quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

ECONOMIA - Entrevista com Thomas Piketty.

Entrevista com Thomas Piketty: 'O verdadeiro perigo para a Europa é a hipocrisia de Juncker e Merkel'

'A Alemanha finge ter se esquecido do superperdão de suas dívidas após a II Guerra. Se não tivesse sido perdoada, teria se desenvolvido tanto?


Eugenio Occorsio - La Repubblica
European People's Party
"Não entendo por que as chamadas chancelarias europeias estão tão aterrorizadas com a vitória do Syriza na Grécia. Ou melhor, eu entendo, mas é hora de desmontar suas hipocrisias". Thomas Piketty, que leciona na École d'Économie parisiense, "o economista mais conceituado de 2014", tal como definiu o Financial Times, vem à tona com toda a sua garra em um editorial publicado ontem pelo jornal Libération. "Na Europa, faz falta uma revolução democrática", ele escreveu, e repete alto e bom tom ao telefone, no aeroporto de Paris, antes de embarcar para Nova York, a cidade que lançou seu "O capital no século XXI" como livro do ano graças ao respaldo do prêmio Nobel Paul Krugman.


- Professor, Tsipras abriu o caminho, no entanto, defendendo o estandarte da saída do euro?

Sim, mas agora suavizou muito as suas posições. Revelou-se, ao contrário, como um líder fortemente europeísta, uma postura que se assentará quando tiver que formar um governo de coalizão. Desde já, o Syriza fará valer suas posições na Europa, mas isso não será um mal. Ao contrário.


- Em resumo, algo acontecerá. Mas estamos certos de que não será algo inovador?

Veja, consideremos a situação com realismo. A tensão na Europa chegou a um ponto em que, de uma forma ou de outra, explodirá em 2015. E as alternativas são três: uma nova crise financeira tremenda; a firmação das forças de direita que formam uma coalizão cujas bases estão se formando agora, centradas na Frente Nacional na França, incluindo a Lega Nord e ps 5 Stelle; ou uma sacudida política que venha da esquerda: o Syriza, os espanhóis do Podemos, o Partido Democrático italiano, o que resta dos socialistas, e enfim, os aliados. Você escolhe qual das soluções? Eu escolho a terceira.


- A famosa "revolução democrática", em resumo. Quais deveriam ser as primeiras ações?


Dois pontos. Primeiro, a revisão total da atual política baseada na austeridade que está asfixiando qualquer possibilidade de recuperação na Europa, a começar pelo sul da zona do euro. E essa revisão tem que prever como primeiríssima coisa uma renegociação da dívida pública, uma ampliação dos prazos e, eventualmente, perdões de verdade de algumas partes. É possível, eu asseguro. Já se perguntaram por que os EUA vão de vento em popa, assim como a Europa que está fora do Euro, assim como a Grã-Bretanha? Mas por que a Itália deve destinar 6% do PIB para pagar os juros e apenas 1% à melhoria de suas escolas e universidades? Uma política centrada apenas na redução da dívida é destrutiva para a zona do euro. Segundo ponto: uma centralização nas instituições europeias de políticas de base para o desenvolvimento comum a partir da política fiscal e, no mais, reorientar esta última para onerar mais as maiores rendas pessoais e industriais. Nesses assuntos fundamentais, deve-se votar por maioria, e já não por unanimidade, e vigiar depois para que todos se ajustem. Uma maioria centralizada vale também em outras frentes, à semelhança do que se está começando a fazer com os bancos. Só assim se poderá homogeneizar a economia e desbloquear a fragmentação de 18 políticas monetárias com 18 tipos de juros, 19 desde o início de janeiro com a Lituânia, expostas ao açoite da especulação. Não se dar conta disso é ser míope, e o que é pior, profundamente hipócrita.


- As "hipocrisias europeias" das quais falava no início: a que o senhor se refere, mais concretamente?

Vamos pela ordem. O mais hipócrita é Jean-Claude Juncker, o homem a quem se entregou, inconscientemente, à Comissão Europeia depois que ele levou Luxemburgo durante vinte anos a uma sistemática depredação dos benefícios industriais do resto da Europa. Agora pretende se fazer de durão e mudar, tudo com um plano de 300 bilhões que, no entanto, só se financiam 21, e dentro desses 21 a maior parte são fundos europeus já em via de distribuição. Fala de "efeito alavanca" sem sequer se dar conta do que está falando. No segundo lugar, está a Alemanha, que finge ter se esquecido do superperdão de suas dívidas após a II Guerra Mundial, baixando num só golpe de 200 para 30% do PIB, o que permitiu financiar a reconstrução e o irresistível crescimento dos anos seguintes. Aonde teria chegado se fosse obrigada a reduzir arduamente sua dívida em 1% ou 2% ao ano, como está obrigando o sul da Europa a fazer? O terceiro lugar nessa embaraçosa classificação de hipocrisias pertence à França, que agora se rebela diante da rigidez alemã, mas que esteve na primeira fila prestando apoio à Alemanha quando esta impôs a política de austeridade, e pareceu igualmente decidida quando o Fiscal Compact de 2012 condenou as economias mais frágeis a reembolsar suas dívidas até o último euro, apesar da devastadora crise de 2010-2011. Assim que se desmascarar e ilhar essas hipocrisias, será possível retomar o desenvolvimento europeu no ano que está prestes a começar. E o Syriza dará menos medo.


Thomas Piketty (1971) é diretor de estudos da EHESS (École des Hautes Études en Sciences Sociales) e professor associado da Escola de Economia de Paris, além de autor de recente e fulgurante celebridade pro seu livro O Capital no século XXI (Fundo de Cultura Econômica, 2014).

Tradução de Daniella Cambaúva

ECONOMIA - O ajuste que leva a mais ajuste.

O ajuste que leva a mais ajuste no rumo da depressão

Se a marcha da macroeconomia for a anunciada sem outra novidades no plano estrutural, terminaremos o ano com uma contração do PIB de 2 a 3%.


J. Carlos de Assis (*)
Arquivo

Os governos mentem ou omitem por necessidade política. Quando o Banco Central eleva em meio ponto percentual a taxa básica de juros, dizendo que é para combater a inflação, é pura falsidade. A elevação dos juros é um mecanismo preventivo de crise cambial em face do altíssimo nível do déficit em conta corrente de 2014, da ordem de US$ 86 bilhões. Como esse déficit em sua maior parte só pode ser coberto com empréstimos externos, o aumento dos juros funciona como um atrator de capitais especulativos para fechar o rombo futuro.

Todos os analistas do ramo sabem disso, mas o grande público é mantido deliberadamente mal informado para que o choque de realidade não resulte em pressões políticas inaceitáveis pelos ditos ortodoxos neoliberais. Como se sabe, a macroeconomia brasileira está apoiada no tripé superávit primário, taxa de juros elevada e câmbio flutuante, ou livre. O déficit em conta corrente é produto, em grande parte, do câmbio valorizado. Para combatê-lo de forma eficaz seria necessário desvalorizar administrativamente o câmbio. Isso viola o tripé.

O déficit em conta corrente poderia inspirar também medidas heterodoxas do tipo limitação de viagens externas, controle de importações, limitação do uso de cartões de crédito no exterior etc. Isso, obviamente, é anátema para os neoliberais, principalmente por desagradar a classe média. Assim, o caminho “ortodoxo” é aumentar a taxa de juros até o nível em que os aplicadores estrangeiros acham que o Brasil e suas empresas e bancos são um bom risco. Ninguém fica incomodado, exceto os mutuários de empréstimos, mas estes não estão à altura dos interesses dos banqueiros.

O problema com a elevação dos juros é que são um tiro no pé. Com a entrada de capitais especulativos a taxa de câmbio “livre” tende a valoriza-se ainda mais, concorrendo para mais aumento do déficit em conta corrente. Pode ajudar a combater a inflação (os preços externos ficam mais baratos), mas não o crescimento, e é um círculo vicioso crescente para o qual os remédios anunciados por Joaquim Levy e Tombini não estão claros. Se os ajustes fiscais e a alta de juros fossem medidas temporárias para resolver um problema conjuntural, viabilizando uma saída consistente a longo prazo, tudo bem. Mas trata-se de uma espiral ampliada de ajustes, levando inexoravelmente a mais ajustes e finalmente à depressão.

Anotem: este ano, se a marcha da macroeconomia for a anunciada sem outra novidades no plano estrutural, acrescentaremos um alto peso a um ciclo econômico já recessivo e terminaremos o ano com uma contração do PIB de 2 a 3%. Não é o que desejo, mas talvez seja o necessário para que o Governo implemente uma efetiva estratégia de desenvolvimento a médio e longo prazo, menos dependente dos fluidos conjunturais da macroeconomia. A ideia de que ajuste fiscal trará o aumento do investimento privado é uma sandice. Ajuste só leva a mais ajuste.

