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sexta-feira, 26 de junho de 2015

POLÍTICA - Embaixada americana de Paris.


Embaixada americana de Paris, centro da espionagem

Políticos de esquerda cobram do governo francês uma reação à altura do FranceLeaks que revelou que Chirac, Sarkozy e Hollande foram grampeados.


Leneide Duarte-Plon, de Paris
The U.S. Army / flickr
Saber que o aliado americano espionou os presidentes Chirac, Sarkozy e Hollande (pelo menos até 2012), chocou o mundo político francês desde que estourou esta semana o FranceLeaks, revelado em reportagem exclusiva do jornal Libération e do site Mediapart, que intitulou seu dossiê completo : « La République sur écoute » (A República grampeada). François Hollande chegou a ter seu celular pessoal grampeado.

O que o jornal Le Monde ressaltou é que a cooperação estreita entre os serviços secretos ocidentais tende a limitar a reação oficial à revelação do escândalo FranceLeaks. Enquanto o Eliseu se mantém silencioso, nos jornais, nas rádios e TVs o assunto monopoliza todas as entrevistas políticas desde terça-feira. Os mais indignados chegaram a citar como exemplo a reação da presidente Dilma Roussef que anulou uma visita de Estado a Washington, em 2013, ao tomar conhecimento das escutas telefônicas da NSA (National Security Agency), reveladas por Edward Snowden.

« Mesmo sendo fiéis aliados desde o governo Sarkozy, eles continuam a nos tratar como suspeitos ? » Essa pergunta poderia estar na cabeça dos defensores da aliança incondicional com o « amigo americano ». Um deles, Nicolas Sarkozy, logo depois de eleito em 2007, não hesitou em voltar ao comando integrado da Otan, que o general de Gaulle tinha decidido de deixar em 1966.

Chirac teve a coragem de decidir que não participaria da invasão do Iraque em 2003. Seu ministro das Relações Exteriores, Dominique de Villepin, em discurso memorável na ONU, explicou porque a França se negava a participar da guerra ao Iraque programada por George Bush, que resultou no que se vê hoje : o Iraque desestabilizado, uma situação de caos absoluto que contaminou toda a região.

A desestabilização do Iraque e do Afeganistão através de uma guerra brutal, na qual os civis foram as principais vítimas, e as denúncias de tortura em Abou Ghraib fortaleceram o sentimento anti-americano e possibilitaram o surgimento do Estado Islâmico que se tornou o novo alvo dos ocidentais.

O sucessor de Chirac, Nicolas Sarkozy, não hesitou em se juntar aos americanos e ingleses para destronar Khadafi. Esse entusiasmo pró-americano de Sarkozy não impediu que, no seu governo, a França fosse barrada ao tentar se unir ao grupo « Five Eyes » (Eua, Grã-Bretanha, Canadá, Nova Zelândia e Austrália). Esse grupo de países uniu seus serviços de informação desde 1947. Tanto a Casa Branca quanto a CIA e a NSA disseram não aos franceses. A desestabilização da Líbia, na qual Sarkozy teve um papel central, só fez reforçar grupos jihadistas e amplificar o fluxo de migrantes no Mediterrâneo, em direção à Europa.

Espanto fingido

Tanto os socialistas quanto a oposição de direita fingem espanto e indignação com a revelação da espionagem americana, digna do Big Brother de Orwell. Mas alguns ministros, ex-ministros ou assessores diretos dos presidentes, menos hipócritas, confessam que sempre trabalharam com a hipótese de que poderiam estar sendo escutados pelas grandes orelhas da NSA e da CIA.

O ex-assessor e conselheiro diplomático de Sarkozy, Jean-David Levitte declarou que sempre trabalhou com essa hipótese e por isso evitava discutir assuntos sensíveis ao telefone. « Sempre pensei que estava sendo escutado, e não apenas por nossos amigos e parceiros americanos », disse.

A extrema-esquerda representada pelo Front de Gauche (Frente de Esquerda), que reúne o Partido Comunista, parte dos Ecologistas e o Parti de Gauche de Jean-Luc Mélanchon, aproveitou a ocasição para lembrar que sem os « lanceurs d’alerte » (não gosto de « delator » que, na origem, tem uma conotação negativa ; a verdadeira intenção desses militantes que denunciam a espionagem moderna é defender a democracia e os cidadãos), como Edward Snowden e Julian Assange, o mundo ignoraria todos os atos de espionagem permanente de chefes de estado feitas pela NSA (National Security Agency) dos Estados Unidos.

Os políticos da esquerda que se intitula « la gauche de la gauche », começaram uma campanha para que a França conceda o direito de asilo a Snowden e Assange, abrigados na Rússia e na Embaixada do Equador em Londres, respectivamente. Mas François Hollande não parece suficientemente corajoso para enfrentar o aliado e « amigo » que mantém um quartel-general de escutas telefônicas e de espionagem de mensagens eletrônicas a poucos metros do palácio do Eliseu. Exatamente no último andar da embaixada americana, onde fica o serviço especial de escuta da NSA, chamado Special Collection Service (SCS) devidamente dissimulado por janelas pintadas em « trompe l’œil ». Esse quartel-general da espionagem se situa, estrategicamente, a poucos metros do Parlamento (Assemblée Nationale), do Quai d’Orsay e do Elisey.

Jean-Luc Mélanchon denunciou : « As escutas são uma agressão contra nossa soberania e nossa independência, vindo de uma potência imperial que não tem amigos mas apenas interesses. Os ingênuos do pró-americanismo primário são os idiotas do vilarejo. »

Em, 2011, antes mesmo que Sarkozy tomasse a atitude de convidar o Quartet (grupo de quatro negociadores que tentavam fazer avançar o processo de paz no Oriente Médio entre palestinos e israelenses), os americanos recebiam a informação transmitida numa nota da NSA : « Nicolas Sarkozy e Alain Juppé estudam um convite ao Quartet mas não têm certeza de que conseguirão esse objetivo pois o grupo poderia se recusar a se deixar guiar por Paris ».

Enquanto isso, no país que grampeia todo mundo no mundo inteiro, as denúncias de que os chefes de Estado francês foram espionados por longos anos não emociona nem a imprensa nem o grande público.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

POLÍTICA INTERNACIONAL - Celso Amorim tem razão.

Celso Amorim diz que imprensa nacional tem obsessão por denegrir a imagem do Brasil




 

Jornal GGN - Ex-ministro da Defesa Celso Amorim lança, nos próximos dias, um livro de memória sobre sua passagem pela chancelaria brasileira, obra intitulada "Teerã, Ramalá e Doha - Memórias da política externa ativa e altiva".

 

Em entrevista ao El País, Amorim contou que no livro faz críticas ao rompimento de suas políticas após a sucessão de Lula por Dilma Rousseff (PT), mas também disparou contra a imprensa tupiniquim.

 

Para o ex-chanceler, a imprensa local fez uma cobertura ruim do caso exposto em seu livro, a respeito da tentativa do Brasil e da Turquia de mediar a negociação do programa nuclear irariano, em 2010, que não frutificou.


 

Segundo Amorim, há uma "obsessão" local, por parte da mídia nacional, com a imagem do Brasil lá fora. O tratamento depreciativo é evidente. "Há uma obsessão pelo autodenegrimento na mídia brasileira, deve ser uma coisa da psicologia coletiva. Eu acho que é pior com o PT, mas mesmo sem o PT era assim", comentou.

 

Após deixar o Ministério da Defesa, Amorim decidiu espetar o governo Dilma, pelo impacto que a economia tem provocado no orçamento da Pasta. Segundo ele, o corpo diplomático brasileito foi expandido nos últimos anos e agora enfrenta o contingenciamento de recursos. 

 

A série especial do El País também fala das relações do ex-chanceler com a presidente Dilma, bem como o perfil mais apropriado do novo ministro, que consegue driblar melhor o humor da petista. Ela, durante o primeiro mandato, viajou menos do que Lula ao exterior. Amorim reclamou que alguns caminhos que ele levou anos para abrir foram deixados de lado por Dilma. Isso pode representar mais um hiato na política externa brasileira.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

POLÍTICA INTERNACIONAL - O doce triunfo do chanceler Celso Amorim.

