domingo, 2 de março de 2014

VENEZUELA - Faz sentido dizer que é uma ditadura?

Faz sentido dizer que a Venezuela é uma ditadura?

A revolução chavista pode ser resumida numa linha: ter dado voz a quem nunca teve.

Não é fácil para o leitor brasileiro entender Hugo Chávez.
Jornais e revistas da grande mídia quase sempre se referiram a ele de uma forma extraordinariamente negativa.
As críticas a Lula parecem afagos quando se vê a forma como Chávez foi e é tratado pela mídia nacional.
Ditador. Tirano. Caudilho. Primitivo. Dinossauro.
Estes são apenas alguns dos adjetivos que já parecem estar prontos quando um editorialista ou colunista brasileiro vai escrever sobre Chávez.
Entender tamanha agressividade à luz da pura lógica é impossível.
Ditador, por exemplo. Chávez chegou ao poder e nele morreu por causa das urnas.
Se ele fosse ditador, para continuar neste adjetivo, as grandes empresas de jornalismo da Venezuela que o atacavam tão ferozmente estariam caladas, e seus donos em algum gulag.
Stálin não era atacado pela imprensa russa, nem Hitler pela alemã. Na América do Sul, Pinochet não era chamado pelos jornais chilenos de ditador. Nem Geisel, ou Médici, ou até Figueiredo, no Brasil.
Em ditadura é assim.
Que aconteceria sob Pinochet, por exemplo, se algum líder de oposição convocasse abertamente um golpe como fez, estes dias, Leopoldo López? Quantas horas ele viveria depois disso?
Mas na Venezuela de Chávez não era assim. Como chamá-lo, então, de ditador?
O que Chávez fez, essencialmente, foi dar voz a milhões de venezuelanos miseráveis, que ao longo do tempo foram simplesmente ignorados por uma elite minúscula que fazia compras em Miami e controlava o poder e as benesses oriundas dele.
Eles monopolizaram os frutos do petróleo, em que a Venezuela é excepcionalmente rica.
Se os homens que dirigiram desde sempre a Venezuela tivessem demonstrado interesse pela sorte dos desvalidos, e portanto construíssem uma sociedade menos iníqua, Chávez simplesmente não existiria. Pelo menos não como o conhecemos.
Ele só emergiu por causa da obra lastimável dos que o antecederam no poder.
Chávez se diz socialista, como o presidente da França, François Hollande.
Mas, como no caso de Hollande, é um socialismo que pouco ou nada tem a ver com o marxismo. Marx, por exemplo, dizia que a religião é o ópio do povo.
No pronunciamento em que anunciou que tivera uma recaída no câncer e designou um sucessor para o chavismo, Chávez beijou um crucifixo. Ele invocava Deus com uma frequência notável. Marx jamais diria: “Este é um dos meus.”
E nem Stálin: ele jamais admitiria um sistema político nos moldes de Chávez, que pode ser removido por meio de votos livres.
Chávez, em sua trajetória, se indispôs com os Estados Unidos de Bush. Disse que combatiam o terror com o terror. Mas, conhecida hoje com mais detalhes a obra de Bush, se pode dizer que Chávez estava falando um absurdo?
Considere.
A Guerra do Iraque, sabe-se agora, foi decretada sob a falsa premissa de que Saddan Hussein possuía armas de alto poder de destruição em massa. Pessoas sem julgamento foram encerradas em Guantánamo e submetidas a torturas. Crianças, mulheres, velhos foram mortos em grande quantidade no mundo árabe, na era Bush, por drones, os aviões sem tripulação que aterrorizam até hoje os civis na região.
E então?
Chávez colocou foco nos pobres, pela primeira vez na história da Venezuela. Se o poder pode ser comparado a um brinquedo, ele tirou o brinquedo das mãos de quem estava com ele desde sempre.
E isso semeou um ódio virulento, que extrapolou as fronteiras da Venezuela e foi dar nos amigos daqueles que monopolizaram o brinquedo.
Mas também semeou votos, reconhecimento e lealdade entre os que foram excluídos da brincadeira.
Sobre o impacto de Chávez, nada conta tanto quanto o fato de a oposição a ele, nas últimas eleições, ter incorporado muitos dos programas sociais que tinham sido desprezados como “assistencialistas”, como se dar educação e saúde a quem jamais teve se enquadrasse nisso.
Como notou o reputado jornalista e escritor inglês Richard Gott em seu excelente livro “A Revolução Bolivariana”, que recomendo vivamente, Chávez colocou no mapa múndi a Venezuela, ao longo dos tempos um mero quintal dos Estados Unidos.
Talvez a maior lição do caso Chávez seja a seguinte: a única maneira que uma elite dirigente tem para impedir que apareça em seu caminho alguém com as características dele é não usar o brinquedo apenas em benefício próprio.
Para quem quer exemplos práticos de aplicação disso, é só esticar os olhos para a Escandinávia – onde o bem estar não é para um punhado privilegiado apenas, mas para a sociedade como um todo.
A grande revolução de Chávez foi dar voz aos pobres venezuelanos. Por isso é tão amado por eles, e por isso será uma referência perene na história da Venezuela e da América Latina.

MEIO AMBIENTE - A praga dos agrotóxicos.

 

A PRAGA DOS AGROTÓXICOS E O VENENO DA CORRUPÇÃO


(JB) - O Portal IG informa que, no ano passado, o Brasil consumiu um bilhão de litros de agrotóxicos, ou cinco mil mililitros de substâncias que podem provocar, entre outras doenças, de câncer a problemas neurológicos, por habitante.

Detemos, hoje, o assustador título de maiores importadores de agrotóxicos do planeta, entre eles, quatorze substâncias mortais já proibidas em outros países, que têm sido livremente usadas no Brasil.

Algumas delas aparecem na esmagadora maioria das amostras de leite materno e de urina da população de Lucas do Rio Verde, uma das capitais brasileiras do agronegócio, município no qual se usa, por ano, 136 litros de veneno por habitante, e no qual já houve surtos de contaminação aguda de crianças e idosos em 2007. 

Mas, mais grave ainda: segundo a matéria, a Presidência da República teria aprovado uma portaria, no final do ano passado, dando  exclusividade ao Ministério da Agricultura – sem ouvir a área ambiental – para decretar emergência fitossanitária ou zoossanitária, permitindo em tese a utilização diferenciada, ou sem licença prévia,   de substâncias proibidas, nos casos em que ataques de pragas estejam prejudicando seriamente a agricultura ou a economia nacional. 

Essa situação – que facilita a entrada de novos agrotóxicos no Brasil - foi tema de uma carta aberta à população e a outras instituições, por parte da Fundação Osvaldo Cruz, chamando a atenção para o forte lobby do agronegócio no Governo, e para a ameaça dos agrotóxicos para a saúde e o meio ambiente no Brasil.

