica passou de 78% para 97%. Isso representou uma verdadeira transformação na vida de mais de 15 milhões de pessoas no campo.

Muitas vezes me emocionei ao ver toda essa gente usar a luz elétrica pela primeira vez na vida. Passaram a ler e costurar à noite, ou simplesmente a contemplar o sono dos filhos, como nós sempre fizemos, mas era impossível para essas pessoas.

Os agricultores puderam comprar bombas d’água e máquinas simples, moedores de grãos e de cana, trituradores e outros instrumentos para agregar valor a sua produção.

E compraram 2,4 milhões de televisores e 2,2 milhões de geladeiras , aumentando a produção das indústrias.

Em 2008, ao primeiro impacto da crise global, uma das medidas que adotamos no Brasil foi incentivar a compra de pequenos tratores, caminhões e implementos agrícolas, oferecendo crédito especial e redução de impostos.

Por meio desse programa, chamado Mais Alimentos, pequenos e médios agricultores compraram 58 mil tratores e 28 mil pequenos caminhões. E assim o homem do campo contribuiu novamente para a geração de empregos na indústria e no comércio.

Para oferecer novas oportunidades aos jovens do meio rural, localizamos no interior do País a maior parte das 18 novas universidades públicas e 148 campi criados nesses 12 anos. O número de cidades com escolas de ensino superior passou de 114 para 272, em todas as regiões do País.

Dessa forma, milhares de jovens tiveram acesso ao ensino superior sem ter de mudar para grandes cidades e cortar os laços com sua terra e sua gente.

Como resultado dessas e de outras políticas, além de aumentar a produção de alimentos, aumentamos em 52% a renda dos pequenos agricultores em pouco mais de uma década.

Tudo isso convergiu para o objetivo de combater a fome e a miséria. Em 12 anos, o valor real do salário cresceu 74%, a renda das famílias aumentou em um terço – e a das famílias mais pobres em dois terços – a oferta de crédito passou de 24% do PIB para 57% do PIB.

O resultado combinado de todas essas politicas e programas é conhecido: 36 milhões de pessoas foram libertadas da extrema pobreza, mais de 40 milhões ascenderam ao patamar de renda e consumo da classe média, 22 milhões de empregos formais foram criados no Brasil.

Provamos que os pobres, quando se tornam o centro das ações de um governo, deixam de ser o maior problema de um país e passam a ser a grande solução para os problemas desse país.

Eu fico feliz em constatar que a maioria dos países da América Latina e muitos países da África também fizeram avanços expressivos nos anos recentes.

É muito importante que a FAO e outros organismos multilaterais socializem o conhecimento das boas experiências de combate à fome e à pobreza.

Em junho de 2016, durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, teremos mais uma edição da "Conferência Nutrição para o Desenvolvimento" e eu espero encontrar lá todos vocês.

Como aconteceu durante os Jogos de Londres, em 2012, será um evento muito importante para o intercâmbio de conhecimento no combate à fome.

Todos temos o que aprender com esse intercâmbio, inclusive o Brasil, que ainda tem muito a fazer para superar a pobreza e a desigualdade.

Meus amigos, minhas amigas,

Os resultados alcançados pelos diversos países, em colaboração com a FAO, no âmbito dos Objetivos do Milênio são muito estimulantes.

Conseguimos reduzir em cerca de 200 milhões o número de pessoas vivendo em condições de insegurança alimentar.

Mas não há tempo para celebrações. Neste exato momento, 800 milhões de homens, mulheres e crianças vão dormir com fome e não sabem se terão o que comer amanhã.

E quem tem fome tem pressa.

Paradoxalmente, esta situação ocorre no momento em que a humanidade é capaz de produzir mais alimentos do que está consumindo.

A fome no mundo hoje não é consequência de acidentes climáticos, da falta de estoques, das dificuldades de transporte ou da quebra de safras.

Não é produzida pela escassez, mas pela desigualdade.

O problema central é que centenas de milhões de pessoas simplesmente não têm dinheiro para comprar comida.

Por isso insistimos tanto na necessidade de apoiar e financiar os programas de desenvolvimento econômico e social dos países mais pobres.

Em 2013, eu tive a oportunidade de participar de um importante fórum na cidade de Adis Abeba, junto com o José Graziano e a Senhora Dlamini-Zuma, presidenta da União Africana, para firmar um compromisso pela erradicação da fome na África até o ano de 2025.

E fiquei feliz em saber que este compromisso foi referendado, em 2014, pela Conferência de Chefes de Estado e de Governo da União Africana.

Trata-se de uma inciativa abrangente, com sólida base institucional, que merece o apoio dos países desenvolvidos e da comunidade internacional.

A África tem todas as condições de desenvolver uma pujante agricultura tropical, como fizemos no Brasil. Tem grandes extensões de terra agricultável, mananciais de água e exposição ao sol. E tem a riqueza imensa de uma população em busca de oportunidades de trabalho digno.

Se receber o apoio necessário aos seus programas de segurança alimentar e aos seus projetos de desenvolvimento, a África deixará de ser um continente marcado pela fome para se tornar um dos celeiros do mundo.

Meus amigos, minhas amigas

Em setembro próximo, na Assembleia da ONU, assumiremos um compromisso em torno dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

O primeiro e imprescindível passo para alcançarmos o desenvolvimento social pleno é erradicar a fome e a miséria. Esse grande passo requer o engajamento de cidadãos e governos, no espírito da Carta de Milão que assinamos ontem.

As organizações não governamentais cumprem, sem dúvida, um papel muito importante nas ações contra a fome e a pobreza no mundo.

Mas quero frisar que esse combate exige fontes permanentes de financiamento; deve ser uma política de Estado.

Os miseráveis de um país dificilmente se organizam em partidos políticos. Eles não têm sindicatos, não têm lobbies no Legislativo, não organizam marchas de protesto, não têm acesso à mídia, seja a tradicional sejam as redes sociais.

É do Estado a obrigação de olhar permanentemente para eles, colocando recursos para os pobres nos orçamentos nacionais, regionais e locais. Recursos perenes, que não fiquem subordinados a mudanças de governo.

Meus amigos, minhas amigas

O balanço dos Objetivos do Milênio aponta claramente a prevalência da fome, das doenças da subnutrição e da miséria entre populações da Ásia e da África que vivem em zonas de conflito – sejam conflitos internos ou guerras com outros países.

Nestas regiões, o Mapa da Fome e o Mapa da Guerra se sobrepõem num desenho trágico. Isso faz recordar que não pode haver paz onde existe fome.

E mesmo onde a violência não é a causa imediata da pobreza, as guerras agravam o sofrimento das populações civis, especialmente das parcelas mais fragilizadas.

Fome e pobreza são também a causa profunda do aumento da migração de povos que perderam a perspectiva de futuro em sua própria terra.

Se queremos construir um mundo seguro para todos, é muito mais eficaz atacar as causas da fome e da miséria, ao invés de lidar com os efeitos perversos dessa tragédia.

Nunca estivemos tão perto de realizar o sonho de acabar com a fome.

Nós temos conhecimentos científicos jamais imaginados para produzir alimento em abundância.

Temos recursos materiais para investir e apoiar ações contra a pobreza ao redor do mundo.

Temos o mais poderoso argumento moral, que é a tragédia de centenas de milhões de crianças famintas.

E temos a comprovação prática de que é possível superar a fome, como fizemos no Brasil e como está sendo feito em outros países.

Promover a segurança alimentar, de forma saudável e ambientalmente sustentável, é mais que um sonho: é uma causa da humanidade.

Uma causa capaz de unir pessoas, governos e instituições.

Este primeiro quarto do Século 21 pode, sim, ser o tempo de construir um mundo mais seguro para todos; um mundo livre da fome e da miséria.

Desejo que as senhoras e senhores realizem um grande trabalho na 39a Conferência da FAO, e que levem a seus países esta mensagem:

Repartir o pão é o primeiro passo para construir a paz.

Muito obrigado".


Fonte: Instituto Lula

sexta-feira, 5 de junho de 2015

ECONOMIA - A política econômica de uma nota só.