O doce triunfo do chanceler Celso Amorim sobre a mídia e os embaixadores de pijama


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A Veja (acima) e a mídia em geral colocaram várias pedras no caminho de Amorim. No caso do Irã, a revista informou erroneamente que o ministro “costurou um acordo para desenvolvimento de tecnologia nuclear com o presidente do Irã”. Ou seja, aparentemente a turma da revista nem leu a Declaração de Teerã.
por Luiz Carlos Azenha
Quando viu Muammar Gaddafi fazendo gestos bruscos com um objeto na mão, dentro de uma tenda em um deserto nas proximidades de Trípoli, o então chanceler Celso Amorim chegou a imaginar que o líder líbio estava se autoflagelando diante de convidados importantes: o presidente Lula, o líder nicaraguense Daniel Ortega e o ex-presidente argelino Ben Bella.
Mas, não se tratava de um gesto de caráter religioso. Na verdade, Gaddafi usava uma espécie de abanador de fibra vegetal para se livrar das moscas que infestavam o ambiente.
Esta e muitas outras anedotas saborosas fazem parte do livro Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva, da editora Benvirá, o terceiro em que o ex-chanceler brasileiro narra fatos de sua passagem pelo Itamaraty. Os outros são Conversas com jovens dipomatas e Breves narrativas diplomáticas, lançados anteriormente pela mesma editora.
O novo livro trata de alguns dos mais criticados aspectos da política externa que Amorim desenvolveu ao lado do ex-presidente Lula, a partir de 2002: a aproximação com o Irã e os países árabes.
Na mesma viagem em que encontrou Gaddafi, em dezembro de 2003, Lula já havia passado pela Síria, Líbano, Emirados Árabes Unidos e Egito. Lula foi criticado por se encontrar com Bashar al-Assad e Gaddafi, mas não com o emir de Abu Dhabi, aliado dos Estados Unidos.
Ao narrar a passagem por Tripoli, Amorim relembra: “Repetia [a mídia] aqui, com agravantes, o mesmo tipo de crítica que ouvimos em Damasco. Como podia o líder de um país democrático, que ascendera ao poder mediante eleições livres, ser recepcionado por um anfitrião que chefiava um regime sabidamente ditatorial? Mas, como na Síria, o que preocupava a nossa imprensa não era tanto a natureza autoritária ou ditatorial do regime, mas a falta de consulta prévia a Washington. Tanto assim que os mesmos veículos pareciam encarar com grande naturalidade os contatos de Colin Powell em Damasco e trataram de forma positiva, ou pelo menos indiferente, as viagens que os primeiros-ministros José María Aznar e Tony Blair viriam a fazer dentro de poucos meses à Líbia”.
Em outras palavras, os Estados Unidos podiam conversar com a Síria; o Reino Unido e a Espanha, com a Líbia. O Brasil, não!
A aproximação do Brasil com os países árabes, que culminou com a Cúpula América do Sul-Países Árabes (ASPA), além de ampliar mercados para produtos brasileiros visava reforçar um dos pilares centrais da política externa, a de promover o multilateralismo.
Mas a maior reação da mídia se deu contra a aproximação entre o Brasil e o Irã, que em 2010 resultou na Declaração de Teerã, pela qual o regime iraniano se comprometeu a “depositar 1200 quilos de urânio levemente enriquecido (LEU) na Turquia. Enquanto estiver na Turquia, esse urânio continuará a ser propriedade do Irã. O Irã e a AIEA [Agência Internacional de Energia Atômica] poderão estacionar observadores para monitorar a guarda do urânio na Turquia”. Feito o depósito dentro de um mês, “com base no mesmo acordo, o Grupo de Viena deve entregar 120 quilos do combustível requerido para o Reator de Pesquisas de Teerã em não mais que um ano”.
O acordo, em outras palavras, tirava do Irã o urânio levemente enriquecido que em tese poderia ser utilizado para fabricar a bomba atômica.
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A iniciativa de Lula foi fuzilada pela mídia brasileira. O Brasil teria dado passo maior que a perna, disseram alguns. Teria sido usado pelos malévolos aiatolás, afirmaram outros.
Na verdade, a repercussão foi mundial.
Sobre a foto dos presidentes Lula, Mahmoud Ahmadinejad e do primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan, a revista Newsweek perguntou: “É este o futuro? O poder americano e seus limites”.
No texto, Fareed Zakaria constatou: “Raramente uma única fotografia irritou tanta gente”.
Ele se referia aos críticos direitistas do presidente Barack Obama. O Wall Street Journal definiu a imagem como o debacle da política externa de Obama. Para o neocon Charles Krauthammer, escrevendo no Washington Post, a cena em Teerã demonstrou como “poderes em ascensão, aliados tradicionais dos Estados Unidos, depois de ver o governo Obama em ação, decidiram que não existe custo em se aliar a inimigos dos Estados Unidos e nenhuma vantagem em se aliar com um presidente dado a pedidos de desculpas e appeasement“.
Como se sabe, naquele período muito se falava num inevitável ataque militar de Israel ao Irã para eliminar o programa nuclear iraniano. Os falcões batiam o bumbo da guerra e, ainda que reflexivamente, eram imitados pelos seus amigos na mídia brasileira.
Obama, aliás, foi quem estimulou a iniciativa turco-brasileira. Pessoalmente e por escrito. Assessores dele não acreditavam no sucesso de Lula e Erdogan. Quando deu certo, trataram de puxar o tapete dos aliados.
Àquela altura, os Estados Unidos já pretendiam ir ao Conselho de Segurança da ONU em busca de aprovar sanções contra Irã, o que conseguiram com o apoio de todo o clube atômico — Rússia, China, França e Reino Unido.
Hoje, ironicamente, os Estados Unidos perseguem, dentro do chamado P5, um acordo parecido com o obtido por Brasil e Turquia, porém mais amplo.
Para Celso Amorim, aceitar a Declaração de Teerã como primeiro passo teria tido vantagens. Se em 2010 o Irã dispunha de urânio levemente enriquecido para fazer uma bomba, no início de 2014 tinha para três ou quatro artefatos. Se Washington sempre perseguiu medidas de “confidence building” com Teerã, poderia tê-las celebrado muito antes. Além disso, a população iraniana teria sido poupada do sofrimento das sanções.
“Não podemos esquecer que há na região um Estado — Israel — que, sabidamente, detém poderoso arsenal atômico. Por isso, temos insistido que a solução duradoura para a questão reside na conclusão de um acordo que faça do Oriente Médio uma zona livre de armas nucleares”, escreve o ex-chanceler no livro.
A iniciativa brasileira em conjunto com a Turquia acabou mais festejada fora do que dentro do Brasil. Ainda em 2010, Amorim foi incluído em sétimo lugar na lista dos 100 Maiores Pensadores Globais da revista Foreign Policy.
Dois pesquisadores norte-americanos — John Tirman, do MIT, e Malcolm Byrne, do National Security Archives –, entrevistaram Celso Amorim sobre a iniciativa em 2013. Eles escrevem justamente sobre oportunidades perdidas em política externa.
Ao longo de Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva, Celso Amorim demonstra que não há espaço em política externa para o maniqueísmo, o simplismo e o saber rattling, frequentes nas colunas de jornal brasileiras.
É um prazer vê-lo descrever todas as nuances que informam as decisões de Estado.
O livro é isso: você é convidado a viajar com Celso Amorim pelos bastidores da diplomacia.
Cotejando o conteúdo das memórias de Amorim com a realidade dos dias de hoje, fica subentendido o “doce triunfo” a que nos referimos no título: o Iraque, onde o Brasil foi um dos países mais vocais na oposição à ocupação dos Estados Unidos, está tão desarticulado que perdeu controle de parte do território para o chamado Estado Islâmico;  a Síria, onde o Brasil também rejeitou intervenção externa, está mergulhada em uma guerra civil que custou a vida de ao menos 200 mil pessoas; na Líbia, a intervenção da OTAN que derrubou Gaddafi — repudiada pelo Brasil — produziu o caos de um país que caminha para a desintegração; no Irã e em Cuba, grosseiramente, os Estados Unidos perseguem o caminho recomendado pelo Itamaraty.
[A produção de conteúdo exclusivo do Viomundo, como este, é bancada pelos nossos assinantes. Torne-se um deles!]
Sobre as críticas recebidas ao longo dos anos, o ex-chanceler adota uma postura olímpica: “Intrigava-me o fato de que aqui [no Brasil], ao contrário [de outros países], as tentativas que fizemos [de participar das grandes questões] eram em geral consideradas uma intromissão desnecessária e perigosa em temas que não nos diziam respeito. Eu me perguntava (e ainda me pergunto) a razão desse apego a uma posição secundária e de dependência, com raizes aparentemente tão profundas em nossos formadores de opinião. [...] De certa forma, é como se temêssemos assumir os ônus, que são uma decorrência natural do crescimento e da maturidade, e preferíssemos viver ao abrigo de uma metrópole, real ou imaginária, ainda que isso custe o abandono de oportunidades e o sacrifício de interesses”.
Traduzindo em português castiço: complexo de viralatas.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