Mas o problema não é apenas político. A  Polícia Federal teria aberto inquérito – a pedido de um ex-funcionário da  Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que hoje trabalha na FIOCRUZ, Luiz Claúdio Meirelles - para investigar a ocorrência de fraude e corrupção no setor de toxicologia da ANVISA.

As fraudes teriam se dado no processo de  aprovação de pelo menos seis diferentes agrotóxicos, nos últimos anos, pela  instituição.    

A produção de alimentos, em todo o mundo, é reconhecida como um extraordinário diferencial geopolítico. 

Castigados pela fome e pela guerra, países como o Japão, a China e a Coréia, e blocos como a União Europeia, colocam o conceito de segurança alimentar – ou a possibilidade de suprir de alimentos sua população – no alto de suas considerações estratégicas, a ponto de subsidiarem, assim como fazem também os EUA, direta e indiretamente, com bilhões de dólares, os seus agricultores.

A isso se somam, naturalmente, a cobiça e os interesses de grandes tradings e companhias químicas internacionais, que movimentam centenas de bilhões de dólares por ano, na compra e venda de grãos e de commodities agrícolas, e na produção e comercialização de insumos e agrotóxicos.

Temos, na EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, uma das mais avançadas instituições do mundo. É preciso aumentar, via pesquisa, a oferta de novas sementes e cultivares que possam substituir ou diminuir o uso de agrotóxicos no Brasil, antes que eles contaminem, por completo, nossos rios, lagos e aquíferos, e destruam, pela quebra do equilíbrio ecológico, a nossa biodiversidade e um dos mais ricos patrimônios naturais do planeta.

Seria, no entanto, ingenuidade, esquecer que problemas são muitas vezes intencionalmente criados, apenas para engendrar e colocar, subsequentemente, no mercado, novas “soluções”, voltadas para gerar cada vez mais lucro, em detrimento da natureza e da saúde humana.

O crescimento do Brasil no mercado global de alimentos – este ano passaremos os Estados Unidos como o maior exportador de soja do mundo – não incomoda apenas os produtores agrícolas de outras nações. 

Ele também excita a cobiça dos fabricantes de  insumos e agrotóxicos.          

Nesse contexto, é preciso aumentar ao máximo a fiscalização e a vigilância de nossas extensas fronteiras. Em uma mala pequena, no bolso de uma camisa, em um par de sapatos, podem ser contrabandeados agentes biológicos como ovos de insetos, fungos e esporos, que, em uma viagem de poucas semanas, podem ser facilmente disseminados por milhares de estradas vicinais, situadas à margem de milhões de hectares de plantações de commodities de grande penetração nos mercados internacionais, como o milho, a soja, o cacau, os cítricos, o algodão.

A cada ano, surgem, no campo brasileiro,   novas pragas, que antes só atingiam outros países, que aumentam, em milhões de reais, os custos para os nossos produtores. Essa situação é favorecida por um quadro, em algumas regiões, de virtual monocultura, ou de plantio rotativo restrito a um ou dois produtos  de exportação, que caracteriza boa parte do agronegócio nacional.

A essas pragas, como a Helicoverpa Amígera, parece que teremos que acrescentar, agora, como indica a investigação em andamento na ANVISA, o veneno, sempre presente, da velha  praga da corrupção.

Antes, quando a responsabilidade cabia apenas ao executivo, por meio do Ministério da Agricultura, da Saúde e do Meio Ambiente, esse perigo já existia, mas podia ser detectado e combatido com mais facilidade, por meio da fiscalização do próprio governo, da polícia e, em última instância, do eleitor.

Com o advento de comitês e subcomitês mistos e das “agências reguladoras” a partir do vendaval neoliberal dos anos 90, aumentaram, como já se viu em outras áreas como a telefonia, a burocracia, a troca de cadeiras, o conluio e conúbio entre o público e o privado, com inegáveis prejuízos para o consumidor.             

GEOPOLÍTICA - A estratégia da OTAN para o Atlântico Sul.


DEFESA E SEGURANÇA : A ESTRATÉGIA DA OTAN PARA O ATLÂNTICO SUL.


(JB) - A crescente integração política e econômica da América Latina e a importância desse projeto para as perspectivas de projeção dos países ocidentais sobre o Atlântico Sul tem se transformado, nos últimos anos, em um tema de relevante interesse para os Estados Unidos e seus parceiros da Aliança Atlântica no âmbito militar e de defesa.

Nesse sentido, é interessante a leitura de um estudo recentemente publicado pelo CENAA – Center for European and North Atlantic Affairs, denominado NATO GLOBAL PARTNERSHIPS IN THE XXI CENTURY - Parcerias globais da OTAN no Século XXI, analisando as perspectivas de atuação da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar que une a Europa e os Estados Unidos, com relação ao Brasil e à América Latina.

Reconhecendo que não existe, no momento, nenhum país latino-americano em regime de parceria formal com a OTAN, seus autores apontam, como dificuldade, para atingir esse objetivo, três importantes fatores:

- a desconfiança dos países da região com relação ao envolvimento dos Estados Unidos;

- “Interesses” diferentes desses países com relação à segurança;

 - uma percepção “diversa” com relação às  possíveis, no campo geopolítico global, nos próximos anos.

Segundo o documento, as reações contra o envolvimento histórico dos EUA na América Latina, teriam se aprofundado a partir da concretização de acordos para o  estabelecimento de bases militares na Colômbia e no México, e com a decisão de reativação da 4 ª Frota da Marinha dos EUA para operar, em princípio, no Mar do Caribe.

Essas ações teriam sido vistas, principalmente pelo Brasil, a partir da aprovação do novo conceito estratégico da OTAN, em 2010, como uma tentativa de abrir espaço para a atuação da organização no Atlântico Sul, e em outras regiões do mundo, fora do espaço tradicional do hemisfério norte.

Por trás da oposição de Brasília, estaria o desejo brasileiro de não abrir mão de um papel preponderante com relação à estabilidade regional, a doutrina diplomática nacional de não aceitar o uso da força sem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas e a necessidade de preservar e defender seus interesses no Atlântico, especialmente no que diz respeito às reservas de petróleo descobertas pela Petrobras na Amazônia Azul.

O documento lembra que o Brasil considera como uma questão crucial impedir a entrada e permanência de navios dos EUA e da OTAN na região, na qual já existiria um potencial ponto de apoio para suas operações, representado pela presença britânica nas ilhas Malvinas, à qual se opõe a maioria dos países da América do Sul.

Daí a importância, para o Brasil, e para seus aliados, da defesa do conceito do espaço sul-americano – e do próprio Atlântico Sul – como uma Zona de Paz, sem grandes conflitos desde o século XIX, na qual os principais problemas quanto à segurança estariam representados pelo crime organizado, o tráfico de drogas e de armas, a proteção das fronteiras e a segurança urbana.