*Economista, doutor pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB.

MÍDIA - Dilma e a batalha perdida.


Altamiro Borges: Publicidade do governo Dilma continua alimentando cobras e monopólios


 

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Dilma e a batalha perdida!

por Altamiro Borges, em seu blog
Na abertura da primeira reunião ministerial do seu segundo mandato, nesta terça-feira (27), a presidenta Dilma Rousseff criticou as manipulações da mídia e conclamou sua nova equipe a travar o debate de ideias na sociedade. “Nós devemos enfrentar o desconhecimento, a desinformação, sempre e permanentemente. Vou repetir: sempre e permanentemente… Reajam aos boatos. Travem a batalha da comunicação”, afirmou. O discurso até é bonito, aguerrido, mas seus efeitos podem ser frustrantes. Afinal, o governo até hoje não adotou as medidas necessárias para travar a “batalha da comunicação” e para se contrapor à mídia monopolizada e manipuladora.
Durante meia hora, a presidenta reeleita abordou vários temas. Ela tentou explicar as medidas econômicas adotadas neste início do seu segundo mandato. Afirmou que elas decorrem da crise internacional, que afetou os preços das commodities e reduziu os investimentos, e também dos problemas internos. Em outro trecho, ela garantiu que o “equilíbrio fiscal” não afetará os avanços sociais dos últimos 12 anos. “Quando for dito que vamos acabar com as conquistas históricas dos trabalhadores, respondam em alto e bom som: ‘Não é verdade!’. Os direitos trabalhistas são intocáveis, e não será o nosso governo, um governo dos trabalhadores, que irá revogá-los” (leia a íntegra do discurso abaixo).
O discurso indica uma maior compreensão sobre a urgência da “batalha da comunicação”. O problema é que os instrumentos para esta batalha são limitados. Até recentemente, a própria Dilma Rousseff evitava as polêmicas e o confronto com as falsidades e as meias verdades veiculadas na mídia tradicional. Ela acabou vestindo o figurino de “gerentona” e “tecnocrata”. A presidenta só mudou de atitude, assumindo uma postura de estadista e líder política, na campanha eleitoral do ano passado. Não vacilou, inclusive, em utilizar três minutos do seu último programa eleitoral “gratuito” para criticar a “criminosa” revista Veja. Na sequência, porém, a presidenta “sumiu” e voltou a adotar a tática defensiva.
A área de comunicação do governo, que inclui todos os ministérios e os postos chaves de aliados no parlamento, ficou sem dar respostas aos novos ataques da oposição demotucana e da sua mídia. A presidenta foi acusada de “estelionato eleitoral”, de trair seu programa de campanha, de chefe de uma “organização criminosa”, de jogar o país na recessão e de todos os males que afligem a nação – inclusive pela falta de água em São Paulo. A resposta a esta onda devastadora foi tímida – para não dizer inexistente. Agora é conferir se a base de apoio do governo terá mais energia para travar a “batalha da comunicação”.
Além disso – e o que é pior –, durante o seu primeiro mandato, Dilma Rousseff manteve intacto o poder destrutivo dos monopólios midiáticos. Ela abortou qualquer projeto de regulação democrática dos meios de comunicação. Preferiu a repetir a platitude do “uso do controle remoto”. Não fez nada para regulamentar os preceitos inscritos na Constituição Federal, que proíbe – entre outras pragas – os monopólios neste setor. Ela arquivou as resoluções aprovadas na 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) e as propostas elaboradas pela equipe do ex-presidente Lula.
Agora, Dilma prega a urgência da “batalha da comunicação”, mas está totalmente desarmada para travar esta batalha estratégica. Nem mesmo as medidas que independem de votação no Congresso Nacional – hoje um campo ainda mais desfavorável, com ampla maioria conservadora – foram implementadas no primeiro mandato. As verbas publicitárias continuaram alimentando cobras, reforçando os monopólios. A experiência da construção de uma tevê pública, a TV Brasil, também foi menosprezada, quase abandonada.
Um balanço geral indica que a tal “batalha da comunicação” pode se transformar numa batalha perdida, num mero jogo retórico. Para enfrenta-la de fato, o segundo mandato da presidenta Dilma precisará fortalecer e revitalizar a sua própria área de comunicação. Nenhuma “desinformação” deve ficar sem resposta – inclusive com a utilização legal da rede nacional de rádio e tevê. Mais do que isto, Dilma precisará mostrar que está disposta, de verdade, a enfrentar o poder da ditadura midiática – seja rediscutindo a distribuição das verbas publicitárias, reforçando o sistema público de comunicação e propondo um amplo debate à sociedade sobre a regulação democrática da mídia. A conferir!
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Reproduzo abaixo a íntegra do pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff na primeira reunião da sua nova equipe ministerial:
“Bom, então a minha primeira recomendação para vocês, que vão compartilhar comigo essa responsabilidade de governar e desse novo mandato, é trabalhar muito para que que nós possamos dar sequência ao projeto político que nós implantamos desde 2003, e que está mudando o Brasil, mudando para muito melhor, porque nós temos menos pobreza, mais oportunidades, temos uma situação de mais igualdade, mais direitos e cada vez mais democracia.
Na campanha eleitoral, como vocês todos se lembram, eu pedi o voto dos brasileiros para conduzir o Brasil a uma nova etapa do processo de desenvolvimento que nós iniciamos em 2003. Mostramos também, durante a campanha eleitoral, que essa proposta estava baseada em uma política econômica consistente e em políticas sociais geradoras de oportunidades e numa conquista extraordinária: a superação da miséria, alcançada ao criarmos as condições para que 22 milhões de pessoas ultrapassassem a linha da pobreza extrema.
Naquela circunstância da campanha, e ao longo do meu mandato, eu deixei claro que o novo mandato, para mim e para nós todos, teria como objetivo principal a preparação do Brasil para a era do conhecimento – com prioridade absoluta para os investimentos em educação, geradores de mais e melhores oportunidades para as brasileiras e para os brasileiros, e da necessária elevação da competitividade da nossa economia, base para um desenvolvimento duradouro. Nessas oportunidades todas, eu propus fazer do Brasil uma Pátria Educadora.
E foi isso… e foi nisso que a maioria do povo brasileiro, dos homens e mulheres deste país deram o seu voto, foi para isso que eles deram seu voto. Este é o meu compromisso, fazer com que o Brasil nos próximos quatro anos, tenha condições de ter as medidas necessárias para manter íntegra a estratégia de construir um país desenvolvido, um país próspero, cada vez mais igual, menos desigual, fazendo tudo o possível para manter e fortalecer o modelo de desenvolvimento que mostrou ser possível conciliar crescimento econômico, distribuição de renda e inclusão social.
A população brasileira, ela votou também por mudanças e nós não podemos esquecer disso. E nós as faremos, esse é o nosso compromisso, fazer as mudanças necessárias. Juntos, nós devemos fazer, nós faremos um governo que é, ao mesmo tempo, um governo de continuidade e também um governo de mudanças. Nossa tarefa será manter o projeto de desenvolvimento iniciado em 2003, mas dar continuidade com avanços, dar continuidade com mudanças que lhe darão, que darão a este projeto ainda mais consistência, mais velocidade.
Os ajustes – e aí eu entro nessa explicação que é essencial – os ajustes que estamos fazendo, eles são necessários para manter o rumo, para ampliar as oportunidades, preservando as prioridades sociais e econômicas do governo que iniciamos há 12 anos atrás. As medidas que estamos tomando e que tomaremos, elas vão consolidar e ampliar um projeto vitorioso nas urnas por quatro eleições consecutivas e que estão, essas medidas, ajudando a transformar o Brasil.
Como disse na Cerimônia de Posse, as mudanças que o país espera, que o país precisa para os próximos quatro anos dependem muito da estabilidade e da credibilidade da economia. Nós precisamos garantir a solidez dos nossos indicadores econômicos.
A economia brasileira, ela vem sofrendo os efeitos de dois choques. No plano externo, a economia mundial sofreu uma redução expressiva nas suas taxas de crescimento com a China apresentando as menores taxas de crescimento em 25 anos e o Japão e a Europa em estagnação, e os EUA só agora começando a se recuperar da crise. Além disso, há uma queda nos preços das commodities – uma queda expressiva nos preços das commodities. Para vocês terem uma ideia, uma queda de 58%, quase 59% no preço do petróleo, de junho do ano passado, de 2014, até janeiro de 2014 , e de 53% do minério de ferro, de dezembro de 2013 a janeiro de 2014. Além disso, além da queda no preço das commodities, nós temos uma apreciação significativa do dólar.
No plano interno, nós enfrentamos, em anos sucessivos, um choque no preço dos alimentos, devido ao pior regime de chuvas de que se tem registro histórico no Brasil. Essa seca também teve, mais recentemente, impactos no preço da energia em todo o Brasil e na oferta de água em algumas regiões específicas e de forma muito específica na região Sudeste.
