sábado, 7 de dezembro de 2013

MÍDIA - Mensalão mineiro, um teste para a imprensa.


Por Eugênio Bucci 
Reproduzido do Estado de S.Paulo


Em 1985 o então presidente americano Ronald Reagan passou por uma intervenção cirúrgica que lhe arrancou um tumor de cólon. Indagado sobre a doença, ele respondeu alegremente: “Eu não tinha câncer. Alguma coisa em mim tinha câncer e essa coisa já foi removida”. Pelo quadro clínico da política brasileira em 2013, parece que o PSDB ensaia uma saída na mesma linha com relação ao julgamento do mensalão tucano (mensalão mineiro). “Mensalão, eu?”, arguirá o tal Partido da Social Democracia Brasileira, com litros de brilhantina a empinar-lhe o topete reluzente. “Eu não fiz mensalão nenhum. Alguma coisa em mim fez mensalão e essa coisa já foi extirpada.”
Se conseguirem retirar os réus das fileiras do partido, os tucanos terão confeccionado o penteado retórico com o qual tentarão afastar a sigla do tiroteio judicial que virá em 2014. Se a jogada der certo, o julgamento do mensalão tucano receberá no debate público o tratamento de um crime isolado, um erro isolado, um desvio de pessoas despreparadas. Sua história será despolitizada. Indivíduos serão punidos, sacrificados como párias. Assim, o partido ficará livre de qualquer suspeita e não será criticado na arena pública. Em resumo, se a tática reaganista for bem-sucedida, o mensalão tucano terá sido reduzido a um episódio puramente criminal, sem nexo algum com o hábito político e com a lógica partidária no Brasil. Do ponto de vista estritamente jurídico, isso não fará muita diferença (fará alguma, como já veremos, mas não muita). Já do ponto de vista político, teremos perdido mais uma oportunidade de entender melhor os meandros do submundo eleitoral que ainda dá as cartas no País.
Não que o mensalão mineiro seja um crime político. Não é, na exata medida em que os condenados pelo mensalão petista não são “presos políticos” (por favor). O mensalão mineiro (como o outro) é um ilícito penal, sem tirar nem pôr, mas é um ilícito penal praticado dentro de um contexto político. O topete retórico tenta arrancá-lo desse contexto, ou seja, tenta retirar da pauta o contexto político, cuja compreensão (em detalhes) é do mais alto interesse público.
Obsessões recíprocas
O grande beneficiário dessa manobra discursiva será o PSDB, como é óbvio. O grande prejudicado, porém, não é tão óbvio assim. O maior prejudicado não será o Partido dos Trabalhadores (PT), será o cidadão. Se a retórica reaganista prevalecer, o julgamento do mensalão tucano perderá destaque no noticiário e isso vai lesar o cidadão em seu direito à informação.
A esta altura, só quem pode reordenar a agenda é a imprensa. Apenas o jornalismo profissional dispõe, neste momento, dos instrumentos institucionais necessários para impedir que o contexto se perca no vazio e para promover a informação crítica, sem a qual os cidadãos terão mais dificuldade para refletir sobre as formas de aperfeiçoar a estrutura partidária na qual crimes dessa ordem vêm ocorrendo, em partidos tão diferentes quanto PT e PSDB.
Não, ninguém aqui vai dizer que a culpa desse desvio peculiar, que está à beira de se converter num novo tipo penal – o mensalão –, é do sistema partidário ou da Lei Eleitoral. A culpa é mesmo de gente de carne e osso, que praticou crimes comuns, tipificados na legislação em vigor. Isto posto, não podemos perder de vista que esses crimes denotam vícios sistêmicos – e esses vícios sistêmicos podem e devem ser sistemicamente enfrentados e resolvidos. Aí é que entra a imprensa.
Investigar e tornar públicos os vínculos entre os crimes comuns e os vícios sistêmicos não compete ao Poder Judiciário, mas à imprensa. Ao Judiciário cabe julgar os crimes a partir dos elementos que já constam do processo. Por isso é que se pode dizer que o debate público, a essa altura, se terá algum peso nas decisões dos juízes, não terá peso determinante; o que a imprensa vai publicar ou vai deixar de publicar terá alguma influência, é certo, mas não mudará o que já está nos autos e, nessa medida, não vai fazer uma diferença tão grande assim. Mas para o cidadão e para a sociedade, aí, sim, a diferença será absoluta. Se a imprensa não cuidar de investigar os nexos entre a estrutura política e o desvio de dinheiro público, ninguém mais terá condição de assumir essa tarefa. A opinião pública sairá perdendo.
Na cobertura do mensalão do PT, o jornalismo profissional atuou com acerto porque o fez com persistência. É verdade que a estratégia descabelada dos petistas, com aquela pulsão incontida de dizer que não tinha havido crime algum e que tudo não passava de um complô da “mídia conservadora”, praticamente impôs aos repórteres a obrigação de desmontar a farsa (não do julgamento, mas do discurso governista). Em grande parte, a obsessão da imprensa com o tema do mensalão petista foi também provocada pela obsessão dos governistas em dizer que o julgamento era fajuto, era um golpe, era um rito de exceção. Diante disso, ou a imprensa fazia a sua parte ou a Nação seria tragada por um embuste de consequências trágicas.
Imprensa desafiada
Agora o quadro não é tão diferente, embora os sinais pareçam todos invertidos. Onde o PT queria politizar o julgamento, o PSDB quer despolitizar o contexto do crime. Onde o PT procurou idolatrar os acusados como se fossem heróis da classe operária, o PSDB procura rifar os seus, como se nunca os tivesse visto mais gordos. Onde o PT enxergava um complô das elites para desestabilizar o presidente da República, o PSDB enxerga uma intercorrência policial aleatória, que não tem nada que ver com nada. Num caso e no outro, apesar dos sinais invertidos, os dois partidos tentam desinformar a sociedade.
Logo, assim como se sentiu intimada a esclarecer as coisas no mensalão do PT, a imprensa está desafiada a cobrir com o mesmo rigor o mensalão tucano. De quebra, está convocada a provar que prima pelo apartidarismo e que não se deixa encantar por topetes retóricos.
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Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA-USP e da ESPM  

MÍDIA - A imprensa, entrando nos trilhos.


Por Luciano Martins Costa
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 4/12/2013