Essa situação, no entanto, lembra o documento, poderia mudar com a introdução de outros fatores. Entre eles, estaria o conceito de combate ao terrorismo, citando a Tríplice Fronteira, e a preocupação com o crescimento – como já defende a mídia pró-ocidental de alguns dos nossos países – da influência da Rússia e da China na região.

A resistência brasileira – país citado como alvo ideal para ações de cooperação – obrigaria a OTAN a se concentrar em nações que, no passado, já atuaram, marginalmente, em conjunto com a organização. Paradoxalmente, a Argentina – que dificilmente cairia nessa esparrela de novo – e o Chile, que fizeram isso na década de 1990.

Como organismos que poderiam facilitar o contato de países latino-americanos mais ligados aos Estados Unidos com a OTAN, são citados o Conselho Interamericano de Defesa, incorporado à OEA em 2006, e o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, TIAR, que obviamente não funcionou quando da Guerra das Malvinas e que tem sido progressivamente abandonado pelos países da América do Sul desde então.  

A força relativa dessas organizações também diminuiu – segundo o documento - com o surgimento da UNASUL, e do Conselho de Defesa da América do Sul, e a firme oposição do Brasil a qualquer acordo em separado com os EUA que viesse a fazer com que aceitássemos o papel de capatazes “ocidentais” no continente.

O papel neocolonial da Espanha e de Portugal é lembrado, quando se afirma que mesmo esses países-membros, “tradicionalmente ligados à América Latina” não foram capazes – como se isso fosse possível – de servir como ponte entre a região e a OTAN.

E, mostrando que existe muito mais por trás da Aliança do Pacífico do que um mero acordo econômico, o documento do CEENA cita nominalmente México, Colômbia, Peru e Chile, como países que poderiam servir de alvo inicial nesse processo de aproximação, por estarem voltados para cooperar de forma mais ampliada com os EUA e estarem se projetando para outras regiões, como a da Ásia-Pacífico.

Entre as conclusões, destaco e traduzo, livremente, as seguintes:

“A dinâmica de cooperação de segurança na região e a natureza dos desafios de segurança emergentes exigem novas tentativas da OTAN para buscar relações mais estreitas com os países latino-americanos.”

“A tarefa básica da OTAN é encontrar  formas e meios de construção de “confiança mútua”.

“O que precisa ser feito, em primeiro lugar, é a tentativa de um diálogo de alto nível em temas como operações de manutenção da paz, resolução de conflitos ou o papel das Nações Unidas.”

“Procurar a UNASUL e CDS seria o mais indicado para uma cooperação bloco a bloco, embora seja possível que a diversidade de seus estados membros e suas respectivas posições sobre a cooperação em questões de segurança venha a representar um obstáculo para o estabelecimento desses “contatos”.

SANTAYANA - O FEITIÇO E O FEITICEIRO.



(Hoje em Dia) - Talvez o mais europeu dos países da Europa – nos seus cantões convivem as culturas alemã, francesa e italiana – a  Suiça acaba de aprovar um referendo sobre “Imigração Maciça” que limitará, a partir de agora, a entrada de cidadãos da Comunidade Europeia, passando a tratá-los da mesma forma, para efeito de residência, vistos de trabalho, e direito sociais, que imigrantes de outras partes do mundo, como a África e a América Latina, por exemplo.

Além disso, a contratação de estrangeiros voltará a necessitar do consentimento prévio das autoridades locais, que terão de dar prioridade, primeiro, a qualquer cidadão suíço que estiver desempregado.  

Para a vitória da proposta, apresentada pelo direitista Partido do Povo Suiço (SVP), foi fundamental o crescimento da imigração nos últimos anos – há 1.800.000 estrangeiros vivendo na Suiça, ou 23,3% da população – e outras alegações como “os interesses gerais da economia suíça”; a presença, no mercado, de trabalhadores “transfronteiriços”, que vivem em outros países e trabalham em território suíço, e também – infelizmente – de asilados.   

A Confederação Suiça tem uma das mais altas rendas per capita da região, o equivalente a 58.000 mil euros brutos por ano, e uma pequena taxa de desemprego de 3.7%, o que tem atraído trabalhadores de países em crise com altas taxas de desemprego, como a Espanha - com 27% da população desempregada - que tem aproximadamente 100.000 cidadãos vivendo naquele país. 

Com a medida, deixam de ter validade os chamados “Acordos Bilaterais” com a União Europeia, em vigor desde 2002, que garantiam a livre circulação e a liberdade de residência de cidadãos “comunitários” e suíços, seu direito de viver em qualquer lugar da UE ou da Suiça, sempre que tivessem emprego ou uma atividade econômica regular.        

A partir de agora, o número de novos imigrantes europeus estará regido por quotas e dependerá, também, da prioridade a ser estabelecida para cidadãos locais no mercado de trabalho helvético. 

Como um bumerangue, a nova lei suíça está fazendo com que o resto da Europa esteja vivendo a surpresa de ver o feitiço voltar-se contra o feiticeiro, e de  experimentar, didaticamente, como um  repugnante remédio, um pouco de seu próprio veneno. 

Mesmo que levada a isso pela extrema direita, ao tratar cidadãos da União  Europeia da mesma forma que os “comunitários”,  muitos de países que nos enviaram milhões de emigrantes, como Portugal, Itália e Espanha, sempre trataram os estrangeiros “extracomunitários”, como os da América Latina, a Confederação Suiça está exercendo, de alguma maneira, uma certa espécie  de “justiça poética”.



Ela mostra que o racismo, a arrogância e a xenofobia não isentam quem os pratica de ser tratado, também, por outros, do mesmo jeito excludente e humilhante. E ensina que, por mais que acredite no contrário, a ninguém foi dado o direito de estar acima de outros seres humanos.

ECONOMIA - A nova cúpula da Aliança do Pacífico.


13/02/2014

A NOVA CÚPULA DA ALIANÇA DO PACÍFICO


(JB) - Se há uma coisa que muitas vezes, impressiona, em certos segmentos da elite e do empresariado nacional, é a facilidade com que se deixam pautar e manipular pela imprensa estrangeira – e seus replicantes locais – sem entender que por trás de tudo que não seja absolutamente factual, existem  determinados interesses.

Esse é o caso, por exemplo, dos artigos e  “análises” feitas pela mídia, a  respeito da Aliança do Pacífico, que engloba o México, a Colômbia, o Peru e o Chile, e que reuniu-se há alguns dias, em Bogotá, proclamando retumbantemente o corte de 92% das tarifas no comércio entre seus sócios.

A AP está sendo apresentada, dentro e fora do Brasil, como o último prego no caixão do Mercosul, do ponto de vista econômico, e como a aliança que servirá de alternativa – principalmente, ideológica – para os diferentes mecanismos de integração – como a UNASUL e o Conselho de Defesa – que estão sendo promovidos pelo Brasil em nosso continente neste momento.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar, Colômbia, Peru e Chile, longe de serem contra o Mercosul, são membros associados da organização – o México tem status de observador – e também da UNASUL e do CDS, o Conselho de Defesa Sul-americano. E o Chile, a partir da posse da presidente eleita Michelle Bachelet, tende  se reaproximar do Brasil e do próprio Mercosul. 

