quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

POLÍTICA - A destruição das empresas estatais.

O Conversa Afiada reproduz trechos de artigo premonitório de Gilberto Bercovici na Carta Capital
Bercovici é professor titular de Direito Econômico e Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde, seguramente, reprovaria o Pedro Malan Parente, se conseguisse passar no vestibular:

A destruição das empresas estatais


Se o governo, em qualquer dos seus níveis, resolver desapropriar uma propriedade particular para realizar um empreendimento público qualquer, como uma estrada ou uma obra viária, o cidadão que sofre a desapropriação tem uma série de direitos e garantias. Afinal, no Estado de Direito o ordenamento jurídico tutela o proprietário privado no seu enfrentamento contra o Poder Público com garantias que devem ser cumpridas em um processo de desapropriação. A própria indenização é uma dessas garantias, expressa desde as primeiras declarações de direitos das revoluções liberais. 

Não há, no entanto, nenhuma garantia ou proteção jurídica aos cidadãos quando o governo decide transferir ao setor privado determinados bens da coletividade, como uma empresa estatal, a prestação de um serviço público ou a exploração de um bem público. Pelo contrário, a privatização é considerada uma opção absolutamente livre e legítima para ser adotada, sem qualquer tipo de contestação. A expropriação dos bens privados, por sua vez, é quase um tabu. A grande mídia exalta os privatizadores e condena aqueles que ousam estatizar, nacionalizar ou recuperar bens públicos transferidos inadequadamente aos privados. Para aqueles, o paraíso da boa governança e o aplauso do “mercado”. Para estes, o inferno do populismo (ou bolivarianismo, a depender do caso) e da reprovação unânime dos meios de comunicação de massa.

O que ninguém diz é que ao privatizar uma empresa estatal ou qualquer parcela do patrimônio público, o governo está expropriando a população de bens públicos que são de sua titularidade. Simples assim. Na privatização, o governo age do mesmo modo que na expropriação. Da mesma forma que desapropria uma propriedade privada, na privatização o governo aliena a propriedade pública. O problema é que o proprietário privado pode contestar e tem garantias, o povo não.

(...) O atual plano de negócios da Petrobrás tem viés de curtíssimo prazo e ignora a essência de uma empresa integrada de energia que usa a verticalização em cadeia para equilibrar suas receitas, compensando a inevitável variação do preço do petróleo, de seus derivados e da energia elétrica, característica essencial para minimizar os riscos empresariais. Na medida em que a Petrobrás seja fatiada, o agente privado tende a buscar o lucro máximo por negócio, majorando os custos ao consumidor, o que restringe o crescimento do mercado interno.

É aterrador o que está ocorrendo com a infraestrutura de gasodutos. Atividade tipicamente monopolista, as redes de gasoduto incorporam um enorme investimento histórico da Petrobrás, estando integradas à empresa pela própria natureza do serviço que prestam. Não obstante, o Conselho de Administração da Petrobrás aprovou a venda de 90% da sua maior e mais lucrativa malha de gás, a Nova Transportadora do Sudeste (NTS), responsável pelo escoamento de 70% do gás natural do país, que será entregue a um grupo de investidores estrangeiros, liderados por uma empresa canadense.

Vamos deixar de lado o fato de ter sido uma venda juridicamente nula, dada a ausência de licitação pública, como determinam o Plano Nacional de Desestatização e o artigo 29 da Lei nº 13.303, de 30 de junho de 2016, que não incluem a venda de ativos de uma estatal como caso de dispensa de licitação pública. O transporte do gás natural será monopolizado por uma multinacional. Não só a Petrobrás, como qualquer outra empresa que produzir petróleo no país será obrigada a pagar o preço que o grupo estrangeiro exigir, pois não existem outros gasodutos na região. Isso ganha contornos ainda mais graves, se levarmos em conta o crescimento da produção de gás natural, com a exploração do pré-sal, cujas principais jazidas estão justamente no Sudeste.

O desmonte do setor elétrico brasileiro, com a anunciada privatização da Eletrobrás, compromete também de forma definitiva nossa soberania energética. A soberania energética é um componente essencial da soberania econômica nacional. O Estado deve tomar decisões autônomas sobre a produção e destino dos seus recursos energéticos, planejando o seu desenvolvimento e evitando a dependência tecnológica e de fatores externos para a produção de energia. Deste modo, o controle estatal sobre as fontes de energia consiste em um eixo central de um projeto democrático em que a política macroeconômica esteja a serviço dos interesses nacionais.

O povo brasileiro deve deixar claro àqueles grupos econômicos, especialmente estrangeiros, que desejam adquirir o patrimônio nacional a preço vil, bem cientes da ilegitimidade absoluta do Governo Temer, que terão que devolver o que compraram sem qualquer direito a indenização assim que um governo legítimo, eleito diretamente pelo povo, e garantidor dos verdadeiros interesses nacionais, assumir o poder e restaurar a democracia entre nós. 