Diante destes eventos internos e externos, o governo federal cumpriu o seu papel. Nós absorvemos a maior parte das mudanças, dessas mudanças no cenário econômico e climático em nossas contas fiscais para preservar o emprego e a renda. Nós reduzimos nosso resultado primário para combater os efeitos adversos desses choques sobre nossa economia e proteger nossa população. Agora, atingimos um limite para isso. Estamos diante da necessidade de promover um reequilíbrio fiscal para recuperar o crescimento da economia o mais rápido possível, criando condições para a queda da inflação e da taxa de juros no médio prazo e garantindo, assim, a continuidade da geração de emprego e da renda.
Tomamos algumas medidas que têm caráter corretivo, ou seja, são medidas estruturais que se mostram necessárias em quaisquer circunstâncias. Vamos adequar, por exemplo, o seguro-desemprego, o abono-salarial, a pensão por morte e o auxílio-doença às novas condições socioeconômicas do país. Essas novas condições mostram que, nos últimos 12 anos, foram gerados 20,6 milhões de empregos formais.
A base de contribuintes da Previdência Social foi ampliada em 30 milhões de beneficiários. O valor real do salário mínimo, que é a base de todo o sistema de proteção social, cresceu mais de 70%. Além disso, a expectativa de vida dos brasileiros com mais de 40 anos aumentou, passando de 73 anos e meio para 78 anos e meio, ou seja, quase cinco anos a mais de vida. Nestes casos, que são corretivos, não se trata de medidas fiscais, trata-se de aperfeiçoamento de políticas sociais para aumentar sua eficácia, eficiência e sua justiça.
Aliás, é importante e eu pediria atenção dos senhores e das senhoras, aliás, nós sempre aperfeiçoamos nossas políticas, sempre. E o Bolsa Família é um exemplo, eu diria um excelente exemplo. No ano passado, por exemplo, ano eleitoral, nós tivemos 1 milhão de famílias, 1 milhão e 290 mil famílias deixando o programa por não mais se enquadrarem, seja por razões cadastrais, seja por aumento de renda. E nós, mesmo em ano eleitoral tivemos o cuidado para não prejudicar a sustentabilidade do Bolsa Família de retirar essas famílias que tinham sido desenquadradas. Outro conjunto de medidas, no entanto, é de natureza eminentemente fiscal, indispensáveis para a saúde financeira do Estado brasileiro. Contas públicas em ordem são necessárias para o controle da inflação, o crescimento econômico e a garantia, de forma sustentada, do emprego e da renda. Nós vamos promover o reequilíbrio fiscal de forma gradual.
Nossa primeira ação foi estabelecer a meta de resultado primário em 1,2% do PIB. Essa meta representa um grande esforço fiscal, mas um esforço que a economia pode suportar sem comprometer a recuperação do crescimento e do emprego.
São passos na direção de um reequilíbrio fiscal que irá permitir preservar as nossas políticas sociais – falo, por exemplo, do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, do Mais Médicos, do Pronatec, das ações para garantir acesso ao ensino superior, do Ciência sem Fronteiras, do combate à violência contra a mulher, por exemplo.
A razão de ser da gestão responsável e consistente da política econômica é estimular o crescimento e dar meios para a execução de políticas que melhorem o bem-estar da população. Esta é a razão de ser das políticas.
Em relação à inflação eu quero lembrar que em nenhum momento no meu primeiro mandato nós descuidamos de seu controle e, por isso, ela foi mantida sempre no limite do regime de metas. O Banco Central vem adotando as medidas necessárias para reduzir ainda mais a inflação. Decidimos também reduzir, previamente, nossos gastos discricionários, enquanto o Congresso Nacional discute o Projeto de Lei Orçamentária, projeto de 2015. Por essa razão, nós reduzimos em um terço o limite orçamentário de todos os ministérios neste início de ano. Lembro a cada um dos ministros que as restrições orçamentárias exigirão mais eficiência no gasto, tarefa que estou certa, todos executarão com excelência. Vamos fazer mais gastando menos.
Estamos atuando também pelo lado da receita. Adotamos correções nas alíquotas da Cide sobre combustível e do IOF sobre o crédito pessoal. Também propusemos uma correção do PIS/COFINS sobre bens importados e do IPI sobre cosméticos. Além destas medidas de política fiscal, estamos também, senhores ministros e senhoras ministras, construindo medidas para viabilizar o aumento do investimento e da competitividade da economia.
No campo tributário, estamos finalizando nossa proposta de aperfeiçoamento do Supersimples, que irá estabelecer um mecanismo de transição entre sistemas tributários para enfrentar a barreira hoje existente ao crescimento das micro e pequenas empresas. Estamos preparando a reforma do PIS/Cofins para simplificar e agilizar o aproveitamento de créditos tributários pelas empresas. Vamos apresentar um Plano Nacional de Exportações para estimular o comércio externo. O foco de nossa política industrial, baseada na ampliação da nossa competitividade, será o aumento da pauta e dos destinos de nossas exportações. Se nossas empresas conseguirem competir no resto do mundo, elas conseguirão competir facilmente no Brasil, onde já desfrutam de vantagens locais. A melhora da competitividade depende, entre outras coisas, da simplificação e da desburocratização do dia a dia das empresas e dos cidadãos.
Para avançar nesta direção, lançaremos um Programa de Desburocratização e Simplificação das Ações de Governo. Trata-se de agilizar e simplificar o relacionamento das pessoas e das empresas com o Estado e do Estado consigo mesmo. Menos burocracia representa menos tempo e menos recursos gastos em tarefas acessórias e secundárias, e mais produtividade, mais competitividade. Toda a sociedade ganha.
Já iniciamos também a definição de uma nova carteira de investimentos em infraestrutura. Nós vamos ampliar tanto as concessões como as autorizações de infraestrutura ao setor privado. Vamos continuar com as concessões de rodovias, com as autorizações e concessões em portos e ampliar as concessões de aeroportos. Realizaremos concessões em outras áreas, como hidrovias e dragagem de portos, por exemplo.
O Minha Casa, Minha Vida irá contratar a construção de mais três milhões de moradias até 2018, ampliando sua penetração em grandes centros urbanos. Com o programa Banda Larga para Todos vamos promover a universalização do acesso a um serviço de internet de banda larga barato, rápido e seguro.
O Brasil, senhoras ministras e senhores ministros, continua sendo uma economia continental, uma economia diversificada, um grande mercado interno, com empresas e trabalhadores habilidosos, versáteis, e nós estamos habilitados a aproveitar as oportunidades que temos diante de nós. Só lembrando alguns números, é importante lembrar alguns números, para que a gente tenha noção do tamanho do nosso país.
Somos hoje a 7ª economia do mundo, o 2º maior produtor e exportador agrícola, o 3º maior produtor e exportador de minérios, o 5º que mais atrai investimentos estrangeiros, o 7º em acúmulo de reservas cambiais e o 3º maior usuário de internet. Para as senhoras ministras, só um pouquinho, para as senhoras ministras eu lembro que somos um dos primeiros mercados de cosméticos do mundo. Aliás, somos o primeiro mercado. O Brasil, porque as mulheres brasileiras têm a nossa vaidade intrínseca, o que é muito bom para o país, para as empresas e para os trabalhadores.
Por isso, o Brasil, nós podemos dizer, continua sendo um país com grandes oportunidades de investimento. O Brasil continua sendo um país com instituições sólidas, com regras estáveis, uma sociedade livre e democrática.
Depois de 12 anos de políticas de inclusão social e desenvolvimento, o Brasil é hoje um país melhor. Um país com menos pessoas na pobreza, com mais pessoas na classe média. Um país com milhões de novos estudantes do ensino fundamental à universidade. Um país com milhões de novas pequenas empresas e empreendedores individuais. Um país com milhões de novos trabalhadores no mercado formal. Um país com mais crédito, tanto para as empresas quanto para os consumidores. Nós confiamos na força do nosso povo, nos fundamentos econômicos, sociais, culturais, étnicos de nosso país. Nós sabemos que são essas as características que exigem de nós mudanças, que exigem de nós dedicação às políticas sociais, às políticas econômicas, às políticas macroeconômicas.
Aliás, em 2016, os olhos do mundo vão estar voltados mais uma vez para o Brasil com a realização das Olimpíadas. Nós temos certeza que mais uma vez, como na Copa, nós vamos mostrar a capacidade de organização dos brasileiros e, agora, numa das mais belas cidades do mundo, o Rio de Janeiro. E isso é em cooperação, em cooperação entre a União, o estado do Rio de Janeiro e o município do Rio de janeiro.
Caras ministras e caros ministros,
Nós devemos enfrentar o desconhecimento, a desinformação sempre e permanentemente. Vou repetir: sempre e permanentemente. Nós não podemos permitir que a falsa versão se crie e se alastre. Reajam aos boatos, travem a batalha da comunicação, levem a posição do governo à opinião pública, a posição do ministério, a posição do governo à opinião pública. Sejam claros, sejam precisos, se façam entender. Nós não podemos deixar dúvidas.
