domingo, 4 de outubro de 2009

BRASIL E OLIMPÍADAS DE 2016: uma fotografia política e estratégica.

A liderança do gigante sul-americano se confirma com a eleição do Rio de Janeiro como sede olímpica de 2016. Seu futuro irá depender como o país irá gerir suas riquezas petrolíferas submarinas e de seu desenvolvimento militar.

A opinião é de Clóvis Brigagão, diretor do Centro de Estudos das Américas e pesquisador da Universidade Cândido Mendes e do Nobel Institute. em artigo para o jornal espanhol El País, 03-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A imagem idílica do Brasil como um país "deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e a luz do céu profundo..." parece se desvanecer diante de seus desafios atuais. Graças à diplomacia profissional do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, e às novas rotas econômicas, federativas e corporativas, a integração internacional do Brasil se amplia de maneira vigorosa dando passos que ultrapassam suas fronteiras.

Hoje, o Brasil tem a maior taxa mundial de competitividade, segundo o Fórum Econômico Mundial, o que está nos levando a sair da crise em melhores condições: fomos os primeiros em obter a qualificação de país seguro para o investimento exterior. Contudo, em chave interna, continuam existindo sérios problemas: infraestrutura, segurança pública, desigualdade, passivos ambientais e uma baixa institucionalidade política.

O Brasil dispõe de muitas reservas de água (e de energia hidrelétrica), terá muito gás e petróleo (as jazidas marinhas depositadas sob uma grande camada de sal) e aspira a ser uma potência – com fins pacíficos – em energia nuclear. Com reservas estimadas em 35 bilhões de barris nessas jazidas marinhas, acelerou-se o debate sobre sua competitividade internacional em recursos energéticos. Três modelos estão em jogo: o atual, de concessão, o da divisão federativa (que supõe a retirada dos royalties para os maiores produtores, como Rio, São Paulo e Espírito Santo, mas que agrada a maioria da federação e tende a ser a opção do governo) e a cessão onerosa, em que a única operadora, Petrobras – empresa de capital aberto – obteria direitos de exploração de cinco bilhões de barris. Atualmente, o Congresso está discutindo as diferentes opções com os lobbies que têm ali maior presença.

O calcanhar de Aquiles dessas jazidas não é tanto a questão do tipo de modelo, mas sim a criação de uma indústria de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, como fez a Noruega, diferente da opção da Indonésia, que só explora seus recursos. Se imperar a sensatez entre o governo, as instituições públicas e privadas, a opção norueguesa será considerada a melhor. Se a riqueza não reverter em benefício social e institucional (segundo um padrão ético e de eficácia), acabaremos compartilhando da experiência de muitos países com reservas gigantescas, mas com um baixo índice de desenvolvimento humano (educação, saúde, segurança pública etc.).

Os altos custos de investimento, produção e comercialização serão compensados unicamente se o país obtiver recursos suficientes para desenvolver sua tecnologia e ampliar os benefícios sociais reais. Trata-se de uma questão estratégica muito séria, que deve ser bem refletida, e de forma democrática, para saber se decidir por um caminho que, a médio e longo prazo, gere benefício a uma grande maioria, e não só a determinados setores da burocracia estatal e à corrupção política.

A nova iniciativa estatal terá que repartir seus gigantescos ganhos esperados com o Fundo Social para aplicar investimentos no desenvolvimento social, particularmente na educação e em programas de redução da pobreza. Pelo que parece, não se trata de demagogia ou de propaganda enganosa: o governo Lula assumirá, conjuntamente com o Congresso – em uma época de má reputação –, a responsabilidade de garantir e representar os interesses da maioria da nação. O debate está longe de ter se esgotado: questões técnicas, constitucionais e ideológicas está se misturando dentro e fora do Congresso. Será preciso ver se, a curto e médio prazo, essas jazidas cobertas de sal são a salvação do país ou um sonho que perdurará "... deitado eternamente em berço esplêndido".

Com a justificação de poder, assim, proteger a Amazônia e a chamada Amazônia Azul (4,5 milhões de quilômetros quadrados) do Oceano Atlântico Sul, onde estão submersas essas jazidas, um novo modelo na política de Defesa vai se desenhando no horizonte. Seu lema é: o Brasil deve aumentar seu poder defensivo, pois, como o presidente Lula comentou, "o Brasil é um país de paz, mas precisa mostrar os dentes se alguém quiser brigar conosco".

Sem dúvida alguma as Forças Armadas estão muito desabastecidas, pois, apesar de seu enorme orçamento, 8% deste é destinado a cobrir salários e pensões militares, e pouco é o que fica para os indispensáveis investimentos necessários para a própria defesa. O governo Lula optou pelo "fait accompli" de seu acordo estratégico com a França, justificado pelo suposto ganho de status ou poder internacional. O pacote, cujo núcleo central consiste na transferência de tecnologia, suporá novos submarinos convencionais, um de propulsão nuclear (com um orçamento para 2010 de 870 milhões de euros), dezenas de caças de combate e outras dezenas de helicópteros. O prazo de produção... se perde no horizonte! No caso dos novos aviões de caça, não se levou em conta os relatórios técnicos da Aeronáutica sobre as vantagens e desvantagens das ofertas francesa, norte-americana e sueca, mas o governo Lula declarou sua preferência pela proposta francesa.

O Congresso, pouco presente nas discussões sobre a política de Defesa (não dá votos), parece ter despertado para essa questão (como acontece na França e na Espanha). Ele quer debater os critérios e os custos: isso já é, por si só, de uma grande utilidade pública. A questão principal é que, até hoje, não existe na verdade uma política pública de Defesa, cm orçamentos, compras e gastos integrados. A Aeronáutica se encarrega dos aeroportos civis e carece de uma política aeroespacial; a Marinha, mais equipada tecnologicamente, mantém em aberto um debate sobre sua relevância estratégica, duvidando do poder de grandeza ou do poder de funcionalidade dissuasória; o Exército mantém, em pleno século XXI, sua política de presença (ou ocupação) territorial. O grande salto, de aproximadamente 20 ou 30 bilhões de reais (oito bilhões de euros), sairá do bolso do contribuinte para equipar uma defesa mais robusta e poder assumir, assim, conjuntamente com a política exterior e com a participação em missões de paz, o terceiro pilar da integração internacional do Brasil.

A América Latina, em geral, e a América do Sul, em particular, possuem uma das menores taxas de gastos militares do mundo, e até agora isso mantinha o equilíbrio regional entre os Estados. Novos equipamentos tecnologicamente sofisticados, no entanto, não significam necessariamente uma corrida armamentista. Mas no atual cenário da América do Sul, esses equipamentos tecnologicamente sofisticados, mas sem objetivos e logística bem definidos, correm o risco de provocar um clima de corrida armamentista... A Colômbia expande seu chamado Plano Colômbia com novas bases militares à disposição dos serviços de inteligência e de logística dos Estados Unidos. Sobre esse assunto, o Brasil exige garantias sobre a extraterritorialidade dos possíveis transtornos fronteiriços na Amazônia. A Venezuela pôs-se firme no mercado internacional de armas e fecha acordos – não muito claros – com a Rússia. O Brasil traça sua própria aliança estratégica com a França para se converter no líder mais poderoso da região. Chile irá segui-los – mesmo mantendo ainda em vigor a Lei do Cobre, de subsídios para a compra de armas. O Equador, com um conflito nunca bem resolvido com a Colômbia, continuará aumentando seus gastos de defesa. A própria Bolívia anuncia compras de armamentos. Só a empobrecida Argentina mantém-se à margem desse poder de fogo, quando esteve tão bem armada tecnologicamente no passado. Será que a Alemanha, a Inglaterra e a Espanha vão ficar fora desse mercado?

Ao serem elevadas à esfera da Unasul e do Conselho de Defesa Sul-Americano, as questões de segurança regional se misturam em disputas ideológicas e ciúmes individuais. O papel do Brasil, como moderador equilibrado das paixões, vai ter que enfrentar – e esse é o custo da liderança – as disputas de seus vizinhos andinos e atuar com mais vigor para aplacar os ânimos. Sua liderança está em jogo... Jogo em que a ousadia e a inusitada ação diplomática em Honduras poderá ser decisiva – parece ter sido muito bem articulada – para pôr à prova a consistência de sua liderança.
Fonte:IHU

OLIMPÍADAS - LULA MEDALHA DE OURO

sábado, 3 de outubro de 2009

OLIMPÍADAS - Vira-latas tentam atrapalhar a festa do Rio-2016.

Rodrigo Vianna

O complexo de vira-lata segue fortíssimo em nosso país. Se bem que, agora, parece mais restrito a setores da classe média...

Falo das estranhas reações a esse acontecimento maravilhoso: a vitória do Rio como sede das Olimpíadas de 2016.

Estava eu fora do alcance da internet - gravando uma reportagem nas proximidades de Iguape, no litoral sul de São Paulo - quando o Rio foi anunciado vencedor. Comemorei, em mensagens enviadas por celular à minha mulher - que é carioca.

Quando cheguei a São Paulo, na noite desta sexta, também comemorei com meu filho Vicente, outro nascido no Rio de Janeiro.

Dois brasileiros que ajudam o país a superar o complexo de vira-lata

Em qualquer lugar do planeta seria mesmo motivo para comemorar. Mas, no Brasil, aparecem nessas horas os corvos agourentos: e a a corrupção? e as favelas? e a violência?

Mas que diabos! Parece-me tão óbvio que Olimpíadas não são (nem nunca serão) o remédio para nossos problemas seculares, parece-me isso tão óbvio (repito!) que sinto até vergonha de precisar argumentar diante de certas coisas que comecei a ouvir e a ler, assim que botei os pés de novo em São Paulo, nesta histórica sexta-feira.

Aos poucos, fui-me lembrando das diferenças entre Rio e São Paulo. Paulistano que sou, posso dizer sem medo de errar: parte das pessoas que vivem aqui na minha terra não gosta muito do Brasil. A verdade é essa.

Era esse o tom dos comentários que ouvi no rádio do carro, a caminho de casa. O locutor ia lendo os e-mails dos ouvintes, que criticavam a escolha do Rio: eram comentários mal-humorados, ranhetas, complexados.

No futebol, o brasileiro superou esse complexo de vira-lata. Nelson Rodrigues foi quem cunhou a expressão. Foi ele também quem mostrou como Pelé, com sua pose de rei, indicava a seus colegas em campo: somos fortes, somos bons, falta só acreditar em nós mesmos.

Lá pelas décadas de 50/60, com Pelé, superamos o complexo. Mas só no futebol. A síndrome do vira-lata infeliz continuou a nos abater em outras áreas..

Os mais pobres, em anos recentes, parecem ter vencido o complexo. Até porque não têm muita escolha. São brasileiros até o último fio de cabelo. Para o bem e para o mal. Melhor brigar e trabalhar pra fazer dese país uma terra um pouco melhor.

A vitória e a reeleição de Lula são a prova de que parte dos brasileiros, especialmente os de origem mais humilde, superou o complexo. É uma parcela de brasileiros que foi capaz de eleger um homem monoglota, sem estudo, e além de tudo sem um dedo (ah, como essa marca do trabalho braçal incomoda nossas elites) para liderar o país.

Em contrapartida, a escolha - por duas vezes - de um presidente com esse perfil parece ter acirrado ainda mais o complexo de vira-lata, entre certos setores de nossa classe média. É uma parte dos brasileiros (e como são numerosos em São Paulo) que não gostam de ser brasileiros. Gostam de ser netos de italianos, bisnetos de alemães, trinetos de poloneses, tataranetos de espanhóis.

Eles se envergonham do Lula que discursa em "português" na cerimônia do comitê olímpico (ouvi um sujeito falando disso hoje na rua). Queriam que discursasse em javanês?

Eles se envergonham do Lula que chora. Preferiam, talvez, o tom afetado daquele outro presidente, que adorava fazer piadas sem graça, e preferia discursar em francês ou inglês (tremendo complexo de vira-lata) para agradar os gringos...

Com Lula, o Brasil deixou de se ver como colônia.

Os problemas do Brasil - com ou sem Olimpíadas - são enormes. Cabe a nós resolvê-los. Podemos tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo: cuidar de nossos problemas, e organizar as Olimpíadas. Isso parece uma obviedade sem tamanho!

Ou alguém acha - por exemplo - que um sujeito, só porque ainda está pagando as prestações da casa, não pode fazer uma bela festa de fim-de-ano para os vizinhos e os amigos?

A escolha do Rio é reconhecimento da grandeza do Brasil. Não deve nos fazer ufanistas. Mas a verdade é que merecemos comemorar. Sem dar bola para os corvos agourentos. Eles que curem seus complexos viajando para Miami nas férias. E deixem o Brasil trabalhar para fazer uma bela Olimpíada em 2016.