Empresas e investidores, nacionais ou estrangeiros, que adquiriram, depois do golpe de 2016, recursos do povo brasileiro estão cometendo um crime. Os preços pagos são incompatíveis com o mercado e a situação institucional e política não é exatamente daquelas que inspiram confiança ou segurança. O que está ocorrendo com ativos da Petrobrás e outros bens estatais estratégicos (fala-se, além da Eletrobrás, na privatização dos Correios, da Casa da Moeda, de satélites, etc.) deve ser equiparado ao crime de receptação. Afinal, um bem público foi subtraído do patrimônio público de forma ilegal, muitas vezes até sem licitação, e vendido a preço vil. A empresa compradora obviamente sabe o que está adquirindo e a que preço. Não há nenhum terceiro de boa-fé envolvido neste tipo de negócio. A saída democrática para o impasse do desmonte das empresas estatais brasileiras é uma só: quanto privatizarem, tanto reestatizaremos.

POLÍTICA - "A urna me absolverá".

A urna me absolverá”. A defesa de Lula é diante do povo

julga
Muito boa a iniciativa de Lula em pedir para ser ouvido no “julgamento” a que será submetido no dia 24, no TRF-4.
Nenhum homem inocente pode ser condenado sem um protesto.
O silêncio, a menos que imposto, seria quase uma confissão de culpa e, pior, a submissão do réu a um processo ilegítimo.
Os “sabe-tudo” da mídia se apressarão a falar que Lula quer transformar o julgamento num “espetáculo midiático”, como se eles, os procuradores da Lava Jato e Sérgio Moro não tivessem feito isso o tempo todo.
Lula tem o direito de poder encarar seus algozes e falar.
Há um limite para que um ser humano possa ser representado apenas por um advogado e não possa se defender pessoalmente. Este limite é o cadafalso, neste caso político, a que ele está sendo levado.
Qualquer um sabe que Lula não está sendo levado a um julgamento, mas a uma execução. Ou alguém acha que há a menor possibilidade de Lula ser absolvido, embora toda a técnica jurídica apontasse nesse sentido?
Qualquer um sabe que, no Brasil de hoje, juiz de tribunal – em tese, superior – tem o dever de se vergar a Sérgio Moro.
É portanto, a condenação em que não se permitirá que o ‘condenado’ faça a sua defesa? É o mínimo a exigir que uma sessão de ‘julgamento’ público  deva ser público da única maneira que um julgamento destes pode sê-lo, com transmissão pela TV.
Luis Roberto Barroso e Gilmar Mendes não podem fazer suas ‘performances’ pela TV Justiça? Por que um homem que está lutando por sua vida e sua liberdade não o poderia?
A história, nos massacres judiciais, guarda o nome das vítimas e esquece o dos algozes que, a rigor, não são os desembargadores compelidos a ratificar.
É provável que neguem o pedido de Lula, tão provável quanto não permitam que o Brasil veja o julgamento. Não é raro que ajam assim os “homens da transparência”.
Para eles, a autoridade se confunde com a usurpação dos que julgam, mas crêem que não devem ser julgados, como convém aos que se acham deuses,
De todo modo, ver-se-á quem quer agir à luz do dia e os que querem que, a portas fechadas ao povão, se defina arbitrariamente o futuro do Brasil.
Desde a votação das Diretas-Já a gente conhece o final deste script do silêncio.

Altamiro Borges: Tribunal popular e os fascistas do MBL

Altamiro Borges: Tribunal popular e os fascistas do MBL

POLÍTICA - Cada vez mais sou garotinho desde garotinho.