POLÍTICA INTERNACIONAL - A Rússia na mira.

A Rússia na mira


por Paul Craig Roberts

O ataque de Washington à Rússia ultrapassou a fronteira do absurdo e entrou no âmago da insânia.

O novo chefe do US Broadcasting Board of Governors, Andrew Lack, declarou que o novo serviço russo, RT, o qual difunde em múltiplas línguas, é uma organização terrorista equivalente ao Boko Haram e ao Estado Islâmico. Por sua vez, a Standard and Poor's acaba de degradar a classificação de crédito da Rússia ao nível de lixo.

Hoje a RT International entrevistou-me acerca destes desenvolvimentos insanos.

Outrora, quando a América ainda era um país são, a acusação de Lack teria levado a que fosse escorraçado do cargo. Ele teria sido obrigado a demitir-se e desaparecer da vida pública. Hoje, no mundo simulado que a propaganda ocidental criou, a declaração de Lack é tomada a sério. Mais uma ameaça terrorista foi identificada – a RT. (Embora tanto Boko Haram como o Estado Islâmico empreguem o terror, estritamente falando eles são organizações políticas à procura de domínio, não organizações terroristas, mas esta distinção estaria para além da cabeça de Lack. Sim, eu si. Há uma piada que se podia fazer aqui acerca do que falta a Lack
[NT] . Um nome adequado.)

No entanto, seja o que for que possa faltar a Lack, duvido que ele acredite na sua declaração disparatada de que a RT é uma organização terrorista. Então, qual é o seu jogo?

A resposta é que os media prostitutos (presstitute) do Ocidente, ao tornarem-se Ministérios da Propaganda de Washington, criaram grandes mercados para a RT, a Press TV e Al Jazeera. Como cada vez mais povos do mundo voltam-se para estas fontes mais honestas de notícias, declinou a capacidade de Washington de falsificar explicações em causa própria.

A RT, em particular, tem uma grande audiência ocidental. O contraste entre reportagens verdadeiras da RT e as mentiras cuspidas pelos media dos EUA está a minar o controle de Washington da explicação. Isto já não é mais aceitável.

Lack enviou uma mensagem à RT. A mensagem é: contenha-se; parece de informar de modo diferente da nossa linha; pare de contestar os factos tais como Washington declara que são e que os presstitutos relatam; embarque nisso ou se não...

Por outras palavras, o "livre discurso" que Washington e seus estados fantoches da UE, canadiano e australiano apregoam significa: livre discurso para a propaganda e as mentiras de Washington, mas não para qualquer verdade. A verdade é terrorismo, porque a verdade é a principal ameaça a Washington.

Washington preferiria evitar o embaraço de realmente fechar a RT, tal como o seu vassalo do Reino Unido fez com a Press TV. Washington simplesmente quer calar a RT. A mensagem de Lark à RT é:   auto-censurem-se.

Na minha opinião, a RT já não diz tudo (understates) nas suas coberturas e reportagens, como faz Al Jazeera. Ambas as organizações noticiosas entendem que não podem ser demasiado directas, pelo menos não demasiado seguidamente ou em demasiadas ocasiões.

Muitas vezes pergunto-me porque o governo russo permite que 20 por cento dos media russos funcionem como quinta coluna de Washington no interior da Rússia. Suspeito que a razão é que ao tolerar a propaganda descarada de Washington dentro da Rússia, o governo russo espera que algumas notícias factuais possam ser relatadas nos EUA via RT e outras organizações noticiosas russas.

Estas esperanças, tais como outras esperanças russas acerca do Ocidente, provavelmente serão desiludidas no fim. Se a RT for fechada ou assimilada ao padrão dos media presstitutos ocidentais, nada será dito acerca disso, mas se o governo russo acabar com os agentes de Washington, mentirosos descarados, nos media russos, ouviremos para sempre que os malévolos russos suprimem o "livre discurso". Recordem: o único "livre discurso" permissível é a propaganda de Washington.

Só o tempo dirá se a RT decide ser encerrada por contar a verdade ou se somará a sua voz à propaganda de Washington.

AS AGÊNCIAS DE CLASSIFICAÇÃO DE RISCO

O outro ponto da entrevista era a degradação do crédito russo à categoria de lixo.

A degradação feita pela Standard and Poor's é, sem qualquer dúvida, um acto político. Ela prova o que já sabíamos e é que as firmas americanas de classificação são operações políticas corruptas. Recordam a classificação "Investment Grade" que as agências de classificação americanas deram ao lixo óbvio da subprime? Estas agências de classificação são pagas pela Wall Street e, tal como a Wall Street, servem o governo dos EUA.

Uma olhadela aos factos permite estabelecer a natureza política da decisão. Não espere que a corrupta imprensa financeira dos EUA examine os factos. Mas neste exacto momento, nós examinaremos os factos.

Na verdade, colocaremos os factos no contexto da situação da dívida estado-unidense.

De acordo com contadores da dívida (debt clocks) disponíveis online, a dívida nacional russa como percentagem do PIB russo é de 11 por cento. A dívida nacional americana em percentagem do PIB dos EUA é de 105 por cento, cerca de dez vezes mais alta. Meus co-autores, Dave Kranzler, John Williams e eu temos mostrado que, quando medida correctamente, a dívida dos EUA em percentagem do PIB é muito mais alta do que o número oficial.

A dívida nacional russa per capital é de US$1.645. A dívida nacional estado-unidense per capita é de US$56.952.

A dimensão da dívida nacional da Rússia é de US$235 mil milhões, menos de um quarto de um trilião. A dimensão da dívida nacional dos EUA é de US$18 triliões (milhões de milhões), 76,6 vezes maior do que a dívida russa.

Colocando isto em perspectiva de acordo com os contadores da dívida, o PIB dos EUA é de US$17,3 triliões e o PIB da Rússia é de US$2,1 triliões. Assim, o PIB dos EUA é oito vezes maior do que o da Rússia, mas a dívida nacional dos EUA é 76,5 vezes maior do que a dívida russa.

Evidentemente, é a classificação de crédito dos EUA que deveria ter sido degradada para o status de lixo. Mas isto não pode acontecer. Qualquer agência de classificação de crédito que contasse a verdade seria fechada e processada. Não importaria quão absurdas fossem as acusações. As agência de classificação seriam culpadas por serem anti-americanas, organizações terroristas como a RT, etc e tudo o mais, e elas sabem disso. Nunca espere qualquer verdade de qualquer cidadão da Wall Street. Eles mentem como modo de vida.

Segundo
este sítio web , os EUA deviam à Rússia desde Janeiro de 2013 a quantia de US$162,9 mil milhões. Como a dívida nacional russa é de US$235 mil milhões, 69 por cento desta é coberta pelas obrigações de dívida dos EUA para com a Rússia.

Se isto é uma crise russa, eu sou Alexandre o Grande.