Parabéns ao Rio. Viva o Brasil.
Blog O Escrivinhador

ANOS DE CHUMBO - Araguaia: Em busca dos desaparecidos, uma floresta que sumiu.

Ricardo Kotscho

Caros leitores olímpicos

Antes de começar a escrever a reportagem sobre a minha viagem ao Araguaia, como prometi na quinta-feira, não posso deixar de partilhar com vocês a imensa alegria que senti ao ficar sabendo na volta da fantástica vitória do Rio em Copenhague. Sediar a Olimpíada de 2016 não foi uma conquista só da mais bela cidade do mundo, mas de toda uma geração de brasileiros que continua acreditando neste país.

SÃO GERALDO DO ARAGUAIA (PA) – Nossa viagem no helicóptero do Exército que partiu de Marabá na manhã de sexta-feira era em direção aos fundões da selva amazônica, no sul do Pará, cenário da Guerrilha do Araguaia, quase 40 anos passados.
Mas selva mesmo, aquela da mata imensa e fechada que a gente conhecia, não há mais.
Em meia hora de vôo, dava para ver ao longo dos 120 quilômetros, até São Geraldo do Araguaia, os trágicos resultados da destruição da mata que mudou completamente a paisagem neste período. Neste pedaço sempre conflagrado do sul do Pará, desde os anos 1970, após a abertura da Transamazônica, a maior floresta do mundo foi derrubada e queimada sem dó, virou pasto.
Com a terra árida pisoteada pelo gado e após um longo período de estiagem, mais parece que estamos chegando ao sertão nordestino. Sim, aqui neste pedaço sempre conflagrado do sul do pará, a selva já virou sertão.
O solo típico do semi-árido nordestino só é salpicado aqui e ali por algumas nesgas de mata separando os latifúndios às margens das grotas, o outro nome dos igarapés da região. A única faixa de mata contínua ainda visível neste trecho é o da Reserva Indígena Sororó, dos índios sururi.
A primeira constatação que faço, antes mesmo da nossa primeira parada, na Grota do Mutuma, onde os membros do Comitê Interinstitucional do Ministério da Defesa acompanharão escavações que estão sendo feitas em busca dos corpos de 57 combatentes do PCdoB desaparecidos no Araguaia, é que neste lugar hoje seria impossível montar uma guerrilha.
Ficou inviável alguém montar nestas terras desmatadas uma operação militar clandestina, tão difícil como localizar os restos mortais dos desaparecidos, tantos anos passados, com a paisagem completamente alterada.
“Eles vieram para cá porque contavam com a defesa da mata para garantir o equilíbrio estratégico”, lembra Diva Santana, irmã da guerrilheira desaparecida Mariadiná, uma baiana decidida que integra o comitê de 11 membros formado por decreto presidencial para supervisionar os trabalhos do Grupo de Trabalho do Tocantins, criado em abril deste ano pelo governo federal.
Desde a anistia concedida pelo regime militar em 1979, Diva acompanha todas as incursões na região do Araguaia-Tocantins, até agora frustradas, em busca dos corpos na esperança de encontrar os restos mortais de sua irmã.
Agora, ao lado dos ministros da Defesa, Nelson Jobim, e de Paulo Vanucchi, dos Direitos Humanos, que chefiam esta missão do governo, ela acompanha os trabalhos de escavação na Grota do Mutuma, onde ficava o “Destacamento C”, um dos três montados pelos guerrilheiros.
Após uma rápida explanação feita por Edmundo Müller Neto, do Ministério da Defesa, que é o coordenador de campo do GTT, Diva fica mais animada. “Esse é um ponto muito interessante, temos esperança de encontrar Mundico hoje. Várias testemunhas, ex-mateiros que foram guias do Exército e moradores antigos, indicaram este mesmo local em momentos diferentes do trabalho da ouvidoria”, informou Müller.
Mundico era o nome de guerra de Rosalindo de Souza, também baiano, um dos primeiros mortos nos combates, ainda em 1972, quando o Exército entrou na área pela primeira vez. As circunstâncias da sua morte até hoje estão envoltas em mistério: suicídio, acidente ou justiçamento feito pela própria guerrilha por estar namorando uma companheira.
Diva acredita mais que tenha sido um acidente causado pela própria arma e afasta a possibilidade de justiçamento. “Isto é até uma ofensa, não fazia parte do código moral da guerrilha”.
Uma equipe formada por dois antropólogos forenses, quatro geólogos e seis ajudantes abre dois buracos de 80 por 120 centímetros indicados pelo rastreamento do GPR (Ground Penetration Radar), um equipamento capaz de localizar anomalias no solo a até três metros de profundidade.
Para tristeza de Nayara Souza Alves, de 40 anos, sobrinha de Rosalindo, nada foi encontrado, mais uma vez (desde agosto, já foram investigados 36 alvos em 14 diferentes áreas do sul do Pará num total de 24.300 metros quadrados, tendo o GPR percorrido uma distância de 51 quilômetros em linha reta).
Nayara, que é de Itapetinga, na Bahia, assim como seu tio, veio de Araguaina, no Tocantins, onde vive atualmente, para acompanhar as escavações.
“Eu era muito pequena quando ele veio para lutar aqui, mas me lembro do sofrimento do meu avô Rosalvo, que morreu sem poder enterrar o corpo do neto. Para nós da família, ficou só esse vazio, este silêncio. Só temos algumas cartas dele guardadas. O tio falava sempre do seu ideal de fazer um país melhor para todos nós”.
Militares da Diretoria do Serviço Geográfico do Exército (DSG) deixam o marco geodésico 1026 na terra para informar a quem passar por ali no futuro que aquele local já foi investigado.
De volta ao helicóptero, nossa próxima parada é a Fazenda Bacaba, na cidade de São Domingos do Araguaia ( antiga São Domingos das Latas), a 70 quilômetros de Marabá, uma das três bases do Exército durante o combate à guerrilha (as outras ficavam em Marabá e Xambioá).
Em mais meia hora de viagem de helicóptero, que sobrevoou a Serra das Andorinhas, da qual falarei mais adiante, os raros sinais de vida na floresta que virou pasto, vistos do alto, eram os rebanhos de gado branco correndo assustados com o barulho dos rotores do helicóptero.
Na base de Bacaba, o Exército construiu uma pista de pouso para apoiar as operações na área. A partir da análise de documentos recebidos pelo Ministério da Defesa e de diversos orgãos e entidades, incluindo as Forças Armadas, havia referências a inumações clandestinas de guerrilheiros nos entornos da pista.
Antes do início das escavações neste local, onde também nada foi localizado, o Comitê Interinstitucional, do qual faço parte, reuniu-se com as equipes do GTT, que fizeram uma longa explanação dos trabalhos até aqui cumpridos.
Todos falaram das dificuldades para obter resultados positivos nas investigações de campo em razão da mudança radical na geografia da região. O fato positivo é que a presença conjunta de militares e civis, incluindo representantes das famílias dos desaparecidos, tirou o medo de falar dos moradores da região, que passaram a colaborar com os pesquisadores.
Em nome das famílias, Diva Santa agradeceu o empenho das equipes técnicas e dos militares chefiados pelo general de brigada Mario Lúcio de Araújo, que garante os recursos financeiros e humanos e organiza toda a infra-estrutura. “A vontade do povo brasileiro é que a questão seja resolvida e esclarecida de uma vez por todas para que possamos virar esta página da nossa história”.
Diva fez um apelo aos militares que participaram da fase final das operações, em 1974, ainda na ativa ou já reformados, para que prestem informações capazes de auxiliar nas buscas.
Este é o grande desafio daqui para a frente. Os trabalhos de campo, que serão interrompidos no final de outubro, em razão do início do período de chuvas, e só poderão avançar no próximo ano com a colaboração destes militares.
Tanto os ministros Jobim e Vanucchi, como os membros das equipes técnicas e o ex-deputado Aldo Arantes, observador independente que representa o PCdoB no GTT, insistiram em suas falas na necessidade do convencimento dos militares que participaram do combate à guerrilha para contar o que aconteceu na reta final da campanha, ainda que dificilmente os corpos possam ser localizados.
“O nosso trabalho é a favor da verdade histórica, não é contra ninguém”, resumiu o ministro Nelson Jobim, que viajou acompanhado do comandante do Exército, Enzo Martins Peri, simbolizando o distencionamento que está havendo entre militares e civis na questão do Araguaia.
Um dos militares que participaram da terceira fase de operações militares no Araguaia, o coronel aviador reformado Pedro Correa Cabral, de 67 anos, estava presente à reunião, mas não falou.
A ser verdade tudo o que o coronel me contou em entrevista ao Balaio, depois da reunião, sobre o destino dado aos corpos dos guerrilheiros durante a chamada “Operação Limpeza”, no início de 1975, será impossível localizá-los. Trechos do seu depoimento:
“No último mes de combate, em dezembro de 1974, segundo os nossos controles, só restava um guerrilheiro vivo que não foi localizado e conseguiu fugir da área. Era o Angelo Arroyo (ele seria morto pouco tempo depois pelo DOI-CODI durante invasão feita na casa onde a direção do PCdoB estava reunida na Lapa, em São Paulo)”.
“Nós da FAB fomos chamados no início de janeiro para fazer a “Operação Limpeza” com a finalidade de não permitir, depois que os militares saíssem que a área fosse escarafunchada por jornalistas e familiares dos mortos, causando problemas ao governo e às Forças Armadas. A ordem eram sumir com os corpos dos guerrilheiros”.
“Um colega meu da FAB, o coronel Sergio Camargo, localizou um paredão de pedra ao norte da Serra das Andorinhas para fazermos este trabalho. Ele falou para o comando que já sabia para onde levar e queimar os corpos, mas foi transferido para Belém, e o serviço ficou para mim e outros pilotos. Só eu transportei uns 15 fardos com os corpos que foram cercados de pneus e queimados com gasolina. Cheguei a pousar lá quando os fardos levados por outro helicóptero ainda estavam queimando”.
“Isto foi feito entre 20 de janeiro e 20 de fevereiro de 1975. Fui o último piloto a deixar a área. Conto tudo isso no meu livro “Xambioá _ A guerrilha do Araguaia”, lançado em 1993. Já voltei três vezes á Serra das Andorinhas, mas não consegui encontrar o local exato onde os corpos foram queimados. Na primeira vez, fui com o pessoal da revista Veja, logo que o livro foi lançado. Em 2001, acompanhei uma missão do então deputado Luis Eduardo Greenhalg, com o apoio da FAB, e voltei em 2004 com um grupo interministerial”.
“Espero que o grupo que agora está aqui convoque o coronel Sergio Camargo para vir para cá e colabore com as buscas porque foi ele que descobriu o paredão das Andorinhas e sabe voltar lá. É possível que a gente encontre lá pelo menos restos do aço que é empregado na fabricação de pneus para provar que os corpos foram mesmo queimados ali”.
Ao nos despedirmos, o coronel Cabral estava bastante emocionado com o que acabara de assistir e ouvir na reunião. “Não esperava viver para ver isso que vi hoje, ver o comandante do Exército participando de uma reunião ao lado do Aldo Arantes, do PCdoB, com o mesmo objetivo de encontrar a verdade. É um outro Exército, um outro país, muito melhor, mais próximo da democracia”.
Ao final da missão, de volta a Brasília na noite de sexta-feira, depois de passar o dia todo subindo e descendo de avião e de helicóptero militares, os joelhos moídos, mais quebrado que arroz de terceira, também tive esta sensação de que o Brasil muidou muito, e para melhor, desde que fui fazer minhas primeiras reportagens na Amazonia no começo dos anos 70. A notícia triste, é que a floresta está sumindo.

AMÉRICA LATINA :impasses e desafios.

Frei Betto *

Adital

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, retornou a seu país e se abrigou na embaixada do Brasil em Tegucigalpa. O Itamaraty tem a obrigação de acolhê-lo e assegurar-lhe integridade física e política. Zelaya, por sua vez, tem o dever de respeitar as normas que regem as representações diplomáticas.

O mesmo Brasil que deu refúgio aos generais Stroessner e Oviedo, do Paraguai, não pode, agora, favorecer golpistas militares de Honduras e entregar Zelaya às feras. Será também uma afronta à tradição hospitaleira do Brasil o STF repatriar Cesare Battisti para os cárceres italianos.