Quer se informar melhor sobre corrupção em seu estado? Leia um jornal de outro estado. Salvo raras exceções, a imprensa regional costuma ter vínculos com os governantes locais – quando o jornal não pertence a um empresário que também é político, e, eventualmente, se encontra na oposição.
Na quarta-feira (04/12), por exemplo, comparemos o noticiário dos três principais diários de circulação nacional sobre um tema arrastado como a viagem numa velha “maria-fumaça”: o caso envolvendo obras e serviços do metrô e do sistema de trens metropolitanos de São Paulo. O critério é a suposta objetividade, e a análise exige uma consulta ao histórico das reportagens anteriores sobre o mesmo assunto.
O carioca O Globo traz duas reportagens sobre o tema. Na primeira, informa que o Ministério Público constatou que existem indícios de cartel em contratos do metrô paulista que ainda não estão sendo investigados pelo Cade – Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Isso quer dizer que há novas evidências de que o caso se assemelha cada vez mais a uma política consolidada de relacionamento criminoso entre representantes do estado e as multinacionais fornecedoras de equipamentos e serviços para o sistema de transporte sobre trilhos.
Na segunda reportagem, o jornal comenta declarações do ministro da Justiça sobre a suspeita de que o Ministério Público Federal em São Paulo atua com negligência na apuração do escândalo. Além de haver engavetado, por no mínimo três anos, pelo menos dez ofícios da Justiça da Suíça com informações fundamentais sobre o caso de corrupção e formação de cartel, o MP ignorou o pedido de colaboração nas investigações realizadas por aquele país.
A manifestação do ministro ocorreu publicamente, durante depoimento na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
A nova investigação destacada pelo Globo se refere a contratos para reforma de trens com sinais claros de superfaturamento. Num dos casos, o governo de São Paulo pagou pela restauração de trens velhos muito mais do que o preço pago pelo metrô de Nova York por trens novos. Originalmente, diz o jornal, foram firmados contratos para reformar 98 trens das linhas Azul e Vermelha, por R$ 1,6 bilhão, mas o serviço foi fracionado em seis outros contratos, o que resultou em aumento desse valor para R$ 2,4 bilhões.
Risco de acidentes
O detalhe mais impactante da reportagem do Globo se refere ao fato de que, para colocar os trens em funcionamento, funcionários do metrô estão fazendo adaptações apressadas, o que aumenta o risco de desastres. Pelo menos três acidentes ocorridos no último ano podem ter sido causados por aquela prática que os brasileiros chamam de gambiarra. “Num dos casos, um trem andou sozinho e bateu em outro”, diz o Globo.
Os jornais paulistas também se referem ao pedido de suspensão desses contratos, mas não se interessam pelos detalhes.
O Estado de S. Paulo traz informação originada na multinacional Siemens reforçando a suspeita de que houve pagamento de propina para obtenção de negócios superfaturados e informa que o Ministério Público recomendou a suspensão de compromissos firmados entre os anos de 2008 e 2011, nas gestões de José Serra e Geraldo Alckmin. Além disso, outro texto diz que o Banco Mundial pediu acesso ao inquérito, para incluir em investigação interna sobre financiamento da entidade aos projetos do metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.
A Folha de S. Paulo noticia que o Tribunal de Justiça negou pedido do governo paulista, que queria mover uma ação exclusivamente contra a Siemens – empresa que tomou a iniciativa de denunciar o cartel. Num quadro abaixo da reportagem principal, o jornal cede às evidências e tasca um título irônico: “Cartel de uma empresa só”. Trata-se de um avanço: até recentemente, os jornais paulistas se referiam ao caso como o “cartel da Siemens”.
A sequência do noticiário parece uma viagem de trem, na qual a imprensa paulista conduzia o comboio lentamente, sustentando que se tratava de um cartel de uma multinacional perversa interessada em explorar os paulistas. Mas os fatos levam o comboio ladeira abaixo, e já se pode antever o dilema: ou a Folha e o Estado juntam as provas e evidências e admitem finalmente que se trata de um grave escândalo, ou a reputação da imprensa de São Paulo vai descarrilar na curva logo adiante.

MÍDIA - Jango e a história.