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOG DO GAROTINHO
Até há pouco tempo eu mesmo cheguei a duvidar se conseguiriam pegar Ricardo Teixeira, Marco Polo Del Nero, Marcelo Campos Pinto e os irmãos Marinho. Mas com o desespero que tomou conta dos advogados de José Maria Marin, após sua condenação, não há mais dúvida. Cairão um por um dos dirigentes das confederações sul-americanas, inclusive alguns ex-presidentes, entre eles o mais “notável” e esperto, Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, além de atingir a própria cúpula da FIFA. A investigação chegou na seguinte situação:
Marin para não pagar a conta sozinho começou a acusar Del Nero, que por sua vez está entregando Ricardo Teixeira, que por sua vez está entregando seus antigos companheiros de longa data dos esquemas de propina que envolveram dirigentes de vários países do mundo.
Agora com a delação de J. Hawilla e Alejandro Burzaco, mostrando o caminho do dinheiro até as contas da T&T e de Júlio Grondona, ex-presidente da Associação de Futebol Argentina, é hora da Globo parar de mentir.
Nas reportagens que faz sobre o Fifagate, onde só para garantir o direito de exclusividade na transmissão das copas de 2026 e 2030, mais torneios sul-americanos, a Globo está pagando propina de R$ 50 milhões, é hora de parar com o cinismo de dizer que a empresa “não sabia de nada.”
Está tudo lá bem explicadinho nos documentos do Tribunal do Brooklyn (Nova Iorque): “Os direitos foram transmitidos à TeleGlobo no Brasil. Para isso a T&T Netherland recolheria da TeleGlobo e usaria parte dos fundos para pagar subornos”. Essa é só uma das acusações de Alejandro Burzaco. Ele afirma ainda que os preços dos direitos de transmissão foram colocados abaixo do valor real de mercado, para que houvesse espaço para propina. O depoimento dele somado ao de Marin, junto com os documentos enviados pela Promotoria da Suíça são arrasadores para a Globo. Está bem detalhado como Ricardo Texeira, José Maria Marin e Marco Polo Del Nero receberam milhões pela transmissão de jogos da seleção brasileira, da Copa do Mundo, da Copa América e outros eventos. Só na Copa América de 2015, Teixeira, Marin e Del Nero receberam R$ 10 milhões.
Se os investigadores entrarem no trabalho feito pela Promotoria da Suíça vão chegar em João Havelange, aliás considerado o “pai da propina”. O promotor suíço que investigou Teixeira e Havelange encontrou as empresas pelas quais os dois cartolas receberam milhões de dólares ao longo de pelo menos 20 anos. Como explica bem o promotor suíço, e agora confirmado pelas investigações americanas, não existe propina recebida sem pagador. Claro que Marcelo Campos Pinto, ex-diretor de Esporte da Globo, nunca comprou direitos de transmissão para si nem muito menos usando o próprio dinheiro. A Globo agora está lascada. O próximo caminho da Justiça dos Estados Unidos é fazer o que a Suíça infelizmente não fez. Lá a FIFA, sob o comando de Joseph Blatter, escalou um batalhão de advogados para defender Ricardo Teixeira, e ele deve pagar apenas uma multa de US$ 2,5 milhões. Já a Justiça americana deve indiciá-lo juntamente com Marco Polo Del Nero e mais uma gama de dirigentes esportivos. O indiciamento está muito próximo, e já prevendo que sua pena será longa, já que diversos delatores estão envolvendo seu nome e de seu ex-sogro João Havelange, Teixeira sabe que só escapará se fizer o que J. Hawilla fez, delatar e pagar uma multa bilionária. É bom lembrar que J. Hawilla, o ex-sócio da Globo está pagando uma multa de R$ 500 milhões para cumprir prisão domiciliar nos Estados Unidos. Dinheiro nunca foi problema para Ricardo Teixeira. Suas fazendas, apartamentos em Paris, mansão na Flórida e outros bens garantirão o cumprimento das obrigações que virão da Justiça americana.
A delação é que está deixando-o numa encruzilhada. Ele terá que entregar décadas de negociatas de bastidores com a família Marinho, iniciadas quando a Globo ganhou de João Havelange os direitos de transmissão da Copa do Mundo da Argentina de 1978, portanto há 40 anos atrás. Resta saber se a Justiça brasileira fará alguma coisa, ou ficará assistindo de camarote a Justiça americana mostrar a vergonha ocorrida durante décadas, que destruiu o futebol brasileiro. É bom lembrar que a Copa do Mundo foi o escândalo que todos nós sabemos. Até hoje o Brasil, especialmente o Rio paga a conta da farra que consumiu bilhões de reais. Como castigo terminou no vexaminoso 7 a 1 da Alemanha. É importante ressaltar que o julgamento nos Estado Unidos está sendo conduzido pelos departamentos de Justiça e do Tesouro, por meio do FBI, e revela crimes de extorsão, organização mafiosa, fraudes financeiras e lavagem de dinheiro. A juíza do caso, Pamela Schen, não está livrando a cara da Fox Sports americana, da Televisa mexicana, da MediaPro, da Espanha, por que livraria a cara da Globo?

João Havelange e Roberto Irineu Marinho

Nos depoimentos as afirmações contra a Globo são contundentes e não há escapatória para a empresa que só na última Copa do Mundo, enquanto governos estaduais e o governo federal ficaram mergulhados em dívidas, no caso do Rio sacrificando até salários de servidores, recebeu mais de R$ 2,853 bilhões em patrocínios, além de vergonhosos R$ 30 milhões, doados pelo Governo do Rio e Prefeitura do Rio, leia-se Sérgio Cabral e Eduardo Paes, para transmissão do sorteio dos grupos da competição, realizado na Marina da Glória. A Globo detém 57% das ações da Geo Eventos, e a RBS, sua afiliada no sul, outros 35%, ou seja 92% da Geo Eventos, que ficou com grande parte da grana da Copa também foi parar na mão da Globo.
Não tem desculpa. Assim como a quadrilha liderada há 40 anos por João Havelange, que teve como sucessor Ricardo Teixeira, a Globo é propineira, e quem diz isso não é um juiz de primeira instância, mas investigações independentes feitas fora do Brasil, porque em terras brasileiras juízes decidem como numa escabrosa sentença onde o magistrado ao mandar trancar um processo que investiga a CBF termina com a seguinte pérola: “O que importa é que o futebol é a nossa paixão e agora somos penta”. Acreditem, mas é verdade, está tudo nos anais da Justiça do Rio.