Voltamos ao passado. Mas ainda podemos evitar o pior




Voltamos ao passado. O Banco Central deve realizar mais duas altas de juros este ano e nada da inflação recuar.  Aperto no crédito, corte de investimentos, redução dos gastos e de benefícios sociais, mais impostos com os resultados conhecidos, recessão e desemprego, queda da renda e amplo e geral desgaste do governo e do PT.
Um aperto monetário acompanhado de aumento dos juros e cortes de investimentos e do crédito — mesmo com o câmbio acima de R$ 3,00 — pode agravar ainda mais a situação da nossa indústria. Com a queda do emprego no comércio, construção civil e indústria, são urgentes medidas compensadoras, como foi o caso do compulsório para a construção civil.
Criar um Eximbank e uma Secretaria de Comércio Exterior e impulsionar o Mercosul; retomar todas as negociações paralisadas com um conjunto de iniciativas para ampliar nossas exportações de capitais, serviços e tecnologia para a América Latina. Sair da paralisia na política de comércio exterior e desenvolvimento industrial, como propôs o atual ministro desde sua posse.
Dar de fato prioridade às concessões na infraestrutura, resolver de vez os problemas nos modelos ferroviário e portuário, e impulsionar uma nova rodada nos setores rodoviário e aeroportuário. O setor de petróleo, gás e energia, junto com o da infraestrutura, podem garantir, ao lado do agronegócio e do mercado interno, a redução da recessão. E, junto com as exportações, levar o país a crescer em 2016. Daí a importância da volta da Petrobras ao mercado, com captações bem sucedidas e a retomada dos investimentos da empresa no pré-sal.
A manutenção dos juros do Plano Safra mas também da Agricultura Familiar e o volume total de recursos superior ao da safra 14-15 é fundamental. Será um erro grave colocar restrições desnecessárias ao financiamento das safras do agronegócio e da agricultura familiar, particularmente porque esses setores podem ser os únicos a crescer em 2015.
Para minorar a recessão, repetimos, são fundamentais o anunciado lançamento do Minha Casa Minha Vida III e a urgência dada ao programa de concessões — mas com um plano de ação para superar os entraves ambientais e administrativos que, de forma irresponsável e muitas vezes política, paralisam as principais obras de infraestrutura do país.
Apesar dos cortes dos gastos e investimentos e da subida dos juros, desnecessária, que na prática anula os ganhos do ajuste fiscal, com o aumento do serviço da dívida interna, ainda é possível evitar o pior, não abrindo mão do papel do governo e do Estado no financiamento da nossa economia e do nosso desenvolvimento.

POLÍTICA - É preciso reagir aos fascistas.


  Autor: Fernando Brito

nazi
Comecei muito mal o dia, lendo o Diário do Centro do Mundo. Não pelo site, obvio, que é muito bom, mas pela matéria – com o vídeo que reproduzo ao final com um imbecil que, estupidamente, vai provocar e humilhar um frentista de posto de gasolina que abastece um carro, em Porto Alegre.
A razão? O trabalhador é haitiano.
É de embrulhar o estômago, mesmo sabendo que a notícia já circula há dois dias.
Danem-se os que me acharem “políticamente incorreto”, mas este sujeito, além do devido processo judicial, deveria ser posto a correr, depois de ouvir uns desaforos daqueles bem “incorretos”.
O avô ou bisavô deste personagem que maltrata quem vem trabalhar aqui veio de onde? As centenas de milhares de gaúchos filhos, netos e bisnetos de imigrantes por acaso não vieram para cá , como dizia a minha avó (ela própria filha de um imigrante português), com “uma mão atrás, outra na frente”?
Porque, tirando os poucos indígenas que restam neste país, quem é que não veio de algum lugar para trabalhar e viver aqui?
Diz o facínora que não é por ele ser estrangeiro, mas por ser, supostamente um perigoso militar treinado a serviço do comunismo.
Olhem para o pobre coitado, um magrelo, quase um fiapo, humilde, intimidado e para o agressor que vai provoca-lo e vejam quem parece um paramilitar, aliás com um broche de caveira bem significativo.
Só de uma cavalgadura destas usar um uniforme militar, covarde fantasiado de valente, já é uma ofensa às nossa Forças Armadas que, com todos os defeitos que possa ter tido, sempre foi democrática em seu acesso e, até, durante muito tempo, a única forma de garotos de origem humilde terem um ensino e uma carreira digna.
É pior que isso, ainda: chega a ser um ultraje vestir-se como se fosse do Exército Brasileiro, que tem como seu berço e exemplo a Batalha dos Guararapes, onde o sangue de brancos, índios e negros começou a se misturar num campo de batalha para formar o país que somos!
Na verdade, o canalha que faz isso faz porque o rapaz é negro e pobre.
Porque, se este microcéfalo não sabe, hoje está sendo divulgado, na Suíça, um estudo mostra que, pelo sexto ano consecutivo, mais migrantes estão vindo da Europa para a América Latina que, como antes, latino-americanos indo para lá, em busca de trabalho.
Só da Espanha saíram, em 2012, 181.166 cidadãos com destino a países da América do Sul.
E diminui o número de brasileiros (e latino-americanos, em geral) que emigram para conseguir o trabalho que aqui faltava.
Aliás, o que este palerma covarde acharia se um brasileiro que fosse tentar a sorte como entregador de pizza nos Estados Unidos fosse tratado como ele tratou o rapaz?
Se o Ministério da Justiça do Brasil servisse para alguma coisa, este camarada estaria sentado agora numa delegacia de polícia, prestando declarações e respondendo, no mínimo, por assédio.
Mas estamos permitindo que este comportamento fascista se espalhe, sem reação.
Nem que seja a de alguém – de preferência um pequena mulher, para que se veja que a pancada é mais moral do que física – que lhe dê o tapa na cara que merece.
Depois que desinventaram o tapa na cara os canalhas ficaram mais selvagens.

ECONOMIA - O Banco dos BRICs.

O Banco dos Brics e a soberania

Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

Em julho de 1944, quando os destinos da 2a. Guerra Mundial já estavam definidos, uma conferência internacional – essencialmente ocidental – criou as duas instituições que, durante mais de meio século, tiveram a hegemonia da relações monetárias e das condições de cooperação financeira entre os países do mundo.
Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial (então, Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento) foram ferramentas importantíssimas na implantação do domínio econômico da potência vencedora – os EUA – sobre a face da Terra e o nascedouro do padrão-dólar nas relações cambiais, dando um indescritível poder a quem o emitia, pois passou não apenas a ser a referência de valor das moedas como, cruelmente, passou a ser mundialmente entesourado, permitindo a emissão de moeda sem o efeito inflacionário que isso traz: a moeda que não circula não gera inflação, óbvio

A Europa, em frangalhos, pendurou-se na hegemonia norte-americana e, na economia – ao contrário do que ocorreria na política, meses depois, na Conferência de Yalta – o mundo tornou-se unipolar. A tentativa de escapar dela, pela Europa, primeiro através do Mercado Comum Europeu e, depois, pela unificação monetária no Euro, levou 50 anos, e deu uma sobrevida à decadente economia do Velho Continente que, se não podia mais projetar-se globalmente, como na primeira metade do século 20, ao menos conseguiu – aos trancos e barrancos e cada vez mais sob a batuta alemã – preservar a capacidade de, internamente, funcionar como bloco, ao menos até que as crises da dívida pública dos seus membros abrisse rachaduras como a da Grécia e Itália que lutam para remendar por lá.

Primeiro discretamente, ao longo dos anos 80 e da primeira metade dos 90, a China, de 1995 em diante, sai de um papel nulo na economia global para tornar-se, no século 21, uma grande locomotiva da economia mundial, praticando um misto de grande liberalismo na atração de capitais e seletivo protecionismo no seu desenvolvimento industrial, que a tornou o grande player do comércio mundial. E é obvio que com a formação de capital próprio abundante, queira um papel menos dependente e mais isolado na atividade econômica do mundo.

Nesta década, ela assumiu abertamente que quer fazê-lo através de um processo de cooperação muito mais comercial que financeiro, ao contrário dos EUA que sempre pretenderam o controle das economias internas dos países, quando não dos próprios países.

Deu dois passos gigantes, mas pacientes e sem manifestações de exclusivismo, até agora.

O primeiro, com a formação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura – aberto ao mundo todo mas, como o nome indica, voltado para sua afirmação geopolítica no continente e cujas possibilidades, mesmo com os muxoxos públicos dos EUA, não impediu que a Europa – Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Espanha – e a Austrália aderissem à iniciativa, pelo potencial que tem para todo o mundo, inclusive o Brasil.

O segundo, em escala global, sinalizando que quer parcerias duradouras com líderes continentais (no caso da Índia, subcontinentais) de todo o planeta, hoje em processo de afirmação econômica. E que, somados, como relembra
a nota do Ministério da Fazenda, hoje, “representa 42% da população mundial, 26% da superfície terrestre e 27% da economia global”.

