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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

ECONOMIA - Sistema financeiro está drenando o Brasil.

O sistema financeiro está drenando o Brasil


Em mais um encontro da série Conjuntura Econômica do Brasil, a Fundação Friedrich Ebert, o Brasil Debate e a Plataforma de Política Social promoveram um debate, na última quarta-feira (2.12), com a presença dos economistas Ladislau Dowbor (PUC-SP) e Fernando Nogueira da Costa (Unicamp). Em discussão, o processo de financeirização da economia brasileira e as ideias centrais do artigo de Dowbor, “Resgatando o potencial financeiro do Brasil”.
A reportagem foi publicada por Carta Maior, 13-12-2015.
Publicado pela Fundação Friedrich Ebert, o estudo aponta as distorções do sistema financeiro e demonstra como os abusivos juros bancários, juros dos cartões de crédito e do cheque especial, crediários e alta taxa Selic vêm travando a demanda das famílias, a expansão da atividade empresarial e a capacidade de investimento do Estado em infraestrutura e políticas sociais.

A partir de dados, de várias fontes oficiais,
Dowbor iniciou sua apresentação explicando como a demanda das famílias vem sendo travada pela intermediação financeira. “Hoje, 46,5% da renda familiar, quase a metade, está comprometida com o pagamento de dívidas; em 2005, o índice era de 19,3%. Como é possível dinamizar a demanda desta forma? ”, questionou.

Considerando a média ao ano dos juros cobrados sobre a pessoa física, Dowbor explicitou as causas do alto endividamento: “em média, ao ano, são cobrados juros bancários na ordem de 103% para a pessoa física; crediários a 72,33% que dobram o preço do produto e reduzem a capacidade de compra do consumidor; juros exorbitantes na faixa, em média, de 238,67% nos cartões de crédito e a 159,7% no cheque especial”.
O vale tudo do sistema financeiro
Os juros abusivos também estão travando a expansão das atividades empresarias no país. Dowbor demonstrou que longe dos índices praticados para a pessoa jurídica na zona do euro - a 2,20% ao ano -, a taxa média cobrada no Brasil chega a 50,06% ao ano: 24,16% para capital de giro e 34,80% para desconto de duplicatas. “Tocar uma empresa nessas condições não é viável”, avaliou, destacando que diante de juros altíssimos e da queda da demanda, o empresário prefere aplicar sua receita em títulos da dívida pública, com risco zero e liquidez total.

Além disso, as sucessivas altas da taxa Selic elevaram o custo da
dívida pública a um patamar de 5% do PIB brasileiro. Segundo o economista, neste ano, cerca de R$ 400 bilhões serão transferidos dos nossos impostos diretamente para os grupos financeiros, representando uma esterilização significativa da capacidade de investimento do governo federal em infraestrutura e políticas sociais do país.

“Travadas a demanda, a capacidade de expansão das empresas e de investimentos do poder público, a economia para”, explicou Dowbor. A este quadro, complementou, soma-se uma evasão fiscal na ordem de 8,6% do PIB, mais de R$ 500 bilhões em desvios; além das distorções do
sistema tributário brasileiro que levam os mais pobres a pagarem proporcionalmente mais do que os ricos.
Por que a economia travou?

Dowbor também chamou a atenção para o fato de que mesmo nas compras à vista, com cartão, os bancos se apropriam de 5% na modalidade crédito e 2% na modalidade débito, um valor significativo de recursos destinado aos cofres dos bancos. De uma forma geral, por meio dessa intermediação que afeta a capacidade de consumo, produção e os investimento públicos, “os recursos que deveriam ser reinvestidos no fomento da economia são desviados para a especulação financeira e escapam, em grande parte, dos impostos”, avaliou.