Por exemplo, quando for dito que vamos acabar com as conquistas históricas dos trabalhadores, respondam em alto e bom som: “Não é verdade! Os direitos trabalhistas são intocáveis e não será o nosso governo, um governo dos trabalhadores, que irá revogá-los.” Quando se levantar a questão da mobilidade urbana em nossas cidades, falem dos R$ 143 bilhões que estamos investindo em 118 municípios de grande e médio porte, em todos os Estados. Quando for mencionada a crise da água, lembrem-se que desde o início desta que é a maior estiagem das últimas décadas, o governo federal apoiou, está apoiando e continuará apoiando, de todas as formas, inclusive com vultosos investimentos, com investimentos elevados, as demandas dos governos estaduais, responsáveis constitucionalmente pelo abastecimento de água.
No Nordeste, nós temos uma carteira de investimentos de R$ 34 bilhões que, além da Integração do São Francisco, inclui a perenização de 1.000 km de rios, novos sistemas de adutoras, açudes e obras que vão assegurar a segurança hídrica na região.
Em São Paulo, estamos autorizando, e já tínhamos autorizado, a partir das solicitações do governador, as grandes obras para ampliar a oferta de água e vamos fortalecer ainda mais nosso apoio a São Paulo.
Oriento os ministros e os dirigentes de órgãos federais relacionados ao assunto que se engajem no esforço dos governos estaduais, notadamente no Sudeste, para vencer a atual situação de insegurança hídrica, e quero enfatizar, com especial atenção, para as regiões Nordeste, como sempre, e Sudeste. Ao mesmo tempo, nós estamos tomando todas as ações cabíveis para garantir o suprimento de energia elétrica.
Senhores ministros, senhoras ministras,
Vamos falar mais, comunicar sobre nossos desafios, nossas iniciativas e nossos acertos. Vamos mostrar a cada cidadão, a cada cidadã brasileira que não alteramos um só milímetro o nosso compromisso com o projeto vencedor na eleição, com o projeto de desenvolvimento que nós estamos implementando desde 2003, um projeto de crescimento com distribuição de renda.
O nosso povo votou em nós porque acredita que somos os mais indicados para fazer o que for preciso para o Brasil avançar ainda mais. O nosso povo votou em nós porque acredita em nossa capacidade e em nossa honestidade de propósitos.
Vamos, a partir da abertura do Congresso, senhoras ministras e senhores ministros, propor uma alteração na legislação para tratar como atividade comum dos entes da Federação as atividades de segurança pública, permitindo à União estabelecer diretrizes e normas gerais válidas para todo o território nacional para induzir políticas uniformes no país e disseminar a adoção de boas práticas na área policial.
Quero fazer alguns comentários sobre um dos maiores desafios vivenciados por nosso país: o combate à corrupção e à impunidade.
Neste segundo mandato, manterei, sem transigir em um só momento, meu compromisso com a lisura do uso do dinheiro público, com o combate aos mal feitos, com a atuação livre dos órgãos de controle interno, com a autonomia da Polícia Federal e com a independência do Ministério Público. Vou chegar ao final deste mandato podendo dizer o mesmo que disse do primeiro: nunca um governo combateu com tamanha firmeza e obstinação a corrupção e a impunidade.
Todos vocês devem atuar sempre orientados pelo compromisso com a correção e a lisura. Espero que enfrentem com firmeza todo e qualquer indício de mau uso do dinheiro público nas áreas sob seu comando. Gostaria de mais uma vez me manifestar sobre a Petrobrás. A Petrobras já vinha passando por um rigoroso processo de aprimoramento de gestão, a realidade atual só faz reforçar nossa determinação de ampliar na Petrobras a mais eficiente estrutura de governança e controle que uma empresa estatal, ou privada já teve no Brasil. Temos que apurar com rigor tudo de errado que foi feito, temos, principalmente, de criar mecanismos que evitem que fatos como esse se repitam, voltem a ocorrer. O saudável empenho da Justiça que já disse, inclusive, no meu pronunciamento quando eu fui diplomada, deve também nos permitir reconhecer que a Petrobras é a mais estratégica para o Brasil e a que mais contrata e investe no país. Temos que saber apurar, temos que saber punir. Isso tudo sem enfraquecer a Petrobras, nem diminuir a sua importância para o presente e para o futuro do país. Temos que continuar apostando na melhoria da governança da Petrobras, aliás, de todas as empresas privadas e das empresas públicas em especial. Temos de apostar num modelo de partilha para o pré-sal, temos de dar continuidade à vitoriosa política de conteúdo local. Temos que continuar acreditando na mais brasileira das empresas, a Petrobras.
Gostaria de falar para vocês agora – podia passar mais rápido, por favor? -, que toda vez que se tentou, no Brasil, toda vez que tentaram, no Brasil, desprestigiar o capital nacional estavam tentando, na verdade… Bom, eu vou preferir ler, sabe? Estavam tentando, na verdade, diminuir a sua independência, diminuir a sua concorrência e nós não podemos deixar que isso ocorra. Nós devemos punir as pessoas e não destruir as empresas. As empresas, elas são essenciais para o Brasil. Nós temos que saber punir o crime, nós temos de saber fazer isso sem prejudicar a economia e o emprego do país. Nós temos de fechar as portas para a corrupção. Nós não podemos, de maneira alguma, fechar as portas para o crescimento, o progresso e o emprego.
E queria dizer para vocês que punir, que ser capaz de combater a corrupção não significa, não pode significar a destruição de empresas privadas também. As empresas têm de ser preservadas, as pessoas que foram culpadas é que têm que ser punidas, não as empresas. Nós defendemos um pacto nacional contra a corrupção, que envolve todas as esferas de governo, todas as esferas de poder, tanto no ambiente público como no ambiente privado. E quero dizer para vocês que nós seremos implacáveis no combate aos corruptores e aos corruptos.
Em fevereiro, eu encaminharei ao Congresso as seguintes medidas, que eu disse durante toda a campanha eleitoral: primeiro, transformar em crime e punir com rigor os agentes públicos que enriquecem sem justificativa ou que não demonstrem a origem dos seus ganhos ou do seu patrimônio; segundo, incluir na legislação eleitoral como crime a prática de caixa 2; terceiro, criar uma nova espécie de ação judicial que permita o confisco de bens adquiridos de forma ilícita; quarto, alterar a legislação para apressar o julgamento de processos que envolvem o desvio de recursos públicos; e quinto, criar uma nova estrutura, a partir de negociação com o Poder Judiciário, que dê maior agilidade aos processos movidos contra aqueles que têm foro privilegiado.
Os brasileiros e as brasileiras esperam de nós um comportamento íntegro. Seremos, em cada um dos dias desse novo mandato, gestores públicos absolutamente comprometidos com a austeridade e a probidade. Vamos honrar cada cidadão e cada cidadã com uma gestão exemplar, que executa com celeridade e eficiência as políticas que vão manter o Brasil na trilha do desenvolvimento.
Caras ministras e caros ministros,
Há também uma grande expectativa da sociedade brasileira, e todos nós sabemos disso, pela reforma política. Colocaremos como prioridade, já neste primeiro semestre, o debate deste tema com a sociedade. Sabemos que esta é uma tarefa do Congresso Nacional, mas cabe a nós impulsionar esta mudança, para instituir novas formas de financiamento das campanhas eleitorais, definir novas regras para escolha dos representantes nas casas legislativas, e aprimorar os mecanismos de interlocução com a sociedade e os movimentos sociais, reforçando a legitimidade das ações tanto do Executivo quando do Legislativo.
Espero de cada um e de cada uma das ministras e dos ministros muito diálogo com o Congresso, com governadores, com os prefeitos e com os movimentos sociais, tal como eu mesma farei. Devemos buscar, por meio do diálogo e da negociação, estabelecer os consensos necessários e os caminhos que produzirão as mudanças de que o país precisa. Só assim construiremos mais desenvolvimento e mais igualdade. Enfim, eu espero de todos muita dedicação, muita cooperação entre os ministérios, muito trabalho. Desejo muita sorte e muito sucesso a todos.
Uma das questões mais importantes é a ação cooperativa entre nós. Saibam, ministros e ministras, que cada um de nós tem também o dever de apoiar todo e qualquer ministro ou agente público, fora de sua área, que executa na verdade os programas que nós todos definimos em conjunto. O Brasil sem dúvida nenhuma espera muito de nós, e eu conto com vocês para que nós honremos todas essas expectativas, cada uma delas, sem exceção.
Muito obrigada por todos. Só antes de terminar eu gostaria de destacar as medidas aqui anunciadas, elas, na sua grande maioria, ou já foram anunciadas e estão já sob a forma de decreto de medidas provisórias ou serão encaminhadas no prazo mais curto de tempo ainda dentro desse semestre. Eu agradeço aos senhores e peço, e desejo a todos nós uma boa reunião”.