O Banco dos Brics, ou Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), como é seu nome oficial é isso, mais do que a capacidade de investimento no curto prazo, e a prova mais convincente é a divisão igualitária da governança da nova instituição.

É o recado mais direto que se podia dar aos EUA, que resistem teimosamente a mudar as regras de participação e influência no FMI, cuja função de prover estabilidade monetária se confundiu com a de ser uma espécie de “polícia econômica” mundial, como os brasileiros acima dos 40 anos sabem que foi, para muitos e para nós.

É por isso que seu anúncio veio casado com – aí, sim, com a hegemonia chinesa, que tem imensas reservas cambiais e é o maior credor do Tesouro Americano – com a criação de um megacolchão monetário – US$ 100 bilhões – um fundo autogerido de reservas monetárias e cambiais para conter eventuais pressões cambiais dos países do BRICS e que, ao contrário do NBD, não exigirá aportes financeiros, mas a virtual disponibilização mútuas das reservas em caso de ataques contra as moedas dos cinco integrantes.

Chamo a atenção para o último parágrafo de nota de Joaquim Levy, que para bom entendedor é o bastante:

“O NBD é uma instituição aberta a qualquer país membro das Nações Unidas. Os países dos BRICS, no entanto, dada sua condição de membros fundadores, manterão um poder de voto conjunto de pelo menos 55%. Ademais, nenhum outro país individualmente terá poder de voto de um país dos BRICS. Esta previsão garante ao Brasil lugar de fala privilegiado na governança do Banco e possibilitará que os BRICS efetivamente possam ver suas experiências de desenvolvimento refletidas no primeiro Banco Multilateral de Desenvolvimento de alcance global estabelecido desde a instituição do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), criado na esteira da Segunda Guerra Mundial.”

O acordo de reciprocidade no uso de reservas e o banco, são, de fato, a primeira resposta – não de confronto, mas de preservação de soberania – dada à Era FMI.

MÍDIA - Vox Populi confirma Ibope: Mídia é urubu.


Vox Populi confirma Ibope: Mídia é urubu

Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:

Triste o país em que a mídia sabota a sua própria função, que é dizer a verdade, e faz campanha sistemática para enganar os cidadãos e manipular a opinião pública.

Em apenas uma semana, dois importantes institutos de pesquisa, o Ibope e o Vox Populi, divulgaram pesquisas que provam o que a gente está careca de saber: a mídia joga contra o Brasil e mente descaradamente, pintando uma realidade pior do que já é.
Se fazia isso quando as coisas andavam bem, agora que a economia vive momentos difíceis, o apocalipse instalou-se!

A imprensa brasileira tornou-se quase uma organização terrorista, que vive de sabotar o país.

O Vox Populi trouxe informações que complementam as informações do Ibope.

O Ibope identificou que 41% dos brasileiros acham que a mídia pinta a realidade pior do que ela é.

O Vox Populi descobriu que a outra metade é manipulada, porque pensa que os dados econômicos são bem piores do que a realidade: acredita que a inflação mensal está acima de 20%. (Está em 8% em 12 meses,
segundo os últimos números do IBGE).

E dois quintos dos brasileiros acham que o desemprego está acima de 40%! (Está em 8%,
segundo o PNAD-IBGE).

O pior de tudo é pensar que esse pessimismo deliberado, oportunista, prejudica a economia, porque desestimula investimentos.

Com isso, acaba promovendo o que se chama de profecia autorrealizável, que é aquela que chama tanto por desgraça que acaba atraindo desgraça.

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Análise / Marcos Coimbra

A crise e suas interpretações

por Marcos Coimbra — publicado 02/06/2015 – 03h53
Na Carta Capital

Pesquisa do Vox Populi revela: quase metade dos brasileiros estima uma inflação mensal superior a 20%. Faz sentido?

Quanto mal uma mídia partidarizada pode causar a um País? Que prejuízos a irresponsabilidade dos veículos de comunicação traz à sociedade?

No Brasil, essas não são perguntas acadêmicas. Ao contrário. Em nossa história, sobram exemplos de períodos em que a “grande imprensa”, movida por suas opções políticas, jogou contra os interesses da maioria da população. Apoiou ditaduras, avalizou políticas antipopulares, fingiu não ver os desmandos de aliados.

O instituto Vox Populi acaba de realizar uma pesquisa nacional sobre sentimentos e expectativas a respeito da economia. O levantamento deixa claro o preço que pagamos por ter a mídia que temos.

A pesquisa tratou principalmente de inflação e desemprego e mostra que a opinião pública vive um pesadelo. Olha com desconfiança o futuro, teme a perda de renda e emprego, prefere não consumir e não tem disposição de investir. Está com medo da “crise”.

Todos sabem quão importante é o papel das expectativas na vida econômica. Quando a maioria se convence de que as coisas não vão bem, seu comportamento tende a produzir aquilo que teme: a desaceleração da economia e a diminuição do investimento público. A “crise” é, em grande parte, provocada pelas expectativas.

O principal sucesso da mídia oposicionista na desconstrução da imagem do governo ocorreu no primeiro semestre de 2013, quando as pesquisas de opinião apontaram o salto das preocupações com o “descontrole da inflação”. Ali, a inflação crônica que conhecíamos desde o Plano Real foi transformada pela “grande imprensa” em aguda. Sem que a “inflação objetiva” mudasse, a “inflação subjetiva” foi acelerada.

Estampada em manchetes e com tratamento de luxo nos noticiários de tevê, a “crise econômica” estava na pauta dos meios de comunicação muito antes de se tornar uma preocupação real da sociedade. Há ao menos dois anos, é o principal assunto.

A nova pesquisa mostra que a quase totalidade dos brasileiros, depois de ser bombardeada durante tanto tempo com a noção de “crise”, perdeu a capacidade de enxergar com realismo a situação da economia.

A respeito da quantia imaginada para comprar, daqui a um mês, o que compram atualmente com 100 reais, apenas 2% dos entrevistados estimaram um valor próximo àquele. Os demais 98% desconfiam de que vão precisar de mais ou de muito mais. Desse total, 73% temem uma alta dos preços superior a 10%. Quase a metade, 47%, estima uma inflação acima de 20%. E não menos de 35% receiam que os preços subirão mais de 30% em um mês.

Convidados a raciocinar com o horizonte do fim deste ano, tivemos 1% de entrevistados seguros de que até lá os preços vão subir em média menos de 5%. Outro 1% estima uma alta entre 5% e 10%. Ou seja: a crer nas projeções para 2015 da inflação, 1% errou para menos, 1% acertou e 98% erraram para mais. E erraram desmesuradamente. Quase a metade se apavora com a perspectiva de uma inflação anual superior a 50%, e, destes, um terço fantasia uma inflação de 80%.

Os números sãos semelhantes nas análises do desemprego. Apenas 7% dos entrevistados sabem que hoje menos de dez indivíduos em cada cem estão desempregados. Cerca de um quarto acredita que o desemprego varie de 10% a 30% da força de trabalho e 38% imaginam que a proporção de brasileiros sem emprego ultrapassa os 40%.

Por esse raciocínio, o cenário até o fim do ano seria dantesco: quase 40% acreditam que o desemprego em dezembro punirá mais da metade da população ativa.

Para tanta desinformação e medo do futuro, muitos fatores contribuem. Nossa cultura explica parte desses temores. Os erros do governo, especialmente de comunicação, são responsáveis por outra. Mas a maior responsável é a mídia hegemônica.

Ninguém defende que a população seja mantida na ignorância em relação aos problemas reais enfrentados pela economia. Mas vemos outra coisa. A mídia deseduca ao deformar a realidade e por nada fazer para seus leitores e espectadores desenvolverem uma visão realista e informada do País. Fabrica assustados para produzir insatisfeitos.

Com isso, torna-se agente do agravamento de uma crise que estimulou e continua a estimular, apesar de seu custo para as famílias e para o Brasil.