Uma drenagem realizada sob a conivência da imprensa que, a serviço dos intermediadores financeiros, incensa o pânico da inflação na população a cada tentativa de redução dos juros, lembrou Dowbor. “Na TV, eles martelam exatamente o que os intermediários financeiros esperam da inflação”. O economista também destacou que “o Brasil não é uma ilha”, portanto, não sofre isolado, nem sozinho, as consequências das distorções do
sistema financeiro internacional. “Entre os 147 grupos que controlem 40% do mundo corporativo do planeta, 75% são instituições financeiras”.

Sob a premissa de que não se trata de ser contra os bancos, mas sim de torna-los vetores de desenvolvimento, Dowbor vem defendendo a redução progressiva da taxa Selic para obrigar os bancos a procurarem aplicações alternativas, estimulando as iniciativas de empreendedores e impedindo o escoamento dos recursos públicos. Ele também defende a redução das taxas de juros ao tomador final da rede de bancos públicos, para introduzir mecanismos de mercado no sistema de intermediação financeira.

A brutal concentração financeira

“É impossível separar capitalismo de capital financeiro”, afirmou Fernando Nogueira da Costa, já no início da sua apresentação, ao destacar que a alavancagem financeira pode ser utilizada, também, na garantia de políticas sociais a custos mais baixos. Vice-presidente da
Caixa Econômica Federal, entre 2003 e 2007, o economista analisou o processo de bancarização – acesso popular a bancos e, portanto, a créditos – dos últimos dezesseis anos no país, alertando para a persistência da concentração financeira.

Entre 1999 e 2015, o número de contas bancárias no Brasil passou de 75 milhões para 209 milhões, uma expansão de 179%, permitindo que os ‘sem-contas’ ingressassem no sistema de créditos. No entanto, explicou o economista, essa expansão não significou um enriquecimento financeiro popular. No período, a média por conta bancária passou de R$ 3.288,55 para R$ 8.378,80 em valores nominais. Além disso, das 130 milhões de contas de poupança existentes no Brasil, 74 milhões apresentam, na média, R$ 13,45 centavos.

Do outro lado da moeda, ponderou Costa, existem no Brasil 726.725 milionários, 2,5% da população que concentram 42% da riqueza, com ganhos mensais acima de 40 salários mínimos. Dentro desse grupo, estão 57.507 clientes Private Banking que possuem renda percapita média de R$ 12 milhões. “É para esses 5 mil que os ignorantes úteis estão batendo panelas vazias”, ironizou.

Apresentando um comparativo sobre poder de salário do trabalhador entre os anos FHC e anos Lula e Dilma, Costa demostrou que no primeiro período, entre 1994 e 2002, o poder do salário sofreu uma queda de 17%. Já no segundo período, houve uma alta de 16%. Mas, mesmo assim, a renda do capital manteve-se seis vezes maior do que a renda do trabalho. “Os economistas continuaram no BC fixando a maior taxa de juros no mundo e a hegemonia trabalhista não entrou em conflito com a acumulação do
capital financeiro. Permaneceu no país uma brutal concentração financeira”, concluiu.

Custo de vida poderia ser muito mais baixo

Hoje existem 900 milhões de cartões de crédito no Brasil, uma média de seis cartões por pessoa. Para Costa, “o problema disso é que os bancos e as bandeiras se tornaram sócios do varejo brasileiro, no sentido de pegarem os dividendos. As compras realizadas nos cartões representam 31% do total. Todos tiram o seu preço”.

Ao analisar as principais modalidades de créditos destinadas à pessoa física, ele defendeu a revogação da proibição, pelo
Código de Defesa do Consumidor, da diferenciação de preços a prazo e preços à vista. Segundo ele, o desconto é legítimo já que os ‘sem cartão’ acabam pagando à vista o preço inflado – pelos prêmios de fidelidade, milhas em viagens e outros - equivalente ao preço a prazo.