GRÉCIA - O que pensa em relação a Europa o Tsipras.

Tsipras: Única maneira da Europa sair da crise é um New Deal Europeu


 

tsipras
“A única maneira da Europa sair da crise é através de um New Deal Europeu”, diz Tsipras
 The Guardian, via Esquerda.Net, sugestão do FrancoAtirador*
O candidato da Esquerda Europeia à presidência da CE participou numa sessão de perguntas e respostas online organizada pelo diário britânico, The Guardian.
Após dezenas de perguntas e centenas de comentários que abordavam a união monetária, a imigração, a abstenção e as respostas da esquerda à crise, Tsipras respondeu às questões dos cibernautas durante um período de 2 horas. Leia aqui as perguntas e respostas.
Pergunta: Porque é que a Syriza não fez mais para denunciar a dúbia auditoria feita pelo Governo que descobriu um superavit primário? E porque é que não atacou a União Europeia por colaborar nesta fraude?
Alexis Tsipras: A Syriza já fez essas denúncias através das declarações públicas e nas perguntas dirigidas à maioria governativa através do parlamento grego. O superavit primário é um artefacto político que tem como base a vontade da troika de manter o Governo de Samaras no poder. Mas isto também demonstra de forma clara que a solução tanto para a Grécia como para a zona euro não será somente técnica, tem que ser política.
P: Tem vindo a afirmar, de forma coerente, a oposição do seu partido ao memorando de entendimento, à austeridade, mas também tem vindo a reafirmar a oposição à saída do euro. Pode explicar-nos como pretende obter a renegociação do memorando de entendimento sem a ameaça da saída do euro?
AT: A senhora Merkel já respondeu a esta questão no Conselho Europeu – em dezembro de 2013 – quando afirmou, de acordo com o diário francês Le Monde que se a Grécia saísse do euro, seria o fim da zona euro. O memorando de entendimento não foi apresentado à Grécia para o salvar, mas como um plano de contenção política por parte da senhora Merkel. Tudo é renegociável quando houver um governo na Europa que se opuser a estes planos.
P: Nos últimos anos temos visto na Europa, como nos Estados Unidos, uma enorme exigência popular de uma “democracia real”, foi assim na Praça Syntagma, na Plaza del Sol entre outros locais. Em primeiro lugar, queria saber a sua interpretação sobre estes movimentos sociais. Segundo, gostava de saber como é que a Syriza irá combater o défice democrático na Europa e quais são os planos para dar aos cidadãos europeus, em particular aos jovens, a esperança de que a democracia não é uma estrutura burocrática que já teve o seu tempo. Isto porque é esta a sensação que a maioria de nós tem.
AT: Os movimentos das ocupações de praças foram uma expressão autêntica da raiva do povo grego. Foram também um grito de ansiedade e desespero contra o retrocesso da democracia, no seu próprio local de nascimento. Os jovens gregos exigiram o direito de não ter outras pessoas a decidirem por eles.
A primeira vítima do memorando da troika foi a democracia. De outra maneira teria sido impossível implementar qualquer uma das medidas de austeridade. É por isso que o nosso slogan é: parar a austeridade para recuperar a democracia.
A Europa não poderá continuar a ser uma entidade de 28 estados membros onde a senhora Merkel decide, sem nenhuma legitimidade democrática.
Queremos que todas as decisões críticas para a Europa sejam ratificadas diretamente pelo povo através de referendos.
P: A abordagem de Guerra Fria que a União Europeia tem tido à crise ucraniana não parece estar a funcionar. Qual é a proposta da Esquerda Europeia sobre este assunto?
AT: A UE tem de tentar restaurar e restabelecer o Acordo de Genebra de 17 de abril e procurar um fim imediato à violência. Também deveria emitir um aviso final ao Governo provisório ucraniano para não voltar a violar os acordos. O massacre na sede do sindicato em Odessa revela os elementos paramilitares e criminosos neonazis dentro do governo ucraniano, que desejam uma Ucrânia “etnicamente limpa”.
Estão a tentar provocar a Rússia para alcançar o seu objetivo. Uma solução viável para a crise na Ucrânia seria a eliminação dos elementos da extrema-direita e neonazis em todos os níveis do Governo.
A paz na Ucrânia será difícil enquanto estes estiverem no poder. A razão é que estes elementos causam a insegurança em todas as minorias étnicas e religiosas no país.
P: Nos primeiros 100 dias de governo, quais serão as medidas específicas da Syriza para combater a descriminação e consagrar igualdade de direitos aos bissexuais, gays, lésbicas e transgénero? Mesmo com a enorme influência política da Igreja Ortodoxa Grega, está disposto a fazer-lhe frente?
AT: A Syriza está comprometida a alcançar igualdade de direitos a todos os cidadãos e cidadãs, independentemente do seu género ou da sua orientação sexual. Apoiámos sempre o movimento LGBTQ nos seus esforços para atingir igualdade.
Para começar, a nossa medida imediata seria reforçar e utilizar as leis existentes contra o discurso de ódio e contra a discriminação. Nós respeitamos a igreja ortodoxa grega, mas achamos que não tem uma palavra decisiva nas questões de política pública e da lei das famílias. Temos que convencer os nossos compatriotas mais conservadores que, antes de mais, isto é uma questão de democracia e de direitos humanos.
P: Se for eleito presidente da Comissão Europeia o que vai fazer para resolver a questão dos imigrantes e refugiados, especialmente na Grécia e na Itália. O que faria para resolver o problemas dos campos de detenção, as suas péssimas condições e as mortes das pessoas que tentam chegar à Europa?
AT: Ontem [5 de maio 2014] tivemos uma notícia trágica que é completamente inaceitável: 22 mortos perto de Samos, incluindo 3 crianças. Estes acontecimentos trágicos no Mediterrâneo – que não são eventos, ocorrem diariamente – vem provar que a política de imigração europeia não funciona.
Falhou em toda a linha. O Mediterrâneo tornou-se num cemitério; isto é uma vergonha do legado europeu. Procuraremos uma reforma imediata da política de imigração, assim como a renegociação do Tratado de Dublin II.
Iremos procurar maneira de arrecadar financiamento para receber os imigrantes e os refugiados dos países europeus fronteiriços, para além da responsabilidade partilhada entre todos os membros da união.
P: A Esquerda tem sido acusada, por políticos como o ministro das Finanças Schaüble, de representarem ideias do passado e que essas mesmas ideias são irrelevantes para a Europa atual. Como responde a isto?
AT: A elite política da Europa trouxe-nos a um beco sem saída. Estas são as pessoas responsáveis por terem atirado a Europa para os tempos do Les Misérables do Victor Hugo. Eles é que são o passado, nós somos o futuro da esperança e da mudança.
P: Qual seria a resposta da Syriza à possível postura agressiva por parte do Banco Central Europeu – já que a Grécia não encontra aliados nos governos do Sul – de maneira a fazer uma frente comum à política de austeridade. Já que a parte mais significativa da dívida grega está no setor público – ao contrário do cenário de 2009 em que estava toda nas mãos do setor provado – isso dá à UE a possibilidade de expulsar a Grécia do euro caso não cumpram as exigências. A Syriza estaria preparada para esta eventualidade?
AT: A mudança política na Grécia será um exemplo para toda a Europa. A renegociação feita por parte do novo Governo de Esquerda grego não será somente feito para o povo grego, mas para toda a periferia europeia.
Os outros governos do sul da Europa serão obrigados pelos seus cidadãos a optarem uma postura semelhante para apoiar o Estado Social e a coesão social e terão que alinhar connosco.
P: Durante a grande depressão de 1929, quando o nível de desemprego era elevadíssimo, o Presidente Roosevelt disse que se o setor privado não pode ou não quer empregar pessoas, não haveria outra maneira senão ser o governo federal a criar emprego. Ele criou 15 milhões de empregos. Pretende criar emprego através do Estado, caso seja eleito primeiro-ministro grego ou como presidente da Comissão Europeia, para países que estejam com um desemprego elevado?
AT: A única maneira da Europa sair da crise é através de um New Deal Europeu. É imperativo abandonar as políticas de austeridade e financiarmos o crescimento ao criar empregos de qualidade. Isto só poderá acontecer com investimento público. Nós vamos exigir um plano Europeu. A crise é europeia, por isso a solução também será europeia.
P: Considera a sua candidatura como pró-europeia ou eurocética? Várias pessoas acusam a Syriza de ser populista. Pode comentar isto?
AT: A minha candidatura e o programa político da Syriza, representam a única resposta democrática ao populismo da direita eurocética. As políticas dos partidos do poder (partido socialista europeu e o partido popular europeu) estão a levar a Europa ao desespero, viraram os povos europeus contra a UE e estão a criar as condições para a ascensão dos partidos da extrema-direita. A causa do euroceticismo é o neoliberalismo.
P: Como é que vai convencer os países do Norte que a solução europeia seria algo no interesse da Europa do Norte?
AT: Se mantivermos a austeridade, o Norte da Europa terá que continuar a financiar as dívidas do Sul, que continuam a crescer, o que só irá beneficiar os bancos. Uma solução verdadeiramente viável para a crise das dívidas europeias, requer que os países possam crescer e sair da recessão em que se encontram.
Isto é uma situação que ficamos todos a ganhar na Europa e não só o sul. Apoiamos a ideia de uma reflexão coordenada de todas as economias europeias.
P: Nos últimos 5 anos, o GUE/NGL e a Esquerda Europeia têm sido invisíveis no seu trabalho parlamentar, tanto em Bruxelas como em Estrasburgo. Por exemplo, os Verdes tiveram êxito em atrair mais atenção para o seu trabalho sobre o ACTA, a vigilância global, o Tratado Transatlântico entre outros. Estão a planear dar mais visibilidade à Esquerda Europeia e se sim, como vão fazer isso?
AT: A visibilidade da Esquerda Europeia irá crescer quando duplicar a sua força eleitoral, tornando-se num ator incontornável no próximo Parlamento Europeu. Contudo, eu não concordo consigo quando diz que a esquerda foi invisível. Pelo contrário, foi a única força política que resistiu à integração neoliberal da Europa e as suas previsões sobre a crise estavam corretas.
Por outro lado, os Verdes consentiram as reformas estruturaisneoliberais. Sobre o Tratado Transatlântico – que é um assunto muito importante – nós pretendemos combatê-lo em conjunto com outras forças políticas. Se for ratificado e implementado, a Europa estará a dar um tiro no seu próprio pé.
P: É bom saber que existe um partido, a Syriza, que se preocupa com as pessoas mais pobres. Mas na minha perspetiva a “linha divisória” é feita entre pobres e ricos, em que os ricos utilizam o seu poder para controlar e atacar os mais pobres. Irá atacar os ricos?
AT: Nós não só nos preocupamos com os pobres, nós somos o partido dos pobres. Não só porque metade da Grécia foi empobrecida pelas medidas de austeridade, mas porque nós temos mais força política nos bairros mais pobres, que são a nossa base eleitoral. A nossa primeira prioridade será a implementação de medidas que ajudem os pobres a conseguirem levantar-se economicamente.
A Syriza é o único partido na Europa, que estando numa posição de poder ser eleito governo, tem no seu programa uma redistribuição massiva de rendimentos dos ricos para os pobres.
P: Acredita que um referendo seria o mecanismo mais apropriado para medir e avaliar o que o povo grego acha sobre a UE e a sua permanência?
AT: Um referendo é um meio para as pessoas expressarem as suas posições e a sua vontade crítica nas decisões políticas. Agora, ninguém coloca a questão da participação da Grécia na UE em cima da mesa. A Grécia não coloca essa questão, nem os seus parceiros que sabem que no dia em que a Grécia sair do euro a zona euro deixa de existir.
P: Se a Syriza quer ser o próximo governo, devem colaborar com outros partidos e outros políticos. Quais são as vossas “linhas vermelhas”?
AT: Nós estamos confiantes que na próxima legislatura, a Syriza terá a maioria necessária para formar um Governo e implementar o nosso programa político. Nesse caso, procuraremos a cooperação com outras forças políticas, porque os problemas que o país enfrenta são severos.
Estamos certos que outras forças políticas juntar-se-ão a nós no combate à austeridade, na luta para anular grande parte da dívida e torná-la sustentável, para implementar o nosso programa nacional de desenvolvimento, para resgatar o país e criar um caminho para as futuras gerações.
P: Dado que o Parlamento Europeu tem poderes muito limitados para definir e moldar as políticas fundamentais na UE, é racional para os cidadãos votarem nestas eleições? Qual é a sua posição sobre o papel do Parlamento Europeu no processo de decisão?
AT: Maio de 2014 irá oferecer-nos uma oportunidade geracional de redefinir a Europa para melhor. Esta oportunidade tem que ser agarrada. Estas eleições são únicas. São as primeiras eleições europeias desde o saque recessivo da austeridade e dos memorandos falhados numa Europa que é imposta pela senhora Merkel e pelos seus aliados. Senão participares nas eleições estás a permitir que aqueles que não querem que nada mude decidam por ti. Não podemos ter a mudança que queremos se os jovens se abstiverem de votar nas eleições europeias.
O Parlamento Europeu é mais fraco daquilo que deveria ser, mas legalmente está mais forte do que nos anos anteriores. É o único instrumento que os cidadãos europeus têm para induzir uma mudança. A mensagem política de uma vitória eleitoral da Esquerda Europeia é que não podem ser subestimados nem ignorados na Europa.
Mais uma vez, é verdadeiramente urgente que toda a gente vote. Senão a senhora Merkel irá continuar com o seu plano de austeridade permanente na Europa.
PS do Viomundo: Esta entrevista, de quando Tsipras foi candidato à Comissão Europeia, permite conhecer os pontos-de-vista do recém escolhido primeiro-ministro da Grécia.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