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Vale a pena ler o comentário do Marcos Doniseti Vicente, publicado na seçaõ de comentários da Carta Capital:

Dizer que o mundo ‘está se recuperando em bom ritmo’, como fez um leitor aqui, é uma piada. Os EUA tiveram uma queda de 0,7% do seu PIB apenas no primeiro trimestre, contra uma queda de 0,2% do PIB brasileiro no mesmo período. E se levarmos em consideração o tamanho da Dívida Pública Bruta de inúmeros países, veremos que muitos deles estão em uma situação financeira infinitamente pior do que a do Brasil, com seus Estados literalmente falidos. Vejam os números da Divida Pública Bruta de 16 países (incluindo o Brasil): 1) Grécia: 177,1% do PIB; 2) Itália: 132,2% do PIB: 3) Portugal: 130,2% do PIB; 4) Bélgica: 106,5% do PIB; 5) Cingapura: 105,5% do PIB; 6) EUA: 101,5% do PIB; 7) Espanha 97,7% do PIB; 8) França: 95,0% do PIB; 9) Zona do Euro: 91,9% do PIB; 10) Reino Unido: 89,4% do PIB; 11) Canadá: 89,1% do PIB; 12) Egito: 87,1% do PIB; 13) Áustria: 84,5% do PIB; 14) Alemanha: 74,7% do PIB; 15) Índia: 67,7% do PIB; 16) Brasil: 58,9% do PIB.

ESPANHA - Das ruas às urnas.

A Espanha das ruas às urnas: e agora?

Por Lucia Nader, na revista CartaCapital:

Há uma semana a Espanha acordou caminhando à esquerda. Ada Colau foi eleita prefeita de Barcelona e, em Madri, Manuela Carmena foi a segunda colocada e deve ser a prefeita de fato. Ada é ativista antidespejo e uma das protagonistas do movimento 15M e dos protestos de 2011, que fizeram tremer as praças espanholas. Manuela é ex-juíza e defensora dos direitos humanos desde a luta contra a ditadura franquista. As duas representam uma renovação na política espanhola e trazem ao poder o eco das vozes que tomaram as ruas do País há 4 anos. Trazem também um ar fresco para as eleições gerais que acontecerão em novembro e a um mundo descrente na política.
Mas o que há de realmente novo na terra do rei Juan Carlos e de seu filho Felipe VI?

As duas campanhas foram marcadas por inovações e são frutos de coalizões formadas por partidos novos ou alternativos na cena espanhola. Isso, em si, já é uma novidade em um país que, desde 1982, alimenta o bipartidarismo entre o Partido Socialista Obrero Español (PSOE) e o Partido Popular (PP).

A forma como as coalizões se organizaram e construíram seus programas de governo também é uma novidade. O Barcelona en Comú, de Ada Colau, se define como uma plataforma cidadã com “estrutura dinâmica, sustentável e participativa”. Seu coração são as assembleias abertas por bairro e de onde surgem as propostas levadas à plenária. O Ahora Madrid, por sua vez, se define como iniciativa que busca “mais transparência, mais democracia e mais participação”, o que o levou a elaborar colaborativamente seu programa de governo, incluindo consulta aberta pela internet. Os dois se autoproclamam movimentos cidadãos, o que mexe com o imaginário popular e reforça a ligação que tem com movimentos sociais.

O
Podemos, partido que surgiu dos protestos de 2011, compõe as duas coalizões. Mais do que isso, aparece muitas vezes como o grande protagonista das vitórias, o que tanto Ada Colau quanto Manuela Carmena fazem questão de negar. Elas relembram repetidamente a pluralidade de força e vozes que as elegeram e tentam driblar o “pablismo” – nome dado pelos críticos do Podemos ao personalismo de Pablo Iglesias, seu secretário-geral, eleito deputado europeu.

Não há dúvida de que as eleições expressaram a canalização de demandas por mudanças e da energia das ruas. Também é fato que se respira o ar da novidade e que houve uma “repolitização da vida” para ao menos parte da sociedade, como descreveu o pesquisador espanhol Amador Fernández Savater. O aumento de eleitores que compareceu às urnas nas últimas eleições refletem essa afirmação.

Mas, passadas as eleições, há quem aposte que o novo sucumbirá ao sistema, sem conseguir transformá-lo.

O desafio começa pela necessidade de dar concretude aos programas de governo com base nos quais foram eleitas. O contundente “Si, se puede!” ouvido à exaustão nos comícios e atos de apoio às candidatas dará lugar à priorização de políticas, orçamento e interlocutores. A luta contra a corrupção, central nos dois programas, deverá ir além da alegação de que “os bancos não têm nossos telefones e não podem nos comprar”, como disse Lorena Ruíz-Huerta, braço direito de Manuela Carmena, durante o ato de encerramento de campanha em Madri.

Outro desafio latente é a necessidade de se estabelecer alianças. A mais evidente é com o socialista PSOE, partido que até pouco tempo tinha o monopólio da esquerda e continua sendo o segundo partido mais votado nacionalmente, atrás do PP. Um de seus líderes, Pedro Sanchez, disse claramente que não pretende radicalizar a agenda do partido. Segundo ele, cabe às novas forças se adaptarem à “agenda de centro-esquerda e voltada à maioria social” que seu partido representa.

A forma como se dará a relação com os movimentos sociais, daqui para frente, é também incerta. Será preciso criatividade e jogo de cintura para absorver as expectativas daqueles que semearam a mudança. Nada garante que as assembleias e processos de construção coletiva que marcaram as campanhas conseguirão subir os degraus dos palácios oficiais.

Além disso, como em qualquer País, a sociedade civil organizada é diversa e a escolha dos interlocutores principais terá de acontecer e poderá frustrar atuais apoiadores. A influência que o Podemos exercerá nas novas gestões poderá, ainda, afastar alguns movimentos sociais, pois o partido está longe de ser unanimidade entre eles.

Por fim,
a crise de representação e a confiança nas instituições políticas não desaparecerá da noite para o dia. A começar pela campanha de Manuela Carmena, que alegou não representar a ninguém, mas sim ser portadora de apenas "um pacto, um compromisso, dado que até agora a representação só nos trouxe mentiras e descrença – e, por isso, vamos governar a nós mesmos”. O sistema parlamentar no qual ela se inserirá não é, ao menos por enquanto, adaptado a esse ideal e depende de mecanismos de representação.

O que está então em jogo é a capacidade de novos atores lidarem com velhos desafios da política e não se transformarem em partidos tradicionais – movidos pela necessidade de se perpetuarem no poder e cada vez mais distantes dos cidadãos e daqueles que os elegeram.

Aos olhos atrevidos de uma brasileira, uma pista está em não permitir que os movimentos sociais se esvaziem e tornem-se menos reivindicadores, agora que seus pares estão no poder. Dessa distinção de papéis – na qual aos movimentos cabe uma vigilância crítica – depende a saúde da democracia. E não só na Espanha.

As eleições gerais de novembro, quando será escolhido o primeiro-ministro, serão um bom termômetro do fôlego das candidaturas cidadãs. Até lá seguem as apostas se o novo mudará o sistema ou se será mudado por ele.

MÍDIA - Racismo, mídia e a carta de Porto Alegre.


Racismo, mídia e a carta de Porto Alegre

Da coluna "Notas Vermelhas", no site Vermelho:

A mídia brasileira tem de nacional apenas o fato de que seus proprietários, por um acaso, nasceram aqui, mas a mentalidade é colonial. E assim, nas TVs, na publicidade, nos filmes, o padrão físico dominante deve seguir um modelo europeu, que retrata pobremente as multifacetadas e maravilhosas belezas do Brasil e da América Latina, pois tudo passa pelo filtro de uma visão de mundo burguesa e elitista.
“Sempre que venho ao Brasil, assisto à TV para ver como o país se representa. Pela TV brasileira, nunca seria possível imaginar que sua população é majoritariamente negra”, disse a famosa ativista estadunidense Angela Davis, ao visitar o país em 2014. O distanciamento da mídia hegemônica em relação à realidade concreta do povo é enorme e sua visão de mundo, tão pasteurizada, que produz coisas como o livro “Não somos racistas” de autoria do diretor nacional de jornalismo do Sistema Globo, Ali Kamel.

Racismo e vida real

Apesar de, formalmente, o discurso midiático contra o racismo ser uma regra, na prática a visão elitista que predomina transforma a condenação do racismo em um gesto meramente simbólico, com pouco conteúdo real. No caso, por exemplo, de um diretor nacional de jornalismo que diz não existir racismo no Brasil a situação é ainda mais evidente, pois como vai se combater o que não existe?