Seriedade no Congresso, pilhéria na mídia

Por Randolfe Rodrigues 


Quarenta e nove anos separam duas madrugadas históricas do Congresso Nacional. Na primeira, em 2 de abril de 1964, senadores e deputados capitularam de forma vergonhosa ao golpe militar da véspera, dando o pretexto legislativo para que o senador Auro de Moura Andrade, de forma leviana, decretasse a vacância do cargo de presidente da República, na mentirosa suposição de que João Goulart estivesse fora do Brasil. Na realidade, Jango estava em Porto Alegre, justamente avaliando as possibilidades de resistência ao golpe desfechado horas antes, com as tropas movimentadas em Juiz de Fora (MG) pelo general Olympio Mourão Filho.
A bancada leal ao governo tentou barrar a manobra parlamentar que daria fachada legal ao golpe. Um ofício urgente do chefe da Casa Civil de Jango, Darcy Ribeiro, foi entregue naquele momento ao presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade. Ali, tudo estava claro:
“O Sr. Presidente da República incumbiu-me de comunicar a V.Excia que, em virtude dos acontecimentos nacionais das últimas horas, para preservar do esbulho criminoso o mandato que o povo lhe concedeu e investido na [posição de] chefe do Poder Executivo, decidiu viajar para o Rio Grande do Sul, onde se encontra à frente das tropas militares legalistas, no pleno exercício do poder constitucional de seu ministério”.
Jango não estava no exterior, não era fugitivo, não fizera nenhuma desfeita ao Congresso. Diante do desprezo dedicado por Auro ao ofício da Casa Civil, o deputado Tancredo Neves foi ao microfone e apelou, aos gritos: “Telefone para Porto Alegre, nos dê três horas e o presidente João Goulart estará aqui”. Auro se fez de surdo e, contrariando os fatos e a Constituição, declarou vaga a Presidência, dando o pretexto formal que os golpistas necessitavam para legalizar a deposição de Jango. Neste momento, impotente para evitar a manobra, Tancredo, conhecido por sua moderação e bom senso, não se conteve e berrou ao microfone: “Canalha! Canalha!”. Um desabafo que não consta das notas taquigráficas, mas resume o sentimento de quem não compactuava com aquela patifaria.
Na manhã de 2 de abril, o embuste ficou eternizado na manchete daquele dia de O Globo, que sem qualquer mea culpa desinformava seus leitores: “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restabelecida”. No mesmo dia o Jornal do Brasil desmentia o concorrente, contando a verdade que O Globo falseava: “Goulart resiste no sul e o Congresso empossa Mazzilli”. Com essa farsa coordenada, os golpistas ganharam naquele momento decisivo a chancela do Parlamento para violar a Constituição.
Primeiro ato
Com a subalterna cumplicidade da eventual maioria golpista do Congresso naquela tensa madrugada, Jango foi apresentado ao país como um reles fugitivo. A realidade da história, escamoteada por aquela decisão ilegal, é que Jango foi, de fato, deposto de uma maneira imoral, inconstitucional, indecente e covarde, como disse o senador Simon. Esta é a verdade.
Agora, 49 anos depois daquela triste sessão, o Congresso volta a se reunir, em outra madrugada, em 21 de novembro de 2013, para corrigir seu erro histórico e corrigir um deslize que transformava o Parlamento em parceiro ilegítimo de um golpe militar que acabaria fechando o Parlamento por três vezes, ao longo de uma ditadura de duas décadas. Uma resolução proposta pelo senador Pedro Simon (PDMB-RS) e por mim [senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP)] anulou aquela sessão do passado que declarou vaga a Presidência legalmente ocupada por João Goulart.
Estamos agora fazendo a nossa parte e restabelecendo a verdade na história do país. Num texto enxuto, de um único artigo de três linhas e 38 palavras, o Congresso reescreve aquela página mentirosa, afirmando:
“Declarar nula a declaração de vacância da Presidência da República exarada pelo Presidente do Congresso Nacional, senador Auro de Moura Andrade, na segunda sessão conjunta, da quinta legislatura do Congresso Nacional, realizada em 2 de abril de 1964”.
Assim, de forma expedita, o Parlamento corrige o seu mau passo de então, decretando que Jango não é mais um fugitivo, mas um presidente deposto. Tecnicamente, o general Humberto Castelo Branco deixa, assim, de ser um presidente legalmente empossado 13 dias após a farsa da madrugada para se converter no primeiro dos cinco generais-presidentes do ciclo autoritário que prescindia de voto, de povo e, portanto, de Parlamento.
Não é uma declaração meramente formal, uma simples filigrana burocrática. É uma resolução altiva do Congresso que devolve Jango ao patamar de dignidade que a história lhe garante, e que os brasileiros não podem sonegar. Como bem lembrou o deputado Vieira da Cunha (PDT-RS), Jango ganhou por três vezes o apoio do povo brasileiro na sua missão presidencial. Duas vezes, sucessivamente, eleito vice-presidente da República em 1955, com Juscelino Kubitschek, e em 1960, com Jânio Quadros. Na primeira eleição, teve ainda mais votos do que o presidente JK. Em 1963, teve seus poderes reafirmados de forma esmagadora, no plebiscito que devolveu o país ao sistema presidencialista graças aos 9 milhões de votos contra os 2 milhões que apoiavam a manutenção do parlamentarismo.
Não é uma declaração que ignora os eventos militares que levaram aos tristes desdobramentos que hoje fazem parte desse período obscuro de nossa História. Como destaquei naquela noite memorável:
“Estamos falando de um ato civil, de um ato do Congresso Nacional que deu legitimidade, que deu ar de legalidade a um ato ilegal, a um golpe de Estado. E não se constrói um país democrático se a Casa que é guardiã da democracia não reparar as arbitrariedades e as manchas que foram produzidas no passado. Não se trata de votar contra nada e contra ninguém. Trata-se de votar a favor: a favor da História, a favor da democracia, a favor do Brasil”.
Os dois senadores que patrocinam esta resolução são exemplos singulares no corpo do Congresso. Um pela qualificação, outro pelo testemunho, ambos pela idade. Ele, Pedro Simon, é um dos mais antigos parlamentares da Casa, com 83 anos e quatro mandatos sucessivos no Senado, o que lhe dá a condição de testemunha ocular da História, inclusive dos eventos que levaram à deposição de Jango. Eu, Randolfe Rodrigues, sou o mais jovem senador da República, nascido oito anos após o golpe de 1964, com uma qualificação profissional raríssima no Parlamento: sou historiador, o único do Senado, com a companhia de apenas dois dos 513 deputados da Câmara.
A testemunha e o historiador juntaram esforços, assim, para desmascarar um ato leviano do Congresso que depôs um presidente, colocando no seu lugar o presidente da Câmara. Uma semana depois ele nomearia três novos ministros militares que ajudaram a fazer um ato institucional, ainda sem número, que transformou o Congresso às pressas em colégio eleitoral para sagrar o general Castelo Branco como o primeiro presidente da ditadura que se instalava. Tudo isso fica claro, agora, com o gesto altivo do Congresso, que votou para restabelecer a verdade na história do Brasil.
Direito e dever
A decisão do Congresso pode ter surpreendido muitos que, por boas razões, descreem do Parlamento. Mas, nada me espantou mais do que a incompreensão de parte da imprensa, que tratou a digna resolução do Congresso em tom de pilhéria, galhofa ou piada sem graça. A revista Veja, o mais importante semanário do país (tiragem de um milhão de exemplares) e a segunda maior revista de informações do mundo (atrás apenas da americana Time), abriu espaço para a exumação dos restos de Jango em São Borja, numa abordagem jornalística de tom jocoso que não combina com a seriedade histórica do evento. Numa reportagem de três páginas, sob um título pouco feliz (“Sepulturas sem sossego”), Veja mistura aleatoriamente Lênin, Hugo Chávez e Evita Perón para reclamar que Jango foi transformado “na bola da vez pelos praticantes da política dos mortos”, vítima dos que, segundo a revista, “vivem à procura de pretextos para algum acerto de contas com o passado que permita reescrever a história com a mão esquerda” (ver aqui, Veja nº 2348, páginas 72-74).