POLÍTICA - A aposta do PIG no Eduardo Cunha.







               

Como a boa fama do deputado federal Eduardo Cunha (o probo), candidato da mídia hegemônica à presidência da Câmara, atravessa fronteiras e pode prejudicar sua candidatura o jornal O Estado de S. Paulo de 28/1 estampa manchete na página A8 onde informa: “Cunha e Chinaglia compartilham doador”, como se dissesse: “é tudo uma coisa só”.


Dos doadores em comum o probo recebeu um total de R$ 1.7 milhão, enquanto Chinaglia recebeu R$ 400 mil, apenas 23,52% do que auferiu o deputado do PMDB. O probo arrecadou em sua campanha, conforme declarado ao TSE, R$ 6,8 milhões, quase quatro vezes a arrecadação de Chinaglia. Entretanto, mais importante do que esses números são os compromissos políticos de cada um, relativos à reforma política por exemplo. Chinaglia já declarou apoio à reforma com proibição de doações eleitorais de empresas, coisa que nem passa pela cabeça de Eduardo Cunha. Mas para o “ético” Estadão isto não importa. O que importa é derrotar a Dilma.

Nêumanne e o complexo de vira-latas

O articulista do jornal O Estado de S. Paulo José Nêumanne, (“jornalista”, “poeta” e “escritor”), destila veneno e preconceito em sua coluna de 28/1. Começa criticando a presidenta Dilma por ter preferido ir “à posse do cocalero Evo Morales” e assim desperdiçado a chance de “aprender com o Europeu” primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, e cita uma fala do político italiano em Davos, fala absolutamente banal, mas que encantou o articulista (quem tiver curiosidade veja no final das notas). Pouco importa para J. Nêumanne que a Itália ostente mais de 13% de desemprego (no Brasil o índice é menor do que 5%) e que a economia italiana esteja em recessão desde 2008, tendo em 2014 registrado crescimento negativo de - 0.10 (no Brasil foi + 0.10). O que interessa é que o EUROPEU falou e portanto, deve-se no mínimo uma reverência. Ou você quer comparar um EUROPEU com um simples “cocalero”, mesmo que o cocalero em questão seja um presidente em sua pátria, eleito três vezes por seu povo, na última vez com mais de 61% dos votos (sem contar o referendo que ele ganhou com mais de 67%)? A nossa mídia hegemônica parece não exigir hoje dos seus colaboradores talento ou inteligência (atributos que muitos reacionários têm), basta a adesão total.