O grupo de mídia sul-africano Naspers, que foi um dos sustentáculos do apartheid, controla 30% do grupo Abril, editora da revista Veja. Neste último mês de maio, ironicamente o mês em que se comemora a abolição dos escravos, a 12ª turma do Tribunal Regional de São Paulo manteve a condenação do jornal Folha de S. Paulo, por racismo. Segundo o portal Comunique-se, em notícia que também foi reproduzida pelo Portal Vermelho, “a decisão foi unânime entre os desembargadores da 12ª Turma do Tribunal Regional de São Paulo”. Segundo o Juiz Jorge Eduardo Assad, o jornal permitiu que seus funcionários trocassem mensagens “com piadinhas sobre raça, cor ou etnia (...) mas nada fez para impedir a prática”. Em sua defesa, a Folha alegou que o caso se tratava de uma simples “brincadeira” entre os funcionários.

Racismo – De brincadeira em brincadeira...

Assim, de brincadeira em brincadeira, o discurso mais comum dos racistas, hoje em dia, começa com “eu não sou racista, mas...” ou uma variante “eu tenho muitos amigos negros, mas...”. Este tipo de hipocrisia é o espelho fiel de uma mídia hegemônica que reproduz integralmente os vícios e preconceitos da elite da qual é porta-voz. Não surpreende, portanto, quando a própria imprensa empresarial se vê confrontada com opiniões que raiam o absurdo, como esta carta (abaixo) publicada pelo jornal Zero Hora de Porto Alegre (RS), neste último domingo (31), onde o leitor contesta um colunista do periódico que havia apoiado a política de acolher refugiados do Haiti e de outros países.

A carta espelha a contradição de uma mídia que vive promovendo pequenas campanhas “contra o preconceito” ao mesmo em que o grosso de sua programação reforça o estigma e o estereótipo. Como se sabe, de nada adiantam bons desejos sem uma prática correspondente ou, como diz o poeta, pouco vale a “distância entre intenção e gesto”. A carta de Porto Alegre, que está longe de ser um exemplo isolado, revela um alarmante grau de atraso cultural e civilizacional que, infelizmente, só tende a aumentar se não formos capazes de promover uma real democratização da comunicação que tenha, como primeira e salutar iniciativa, criar mecanismos que estimulem a mídia a se autocriticar e a refletir sobre sua própria prática.



Dilma: A redução da maioridade penal é um fato gravíssimo

A coluna Painel da edição desta terça-feira (2) do jornal Folha de S. Paulo diz, citando fontes “petistas”, que a presidenta Dilma Rousseff não se posiciona claramente contra a redução da maioridade penal pois lidera um governo “fragilizado”. Se o jornal Folha de S. Paulo de vez em quando resolvesse fazer jornalismo, poderia ter evitado esta “barriga” de sua mais importante coluna.

O jornal, por questões ideológicas, não fez a cobertura de um fato relevante do mundo político que foi a 10ª Conferência Nacional do mais antigo partido em atividade no Brasil, o PCdoB, que aconteceu em São Paulo nos dias 29, 30 e 31 de maio. A Folha, como os demais órgãos da mídia hegemônica, boicotou o encontro dos comunistas, e não assistiu à veemente condenação da presidenta Dilma à proposta de redução, feita em discurso no ato de abertura da Conferência no dia 29 de maio, portanto cinco dias antes da informação furada do Painel. Assista ao vídeo com o trecho do discurso em que Dilma aborda o tema.

Petrobras: O retumbante sucesso de uma empresa “moribunda”

A mídia hegemônica vaticinou e muita gente acredita: “Dilma acabou com a Petrobras”. No entanto, a estatal lançou recentemente no mercado US$ 2,5 bilhões em títulos com vencimento em cem anos. Só uma empresa com grande futuro e credibilidade poderia atrair investimentos deste tipo. Se alguém perguntasse a opinião de Míriam Leitão, Merval Pereira ou a de qualquer outro colunista amestrado, sobre este investimento, desistiria na hora.

Mas até os executivos que adoram ler as colunas golpistas desta gente sabem que eles não fazem análise econômica ou conjuntural, travam tão somente a luta política. Ninguém os leva a sério para tomar qualquer tipo de decisão estratégica. Todos os títulos disponíveis foram comprados e o mercado mostrou apetite para quatro vezes mais. O único jornal que deu na capa a informação, na edição desta terça-feira (2), foi o Valor Econômico: “Bônus de cem anos dá US$ 2,5 bi à Petrobras”. E isso por que, segundo a mídia hegemônica, a Petrobras está quebrada. Quando estiver saudável vai lançar o bônus de mil anos. Aí pode ser que algum colunista amestrado compre, achando que tem a ver com o 3º Reich.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

FUTEBOL - Hawilla e o FBI.



Hawilla colabora com o FBI desde 2013

 
Jornal GGN - J. Hawilla colabora com a polícia federal norte-americana desde o final de 2013. A abordagem do FBI começou após o dirigente ter sido gravado por outro envolvido e, a partir daí, Hawilla passou a usar grampo em conversas com outros investigados no esquema de corrupção da FIFA.
 
Da Folha de S. Paulo
 
 
Empresário paulista usou grampo em conversas com José Maria Marin, segundo investigação dos Estados Unidos
 
FABIANO MAISONNAVE
 
Um dos principais pivôs da investigação sobre a Fifa, o empresário paulista José Hawilla colabora com o FBI (polícia federal norte-americana) desde o final de 2013.
 
A partir daí, ele passou a usar grampo em conversas com outros envolvidos em esquemas de pagamento de propina e lavagem de dinheiro ligados a contratos de futebol, incluindo o então presidente da CBF, José Maria Marin, que está preso na Suíça há uma semana.
 
A Folha apurou que abordagem do FBI ocorreu logo após o próprio Hawilla, 71, ter sido gravado por outro envolvido. Em dezembro de 2014, ao final de cerca de um ano de colaboração, ele formalizou um acordo com a Justiça pelo qual se declara réu confesso e se compromete a pagar US$ 151 milhões (cerca de R$ 473 milhões), dos quais o empresário já depositou US$ 25 milhões (R$ 78 milhões).
 
Hawilla é fundador e dono da Traffic, a maior empresa de marketing esportivo da América Latina. Seus negócios incluem também a TV TEM, afiliada da Rede Globo que transmite para 318 municípios do interior paulista.
 
Segundo reportagem recente do jornal "Miami Herald", em abril do ano passado, o empresário gravou até uma conversa com Aaron Davidson, presidente da Traffic USA, filial da sua empresa nos EUA. Davidson também foi indiciado.
 
Além de Hawilla, ao menos outro réu confesso, o ex-membro do Comitê Executivo da Fifa Chuck Blazer, concordou em gravar conversas para o FBI sobre propina, segundo o "New York Times".
 
A conversa obtida pelo FBI entre Hawilla e Marin ocorreu em abril do ano passado, em Miami. Parte do diálogo é reproduzido textualmente na acusação da Justiça divulgada na última quarta (27), dia em que houve a prisão de sete dirigentes da Fifa na Suíça.
 
O assunto entre eles era a distribuição do pagamento anual de R$ 2 milhões de propina relacionada aos direitos de transmissão da Copa do Brasil, torneio que é disputado desde 1989.
 
Sempre de acordo com a investigação americana, Marin sugere que o seu antecessor, Ricardo Teixeira, deveria parar de receber. A divisão a partir dali só seria entre ele e Marco Polo Del Nero, que assumiu a CBF neste ano.
 
Teixeira e Del Nero não são citados nominalmente na acusação, mas aparecem, respectivamente, como "coconspirador 11" e "coconspirador 12". Hawilla, por sua vez, aparece como "coconspirador 2".
 
O diálogo em poder do FBI é este, em tradução livre: "Em determinado momento, quando [Hawilla] perguntou se era realmente necessário continuar pagando propinas para seu antecessor na presidência da CBF, Marin disse: 'Está na hora de vir na nossa direção. Verdade ou não?'.
 
"[Hawilla] concordou dizendo: "Claro, claro, claro. Esse dinheiro tinha de ser dado a você [ou vocês]'. Marin concordou: "É isso".
 
Após a prisão de Marin e a revelação do teor da investigação, Del Nero deixou o congresso da Fifa na Suíça e voltou às pressas para o Brasil.

FUTEBOL - Ex- vice da Fifa tem medo de morrer.