“O Brasil não é só uma economia inflacionada, há preços inflados no país que elevam o custo de vida desnecessariamente porque estão embutidos no preço da mercadoria. O custo de vida das pessoas poderia ser muito mais baixo e o poder aquisitivo muito mais alto se fossem atacadas as intermediações embutidas nos preços”, explicou. Costa defendeu, também, o fim do crédito parcelado que embute os juros no preço do produto; e os períodos “de graça” que precificam o custo de oportunidade.

O economista destacou, ainda, a importância de uma mudança no comportamento do consumo das pessoas. “Nós sabemos que não podemos entrar no crédito rotativo, mas a grande massa da população não sabe e acredita que limite de crédito é para se gastar à vontade. É preciso entender como se precifica e como se formam as taxas de juros”.
População precisa saber como está sendo espoliada

Em concordância com a necessidade de informar a população, Dowbor finalizou o encontro destacando que a maioria das pessoas se culpam pela inadimplência ou se sentem idiotas por não compreenderem o funcionamento do sistema. “O que as pessoas precisam compreender é que o nome delas não está sujo. Quem tem o nome sujo é a instituição que pratica um negócio como esse”.

Segundo Dowbor, é fundamental demonstrar a forma como as pessoas vem sendo espoliadas pela intermediação financeira. “Nunca, nenhum de nós tivemos uma aula sobre o dinheiro que é o principal estruturador social. Há uma incompreensão generalizada na sociedade”, avaliou.

Em sua visão, o sistema financeiro no Brasil é de longe o mais forte e, também, o mais vulnerável, porque não financia a produção, nem o consumo no país, pelo contrário: “O sistema financeiro praticado no Brasil está travando o consumo e as conquistas sociais. É o exagero cometido, as abusivas taxas cobradas, que o torna vulnerável. Rupturas estão se dando em diversos países do mundo. Nós precisamos mostrar que o sistema financeiro, tal como vem sendo realizado, está drenando o Brasil”.
Link do artigo do prof. Dowbor:http://library.fes.de/pdf-files/bueros/brasilien/12046.pdf

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

ECONOMIA - O recado da Grécia.



23/02/2015 - Copyleft

A Grécia, a Troika e o recado ao Brasil

Realizar ajustes na economia seguindo a austeridade significa se olhar no espelho grego: tal remédio é amargo e pode fazer a doença se alastrar.



José Carlos Peliano*

ABr
O prazo adicional dado à Grécia pela Troika (BCE, UE e Alemanha) na última sexta-feira foi visto de três maneiras diferentes pelos analistas. Uns disseram que o novo governo grego capitulou mais uma vez à imposição da austeridade; outros que houve somente um oportuno recuo na proposta inicial de combate às condições do antigo acordo; finalmente, membros do Syriza afirmaram ter sido uma pausa para respirar melhor e, de fato e de direito, reapresentar novos termos para negociação.
O novo governo grego entende, entretanto, que reformas estruturais são o combate à corrupção e à evasão fiscal. Desses objetivos sairão metas detalhadas que serão apresentadas na proposta a ser entregue à Troika daqui 4 meses. Um dirigente do Syrisa, Yiannis Bournos, foi taxativo sobre esses dois pilares das reformas quando de sua passagem por Portugal neste final de semana.

Este o pano de fundo conhecido da situação negocial entre a Grécia e a Troika. Não há muito ainda a considerar sobre os termos uma vez que serão trabalhados, discutidos e levados à mesa de negociação. É certo, porém, que a Troika imagina um quadro bem diferente do que quer o novo governo grego. Situações quase opostas no que se refere aos fins: a Troika quer receber a dívida nas condições antigas, a Grécia não quer pagá-la assim, quiçá admiti-la como tal.

A posição inicial do governo de cancelar o acordo foi deixada de lado, pelo menos por agora. Sobrou a negociação, a qual pode manter o país na Zona do Euro, se conseguir termos e condições melhores, ou força-lo a sair. O governo grego sabe que entre todos os países, a Grécia é a que tem a economia mais fraca. Alemanha e França têm a faca e o queijo à mão. A barganha é extremamente desigual. E injusta.