Nêumanne e a adesão total

A adesão de Nêumanne à linha editorial do jornal é tamanha que ele afirma que o 1º governo da Dilma “foi o pior da história”. Com certeza ele preferiu os governos da ditadura militar, regime que o Estadão defendeu com tanto zelo. O “escritor e poeta”, chegando ao ápice da manipulação, condena a “crise diplomática” promovida por Dilma para evitar que o brasileiro Marco Archer fosse fuzilado, perfilando-se aos que defendem a tese fascista de “bandido bom é bandido morto” (frase com a qual muito bandido se disfarça), mas chama de “fascistoide” o governo brasileiro por usar lemas como “alma coletiva” e “pátria educadora”.

Dora Kramer e Cantanhêde: as colunistas amestradas

Não se pode falar em adesão total à linha do patrão sem mencionar Dora Kramer e Eliane Cantanhêde, também colunistas do ilibado jornal O Estado de São Paulo, defensor dos direitos humanos (mas que apoiou a ditadura militar) e da liberdade de expressão (mas que defendeu a censura). Quem tem a desventura de ler diariamente a produção das jornalistas, seja por prazer (masoquista) ou por dever (insalubre) acompanha há anos a mesma toada, quase com as mesmas palavras: “pau no Lula, na esquerda, no PT e na Dilma”. Não existe variação de tom. Na edição de 28/1, analisando a fala da presidenta na reunião de 27/1 com os ministros, Dora reclama que “Dilma nada disse de essencial” (logo ela, que nada escreve de essencial). Mas o destaque é para sua colega. Cantanhêde reclama que Dilma “reapareceu como se nada tivesse acontecido” (?). Mas o que aconteceu? A Dilma foi cassada? O Brasil foi invadido? Porque os temas da conjuntura nacional, todos eles (ajustes, crise hídrica, luta de ideias, etc) foram abordados na fala presidencial. O que cabe a Eliane, como boa colunista amestrada, é discordar de tudo ou quase tudo que a presidenta disse, mas além disso a colunista queria que a presidenta aparecesse de olhos baixos, descabelada e talvez até pedisse desculpas ao Estadão por ter lutado contra a ditadura que o jornal apoiava.

Abrindo o jogo

Conforme é do conhecimento público, a cruzada do juiz Sergio Moro é por “deslegitimar a política” tese que ele defende publicamente e por escrito. Mas “deslegitimar a política” é uma atitude política a serviço de fins políticos. Qual seja, como não conseguem ganhar no voto, os perdedores usam de seu poder no judiciário e em outros espaços do aparelho estatal aonde preservam a hegemonia para um “golpe branco”. Os mesmos instrumentos estatais ágeis para denunciar e até prender quando se trata de atingir aliados do governo federal, são lenientes e omissos quando quem está envolvido é um “amigo” da oposição. Estes amigos contam com a blindagem da mídia hegemônica, que depois de Joaquim Barbosa elege agora Sergio Moro como novo herói. Quem tinha alguma dúvida disso, leia a coluna de Elio Gaspari publicada em O Globo e na Folha de S. Paulo de 28/1. Com algum disfarce e prudência está lá nítida a estratégia sonhada pelo establishment midiático e seu braço político para o “golpe branco” na esteira da operação Lava a Jato.

Põe a mão na consciência Ancelmo

Ancelmo Gois, em sua coluna de O Globo (28/1) pede que Gilberto Carvalho ponha “a mão na consciência” e desista de defender José Dirceu, que para o colunista é indefensável. Aproveitamos a deixa e deixamos aqui também um apelo ao próprio Ancelmo: Ancelmo, você é ético, mas trabalha em uma empresa de comunicação que acobertou todas as falcatruas dos governos tucanos. Ancelmo, você ainda fala com seu colega Amauri Ribeiro Jr? Se você não se lembra, ele trabalhou em O Globo e ganhou dois prêmios Esso. Peça para ele o livro Privataria Tucana, que ele escreveu. Ele deve ter algum sobrando, caso você esteja duro. Você, que preza tanto a ética, vai ficar horrorizado. E a fraude da Globo contra a receita federal, Ancelmo? Com direito até a abertura de empresa em paraíso fiscal (Ilhas Virgens)? Temos certeza de que você não sabia. Deixe a Globo e junte-se a nós na luta contra a mídia hegemônica, ganha-se pouco mas a luta vale a pena. Põe a mão na consciência Ancelmo!

Evo Morales e Salman

A mídia hegemônica conseguiu criticar a presidenta por ter ido à posse de um estadista da América Latina, Evo Morales, mas o beija mão que o presidente estadunidense, Obama, foi fazer ao Rei Salman, novo déspota da Arábia Saudita, foi registrado pelos jornalões (28/1) de forma simpática. Como convém a uma mídia invertebrada.
Energia

Vejam como o jornal O Estado de S. Paulo, de 23/1, noticiou a importação de energia que o Brasil fez da Argentina. Letras garrafais no topo da página.


Energia II
Agora, vejam como o mesmo Estadão noticia (28/1) que o Brasil já devolveu boa parte. Segundo o Estadão o Brasil ainda deve 9MWh aos argentinos. Colocamos uma seta mostrando um canto lá em baixo à esquerda. Não viram? O objetivo (do jornal) era este mesmo.




O Globo e suas manchetes

A fala da presidente Dilma, independente de qual a avaliação que se faça do conteúdo, enfrentou os principais temas da conjuntura. Mas a manchete calhorda de O Globo, 28/1, na página 3 foi: “Em defesa das empreiteiras”. Parece até que o PSDB e o DEM encomendaram um panfleto.

* Frase do primeiro ministro italiano que encantou Nêumanne (veja a 2ª nota): “Há uma janela e um período de oportunidade excepcional e o papel dos políticos é atender o momento, carpe diem, em que podemos escolher o futuro”. Brilhante.Colabore com o Notas Vermelhas: envie sua sugestão de nota ou tema para o email wevergton@vermelho.org.br

PETROBRAS - Recompra das ações.

Não sei se existe algum impedimento legal ou outro qualquer, porém, porque o Brasil não faz o mesmo que o governo russo? Recompra as ações da Petrobras.

De um limão, pode-se fazer uma limonada. Escândalos de corrupção na Petrobras estampam as capas dos jornais, dominam os noticiários televisivos e tomam contam das ruas. Em meio a tantas denúncias, a imagem da empresa sai arranhada. Mas existem meios de virar o jogo a favor do povo brasileiro.

A opinião pública não consegue distinguir claramente. Mas existe uma grande distância entre corruptores,  gerentes corruptos; e os  trabalhadores que dedicaram os melhores anos de suas vidas para fazer da companhia uma potência. Recentemente   a Petrobrás se tornou a maior produtora de petróleo entre as empresas de capital aberto no mundo, superando a norte-americana ExxonMobil no terceiro trimestre de 2014. A ExxonMobil produziu 2,065 milhões de barris de petróleo por dia (bpd) no terceiro trimestre, enquanto a Petrobrás alcançou a marca de 2,209 milhões de barris/dia no mesmo período. Esse é apenas um exemplo daquilo que a Petrobras representa, apesar dos maus políticos, maus gestores e maus empresários.

Quem, de fato, coloca os interesses do Brasil e dos brasileiros acima de tudo, deve apoiar a punição dos criminosos do colarinho branco, mas preservar a empresa que promove o desenvolvimento do país e gera tantos empregos. No momento em que chegam a valores tão baixos, o governo deveria comprar de volta as ações que nunca deveriam ter sido vendidas.

Deu certo na Rússia. Diante de uma crise semelhante, o governo russo recuperou 30% dos seus ativos de petróleo e gás, que foram detidos pela Western financeira. "A Rússia fez uma jogada de xadrez inesperado", descreveu o jornal InSerbia, da Sérvia, ao comentar a recompra, pelo governo russo dos papéis desvalorizados pela queda do rublo e pela ação de especuladores

É uma ilusão, que está sendo vendida ora velada ora abertamente,  acreditar que a privatização é o melhor caminho. Grande parte da mídia está fazendo esse jogo. Alguém acredita que não existe corrupção nas empresas privadas? Basta dizer que os principais  corruptores são os empresários do setor privado.

Mas a condição de público ou privado não é o fator que determina os desvios de recursos da empresa.  O controle social é a melhor forma de minimizar a ação dos corruptos e corruptores. A Petrobras deve se manter estatal, por seu papel estratégico, mas sendo fiscalizada pelos trabalhadores. Isso é fundamental para que os interesses nacionais estejam acima dos interesses de grupos privilegiados – os mesmos que continuarão a se locupletar, se a tese da privatização vingar.