Ex-vice da Fifa tem medo de morrer por ter “avalanche de segredos”




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Da ESPN:
 
Ex-vice-presidente da Fifa e um dos investigados nos escândalos de corrupção que assolam o futebol, Jack Warner disse nesta quinta-feira que “teme” pela sua vida e que pode provar uma ligação entre a entidade que rege o esporte a uma eleição em Trinidad e Tobago.
Uma das 14 pessoas na mira da justiça norte-americana, Warner garantiu que tem “uma avalanche” de segredos sobre o presidente, agora interino, da Fifa Joseph Blatter. “Eu não vou mais guardar segredos. Eu, com certeza, temo pela minha vida, mas nem a morte vai impedir a avalanche que está por vir”, afirmou em uma transmissão no país centro-americano.
Sofrendo um pedido de extradição dos EUA, o cartola assegurou que tem um relatório no qual fica provada a ligação entre Fifa, seu partido, o congresso de Trinidad e Tobago e as eleições de 2010 no país; ele citou especificamente Blatter o primeiro-ministro.
Jack Warner foi vice-presidente da Fifa e chefe da Concacaf. Com diversas acusações de fraudes, acabou suspenso pela Fifa em 2011, episódio pelo qual ele culpa. Em dezembro de 2010, ele apoio a eleição de Kamla Persad-Bissessar como primeira ministra do País, mas depois rompeu com o partido.
Depois de ser detido na Suíça, e depois ter conseguido a liberação, o ex-dirigente pretende lutar contra o pedido de extradição dos EUA. “Eu não tenho nenhuma intenção de deixar eles me privarem de minha liberdade”, concluiu.

MÍDIA - A agonia da Veja.

A Editora Abril agoniza em praça pública. Por Paulo Nogueira


Um disparate
Um disparate
Em 1989, a revista Veja deu uma capa que provocou uma barulhenta polêmica.
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Cazuza estava morrendo de AIDS, e seu emagrecimento avassalador vinha sendo acompanhado por todos em fotos. Na etapa final, Cazuza parecia uma caveira.
A capa da Veja estampava Cazuza na etapa final com a seguinte chamada: agonia em praça pública.
A Veja matou em vida Cazuza.
Era um tempo em que os autores não assinavam textos na Veja. Aos curiosos, quem escreveu o texto final foi Mario Sergio Conti, um dos jornalistas mais maldosos que conheci. (Hoje, MSC faz os espectadores dormir num programa de entrevistas na Globonewzzzzzzzz.)
Bem, mas o que eu ia dizer é que, passados cerca de 25 anos, a Veja poderia dar uma outra capa na mesma linha agônica.
Apenas, em vez de Cazuza, o personagem seria a Editora Abril, que publica a Veja.
A Abril parece também estar com AIDS, não na versão controlável de hoje, mas no modelo fatal dos dias de Cazuza.
O emagrecimento da editora é extraordinário.
Nesta semana, no que já se tornou uma rotina, mais revistas foram fechadas (ou despachadas para a semimorte na Editora Caras, da qual os Civitas são sócios) e mais demissões foram feitas.
Entre alguns ex-abrilianos, houve uma comoção.
No Facebook, uma jornalista veterana que trabalhou mais de vinte anos na Abril postou a informação e disse que sentia vontade de chorar.
Mas ponderaram a ela que a Abril de hoje em nada parece com a Abril de um passado já remoto.
A alma da empresa se transformou, ou se revelou, ainda não tenho meu diagnóstico definitivo, mesmo tendo passado 25 anos na empresa.
A Abril é maligna.
A Veja faz mal ao país. Pratica um jornalismo criminoso – ou de exceção, como definiu seu diretor Eurípides Alcântara, seja lá o que isso representa.
Mente, distorce, estimula o ódio e a divisão entre os brasileiros. Investe sem pudor nenhum contra a democracia, como se viu na capa lançada um dia antes do segundo turno das últimas eleições. O único objetivo era interferir, com um golpe sujo, no resultado.
A Veja se infestou de discípulos de Olavo de Carvalho, o que significa uma visão de mundo ultraconservadora, homofóbica e outras coisas sinistras do repertório dos olavetes.
A ex-abriliana chorosa se confortou quando lhe foi dito, por algumas pessoas, que já não era a Abril dela.
Ela reconheceu que já não lia nada da Abril fazia muito tempo, por discordar inteiramente da linha da Veja e da empresa. “Sequer em consultório de dentista”, afirmou.
A Veja matou Cazuza en vida em 1989
A Veja matou Cazuza en vida em 1989
A Abril agoniza em parte como resultado da emergência da Era Digital, e em parte como fruto da inépcia de seus donos.
Como um dinossauro, a editora não conseguiu se adaptar aos novos tempos. Demorou para aceitar que a internet ia engolir a mídia impressa (e as demais, como agora ficou claro).
Numa de minhas últimas conversas com Roberto Civita, pouco antes de eu sair da Abril, ele me perguntou, aflito: “Onde estão as fotos como as da Life?”
Ora, elas estavam, e estão, na internet, mas Roberto não conseguia enxergá-las.
Hoje, você vê a Abril fazendo bobagens extraordinárias na internet. Uma das maiores, e escrevi sobre isso, é a TVeja.
Veteranos jornalistas têm conversas intermináveis sob uma câmara em geral estática, numa negação completa à cultura digital.
No canal da TVeja no YouTube, você encontra os resultados desse voo cego. Visualizações miseráveis, às vezes na casa das dezenas.
É claro que ninguém da Veja e da Abril se deu ao trabalho de pesquisar melhores práticas mundiais de tevê no jornalismo digital.
Quanto dura a agonia?
Revistas têm consistentemente cada vez menos leitores e cada vez menos anunciantes.
Como carruagem ou filmes para máquinas fotográficas, revistas se transformaram num produto em extinção.
E o que Abril sabe, ou sabia, fazer era revistas.
É previsível que num prazo entre curto e médio sobrem do quilométrico portfólio da Abril umas três ou quatro revistas, e mesmo assim condenadas, elas também, à morte.
Veja, Exame, talvez a Claudia, talvez a 4 Rodas, e vamos parando.
Um próximo passo inevitável vai ser a saída do caro prédio da Marginal do Pinheiros.
A Abril alugava as duas torres. Já devolveu uma, e não deve tardar a entregar a outra também.
Quanto aos funcionários, os que sobreviveram aos cortes recentes sabem que podem perfeitamente estar no próximo. E isso faz da Abril uma empresa tóxica para trabalhar.
Uma coisa particularmente bizarra é que mesmo agonizando e fazendo bobagens notáveis, a Abril, pela Veja, dá aulas diárias ao governo de como administrar o país.
Parece o Estadão, que uma vez publicou um editorial no qual dizia: “Como vínhamos alertando a Casa Branca etc etc.” Os Mesquitas não conseguiam deixar de pé seu jornal, e mesmo assim ofereciam conselhos ao presidente americano.
Não creio em outra vida, em nada disso. Sou um clássico e irremediável ateu.
Mas fico aqui pensando que Cazuza bem que merecia, de algum lugar, observar a Veja sofrer a agonia em praça pública que ela impiedosamente colocou na capa sobre ele em 1989.

POLÍTICA - Artigo do senador Roberto Requião.

Requião: Destruamos a política econômica anti-Brasil, anti-povo de Joaquim Levy, antes que destrua o Brasil