Mas há outras considerações a serem feitas sobre as saídas que a economia grega tem pela frente, inclusive que servirão para a reformulação do acordo, o que sabem bem os dirigentes gregos. Guardadas as devidas proporções políticas, econômicas e financeiras, o Brasil segue trilha semelhante. Senão, vejamos.

De um lado está o poder do capital franco-alemão e de outro os demais países endividados, entre eles Espanha, Portugal e Irlanda. A Itália e os outros países da Europa do Norte conseguem ainda respirar melhor. É neste quadro que se deve avaliar a situação grega.

Para o capital financeiro não importa se a Grécia tem ou não saída para a crise, importa que ela arranje de que jeito for recursos para saldar sua dívida com a Troika. Nestes termos, o imperativo é a garantia do recebimento dos juros e das parcelas do empréstimo. As condições de trabalho e vida da população grega em geral não é problema dos bancos credores. Mas do novo governo.

Dentro desta perspectiva, a austeridade é dura mesmo, não há nela alternativa menos rigorosa uma vez definidos e ajustados os termos da negociação. Ou os gregos pagam a dívida, ou o país fica insolvente. Com todas as consequências nefastas e desastrosas. Perda de financiamento às importações e exportações, queda da produção e do produto nacional, desemprego em massa, desabastecimento, inflação desordenada, fome, miséria, emigração forçada.

Este é o cenário pior possível, mas possível sim, caso não haja acordo e a Grécia não consiga outras alternativas com ou sem a Troika. Isso é um total absurdo. Mas como foi possível?

Tanto o governo grego anterior quanto a Troika seguiram a cartilha financeira internacional. A desculpa foi salvar o euro. A verdade foi salvar os bancos alemães e franceses, os últimos credores, para não quebra-los. Para isto, a dívida foi estatizada pelo acordo: o governo grego assumiu-a pressionado pela Troika para livrar a banca.

Pois bem, outra possível, mas não provável, saída grega é a adoção da orientação econômica keynesiana. De fato, esta é uma alternativa à austeridade, em outros termos, uma alteridade. Uma “outra proposta” de flexibilizar o equilíbrio dos gastos públicos e o pagamento da dívida. Ou seja, a redução dos gastos, por exemplo, seria menor e mais pausada e o pagamento da dívida idem. Dentro destes limites, qualquer solução seria razoável.

Para que isso seja possível, todavia, a Troika teria que ceder muito, o que não parece provável porque a Grécia é o primo pobre da Europa. Não tem trunfo para negociar melhor o acordo nem político, nem econômico, nem financeiro.

A não ser que a Alemanha pague ao povo grego indenizações e reparações de guerra, devidas pelas consequências do segundo conflito mundial terminado em 1945. O que pode ajudar a reestruturação da economia grega e do acordo com a Troika. Mas a Grécia teria que recorrer à Corte Internacional de Haia, esperar pelo resultado e tentar receber da economia mais forte da Zona do Euro. O que não é certo e bem duvidoso. Pleito que leva tempo e o tempo não lhe é favorável.

Ou, quem sabe, se a China com ou sem o banco dos BRICS arquitete uma nova solução com a Grécia, financeira e econômica. Como, aliás, ela já vem fazendo em alguns países africanos. O que, de um lado, enfraqueceria o poder dos austeros europeus e, por outro lado, contribuiria para a montagem de uma nova divisão internacional das finanças e da economia mundiais.

Já a saída socialista implicaria que a Grécia denunciasse o acordo antigo, declinasse de assinar o segundo ou o refizesse em condições bem mais favoráveis a ela. Dentro ou fora da Zona do Euro. Solução esta bastante improvável. Mesmo neste caso, a aproximação com a China e talvez a Rússia ajudasse a alternativa.