A América Latina vive seu melhor momento em décadas: com exceção de Honduras, não há ditaduras militares no Continente; os governantes neoliberais, fieis aos receituários do FMI e do Banco Mundial, foram rechaçados pelo voto popular; hoje temos governos democrático-populares que se comprometem a promover reformas de estrutura pelas vias pacífica e democrática.

O que há de novo na América Latina? Samuel Huntington, relator da Comissão Trilateral - nefasta conspiração imperialista da década de 1970 -, admitiu que, em nosso Continente, a democracia, tal qual o figurino que agrada a Casa Branca, só perduraria se excluísse a participação de parcela do povo.

O que há de novo é que os excluídos - indígenas, camponeses, sem-terra, negros, desempregados, famílias de baixa renda - agora insistem em seu protagonismo político. Prova disso é que um metalúrgico governa o Brasil; um indígena, a Bolívia; um ex-guerrilheiro, a Nicarágua; uma ex-presa política, o Chile; outro ex-preso político, o Uruguai; um sociólogo de esquerda, o Equador; um militar revolucionário, a Venezuela; um jornalista apoiado por ex-guerrilheiros, El Salvador; um ex-arcebispo da Teologia da Libertação, o Paraguai.

Não se sabe o que há de novo no reino da Dinamarca, mas é certo que há algo de novo em torno da linha do Equador. Dos 34 países da América Latina, em 15 há presença, em seus governos, de políticos alinhados com o Fórum de São Paulo - organismo que, há décadas, articula, no Continente, grupos e partidos de esquerda e/ou progressistas.

Os países da região tratam de criar mecanismos de intercâmbio comercial e unidade política, como a Alba, o Unasul, a Telesul, o Banco do Sul. Apenas os governos da Colômbia e do Peru destoam desse processo, submissos ainda à dependência ianque.

O desafio, agora, é evitar que os governos progressistas sejam cooptados pelo neoliberalismo. É preciso que a América Latina, que abriga o único país socialista do mundo - Cuba -, tenha consciência de suas potencialidades. Muito antes que os EUA criassem suas primeiras universidades, Harvard e William & Mary, já funcionavam a de San Marcos, no Peru, e a de Santo Domingo, na República Dominicana. As duas, aliás, fundadas pela Ordem Dominicana.

No entanto, entre nós, hoje, a escolaridade média é de 7 anos, e de cada 10 estudantes de ensino médio, apenas 1 termina o curso. A mortalidade infantil média no Continente é de 50 em cada 1.000 nascidos vivos, enquanto na Ásia é de apenas 10.

É decepcionante constatar a avidez que certos governantes latino-americanos demonstram frente às ofertas do mercado de armas. Nossos inimigos principais, que precisam ser duramente combatidos, são ainda a fome, a insalubridade, a falta de saúde, de educação, de moradia e de cultura.

Se os atuais governantes democrático-populares não forem capazes de empreender as reformas prometidas em suas campanhas, e se deixarem envolver pelo canto das sereias neoliberais, ecoados por partidos conservadores interessados apenas em sugar parcelas de poder, a desigualdade social, ainda gritante, servirá de caldo de cultura para o ressurgimento de conflitos armados.

A decepção dos pobres, se resulta em desespero nos casos pessoais, engendra sementes de revolta ao adquirir caráter social.

No Brasil, a entrada de Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, na disputa presidencial pode significar um alerta e uma promessa. O alerta, a de que o governo Lula foi positivo, mas não o suficiente para implementar reformas estruturais e promover o desenvolvimento sustentável.

A promessa, de que é possível, sim, assegurar a governabilidade graças ao apoio dos movimentos sociais, sem ceder ao que há de mais arcaico, corrupto e conservador na política brasileira.

[Autor de "Cartas da prisão" (Agir), entre outros livros.
Copyright 2009 - FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato - MHPAL - Agência Literária (mhpal@terra.com.br)]

OLIMPÍADAS - Já querem cortar a CLT pelas olimpíadas.

Blog do Sakamoto, por Leonardo Sakamoto

Eu tinha certeza! Nem bem as comemorações pela escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016 começavam na praia de Copacabana e arautos do capitalismo salve-se-quem-puder foram à mídia para dizer que o Brasil não conseguirá realizar as obras necessárias com as leis atuais. Na opinião deles, para ter sucesso na “remodelação” urbana, será imprescindível uma reforma trabalhista que torne mais barata a mão-de-obra (tradução: direitos trabalhistas, tchau, tchau) e mudanças urgentes nas leis ambientais para agilizar projetos que podem causar impacto ao meio (tradução: aprovação a toque de caixa, sem intromissão do governo, para a alegria de investidores que querem ver áreas de preservação convertidas em construções).

A cara-de-pau é tamanha que eles nem mais escondem que querem usar as Olimpíadas como justificativa para derrubar dois “entraves” ao “progresso”: o povo e sua qualidade de vida. Afinal, o lucro em primeiro lugar.

Acho sensacional que o Brasil sedie os Jogos. Mas é claro que muita gente vai tentar fazer deles justificativa para tudo e, pior, usá-lo para enriquecimento ilícito. Óbvio que temos desafios importantes como nação, como garantir educação a todos, saúde de qualidade, uma reforma agrária, universalizar direitos. Mas não é fugindo de determinados desafios que vamos conseguir vencer nossos problemas. Da corrupção generalizada aos modelos errados de desenvolvimento, a construção de 2016 será um bom momento para encará-los de frente e mostrar que somos sérios. Um bom começo é deixar as carpideiras do capital falando sozinhas, sem dar peso às suas fúteis palavras.

A guerra de discursos usando as Olimpíadas já começou e vai durar sete anos. Temos que ficar atentos e ir à luta para garantir que a ladainha dos que querem “liberdade total” tendo como justificativa o desenvolvimento não continue sendo entoada. Nossa maior conquista será a de que podemos construir um evento que deixe um legado de dignidade à população e não seja um instrumento de sua exploração.
Blog do Sakamoto

POSADA, OS CINCO E A SOLENE LEI NORTE-AMERICANA.

Carriles deveria ser processado como um criminoso e extraditado para a Venezuela. Assassinou a 73 pessoas a bordo de um avião civil, incluindo a uma menina de nove anos chamada Sabrina e a uma esgrimista cubana, Nancy Uranga, de 23 anos, que esperava um bebê. No entanto, a Casa Branca de Obama, como o fez a administração Bush, o protege porque não é um terrorista qualquer. É seu terrorista.

Por José Pertierra

Noam Chomsky utilizou recentemente no México uma frase, carregada de ironia, que me chamou muito a atenção. A propósito do sistema jurídico, Chomsky declarou em uma conferencia na Universidade Nacional Autônoma do México que nos Estados Unidos «a lei é na verdade um assunto solene e majestoso». Essa ironia chomskiana, lançada sobre a sacrossanta lei estadunidense, despe a sutil manipulação dos tribunais pela Casa Branca. O governo se protege atrás do sistema judicial para impor decisões políticas agasalhadas na majestosa solenidade de «da lei».

Luis Posada Carriles deveria ser processado como um criminoso e extraditado para a Venezuela. Assassinou a 73 pessoas a bordo de um avião civil, incluindo a uma menina de nove anos chamada Sabrina e a uma esgrimista cubana, Nancy Uranga, de 23 anos, que esperava um bebê. No entanto, a Casa Branca de Obama, como o fez a administração Bush, o protege porque não é um terrorista qualquer. É seu terrorista.

O homem da CIA na Venezuela nos anos 70. O homem da CIA na América Central nos anos 80 e 90, e o autor intelectual de múltiplos atos terroristas contra Cuba durante décadas. Como disse recentemente seu advogado ante um tribunal federal, tudo o que fez Posada na América Latina o fez em nome de Washington.

Posada não está preso. Goza de plena liberdade em Miami. A pressão internacional que sofre Washington para «fazer algo» contra Posada é grande. A Venezuela pediu sua extradição em junho de 2005, como o fez unanimemente o Movimento de Países Não Alinhados. Ele mesmo confessou ao The New York Times haver sido o autor intelectual de uma serie de explosões em Havana, em 1997, que mataram a um italiano de 22 anos, Fabio Di Celmo, no Hotel Copacabana. Para dar a aparência de estar «fazendo algo» contra o terrorista, Washington o processa por mentiroso, mas não por assassino. Assim garante que se um júri o condena, o castigo será suave. Evidentemente é importante assegurar-se de que o terrorista não se irrite, porque se se sentir encurralado, fala. Posada tem muitos segredos que contar e há muitos mortos escondidos nos corredores da CIA.

Quando a Venezuela pergunta pela ainda pendente solicitação de extradição, Washington pede paciência. «O estamos processando penalmente», dizem. «Logo terão uma resposta. Quando se conclua o processo penal». O processo contra Posada por mentiroso começou em 11 de janeiro de 2007. No entanto está pendente. A próxima audiência não ocorrerá até 1°. de março de 2010. Chomsky tem razão. A lei nos Estados Unidos é um assunto «solene e majestoso».

O saldo dos ataques terroristas contra Cuba nos últimos 50 anos alcança mais de 3.400 pessoas assassinadas. Sem tregua alguma. Para contra-atacar o terrorismo, Cuba enviou vários homens a Miami com a tarefa de se infiltrar nos grupos terroristas do chamado «exílio» cubano. A equipe não procurou se infiltrar nas agências governamentais dos Estados Unidos, e tampouco obteve algum documento secreto. Seu único propósito era acumular as evidencias necessárias para que o FBI prendesse os terroristas. Mas não foi assim.

Em 12 de setembro de 1998, o FBI prendeu aos que lotavam contra o terrorismo. Os cinco cubanos detidos nesse dia foram processados em Miami. Uma cidade com uma pprofunda hostilidade contra Cuba. Um grupo de três juízes que revisou posteriormente a decisão do Tribunal de primeira instância disse que o julgamento contra eles ocorreu dentro de una verdadeira tormenta de pré-julgamentos. Esse era o propósito. A Casa Branca sabe perfeitamente que Miami é um mundo virado do avesso. Em Miami, o bom é mau, e o mau magnífico. Em Miami, os terroristas são patriotas, e os patriotas são terroristas. Em Miami, o Presidente constitucional de Honduras é um comunista, e os golpistas são heróis da República.

Em Miami, a música é boa se toca em Miami, mas ruim se a tocam em Havana. Somente em Miami podem se opor furiosamente a um concerto musical em Havana, como o que organizou Juanes y que reuniu na Praça da Revolução 1.150.000 pessoas.

As imagens das manifestações miamenses contra o concerto Paz sem fronteiras são impactantes. «Juanes traidor: amigo de Fidel Castro», dizia uma das faixas. Com uma enorme moto-niveladora destruíram, frente ao restaurante Versailles, de Miami, os discos de Juanes, de Olga Tañón, de Miguel Bosé e de outros cantores que participaram do concerto.

Miami é a única cidade dos Estados Unidos capaz de destruir os discos dos que cantem em Havana, e de condenar a cinco pessoas inocentes por haver conspirado para cometer espionagem contra o governo dos Estados Unidos, apesar de que nenhum tinha o menor dos menores documentos secreto, nem havia tentado penetrar agencia governamental alguma.

Mas em Miami a falta de evidencia não importa, sempre e quando os acusados sejam cubanos que não sejam hostis ao Governo da Ilha. Os Cinco foram sentenciados a longas sentenças: quatro prisões perpétuas e 77 anos de prisão.

Quando se questiona Washington pela injustiça de condenar aos Cinco, a Casa Branca responde cinicamente que os acusados tiveram de um «devido processo da lei». Que foram os tribunais que estabeleceram a condenação e não a Casa Branca. Que não é um caso político, mas legal. Chomsky tem razão. A lei nos Estados Unidos é um assunto «solene e majestoso».
Blog do Velho Comunista.

HONDURAS - A volta de Árias e o recuo dos golpistas.

Argemiro Ferreira

Profundamente preocupado, o secretário geral Ban Ki-moon voltou à carga, em entrevista terça-feira na ONU, contra o estado de emergência decretado pelo regime golpista que agravou a tensão em Honduras. Ele exaltou ainda a decisão do Congresso de rejeitar a suspensão das liberdades civis e defendeu o “respeito pleno às garantias constitucionais, inclusive a liberdade de associação e de expressão”.

Suas palavras podem ter contribuído para a decisão do presidente Oscar Árias (foto do alto) de voltar à mediação. “As ameaças à embaixada do Brasil em Honduras são inaceitáveis”, repetiu.UN_LaTRibuna_090930 “O direito internacional é claro: a imunidade soberana não pode ser violada. As ameaças ao pessoal da embaixada e suas dependências são intoleráveis. O Conselho de Segurança condenou tais atos de intimidação. Eu o faço também – e nos termos mais vigorosos”.