Como a Rússia tem haveres suficientes em US dólar para resgatar toda a sua dívida nacional e ainda lhe sobrar um par de centenas de milhares de milhões de dólares, o que é o problema da Rússia?

ECONOMISTAS NEOLIBERAIS, A QUINTA COLUNA

Um dos problemas da Rússia é o seu banco central. Na sua maior parte, os economistas russos são os mesmos neoliberais incompetentes que existem no mundo ocidental. Os economistas russos estão enamorados dos seus contactos com o Ocidente "superior" e com o prestígio que eles imaginam que estes contactos lhes dão. Enquanto os economistas russos concordam com os ocidentais, obtêm convites para conferências no exterior. Estes economistas russos são de facto agentes americanos, quer o percebam ou não.

Actualmente o banco central russo está a esbanjar desnecessariamente os grandes haveres russos de divisas externas para apoiar o ataque ocidental ao rublo. Isto é um jogo de loucos que nenhum banco central deveria jogar. O banco central da Rússia deveria recordar, ou aprender se não souber, o ataque de Soros ao Banco da Inglaterra.

As reservas da Rússia deveriam ser utilizadas para que se retirasse da dívida nacional em aberto, tornando-a então o único país do mundo sem dívida nacional. Os dólares restantes deveriam ser descarregados em acções coordenadas com a China a fim de destruir o dólar, a base de poder do imperialismo americano.

Alternativamente, o governo russo deveria anunciar que a sua resposta à guerra económica que está a ser conduzida contra a Rússia pelo governo em Washington e pelas agências de classificação da Wall Street é o incumprimento dos seus empréstimos a credores ocidentais. A Rússia nada tem a perder quando já está desligada do crédito ocidental devido às sanções estado-unidenses. O incumprimento russo causaria consternação e crise no sistema bancário europeu, o que é exactamente o que a Rússia precisa a fim de romper o apoio da Europa às sanções estado-unidenses.

Na minha opinião, os economistas neoliberais que controlam a política económica russo são uma ameaça muito maior à soberania da Rússia do que as sanções económicas e as bases de mísseis dos EUA. Para sobreviver a Washington, a Rússia precisa desesperadamente de pessoas que não sejam românticas acerca do Ocidente.

Para dramatizar a situação, se o Presidente Putin conceder-me cidadania russa e permitir-me nomear Michael Hudson e Nomi Prins como meus representantes, assumirei o comando do banco central russo e colocarei o Ocidente fora das operações.

Mas isso exigiria que a Rússia assumisse os riscos associados à vitória. Os Integracionistas Atlantistas no interior do governo russo querem a vitória para o Ocidente, não para a Rússia. Um país cheio de traição dentro do próprio governo tem possibilidades reduzidas contra Washington, um jogador determinado.

Outra quinta coluna a operar contra a Rússia a partir de dentro são as ONGs financiadas pelos EUA e Alemanha. Estes agentes americanos mascarados como "organizações de direitos humanos", "organizações de direitos da mulher", "organizações para a democracia" e quaisquer outros títulos politicamente correctos de que se servem e que são incontestáveis.

Ainda outra ameaça à Rússia vem da percentagem da juventude russa que cobiça a cultura depravada do Ocidente. Permissividade sexual, pornografia, drogas, auto-absorção. Estas são as ofertas culturais do Ocidente. E, naturalmente, matar muçulmanos.

Se os russos quisessem matar pessoas por diversão e consolidar a hegemonia dos EUA sobre si próprios e o mundo, eles deveria apoiar a "integração atlantista" e virar as costas ao nacionalismo russo. Por que serem russos se você podem ser servos dos americanos?

Que melhor resultado para os neoconservadores americanos do que terem apoio russo à hegemonia de Washington sobre o mundo? Isso é o que os economistas neoliberais russos e os "integracionistas europeus" apoiam. Estes russos estão desejosos de serem servos americanos a fim de fazerem parte do Ocidente e serem bem pagos pela sua traição.

Quanto fui entrevistado pela RT acerca destes desenvolvimentos, o âncora do noticiário esteve a tentar confrontar as acusações de Washington com osf actos. É espantosos que os jornalistas russos não entendam que os factos nada têm a ver com isto. Os jornalistas russos, aqueles independentes de subornos americanos, pensam que os factos importam nas discussões acerca das acções russas. Eles pensam que os assaltos a civis pelos nazis ucranianos apoiados pelos americanos são um facto. Mas, naturalmente, nenhum de tais factos existe nos media ocidentais. Nos media do Ocidente os russos, e apenas os russos, são responsáveis pela violência na Ucrânia.

A narrativa de Washington é que a malévola intenção de Putin de restaurar o império soviética é a causa do conflito. Esta linha dos media no Ocidente não tem relacionamento com quaisquer factos.

Na minha opinião a Rússia está em grave perigo. Os russos estão a confiar nos factos e Washington está a confiar na propaganda. Para Washington, factos não são relevantes. As vozes russas são escassas em comparação com as vozes ocidentais.

A falta de uma voz russa deve-se à própria Rússia. A Rússia aceitou viver num mundo controlado pelos serviços financeiros, legais e de telecomunicações dos EUA. Viver neste mundo significa que a única voz é a de Washington.

Por que a Rússia concordou com esta desvantagem estratégica é um mistério. Mas em consequência deste erro estratégico, a Rússia está com uma desvantagem.

Considerando as intrusões que Washington tem dentro do próprio governo russo, os oligarcas economicamente poderosos e os empregados do estado com conexões ao Ocidente, bem como os media russos e a juventude russa, com as centenas de ONGs financiadas por americanos e alemães que podem colocar russos na ruas para protestar contra qualquer defesa da Rússia, o futuro da Rússia como um país soberano é duvidoso.

Os neoconservadores americanos são implacáveis. O seu oponente russo está enfraquecido pelos êxitos no interior da Rússia da propaganda ocidental de guerra fria e que retrata os EUA como o salvador e o futuro da espécie humana.

A escuridão do Sauron América continua a propagar-se sobre o mundo.
26/Janeiro/2015
[NT] Jogo de palavras intraduzível.
Ver também:

  • Instrumentalisation des agences de notation , Jacques Sapir

    O original encontra-se em www.paulcraigroberts.org/2015/01/26/russia-cross-hairs-paul-craig-roberts/


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

    POLÍTICA INTERNACIONAL - A auto-destruição da Europa.

    A auto-destruição da Europa

    por EKAI [*]
    1. O anúncio foi feito. O Banco Central Europeu comprometeu-se com sucessivas operações de expansão monetária que atingirão "pelo menos" 1.140.000 milhões de Euros entre Março de 2015 e Setembro de 2016. Uma loucura.

    2. Uma loucura, sobretudo, porque o objectivo desta operação não é lutar contra a deflação e nem impulsionar a reactivação da economia europeia e sim, mais uma vez, ajudar os grandes bancos em dificuldades. Dificuldades que decorrem tanto do sobre-endividamento como do risco acumulado no mercado de derivados financeiros.

    3. Que ninguém se engane pelo facto de se falar unicamente em operações "de aquisição de dívida". O importante é quem é o titular desses activos – e o titular é, quase na totalidade, o sector bancário, que vai ser o receptor da liquidez aportada e o beneficiário desta expansão monetária.

    4. Se quisermos fazer uma ideia do que está a acontecer na Europa, basta contrastar o tão publicitado e mediático Plano Juncker com esta operação de expansão monetária do BCE. Ou, se se preferir, o que as instituições europeias estão dispostas a fazer a favor da economia real e o que – ao contrário – estão a transferir da economia real para o sector financeiro.

    5. A comparação entre estes dois números seria cómica se o que está em jogo – o futuro da Europa – não fosse tão dramático.

    6. O montante do tão publicitado Plano Juncker revela-nos o que a União Europeia está disposta fazer a favor da economia real: 21 mil milhões de Euro no período 2015-2017. Destes, só 5 mil milhões são contribuições directa do Banco Europeu de Investimentos e o resto – 16 mil milhões – são garantias.