De toda a sorte, o papel a ser desempenhado pelo banco dos BRICS cada vez mais assume oportunidade, importância e necessidade numa nova arquitetura do poder mundial. O que pode estar nas mãos do primo pobre da Europa pela saída da crise que encontrar e eventualmente pelo efeito que provocar nos demais países europeus enredados na armadilha da austeridade.

O recado ao Brasil é claro. Realizar ajustes na economia seguindo a austeridade significa se olhar no espelho grego. Claro que nossas condições são superiores e muito mais confortáveis. Mas o remédio ainda assim é amargo e a doença pode se alastrar como bola de neve. Recessão e desemprego são irmãos gêmeos. Assim como insatisfação social e manifestações politizadas. Daí chegar à instabilidade política e ao desacerto institucional é um passo.

Diferentemente da Grécia, no entanto, a saída keynesiana ainda tem espaço no Brasil sem arroubos de austeridade. Basta seguir o programa de governo avaliado pelas urnas. Ou, talvez uma solução concertada em negociação, às claras, com o empresariado nacional, os sindicatos, as associações civis e o Congresso Nacional pode servir de pano de fundo para uma retomada consciente, segura, duradoura e benéfica para a população e a democracia brasileiras.

*Economista, colaborador da Carta Maior

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

ECONOMIA - Que crise é essa?


Entrada de dólares supera saída em US$ 3,9 bi em janeiro

Valor supera o saldo positivo de US$ 1,610 bilhão registrado em janeiro de 2014


A entrada de dólares no Brasil superou a saída em US$ 3,903 bilhões em janeiro. O valor supera o saldo positivo de US$ 1,610 bilhão registrado em janeiro de 2014. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira pelo Banco Central (BC).

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ECONOMIA - O espectro da deflação.

O espectro da deflação

A desaceleração na maioria das economias junto de uma forte queda dos preços energéticos aumentou a ameaça da deflação nas principais economias mundiais.


Michael Roberts - The Next Recession
brad curran / Flickr
A queda brutal dos preços da energia e de outras matérias-primas no final de 2014 derrubou a taxa geral de inflação dos preços de todos os produtos. Junto de um crescimento mais rápido do PIB e do emprego nos EUA, parece surgir um cenário mais otimista em 2015 para o capitalismo. A redução dos preços da gasolina significa que os lares norte-americanos e de outros países podem gastar mais dinheiro em outros produtos e, assim, impulsionar a demanda.

Este é o argumento dos otimistas entre a maioria dos analistas. Um argumento que tem em Gavyn Davies, ex-economista chefe do Goldman Sachs e agora colunista do Financial Times um dos expoentes mais notáveis. Conforme ele afirma: “Depois de vários anos nos quais uma demanda insuficiente limitou seriamente a atividade na economia mundial, forçando repetidas reduções das previsões de crescimento, 2015 deveria ser melhor. Preços do petróleo mais baixos e um pacote de política econômica fiscal/monetária mais favorável à demanda deveriam produzir um crescimento mais rápido do que a demanda agregada... Este será o ano em que se começará a absorver o excesso de capacidade da economia mundial”.

Davies apoia este prognóstico na aparente recuperação da demanda e do emprego nos EUA. Com um crescimento “potencial” em longo prazo nos EUA, de mais ou menos de 1,7%, Davies espera que a economia norte-americana cresça de alguma forma acima dessa cifra em 2015. Reconhece que a zona do euro e o Japão estão lutando para evitar uma nova recessão, mas espera que o Banco Central Europeu (BCE), aplique a flexibilização quantitativa, apesar de ser “muito duvidoso que seja suficiente para reestabelecer as expectativas de inflação até o objetivo do BCE, tendo em conta que a inflação geral se reduzirá a zero à medida que os efeitos do preço do petróleo se ampliem através do sistema.”