O secretário geral reafirmou, ao mesmo tempo, a disposição das Nações Unidas de dar assistência de todas as formas e voltou a fazer apelo em favor da segurança do presidente constitucional hondurenho, Manuel Zelaya. E conclamou “todos os atores políticos a se comprometerem seriamente com o diálogo e o esforço de mediação regional” – a cargo de Árias, antes repudiado pelos golpistas (leia AQUI como o embaixador dos EUA em Honduras, Hugo Llorens, afinal condenou o golpe, com três meses de atraso).
Aquele guardião da doutrina da fé

Não poderia ser mais eloquente o respaldo à sensatez do Brasil, que tem o respeito de todos mas não de nossa mídia corporativa, obcecada em abandonar o raciocínio simples e linear para assumir a insanidade golpista de Roberto Micheletti, agora forçado a recuar no desafio à ONU, à OEA e à comunidade internacional. Até porque golpe é golpe – mesmo se um presidente não tivesse sido, como foi, arrancado da cama de pijama.

O batalhão de jornalistas enviado a Honduras pela mídia brasileira após o refúgio de Zelaya na embaixada parecia menos motivado pela gravidade da situação do que pela obsessão de provar que o Brasil errou ao abrigar o presidente e garantir-lhe a vida.HN_Zelaya_FalsaRenuncia A obsessão dela, do primeiro dia até este momento, tem sido condenar o governo Lula e defender os golpistas. Pior: defendê-los como “democratas”.

Juristas do golpe foram chamados a desfilar diante das câmaras e dos repórteres para dizer que pau é pedra – e golpe não é golpe. Missão impossível – e cômica, já que os golpistas fabricaram até carta falsa de renúncia de Zelaya (veja ao lado). Era comovente, em especial, o esforço do império Globo de mídia – jornal, TV & penduricalhos, juntos e em coro, na tentativa de cumprir uma pauta unificada do ideólogo da casa, Ali Kamel, no seu papel de guardião zeloso da doutrina da fé.

De posse previamente das respostas golpistas coincidentes de Kamel-Micheletti, a Rede Globo investiu contra o ministro Celso Amorim enquanto o Brasil e o governo Lula ganhavam o apoio da comunidade internacional – da ONU, da OEA, do presidente Árias, mediador costarriquenho na crise, e do resto do mundo. Isso permitiu à repórter Heloisa Villela, sem o viés da Globo, impor a cobertura da concorrente, a Rede Record.
Depois de uma diplomacia covarde

lampA partir das declarações feitas no Brasil à mídia golpista por diplomatas aposentados que serviram ao governo FHC, ficou claro que a crise de Honduras, na qual o Brasil foi empurrado para um papel que teria preferido evitar mas do qual não podia fugir, expôs o contraste entre a diplomacia covarde do passado (da omissão e da submissão) e a mudança de qualidade do Itamaraty no atual governo.

O Globo recolheu até o palpite infeliz do governador José Serra (ele achou “tremenda trapalhada” o Brasil fazer o possível para salvar a vida do presidente legítimo de Honduras. reconhecido por nós e pelo mundo). Mas o feito maior do jornal foi a sessão nostalgia com o ex-ministro Luiz Felipe Lampreia (foto à direita). Alguém terá saudade do tempo dele à frente do Itamaraty, quase todo o período de dois mandatos de FHC?

Acho difícil. Mas Lampreia disse, em entrevista, que considera inédito o caso de agora em Honduras e não acredita que a posição brasileira contribuirá para solucionar a crise. “Ela traz um problema para o Brasil, que não estava envolvido no conflito”, opinou. Opinião judiciosa, ao menos na avaliação de O Globo. Me fez lembrar entrevista com Lampreia de que participei uma vez no hotel Waldorf Astoria.

Lafer_CelsoDe um grupo de jornalistas, só uns quatro tivemos paciência de esperar a saída dele de uma reunião com a então secretária de Estado Madeleine Albright. O da Rede Globo pediu-nos que o deixasse ser o primeiro a perguntar, devido a horário de transmissão de satélite. Concordamos. Lampreia chegou, ouviu e respondeu à pergunta dele. Mas fechou a boca e foi embora ao ver apagar-se a luz da Globo.

Alguém poderia achar grosseria e despreparo, preferi julgar aquilo um caso extremo de fidelidade aos refletores. No fundo Lampreia nunca teve nada relevante a dizer mas adorava dizê-lo sob a luz da Globo. Junto com o sucessor Celso Lafer (foto à esquerda), aquele que achava uma honra tirar os sapatos para os policiais nos aeroportos dos EUA, ele conduziu uma política externa de submissão.
De joelhos diante de Bolton

O Itamaraty de FHC, com os Lampreia e Lafer, ainda chegaria ao servilismo extremo. Tentaria cumprir estranha ordem do extremista neoconservador John Bolton (foto ao lado, com o padrinho Bush – e saiba mais sobre ele AQUI),Bolton_Bush então no terceiro escalão do Departamento de Estado. Sub-secretário para controle de armas, ele viajou em 2002 à Europa e exigiu a renúncia do brasileiro José Bustani, diretor da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).

Bustani, embaixador de carreira no Brasil, licenciara-se no Itamaraty para ser candidato na OPAQ – cargo para o qual se reelegeria por unanimidade, com o voto dos EUA (o próprio secretário de Estado Colin Powell, chefe de Bolton, elogiara a gestão e a liderança dele em 2001). Mas Bolton indignou-se com o brasileiro por ter atraído o Iraque, que se dispunha a submeter-se a inspeções regulares de armas químicas (saiba mais sobre todo o caso AQUI).

FHC e o ministro Lafer entraram em pânico – sabe-se lá porque. Disseram então a Bustani para fazer a vontade do império e sair. O embaixador explicou o óbvio: não devia obediência ao Itamaraty e sim aos que o elegeram na OPAQ. Restou a Bolton intimidar e subornar outros até forçar a saída de Bustani – que, encostado no Itamaraty, só seria reabilitado no governo Lula, que o fez embaixador em Londres. (Saiba AQUI como o mais alto tribunal administrativo da ONU condenou em 2005 a orquestração de Bolton para demitir Bustani ilegalmente e impôs penalidade e pagamento de indenização ao brasileiro).
Blog do Argemiro

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

OLIMPÍADAS 2016 - Lula, medalha de ouro.

Lula faz discurso emocionado em Copenhague

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, deixou de lado os discursos técnicos e mostrou-se emocionado ao falar sobre a expectativa de o país e a América do Sul sediarem pela primeira vez o maior evento esportivo do planeta. Lula disse que todos os brasileiros têm orgulho de formarem a nação mais misturada do mundo, e que chegou a hora de corrigir o "desequilíbrio olímpico", já que os Jogos jamais foram sediados no Hemisfério Sul.

"Com muito orgulho represento aqui as esperanças e sonhos de mais de 190 milhões de brasileiros. Estamos todos unidos torcendo pelo Rio de Janeiro. Somos um povo apaixonado pelo esporte e pela vida. Um Brasil de homens e mulheres de todos os continentes. Não só somos um povo misturado, mas um povo que gosta muito de ser misturado. Digo com toda franqueza. Chegou a nossa hora. Somos a décima economia do mundo e ainda não sediamos os Jogos Olímpicos. Para os outros, será apenas mais uma Olimpíada. Para nós, será algo inédito", disse o presidente.

Complementando o discurso enfático, Lula, prossegue: "Está na hora de corrigir esse desequilíbrio. O COI já mostrou ser capaz de vencer desafios. Introduziu novas modalidades, aderiu novas tecnologias. O desafio agora é outro: expandir as Olimpíadas para um novo continente, para um país tropical. Temos todas as garantias possíveis para a realização dos Jogos e estamos conscientes do legado que ficará para o Rio. O Brasil vive um excelente momento. Enfrentamos a crise que afeta diversas nações. As portas do Brasil estão abertas. Precisamos do apoio da visão do futuro. Os Jogos Olímpicos do Rio serão inesquecíveis, pois estarão cheio da paixão do povo brasileiro", finalizou, recebendo muitos aplausos.

HONDURAS - A Folha e a "ditabranda" de Honduras.

Altamiro Borges
, 2 de Outubro de 2009
A Folha e a “ditabranda” de Honduras
A famíglia Frias, que comanda com mão de ferro o jornal Folha de S.Paulo, sempre desprezou a democracia. As campanhas publicitárias do periódico, que exaltam o pluralismo e a diversidade, têm objetivo puramente mercadológico. Elas visam seduzir os ingênuos e estancar sua queda de tiragem. No editorial intitulado “Um passo atrás”, nesta semana, a Folha deixou novamente cair a sua máscara, dando novo tiro no pé – o que pode lhe custar mais cancelamentos de assinaturas, como quando rotulou de “ditabranda” a cruel ditadura que torturou e matou muitos brasileiros.

No mesmo dia em que rádios e TVs eram fechados pela ditadura de Honduras, a Folha procurou abrandar o papel dos golpistas. “O regime chefiado por Roberto Micheletti ocupa categoria bem mais tênue de ilegalidade democrática. Violou a Constituição ao expulsar do país um presidente eleito, quando a ordem da Corte Suprema era de prender Zelaya por afronta a essa mesma Carta. O governo interino, contudo, respeitou a linha sucessória constitucional, assegurou o poder em mãos civis e manteve o calendário das eleições presidenciais”, afirmou o monstruoso editorial.

Ataques à diplomacia brasileira

Na linha da “ditabranda”, a família Frias se esforçou para relativizar o golpe militar nesta sofrida nação latino-americana, que até hoje serve de base militar dos EUA e é saqueada por meia dúzia de ricaços. A derrubada violenta de um presidente eleito pela maioria do povo é considerada uma “tênue ilegalidade democrática”. A decisão da Corte Suprema, cujos juízes nunca foram eleitos e representam as elites do país, é elogiada. E a convocação de novas eleições, num país sob estado de sítio – com prisões, censura e toque de recolher – é tratada como “respeito à linha sucessória”.

Além de explicitar a sua simpatia pelos golpistas, a Folha usou o editorial para criticar a política externa do governo Lula, alvo de recorrentes e raivosos ataques. “O Brasil se intromete mais do que deve em Honduras e toma atitude estranha de negar-se ao diálogo com o governo de fato”, afirmou. Para o jornal, que mais se parece com um escritório de interesses dos EUA, a diplomacia brasileira seria intransigente, o que “não contribui para a dissolução do impasse e cai como luva para o objetivo do chavismo”. O regime golpista é tratado de “interino”, de “governo de fato”; já a diplomacia brasileira e o fantasma do chavismo são os obstáculos à saída do impasse.

O editorial da Folha não causa surpresa, a não ser para os que ainda acreditam no falso ecletismo do jornal e esquecem o passado da famíglia Frias. Ambiciosa e direitista, ela ajudou a orquestrar o golpe militar de 1964 no Brasil; na sequência, ela deu total apoio à ditadura, inclusive cedendo as peruas de transporte de jornais para conduzir presos políticos aos campos de tortura; pela intima ligação com os torturadores, a Folha da Tarde ficou conhecida como o jornal de maior “tiragem” do país – não pelo número de exemplares, mas pelo contingente de tiras (policiais) na redação. Não é de se estranhar, portanto, que trate as ditaduras do Brasil e de Honduras de “ditabrandas”.
Fonte:Blog do Miro.

OLIMPÍADAS 2016 - O BRASIL DERROTA OS CORVOS.

Emir Sader

“Corvo” foi o nome que ganhou Carlos Lacerda, como ave que busca rapina onde houver, senão, inventa. É o espírito udenista, golpista, que sucumbiu sucessivamente à liderança de Getúlio e das forças populares. Não ganhavam eleições, iam bater nas portas dos quartéis (“vivandeiras de quartel”, eram chamados), para tentar, pela força, o que não conseguiam pela persuasão. Até que, com o apoio decidido do governo dos EUA e da mídia – a mesma que agora: Globo, Folha, Estadão -, deram o golpe e instauraram a ditadura militar, que tantos males fez ao país.

Suas características são muito similares às dos corvos de hoje: são brancos, de classe média, odeiam o povo, tem seu núcleo básico em São Paulo, se agrupam em torno da imprensa, tem uma sólida convicção de que tem razão (mesmo contra todas as evidências e a grande maioria dos brasileiros), se refugiam em denuncias moralistas, detestam a América Latina e o sul do mundo (adorando os EUA e a Europa), crêem que São Paulo é a “locomotiva do país”, que arrasta os outros estados preguiçosos (o mesmo sentimento da sublevação de 1932, que eram separatistas). Também tem como característica ser sempre derrotados, tendo que apelar para suas armas preferidas – a força dos golpes e o monopólio da imprensa.