    7. Frente a isto, "pelo menos" 1.140.000 milhões de Euros vão ser trasfegados da economia real europeia para o sector financeiro através da expansão monetária do Banco Central de Investimentos.

    8. Depois de tudo o que sucedeu desde o estalar da crise, da ruptura forçada com os países emergentes ou da artificial colocação em marcha do Tratado TTIP com os Estados Unidos, se alguém tivesse alguma dúvida sobre quem detém o poder político na Europa ficaria esclarecido por estes números. Números que confirmam uma estratégia repetida desenvolvida desde 2008, que de forma reiterada e obstinada deu prioridade aos interesses da oligarquia financeira frente à indústria, à economia real e ao emprego.

    9. A quantia de 1.140.000 milhões de Euro corresponde aproximadamente a uns 11,5% do Produto Interno Bruto da Eurozona. Ou seja, a aproximadamente um mês e meio de rendimento de todos os europeus que se retirada da economia real e se entrega ao sector bancário.

    10. A decisão reflecte, por um lado, a desesperada situação do sector financeiro europeu, repetidamente advertida pelo EKAI Center. Reflecte também o pânico da oligarquia central perante o risco acumulado na grande banca e após o esgotamento da capacidade da Reserva Federal dos Estados Unidos – e, posteriormente, do Banco do Japão – para continuar a alimentar a bolha especulativa. E revela, naturalmente, a intolerável submissão dos meios de comunicação e de uma grande parte da classe política europeia e sua indiferença frente aos interesses dos cidadãos.

    11. Frente a esta situação, é claro o que se deveria fazer que é, mais ou menos, o contrário do que agora se faz:
  • Enfrentar o quanto antes a reestruturação interna da grande banca, ao mesmo tempo que se libertam as cargas excessivas de endividamento dos governos e das empresas eficientes e viáveis.

  • Canalizar qualquer expansão monetária rumo à economia real e não ao sector financeiro.

  • Assegurar a relação comercial, industrial e de infraestruturas com os países emergentes.

  • Renovar a aposta da Eurozona na formação, no investimento e na inovação tecnológica.
  • 12. A Europa está a destruir a sua economia real, através de uma série contínua de estratégias e decisões condicionadas pelos interesses a oligarquia financeira. Tudo parece indicar que só uma ruptura política democrática nos pode salvar do desastre. Mas não estamos a falar de um processo de décadas. A mudança geopolítica acelera-se e tudo leva a pensar que os próximos anos ou meses serão decisivos.
    Acerca da QE ver também:
  • O BCE, a QE e a fuga à estagnação , Michael Roberts
  • A QE do BCE , Jacques Sapir
  • Declarações de Mario Draghi
    [*] Empresa de consultoria do País Basco.

    O original encontra-se em
    https://pt.scribd.com/doc/253603591/EUROPA-SE-AUTODESTRUYE


  • Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

    POLÍTICA INTERNACIONAL - A ditadura amiga.

    O “exército islâmico” dos Estados Unidos.

    Autor: Fernando Brito
    saudita
    Recebo, do meu velho professor Nílson Lage, um interessante resumo das práticas do governo da Arábia Saudita, maior aliado (militar, inclusive) dos EUA no Oriente Médio.
    Apenas sete pontos, que não causam escândalo na mídia mundial.
    Todos práticas oficiais do Rei Abdullah, pranteado pelo Ocidente como grande governante.
    1. Nada de eleições, nada de partidos, nada de oposição.
    2. Decapitação, amputação de membros ou chicoteamento público de acusados de crimes, “infiéis” ou opositores políticos e religiosos.
    3. Nepotismo oficial, com bons empregos e renda garantidos para os 7.000 parentes da dinastia Saud.
    4.O poder passa de pai para filho ou de irmão para irmão e as brigas de família levaram até a uma revolta de sobrinho e um assassinato real “familiar”.
    5. A tortura é legal, na polícia e na Justiça. Tanto que, em 2013, um homem foi condenado a ficar paraplégico como punição.
    6. 5. As mulheres não têm direitos, até pouco tempo eram “legalmente” espancadas e até dirigir um automóvel lhes é proibido.
    7. Financia, nas palavras de ninguém menos que Hillary Clinton, o terrorismo internacional: “Al Qaeda, Taleban, LeT [o grupo Lashkar-e-Taiba, sediado no Paquistão] e outros grupos terroristas”, disse ela.
    Alguma diferença com o “Estado Islâmico” que os EUA e a Europa bombardeiam, literalmente, nas areias da Síria?
    Só o fato de serem os melhores amigos dos EUA.

    sábado, 17 de janeiro de 2015

    POLÍTICA INTERNACIONAL - Quem manda na Europa?

    Ocidente x Rússia, ou quem manda na Europa?

    A Otan e a União Europeia (UE) estão à procura de cooperação com a Rússia. Pelo menos, é isso o que se desprende das declarações feitas pela chanceler alemã, o secretário-geral da Otan e alguns altos funcionários da UE. Até agora, aliás, a distância entre as palavras dos políticos europeus e os seus atos reais mantém-se enorme. Quem, no entanto, ganhará a batalha de ideias na Europa: os "falcões" ou as "pombas"?

    Igor Siletsky, na Voz da Rússia



    Secretário-geral da Otan, Jens StoltenbergSecretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg
    A Aliança Atlântica não coloca o confronto com a Rússia na base da sua política; ao contrário, ela deseja cooperar com Moscou. Essa declaração assaz inesperada foi emitida pela chanceler da Alemanha. Angela Merkel, vejam só, se pronunciou a favor de uma estrita observância do acordo Otan-Rússia, o qual proíbe concentrar forças militares substanciais no território das antigas repúblicas soviéticas.

    O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, mostrou-se totalmente solidário com a chanceler alemã. Mais tarde, o coro de amantes da paz foi completado ainda pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk. Segundo este último, a política externa da UE não é dirigida contra Moscou.

    Todos estas declarações, inesperadamente pacíficas, não batem certo, porém, com as atuações dos membros da aliança e da UE. Aliás, as declarações em si foram feitas, em geral, com reservas: tanto a senhora Merkel como os senhores Stoltenberg e Tusk ressaltaram que o prioritário para a Otan e a União Europeia é "apoiar os vizinhos orientais em seu caminho para a instituição de Estados democráticos". É supostamente para proteger esses "aliados orientais" que a Otan está criando a ritmos acelerados unidades de reação rápida.

    Tampouco há apaziguamento na Ucrânia. Navios canadenses descarregam cargas militares em Odessa. Já não são só os EUA mas também a França e Polônia que prometem ajuda militar e financeira ao exército ucraniano.

    Moscou, entretanto, já faz muito tempo se acostumou a esse tipo de diplomacia tão específica dos parceiros ocidentais. Serguei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, destacou recentemente.

    "Em setembro, o pacote de sanções da UE foi aprovado na manhã do dia seguinte à assinatura dos acordos de Minsk. Uma decisão bastante específica. A então liderança de Bruxelas violou os termos acordados, o que reflete as atitudes dos nossos colegas ocidentais.

    "A propósito, as sanções setoriais foram anunciadas pelo Ocidente sob o pretexto do desastre do Boeing malaio. Mas agora os nossos colegas ocidentais têm esquecido completamente este problema, e é a Rússia sozinha que lembra que seria bom conhecer, pelo menos, os resultados intermédios da investigação".

    É interessante que os políticos europeus exortem a Rússia a cumprir os acordos de Minsk. Mas Moscou tem afirmado em repetidas ocasiões que não tem nada a ver com os eventos no sudeste da Ucrânia, não é uma parte do conflito interno ucraniano e está interessada em que os vizinhos superem a crise política e econômica.

    Na verdade, é justamente o apoio do Ocidente que leva Kiev a intensificar as hostilidades no sudeste do país. E isso acontece apesar de as autoridades ucranianas já há muito não terem unidade no que diz respeito à operação militar no Donbass.

    O problema, talvez, consista em que o "chefe" real que deu início a todas essas complicações não está em Kiev nem mesmo em Bruxelas. Se alguém tem dúvidas a este respeito, os últimos eventos deveriam dissipá-las.