Infelizmente, Veja esquece que ninguém precisa de pretextos para fazer o acerto de contas com o passado quando ele é escorado em mentiras, já que a História exige ser escrita não com a mão esquerda ou direita, mas com a mão certa e certeira da verdade. O blogueiro mais importante e mais polêmico da revista, Reinaldo Azevedo, que chega a ter 300 mil acessos num único dia no seu portal no sítio da Veja.com, foi ainda mais debochado (ver aqui). Carimbou a resolução do Congresso de “ridícula” e “patética”, coroando o texto com este título: “Chamem o Super-Homem para inverter o movimento da Terra e salvar o mandato de João Goulart!”
E desfiou um raciocínio que não resiste ao bom senso de ninguém: “Só falta declarar sem efeito todos os atos tomados pelos sucessivos presidentes do regime militar”. Se isso fosse possível, nossa segunda resolução seria anular os atos de força que impuseram a censura a Veja, violentada três meses após sua fundação, em setembro de 1968, pelos superpoderes do AI-5, o filho mais dileto do golpe que derrubou Jango. Nem foi preciso chamar o Super-Homem para acabar com a farsa do Congresso. Bastou uma resolução.
Um dos sites mais importantes do país, o Diário do Poder, do jornalista Cláudio Humberto, chegou a noticiar duas vezes o gesto reparador do Congresso, em tons distintos. No espaço de menos de onze horas, evoluiu do deboche para a sobriedade. Às 8h31 da edição de 21 de novembro, num texto assinado por Myrcia Hessen – uma jovem e promissora repórter de 24 anos, nascida no ano em que o país voltou a eleger presidente pelo voto direto depois do golpe que derrubou Jango –, o site escancarou: “Demagogia – O Congresso anula o golpe, agora só falta ressuscitar Jango” (ver aqui). A legenda da foto dizia o óbvio (“Decisão não altera a história”) e começava o texto com uma paulada exemplar: “O Congresso Nacional aprovou, durante a madrugada, um projeto de resolução que é um primor de demagogia, oportunismo e inutilidade”.
Menos de onze horas depois, no mesmo dia, o site publicou outro texto, às 19h09, desta vez assinado pela repórter Lane Barreto, certamente mais experiente: “Congresso Nacional – Pedro Simon lembrou dia em que João Goulart foi afastado” (ver aqui). Uma foto expressiva do senador Simon dominava uma legenda precisa e informativa. O texto, ao contrário do anterior, tinha um tom sóbrio, sem adjetivos, relatando com objetividade a sessão histórica do Congresso.
No mesmo portal da Veja.com, havia um exemplo dessa vez eloquente de precisão jornalística. O blog do jornalista Ricardo Setti, sem qualquer concessão à inutilidade ou arroubos demagógicos, tratou de cumprir uma missão essencial do bom jornalismo: informar melhor o seu leitor com dados novos que facilitam a compreensão da história. Setti resgatou o áudio da sessão vergonhosa do Congresso de 1964, documento sonoro essencial para quem precisa avaliar a história com a isenção dos fatos indesmentíveis. Título do post: “Áudio histórico imperdível: a tumultuada sessão do Congresso que declarou vaga a Presidência depois do golpe de 1964”.
É um pedaço de áudio de 3’18”, mas está lá a voz grave do senador Auro de Moura Andrade, anunciando a presença de 152 deputados e 26 senadores. Ninguém imaginava que era apenas o início de uma farsa que acabaria em tragédia (ver aqui). Setti avisa aos seus leitores: “É a história contemporânea do país pulsando, num áudio emocionante, de arrepiar, que vocês poderão ouvir a seguir”.
Até a Zero Hora, de Porto Alegre, com tiragem de 184 mil exemplares, derrapou na avaliação dos atos de exumação de Jango (ver aqui), publicando um editorial veemente já no título infeliz: “Revisionismo pirotécnico”. O maior e mais importante jornal do Rio Grande do Sul, terra natal de Jango, capitulava à farsa de 1964 (“O Congresso da época chancelou tudo: não dá para apagar esta parte triste”) e sonegava aos políticos o direito e o dever de corrigir seus próprios erros: “Os historiadores e biógrafos têm melhores condições do que os políticos de definir um perfil menos idealizado dessa e de outras figuras públicas do país”. O senador Simon respondeu ao editorial com um artigo, uma semana depois, que se justificava no título: “Jango e a exumação da verdade” (ver aqui).
Compromisso eterno
A melhor percepção do processo de resgate histórico de Jango, na imprensa, coube a um jornalista que não tenho o prazer de conhecer e que tinha apenas dois anos quando aconteceu o golpe de 1964. Juremir Machado da Silva, gaúcho de Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, é mais do que um colunista importante do segundo maior jornal do Rio Grande do Sul, o Correio do Povo (tiragem de 149 mil exemplares), âncora de sucesso na rádio Guaíba e blogueiro de texto forte e elegante na internet. Juremir, formado em História e Jornalismo e doutorado em Sociologia pela Sorbonne, é também um pesquisador dedicado aos temas recentes da história brasileira, especialmente os produzidos a partir do golpe militar de meio século atrás. Publicou já 27 livros. O mais recente, Jango, a vida e a morte no exílio (Editora L&PM), representa um mergulho em dez mil páginas de documentos e três anos de pesquisa para tentar elucidar os mistérios que os peritos, agora, procuram decifrar na exumação de Jango. Lançado há apenas cinco meses, o livro já está na sua quarta edição.
Numa coluna que destoa com veemência de seus colegas já no título (“Bravos, senadores”), Juremir resume com argúcia, na edição de sábado (23/11), do jornal:
“A anulação da sessão do Congresso Nacional que guilhotinou Jango é mais do que simbólica: coloca de vez, como se fosse preciso, a ditadura na ilegalidade. A aparência de legalidade produzida por um senador capacho escorre, definitivamente, pelo ralo da história” (ver aqui).
Eu sempre me surpreendo quando os jornalistas, sempre tão argutos, mostram dificuldade para fazer a leitura precisa dos fatos históricos. A altiva decisão do Congresso, agora, anulando a fraude que nivelava parlamentares e golpistas, deve ser entendida pelo que ela é, sem apelar para gracejos ou impossibilidades que não estão no espectro do projeto proposto por Simon e por mim e sancionado pelo Congresso, que se prepara para promulgar a decisão reparadora em sessão solene.
A anulação daquela farsa não tem efeitos práticos sobre os males praticados pela ditadura, ao longo de intermináveis 21 anos. O que a resolução traz é o forte simbolismo de um resgate histórico. Ao contrário do que alguns pensam, a humanidade se move pelos símbolos que nos unem ou dividem. Por alguma razão, todos os anos, como lembra o jornalista Ricardo Setti, milhões de britânicos fazem um minuto de silêncio às 11 horas de todo dia 11 de novembro, homenagem sentida aos 886 mil soldados do Reino Unido que tombaram na I Guerra Mundial (1914-1918). Da mesma forma, às 8h15 de cada 6 de agosto, milhões de japoneses se calam durante 60 segundos na hora exata em que a primeira bomba atômica da história pulverizou mais de 100 mil pessoas em Hiroshima, na penúltima tragédia da II Guerra Mundial (1939-1945). Uma segunda bomba caiu 72 horas depois em Nagasaki e o Japão capitulou um mês depois.
Por emoções igualmente fortes, como lembrou o senador Simon em seu artigo em Zero Hora, os oito milhões de habitantes de Israel cessam tudo e saem de carros e ônibus nas ruas, às 11h de cada 27 de janeiro. É a data da liberação, em 1945, de Auschwitz, o maior campo de concentração nazista, onde sucumbiram cerca de 1,3 milhão de pessoas, 90% delas judeus. O silêncio de dois minutos, no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, é uma sentida homenagem aos seis milhões de judeus mortos pela máquina de morte do III Reich.
Não existe nestes gestos, nestas manifestações, nenhuma intenção demagógica, nenhuma atitude pirotécnica, nenhuma inutilidade prática, como poderia imaginar algum jornalista apressado como o senador Auro de Moura Andrade. Nenhum britânico, japonês ou judeu será ressuscitado, nenhuma dor será apagada. Mas, ficará fortalecido na memória de todos os povos, atingidos ou não pela barbárie, o sentimento do que é certo e do que é errado.
Erra quem imagina que os símbolos são perda de tempo, ou mero oportunismo político. Acerta quem acredita que, pelos símbolos corretos, se orienta e se eleva a consciência do mundo.
Exumar a verdade não é política dos mortos. É um compromisso perene dos que defendem, em todas as épocas, a vida e a liberdade. 
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Randolfe Rodrigues é senador da República (PSOL-AP).