Acreditar que o Brasil vai perder para o México esses parceiros – com quem dividimos até projetos militares - é ignorar o fator geográfico, e esquecer que já dispomos de acesso facilitado a esses mercados, privilégio que não poderá ser alterado, sob a pena de essas nações também terem seus produtos barrados no mercado brasileiro, o maior das Américas, depois dos Estados Unidos.    

Em segundo lugar é preciso relativizar a importância da AP, lembrando, por exemplo, que só o Brasil tem uma economia maior do que a de todos os seus membros reunidos.

E que o Mercosul, como um todo, com a recente inclusão da Venezuela, e um PIB total de 3.3 trilhões de dólares, representaria, se fosse uma nação, a quinta maior força econômica do mundo.

Por trás do mito da Aliança do Pacífico, existe a ilusão de um maior dinamismo da economia mexicana, o principal país do grupo – que cresceu no ano passado 1.2% - com relação à brasileira, a maior do Mercosul – que avançou  2.5% no mesmo período.

Existem mais coisas que definem o lugar que o Brasil e o México pretendem ocupar no mundo – e seus respectivos projetos de desenvolvimento – do que a mera geografia e o volume de exportações.

O México é um país totalmente integrado à América do Norte, e, nessa integração, ficou bom em terceirizar mão-de-obra barata, fabricar refrigerantes, cimento e pão de forma, e prestar serviços de telefonia.

O Brasil é um país integrado à América do Sul e ao BRICS, que privilegia o crescimento de seu  mercado interno, tem como principal parceiro comercial a China, e vende para todos os continentes do mundo.   

Somos o mais avançado país em pesquisa agropecuária, extração de petróleo a milhares de metros de profundidade, em alto mar, a centenas de quilômetros da costa; em desenhar e fabricar aviões civis de passageiros de até 120 lugares. Produzimos mísseis navais e aéreos, foguetes de saturação, radares e mísseis de cruzeiro.

Dominamos o ciclo do enriquecimento do urânio, fabricamos e possuímos aceleradores de partículas (o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron está em funcionamento e vem aí o Sirius, com 165 metros de diâmetro e 650 milhões de reais de investimentos), e estamos aprendendo a fazer submarinos nucleares, aviões de caça supersônicos e sistemas de transporte a levitação magnética (o Cobra-Maglev da Coppe), por exemplo.

Na internet, alguns mexicanos gostam de apresentar – ao contrário de nós mesmos, que não nos arriscamos a fazer o mesmo - como “mexicana” uma suposta superioridade em manufatura com relação ao resto da América Latina, que se desmente pelos seguintes fatos:

- A quase totalidade das fábricas instaladas no México são de outros países – não existe uma única marca mexicana de automóveis ou de bens de consumo avançados.

- O comércio exterior do México, embora volumoso, é tradicionalmente deficitário.

- A pesquisa e a engenharia de caráter industrial são majoritariamente desenvolvidas em outras regiões do mundo.

- Se não fossem os baixos salários e o mercado dos Estados Unidos do outro lado da fronteira, os mexicanos sequer teriam a sombra do parque “industrial” que possuem.  

E não seriam um país exportador, considerando-se que 90% do que fabricam, tem como destino o TLCA - NAFTA (Canadá e Estados Unidos).

Trata-se, portanto, de condições, que não seria possível repetirmos aqui mesmo se quiséssemos - o que não é o caso - ou  se viajássemos para a fronteira de Tijuana e regredíssemos de volta no tempo.

Mesmo quando se considera a indústria automobilística, paradigma de uma suposta superioridade industrial mexicana com relação ao Brasil, até mesmo pesquisadores daquele país se recusam a endossar isso.

Esse é, por exemplo, o caso do estudo “Industria Automotriz en México y Brasil: Una comparación de resultados después  de la crisis de 2008”, da Dra. Lourdes Alvarez Medina, da UNAM – a maior universidade do México, que conclui seu texto da seguinte forma:

“Respecto a las características de cada industria se observa que México no ha desarrollado marcas propias, importa una gran cantidad de autopartes y componentes y no ha diversificado sus exportaciones ni tiene procesos de innovación importantes. Depende completamente del mercado de los Estados Unidos y ha descuidado su mercado interno.

Brasil por su parte tiene algunos productores locales de autobuses y chasis, tiene una cadena productiva mejor conformada y en algunos modelos tiene contenido local hasta de 90% y sus exportaciones automotrices están muy diversificadas y su mercado interno creció en tiempo de crisis. Además, los autos manufacturados en Brasil consumen gasolina y etanol en diferentes proporciones lo que le da a la flota vehicular brasileña cierta independencia del petróleo.”

Com todo o respeito pelo sofrido passado do México, que perdeu metade de seu território para os EUA, e pelo povo mexicano, sua arte, cultura milenar e literatura, se me perguntassem, principalmente, hoje, se preferiria estar no lugar do México ou do Brasil, ficaria – ao contrário do que muita gente pensa por aqui - na condição em que estamos.

ECONOMIA - A ECT, A ITÁLIA E A TELEBRAS.

A ECT, A ITÁLIA E A TELEBRAS.


(Hoje em Dia) - A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, anunciou, há alguns dias, a assinatura de joint venture com a Poste Italiane, os correios estatais da Itália, para explorar – entre outros serviços correlatos  - o mercado brasileiro de telefonia celular virtual.

Conhecendo-se a tradicional benevolência do Ministro Paulo Bernardo com as multinacionais de telecomunicações, em casos como a proteção do mercado de tv a cabo; flexibilização de regras e obrigações; e vultosos empréstimos públicos a juros subsidiados para o financiamento de sua expansão no país, enquanto elas remetem bilhões de dólares em lucro para o exterior, cabe perguntar:


Com que critérios foi feita a escolha da Poste Italiane ?

Por que estrangeiros foram escolhidos para ficar com 51% das ações, e foi dado à Poste Italiane, e não à ECT o controle do negócio, se a empresa vai operar no Brasil ?


Já que a Poste Italiane pertence ao governo italiano e 100% de suas ações são estatais – se fosse privada seria muito pior – por que fechar essa parceria necessariamente com ela, e não com uma estatal de outro país, como a Deutsche Post, da Alemanha – a maior do mundo, dona da DHL - ou a China Post, por exemplo ?


Para a ECT entrar nesse mercado, ela estava  necessariamente obrigada a se associar a uma empresa estrangeira ?


Ou não poderia simplesmente – caso fosse imprescindível - ter contratado serviços alheios para a montagem de seu sistema, sem necessariamente abrir mais um pedaço de nosso mercado a uma empresa de fora que vai acabar enviando seus lucros para o exterior ?