    Estes dias, o bilionário norte-americano George Soros deu um pulo até Kiev. O reconhecido patrocinador financeiro das "revoluções coloridas" decidiu, aparentemente, inspecionar como a Ucrânia "protege a Europa contra a Rússia." Diga-se a propósito que é precisamente Soros quem extorque do FMI, Banco Europeu de Desenvolvimento e outras instituições financeiras os empréstimos para a Ucrânia.

    Ora, o toque final a esclarecer todo o quadro foi dado nesta quinta-feira (15) pelo primeiro-ministro do Reino Unido e o presidente dos Estados Unidos. Numa carta aberta conjunta ao jornal The Times, David Cameron e Barack Obama afirmam que vão continuar exercendo pressões sobre a Rússia para resolver a crise na Ucrânia. De que forma, acaso, as pressões sobre Moscou deverão fortalecer a democracia ucraniana, isso é silenciado pelos autores.

    No entanto, ao que parece, a Europa está cada vez mais inclinada a uma política independente em relação a Moscou em vez da ditada por Washington. A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, tem proposto que os países da UE retomem a cooperação com a Rússia.

    Conforme relatos da mídia, os ministros das Relações Exteriores da UE, reunidos em 19 de janeiro em Bruxelas, "poderão debater a renovação de esforços conjuntos com a Rússia para resolver os problemas na Síria, Iraque, Líbia, Irã e Coreia do Norte, a propagação da febre ebola e a questão palestina". Há menção também ao objetivo comum de promover o livre comércio "de Lisboa a Vladivostok", assim como à sugestão de expandir o comércio com a Rússia e a União Econômica Eurasiática.

    sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

    POLÍTICA INTERNACIONAL - Reatamento Cuba/Estados Unidos.


    18.12.2014


    Notícia com vídeo relacionadoRepercussão mundial: 50 anos demonstraram que o isolamento entre Cuba e EUA não funciona





    Marcela Belchior

    Adital

    Após anunciar a retomada das relações entre Cuba e Estados Unidos, os dois países devem adotar uma série de medidas para ampliarem o comércio e o fluxo de pessoas entre os dois países. Nos próximos meses, os estadunidenses deverão instalar Embaixada em Havana, como parte das ações que põem fim à ausência oficial do país na ilha. "Esses 50 anos demonstraram que o isolamento não funciona”, disse o presidente estadunidense, Barack Obama. "É hora de ter uma nova estratégia”, acrescentou o mandatário dos EUA. "Devemos aprender a arte de conviver, de forma civilizada, com nossas diferenças”, afirmou o presidente cubano Raúl Castro.

    Reprodução
    Mandatários de Cuba e EUA anunciaram retomada da diplomacia em discursos na televisão

    Em discurso oficial de anúncio da retomada das relações diplomáticas, transmitido pela televisão em cadeia nacional, Castro afirmou que o processo se deu a partir de um "diálogo respeitoso”, baseado na "igualdade soberana”, para tratar os mais diversos temas de forma recíproca. "Com a proposição de discutir e resolver as diferenças mediante negociações, sem renunciar a um só de nossos princípios”, disse. "O heroico povo cubano tem demonstrando, frente a grandes perigos, agressões, adversidades e sacrifícios, que é e será fiel aos nossos ideais de independência e justiça social”, destacou o socialista.
    Para Obama, a política praticada entre os dois países há quase 53 anos está antiquada e não contribui para avançar em ambos os interesses. "Através dessas mudanças, temos a pretensão de criar mais oportunidades para o povo estadunidense e cubano e começar um novo capítulo entre as duas nações das Américas”, afirmou, em discurso oficial também divulgado pela televisão. "Estamos separados por pouco mais de 90 quilômetros, mas, ano após ano, uma barreira ideológica e econômica endureceu entre nossos países. No entanto, a comunidade cubana exilada nos EUA fez enormes contribuições ao nosso país — na política, nos negócios, na cultura e nos esportes”, reconheceu o capitalista.
    O Papa Francisco foi crucial na mediação entre Cuba e EUA, funcionando como personagem-chave no diálogo entre as duas nações. Segundo o Vaticano, o Sumo Pontífice escreveu, durante os últimos meses, a Obama e Castro, "convidando-os a resolverem questões humanitárias de comum interesse, como a situação de alguns detidos”. Além disso, o Vaticano recebeu, em outubro passado, delegações de ambos os governos, sendo o único líder estrangeiro a participar das negociações.
    Em nota divulgada pela Santa Sé, Francisco disse sentir prazer pelo restabelecimento das relações, "a fim de superar, pelo interesse dos respectivos cidadãos, as dificuldades que marcaram sua história”. Ambos os presidentes, em seus discursos de anúncio da retomada das relações, agradeceram pelo envolvimento do Santo Padre na facilitação do diálogo.

    Reprodução
    Papa Francisco foi o único líder estrangeiro a participar das negociações

    Principais medidas político-econômicas
    Um extenso conjunto de mudanças para normalizar as relações entre os dois países já foi iniciado com a permuta entre presos políticos de ambas as nações. Nesta quarta-feira mesmo, 17 de dezembro, já houve a libertação de Antonio Guerrero Rodríguez, Gerardo Hernández Nordelo e Ramón Labañino Salazar, três dos cinco cubanos que ainda se encontravam presos em território estadunidense. Os três já estão em solo cubano. O Governo de Cuba, por sua vez, libertou o estadunidense Alan Gross, sentenciado a 15 anos de prisão, acusado de planejar a instalação de uma rede ilegal de telecomunicações na ilha socialista.

    Granma
    Raúl Castro recebe agentes cubanos presos que retornam ao país. Foto: Granma


    Os passos da reaproximação devem ser graduais. Daqui para frente, o Governo dos EUA deve retirar o nome de Cuba da lista de países que apoiam grupos terroristas e, mesmo ainda estando em vigor a lei de 1995, que impõe estritas sanções à ilha, se encaminha para flexibilizar as restrições de viagem e comércio. Estão previstas também ações para que empresas de tecnologia estadunidenses façam negócios para atuarem na infraestrutura de Internet da ilha.
    Os EUA têm defendido o que consideram "maiores liberdades individuais e reformas democráticas” na ilha. No que compete ao Parlamento dos EUA, ainda não há perspectivas para que medidas complementares contribuam para o vínculo entre as partes, o que também pode mudar em um futuro próximo.

    Reprodução
    Alan Gross desembarca nos EUA após 5 anos preso em Cuba

    Repercussão e expectativas
    O jornal The New York Times (NYT), diário de maior prestígio da mídia comercial nos Estados Unidos, publicou, nesta quarta, 17, que a retomada de relações é "um passo significativo que marca o fim de um dos capítulos mais desacertados da política exterior estadunidense”. Já o jornal Granma, periódico oficial do Partido Comunista de Cuba, avaliou a reabertura da diplomacia como uma medida de justiça, destacando o retorno dos cidadãos cubanos à pátria. "Voltamos!”, manchetou na capa da edição de ontem.