POLÍTICA - O homem dos Instintos mais primitivos" voltou plenamente.

Do Blog DCM
Ele voltou, agora plenamente.
O homem dos “instintos mais primitivos” é, desde hoje, o ministro de fato do Trabalho.
Com todo o respeito pela insossa Cristiane Brasil, sua filha, é ele quem, politicamente, foi nomeado.
É este o nível do ministério Temer, o de “Bob Jeff”, que quase emplacou a moça como ministra da Cultura em julho do ano passado.
A escolha é coerente.
Afinal, Jefferson tem experiência com malas, porque foi ele quem tornou agudo o processo do chamado “mensalão” ao ter falado que recebeu uma delas, com R$ 4 milhões, que jamais apareceu, mas serviu para “comprovar” que o governo petista “comprava” uma base de apoio.
Foi, assim, o precursor da delação premiada – versão mais antiga e menos benévola – reduzindo sua pena de dez para sete anos, que cumpria em regime aberto até que foi indultado pelo ministro Luis Roberto Barroso. Sem protestos, aliás, porque já havia cumprido os requisitos para obtê-lo.
O pai, orgulhoso, recebeu o presente das mãos de Temer, já sem munição para escolhas políticas mais representativas, que o ajudassem a remontar  sua  base na Câmara.
Roberto Jefferson, uma espécie de híbrido entre Eduardo Cunha e Carlos Marun, é de novo um dos convivas à mesa do poder, onde se devora o Brasil.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

POLÍTICA - Hildergard Angel e os ricos-ricos.

Os ricos-ricos se lixam para o Brasil, diz Hildergard Angel

meubem
Para nós, que vivemos na poeira da planície, é por vezes, difícil entender o que se passa nos olimpos do dinheiro.
Hildegard Angel, colunista social, conhece bem estes salões e, num artigo em que fala dos deslumbramentos de novo rico de Sérgio Cabral Filho com jóias, diz da diferença entre os ricos-ricos e os que, ao se locupletar, como Cabral, viram porquinhos da ostentação, como outros, a desfilar seus Rolex, carrões,  iates, por aqui ou lá fora. Quem não chegou a Paris, lambe os beiços com Miami. É um sistema de códigos e de sucesso, do qual a mídia é a maior propagandista e cúmplice.
Destes personagens, o antropólogo Michel Alcoforado escreveu em seu Coisas de Rico:Tempo, Valores e Posição Social:
(…)os usuários das coisas de rico estão aptos a frequentar os salões por onde também circulam o dinheiro, a influência e o poder. Trata-se de um sistema de pertencimento e exclusão existente em outros grupos. Porém com poder de fogo muito, muito maior: aqui, os caciques usam Rolex e definem os rumos políticos e econômicos da nossa sociedade.
Mas eles são os dependentes – e agentes, econômicos e políticos – dos ricos-ricos, aqueles que descreve o texto da Hildegard, publicado pela Fórum:
O rico brasileiro de verdade já desistiu do Brasil. Está pouco se lixando se tem gente pobre, vivendo e defecando nas ruas. Não é que ele seja insensível, é que ele não vive aqui. Ele está por aqui. Tem seu apartamento à beira mar, frequenta seu clube, onde joga tênis, convive com seu reduzido círculo de amigos e ponto. Depois, embarca no seu jato para a residência lá fora. O Brasil é para ganhar dinheiro e remeter dinheiro. Este rico não tem mais o embaraço da língua, como alguns ricos de gerações anteriores, pois os filhos e netos já dominam o inglês desde que nascem e sequer conhecem a nossa História. O rico brasileiro é globalizado, não tem brio patriótico, ao contrário, sente bastante preconceito e desprezo em relação ao nosso país, onde lamenta ter nascido. Existem, naturalmente, as raras exceções. Por isso mesmo, louváveis.
Como diz o sempre arguto professor Nílson Lage, “para os brasileiros ricos de verdade, o Brasil é o lugar onde se ganha o dinheiro, não onde se gasta.”

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

POLÍTICA - Freixo uniu as esquerdas.

Do Blog "O cafezinho"