POLÍTICA - "Che acharia a esquerda hoje superficial"

ENTREVISTA / JON LEE ANDERSON

‘Che acharia a esquerda de hoje superficial’

Por Adriana Carranca 
Reproduzido do Estado de S.Paulo,


Jon Lee Anderson, jornalista da revista New Yorker, biógrafo de Che Guevara e autor dos mais completos perfis de líderes latino-americanos como o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez e o ditador chileno Augusto Pinochet, acredita que, se estivesse vivo, Che Guevara veria os governos de esquerda na América Latina como “um bando de superficiais”.
“Dilma (Rousseff), Brasil... Isso não é governo de esquerda, isso é outra coisa, é desenvolvimentismo! Velar, finalmente, pelos 40 milhões de cidadãos mais miseráveis que vivem na merda em seus casebres e entregar a eles R$ 100 mensais não faz de você um governo de esquerda. Isso é pragmatismo puro!”, diz.
Lee Anderson também não poupa o Brasil de sua crítica afiada sobre a censura a biografias (mais informações nesta página). Para escrever Che Guevara – Uma biografia, lançada em 1997, ele se mudou com a mulher e os três filhos para Cuba por três anos, parte dos quais escreveu à frente da mesma escrivaninha usada pelo revolucionário marxista, cercado por seus livros e anotações no escritório da casa onde Che viveu com sua segunda mulher, a cubana Aleida March.
O jornalista americano esteve no Rio para ministrar uma oficina de reportagem promovida pela Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano, em parceria com as revistas Piauí e Serrote e o Instituto Moreira Salles.
Se Che Guevara acordasse hoje, o que ele acharia da esquerda na América Latina?
Jon Lee Anderson – O Che diria que são um bando de superficiais. Como figura pública, ele os defenderia, porque os veria como a única possibilidade de manter viva a esquerda na América Latina, mas em particular, estou seguro de que seria um crítico severo desses regimes, que não são verdadeiramente de esquerda. São matutos, corruptos que ostentam ser de esquerda. Argentina, Brasil, Nicarágua, Equador... Parecem-me bem pragmáticos. Correa (Rafael, presidente do Equador), entregou o Yasuní aos chineses (o governo autorizou a exploração de três blocos de petróleo sobre o Parque Nacional de Yasuní, decisão ligada à dívida de US$ 10 bilhões que tem com a China). Talvez a Bolívia seja uma exceção porque lá a esquerda não era só uma questão de economia, mas de reivindicação histórica. Então, Che veria que finalmente o país mais indígena da América Latina tem um presidente indígena e isso seria de grande orgulho para ele. Ele seria um amigo da Bolívia, ainda que em particular pudesse ter reservas sobre aspectos desse período mais pragmático.
Como veria as mudanças que o regime de Raul Castro está fazendo em Cuba?
J.L.A. – Che tinha a cidadania cubana e estava relacionado com a revolução, então, se manteria firme ao lado de Cuba, embora olhasse com horror a abertura inevitável que estão dando agora e a volta ao capitalismo. Ele veria isso como um fracasso. Em 1964, ele prognosticou que a União Soviética colapsaria porque não tinha assumido um socialismo verdadeiro como ocorreu em Cuba. Então, internamente, seria um crítico das mudanças de Castro, mas publicamente manteria o apoio ao país porque ainda tem um simbolismo frente ao capitalismo. E estaria orgulhoso por Cuba continuar firme ainda que de maneira simbólica como vestígio de algo que poderia se relançar.
E o que diria sobre a esquerda no Brasil?
J.L.A. – Dilma (Rousseff), Brasil... Isso não é governo de esquerda, isso é outra coisa, é desenvolvimentismo! Velar, finalmente, pelos 40 milhões de cidadãos mais miseráveis que vivem na merda em seus casebres e entregar a eles R$ 100 mensais não faz de você um governo de esquerda. Isso é pragmatismo puro! Um país que deu terras indígenas para criação ilegal de gado em favor dos pecuaristas... Isso é esquerda? Não.
O sr. fez um dos mais completos perfis de Hugo Chávez. Como vê o seu legado?
J.L.A. – Chávez tinha boas intenções. Tentou governar para os pobres. Encarnava a revolução bolivariana. Mas teve 14 anos para construir seus ideais e não conseguiu fazer as reformas sociais e econômicas que queria. Seu carisma era fascinante. Quando vivo, havia sinais de que não ia bem, mas as pessoas gostavam dele. No rastro de sua morte, porém, não há mais nada. Ele deixou para trás uma base militante e um país de um só partido altamente corrupto. Maduro é claramente inapto e incompetente. Está basicamente tentando evitar que o barco afunde. Não fosse um país com petróleo, haveria sangue nas ruas agora. É um desastre.
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‘Censura a biografias aproxima Brasil de ditaduras’
Biógrafo de Che Guevara, Jon Lee Anderson diz que a censura a biografias no Brasil aproxima o país de ditaduras como Cuba, China e Mianmar ou do regime teocrático do Irã e critica os artistas brasileiros que “querem o privilégio e os lucros de ser uma celebridade sem a responsabilidade social de ser esse personagem público.”
Ainda sobre privacidade, o jornalista americano, autor de A Queda de Bagdá, sobre a invasão americana no Iraque, diz que não confia em Edward Snowden, ex-técnico da agência de segurança dos EUA. “Não sei como Snowden pode falar em liberdade de expressão da Rússia de Putin, que mata e encarcera todos os que falam mal dele, de homossexuais a jornalistas”, dispara,
Como o biógrafo de Che Guevara, o que o sr. acha sobre a polêmica das biografias no Brasil?
J.L.A. – Aqui se trata de uma celebridade (Roberto Carlos) que não queria que saísse seu livro. E outros, como Caetano Veloso, que seguramente têm coisas que não gostariam de compartilhar e buscam maneiras de impedir que seus públicos saibam mais do que queiram revelar. Mas são artistas. O dinheiro que o público lhes deu ajuda a pagar a proteção do personagem que criaram. Ou seja, querem o privilégio e os lucros de ser uma celebridade, sem a responsabilidade social de ser esse personagem público. Eu não sou adepto das biografias das celebridades. Estou farto delas e não me importam, francamente. Mas o governo proibir que se escreva sobre eles, para mim, é um mau caminho, porque isso pode se estender facilmente a qualquer figura pública. Logo será um político, um chefe de polícia, um banqueiro. E sabemos que em países como o Brasil há gente que se esconde atrás de seus títulos que são corruptos, que são assassinos. Que lugares restringem o tipo de livros que se pode ler? Cuba, China, Mianmar. Rússia e Irã. Ao fazer isso, o Brasil se aproxima deles. Se alguém ocupa um espaço na vida pública, é direito do público saber o máximo sobre ele. Há leis contra difamação ou que protegem a intimidade da família. Eu não gostaria de saber que fariam uma biografia minha não autorizada, mas sou jornalista, uma figura pública. Posso impedi-lo? Não. O que espero é levar a vida de maneira tal que não me envergonhe de nada quando publicado.
Como o sr. vê as revelações de Edward Snowden sobre a agência de segurança dos EUA?
J.L.A. – Snowden ou Assange (Julian, do WikiLeaks) têm uma cruzada para abrir governos, pelo menos os ocidentais, e isso é uma opção ideológica. Por que não exigimos o mesmo da Rússia ou da China? Porque não se pode, porque usam a violência para amedrontar jornalistas. Também é certo que Snowden nos está proporcionando, a seu gosto, algo que não lhe foi entregue. É um ex-espião contratado que foi no arquivo de seus chefes, tomou dados, colocou numa maleta, pegou uma avião para a China, depois para a Rússia, e entregou-os a um jornalista de sua seleção. Há 20 anos, seria considerado um traidor porque tínhamos a Guerra Fria. O mundo mudou. Mas a Rússia não mudou tanto. Não sei como Snowden tem coragem de falar sobre liberdade de expressão desde a Rússia de Putin. Quem é Vladimir Putin? Um ex-agente da KGB que arrebatou os recursos naturais de seu país para se converter em um dos homens mais ricos da Terra. Que mata e encarcera todos os que falam mal dele, de homossexuais a jornalistas. Deve ser estranho e desconfortável para Greenwald (Glenn, do Guardian, que revelou documentos da NSA) que Snowden tenha se refugiado em um país que é o maior repressor de sua opção sexual. Não gosto dos abusos do governo, concordo que a NSA se tornou muito grande, mas não sei se este é o mal maior do mundo. Eu rejeito o ponto de vista clássico de que todos os pecados residem no Ocidente. Vivi minha carreira em guerras, sei quais são os riscos. Snowden ou Assange nunca estiveram em áreas de conflitos e não sei se Greenwald já saiu de Nova York ou Rio. Para mim, que espiem meu computador é incômodo. Mas é pior que me degole a Al-Qaeda na frente das câmeras, o que é uma ameaça real.
***
Adriana Carranca, do Estado de S.Paulo

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

POLÍTICA -O Supremo pode tudo!

Do blog SQN

 

As jabuticabas constitucionais do Supremo

A AP 470 continua a desafiar direitos constitucionais. Capaz de vir por aí outra jabuticaba nacional: a prisão semiaberta cumprida sob incomunicabilidade
Wanderley Guilherme dos Santos
A Ação Penal 470 continua a desafiar direitos constitucionais. Durante o julgamento foram indevidamente excluídas de referência todas as passagens dos documentos e dos testemunhos que comprovavam a inocência dos três presos políticos do PT nos crimes em que foram condenados. Ademais, cassou-se o direito de dupla instância de julgamento, a pretexto de que a fase de avaliação dos recursos, principalmente dos infringentes, atenderia ao direito assegurado pelos códigos pertinentes. E eis que, surgida a oportunidade, os encarniçados Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes e Luiz Fux, acompanhados pelos oscilantes habituais, quase impediram o julgamento dos recursos. Não é de espantar, em um colegiado que convalida a tese de que promotores não estão obrigados a provar que os acusados são cúmplices pelo conhecimento, e possivelmente artífices, de supostos crimes cometidos.

Exigiu-se, sob a presidência de outro encarniçado ora aposentado, Carlos Ayres de Brito, que os acusados provassem que não tiveram conhecimento do crime, até porque não reconheciam que tal ilícito houvesse ocorrido. Como é curial, a tese é logicamente descabida, mas aceita alegremente, protestos em contrário não obstante, pela esmagadora maioria do Supremo. Só por isso e aquelas sessões, gravadas, serão objeto de escárnio pela eternidade do direito universal. 

Sempre é bom relembrar o extraordinário silogismo descoberto em parceria por Ayres de Brito e Rosa Weber. Eis o seu enunciado: Mandantes de crime escondem todas as provas; não há provas contra José Dirceu; logo, José Dirceu foi o mandante do crime. Esta pérola, entre várias outras, está gravada também para os séculos futuros, juntamente com a alegação de que se trata de dedução legítima da teoria do domínio dos fatos.

Agora adentramos o capítulo do cumprimento das penas. Não foi decisão que enobreça a jurisprudência fazer conduzir os condenados a Brasília. Legal ou não, expressou o desejo de saborear a sentença de um castigo suplementar. A data de 15 de novembro ficará condecorada por esta valentia sem mérito, em combate contra adversários doentes e previamente linchados. Ao que consta, a biografia do ministro Joaquim Barbosa registra outros episódios de bravura semelhante.

Tal como aconteceu durante as sessões do julgamento, é até apreciável, se vista por um ângulo maligno, a destreza com que juízes de inegável e subida competência jurídica aplicam golpes de surpreendente agilidade nos artigos, parágrafos e alíneas da legislação vigente. Casuísticas e sutilíssimas distinções são extraídas da definição de regimes abertos, semi-abertos e fechados, incluindo considerações sobre a linearidade ou não dos benefícios atribuídos a cada regime, a natureza do tempo newtoniano e o paradoxo das maiorias rotativas.