    Capa do jornal do Partido Comunista de Cuba, edição de 17 de dezembro de 2014

    "Fidel [Castro, ex-presidente de Cuba] disse ‘voltarão’ e assim ocorreu. Esta foi uma batalha de milhões. O povo cubano sente uma grande alegria porque se restabeleceram as relações diplomáticas com os EUA na base do respeito mútuo e sem sacrificar nenhum princípio soberano”, destacou Yolanda Ferrer, presidente da Comissão de Relações Internacionais do Parlamento cubano, referindo-se ao retorno dos três presos cubanos ao país natal.
    "Essa notícia é resultado da unidade que conseguimos (...). Essa decisão deve repercutir no mundo e marcará um antes e um depois em Cuba e na América Latina”, analisou o ministro das Indústrias cubano, Salvador Cruz. "É a forma que os EUA tiveram de reconhecerem uma série de erros de sua política direcionada a Cuba e, portanto, a necessidade de iniciar um novo tipo de política e, para nós, isso é um desafio também, porque mudam as regras do jogo, mas não muda o jogo”, ressaltou o historiador cubano Eduardo Cuevas.
    Durante evento na Argentina, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, um dos maiores parceiros políticos de Cuba, destacou que, agora, se inicia uma nova etapa da história do país caribenho. "É uma nova história moral, da ética, da resistência, da lealdade aos valores. É a história de Fidel, do povo cubano”, disse. "O presidente Obama não pode seguir insistindo em uma política de tratar de levar Cuba ao colapso. É uma retificação histórica”, acrescentou Maduro.
    Em declaração à imprensa, a presidenta do Brasil reeleita, Dilma Rousseff, afirmou que jamais imaginou viver esse momento histórico. "Nós, lutadores sociais, nunca imaginávamos, jamais imaginamos viver esse momento histórico. Quero cumprimentar o presidente Raúl Castro, o presidente Barack Obama e também o Papa Francisco”, disse a mandatária.
    Entenda o conflito histórico
    O embargo econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos se iniciou em 07 de fevereiro de 1962, sendo convertido em lei em 1992 e 1995, além de ampliado em 1999 pelo então presidente estadunidense, Bill Clinton, proibindo as filiais estrangeiras de companhias estadunidenses de comercializarem com Cuba. A medida, em vigor por quase 53 anos, funcionou como um dos mais duradouros bloqueios econômicos na história contemporânea. O embargo estava formalmente condenado pelas Nações Unidas, que, nos últimos anos, aumentou a pressão mundial pelo fim do bloqueio.
    O processo de rompimento entre os países foi marcado, inicialmente, em maio de 1958, quando os EUA suspenderam a ajuda militar oficial ao governo do então mandatário cubano, Fulgêncio Batista, em um episódio que ficou conhecido com o "embargo militar a Cuba”. Na época, a guerrilha entre as forças do ditador e os revolucionários de Fidel Castro já havia começado.

    Reprodução
    Fidel com o presidente soviético Nikita Khrushchov, que governou a URSS de 1953 a 1964


    Em julho de 1960, em resposta às nacionalizações, foi reduzida a quota de importação de açúcar cubano pelos EUA, que passou a ser comprado pela antiga União Soviética. Em resposta a esse alinhamento de Cuba com os soviéticos em plena Guerra Fria, o presidente John F. Kennedy ampliou as restrições comerciais em 07 de fevereiro e novamente em 23 de março de 1962.

    quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

    POLITICA INTERNACIONAL - Relações entre Cuba e EUA.

     

    Entenda o que muda em Cuba e EUA com a nova política anunciada hoje entre os dois países



    Reaproximação histórica após 53 anos terá: abertura de embaixada em Havana, remoção de Cuba de 'lista negra' e mais permissão para compra de charutos.

    A aproximação histórica entre EUA e Cuba, anunciada nesta quarta-feira (17/12) pelos presidentes dos países, traz mudanças importantes no setor diplomático entre ambas as nações. Para além dos efeitos simbólicos do anúncio, a nova política trará consequências práticas para a economia e a diplomacia entre os dois países. Desde a abertura de uma embaixada em Havana até a permissão para que cidadãos norte-americanos comprem rum e charutos cubanos em maior quantidade.
    .
    Agência Efe

    Relações diplomáticas entre Havana e Washington foram interrompidas em janeiro de 1961.

    Abaixo, veja a lista das mudanças anunciadas por Barack Obama:

    Diplomacia:

    secretário de Estado norte-americano, John Kerry, foi instruído para retomar imediatamente os diálogos com Cuba para reatar relações diplomáticas, interrompidas em janeiro de 1961;

    reabrir embaixada norte-americana em Havana para "trocas de alto nível";

    manter diálogos com Cuba sobre: imigração, direitos humanos, combate às drogas;

    EUA participarão da reunião da Cúpula das Américas em 2015, evento diplomático da OEA (Organização dos Estados Americanos) para o qual Cuba recebeu convite expresso do Panamá; e,

    EUA revisarão inclusão de Cuba na lista de países que promovem terrorismo, status que a ilha acumula desde 1982.

    Viagens:

    flexibilização das restrições a viagens entre os países: mais vistos serão disponibilizados a famílias, funcionários de governos, jornalistas, pesquisadores, grupos religiosos, ativistas humanitários e outros.

    Economia:

    mudanças nas políticas econômicas dos departamentos do Tesouro e Comércio com relação a Cuba;

    a permissão para o envio trimestral de remessas financeiras de indivíduos nos EUA para Cuba serão ampliadas de US$ 500 para US$ 2 mil;

    mais produtos dos EUA receberão autorização para serem exportados para Cuba, como material de construção civil e equipamentos de agricultura;

    cidadãos norte-americanos poderão obter licença para importar bens no valor de até US$ 400, mas não mais do que US$ 100 em bebidas alcóolicas e tabaco;

    empresas dos EUA terão permissão para abrir contas em instituições financeiras cubanas;

    cartões de crédito e débito de bandeiras norte-americanas poderão ser usados por estrangeiros em Cuba; e,

    empresas de telecomunicação e internet dos EUA deverão ter mais liberdade para operar na ilha e poderão construir estruturas para intercambiar informação entre Cuba e EUA.

    quinta-feira, 6 de novembro de 2014

    POLÍTICA INTERNACIONAL - Chuvas e trovoadas.


    CHUVAS E TROVOADAS
     
    JOSÉ LUÍS FIORI
     
    “A subida da ladeira exige poder,  capacidade de inovação e grande mobilidade e inciativa política, a serviço de uma estratégia de movimento e de enfrentamento global das transformações que estão em curso no mundo, e cujo futuro está inteiramente aberto e indeterminado”
    J.L. FIORI, “ A subida da ladeira”, Valor Econômico, 27 de agosto de 2014
     