Antes de qualquer coisa: reafirmo que a entrevista de Freixo à Folha foi uma armadilha midiática para desunir o campo progressista.
Entretanto, examinando a sua repercussão, tanto no próprio partido de Freixo, como aqui no blog, na esquerda em geral, e em toda parte, não posso me furtar a uma conclusão irônica.
Diferentemente daquele que parece ter sido o objetivo da Folha, a entrevista gerou uma outra coisa: ela uniu a esquerda.
Em favor de Lula!
Há uma razão política poderosa por trás disso, naturalmente. Um sentimento comum: as pessoas estão impacientes, especialmente em relação a artimanhas eleitoreiras.
Diante da conjuntura dramática vivida pelo país, a menção, por Freixo, a “reuniões” no apartamento de Paula Lavigne, na zona sul do Rio, como se elas tivessem alguma relevância política, soou com um insulto.
Até mesmo a referência, por Freixo, a um encontro com Boulos num barzinho “vagaba” de São Paulo, pareceu forçada, artificial. Todos os estereótipos dos quais Freixo tenta se livrar – uma esquerda de boutique, bem comportada, midiática – acabaram reforçados.
A entrevistou produziu uma espécie de repulsa unânime. Gilberto Maringoni, dirigente do PSOL, apressou-se em dizer que jamais testemunhara uma entrevista tão desastrosa em sua vida. Jean Wyllys, um dos nomes mais importantes do partido, publicou há pouco um artigo que se inicia assim: “eu respeito muito as opiniões dele [Freixo]”, o que é uma maneira quase explícita de deixar claro que não gostou da entrevista, e que discorda profundamente da mensagem que emergiu dela: a de que não é momento de unir a esquerda.
Não importa o quanto Freixo explique, em vídeo, em texto, em novas entrevistas, que ele não quis dizer bem aquilo, que ele jure que também quer, sim, a união das esquerdas, que defende o direito de Lula ser candidato, etc.
Freixo parece ter sido engolido, ao menos neste momento, pela História.
O contraste entre as caravanas de Lula, de todas aquelas imagens e vídeos de Lula abraçado ao povo, à juventude pobre, aos estudantes de institutos federais, e as “reuniões” de Freixo no apartamento de Paula Lavigne, foi chocante demais.
Não sei se Boulos será mesmo candidato pelo PSOL. Em caso afirmativo, já seria uma virada importante, para o PSOL, na direção de uma postura mais combativa, e do próprio… (oh, ironia) lulismo.
Boulos é, afinal, a antítese de uma Luciana Genro, representante maior de uma estranha esquerda lavajateria e midiática.
Boulos candidato pelo PSOL se aliaria com muita firmeza ao Lula no segundo turno.
Já Luciana Genro e Chico Alencar, não. Seria um apoio envergonhado, débil e dúbio.
Essa esquerda lavajateira, mesmo sem disso ter muita consciência, foi importante aliada de todo o movimento golpista, que se inicia no julgamento do mensalão, contamina as jornadas de junho de 2013 e, por fim, abraça a Lava Jato, operação imperialista que foi essencial ao golpe.
Se Freixo entende que Boulos é o melhor candidato, isso mostra o seu esforço de se afastar da imagem que, até hoje, ainda está colada a ele mesmo, Freixo, a de uma esquerda elitista, estranha ao coração do povo.
E foi justamente esse o problema da entrevista de Freixo. Ela ajudou a reforçar todos os cacoetes elitistas dos quais ele tenta se descolar.
A entrevista, em todos os sentidos, foi um desastre, e o próprio deputado o confirma ao fazer um vídeo em seguida, com expressão dolorida, angustiada, quase chorando.
A própria adesão de Boulos ao PSOL corre sério risco de não acontecer. O que seria, na verdade, uma pena, pois a presença de Boulos no PSOL seria um golpe de morte no lavajatismo moralista que ainda é forte em muitos setores do partido.
O MTST, cujo dirigente mais conhecido é o mesmo Guilherme Boulos que fez a esposa de Freixo, a combativa escritora Antonia Pellegrino, arregalar os olhos de admiração, soltou uma nota para esclarecer que, acima de qualquer cálculo eleitoreiro, está a defesa da democracia, encarnada no direito de Lula ser candidato.
Política tem esses mistérios!
Sem querer, Freixo aproximou o MTST e Boulos, de Lula!
A ironia da situação não pára por aí!
A mais suprema ironia é que o próprio Freixo, forçado pelas circunstâncias, termina seu vídeo com uma defesa firme do direito de Lula ser candidato.
Por mais que Freixo explique que sua defesa dos direitos políticos de Lula não quer dizer que ele vá votar nele no primeiro turno, isso não tem diferença para a direita e para a mídia: é como se Freixo tivesse, desde já, mergulhado na campanha de Lula, o que era justamente isso o que a Folha, com sua maliciosa entrevista, tentou evitar!
Ou seja, a armadilha montada pela Folha contra Marcelo Freixo e contra a esquerda em geral, tentando criar um pólo de atração afastado do lulismo, que pudesse absorver e mitigar a onda de violenta indignação que se erguerá quando o TRF4 condenar Lula, acabou desmontada em algumas horas.
Até mesmo a crítica de Freixo a uma possível aliança de Lula com Renan Calheiros pegou mal, porque mostrou esse cacoete provinciano e sectário, esse purismo esquerdista que a Globo sempre soube manipular tão bem, e que ainda hoje usa à larga, para atribuir, por exemplo, a crise econômica e fiscal vivida pelo Rio, a Sergio Cabral e ao PMDB.
Ora, a crise do Rio é culpa da Lava Jato e tão somente dela! Sergio Cabral deve ser responsabilizado por uma série de coisas, mas a César o que é de Cesar! Foi a Lava Jato que destruiu a indústria fluminense, e ponto final!
A Globo quer uma esquerda purista, alérgica a alianças, porque sabe que, com isso, ela jamais poderá ganhar as eleições, e se ganhar, não poderá governar.
Há mil explicações para o golpe, mas o estabelecimento de alianças políticas com o centro não é uma delas. Lula e Dilma erraram na escolha de juízes do Supremo, na comunicação pública e no não empoderamento de forças sociais que os apoiaram.
A direita apenas tolerava o PT enquanto este tivesse o apoio das massas populares. Assim que a direita conseguiu afastar o PT das massas, com ajuda dessa estupidez burocrática que atinge os partidos de esquerda toda a vez que eles ganham o poder, ela soube que o PT estava desarmado e, portanto, vulnerável a qualquer golpe.
Ora, o que faz de Lula o político que ele é?
Lula comete muitos erros, deve ser criticado constantemente, e sua plataforma de governo para a campanha de 2018 deve ser, mais que nunca, discutida com a sociedade.
Mas Lula é vacinado contra dois vícios: o de se afastar das massas, como fez Dilma e muitos burocratas do PT, incluindo aí figuras como Haddad, que foi um prefeito distante, olímpico, elitista; e o de rechaçar alianças com o centro político, como preconiza Marcelo Freixo e o PSOL, de maneira geral.
Somente mantendo o apoio das massas, e fazendo alianças com setores econômicos ligados ao desenvolvimento interno (mas ditando as regras dessa aliança, ou seja, ocupando a presidência da república), pode-se governar o país.
Sem esses apoios, a esquerda estará condenada a ser um enfeite exótico no apartamento de Paula Lavigne.