Os dois últimos temas dizem tanto a respeito dos direitos de apenados quanto o Pilates interpretativo dos juízes. Trata-se tão somente de exibir independência dos juízes diante de réus, assim dito, poderosos. Pois, em geral, acredito mesmo na independência do Supremo Tribunal Federal e justo por isso nada me convencerá de que a Ação Penal 470 não constitui um trágico julgamento de exceção. Trágico para muitos dos condenados, trágico para a história do Judiciário brasileiro.

Mas não terminou. Agora é o direito de livre expressão a sofrer assédio certamente imoral por parte de juízes e ex-juízes. Onde se encontra a lei que retira a prisioneiros de qualquer índole o direito de expressão, e mais, de expressão impressa? Problema sério que o mundo contemporâneo, extravasando os limites de legislação obsoleta, apresenta. Como impedir que um preso mantenha um sítio na internet? Não há menção constitucional a essa modalidade específica de manifestar opinião. O direito à livre expressão (e impressão) de pensamento não hospeda qualificações. 

Sabem os especialistas que a tese de que existem países integralmente democráticos é uma balela. A Inglaterra censura jornais e livros, a França proíbe filmes e os Estados Unidos, com o chamado Ato Patriótico, admite a prisão de pessoas sem comunicação à Justiça e a violação de correspondência. Mas têm fundamento legal, de um direito arcaico ou obtuso, mas têm. Não no Brasil. Os casos em que a manifestação de opinião está sujeita a penalidades são constitucionalmente consignados e, todos eles, sempre após o fato, nunca previamente. Capaz de vir por aí outra jabuticaba nacional: a prisão semi-aberta cumprida sob incomunicabilidade

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

ENERGIA - Riscos na exploração de xisto.



Petrobrás admite riscos na exploração de xisto, mas minimiza problemas

Lucio Bernardo Jr. / Câmara dos Deputados
Audiência pública sobre a exploração do xisto em território nacional e seus efeitos sobre o meio ambiente. Gerente-geral de Interpretação e Avaliação das Bacias Terrestres da área de Exploração e Produção da Petrobras, Otaviano da Cruz Pessoa
Otaviano Pessoa, da Petrobrás: riscos são inerentes a qualquer atividade energética, inclusive gás convencional.
O representante da Petrobras na audiência pública, Otaviano da Cruz Pessoa, reconheceu que, de fato, há riscos na exploração de gás de xisto. Mas, segundo ele, são riscos inerentes a qualquer atividade energética, inclusive de gás convencional.
" A única diferença do gás de xisto em relação ao tradicional é que, no caso do xisto, as rochas onde está o gás têm menos fluidos e, por isso, você tem que perfurar milhares de poços", explicou Otaviano Pessoa, durante audiência da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Melhor avaliação dos impactos
Segundo Fernando de Oliveira, da Agência Nacional de Águas (ANA), os impactos da obtenção do gás não convencional ainda precisam ser melhor avaliados antes de liberada a exploração comercial.

Já para o coordenador da Campanha de Energia da ONG Greenpeace, Ricardo Baitelo, o uso do gás de xisto não é imprescindível neste momento. "Ainda que a demanda energética nacional aumente mais de duas vezes até 2050, temos fontes renováveis e reservas de gás convencional suficientes para suprir a demanda dos setores industrial e elétrico", defendeu.
Controvérsia científica
Especialista em efeitos ambientais na prospecção do gás de xisto, Jailson de Andrade lembrou que a maioria dos estudos sobre o assunto aponta a necessidade de estudos prévios locais para exploração. Segundo ele, ainda há muita controvérsia científica quanto à questão.

"Há um estudo da National Academy of Science, nos Estados Unidos, que mostra que, em 241 poços de água potável na Pensilvânia, quanto mais próximo de áreas de exploração de xisto, maior a quantidade de metano (tóxico e inflamável) na água”, informou Jailson. “A controvérsia na literatura é se isso já existia antes ou se é resultado da perfuração para obtenção de xisto."
Jailson de Andrade lembrou que a Academia Brasileira de Ciência e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência encaminharam carta à presidente Dilma Rousseff solicitando a suspensão da prospecção de gás de xisto no Brasil até que haja um laboratório para se entender os seus impactos.
"De onde virá a água que será utilizada na prospecção? Para onde vai água possivelmente contaminada? A partir dessas respostas, vamos ver se vale a pena a exploração", argumentou.
Rede de pesquisadores
Segundo Jailson de Andrade, o Ministério da Ciência e Tecnologia e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) devem definir hoje as bases para uma rede brasileira de pesquisadores sobre o tema.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

POLÍTICA - É porque não são ligados ao PT.

Diário do Centro do Mundo


Por que os Perrellas não foram presos? Nosso professor Nabuco responde

by José Nabuco Filho
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O surpreendente caso do helicóptero pertencente ao deputado estadual de Minas Gustavo Perrella, apreendido com 445 quilos de cocaína, não pode levar ao prejulgamento do deputado e nem à omissão de investigações.
Quando houve a apreensão, as perguntas se sucederam. Muitos queriam saber se a polícia deveria ter prendido o deputado e se ele seria responsável criminalmente pelo transporte da droga.
A verdade é que, penalmente, ninguém é responsável por ato de seu subordinado se não colaborou conscientemente para isso. Em termos jurídicos, ninguém será punido se não tiver colaborado dolosamente com o ato praticado por seu funcionário. A rigor, a questão sobre o dolo é simples. Basta que o chefe saiba que na sua empresa ou com seu equipamento seja praticado tráfico, para que esse chefe seja responsável conjuntamente por crime de tráfico (tecnicamente, é o concurso de pessoas).
A complexidade está no âmbito das provas. É preciso a obtenção de provas de que o chefe sabe, para que ele seja responsabilizado penalmente. Isso se aplica tanto ao caso de uma pizzaria em que o entregador é flagrado com cocaína na moto, como no caso do helicóptero do deputado mineiro.
Parece claro, portanto, que o deputado deva ser minuciosamente investigado, para se chegar à conclusão sobre sua eventual responsabilidade. Em uma república, nenhum homem pode ser intocável. Por outro lado, numa democracia, não se pode presumir a culpa de quem quer que seja.
Não há dúvida que numa situação similar e de menor proporção, vivenciada por um cidadão pobre, o tratamento seria diferente. Em tais casos, o comportamento tende ao abuso, ou seja, ao mais profundo desprezo pelas garantias individuais. Mas também não há dúvida de que democracia se faz inibindo o abuso e não defendendo sua extensão a todos.
Uma outra questão que surge desse caso é a aparente sofisticação do tráfico, em que a cocaína é transportada por um helicóptero caríssimo. A crônica policial no Brasil só retrata traficantes “pé-de-chinelo”. Os chefões do tráfico, quase sempre, são moradores de favela que constroem casas no alto do morro de um luxo precário, com predileção por banheiras de hidromassagem, muito diferente dos traficantes do cinema americano.
Mas, num negócio rentável como o tráfico de drogas, provavelmente há por trás pessoas menos toscas que um Fernandinho Beira-Mar. Eles existem ou são fruto de nosso imaginário? Se existem, por que não os conhecemos?
O fato é que uma das características das organizações criminosas é a existência de tentáculos no poder público com a corrupção. Dessa forma, é provável que existam empresários do tráfico que se mantenham na impunidade através da corrupção.
Um caso como esse vem aguçar nossa imaginação. Que se investigue, então, minuciosamente a eventual existência de responsabilidade do dono do helicóptero.

BLOGOSFERA - IV Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais.