A campanha para trazer as Olimpíadas ao Brasil possibilitou distinguir os que amam o Brasil, mais além dos seus problemas e com todos os seus problemas, e os que têm suas almas corroídas pelo ódio, torceram e militaram contra o Brasil. (Um deles convenceu seus leitores a tal ponto que numa consulta que fez, ganhou Chicago contra o Brasil.) Agora se vestem de luto – a cor dos corvos – e já tem temas para amargurar o resto das suas vidas até 2016. Para os que têm alma pequena, segundo Fernando Pessoa, a vida não vale a pena.

Estão há anos incomodados que o Brasil dê certo governado por um operário, sindicalista de base, nordestino, sem diploma universitário, que perdeu um dedo na máquina, enquanto aquele do qual são viúvas - supostamente a pessoas melhor qualificada para dirigir o Brasil - fracassou estrepitosamente e é repudiado pelo povo. Tem a alma corroída pelo ódio, pelo despeito, pelo rancor.

Lula tinha que dar errado, como Evo tinha que dar errado, como Hugo Chávez tinha que dar errado. Um é de origem nordestina e operária, o outro é indígena, o terceiro é um mulato. Mas quem fracassou foram os tucanos, aqui, com FCH, na Bolívia, com Sanchez de Losada, na Venezuela, com Carlos Andrés Perez. Não por acaso o governo de FHC apoiava àqueles, Lula apóia aos que os sucederam e, estes, por sua vez, têm a Dilma como candidata.

Essa geração de lacerdistas, corvos do século XXI, precocemente envelhecidos, pela frustração e pelo rancor, vegetarão o que lhes resta viver, ruminando reclamações contra o Campeonato Mundial de 2014 e contra os Jogos Olímpicos de 2016. Enquanto a caravana do povo brasileiro passa.

Postado por Emir Sader às 15:10

OLIMPÍADAS 2016 - O RIO deve essa a Lula.

Leandro Fortes

Nunca antes, nesse país

Lula poderia ter agido, como muitos de seus pares na política agiriam, com rancor e desprezo pelo Rio de Janeiro, seus políticos, sua mídia, todos alegremente colocados como caixa de ressonância dos piores e mais mesquinhos interesses oriundos de um claro ódio de classe, embora mal disfarçados de oposição política. Lula poderia ter destilado fel e ter feito corpo mole contra o Rio de Janeiro, em reação, demasiada humana, à vaia que recebeu – estranha vaia, puxada por uma tropa de canalhas, reverberada em efeito manada – na abertura dos jogos panamericanos, em 2007, talvez o maior e mais bem definido ato de incivilidade de uma cidade perdida em décadas de decadência. Vaiou-se Lula, aplaudiu-se César Maia, o que basta como termo de entendimento sobre os rumos da política que se faz e se admira na antiga capital da República. Fosse um homem público qualquer, Lula faria o que mais desejavam seus adversários: deixaria o Rio à própria sorte, esmagado por uma classe política claudicante e tristemente medíocre, presa a um passado de cidade maravilhosa que só existe, nos dias de hoje, nas novelas da TV Globo ambientadas nas oníricas ruas do Leblon.

Lula poderia ter agido burocraticamente a favor do Rio, cumprido um papel formal de chefe de Estado, falado a favor da candidatura do Rio apenas porque não lhe caberia falar mal. Deixado a cidade ao gosto de seus notórios representantes da Zona Sul, esses seres apavorados que avançam sinais vermelhos para fugir da rotina de assaltos e sobressaltos sociais para, na segurança das grades de prédios e condomínios, maldizer a existência do Bolsa Família e do MST, antros simbólicos de pretos e pobres culpados, em primeira e última análise, do estado de coisas que tanto os aflige. Lula poderia ter feito do rancor um ato político, e não seria novidade, para dar uma lição a uma cidade que o expôs e ao país a um vexame internacional pensado e executado com extrema crueldade por seus piores e mais despreparados opositores.

Mas Lula não fez nada disso.

No discurso anterior à escolha do Comitê Olímpico Internacional, já visivelmente emocionado, Lula fez o que se esperava de um estadista: fez do Rio o Brasil todo, o porto belo e seguro de todos os brasileiros, a alma da nacionalidade. Foi um ato de generosidade política inesquecível e uma lição de patriotismo real com o qual, finalmente, podemos nos perfilar sem a mácula do adesismo partidário ou do fervor imbecil das patriotadas. Lula, esse mesmo Lula que setores da imprensa brasileira insistem em classificar de títere do poder chavista em Honduras, outra vez passou por cima da guerrilha editorial e da inveja pura e simples de seus adversários. Falou, como em seus melhores momentos, direto aos corações, sem concessões de linguagem e estilo, franco e direto, como líder não só da nação, mas do continente, que hoje o saúda e, certamente, o aplaude de pé.

Em 2016, o cidadão Luiz Inácio da Silva terá 71 anos. Que os cariocas desse futuro tão próximo consigam ser generosos o bastante para também aplaudi-lo na abertura das Olimpíadas do Rio, da qual, só posso imaginar, ele será convidado especial.
Fonte:Blog Brasília, que eu vi

OLIMPÍADAS 2016 - Madri amarga derrota e o fim do sonho de 2016.

Ana Carolina Moreno, de La Coruña
Especial para Terra Magazine

Quando foi anunciada a eliminação de Chicago, as dezenas de milhares de pessoas reunidas no centro de Madrid levantaram exultantes suas coloridas e gigantes mãos - o símbolo da candidatura da capital espanhola para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Pela televisão, parecia que anunciavam que o evento voltaria à Espanha depois de 24 anos. Madrid havia recebido o maior número de votos na primeira rodada e o clima de lembrava, inclusive, o carnaval de rua brasileiro. Ainda que só tenha durado algumas horas.

Desde o domingo, quando a Espanha iniciou a reta final de sua campanha, o símbolo da candidatura (uma mão colorida com os cinco dedos esticados, que indica, segundo seu criador, a "unidade das diferentes culturas, pessoas e nacionalidades que convivem em Madrid" e também uma "saudação amigável onde se aprecia a abertura de Madrid e sua gente") se difundiu pelo país. Os canais de televisão deixaram a marca permanente em suas telas, ao lado de seus próprios logotipos, e a rede social Tuenti, que está para os internautas espanhóis assim como o Orkut está para os brasileiros, contava em sua página inicial o número de pessoas que haviam aderido à campanha e publicado símbolo em seus perfis. A cifra ultrapassou os seis dígitos, mas minutos após a vitória do Rio de Janeiro já havia desaparecido do site.

Os espanhóis críticos ao peso que Madrid tem em relação ao resto do país ocuparam esse espaço recém esvaziado com suas versões do símbolo: uma mão só com o dedo do meio estendido ou um sinal negativo feito com o dedão.

A crítica vai além de uma rivalidade entre Madrid e Barcelona, como se daria entre o Rio e São Paulo: a identidade espanhola em si já é um tema sensível, pois depois de anos de ditadura franquista e repressão aos costumes e idiomas regionais, a liberdade de cada comunidade autônoma sempre vira uma questão de debate quando qualquer região recebe mais atenção, seja ela financeira, política, midiática ou de qualquer outra natureza. Em algumas regiões, como Catalunha, Galícia e País Vasco, que asseguraram maior autonomia lingüística, o movimento dos anti-nacionalistas (que se opõem à centralização do poder personalizada pela capital) é ainda mais forte e se revela inclusive em temas que apenas os afetam indiretamente, como a decisão do COI desta tarde.

O novo lema dos opositores à candidatura da capital espanhola também foi criado em poucos minutos: "Me Río de Janeiro" ("Eu rio de Janeiro", um trocadilho com o nome da capital fluminense e o verbo rir). Enquanto alguns se conformam em já saber que seria impossível uma vitória espanhola, já que os Jogos Olímpicos de 2012 serão em Londres e nunca antes um mesmo continente sediou duas Olimpíadas seguidas, outros aproveitam para azedar ainda mais o gosto da quase vitória.

Se no Brasil a crítica é a de que o governo precisa investir em educação, saúde e outros itens básicos antes de querer gastar mais de 14 bilhões de dólares em um evento esportivo, inclusive depois da gestão de qualidade duvidosa dos Jogos Panamericanos de 2007, na Península Ibérica se discute se o país deveria ou não perder tempo e dinheiro com essa candidatura em vez de se preocupar em sair da crise. Na lista de países mais desenvolvidos, a Espanha é a que mais vem sofrendo com o desmoronamento do sistema financeiro internacional do ano passado. A taxa de desemprego, por exemplo, segue na casa dos 20%, o dobro da média dos vizinhos europeus. Depois de lamber suas feridas, pelo menos Madrid não terá mais distrações, segundo dizem os mais pessimistas.

Terra Magazine

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

MERCOSUL- Parece piada mas não é.

Esse senador só está interessado em prejudicar o Lula e seu governo.Apenas mostra o político mesquinho que êle é. Será que os U$5 bilhões que o Brasil exporta para a Venezuela não são importantes?
Carlos Dória

Tucano ignora números e recusa ingresso da Venezuela ao Mercosul.

O senador tucano Tasso Jereissati (CE) rejeitou todos os números que demonstram a importância da Venezuela no Mercosul e, alegando aspectos políticos, rejeitou a adesão do País ao bloco econômico na reunião da Comissão de Relações Exteriores do Senado, nesta quinta-feira (1o). Ao final da leitura do relatório, houve pedido de vistas coletivo, o que adiou a discussão e votação da matéria para o dia 29 de outubro.

Tasso quer aplicar derrota a Chávez e Lula.

O senador Inácio Arruda (PCdoB-CE), membro da Comissão, disse que a rejeição surpreendeu a todos que esperaram a aprovação, mesmo que com ressalvas, considerando os aspectos econômico, social e sobretudo político do Mercosul. O senador Pedro Simon (PMDB- RS) demonstrou indignação com o relatório, acusando Jereissati de ignorar toda a luta pela integração da América do Sul e a importância dessa união para os países da região.

Para Inácio, a indignação de Simon é justificável porque todos os senadores acreditavam que qualquer argumento seria usado como ressalva e não como rejeição. E acrescenta que “ao se negar acesso da Venezuela ao Mercosul, está-se bombardeando a posição brasileira no diálogo internacional.”

O tucano, apesar de apresentar questionamentos nos aspectos técnicos, baseou sua posição no ponto de vista ideológico, tentando aplicar uma derrota política ao presidente venezuelano, Hugo Chávez e ao próprio governo brasileiro. Para Inácio Arruda, ao tomar essa posição, o tucano defende sua ideologia e se posiciona contra os interesses do Brasil.

Quem é Bolívar?

A indignação do senador Pedro Simon gerou um início de bate-boca entre Jereissati e ele. O tucano acusou Simon de não ter lido o relatório, ao que Simon respondeu perguntando se ele (o autor) leu, porque ele tinha ouvido a leitura do documento. Simon disse a Jereissati que “nós não somos santos, temos nossos erros e equívocos até virar uma grande democracia”, recusando os argumentos de Jereissati com relação ao comportamento político de Chávez.

Simon lembrou o exemplo da União Européia, que tem países que não são democracias, “mas estão entrando e se integrando e dando exemplo fantástico.” Na opinião dele, o relatório ignorou a integração da América do Sul, que vem sendo perseguida pela América do Sul, que os Estados Unidos não querem porque querem continuar mandando no continente com a OEA (Organização dos Estados Americanos). “Os Estados Unidos não querem a América do Sul se entendendo, se respeitando, querem a OEA que eles mandam.”

Jereissati procurou se justificar dizendo que a intenção de Chávez era implantar uma entidade “bolivariana”, tropeçando na palavra, e destacando que nem sabia o sentido dele, ao que foi rebatido por Simon. O senador, ajudado por Inácio Arruda, disse que “bolivariano” vem do nome de Simon Bolívar, líder revolucionário venezuelano responsável pela independência de vários territórios da América Espanhola. Foi importantíssimo personagem na história da América Latina. A lição deixou o tucano “vermelho”.

Jereissati admitiu que “não há como ignorar a legitimidade das eleições havidas na Venezuela no que se refere ao presidente Hugo Chávez”, mas que tem dúvidas quanto ao futuro. Também reconheceu o “comércio pujante” da Venezuela com o Brasil, mas que seu voto estava baseado no fato de que Chavez é amigo de Lula e que tinha dúvidas de qual seria o relacionamento dele com outro governo brasileiro no poder.