Senador Roberto Requi„o (PMDB-PR) analisa as opÁıes de polÌtica econÙmica do paÌs desde era FHC ao reagir a crÌticas da oposiÁ„o ao governo
Petrobrás + Fazenda: uma solução conhecida contra o caos
por Roberto Requião, via e-mail pela assessoria do senador
Não me confundo com a oposição, mas não posso esconder a minha angústia em relação à realidade econômica nacional. O tempo urge para que tomemos providências que se oponham ao caos que se anuncia. Este artigo busca fazer uma análise crítica do momento em que vivemos e propor uma saída conhecida, porém eficaz.
Estamos em uma situação econômica de tal gravidade que o único ponto de equilíbrio que nos oferecem é o da contração da produção e do emprego, já em marcha, como apontam todos os indicadores. O ponto de equilíbrio que nos oferecem é o ponto de equilíbrio da depressão.
É assustadora a previsão de alguns economistas de que teremos uma contração da ordem de 5% neste ano – sendo 2% negativos por conta do ajuste-Levy, e 3% negativos por conta da Operação Lava Jato.
O impacto, no caso desta última, é a paralisação ou a diminuição dos investimentos da Petrobrás, investimentos que se refletem numa cadeia produtiva estimada em 13 a 17% do PIB. Um impacto fortíssimo.
A declaração de inidoneidade de grandes empresas, por parte da Justiça Federal do Paraná, se efetivada, tem o potencial de destruir 500 mil empregos diretos e 1,5 milhão de empregos indiretos nos Estados produtores de petróleo e de equipamentos.
E isso se estende à receita de Estados e municípios, que por sua vez já estão paralisando pagamentos de fornecedores e até de pessoal, criando o que se chama risco sistêmico, afetando inclusive bancos.
Essa tragédia é desnecessária. Não há qualquer razão jurídica, econômica ou filosófica que leve a se confundir empresa com empresário, imputando as empresas, inclusive a Petrobrás, os crimes ou fraudes dos empresários ou seus executivos. Empresas não são homens, são ferramentas na mão dos homens.
Por que algo conceitualmente tão simples não resultou ainda em um entendimento franco entre Governo e Judiciário a fim de limpar a estrada para a retomada dos investimentos da Petrobrás?
Parece que não há hoje, na República quem tome decisões definitivas. Temos a sensação desconfortável de que o país está à deriva. As instituições republicanas esfrangalham-se, esfarrapam-se. O Legislativo é bloqueado pelo Executivo, o Executivo é bloqueado pelo Judiciário. O Judiciário, às vezes, bloqueia-se pelo comportamento de seus próprios agentes em razão de ações inconstitucionais, arbitrárias, oportunistas ou contraditórias. O juiz que se apodera de bens de um denunciado que sequer foi julgado, talvez não seja mais que um exemplo.
É inevitável a sensação de falta de autoridade legítima, quando se confere poderes exagerados a um tecnocrata para gerir a área estruturante do Governo. Hoje nada funciona no governo e na economia em geral sem a anuência ou ao menos a influência do Ministério da Fazenda.
Abstraio-me aqui de toda consideração de caráter partidário ou pessoal, o que me opõe ao ministro Levy é a sua obsessão por políticas neoliberais anacrônicas que estão destruindo a Europa e outros países.
Ultra-ortodoxo em suas convicções, Levy recusa-se a aceitar o conhecimento econômico básico de que nenhum país deve fazer política de ajuste recessivo em situação de estagnação ou de recessão. Ora, estamos em recessão, ou crescimento zero, desde o ano passado.
O ajuste realmente necessário não é nas contas públicas. É nas contas externas que precisamos fazer um ajuste. Nosso déficit público é decorrente basicamente dos juros extraordinariamente altos e da recessão causada em grande parte por esses juros.
Nesse momento de recessão, o governo deveria apoiar o investimento público e privado para fazer a economia voltar a crescer, e não afugentá-los com cortes orçamentários e juros elevados.
O ministro, no entanto, reduz a economia às relações contábeis, ignorando tudo mais, notadamente as questões humanas e sociais relativas ao emprego, à renda real, à produção, ao bem-estar dos cidadãos.
Em razão poder absoluto sobre as áreas econômicas, do vazio de um Congresso virtualmente omisso ou sem rumo, da simpatia da mídia monopolista e conservadora, o ajuste-Levy é um risco para a Nação Brasileira. Infelizmente, o ministro tem a cabeça feita e jamais recuará dessa política.
Levy se transformou em um superministro, com poderes extraordinários, pela omissão de uns e oportunismo de outros. Bizarramente, vemos invertida a configuração entre Governo e oposição. Os oposicionistas não atacam Levy porque são unhas da mesma carne, enquanto os governistas ficam inibidos de atacá-lo, porque ele é ministro do governo que apoiam.
Ainda assim, apesar desse maniqueísmo, dessa visão dicotômica das coisas, dessa disputa de torcidas organizadas, que sempre se acentua em situações de crise, o Congresso é, paradoxalmente, o único foro para tomada de decisões que resta à República em sua defesa.
Nessa “sinuca de bico”, precisamos esquecer velhas disputas políticas, ainda que temporariamente, e buscar um caminho comum para a salvação da Nação Brasileira, que está sendo atacada em suas bases econômicas e em sua soberania.
Mas esse não é nosso único problema. A Petrobrás e o Pré-Sal são hoje nossa esperança de saída da crise e superação do subdesenvolvimento. Nenhum de nós ignora o que a empresa representa e ainda pode representar para a economia nacional
Não estou falando em termos românticos, sobre o que significa a Petrobrás para a alma brasileira, fruto que foi de um dos maiores movimentos de massas que tivemos em nossa história. Falo da Petrobrás objetivamente, como fonte de emprego, de impostos, de renda, de acumulação de tecnologia nacional.
Essa Petrobrás responde diretamente por algo entre 13 a 17% da economia, sendo a espinha direta e indireta a sustentar milhões de empregos no país. Mas como anda a Petrobrás com a Operação Lava Jato?
Cito informações veiculadas pelo jornal O Globo, há duas semanas. Textualmente:
“A promessa do Pré-Sal não fará mais da Petrobrás a principal locomotiva do crescimento econômico do País nos próximos anos. No novo Plano de Negócios de 2015 a 2019 que, segundo fontes, deve ser divulgado no dia 10 de junho, a estatal vai pisar no freio na tentativa de reduzir o seu nível de endividamento. Os investimentos vão oscilar de 129 bilhões de dólares – (387 bilhões de reais)- a 141 bilhões de dólares (423 bilhões de reais) no período, conforme dados da própria companhia. Ou seja: o menor nível de investimentos desde a crise global de 2008 e representará uma queda de até 41% em relação ao Plano anterior, de 2014 a 2018, de 220,6 bilhões de dólares (661,8 bilhões de reais).”
Em razão da drástica redução planejada pela Petrobrás, o investimento vai passar de uma média anual de 35 bilhões a 40 bilhões de dólares, até 2014, para 25 bilhões de dólares a 29 bilhões de dólares, até 2019.
“Esse freio será muito ruim para a indústria e para a economia – argumenta José Velloso, da Associação Brasileira das Indústrias de Máquinas, a Abimaq – pois a Petrobrás responde pela metade dos bens de capital comprados no país”.
Parar a Petrobrás por meios judiciais, administrativos ou contábeis tende a arrastar para o fundo do poço toda a economia. Por motivos puramente ideológicos, um monocrata da Fazenda não pode exigir a redução intempestiva e radical dos investimentos da empresa. O motivo alegado é reduzir o endividamento da empresa para apenas 282,1 bilhões de reais – uma ninharia em face do patrimônio de trilhões de dólares armazenados no Pré-Sal. Esse equívoco ficou mais dramático depois que a empresa divulgou que atingiu um custo na extração de petróleo de apenas nove dólares por barril, pois isso torna qualquer endividamento para extrair esse petróleo barato e sustentável.
Ademais, ainda que consideremos a Petrobrás uma empresa como outra qualquer e o investimento no Pré-Sal como outro qualquer, sabemos que é possível aumentar o investimento reduzindo a dívida: bastaria que o governo promovesse um aumento soberano no capital da empresa.
Mas a Petrobras não é uma empresa como outra qualquer, é uma das bases de nossa economia e de nosso desenvolvimento tecnológico. Isso deve relativizar as decisões públicas sobre o nível de endividamento da empresa, que, aliás, não é nada alto, se comparado ao seu patrimônio.
O desemprego está aumentando velozmente: a taxa fechou o primeiro trimestre em 7,9%, sete décimos acima da taxa do primeiro trimestre do ano passado, e 1,4 ponto acima do quarto trimestre do ano passado.
Os números absolutos, embora impressionantes, não são os mais relevantes. O importante é detectar qualitativamente a tendência. E a tendência – no contexto do ajuste-Levy e da degradação da economia – é de uma piora substancial.
Os economistas que tenho consultado e muitos que publicaram artigos recentemente falam que, se nada for feito, a taxa de desemprego pode chegar a um nível recorde da ordem de 15% até o ano que vem. Assim, desgraçadamente, conheceremos, então, o que é uma grande depressão, o que não conhecemos nem nos anos 30 do século XX, quando o mundo sucumbiu. Seria uma tragédia, como hoje vivenciada por vários países europeus.