IV Encontro Nacional de Blogueir@s e ativistas digitais
  • Data: 16, 17 e 18 de maio;
    Local: São Paulo (Centro Cultural Vergueiro)
    Previsão de participantes: 500 ativistas digitais de todo o país

    Programação:
    16 de maio, sexta-feira:

    9 horas – Abertura

    10 horas – Debate: Mídia, poder e contrapoder
    - Ignácio Ramonet – fundador do jornal Le Monde Diplomatique (França);
    - Pascual Serrano – criador do sítio Rebelion (Espanha);
    - Andrés Conteris – Integrante do movimento Democracy Now (EUA);
    - Dênis de Moraes – professor da Universidade Federal Fluminense;

    14 horas – A mídia na América Latina
    - Osvaldo Leon – Agência Latina Americana de Informação (Alai-Equador)
    - Damian Loreti – professor (Argentina);
    - Iroel Sánchez – blogueiro cubano;

    17 horas – A luta pela democratização da mídia no Brasil
    - Luiza Erundina – coordenadora da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão (Frentecom);
    - Rosane Bertoti – coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC);
    - Laurindo Lalo Leal Filho – professor da USP e ex-ouvidor da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

    17 de maio, sábado:

    9 horas – A força das novas mídias
    - Pablo Capilé – Fora do Eixo;
    - Renato Rovai – revista Fórum;
    - Luciano Martins Costa – Observatório da Imprensa;
    - Jeferson – Dilma Bolada

    14 horas – Troca de experiências sobre a blogosfera e o ciberativismo.

    18 horas – A mídia e as eleições de 2014
    - Lula, Paulo Henrique Amorim e Paulo Moreira Leite

    20 horas – Festa de confraternização.

    18 de maio, domingo:

    10 horas – Plano de ação do movimento nacional de blogueir@s;
    - Definição do local do V Encontro Nacional, em 2016;
    - Aprovação da Carta de São Paulo
    - Eleição da nova comissão nacional organizadora

POLÍTICA - A indignação seletiva do JN.

Diário do Centro do Mundo


O hotel onde Dirceu quer trabalhar e a indignação seletiva do Jornal Nacional

by Nelson Ferraz
hotel saint peter
O Jornal Nacional foi ao Panamá e dedicou uma reportagem de 6 minutos -- uma enormidade em termos de televisão -- ao escândalo do dia: a estrutura societária do hotel que cometeu a ousadia de oferecer um emprego a José Dirceu.
Seguindo o conhecido script, o senador tucano Álvaro Dias (PSDB/PR) foi ao plenário repercutir a matéria, dizendo que "o Jornal Nacional fez uma denúncia da maior gravidade, desenhando os caminhos da ilegalidade que levam esse empreendimento hoteleiro a uma arapuca no Panamá"; o que certamente será repercutido pela mídia num processo de auto-referência.
Se esta é uma denúncia da "maior gravidade", o que podemos dizer do helicóptero de um aliado de Aécio, apreendido com 445 quilos de cocaína? Ou o "mensalão" tucano, mais antigo do que o petista, e que ainda não foi julgado? Ou a acusação -- ou melhor, confissão -- de propinas pagas nas licitações do metrô de São Paulo?
Nada disso recebeu atenção equivalente da Globo, o que demonstra uma das formas mais insidiosas de manipulação na mídia brasileira: "agenda-setting" -- a capacidade da mídia de ditar o que é ou não relevante na agenda de discussão pública.
"The media doesn’t tell us what to think, but what to think about.”
("A mídia não nos diz o que pensar, mas sobre o que pensar")
Se a imprensa é um espelho do que se passa numa sociedade, a imprensa brasileira é um espelho deformado; e tão revelador quanto o que ela mostra, é o que esconde, revelando quem manipula o espelho -- aquele que nunca aparece em seu reflexo.

POLÌTICA - Trensalão tucano.

Quem superfaturou a reforma dos trens do Metrô no Governo Serra

Fernando Brito, Tijolaço
“O Estadão publica a notícia de que “o  Ministério Público Estadual  pediu nesta terça-feira, dia 3, ao governo de São Paulo a suspensão de seis contratos de reforma de trens das linhas 1 e 3 do Metrô. Assinados entre 2008 e 2010, eles somam, segundo o MPE, R$ 2,47 bilhões. O objetivo do promotor Marcelo Milani, que investiga a possível improbidade administrativa na execução dos contratos, é convencer o governo a abrir sindicância para que seja feita a apuração de supostos prejuízos causados pela atuação de cartel metroferroviário nos contratos. Ele ainda alega que os valores das reformas dos trens teriam ficado semelhante ao preço de trens novos. Além disso, problemas técnicos foram constatados, de acordo com o MPE, nos trens reformados em vistoria feita nos pátios do Metrô. Os problemas teriam obrigado que 36 composições permanecessem paralisadas naquelas duas linhas.”
“Entre 2008 e 2010″, traduzindo: “durante o Governo José Serra”… A matéria também não cita com quais empresas estes contratos foram firmados.
A gente esclarece: Consórcio Modertrem (Alstom e Siemens), Consórcio BTT (Bombardier, Tejofran e Temoinsa), Consórcio Reformas Metrô (Alstom e IESA) e Consórcio MTTRENS (MPE, Trans Sistemas e Temoinsa).
Embora o contrato tenha sido licitado com quatro consórcios, ele foi repartido em acertos contratuais sepatados com as dez empresas integrantes deles, o que elevou em R$ 875 milhões (ou mais de 50%) o valor original de R$ 1,7 bilhão.
Ou seja, cada um dos 98 trens passou de R$ 17,36 milhões para R$ 25 milhões. Mesmo que parte das correções seja inflacionária, o resultado é um trem de segunda mão até mais caro que um novo.
Porque é isso que se vê aqui nesta matéria do SBT publicada em maio do ano passado, quando a denúncia foi levada ao Ministério Público Estadual de São Paulo.
Que, um ano e meio depois, resolveu tomar uma atitude.
Nem trem atrasa tanto, não é?
PS. Assim que acabo de escrever, vem a notícia de que o Tribunal de Justiça confirmou a decisão do juiz de primeira instância que mandou o Governador Geraldo Alckmin refazer a ação que apresentou sobre o caso do “trensalão”. Traduzindo do juridiquês, o juiz determinou que houvesse menos pantomima no pedido  de Alckmin’

MÍDIA - Decadência da Globo.

Decadência sem elegância

ÓPERA BUFA NO PANAMÁ  Leandro Fortes 
Embora tenha visto a matéria do Jornal Nacional pela metade, enquanto zapeava a TV em busca do canal onde passava “The Big Bang Theory”, não posso deixar aqui de fazer o registro:

Este esforço de reportagem da TV Globo para impedir que José Dirceu trabalhe em um hotel de Brasília é uma das coisas mais patéticas que eu, em tantos anos de jornalismo, já vi na televisão. É incrível que ainda haja jornalista disposto a participar de uma encenação como essa, hipócrita, moralista, bem ao nível dessa classe média tristonha que rumina o JN antes da novela das nove.

Como é que uma empresa que sonegou 1 bilhão de reais em impostos do seu próprio País tem a cara de pau de, publicamente, mandar uma equipe ao Panamá para apontar o dedo sujo para os outros?

Por que não gastou esse dinheiro e essa energia moralista de quinta categoria para ir ali, em Minas Gerais, investigar quem são os donos de meia tonelada de cocaína encontrada no helicóptero da família Perrella?

Difícil dizer qual o pior momento da Globo: se quando ela era poderosa e elegia gente como Fernando Collor, ou se agora, decadente, quando nem emplacar gente como José Serra consegue mais.

POLÍTICA - A trama para executar Genoino.

A trama para executar Genoino

Há uma barganha indecente por trás da farsa dos atestados médicos sobre a saúde de José Genoino

Hanna Arendt gostava de lembrar que os nazistas repetiam que em nossos tempos “o mal exerce uma atração mórbida.”

Cronistas das torturas e execuções públicas do século XVIII sublinhavam o comportamento feliz da população habituada com aqueles espetáculos de sangue, dor e violência. Da mesma forma que os fanáticos de hoje, o pessoal mais agressivo perseguia e agredia aqueles que manifestavam qualquer tipo de solidariedade com as vítimas do carrasco.

É este tipo de espetáculo que a mesa da Câmara de Deputados quer promover para cassar o mandato de José Genoino.