Os correios, com um faturamento de mais de 10 bilhões de reais por ano, não teriam os recursos – cerca de 150 milhões de reais iniciais - para entrar sozinhos no negócio, sem precisar se associar aos italianos ?


E, por último, se estamos – finalmente – perdendo o prurido de trabalhar com empresas estatais de outros países, controladas por governos estrangeiros, por que não fazer o mesmo com uma estatal brasileira, que é do ramo, como a Telebras ?


Fazendo a joint venture com os italianos, o governo não estaria jogando pela janela - queimando mesmo e esperamos que de forma não proposital - uma oportunidade única para relançar comercialmente a  Telebras ?


Colocando-a para competir, mesmo que marginalmente, com as multinacionais que estão controlando o mercado nacional de telecomunicações, e que nos brindam com péssimos serviços – das mais baixas velocidades de conexão de internet do planeta – combinados a algumas das mais altas tarifas do mundo ?


Alguém duvida do imediato sucesso de qualquer produto associando duas marcas históricas, emblemáticas, do ponto de vista da credibilidade e confiabilidade, como a ECT e a Telebras, em qualquer ponto do território nacional ?
  

Por que não aumentar o capital, incluindo a Telebras ?

POLÍTICA -"Barbosa aplicou sua vontade, não código penal"

'Barbosa aplicou sua vontade, não código penal'

"Senador Roberto Requião (PMDB-PR) critica comportamento do presidente do STF, que admitiu ter agravado as penas para formação de quadrilha na AP 470 a fim de que o crime não prescrevesse e de que os condenados fossem para regime fechado; "Fácil de entender, independente da lei, Joaquim Barbosa resolveu aplicar sua vontade e não o código penal", tuitou o parlamentar; antes, ele ironizou a "regalia" de Delúbio Soares na prisão, segundo o MP, uma feijoada; "Lata de 430 gr de regalia do Delúbio (feijoada Bordon) custa R$ 4,00. Mais ou menos o preço da comida de um preso. Feita em casa é barata"

Brasil 247

A truculência com que age o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator da Ação Penal 470, Joaquim Barbosa, foi duramente criticada pelo senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná, na manhã deste domingo.

"Fácil de entender, independente da lei, Joaquim Barbosa resolveu aplicar sua vontade e não o código penal", escreveu o parlamentar, em sua conta no Twitter.

Na sessão da última quarta-feira, Barbosa
admitiu ter aplicado as penas para formação de quadrilha de forma mais grave do que a de crimes que recebem, segundo o Código Penal, penas mais duras, como corrupção ou lavagem de dinheiro, com dois objetivos: a fim de que o crime não prescrevesse e de que os réus fossem para o regime fechado, no lugar do semiaberto a que foram condenados.

Sobre a atitude, Requião falou em "atropelamento da lei", quando voltou ao assunto na rede social no início desta tarde: "Pode ser a favor ou contra a condenação de petistas no STF, só não pode apoiar o atropelamento da lei pelos ministros e presidente", escreveu.

Ontem, Roberto Requião ironizou a "regalia" do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, que foi mandado para o regime fechado e teve seus benefícios suspensos por decisão do juiz Bruno Ribeiro, da Vara de Execuções Penais (VEP) do Distrito Federal. O motivo: a suspeita, segundo o Ministério Público, de que Delúbio teria direito a feijoada aos finais de semana.

"Pensei que hoje ia comer uma costela com o [senador Paulo] Paim, mas ele viajou. Me resta ir a um mercado comprar uma lata de feijoada 'regalia' do Delúbio", tuitou o peemedebista. "Lata de 430 gr de regalia do Delubio (feijoada Bordon) custa R$ 4,00. Mais ou menos o preço da comida de um preso. Feita em casa é barata", publicou Requião, cerca de uma hora depois.'

POLÍTICA - Mídia constrangida com sua besta-fera.



Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:

A mídia está constrangida com o monstro que criou. Eliane Cantanhede, em sua coluna de hoje, dá o tom de como será a campanha daqui para a frente. Qualquer sugestão de que haverá revisão criminal das condenações da Ação Penal 470 será tratada como "pizza" e haverá tentativa de insuflar a sociedade contra o STF. O que foi, aliás, o que fizeram durante todo o julgamento: tentaram emparedar o STF com a ameaça da "opinião pública". A lógica do "linchamento", da importância do "símbolo", foi usada sem nenhum pudor pela mídia para chantagear os ministros do STF.
Entretanto, a estratégia vai ficar mais difícil. A catarse inicial foi feita: os condenados foram presos. A grande novidade agora é: e se prenderam inocentes, e se o julgamento foi equivocado? A mídia agora está tropeçando no próprio pé, porque o seu interesse exagerado, histérico, na condenação, não deixará de ser associado à vergonhosa truculência de Joaquim Barbosa.

E não só truculência: a mídia está associada à decisão arbitrária de Joaquim Barbosa de atropelar a tradição legal e transformar o STF no instrumento de vingança política contra alguns réus. Assistam o vídeo. Ela é a prova de crime contra a Constituição Brasileira, contra o direito moderno, contra o humanismo que marca o direito penal desde o advento de Cesare Beccaria.

Joaquim Barbosa confessa, despudoramente, que aumentou a pena do crime de quadrilha para que Dirceu permanecesse em regime fechado, e não semi-aberto. Um juiz não pode aumentar a pena para “compensar” a demora de um tribunal em julgar uma causa. Se eu for preso por assalto, e meu julgamento ocorrer daqui a 10 anos, o tribunal não poderá aumentar minha pena de 10 para 15 anos, apenas para evitar a prescrição.

Isso não existe. Até porque o réu também é vítima do atraso no julgamento. O tempo de espera angustia muito mais o réu do que o juiz. O juiz continua sua vida, comprando apartamentos em Miami e passando férias na Europa, enquanto o réu aguarda, ansioso, pelo julgamento que irá determinar seu destino. Por isso Beccaria, pensador central do direito penal moderno, observa que os julgamentos tem de ser rápidos, eficazes e brandos.

VENEZUELA - Pesquisas desmascaram golpistas.



Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:


Então, a democracia está ameaçada na Venezuela?

Sim, está, pela tentativa de deposição extra-legal do presidente eleito há menos de um ano, Nicolás Maduro.

Simplificando: um golpe de Estado.

Não é a minha opinião, é a da maioria dos venezuelanos.

Duas pesquisas de opinião – da International Consulting Services e da Hinterlaces – realizadas na semana passada e “escondidas” pela mídia brasileira – só tomei conhecimento delas pelo excelente Opera Mundi – mostram que até 85,4% rejeitam a continuidade dos protestos que há quase um mês a oposição promove em todo o país.

Como você vê no gráfico, somente 3,8% dos venezuelanos estão “muito de acordo” com os protestos, um número dez vezes menor que os que estão “muito em desacordo: 37,4%.