Entretanto, o crescimento do PIB real deveria melhorar em 2015. Quanto às economias emergentes, é possível que a China esteja desacelerando, mas ainda consegue crescer em 6-7% ao ano, razão por que o crescimento global mundial alcançaria 3%, acima de 2014.

A única consideração sobre este prognóstico que posso fazer é que está cheio de falhas. Um crescimento do PIB real mundial de somente 3% não pode exatamente ser chamado de boom. E depende de a China não reduzir seu crescimento, de a Europa e o Japão evitaram uma depressão deflacionários e de os Estados Unidos continuarem aumentando seu crescimento à medida que os consumidores gastem uma parte de suas rendas adicionais que obtêm graças à queda dos preços da gasolina.

Se levarmos em conta que os dados publicados na primeira semana do ano em todo o mundo, a imagem não é nada alentadora para os prognósticos de Davies. Por exemplo, a Alemanha é o único motor do crescimento na zona do euro. Os pedidos das fábricas caíram 2,4% em novembro, muito mais do que o esperado. A produção industrial da Alemanha também é muito mais fraca do que os economistas haviam prognosticado em novembro, caindo 0,1% em relação ao mês anterior. Agora está caindo a uma taxa de 0,5% ao ano.

A produção industrial e a construção do Reino Unido também diminuíram inesperadamente em novembro, caindo 2% ao mês, muito longe das expectativas de um rebote depois da contração de outubro. A construção está crescendo 3,6% ao ano – muito abaixo da expectativa de 6,7%. É um sinal de que o motor do crescimento no Reino Unido em 2014, o boom imobiliário, está se esgotando. A produção industrial francesa também caiu no ano passado em novembro 0,3%, depois de uma diminuição de 0,8% em outubro.

A economia dos Estados Unidos é agora o motor do crescimento mundial. No ano passado, seu PIB real cresceu em termos absolutos mais do que qualquer outra economia, incluindo a da China. Contribuiu em 18% do crescimento do PIB real mundial, mais do que qualquer outra economia. Mas o crescimento dos Estados Unidos será suficiente para estimular o resto do mundo? Bem, as últimas cifras de pedidos de bens manufaturados não foram promissoras. Em novembro, caíram 0,7%, razão por que a cifra interanual se reduziu em 1% em comparação com um aumento de 2,1% em outubro.

Os números do emprego de dezembro nos EUA foram publicados recentemente. A cifra total de 252 mil parece bastante boa e, em 2014, o número de postos de trabalho aumentou mais do que em qualquer outro ano desde 1999. A taxa de desemprego encerrou o ano em 5,6%, o número mais baixo desde a Grande Recessão. Mas se for comparado com a população economicamente ativa, a porcentagem de norte-americanos com emprego ou que procuram emprego caiu para a cifra mais baixa das últimas três décadas, 62,7% em dezembro.

Mais importante ainda, a renda média por ano aumentou somente em 2,3% em 2014. Em comparação, os salários dos trabalhadores cresceram 3,7% em 1999, após 4% em 1998. De forma que mais postos de trabalho não trouxeram melhores salários e melhores ingressos reais para os trabalhadores. De fato, em novembro, a renda por hora para os empregados do setor privado foram reduzidas em cinco centavos, ficando em 24,57 dólares, marcando a maior queda mensal desde 2006. O que parece estar acontecendo é que os novos postos de trabalho foram criados em setores de baixa remuneração, como o comércio de varejo e o trabalho de meia jornada nos períodos de férias. Estes novos trabalhadores recebem menores salários.

Entretanto, as horas trabalhadas semanalmente pelos empregados alcançou seu nível mais alto após a recessão, de forma que a renda semanal se recuperou. Em suma, há mais emprego, mas se paga menos, e então as pessoas querem fazer hora extra para conseguir mais dinheiro.

Em todo o mundo, os últimos índices de atividade econômica sugerem uma desaceleração, não uma aceleração. No seguinte gráfico, construiu-se um índice composto a partir dos Índice de Gerente de Compras Industrial (PMI).