Acovardados pelo caráter resoluto dos protestos de junho, nossos parlamentares estão convencidos de que têm o direito de tomar qualquer medida, mesmo que destituída de todo valor moral e político, que ajude a engordar seu Ibope. Esse sentimento cuja base é o medo, e apenas ele, de serem enxotados pelas urnas em 2014, ganhou corpo ainda maior depois que Natan Donadon conseguiu conservar seu mandato, embora tenha sido condenado a 13 anos de prisão. Deveriam ser criticados pelo oportunismo sem limites, pela falta completa de escrúpulos – mas contam com elogios moderados caso possam dizer que ouviram o “clamor das ruas”, o “ronco da multidão” e qualquer outro barulho dessa natureza.

Querendo recuperar um pouquinho de seu prestígio, eles ensaiam uma manobra de julgam muito astuciosa: entregar a cabeça de Genoino com forma de compensação.

Veja que grande negócio: trocar a impunidade de um parlamentar cuja existência eu e você só tomamos conhecimentos no dia em que preservou o mandato por um cidadão com 30 anos de luta no Congresso e 50 de luta política, um devoto de suas ideias e convicções, que lhe renderam um sobrado no Butantã, em São Paulo, comprado num empréstimo da Caixa Econômica, longas noites de tortura nos tempos do regime militar e uma malária adquirida no período em que, de armas na mão, enfrentava uma ditadura de botas, tanques e fuzis.

Pois é isso, meus amigos. Essa barganha indecente é que está por trás da farsa dos atestados médicos da semana passada.

Não vou julgar nem pré-julgar nem pós-julgar a culpa de Donadon.

Mas conheço as denúncias contra Genoino na ação 470 e reparei que elas foram caindo, dia após dia. A principal, aquela de que assinou empréstimos fraudulentos para o PT, foi inteiramente desmentida por um inquérito da Polícia Federal.

Os doutores da Câmara fizeram seu trabalho, sim. Examinaram Genoino e concluíram que é um caso gravíssimo. Deram-lhe 90 dias de licença, acompanhados de um pedido de novo exame dentro de três meses. Numa entrevista coletiva, os médicos deixaram claro que a situação de Genoino está longe de resolvida e que qualquer “ atividade laboral” pode ter sequelas capazes de produzir novos problemas de saúde – e uma nova cirurgia.

Também escreveram um laudo detalhado sobre sua condição. Numa atitude que merece elogios, eles se recusaram a colocar a medicina a serviço de interesses políticos, atitude que tantas tragédias produziu no passado, de Tancredo Neves a Rubens Paiva, para ficar em dois exemplos extremos e vergonhosos.

Mas a operação para conduzir o deputado ao cadafalso foi mais forte. Se em outros tempos os jornais divulgavam notícias falsas sobre fuga de presos políticos, que logo seriam executados pelo aparato de repressão, no cadafalso de nosso tempo é possível divulgar laudos que ninguém estranhou, nem conferiu, nem foi atrás para saber direito. Mas a mentira, a falsidade, já estava lá.

Assegurou-se que estava tudo bem com Genoino, que não havia motivo para que fosse atendido o pedido de aposentadoria por invalidez – que entregou ao Congresso em setembro.

Quando a verdade veio à luz, com a divulgação do laudo completo, a manobra já fora realizada, a operação para cortar o pescoço de Genoino já estava em curso e, é claro, os cãezinhos de Pavlov já davam sinais de saliva na boca.

A luta de Genoino não terminou e, pelo que se conhece dele, não irá terminar nunca. Mas ficou mais difícil.

O laudo incompleto procura colocar uma questão de caráter no pedido de Genoino. É uma forma de diminuir sua dignidade, de transformar seu combate para escrever um capitulo doloroso de sua existência num lance de astúcia, esperteza, malandragem. Justo eles, os astutos, espertos, malandros.

Preste atenção: Genoino não está lutando para manter o mandato. Não quer convencer os colegas de Congresso se é culpado ou inocente. Este é seu combate na Justiça. No Congresso, ele quer exercer outro direito, o de se aposentar com dignidade. E até isso é um problema.

Para cometer uma brutalidade desse tamanho, é preciso desumanizar Genoino. Ao negar a condição humana, ao rejeitar um benefício que a lei faculta a uma pessoa em sua condição, fica mais aceitável a aceitação de uma injustiça e mesmo de um crime. É por isso, e só por isso, que querem cortar sua cabeça aos olhos da multidão.

POLÍTICA - Almoço com o Lula

Dois dedos de prosa com Lula de olho no futuro

Blog do Ricardo Kotscho
image2 Dois dedos de prosa com Lula de olho no futuro
Arroz, feijão, filé de frango grelhado, carne ensopada, salada, gelatina e sorvete. Para beber, só agua mineral e refrigerante zero. O cardápio light do almoço no escritório combinava com o atual momento do ex-presidente Lula, totalmente recuperado do câncer da laringe, mais magro e de alto astral. "Só não vá me falar mal de ninguém...", recomendou, quando lhe disse que iria escrever sobre nosso encontro aqui no Balaio.
Nem haveria motivo. Falamos mais de planos para o futuro e das nossas famílias do que dos assuntos políticos do dia. Por falar nisso, pela primeira vez em muito tempo, ao longo da nossa conversa Lula não fez críticas à mídia, o que me chamou a atenção. Melhor assim. De bem com a vida, esperando o nascimento de mais um neto, o sétimo, o ex-presidente parece ter tirado um enorme fardo dos ombros depois de oito anos de Palácio do Planalto. E estava feliz também porque amanhã à noite vai receber mais um título de Doutor Honoris Causa, desta vez da Universidade do ABC, que ele mesmo criou em seu governo, e já conta com mais de 12 mil alunos.
À mesa da sala de almoço, só nós dois e seu fiel escudeiro Paulo Okamoto, presidente do Instituto Lula. Fazia tempo que a gente não tinha um papo assim tranquilo, desses em que se pode falar bobagem e não tem hora para acabar. Mesmo depois de ter deixado a presidência, Lula vive sempre cercado de gente, enfrentando uma agenda carregada, entre uma viagem e outra.
Na manhã desta terça-feira, ele tinha participado de uma longa reunião no pequeno auditório do Instituto Lula, com cerca de 20 representantes da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), que foram convidá-lo para participar do V Encontro Nacional de Quilombos, e aproveitaram para lhe entregar uma lista de reivindicações. Lula ficou de encaminhar o documento à presidente Dilma.
Como já acontecia antes de ser eleito presidente, Lula faz questão de manter um diálogo permanente com os movimentos sociais, uma forma de se manter informado e, ao mesmo tempo, participar de algum jeito da busca de soluções para o país. É exatamente isso que o move no momento: despertar o interesse da sociedade, em especial dos jovens, para participarem das discussões sobre os rumos do país, em vez de ficar só reclamando pelos cantos.
Já há alguns meses ele vem se reunindo com um grupo de cerca de dez ex-integrantes do seu governo para pensar o Brasil do futuro, com metas, prazos e custos, sem o imediatismo dos programas das campanhas eleitorais. Para marcar um prazo de valor simbólico, lembrei-lhe que nem falta tanto tempo para comemorarmos o bicentenário da nossa Independência, no dia 7 de setembro de 2022.
O desafio deste projeto é não se transformar numa discussão acadêmica, criando mecanismos capazes de levar o debate aos diferentes setores da sociedade, que também estão pensando em propostas para o futuro. Isto já está sendo feito.
Em termos mais imediatos, ele terá nesta quarta-feira um novo encontro com a presidente Dilma Rousseff, que virá a São Paulo para participar da homenagem a Lula no ABC. Desta vez, certamente entrará no cardápio a reforma ministerial prevista para o início do próximo ano. É a vida que segue, sempre batalhando por um futuro melhor, que só depende de nós. Eleições à parte, é bom pensar nisso desde já.
Valeu, Lula. Foi muito bom o almoço. Até o próximo...