E entre os que estão apenas “de acordo” a proporção é novamente gritante: 6,5% contra 32,7% que estão em desacordo. Ou um contra cinco venezuelanos.

No total, pouco mais de 10% defendem a continuidade dos protestos.

Outro instituto, o Hinterlaces, diz que apenas 22% dos venezuelanos apoiam a saída de Nicolás Maduro do cargo, enquanto 40% querem uma aliança entre governos e empresários ou oposicionistas. Mais de um terço, porém, querem mesmo é que Maduro entre de sola sobre oposicionistas e empresas que aumentam preços: “mano dura”, escolheram estes.

Mesmo sendo apenas 22% os que querem a derrubada ou a renúncia de Maduro, é preciso considerar que ele venceu por 52% uma eleição polarizada e onde a oposição não quis aceitar os resultados das urnas. Esperado, portanto, que parte disso reflita mais o ressentimento com a derrota de abril passado do que uma condenação à administração do presidente.

71%, independentemente de apoiarem ou rejeitarem Maduro não aceita nenhuma solução fora dos caminhos eleitorais: ou nas novas eleições ou pelo mecanismo criado por Chávez na Constituição do País: o referendo revogatório, que pode ser convocado na segunda metade do mandato, por pelo menos 20% dos eleitores do país.

Há muitos outros detalhes, mas o essencial é o que não está sendo mostrado a você, embora os correspondentes dos nossos jornais e televisões tenham tido acesso a estas pesquisas, que já foram publicadas quatro ou cinco dias atrás.

É preciso vender a imagem de que “as ruas” querem a saída do presidente livremente eleito.

E dar, assim, cobertura “democrática” ao golpismo.

MÍDIA -"Internet não é suficiente para reduzir monopólio".

Dênis de Moraes: Internet não é suficiente para reduzir monopólio



Em Mídia, poder e contrapoder, o pesquisador brasileiro Dênis de Moraes reúne ensaios próprios com outros de Ignacio Ramonet e Pascual Serrano. O trabalho coloca em questão a configuração atual dos sistemas midiáticos na América Latina.

Por Natalia Aruguete, no Página/12*




O professor da Universidade Federal Fluminense Dênis de Moraes reuniu-se com o Página/12 por ocasião da recente publicação na Argentina de Mídia, poder e contrapoder (Boitempo, 2013). Na conversa, o pesquisador brasileiro discorreu sobre os eixos de um trabalho em que confluem ensaios de sua autoria com outros dos pesquisadores Ignacio Ramonet e Pascual Serrano. Todos estes escritos estão atravessados por um denominador comum: colocar em questão a configuração atual do sistema midiático – objeto de uma forte concentração em mãos de um punhado de “megagrupos e dinastias familiares” – e, como contrapartida, reconhecer a emergência de mutações comunicacionais a partir da chegada da internet com efeitos significativos nas práticas jornalísticas em rede com sentido contra-hegemônico, confrontadas com lógicas dominantes que atravessam o plano ideológico, cultural e econômico.

Eis a entrevista:

Página/12: Você menciona uma penetração do discurso neoliberal no sistema midiático. Como se vislumbra esse discurso na narração noticiosa?
Dênis de Moraes: Parece-me necessário fazer uma distinção sobre o neoliberalismo contemporâneo. Por um lado, o neoliberalismo não para de exibir rotundos fracassos nos países nos quais atualmente continua vigente, ou nos quais já não está tão vigente por causa de sucessivas crises. Por outro lado, o neoliberalismo permanece atuante, vigoroso, incisivo, no plano ideológico e cultural. Esta distinção é importante porque houve uma época, os anos 1980 e 1990, em que ambas as partes eram exitosas. O triunfo do neoliberalismo era ao mesmo tempo ideológico, cultural e econômico. Atualmente, está em crise do ponto de vista econômico, sobretudo na América Latina e do Sul, onde se manifesta de maneira mais forte apenas em três países do Pacífico. Embora por sorte, a partir do dia 14 de março de 2014, no Chile haverá uma mudança significativa para fragilizar a Aliança do Pacífico. Do ponto de vista ideológico-cultural, lamentavelmente as ideias de celebração da vida para o mercado seguem sendo hegemônicas.

A que se deve?
À potência das máquinas midiáticas, que se beneficiam muito do processo de digitalização, da tecnologização da vida e que aumentam, além disso, sua potência de irradiação nas sociedades contemporâneas.

Em que a digitalização as beneficia?
Beneficia-as porque há uma expansão exponencial dos produtos e serviços de entretenimento culturais e de informação com as novas plataformas ou multiplataformas integradas, como são chamadas pelos neoliberais. Há uma explosão de novos produtos, serviços e canais digitais. Esta formidável expansão digital está permitindo uma ampliação da mais-valia dos grandes grupos monopólicos midiáticos, na medida em que os mesmos produtos estão sendo produzidos e distribuídos em vários canais e meios em todos os continentes com um baixo custo. Por outro lado, a variedade de conteúdos multiplica-se exponencialmente nestas multiplataformas digitais, razão pela qual a oferta de conteúdos cobre um horizonte amplo e diversificado de necessidades e aspirações de audiências, em todas as partes e ao mesmo tempo.

Que características têm a visão da realidade social que instala esta lógica de distribuição de conteúdos?
Esses conteúdos estão todos matizados por visões de mundo, por concepções, por pontos de vista e medidas de valor muito semelhantes que consagram a economia de mercado, a rentabilidade, o lucro e os mantras da era digital de maneira obsessiva e neurótica. Então, há uma variedade enorme de conteúdos em circulação social em todas as partes, mas as orientações, as interpretações que presidem a elaboração e a divulgação desses conteúdos, são muito parecidas. Há uma prevalência desmesurada de valores como individualismo, competência, sucesso..., tudo parece estar vinculado à necessidade de triunfo, de vitória e a uma disputa por ganhar posições na sociedade, que são difundidas pelas máquinas midiáticas globais.

Segundo se coloca no livro, o avanço da digitalização permite consolidar o discurso hegemônico e a desterritorialização, mas, ao mesmo tempo, é considerado uma espécie de ameaça, de resquício para um discurso “contra-hegemônico”. Como compatibilizar estas duas visões?
Isso tem a ver com o título do livro, Mídia, poder e contrapoder. Creio que este diagnóstico comum dos três autores tem a ver, por um lado, com a explosão digital e, por outro, com o momento de crise que vive o chamado quarto poder: a imprensa. É muito interessante observar o cenário contemporâneo da mídia monopólica.

Por quê?
Porque de um lado se vê esta possibilidade quase infinita de rentabilidade, de multiplicação de conteúdos, canais e meios, de buscar sempre mais lucro pelo menor custo possível. Simultaneamente, as grandes empresas enfrentam um momento de crise, que tem – na nossa opinião – dois pontos chaves: a perda de credibilidade dos meios de informação na opinião pública em graus e intensidades diferentes em função de cada contexto histórico e social. Esta perda tem a ver com os processos de controle da informação, da opinião e com uma percepção cada vez mais generalizada em amplos setores sociais de que a mídia é agente político e ideológico que trata, quase todo o tempo, de escolher e interpretar a realidade social de acordo com seus interesses próprios e com seus interesses econômicos e financeiros.