Parece-me que as economias capitalistas desenvolvidas ainda estão se expandindo (acima do nível 50), mas em um ritmo muito mais lento do que no verão passado, enquanto as economias emergentes (incluindo a China) não estão se desacelerando. Ocorre que a economia mundial avança com um ritmo mais baixo do que há um ano.

Apesar de Gavyn Davies estar otimista em relação ao crescimento econômico mundial em 2015 graças a uma demanda “superior”, Tim Adam, presidente do Instituto de Finanças Internacionais, um grupo que representa os bancos, fundos de pensões e as maiores companhias de seguros do mundo, afirma: “A pergunta é 'pode o efeito da riqueza alimentado pela liquidez da economia dos Estados Unidos proporcionar o motor do crescimento da economia mundial?'... Pode se chegar a ter uma perspectiva bastante pessimista sobre o crescimento mundial se levarmos em conta todas estas considerações”.

A desaceleração na maioria das economias junto de uma forte queda dos preços energéticos aumentou a ameaça da deflação nas principais economias capitalistas, pela primeira vez desde a Grande Depressão da década de 1930. Em dezembro, a zona do euro caiu em deflação pela primeira vez em mais de cinco anos. O Japão está quase nela e as taxas anuais de inflação dos Estados Unidos e do Reino Unido está muito abaixo dos objetivos de seus bancos centrais de 2% ao ano!

A revista The Economist está preocupada. Seu texto explica: “a queda dos preços do petróleo se deve em parte a uma maior oferta, mas também é resultado da desaceleração do crescimento em todo o mundo. A falta de apetite da China para as matérias-primas afetou os provedores dos mercados emergentes com uma especial dureza. E uma queda dos preços induzida pela energia, apesar de positiva para o poder aquisitivo para os consumidores, corre o risco de reforçar as expectativas de menos inflação em geral; é parte da natureza perniciosa da ameaça que tais expectativas se confirmem por si só facilmente”.

Apesar de os preços mais baixos da energia poderem beneficiar os lares médios reduzindo suas despesas, permitindo que gastem mais com outras coisas, isso exerce uma pressão para reduzir a rentabilidade da produção capitalista. O que poderia alentar a introdução de novas tecnologias para reduzir os custos. Mas há poucos indícios disso nas principais economias capitalistas. Os produtores de energia estão reduzindo o investimento em nível mundial (cerca de 40% do investimento total de capital), mas outros setores não estão compensando isso com aumentos em novos investimentos.

Pelo contrário, a maioria das empresas capitalistas continua tentando aumentar a rentabilidade mediante o aumento das margens de benefício, reduzindo e congelando salários. Um recente documento de trabalho do Banco da Reserva Federal de São Francisco defende que a “rigidez dos salários” teria obstacularizado a capacidade das empresas norte-americanas de ajustar seus custos durante a Grande Recessão. O documento defende que os salários foram mantidos “muito altos”, e por isso as empresas preferem não aumentar os salários em momentos de recuperação.

Mas, se a demanda de vendas e os aumentos de preço precisarem ser freados de novo, isso poderia implicar em uma demanda “contida” para diminuir mais postos de trabalho. O que poderia paralisar a melhora no mercado de trabalho nos Estados Unidos.

O outro problema da baixa inflação e/ou da deflação é que o valor real da dívida existente acumulada pelas empresas e lares aumenta, e se o FED continuar com seu plano de elevar as taxas de juros no final deste ano, o custo dos juros do serviço da dívida se elevará, afetando a capacidade de investir das empresas e de gastar dos lares. Desde que a crise financeira eclodiu em 2008, o mundo se moveu muito mais; a dívida pública e privada total chegou a 272% do PIB do mundo desenvolvido em 2013, segundo documento “Relatório Anual de Genebra sobre a Economia Mundial”.