Os economistas que nos alertam não falam isso para que aconteça ou torcendo para que aconteça. Pelo contrário, falam para que não aconteça. As previsões econômicas são portadoras desse paradoxo: se aquele que prevê tem credibilidade, o pior não acontece porque, em face dessa credibilidade, os agentes econômicos com o poder de tomar decisões cuidam de tomá-las na direção de se evitar o pior. Concordo com eles, e espero que nosso governo mude e impeça que as previsões se realizem.
Gostaria muito que o senhor Joaquim Levy levasse em conta esses alertas e tomasse as providências necessárias. Entretanto, não acredito que ele vá fazê-lo. Ele é vítima de uma ideologia, a ideologia monetarista, que só confia em taxas de juros estratosféricas, superávits primários e câmbio livre – o famoso tripé o mesmo que ancorava as políticas anunciadas por candidatos da oposição na última eleição presidencial.
Levy é o homem do corte. O homem da tesoura, como se dizia dele quando esteve à frente da Secretaria do Tesouro. Não é o homem dos investimentos, dos direitos sociais, do emprego, do crescimento, dos projetos nacionais. Dependendo dele, vamos nos afundar cada vez mais na recessão e na depressão.
Para restabelecer a normalidade no mercado interno e na economia do petróleo a solução seria simples e conhecida:
1º- O Tesouro, exercendo sua soberania, emite títulos da dívida pública para repassar os recursos equivalentes à Petrobrás, através do BNDES.
Com esses recursos, a Petrobrás sustenta seus investimentos nos níveis necessários para cobrir as despesas correntes, de caixa e de ampliação da capacidade produtiva.
Assim, ela preserva e amplia sua agenda de investimentos, pelo menos ao nível de outubro do ano passado, quando a crise tornou-se aguda.
2º- Em contrapartida, a Petrobrás pode emitir debêntures conversíveis em ações, a fim de dá-las em garantia do empréstimo do BNDES.
Apenas essa providência restabeleceria a corrente de pagamentos e recebimentos da Petrobrás, possibilitando a restauração também da cadeia de recebimentos e pagamentos das empresas privadas que são fornecedoras dela.
Com isso, eliminamos os três por cento de queda do PIB por conta da Petrobrás. Restariam os dois por cento por conta do efeito Levy. Para estabilizar a economia, e eliminar a taxa negativa de 2%, teríamos duas alternativas: ou Joaquim Levy muda a política econômica recessiva que adotou ou ele se despede do Governo possibilitando a salvação da Nação.
A política econômica em curso vai destruir as relações federativas na medida em que estrangulará os estados e municípios na sua capacidade de pagar a dívida pública gerida pelo Governo federal.
É dispensável dar números porque todos sabem que a dívida dos Estados, que cresceu exclusivamente por conta de juros elevados que gera passivos impagáveis, especialmente numa economia em recessão.
A linha de solução é acabar com a crise sistêmica na raiz: o crédito e o investimento público. Uma vez restaurada a linha de crédito, pelo Tesouro e BNDES, em favor da Petrobrás, salvam-se as empresas fornecedoras dela; com isso, salvam-se também os orçamentos de Estados e municípios sob influência direta ou indireta da Petrobrás. Quer dizer, praticamente a totalidade dos municípios, considerando-se as conexões paralelas na economia. Salvam-se, sobretudo, centenas de milhares de empregos, o que deve ser nosso foco principal.
Qual seria o obstáculo para começar essa reversão da economia? É o ministro da Fazenda, não por sua pessoa, mas por sua política. Ecônomos como ele acham que a dívida pública não pode crescer em circunstância alguma, mesmo na recessão e na depressão. Aliás, se a dívida crescer em razão dos juros altos não tem problema para eles…
É a mais radical interpretação e aplicação do monetarismo vulgar. Sim, porque em determinadas circunstâncias, como em situação de calamidade, crise social ou guerra, até mesmo Friedman, o pai do monetarismo clássico, admitia o aumento da dívida pública.
E nós estamos em guerra. Uma guerra contra a depressão e o desemprego é o equivalente fiscal de uma guerra real. Nessa guerra, é absolutamente legítimo recorrer ao Tesouro para salvar a Nação.
Dirão os monetaristas vulgares que isso geraria inflação. Mas como, se a economia está em recessão, caminhando para a depressão? Inflação de demanda só existe quando o consumo supera a oferta. Estamos numa situação em que o consumo, afetado pelo desemprego e pela queda da renda do trabalho, está muito aquém da oferta.
A inflação que está aí é fruto exclusivamente da indexação remanescente na economia, do repique cambial, do reajuste radical dos preços administrados exigido por Levy e da política de juros, que afeta custos; logo, não tem nada a ver com aumento da moeda e da dívida.
Paradoxalmente, alguns bancos e seus fraternos jornalistas só consideram desastres os aumentos acima de 0,01 ponto na taxa de inflação. Mas, para eles, tudo bem, se a inflação aumenta em razão de medidas antissociais como reajuste preços administrados, aumento de juros, indexação de preços ou aumento de juros.
Esses jornalistas amigos das finanças ficariam estarrecidos, se o aumento da dívida mobiliária fosse usado para ajudar a Petrobrás a superar a crise. Diriam que isso levaria ao rebaixamento da nota do Brasil pelas agências de risco internacional. Paradoxalmente, se esse aumento fosse decorrente de um aumento exagerado dos juros, eles não ficariam assustados, e nem as agências de risco.
Esse tipo de “raciocínio” é uma boa combinação de estupidez com ignorância. Afinal, não há nada mais desmoralizado no mundo hoje, depois da crise de 2008, do que agências de risco. Todos os representantes das principais agências foram chamados às falas pelo Senado norte-americano e alegaram que suas notas não passam de “opinião”.
Com isso, tiraram sua responsabilidade em relação às previsões róseas que fizeram dos títulos-lixo aos quais davam as notas máximas antes da crise. Era mera opinião muito lucrativa, aliás.
Não acredito que as agências de risco irão rebaixar a nota da Petrobrás e do Brasil. O tesouro do Pré-Sal nos tornou uma nação financeiramente rica. Por isso, temos um ótimo crédito, como mostraram recentemente os chineses. Mas se nosso crédito for rebaixado, temos uma excelente alternativa: o Banco dos BRICS, que está pronto para ser acionado, e que não foi acionado ainda porque há resistências impertinentes no Banco Central brasileiro à conversão de parte ínfima das reservas externas brasileiras em capital do banco.
Sim, o Banco Central do Brasil também faz política externa. Com apoio do Levy, o BC está resistindo ao maior lance estratégico do Brasil desde a fundação da República, a aproximação com os demais países do BRICS.
A interação entre uma mídia hostil e as forças políticas oposicionistas, junto com a ambiguidade do governo e a perplexidade da esquerda, diante do rumo tomado pela política econômica, criou entre nós a situação de caos percebida por grande parte da população.
Não há rumo em nossa política. Cada um pensa por si. No Congresso, presidente da Câmara não se entende com presidente do Senado, ambos não se entendem com lideranças do Governo; deputados e senadores agem individualmente, nem sempre com objetivos definidos, terreno fertilíssimo para o oportunismo e o aparelhamento partidário do Estado.
Por que vivenciamos essa situação? Simplesmente porque a única coisa mais ou menos definida trazida ao Congresso é uma política econômica que agride a nacionalidade.
Isso leva a uma resistência da Nação real, ao mesmo tempo em que possibilita aos arrivistas tentar encontrar um espaço confortável junto aos atores da política econômica que, circunstancialmente, mandam no país.
Entretanto, como não estamos apenas em uma crise fabricada, mas sim em uma crise que se tornou efetiva, aos poucos as forças produtivas reais, empregados e empregadores, tomam consciência de que é sua sobrevivência que está em jogo e, portanto, precisam reagir.
E a única reação possível é o combate à política econômica do senhor Levy e a substituição dessa política recessiva por uma política comprometida com o crescimento e o desenvolvimento econômico e social brasileiro.
Ponho-me aqui, teimosamente, a repetir quantas vezes for possível: destruamos a política econômica neoliberal, anti-Brasil, anti-povo, anti-emprego, anti-produção de Joaquim Levy. Ela deve ser destruída, antes que destrua o Brasil.
Talvez haja uma solução menos traumática. Levy, sendo um homem honrado, pode simplesmente procurar a Presidente e devolver-lhe o cargo sob o argumento de que sua política não confere estabilidade ao Governo. E a Presidente, refletindo sobre o conjunto da situação, nomearia uma equipe progressista homogênea para garantir essa estabilidade.
A razão para isso é simples: Levy não teve seus projetos aprovados no Congresso por seu conteúdo, mas pela aritmética partidária. A oposição votou contra os projetos em que acredita, e a situação votou a favor de projetos em que não acredita. Francamente, isso jamais produzirá estabilidade política no país.
Portanto, mais uma vez: delenda est a política econômica neoliberal.
Roberto Requião é senador (PMDB-PR).