Por que acredita que se dá esta crise?
Tem a ver com o segundo ponto chave ao qual me referi antes. Nós compartilhamos a ideia de que o quarto poder já não é o quarto poder, porque se imbricou de tal maneira com os poderes econômicos e políticos que não tem mais a possibilidade de ser um contrapeso, uma espécie de promotoria dos abusos ou erros dos outros poderes, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Os vínculos econômicos e políticos da grande mídia com o bloco hegemônico na sociedade fragilizaram seu processo de avaliação mais racional e sensato dos outros três poderes, pelo que há uma perda de credibilidade, fruto dos processos de manipulação e mistificação de controle quase absoluto dos conteúdos que são difundidos. Por outro lado, porque a mídia não é mais essa espécie de poder que tinha a capacidade de criticar os abusos dos outros poderes. Na nossa opinião, a percepção social desta situação é cada vez mais evidente e, por isso, os grandes jornais da América Latina neste momento apresentam quedas expressivas em suas tiragens: Clarín na Argentina, O Globo no Brasil.

A queda da tiragem destes grandes jornais explica-se pela crise de credibilidade, como você afirma, ou trata-se de mudanças nos hábitos de consumo de informação, que se deram com o advento da internet?
Na minha opinião, justifica-se pelas duas versões. Uma versão interna: o quarto poder está em crise; os grupos com toda a sua sofisticação estratégica e gerencial, com as multiplataformas e a grande mídia, não conseguem ampliar sua base de audiência, sobretudo a imprensa tradicional: jornais e revistas. E também pelo fato de que há efetivamente uma crise de atenção motivada por uma explosão de mídias e uma possibilidade descentralizada e diversificada dos leitores de tomar contato com o mundo através das informações em vários veículos e canais, sobretudo a internet.

É verdade que há uma disponibilidade de informação multiplicada, proveniente de uma maior diversificação de fontes de informação. Mas em que medida se pode colocar como uma ideia estável o fato de que a mídia tradicional tenha perdido o controle da produção de informação e do estabelecimento da agenda pública em relação às novas mídias?
É uma excelente pergunta. Esta diversificação informativa e de entretenimento permitida e disponível pela internet e outras formas de comunicação instantânea não tem a ver diretamente com a internet, embora haja uma convergência com a internet cada vez maior. Efetivamente, há uma diversificação imprevista e crescente. Contudo, há duas questões relevantes para não perder de vista o poder da mídia.

Quais?
As agendas informativas continuam sendo definidas pela mídia corporativa. Um dos problemas mais sensíveis da comunicação alternativa é que, tanto agências como blogs e portais críticos e contra-hegemônicos, continuam dependendo – de maneira geral, embora com exceções que devem ser resgatadas – das agendas midiáticas. Claro, há fatos e acontecimentos que são obrigatórios nos noticiários, mas muitos outros são definidos pelas intensidades, ênfases e escolhas da mídia corporativa. O segundo ponto que não podemos perder de vista é que a penetração social da grande mídia continua intocável. Isto tem a ver com uma expressão que utilizamos no livro: “a colonização do imaginário social por parte da mídia corporativa”. Este é um processo histórico e social longo que não para de se aprofundar. Tem a ver com hábitos de leitura, com hábitos de audiência, tem a ver com o poder tecnológico das máquinas midiáticas e com a capacidade de influência em termos de valores, mentalidades, pontos de vista, concepções de mundo que a mídia corporativa segue mantendo de maneira incisiva.

No livro também se fala do “fim do monopólio informativo”, mas não devemos desconhecer a brecha digital existente: o acesso às novas mídias não é uma prática generalizada. E o tipo de informação que se troca entre a mídia cidadã segue concentrada em um setor certamente pequeno e elitista.
Há uma diferença entre o fim do monopólio informativo e o fim do monopólio da audiência, que certos setores da esquerda – na minha opinião, mal informados e sem capacidade de entendimento mais consistente – não entendem: não se trata apenas de apontar que hoje há mais possibilidades de acesso, de produção e difusão de informação. Não têm uma visão clara e nítida de que o monopólio da audiência continua vigente. Diante disso é necessário fragilizar esses monopólios, é uma luta política fundamental. Não basta desenvolver as possibilidades de produção, difusão e intercâmbio de sociabilidade na rede. A internet não é suficiente para reduzir o monopólio; é apenas um meio complementar que enfrenta problemas que são próprios e externos.

Como definiria uns e outros?
Próprios porque há necessidade de habilidades técnicas, de acesso a programas informáticos, de padrões culturais e educativos diferentes. Os acessos e usufrutos são desiguais, diante disso as tecnologias não têm a capacidade de dissolver as desigualdades que são graves, provocadas quase sempre por um modo de produção que é, por definição, excludente; o capitalismo é uma fábrica de desigualdades. Assim, imaginar que a internet é suficiente para debilitar o monopólio da audiência, da formação das mentalidades e dos valores é acreditar em um sonho impossível. Devemos utilizar a internet como meio complementar, suplementar, de diversificação, descentralização, de circulação de maior quantidade de opiniões e de vozes sociais. Mas isso também não basta porque a mídia monopólica está presente na internet de maneira hegemônica. Os principais portais da internet, em termos de audiência, são da mídia monopólica. No livro há um estudo de minha autoria sobre as agendas alternativas em rede, um fenômeno espetacular na América Latina, de descentralização de fontes, de práticas, de modalidades colaborativas não lucrativas, e isso é uma novidade que vai do México à Patagônia. São quase uma centena de agências jornalísticas, contra-hegemônicas, alternativas, que se expressam através da internet; um fenômeno espetacular mas não suficiente para colocar em risco o monopólio midiático. Para consegui-lo na América Latina são necessárias várias leis de Serviços de Comunicação Audiovisual, uma ação firme, permanente e prolongada do Estado, no sentido de transformar os marcos regulatórios, de permitir que outras vozes sociais tenham acesso à radiodifusão pública.

Acredita que as leis são uma ferramenta suficiente para que se consiga isso?
Claro que as leis não são suficientes. Precisa-se de uma espécie de aliança entre todos os setores, entre todas as ferramentas que lutam pela comunicação como direito humano. Porque se necessita de financiamento e sustentabilidade, que é um problema grave. Eu diria que este é um momento no qual não temos direito de escolher uma forma de atuação para democratizar a mídia.