O Banco Central Europeu anunciará em breve uma nova rodada de injeções de crédito planejada para proporcionar dinheiro para investir ou gastar praticamente grátis aos bancos e às grandes corporações. Até agora, a flexibilização quantitativa no Japão, Europa e até nos EUA não conseguiu convencer como uma arma capaz de evitar que as economias caiam em deflação o se desacelerem. O espectro da deflação continua sendo uma ameaça real.


*Michael Roberts é um renomado economista marxista britânico que trabalhou por 30 anos na City Londinense como analista econômico. Escreve em seu blog The Next Recession.

Tradução de Daniella Cambaúva

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

ECONOMIA - Thomas Piketty

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

ECONOMIA - Capitalismo, reinado dos abutres.


05.08.2014
Capitalismo: o reinado dos abutres
Maurício Abdalla
 
Adital
 
A Argentina paga, hoje, o preço de seu passado neoliberal. O Brasil que fique de olho. Exemplo de seguidor obediente do Consenso de Washington, o país vizinho estabilizou a economia seguindo a receita cambial (com as conhecidas consequências para as transações comerciais externas), aumentou enormemente a dívida para financiar o Estado com capital especulativo, privatizou todos os setores estratégicos da economia e assinou acordos em que aceitava a arbitragem internacional para dirimir conflitos financeiros. Isso é bem conhecido de nós, brasileiros, desde o Plano Real e o Governo FHC.
A explosão da dívida levou à moratória de 2001, que evitou que o país quebrasse de vez. O débito foi renegociado com os fundos de investidores em 2005 e 2010 a preços menores do que garantiam os títulos antes de 2001. Os que aderiram ao acordo levaram muito dinheiro. Mesmo não sendo o que esperavam. Ainda lucraram mais do que se houvessem investido seu capital em produção.
Outros não aderiram e ou mantiveram seus títulos ou os venderam a preços menores (porém maiores do que os prometidos pelo Estado) para outros investidores. Estes iriam buscar na Justiça (vendável em todo o mundo) o direito de receber a remuneração de seu capital rapinante nos valores previstos pré-moratória de 2001. São os chamados "fundos abutres". Ganharam recentemente decisão favorável de um juiz dos EUA.
Se a Argentina pagar o que determina o juiz para os fundos abutres, terá que pagar o mesmo para aqueles que aceitaram levar um valor menor nas negociações de 2005 e 2010. A quebradeira será maior. Se não pagar, pode ter sequestrado seus recursos depositados em bancos internacionais e sofrer outras medidas. Os donos dos fundos abutres são grandes banqueiros internacionais, grupos de investimento e indivíduos que querem enriquecer não muito, mas no limite máximo possível. Fazem parte do bloco hegemônico mundial, que elegem presidentes, influenciam na escolha de ministros metem-se em disputas eleitorais em países que não são os seus.
Para eles, não importam os problemas sociais e econômicos que seu enriquecimento exorbitante e irracional pode gerar a um país, não se preocupam com o desemprego, empobrecimento e a fome da população, nem com a incapacidade do Estado de prover o mínimo essencial para os que não têm acesso a serviços privados. Querem multiplicar seu dinheiro a todo custo, e mandam a humanidade às favas. Esse é o capitalismo em sua essência mais pura. É o sistema que muitos dizem que "deu certo", o ápice da evolução econômica da humanidade. Certamente, o capitalismo deu certo para os abutres. Mas se estabelecer o reinado definitivo dos abutres é o mais elevado grau da evolução econômica da humanidade, precisamos urgentemente involuir.
Professor de Filosofia da UFES, autor de "O princípio da cooperação" (Paulus) e "La crisis latente del darwinismo" (Cauac), dentre outros

Maurício Abdalla


Catedrático brasileiro. Membro do Movimento Fé e Política, professor de filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo. Autor de "O princípio da cooperação" (Paulus) e "La crisis latente del darwinismo" (Cauac), dentre outros.