ZÉ DIRCEU: “NÓS DERROTAMOS A DITADURA MILITAR E NÃO VAMOS PERMITIR A DI...

POLÍTICA - Ainda sobre a entrevista do Zuenir Ventura.

O maio francês é dado como o grande símbolo, mas aqui no Brasil as coisas começaram antes, a morte do estudante Edson Luís no restaurante Calabouço foi em março por policiais militares.

  Eu estava lá no Calabouço. Por isso é que digo para os mais jovens, que "Sou Testemunha Ocular da História",  copiando o refrão do locutor Heron Domingues, que transmitia pela Rádio Nacional, o "Repórter Esso, que era o Jornal Nacional da época.
Antes disso, já havia acompanhado o movimento liderado pelo Leonel Brizola, intitulado, Rede da Legalidade, para dar posse ao Jango, que era o vice do presidente Jânio Quadros que havia renunciado. Este movimento que começou com a Rádio Guaíba, em Porto Alegre, envolveu diretamente 500 mil brasileiros e 1500 emissoras de rádio espalhadas por todo o país.
Assisti também o grande comício realizado na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, em defesa das Reformas de Base do Jango, que até hoje não foram realizadas. Nesse comício, onde o Serra, na época presidente da UNE, era um dos presentes no palanque, fez um dos mais violentos discursos em defesa do Jango. "Quem te viu, quem te vê". Muitos historiadores dizem que esse comício, foi o estopim para o golpe de 64.
O restaurante do Calabouço era onde nós, estudantes, fazíamos refeições, porque eram baratas, como  era também perto da Cinelândia, onde fazíamos manifestações políticas.

O corpo do Edson Luiz foi levado pelos estudantes  para a Câmara dos Vereadores, na Cinelândia, onde acabou sendo velado. Foi a primeira morte de estudante na ditadura, e que levou à uma comoção nacional. Com este fato, a resistência à ditadura passou a crescer dia a dia. Em junho, tivemos as duas marchas dos 100.000, que saíram da Cinelândia até a Central do Brasil.
Com o aumento da resistência, o governo militar acabou decretando em 13 de dezembro desse 1968, o famoso AI - 5, que foi o golpe dentro do golpe. Daí para frente, acabou a pequena liberdade que havia para manifestações e a prisão, tortura e morte e desaparecimento de estudantes e de que se opunha ao golpe, passou a se tornarem fatos corriqueiros, sempre escondidos pelos militares.

Quando divulgavam alguma coisa, era sempre a versão deles, como no caso dos "suicídios" do jornalista Vladimir Herzog, o Vadlo, e do operário Manoel Fiel Filho, assassinados pela ditadura, nas dependências do sinistro DOI-CODI, do também sinistro torturador coronel Brilhante Ustra, aquele que o Bolsonaro elogiou no dia do impeachment da Dilma.
De 1968 para a frente, os anos passaram a ser realmente "Anos de Chumbo", e quem resistiu, sabe bem o que significou. O pior é que tem gente que deseja isso de volta.
Sobre isso, vale mostrar um trecho da entrevista com o Zuenir: "Eu já participei de muita palestra que um aluno cabeludo pega o microfone e diz: "isso existe hoje, censura, violência....qual a diferença?" E eu digo: a diferença é que, se você dissesse  tudo isso que está dizendo em 68, você saia daqui preso. E você vai sair andando.

POLÍTICA - "Nunca o conservadorismo foi tão despudorado.