Morte do Mercosul

O líder do governo, senador Romero Jucá (PMDB-RR), disse que esta será uma decisão política e que o Senado deve escolher entre votar “olhando para trás ou para frente.” Ele vai apresentar voto em separado a favor da adesão, respondendo a todas as dúvidas apresentadas por Jereissati que, segundo ele, merecem respostas para acabar com as divergências.

Pedro Simon disse que rejeitar a Venezuela representa a morte do Mercosul e fez uma defesa apaixonada da integração do continente sul-americano: “Não aceito que essa comissão vote contra o Mercosul, o que importa é a integração, é nos darmos forças, nos darmos as mãos, até para garantir a democracia nos países,” acrescentando que “o Senado vai matar o Mercosul, porque mata se a Venezuela não entra.”

O senador Inácio Arruda lembrou que, ao longo de uma série de audiência públicas, quando foram ouvidas várias personalidades – diplomadas, empresários, juristas etc – foram ressaltados por todos os aspectos vantajosos para o Brasil da integração do continente que se fortalece com a adesão da Venezuela ao Mercosul. No ano passado, o Brasil exportou para o Mercosul, US$21,74 bilhões. Só para a Venezuela foram US$5,15 bilhões.

A proposta de adesão da Venezuela ao Mercosul já foi aprovada na Câmara dos Deputados e pelos demais membros do Mercosul.

De Brasília
Márcia Xavier

HONDURAS - Golpistas lá e cá.

Carlos Latuff

São golpistas os que derrubaram Manuel Zelaya, como golpista também é a mídia brasileira, que tenta a todo custo nos convencer do contrário.

No caso de Roberto Micheletti renunciar e buscar asilo político, o Brasil poderia recebê-lo de braços abertos. Ou melhor, a imprensa brasileira. Quem sabe lhe arrumar um cargo de editor-chefe no Estadão, que em suas páginas tem culpabilizado a todos pelo golpe de estado em Honduras: Lula, Hugo Chaves, a diplomacia brasileira, o presidente deposto Manuel Zelaya. Menos os próprios golpistas, que aliás, para as rádios, jornais e TVs no Brasil, nem sequer são golpistas. Referem-se ao processo pelo qual Zelaya foi expulso como legítimo e constitucional. Constitucional, a meu ver, foi o "impeachment"que afastou Fernando Collor da presidência, seguindo todo um trâmite legislativo. A menos, é claro, que a constituição hondurenha entenda como legítimo mandar soldados encapuçados invadir na calada da noite a residência de um presidente eleito, e sob a mira de fuzis, enfiá-lo num avião rumo a outro país.

Mas o que esperar da mídia brasileira que tem uma Folha de São Paulo, que emprestou seus veículos de reportagem para agentes da repressão, e que mais recentemente referiu-se a ditadura no Brasil como "Ditabranda"? Ou mesmo as Organizações Globo, cujo /capo di tutti i capi/ Roberto Marinho, expandiu seus negócios graças ao apoio dado ao regime militar? São os mesmos veículos que chamaram de "oposição" os golpistas que tentaram derrubar os governos eleitos de Hugo Chaves e Evo Morales.

A culpa pelo golpe em Honduras é de Manuel Zelaya, assim como a culpa pelo golpe no Chile provavelmente foi de Salvador Allende. Os militares e os civis que os comandam não tem culpa. Nunca tiveram. Sejam eles oficiais que torturaram e mataram presos políticos no Brasil nos anos 60 e 70, ou mesmo policiais que torturam e matam nas favelas cariocas nos dias atuais. Assim como Berlusconi tenta reabilitar o fascismo quando disse que Mussolini "nunca matou ninguem" e que enviava seus opositores a "colônias de férias", a mídia brasileira tenta, com seus maneirismos, reabilitar as ditaduras.

São golpistas os que derrubaram Manuel Zelaya, como golpista também é a mídia brasileira, que tenta a todo custo nos convencer do contrário.

Carlos Latuff é chargista.

Fonte: Brasil de Fato

EUA - Choque de Ordem americano.

Quem mora na zona sul do Rio de Janeiro sabe do que estou falando.

EUA: Marginalização de quem não tem tecto.

Anita Beaty num protesto em Atlanta: "Atlanta é de todos nós"O maior abrigo para pessoas sem tecto do sudeste dos Estados Unidos processou judicialmente por sabotagem a Câmara Municipal de Atlanta, a qual acusa de tirar as pessoas pobres das ruas do centro da cidade, na sua maioria negros. Trata-se, segundo activistas, de um caso extremo. Mas, também alertam que se inscreve na tendência nacional de expulsar moradores das ruas das áreas urbanas centrais para a periferia, onde contam com escassos serviços.

Por Matthew Cardinale, da IPS

"Há cidades que tentam marginalizar quem não tem abrigo, levando-os para parques industriais e, em certos casos, para ilhas", disse à IPS Neil Donovan, director-executivo da Coligação Nacional para os Sem Abrigo . O de Atlanta é o último exemplo, acrescentou. "Na última década isto ocorreu em cidades como Saint Louis e Las Vegas", ressaltou Donovan.

O Grupo de Trabalho Metropolitano de Atlanta para os Sem Abrigo dá abrigo até a 700 homens por noite, e também proporciona serviços de dia para mulheres nas mesmas condições. Além disso, ajuda muitos excluídos de abrigos como o Gateway Center, preferido pela Câmara Municipal e que só atende uma quantidade limitada de pessoas, que são obrigadas a participar em programas de tempo integral e registar os seus dados numa base nacional. A maioria das instituições do ramo limita a ajuda aos sem tecto a períodos arbitrariamente limitados (21 dias, por exemplo), segundo o processo judicial.

O Grupo de Trabalho tenta dar assistência a todos os que ficam sem atendimento - e cada vez com menos fontes de financiamento -, mas o seu abrigo agora é alvo de ataques, entre outros, de empresários locais. Por exemplo, A. J. Robinson, presidente da Central Atlanta Progress, organização que representa comerciantes do centro da cidade, que disse à IPS: "Estamos a abandonar o velho modelo, de dar abrigo e alimento aos sem abrigo, e a adoptar um pelo qual procuramos tirá-los da sua condição".

"O pessoal do Grupo de Trabalho não trabalha para haver menos pessoas sem abrigo. Pensam que quanto mais gente abrigarem mais recursos poderão arrecadar", disse Robinson. "A sua instalação é muito grande e carecem de recursos para geri-la bem. O fluxo de pessoas dentro e fora do abrigo trouxe todo o tipo de problemas aos moradores. Os crimes ali são um problema. Os vagabundos que deambulam pelo lugar são um atraso para a comunidade", acrescentou.

A directora-executiva do Grupo de Trabalho, Anita Beaty, negou a existência de alguma investigação fidedigna sobre a criminalidade nos arredores do abrigo, e recordou que os homens devem permanecer nas suas instalações durante a noite, o que impede que cometam crimes nessas horas. Entrevistada pela revista Creative Loafing, Debi Starnes, principal assessora da presidente da Câmara Municipal Shirley Franklin em matéria de pessoas sem abrigo, acusou o Grupo de Trabalho de "armazenar" pessoas, em lugar de ajudá-las. Os defensores da organização consideram que se trata de uma acusação fácil, pois o abrigo aceita todos que precisam de ajuda e com poucas condições e continua fazendo isso apesar da carência de recursos.

"Ignoram os nossos informes. Podemos provar que ajudamos a conseguir emprego para muitas pessoas. Cerca de 1.500 pessoas tiveram acesso a uma moradia permanente este ano graças à nossa ajuda", assegurou Beaty. "O mais comum é o nosso abrigo ser o único tecto de emergência disponível para homens. Outros mudaram de lugar ou fecharam", afirmou a activista. Nos últimos anos - acrescentou - em Atlanta foram demolidas 3.200 unidades habitacionais públicas, o que provocou o deslocamento de 9.600 pessoas. "Setenta e sete por cento dos que procuram o nosso abrigo de algum modo ganham o seu sustento, mas não conseguem o suficiente para dispor de um tecto. Viver numa moradia exige que se ganhe no mínimo 15 dólares por hora (o dobro do mínimo legal), devido aos preços do mercado de Atlanta", disse Beaty.

Prevê-se que o julgamento do Grupo de Trabalho contra a Câmara Municipal começará em Fevereiro próximo. O juiz Ural Glanvile negou no último dia 21 o pedido das autoridades para declarar sem efeito o processo. A organização pediu à justiça que ordene à Câmara Municipal que não corte mais a água do abrigo, cesse as suas declarações difamatórias e falsas, deixe de bloquear as suas acções para conseguir fundos federais e desestimular a ajuda de doadores privados. Segundo o Grupo de Trabalho, estas atitudes reduziram os seus recursos financeiros e a qualidade dos serviços que prestam aos sem tecto.

Nas suas declarações à IPS, Robinson não negou que a Central Atlanta Progress tem contactos com a Câmara Municipal e com a imprensa para colocá-las a par das suas preocupações sobre o abrigo. Para Beaty, "isto é racismo. Querem limpar o centro da cidade de pessoas que supostamente não são boas para os negócios", ironizou. A campanha oficial contra o abrigo começou às vésperas dos Jogos Olímpicos de 1996 e se intensificou nos últimos anos. O Grupo de Trabalho se opôs às normas que proíbem a mendicidade no centro e à demolição dos grandes complexos públicos de habitação da cidade.

Os cortes de recursos federais decididos ou solicitados pela Câmara Municipal desde 2007 custaram ao Grupo de Trabalho cerca de 700 mil dólares até agora. A organização também denunciou que as autoridades da cidade pediram a pelo menos três doadores privados que não a ajudassem. Também cortou o serviço de água, em Dezembro e Junho passados, e nos dois casos a justiça ordenou que fossem ligados de novo.

IPS/Envolverde/Esquerda.net

INSTITUTO MILLENIUM, CATALIZADOR DE IDÉIAS CONSERVADORAS.

por Michelle Amaral da Silva última modificação 30/09/2009 14:53

Apoiado por barões da mídia e das finanças, organização pretende promover ideais como a economia de mercado e a meritocracia

30/09/2009

Adriano Andrade,
do Rio de Janeiro (RJ)

Antes do golpe civil-militar de 1964, houve no Brasil duas instituições de atuação interligada: o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) e o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), financiados por empresários nacionais e estadunidenses. Embora não tenham resistido até o golpe, foram responsáveis por promover a agitação intelectual que nele resultou. Em 2005, surge no Rio de Janeiro uma instituição em diversos aspectos semelhante. O Instituto Millenium foi criado como um think tank, uma organização para promover ideais de direita. Defendem a propriedade privada, a economia de mercado, a democracia representativa e a meritocracia. Embora não possuam vínculo formal, é o principal entusiasta da entrada da UnoAmerica no país, ao lado da Academia Brasileira de Filosofia.

O instituto é presidido por Patrícia Carlos de Andrade. Ex-mulher de um ex-integrante do Banco Central, foi analista de economia e política nos bancos Icatu e JPMorgan. Há quatro anos passou a se dedicar de forma voraz à construção do Instituto Millenium. Patrícia é filha do falecido jornalista Evandro Carlos de Andrade. Em 1995, ele passou a coordenar a Central Globo de Jornalismo e sua gestão é tida como responsável por dar maiores feições de “imparcialidade” e “seriedade” ao jornalismo global – na verdade, parcialidade hipócrita e defesa mascarada dos interesses da burguesia.

Os vínculos do instituto com a grande mídia não param por aí. Entre os dez principais mantenedores, estão João Roberto Marinho, das Organizações Globo, Roberto Civita, da Editora Abril, e Washington Olivetto, da W/Brasil. O Conselho Editorial é capitaneado por Eurípedes Alcântara, diretor de redação da revista Veja. Entre os integrantes, está Pedro Bial, o comentarista de múltiplos assuntos Carlos Alberto Sardenberg e o intelectual preferido da direita Demétrio Magnoli. Os “especialistas” propagandeados pelo instituto também têm passagem frequente pela mídia. Quando o assunto era a criação da CPI da Petrobras, por exemplo, Alexandre Barros era a voz do momento. Foi o governo federal anunciar suas políticas para o pré-sal, Adriano Pires, também indicado pelo instituto, ganhou projeção nos telejornais considerando ruim o projeto, porque seria “estatizante”.