E como se enfrenta este obstáculo?
Nós temos o dever de buscar associar tudo junto ao mesmo tempo. De um lado, mobilizar a sociedade e pressionar o Estado para alcançar novas legislações, marcos regulatórios, ações do poder púbico de defesa da comunicação como direito humano. Ao mesmo tempo, necessitamos aprofundar estas experiências de comunicação alternativa em rede, necessitamos multiplicar mais ainda os portais, os blogs, as agências informativas, ocupar as redes sociais com o sentido de criticar, formar novas ideias, outros valores. Uma espécie de bloco no campo da sociedade civil. Esse bloco tem possibilidades de produzir, editar e difundir mais, mas não será suficiente somente explorar o mundo da internet, a comunicação móvel, a comunicação instantânea. Então, não tenho a ilusão de que mais leis de mídia vão resolver tudo, de maneira alguma. Creio que são indispensáveis, mas não sem uma ação cada vez mais organizada, consequente, permanente, de novas experiências jornalísticas e comunicacionais no campo da sociedade civil, que trabalhem de maneira independente e autônoma para ocupar as redes sociais com conteúdos mais cidadãos. Ali haveria uma espécie de frente, creio que esse é o sentido que Ignacio Ramonet, Pascual Serrano e eu encontramos.

Qual é o diagnóstico dessa frente que formaram?
Há uma explosão do jornalismo e é plenamente possível que ocorram duas coisas: um jornalismo mais ético, mais plural, mais cidadão, mais independente, mais autônomo, mais participativo. Por outro lado, é possível um tipo de comunicação de maneira geral, que na nossa opinião depende de duas coisas: da ação cidadã e também da pressão e mobilização das sociedades com a ideia da comunicação como direito humano. Parece-me que a chave é que nós, neste momento, não temos o direito de escolher um único caminho para a luta pela democratização. A necessidade de contrapoder, de contra-informação e de contra-opinião deve estar presente em todas as áreas, em todos os lugares de ação possível.

Você mencionou que a mídia é agente político e ideológico. Qual é a definição de mídia como ator político que subjaz aos ensaios que compõem o livro?
Entendemos que a mídia é ator político de primeira linha. Ela elabora, unifica e divulga valores e concepções de mundo que influem na conformação do imaginário social. Cada qual com seus estilos, linguagens e formatos, agem de maneira incisiva nas disputas de sentido e poder na sociedade contemporânea, priorizando temas e difundindo determinados enfoques sobre a realidade, a partir de óticas sintonizadas quase sempre com os interesses de grupos e classes mais ou menos homogêneos e preponderantes. Sem delegação social para isso, assumem posições e orientam seus noticiários como se fossem “intérpretes da opinião pública”. Em tal perspectiva, a mídia opera como verdadeiros partidos políticos.

Em que se expressa essa lógica de operar como partidos políticos?
Em que interferem, com ênfases específicas, nos modos de conhecimento, interpretação e entendimento dos fatos e situações. Eles demonstram exata noção de seu papel chave na batalha das ideias pela hegemonia cultural e política, inclusive quando procuram reduzir ao mínimo o espaço de circulação de visões alternativas e expressões de dissenso, por mais que estas continuem manifestando-se e resistindo. A meta é neutralizar pautas informativas e análises críticas geralmente contrárias à lógica econômica e às concepções políticas dominantes.

*André Langer

POLÍTICA - Os caras são reféns.

Democracia & Política


DELÚBIO E DIRCEU NÃO SÃO MAIS PRESOS. SÃO REFÉNS NÃO LIBERTOS




BRUNO RIBEIRO PODE VALER MAIS DO QUE O STF E A OAB?

Do "Brasil 247"


"Na sessão de quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal absolveu, em caráter definitivo, Delúbio Soares do crime de formação de quadrilha, garantindo a ele o direito à prisão em regime semiaberto. Dias atrás, a Ordem dos Advogados do Brasil negou que os réus da Ação Penal 470 tenham tido qualquer tipo de privilégio, como a famosa feijoada noticiada por alguns jornais. No entanto, na mesma quinta-feira, o juiz Bruno Ribeiro, que é filho de um dirigente do PSDB no Distrito Federal, ignorou a decisão do STF e a posição da OAB. Decidiu, por sua conta e risco, mandar de novo Delúbio Soares ao regime fechado e negou a ele os direitos ao trabalho e também de passar o Carnaval com a família. Em vídeo, o pai de Bruno, Raimundo Ribeiro, ironiza pedidos de trabalho de condenados como José Dirceu; "vai ser lobista e mandar na Casa Civil?". Sim, é um escárnio; a tal ponto que o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh afirma: "Delúbio e Zé Dirceu não são mais presos. São reféns".

O que foi decidido quinta-feira pelo Supremo Tribunal Federal? Que ex-dirigentes do Partido dos Trabalhadores não formaram uma quadrilha. Assim, Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoino passam a ter direito ao regime semiaberto – muito embora tenham sido jogados em regime fechado, onde Dirceu ainda permanece, numa flagrante ilegalidade.

Vinte e quatro horas antes, diante de notas publicadas na imprensa sobre eventual tratamento diferenciado a réus notórios, o presidente da Comissão de Ciências Criminais da Ordem dos Advogados do Brasil, Alexandre Queiroz, fez um relato sobre suas visitas à Penitenciária da Papuda e negou qualquer tipo de regalia aos condenados na Ação Penal 470. "O que eu posso dizer é o que eu vi, e o que eu vi hoje é que não tem nenhum privilégio", disse ele (relembre
aqui).

No entanto, na noite de quinta, o juiz Bruno Ribeiro, da Vara de Execuções Penais do Distrito Federal, a quem foi dado o comando da execução prisional por Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, tomou uma decisão que, na prática, o coloca acima da suprema corte e da Ordem dos Advogados do Brasil. Ele, como se sabe, revogou o direito de Delúbio Soares ao trabalho e o mandou de volta ao regime fechado. Além disso, estraçalhou seu direito de passar o Carnaval junto à família. O motivo: "notas de jornais sobre supostos privilégios", já negados pela OAB.

Diante de tal decisão, a questão urgente que se coloca é: um Bruno Ribeiro pode valer mais do que o STF e a OAB?

Nunca é demais lembrar que Bruno Ribeiro é filho de um dirigente do PSDB no Distrito Federal, chamado Raimundo Ribeiro, que também tem um programa jornalístico, onde trata com deboche os condenados na Ação Penal 470. Num deles, falou com desdém sobre a possibilidade de que José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, venha a trabalhar – o que vem sendo adiado graças a sucessivas manobras da dupla Joaquim Barbosa e Bruno Ribeiro. "Vai ser lobista e mandar na Casa Civil?", pergunta o pai do juiz.

Sim, o Brasil está diante de um escárnio. Dois réus condenados ao semiaberto, que são José Dirceu e Delúbio Soares, estão em regime fechado, tendo direitos violados pelo Poder Judiciário. "Revoltante", resumo o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que se notabilizou pela defesa de presos políticos na ditadura militar. "Delúbio e Zé Dirceu não são mais presos. São reféns", diz ele.