Nunca o conservadorismo foi tão despudorado, diz Zuenir Ventura

Adriano Vizoni - 4.jul.2012/Folhapress
RIO DE JANEIRO, RJ, BRASIL, 04-07-2012, 16h00: FLIP 2012. Mesa 12: Entre Familia, com Zuenir Ventura, Joao Anzanello e Dulce Maria Cardoso (esq p/ dir) no quarto dia da 10a edicao da Flip. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress, ILUSTRADA) *** EXCLUSIVO FSP***
Zuenir Ventura, escritor

Em Paris, estudantes ocuparam as faculdades e trabalhadores pararam as fábricas, protestando contra o capitalismo. Nos EUA, milhares se revoltaram contra o assassinato de Martin Luther King Jr. e contra a Guerra do Vietnã. No Brasil, o assassinato do estudante Edson Luís carregou multidões para as ruas, contra a ditadura.
Cinquenta anos depois, o legado de 68 está vivo e forte: nunca o movimento feminista, o gay, o negro e o ecológico foram tão atuantes. Ao mesmo tempo, nunca o movimento conservador foi tão "despudorado".
Esse é o balanço que o escritor Zuenir Ventura, autor do best-seller "1968, O Ano que Não Terminou", faz daquele ano revolucionário e seu espólio. "Tivemos muitos avanços, principalmente na luta pelos direitos das mulheres, dos negros, dos gays; mas estamos vivendo um momento em que o conservadorismo perdeu a vergonha", diz Ventura.
Lançado em 1988, o livro teve mais de 400 mil exemplares vendidos. Neste ano, será relançado pela editora Objetiva, com novo prefácio. Segundo Ventura, o interesse pelo mítico 1968 persiste porque o ano "não acaba de não acabar".
*
Folha - Por que o interesse por 1968 persiste?
Zuenir Ventura - Há 50 anos, esse ano não acaba de não acabar. O [filósofo francês] Edgar Morin, que acompanhou o movimento na França e no Brasil, dizia que vamos precisar de muitos e muitos anos para entender o que aconteceu. E 50 anos, na História, não são nada. Até hoje estamos discutindo o que aconteceu. Foi um ano mítico. O maior mistério é que houve uma insurreição de jovens planetária, numa época em que não existia internet, a TV não tinha esse alcance de hoje. Jovens dos países comunistas, democráticos, autoritários, França, EUA, México, Japão, em um determinado momento, sem as conexões que existem hoje, ficaram com o mesmo corte de cabelo, ouvindo as mesmas músicas, pensando da mesma maneira, agindo do mesmo jeito. O maio francês é dado como o grande símbolo, mas aqui no Brasil as coisas começaram antes, a morte do estudante Edson Luís no [restaurante] Calabouço foi em março [por policiais militares].

E o senhor estava lá...
Eu trabalhava ali do lado, na revista "Visão". Ziraldo e eu corremos até lá, e os estudantes estavam carregando o corpo do Edson. Mais tarde, isso me causou o maior problema, porque o coronel que me interrogou quando eu fui preso dizia: "O senhor estava no Calabouço, vi fotografias do senhor lá, e em maio o senhor estava em Paris...não é muita coincidência, não?" Eu dizia a ele: pois é, é muita coincidência, e era mesmo, por acaso eu estava de férias em Paris em maio. Mas, pela paranoia da época, ele achava que eu era o chamado olho de Moscou, que nada na imprensa acontecia sem passar por mim, eu era o cara do PC. Eu não mandava porra nenhuma. Eu só fui entender isso quando tive acesso à minha ficha no Dops. Ah bom, se eu era tudo isso, eles tinham mesmo razão de me prender...

Como foi a sua prisão?
Eu fui preso logo depois do AI-5 [13 de dezembro de 1968], e fiquei três meses. Eu fui levado às 9h, disseram que era só para prestar esclarecimentos, e que eu voltaria logo... Às 16h, eu não tinha voltado, minha mulher foi lá para saber o que tinha acontecido, e foi presa... Meu irmão foi lá depois, ele não tinha nada a ver com nada, e o prenderam também. Tinha um inspetor horroroso, eu disse a ele que minha filha pequena estava com coqueluche e sozinha em casa, ele dizia: isso é problema seu, não é problema meu.
Não fui torturado, só ameaçado e interrogado por horas. Eu não liderava nada, era jornalista e professor na faculdade de jornalismo, numa época em que os alunos é que lideravam os professores.

Como conseguiu ser solto?
O [escritor] Nelson Rodrigues me soltou, você acredita? Eu estava preso na mesma cela que o [psicanalista e porta-voz dos protestos] Hélio Pellegrino. Eles eram amigos, mas o Nelson era aquela coisa hiperbólica, escrevia sempre sobre o poder da voz do Hélio [Rodrigues o chamava de homem-comício]. Quando o Hélio foi preso, o Nelson, sentindo-se culpado, ia todo dia lá. Eu tinha muita raiva dele, ele era reacionário e gozava todo mundo, falava dos padres de passeata, das grã-finas, era engraçado, mas a gente não via graça nenhuma. Nas primeiras vezes em que ele foi lá na prisão, eu virei as costas. Disse ao Hélio: com esse cara não quero conversa. Aos poucos começamos a falar. Bom, para resumir a história, Nelson era amigo dos generais e soltou o Hélio. E o Hélio disse: só saio se o Zuenir sair. O Nelson falou para o Hélio: mas e se essa doce figura sair daí e puser uma bomba no quartel?