O gestor do fundo patrimonial é ninguém menos do que Armínio Fraga, presidente do Banco Central de 1999 a 2002. Seu antecessor, Gustavo Franco, também integra o time. Entre os membros do instituto também estão os delegados da UnoAmerica no Brasil, Heitor de Paola e Graça Salgueiro. Já entre os mantenedores, Jorge Gerdau (Gerdau), Sergio Foguel (Odebrecht), Pedro Henrique Mariani (Banco BBM), Salim Mattar (Localiza), Marcos Amaro (Amarco Participações – TAM), Maristea Mafei (Máquina de Notícias) e William Ling (Petropar). O instituto promove anualmente o que chamam de “Dia da Liberdade de Impostos”. Para se ter uma ideia do nível de conservadorismo de seus integrantes, Patricia, Heitor e Graça assinaram, em 2002, o “Manifesto contra a ditadura esquerdista na mídia”, de Olavo de Carvalho. O documento protestava contra um suposto predomínio de valores progressistas na mídia brasileira.
Fonte:Brasil de Fato.

ANOS DE CHUMBO - No Araguaia, 40 anos depois, ainda em busca dos corpos.

Ricardo Kotscho.

Balaio do Kotscho

BRASÍLIA _ A esperança de encontrar os corpos dos desaparecidos, sabemos todos, é remota. Mas os parentes dos guerrilheiros mortos em operações do Exército na região do rio Araguaia, no começo dos anos 1970, nunca a perdem.
São 78 os desaparecidos conhecidos _ 57 guerrilheiros, 20 camponeses e um soldado. Seus parentes lutam até hoje para poder enterrar os mortos de acordo com suas convicções religiosas e em respeito à sua memória.
Quase 40 anos após a Guerrilha do Araguaia, desencadeada pelo PCdoB, uma dissidência armada do antigo Partido Comunista Brasileiro, contra a ditadura militar, o governo brasileiro continua empenhado em resgatar a verdade sobre este período amargo da nossa história.
É por este motivo que estou novamente em Brasília nesta tarde calorenta de quinta-feira. Amanhã cedinho, embarco num avião da FAB para Marabá, no sul do Pará, junto com meus colegas do Comitê Interinstitucional de Supervisão das Atividades do Grupo de Trabalho, constituído pelo governo federal em abril deste ano, com a participação de militares e representantes da sociedade civil, para retomar as buscas dos desaparecidos.
Liderado pelos ministros Nelson Jobim, da Defesa, e Paulo Vanucchi, dos Direitos Humanos, o grupo acompanhará os trabalhos de escavação em Mutuma, município de São Geraldo, e na Fazenda Bacaba, onde fará sua primeira reunião de trabalho na região.
Os trabalhos estão agora entrando na terceira fase e deverão se estender até o final de outubro, quando começa o período de chuvas. Duas expedições já foram realizadas desde o começo de agosto, sem resultados até agora.
É como procurar agulha em palheiro, pois nestas quatro décadas as terras onde os corpos poderiam ter sido enterrados foram totalmente reviradas e a topografia mudada. Mas os trabalhos prosseguem.
Na última reunião do grupo, em Brasília, no dia 10 de setembro, Antonio Herman de Vasconcelos e Benjamim, ministro do Superior Tribunal de Justiça, um dos 11 integrantes do comitê de supervisão criado pelo presidente Lula, resumiu o pensamento que move todos os envolvidos nesta operação:
“Dar uma satisfação aos familiares, dar uma satisfação à sociedade brasileira e demonstrar o envolvimento do Estado Brasileiro no resgate histórico perante as gerações futuras”.
Dos cerca de 80 guerrilheiros enviados para a selva pelo PCdoB no início dos anos 1970, apenas 20 sobreviveram. Os demais foram mortos em combate durante as três operações desencadeadas pelo Exército a partir de 1972, até o final de 1974.
Estive pela primeira vez nesta região conhecida por Bico do Papagaio, em 1980, para fazer uma série de reportagens para a Folha de S. Paulo, mais tarde publicadas no livro “Massacre dos Posseiros – Conflito de Terras no Araguaia-Tocantins”, da Editora Brasiliense.
Depois do final da guerrilha, a guerra pela terra ali continuou por outros meios e personagens, envolvendo grileiros, posseiros, garimpeiros, índios, policiais militares, religiosos, juízes e promotres, numa luta sem fim, que prossegue até hoje.
Ali, às margens dos belos rios Araguaia e Tocantins, na encruzilhada de três Estados, pegando o sul do Pará, o oeste do Maranhão e o antigo norte de Goiás (hoje Tocantins), vigorava a lei do mais forte numa terra de todos e de ninguém, onde nem o Exército e muito menos a Justiça conseguiam colocar um pouco de ordem.
Vou ver amanhã como anda a vida por lá tantos anos depois e conto para vocês no sábado (devo voltar no final da noite de sexta-feira).
Em tempo: antes que algum desavisado tire conclusões apressadas a respeito da minha participação neste Comitê Interinstitucional, informo que se trata, segundo decreto presidencial que o criou, de “serviço público relevante, não remunerado”.

EUA - EUA terão ditadura em breve.

O escritor americano Gore Vidal, de 83 anos, apoiou fortemente o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, quando ainda era candidato a representar o Partido Democrata nas eleições americanas do ano passado, mas agora afirma ter se arrependido de não apoiar Hillary Clinton.

O governo de Obama está “terrível. Eu estava esperançoso. Ele era a pessoa mais inteligente que tivemos na presidência em muito tempo. Mas ele não tem experiência. Ele tem uma falta de habilidade generalizada para entender assunto militares. Está atuando como se o Afeganistão fosse um talismã mágico, como se o problema fosse resolvido lá, resolveria o terrorismo”, disse.

Para Vidal, as tropas norte-americanas deveriam sair do Afeganistão. “Já fracassamos em todos os outros aspectos da tentativa de conquista do Oriente Médio, ou como quer que você queira chamar isto”, afirma.

No entanto, Vidal assegura que, apesar de os EUA serem um país de mentirosos, coisa que o escritor odeia, “Obama não mente”, segundo ele, o que o mantém ainda um pouco otimista. “O problema é que ele acredita nos generais.”

Segundo o escritor, “Obama acredita que o Partido Republicano é apenas um partido e não uma mentalidade, como a juventude hitlerista. Eles são fascistas”. Vidal também afirmou que não descarta a possibilidade de o presidente ainda ser assassinado.

Para Vidal, os EUA terão uma “ditadura militar em breve, devido ao fato de que ninguém consegue manter as coisas em ordem”.
Fonte:Opinião e Notícia.

HONDURAS - A velha cantilena da direita.

“Tiramos Zelaya porque foi para a esquerda e colocou comunistas no governo’

O líder golpista Roberto Micheletti admitiu que o “único erro” foi a forma de derrubá-lo, ao prendê-lo e depois tirá-lo do país. Mas defendeu a medida, negou tratar-se de um golpe de Estado e acusou Zelaya por corrupção.

A entrevista é de Néstor Restivo e está publicada no jornal argentino Clarín, 30-09-2009. A tradução é do Cepat.

O presidente de fato de Honduras, Roberto Micheletti, recebeu o Clarín na sala Dionísio de Herrera – primeiro presidente do país – da Casa Presidencial. Anoitece em mais um dia agitado. Nas ruas, a “resistência” a favor do presidente Manuel Zelaya, refugiado na Embaixada do Brasil, segue cada vez mais controlada por policiais e militares com a dificuldade de se organizar: os meios de comunicação opositores foram calados. Micheletti disse que no dia 7 de outubro autorizará a OEA para mediar (no domingo foi expulsa uma missão “sem permissão”, disse) e que há negociações internas para sair do pântano. “Há contatos – indica –, mas Zelaya deve submeter-se à Justiça e eu estou disposto a renunciar, no marco da Constituição”.

A proposta de San José, do presidente Oscar Arias, inclui a restituição condicionada de Zelaya.

É apenas uma iniciativa, não venham a dizer-nos o que devemos fazer.

Há negociações, ou buscam ganhar tempo até a eleição de novembro? A comunidade internacional já disse que não reconhecerá essa eleição convocada por vocês.

As eleições estão marcadas desde 2008.

Não procuram ganhar tempo expulsando a OEA?

Uma missão assim pode entrar na Argentina, sem documentos? Não tinham permissão. Somos um país soberano, que fique bem claro.

Por que o Exército fechou os meios de comunicação opositores?

Foi em base ao decreto (de estado de sítio). Incitavam à violência e à guerrilha.

Seu regime está totalmente isolado, até do FMI.

E por isso devemos resignar a nossa dignidade? Vocês, na Argentina, não foram à guerra das Malvinas por dignidade, sem importar a pressão externa?

Era uma ditadura militar.

Independente do que seja. A dignidade nacional existe. Terias permitido que Zelaya fizesse o que fez?

Depor um presidente é um golpe de Estado.

Nosso único erro foi tirá-lo da forma como o destituímos. No resto, agimos conforme a lei. Ele violava a Constituição ao buscar uma Constituinte para uma reeleição. Se o prendêssemos e o deixássemos aqui, teria havido mortos. Foi tirado do país, mas agora voltou.

Não acredita que estão debilitando a democracia na região?

Se um presidente viola a lei, é corrupto, dá o direito ao povo de reclamar. Nós lideramos esse pedido.

No Brasil, na Argentina ou nos Estados Unidos foram usados métodos institucionais frente à crise como as que você tenta descrever.

Nesses casos, o único que fez a coisa certa foi Lula, retificou o seu rumo.

Não entendi.

Outros mudaram a Constituição, queriam perpetuar-se, como Zelaya.

Continuo sem entender. Mas insisto com o Exército. O general Vázquez recordou a relação de Pinochet com Allende, primeiro leal e depois o depôs com as armas.

Pedimos a Zelaya para não forçar a Constituição. Roubou 700 milhões de lempiras (36 milhões de dólares) e tirou de empilhadeira fundos do Banco Central para a sua reforma constitucional. Gastou milhões para passear de helicóptero e com assessores. Era corrupto, tinha vários sem-vergonhas.

Que papel exercem as Forças Armadas? Sua presença inunda as ruas.

Não estão no governo, defendem a democracia, assim como a Polícia. É para cuidar da reação incendiária de Zelaya. Elas nos apoiaram, pois íamos ao abismo.

Mas tiveram um passado de violações dos direitos humanos e anticonstitucional. Por que lhes dão tanto poder agora?

Não, não. Faz 29 anos que se adaptaram. Hoje levam e trazem as urnas nas eleições, respeitam o poder civil, são um orgulho.

Foi a corrupção, a Constituinte ou tentativas de mudanças sociais o que levou ao golpe?

Depomos Zelaya por seu esquerdismo e corrupção. Ele foi presidente, como liberal, como eu. Mas se fez amigo de Daniel Ortega, Chávez, Correa, Evo Morales.

Perdão...

Deu uma guinada para a esquerda, colocou comunistas no governo e nos preocupou.

Com 75% dos pobres e um sistema esclerosado, as mudanças sociais não se fazem necessárias?

Pode haver reformas, inclusive constitucionais, menos em 3 artigos: território, forma de governo nem reeleição. Mas o que Zelaya prometia era pura farsa.

Como se pode resolver isso e avançar tendo tão baixa pressão fiscal, sem tocar interesses políticos, econômicos, religiosos tão fortes, sem mudanças mais de fundo?

Pode-se falar, sem brigar. Antes de sair assinarei decretos sociais. O Congresso, além disso, pode obrigar as empresas a pagar mais impostos se for preciso, por exemplo.
Fonte:IHU

AGRICULTURA - Agricultura familiar produz 70% do feijão do país.

Na verdade, que põe comida nas nossas mesas é a agricultura familiar.Esta é que deveria ter mais apoio do governo e não o agronegócio, nas mãos em sua maioria, de eternos caloteiros e latifundiários.Quando é que vai ser criada uma CPI para investigar o real tamanho do rombo dado por esses caloteiros aos cofres públicos?
Carlos Dória

Pela primeira vez, o IBGE traçou um perfil da agricultura familiar do país e constatou que ela é voltada basicamente para a produção de alimentos da cesta básica - itens nos quais chega a responder por até 70% da produção total e supera, em muitos casos, o agronegócio.

A reportagem é do jornal Folha de S. Paulo, 01-10-2009.

Pelos dados do Censo Agropecuário, as pequenas propriedades tocadas pelo dono e seus familiares eram responsáveis, em 2006, por 70% do feijão consumido no país. No caso da mandioca, o percentual era ainda maior: 87%.

Mesmo em lavouras voltadas para a exportação, a agricultura familiar tem um espaço de destaque. É o caso do milho, cultura na qual possuía uma participação de 46%. O mesmo ocorre com o café, cujo peso é de 38%.

Também na pecuária as propriedades menores e familiares são fortes. Na produção de leite, respondiam, em 2006, por 58% do total. Tinha ainda 59% do plantel de suínos e 50% do de aves. Para o secretário-executivo do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário), Daniel Maia, a agricultura familiar tem espaço assegurado, apesar do avanço do agronegócio.