     
      Para calcular o futuro imediato Brasil, dentro do sistema internacional, é bom partir de um dado de realidade: o avanço da radicalização ultraconservadora da sociedade e do establishment norte-americano. Um movimento profundo, quase telúrico, cada vez mais religioso, fanático e agressivo, dentro da sociedade,  mas com uma repercussão cada  vez mais messiânica e intervencionista, no campo da política exterior dos EUA. Como se fosse um tisunami que avança em ondas sucessivas, cada vez maiores, desde o início da década de 80, com a vitória do projeto de “restauração conservadora” de Ronald Reagan (1982-89), e com sua cruzada anticomunista contra o “império do mal”. Em seguida, depois da queda do Muro de Berlim e do fim  da  Guerra Fria,  o governo republicano de George H.W. Bush (1989-93) reformulou a estratégia conservadora,  propondo o projeto do novo “século americano”, junto com a defesa do bloqueio ou destruição preventiva, de novas potencias que ameaçassem o unilateralismo dos EUA. Durante a década de 90, o governo democrata de Bill Clinton (1993-2001)reformulou e empacotou esta mesma estratégia com a ideologia da universalização da democracia, do mercado e da ética “ocidental”. E foi em nome desta ideologia que Bill Clinton promoveu  a  ocupação militar da Europa do Leste, pela OTAN, e mais 48 intervenções militares ao redor do mundo
    [1].  Mas não há dúvida que os Atentados de 11/09 de 2001 provocaram um salto qualitativo nesta trajetória, durante o novo governo republicano, de George W. Bush (2001-09).  Hoje existem muitos especialistas militares, dentro e fora dos EUA, que consideram que os atentados de 2001 foram um típico inside job, concebido e pilotado pelo que eles chamam de Deep State norte-americano[2]. Mas seja lá como tenha sido feito, suas consequências foram definitivas, dentro e fora dos EUA: colocaram o núcleo duro do ultraconservadorismo no comando da política externa americana, sob a liderança de Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz; e traçaram uma nova fronteira entre o “mundo do bem” e o “eixo do mal”, iniciando 14 anos de guerra contínua dentro do Grande Oriente Médio, com a demonização progressiva do mundo islâmico, junto da opinião publica ocidental.  Mais recentemente,  a volta dos democratas ao governo,  com  Barack Obama, em 2009, não alterou o rumo das coisas, porque seus projetos pessoais de um “multilateralismo atenuado”,  com aproximação da Rússia e a pacificação negociada da Palestina, foram atropelados de dentro de sua própria administração democrata.  Pelos mesmos setores que promoveram a rebelião tutelada da Praça Maiden, e se utilizaram do “atentado aéreo” da Ucrânia, para consolidar a   fronteira geopolítica e militar que volta a separar separa a Europa, da Rússia Ortodoxa. Ao mesmo tempo em que transformavam o sudeste asiático na região mais militarizada do mundo, à sombra da nova “fronteira chinesa”, anunciada por Hillary Clinton, na condição de chefe do Departamento de Estado do governo Obama.
         Resumindo:  nestes últimos 24 anos,  o projeto da “globalização americana” foi ficando cada vez mais conservador, agressivo e intervencionista,  e apesar disto, o “multilateralismo” se robusteceu com a expansão econômica e militar de algumas velhas potências regionais, como Alemanha e Rússia, e de algumas novas potências, ainda mais complicadas, por serem também “polos civilizacionais” - com é o caso da China, Índia e Iran  -  com seus  próprios “sistema de verdade”, e sua visão ética autônoma do individuo, da sociedade e do mundo. 
        Agora bem, por quê e quando o Brasil entrou nesta história, e nesta “linha de tiro”?  Do nosso ponto de vista, graças a três decisões cruciais da sua politica externa:
    i)              quando o Brasil  decidiu ampliar e transformar um projeto convencional de integração econômica (MERCOSUL),  num bloco politico sob sua liderança,  com o objetivo  de impedir toda e qualquer intervenção externa na América do Sul. Alcançando pleno sucesso ao bloquear a tentativa da OEA envolver-se na crise política da Venezuela, no primeiro semestre de 2014; 
    ii)            quando o Brasil decidiu se aliar à China, Índia e Rússia, para transformar um mero “acrônimo mercantil” (BRICS), no principal bloco de poder internacional  que se opõe hoje ao projeto unilateralista da “globalização americana”. Sobretudo, depois VI Cúpula BRICS de Fortaleza, quando o Brasil promoveu  o encontro e a convergência de agendas, dos países da UNASUL com os governantes da China, Rússia e  Índia;
    iii)           e, finalmente, quando o Brasil  decidiu abandonar sua tradicional “zona de conforto” diplomático,  no Oriente Médio, separando-se e se opondo ao eixo estratégico EUA-Israel, ao condenar veementemente a ofensiva miliar israelita na Faixa de Gaza, de agosto/setembro de 2014.
     
        Salvo engano, foi esta mudança qualitativa da política externa brasileira que provocou a intensificação e a radicalização dos ataques conservadores externos, e à sua tentativa de intervenção direta ou indireta nas últimas eleições presidenciais do mês de outubro. Mas não há que enganar-se: a ofensiva não vai parar, e deve aumentar ainda mais, depois que os ultraconservadores - democratas e republicanos - se desfaçam de Barack Obama. No horizonte internacional do Brasil, portanto, deve se  prever “chuvas e trovoadas”.
     
    Novembro de 2014

    segunda-feira, 4 de agosto de 2014

    POLÍTICA INTERNACIONAL - Sanções contra a Rússia.



    Sanções contra a Rússia são "gol contra" da União Europeia


    Os Estados Unidos decidiram, a União Europeia obedeceu e agora de um lado e de outro do Atlântico prestam-se contas às possíveis reações que estão na mão do presidente russo, demonstrando-se assim que os cálculos anunciados à opinião pública sobre as sanções contra Moscou “são números sem pés nem cabeça, sofrem de variáveis impossíveis de calcular”, segundo economistas das instituições europeias.

    Por Pilar Camacho, de Bruxelas, e Norman Wycomb, de Londres para Jornalistas sem Fronteiras


    Global Trade Magazine
    Os Estados Unidos decidiram e a União Europeia obedeceu, para impor mais sanções contra a Rússia. Os Estados Unidos decidiram e a União Europeia obedeceu, para impor mais sanções contra a Rússia.
    “Estes políticos europeus que se consideram expoentes da tecnocracia nem ao menos sabem tirar proveito daquilo que são normas básicas tecnocráticas, ou seja, um balanço objetivo da realidade sem ceder ao que parecem ser conveniências políticas”, acusa um quadro da Comissão Europeia “alarmado” – foi o estado de espírito que escolheu – perante o pacote de anunciadas sanções contra a Rússia.

    Também nas empresas onde pontificam os chamados “analistas de mercados” são muitas as vozes que, por exemplo numa alusão a declarações do ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, dizem que “para fazer omeletes destas com estes ovos mais valia guardar jejum”.

    Leia também:
    Abate do avião malaio derrubou também o governo da Ucrânia

    Moscou acredita que Europa perderá mais com as sanções
    EUA e União Europeia lançam mais sanções e ameaças contra Rússia
    Putin adverte a Otan contra provocações e ingerência na Rússia

    São muitas as dúvidas, tal como as variáveis impossíveis de precisar, sobre o alcance das sanções que, depois de uma pressão interminável de Obama, a União Europeia acabou por impor à Rússia.

    “As sanções partem de um pressuposto por comprovar e que tem contra ele versões muito mais plausíveis, que existem apesar de a comunicação social e os dirigentes tentarem escondê-las”, diz o quadro da Comissão Europeia. “Foram decididas para castigar a Rússia por ter derrubado o avião da Malaysian Airlines, uma certeza que nada tem de certa, está por provar, é posta em causa por informações elementares e choca até com o simples fato de o governo ucraniano ter se demitido, o que, por muito que se disfarce, traz água no bico”, acrescentou.

    Salomon Vince, analista belga de direito internacional, declarou a sua “surpresa por tanta irresponsabilidade demonstrada pelos dirigentes europeus”. Diz que “já existem elementos suficientes para concluir que a gestão dos assuntos internacionais com base em mentiras, guerra e sanções arbitrárias pode conduzir-nos a um conflito de proporções e consequências incalculáveis”.

    “Mentiu-se no Iraque, na Líbia, na Síria, mente-se por causa de Gaza e agora tomam-se decisões sobre a tragédia na Ucrânia com base em supostas certezas, enquanto se pede um inquérito internacional”, diz Vince. “Inquérito para quê, se já sabem o que se passou? Ou então, porquê as sanções quando os resultados de um inquérito podem forçá-los a dar o dito por não dito”; argumenta o jurista.

    Lawrence Samuels, economista londrino, explica que os números apresentados por Bruxelas sobre os custos das sanções “não têm qualquer base técnica, são previsões marteladas para dizer que as medidas até favorecem a economia europeia quando a verdade é que se Putin quiser responder à letra vamos ter muitos europeus a tilitar no próximo Inverno. Misturam-se desejos com realidades, lançam-se números ao ar para entreter a opinião pública, mas a verdade é que ninguém pode garantir seriamente que as sanções provocam 10 bilhões de danos à Rússia e apenas cinco bilhões à União Europeia como foi anunciado”, diz Lawrence Samuels. “Em linguagem futebolística”, conclui o economista, “estas sanções podem muito bem ser um gol da União Europeia na própria baliza.”

    “Nesta matéria é um erro crasso obedecer aos Estados Unidos”, afirmam técnicos do Conselho Europeu. “A economia norte-americana não está exposta à economia russa, enquanto a da União Europeia está exposta e até contaminada em setores como mercados financeiros e a energia. Os europeus vão pagar uma fatura destas medidas cuja amplitude está dependente das opções de Putin, o que deveria ser uma situação a evitar de acordo com o senso mais comum”, sublinha um economista do Conselho.

    “Não foi levado em conta”, acrescenta, “que a Rússia tem diversificado a sua economia, que as apostas na China e outras regiões da Ásia, incluindo a Península da Coreia, têm sido bem sucedidas, pelo que se quiser dar uma lição à Europa durante algum tempo será capaz de o fazer. Com a agravante”, acrescenta o economista, “de essa reação reforçar a vaga nacionalista interna, elevando ainda mais o peso de Putin”.

    Fonte: Jornalistas sem Fronteiras