Qual é o legado de 68?
Era uma geração carregada de ambições e sonhos, o que ficou disso, dessa aventura deles? Ficaram pelo menos quatro movimentos importantes, que ou nasceram ou se solidificaram em 68 -movimento feminista, gay, negro e ecológico. Esses movimentos estão mais atuantes do que nunca.

Recentemente tivemos campanhas para fechar exposições de arte que tinham obras de cunho sexual, e o movimento Escola Sem Partido, que queria restringir a abordagem do gênero. Estamos vivendo uma onda conservadora?
Sim. E o pior é que isso é atribuído ao avanço que começou em 1968. Em 68, a ambição era fazer uma revolução política, mas o que houve foi uma revolução de comportamento, cultural. Éramos contra o autoritarismo nas relações de casal, na escola, no trabalho. Agora, as pessoas dizem que a liberalização foi longe demais. É aquele pessoal que diz: não tenho preconceito contra gays, tenho amigos gays, mas casamento, aí já é demais...

Essa onda conservadora -o candidato Jair Bolsonaro tem a maior intenção de votos entre os eleitores mais ricos e mais escolarizado- é maior do que anteriores?
É um processo, sempre haverá reações conservadoras ou reacionárias. Tivemos muitos avanços, principalmente na luta pelos direitos das mulheres, dos negros, dos gays; mas estamos vivendo um momento em que o conservadorismo perdeu a vergonha. No Brasil, ninguém se dizia de direita, porque tinha vergonha de ser direita. Agora vivemos a época em que o conservadorismo está mais visível, nunca o conservadorismo foi tão despudorado. Acabar com o comunismo no Brasil foi fácil, o problema hoje é acabar com o anticomunismo.
Temos militância anticomunista como se o comunismo não tivesse acabado há muito tempo. O Oscar Niemeyer foi o último comunista. E tem gente hoje que quer voltar para ditadura ou diz que não era tão ruim. Eu já participei de muita palestra que um aluno cabeludo pega o microfone e diz 'Isso existe hoje, existe censura, violência... qual a diferença?' E eu digo: a diferença é que, se você dissesse tudo isso que está dizendo em 68, você saía daqui preso. E você vai sair daqui andando. Na direita, é paradoxal ter algumas pessoas que defendem a época autoritária. Defendem um sistema que não permitia fazer isso que eles estão fazendo -o contraditório, a divergência.

Clóvis Rossi outro dia fez uma coluna sobre uma pesquisa do Pew Research mostrando que, para 49% dos brasileiros pesquisados, o país estava melhor no final dos anos 60. O senhor acha que era melhor?
Não era, mas podia parecer, porque a imprensa era absolutamente censurada, não tinha as palavras tortura e morte em lugar nenhum. Quem lia jornais e assistia à TV não sabia de nada disso. Essas pessoas que acham que era melhor não viveram isso, e é muito difícil transmitir aquele medo permanente. Você ia entrevistar um militar ou autoridade, ele achava que você tinha exagerado nas perguntas, então dizia: 'Deixa sua carteira de identidade aqui'. O repórter ficava em pânico, era uma forma de ameaçar. Só depois que saía a matéria, que viam o que você tinha escrito, devolviam a identidade. Essa nostalgia de alguns grupos em relação à ditadura me choca.

No seu livro "1968, O Que Fizemos de Nós", publicado em 2008, o senhor dizia que ainda havia "meia oitos" em todos os lugares, e citava José Dirceu e outros. Hoje, José Dirceu está condenado, e não é por subversão, é por corrupção. O que aconteceu?
Também idealizamos a herança de 68, como se fossem só personagens bons. Teve do bom e do pior. Teve gente como Vladimir Palmeira, um dos líderes do movimento, foi do PT, rompeu com o partido por divergências morais. E teve gente condenada, como Zé Dirceu. À distância, temos a impressão de que havia uma geração unanimemente honesta, mas existem desvios. Ainda temos conosco a paixão pela coisa pública que movia muitos em 1968. Isso existe ainda, só não está no poder.

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Nascimento
Além Paraíba (MG), em 1931

Trajetória
Formado em letras neolatinas, é jornalista desde 1954. Trabalhou nas revistas "Visão" e "Veja" e no "Jornal do Brasil". Foi também professor na UFRJ e Uerj. Hoje é colunista de "O Globo"

Obras
"1968, O Ano que Não Terminou", "1968, O que Fizemos de Nós", "Cidade Partida" e "Chico Mendes: Crime e Castigo" 

Altamiro Borges: El pueblo unido jamás será vencido

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