"A concentração [da terra] não foi acompanhada da diminuição da agricultura familiar. Ou seja, ela não expulsou o homem do campo. Cresceu o número de estabelecimentos pequenos", disse.

Dos 80,25 milhões de hectares das propriedades familiares, 45% foram destinados a pastagens. Não há, porém, registro se estas áreas eram ocupadas por rebanhos.

Já 28% da área total eram de matas, florestas e sistemas agroflorestais voltados para o extrativismo ou cultivo de eucalipto para produção de celulose. As lavouras ocupavam 22% do total.

O Censo pesquisou ainda a posse da terra nas propriedades familiares. Do total de 4,3 milhões de estabelecimentos familiares, 3,2 milhões de produtores eram proprietários da terra - 74,7% do total. Existiam ainda 255 mil (6% do total) de "sem terra" -o que inclui aqueles que não precisam necessariamente de terra, pois podem trabalhar no extrativismo de florestas ou arrendar áreas.
Fonte:IHU

QUESTÃO FUNDIÁRIA - Muita terra na mão de poucos.

Se a desigualdade de renda no Brasil já escandaliza, a concentração no uso da terra impressiona ainda mais. E o que é mais grave: a distribuição piorou nos últimos dez anos. O Censo Agropecuário, que visitou mais de cinco milhões de fazendas em 2006 e foi divulgado ontem pelo IBGE, mostrou que há muita terra na mão de poucos. O Índice de Gini do uso do solo no Brasil é de 0,872, muito próximo de um, o que indicaria o nível máximo de concentração.

A reportagem é de Cássia Almeida, Letícia Lins e Anselmo Carvalho Pinto e publicada pelo jornal O Globo, 01-10-2009.

Em 1996, quando foi feito o último censo, a taxa era de 0,856. A concentração na terra é 67% superior à da renda no país, que já apresenta um grau de desigualdade entre os maiores do mundo. Em outra comparação, o Brasil tem uma concentração de terra pior que a Namíbia na distribuição de renda. No país africano, o Gini da renda é de 0,72. Entre os estados, os mais concentradores são Alagoas (0,871) e Mato Grosso (0,865).

— É uma concentração gigantesca, é imoral. Esse dado dá força para a reforma agrária, o único programa que faz redistribuição de patrimônio — afirmou a socióloga Brancolina Ferreira, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na área de desenvolvimento rural.

Diante dessa concentração, o número de trabalhadores no campo vem diminuindo ano a ano. Em dez anos, deixaram de trabalhar nas lavouras 1,363 milhão de pessoas.

Hoje, ainda são 16,5 milhões, o correspondente a 18,9% da população ocupada do país em 2006.

Cesta básica na agricultura familiar

Para especialistas, a agropecuária voltada para exportação — o chamado agronegócio da soja, cana-de-açúçar e pecuária — exige muito investimento e produção em escala, o que agrava o quadro de concentração.

— O Brasil desenvolveu uma agricultura para competir lá fora. Precisa de escala para competir. O que acaba liberando mão de obra. Isso é fenômeno de décadas. É uma estrutura montada pelo mercado, com pouco respaldo do Estado — afirma Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores.

Severino Sebastião da Silva, do interior de Pernambuco, e Eraí Maggi Scheffer, de Cuiabá, são dois produtores rurais. O que os separa são 249 mil hectares. O primeiro, um pequeno agricultor que planta batata doce, aipim e inhame, tem apenas um hectare de terra. O segundo, o maior produtor de soja do mundo, administra 250 mil hectares. O patrimônio de Silva se resume a uma casa de três cômodos, à jumenta Tieta e a um bezerro esquálido, que a família chama de Frank Caldeira, por ser “tão magro” quanto o atleta corredor. Analfabeto, ele nunca teve acesso a banco e não sabe calcular bem perdas e lucros.

— Nunca consigo tirar um salário mínimo por mês. Na feira, a cada semana, volto para casa com cerca de R$ 60 no bolso. Dinheiro para comprar feijão, farinha, carne, fubá, a comida da família.

A área que ele tem para trabalhar é tão pequena que esse ano doou aos vizinhos as sementes de milho e feijão que recebeu do governo.

— Elas chegaram muito tarde. Quando recebi não tinha mais espaço para plantar. Comer, não podia. Então, dei para quem não tinha.

Na região que mais aumentou a área de lavoura em dez anos, o Centro-Oeste, está o paranaense Eraí Maggi Scheffer. Aos 50 anos, comanda uma empresa que planta em 250 mil hectares (ou 250 mil campos de futebol) e deve faturar R$ 910 milhões este ano.

Do total de seu território de produção, cem mil hectares são áreas próprias, o restante é arrendado de outros agricultores.

Apesar de ilustrar as estatísticas da evolução da concentração de terras no Brasil, Maggi Scheffer não admite o rótulo de latifundiário.

— Tenho terra para produzir, não para especular. Terra serve para gerar alimentos, render divisas, melhorar a qualidade de vida. Quem não faz isso está prejudicando o Brasil e deve dar lugar a outro — diz o empresário, primo do governador do Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), de quem herdou o título de “Rei da Soja”. Suas fazendas empregam quatro mil pessoas.

A desigualdade secular está expressa também na participação das pequenas propriedades como a de Severino (até dez hectares) na área total das fazendas. Permanece em 2,7% desde 1985. Enquanto as com mais de mil hectares, como a de Scheffer, concentram mais de 43% da área.

Até na agricultura familiar, que está presente em 84,4% das fazendas, a desigualdade impera. Esses estabelecimentos respondem por apenas 24,3% da área das fazendas. Mesmo assim, a agricultura familiar é a principal responsável pelo abastecimento dos itens da cesta básica. Produz 87% da mandioca, 70% do feijão e emprega 74,4% dos trabalhadores no campo.

Mais demarcações, menos cultivo

Apesar de área total de plantio e pecuária ter caído nos últimos dez anos, a área de matas e florestas dentro dos estabelecimentos ficaram 11% menor, uma perda de 12,1 milhões de hectares. Segundo Antonio Florido, coordenador do Censo Agropecuário, a redução na área de cultivo foi causada pela demarcação de terras indígenas e de conservação:

— A área diminuiu, mas a produção aumentou. Vemos isso em todas as culturas, o crescimento forte da produtividade.
Fonte:IHU

URUGUAI - Mujica, candidato de esquerda, enfrenta maus momentos.

José Pepe Mujica, candidato presidencial da Frente Ampla para as eleições uruguaias do próximo dia 25 de outubro, está passando por maus momentos e já há muitos que acreditam que dificilmente ganhará as eleições no primeiro turno como se esperava. Os problemas de Mujica estão associados ao excesso verbal, ao seu jeito de falar, o que acaba lhe criando problemas inexistentes.

A reportagem é de Soledad Gallego-Díaz e publicado pelo El País, 27-09-2009. A tradução é do Cepat.

A culpa dos problemas de Mujica é dele mesmo. Recentemente suas declarações ao jornal La Nación, de Buenos Aires, criticando os políticos argentinos, e a um jornalista "amigo" que acaba de publicar uma biografia sua, na qual o candidato fala à vontade sobre a Justiça de seu país, provocou polêmica. Mujica não fala nada sobre a Argentina que a maioria dos argentinos já não pense, ou seja, que as instituições não funcionam, que muitos peronistas e sindicalistas são "delinquentes", que ninguém sabe a ideologia dos Kirchner, que os radicais são bons, mas "idiotas"... Tanto é assim que nem os Kirchner, nem os radicais, nem a mídia argentina se consideraram ofendidos demais e aceitaram sem maiores problemas as desculpas do senador uruguaio.

A oposição uruguaia por sua vez, já não foi tão compreensiva. A reação foi muito dura e unânime, talvez porque boa parte da campanha contra Mujica se baseia na ideia de que não é competente para o cargo presidencial, que é alguém com uma forma de falar coloquial e popular demais para representar o país e carece dos conhecimentos econômicos. Mujica tem uma impressionante história pessoal como guerrilheiro tupamaro e como preso político submetido a torturas e a terríveis isolamentos, mas também tem experiência política de sobra como senador e como ministro da Agricultura.

Mantém uma imagem que entusiasma muitos e irrita tantos outros, inclusive dentro da Frente Ampla. O atual presidente da República, Tabaré Vázquez, por exemplo, criticou publicamente as "estupidezes" do candidato. Também é verdade que Tabaré, que mantém uma grande popularidade mas não pode repetir o mandato, sempre preferiu outros candidatos a Mujica.

A reação da oposição foi tão violenta que, segundo um jornal de Montevidéu, Pepe Mujica esteve a ponto de desistir da candidatura. O senador temia que a Frente Ampla tivesse hipotecado suas possibilidades de vitória por causa de suas declarações e estava disposto a deixar o cargo para seu número 2, Danilo Astori (ao qual venceu nas primárias da Frente). Segundo esse relato, foi o próprio Astori, a quem Mujica já confiou a direção da economia uruguaia caso ganhe as eleições, quem se negou a considerar a ideia.

Astori saiu a público para reafirmar seu apoio a Mujica e deu por encerrado o incidente. Na Frente Ampla afirmam que se trata de conseguir que a campanha se oriente para os temas realmente importantes para o futuro do país e evitar que a oposição os "encerre" no debate sobre a polêmica biografia.

Por enquanto, os chefes da campanha de Mujica parecem não estar certos sobre a capacidade do candidato de superar a polêmica, e anunciaram a anulação de todas as entrevistas que o senador tinha marcado com a imprensa uruguaia e internacional. Pelo menos até que se comprovem os efeitos reais do que aconteceu nos eleitores uruguaios. Para alguns pode haver uma hecatombe, enquanto outros creem que há tempo suficiente até as eleições para que Mujica volte a conectar-se com os eleitores. As últimas pesquisas dão a Mujica 45% dos votos, à frente de Lacalle (32%) e de Bordaberry (11%), o que não evitaria um segundo turno.
Fonte:IHU

MÍDIA - Jornalismo de resistência.

Por Elaine Tavares

Nada é mais animador do que acompanhar a cobertura jornalística da Rádio Globo de Honduras nestes dias de golpe de Estado. Primeiro porque a equipe chefiada por Don David Romero imediatamente tomou posição: contrária ao golpe. Claramente, sem vacilação. E depois, pela postura jornalística que esta mesma equipe tomou ao longo destes meses. Os jornalistas noticiam dia e noite tudo o que acontece no país. As mobilizações populares, as reuniões, os debates. Eles abrem o microfone para todas as vozes, mesmo as golpistas.

A Rádio Globo e toda sua equipe está sendo nestes dias um ponto de apoio para toda a população. As pessoas confiam nos repórteres, ligam dos cantos mais remotos do país, passam informações, chamam seus companheiros para mobilizações. Usam a rádio como um espaço democrático e participativo de união e mobilização. E os jornalistas não se furtam a passar sua opinião sobre os atos dos golpistas.

Hoje, dia 22 de setembro, eram cinco horas da manhã quando o exército hondurenho chegou diante da embaixada brasileira e ali estavam os repórteres da Rádio Globo, relatando tudo. E mais, chamando o povo a sair de casa, a vir para a rua e se manifestar em apoio da legalidade constitucional, que é o retorno de Zelaya ao governo. Para quem vive num país onde a maioria dos jornalistas é cortesã do poder, este é um momento de pura emoção. Os jornalistas hondurenhos, pelo menos os da Rádio Globo, estão do lado da maioria das gentes. Eles não ficam protegidos pelo exército golpista. Eles ficam no meio do povo, correndo os mesmos riscos.

Amor e confiança do povo

Naquelas primeiras horas da manhã, as gentes que vivem longe da capital congestionavam as linhas da rádio para passar informação. O país inteiro se expressa pelas ondas livres desta emissora que, apesar de privada e pertencer a um liberal, encontrou no seu corpo jornalístico o esteio onde amparar a realidade vista pelos olhos do povo.

Para nós, que somos informados pelo jornalismo entreguista e amorfo das grandes redes do Brasil, ouvir a Rádio Globo de Honduras é quase como sorver o néctar daquilo que devia ser o jornalismo em todos os lugares. Um fazer absolutamente encarnado na vida real, das maiorias, do povo. Um espaço de expressão de todas as vozes, e não só de algumas. A equipe de jornalistas da Rádio Globo me enche de orgulho de ser o que sou: jornalista. Alguém comprometido e parcial. Porque não dá para ser neutro diante de um golpe ou diante da destruição da vida das gentes. Que vivam os jornalistas de Honduras, uma categoria que tem o amor e a confiança do povo. Coisa rara e por isso digna de nota.