Quem tem compromisso com o crescimento e a seriedade da Petrobras é o povo brasileiro, sobretudo seus milhares de trabalhadores diretos e indiretos. A própria criação da empresa, em 1953, foi o resultado da mobilização popular que ganhou o país e forçou a adoção do monopólio estatal do petróleo.

Também não é justo tratar a corrupção na Petrobras como “novidade”. É coisa antiga a apropriação do público pelo privado, por meio de benesses a empresários e políticos, em detrimento dos interesses do povo e da nação brasileira.  Tão antiga quanto os traços de clientelismo e fisiologismo que permeiam a sociedade brasileira desde sempre. E que devem ser combatidos.
Mas se está empenhada em fazer justiça e mudar essa cultura, a sociedade precisa cobrar com o mesmo empenho a apuração da denúncia de pagamento de propina no metrô de São Paulo; a construção, com dinheiro público, do aeroporto no município de Claudio, em Minas Gerais, pelo então governador Aécio Neves, em terras de sua própria família, com dinheiro público. Sem falar nos escândalos da privataria tucana, soterrados pela mídia.


Toda a sociedade civil, organizada ou não precisa tomar as ruas e as redes sociais, exigindo a punição exemplar dos corruptos e corruptores, com o confisco dos bens dos mesmos, venham de onde vierem. O caminho da moralização é a volta do monopólio estatal, com a Petrobrás 100% nacional e pública, com a reintegração de todas as suas subsidiárias e sob controle dos trabalhadores.
 
Lucas Ferreira, Diretor do Sindipetro/RJ

GRÉCIA - Diferentemente do que ocorreu no Brasil.


28/01/2015 - Copyleft

No primeiro dia, governo grego cancela privatizações

Energia, portos e aeroportos não serão privatizados como mandava a Troika, e o governo fornecerá energia gratuita a 300 mil famílias que não podem pagar.


   

matthew_tsimitak / Flickr
O novo ministro da Energia da Grécia, Panagiotis Lafazanis, anunciou esta quarta-feira que vão ser cancelados os planos de privatização da Empresa Pública de Energia (DEH, sigla em grego), da qual o Estado grego ainda é o acionista maioritário.

Energia gratuita a 300 mil lares A chamada “liberalização do mercado energético” foi uma das condições impostas pela troika à Grécia. O governo anterior tinha aprovado legislação para vender 30% da empresa aos grupos privados, mas o Syriza prometera durante a campanha cancelar esse e outros planos de privatização. A promessa está assim a ser cumprida no primeiro dia do governo liderado por Alexis Tsipras.

Lafazanis disse ainda que a eletricidade e o gás natural são muito caros na Grécia e não ajudam os cidadãos, anunciando que o governo vai preparar um novo plano para a energética. Para já, disse o ministro, o governo irá fornecer energia gratuita a 300 mil lares de famílias que viram o fornecimento cortado por não conseguirem pagar as contas.

Porto do Pireu também não será privatizado

Também a privatização do porto do Pireu, o maior da Grécia, foi suspensa. O governo anterior estava a vender 67% da Autoridade Portuária do Pireu ao Grupo Cosco (chinês). “O negócio com o Cosco será revisto em benefício do povo grego”, disse o vice-ministro Thodoris Dritsas, esclarecendo que o caráter público do porto do Pireu será mantido.

Também o ministro adjunto para a Infraestrutura, Christos Spirtzis, anunciou o cancelamento da privatização de infraestrutuas, como os aeroportos. Entre outras medidas, o governo anterior previra a privatização de 14 aeroportos regionais e a venda de milhares de hectares do antigo aeroporto de Atenas.

PETROBRAS - Que a urubóloga não leia isso.


"PETROBRAS TEM FUTURO INTERESSANTE NA BOLSA"



"PETROBRAS TEM FUTURO INTERESSANTE NA BOLSA"

"A análise é da corretora 'Coinvalores', que leva em consideração que as cotações do barril de petróleo irão manter a exploração comercial do pré-sal viável; que nem a estatal e tampouco o Brasil deixarão de ser grau de investimento; e que a diretoria de governança, risco e conformidade da estatal irá desempenhar papel importante. Segundo a corretora, tanto a Petrobras como o setor de petróleo terão futuro interessante,

Por Arthur Ordones

SÃO PAULO – Apesar de toda a volatilidade e da forte queda recente, por conta dos escândalos de corrupção com que envolvem a Petrobras (PETR4), de acordo com a "Coinvalores", se assumirmos que as cotações do barril de petróleo irão manter a exploração comercial do pré-sal viável; que nem a estatal e tampouco o Brasil deixarão de ser grau de investimento; e que a diretoria de governança, risco e conformidade irá desempenhar papel importante; tanto a Petrobras, como o setor de petróleo terão futuro interessante.

O setor de petróleo vive mais um momento histórico e, desta vez, a queda de preços é notícia. Mesmo com a situação não sendo das melhores no oriente médio e norte da África, em 2014 ficou bem claro que estamos diante de um movimento de queda estrutural dos preços de petróleo. Não por conta de uma tendência de paz mundial, mas por condições estruturais de oferta e demanda. Não custa lembrar, que, após o segundo choque do petróleo de 1979, o preço médio do barril "explodiu" chegando a US$ 40, e atualmente as cotações entre de US$ 70 e US$ 80 têm preocupado.

É notório que a comparação acima foi meramente ilustrativa, sobretudo porque se tratam de momentos históricos distintos. Também é verdade que ao longo do tempo a tecnologia avançou, novos produtores surgiram e novas reservas foram descobertas, o Brasil que o diga. A questão é que daqui para a frente, o fator "geopolítico" na precificação do ouro negro deve ser cada vez menor. Nesse sentido, destaca-se a produção dos EUA, que associada a outros fatores modificaram dramaticamente o cenário de precificação do petróleo.

O "turn point" da produção norte-americana originou-se há pouco mais de uma década atrás, quando algumas empresas desenvolveram sistemas de exploração combinando perfuração horizontal com a tecnologia do fraturamento hidráulico. Entre 2008 e 2012, a produção de "shale gas" cresceu mais de 10 vezes, enquanto que, no caso do petróleo, a produção de fontes não-convencionais aumentou quase quatro vezes entre 2008 e 2013, segundo relatório da Associação Nacional do Petróleo (ANP).

Assim, daqui por diante, a corretora espera continuidade de crescimento da produção dos EUA, alguma resistência por parte dos países pertencentes à OPEP, que de forma alguma querem perder mercado para os norte-americanos, ao menos no curto prazo, refletindo-se em continuidade de pressão nas cotações.

A questão em voga é interpretar as consequências da decisão tomada pela OPEP de não diminuir a oferta de petróleo. Países como Venezuela, Irã, Rússia e Líbia, por exemplo, são economias em que as receitas do petróleo são parte importante do orçamento público. Caso o patamar de preços continue muito baixo, pode haver maior pressão por parte desses países para que os outros países produtores decidam pela redução da oferta. Resta saber se até o meio deste 2015 (quando haverá o próximo encontro da OPEP) os EUA continuarão aumentando sua produção. Se continuarem na mesma toada, serão os novos "agentes estabilizadores"; caso contrário, poderemos observar alguma recuperação de preços, tanto por conta de menor avanço produtivo nos EUA como por "pressões de orçamento público" de países da OPEP.

Assim, no curto/médio prazo, a pressão sob as cotações permanece e, no longo prazo, o dilema "share" no mercado de petróleo versus saúde econômica dos países da OPEP pode determinar um cenário de sustentação de preços num patamar um pouco maior. Estimativas da "U.S. Energy Information Administration" (EIA) indicam que os preços ficarão em torno de US$ 70/barril ao longo de 2015. 


Nesse contexto, a Petrobras se beneficia no curto prazo, incorrendo em menores custos de importação de derivados (segmento de abastecimento que tem sido o "tendão de Aquiles" da companhia há um bom tempo), mas pode ver-se numa situação complicada (de redução de investimentos e até inviabilidade da exploração do pré-sal) no longo prazo, caso as cotações atinjam patamares muito mais baixos. Não é o caso. O "número mágico" da Petrobras gira em torno de US$ 50/ barril [A Petrobras já informou valores menores]. Cotações acima desse valor mantêm a viabilidade da exploração do pré-sal.

A "Coinvalores" lembrou ainda que o plano de investimentos da companhia para os próximos 5 anos é de US$ 220,6 bilhões, sendo que cerca de 70% desse montante destina-se somente à exploração e produção. Além desse "detalhe", alguns outros problemas se colocam, a saber: Divulgação do balanço auditado; Risco de perda do grau de investimento; Atualização / Diminuição do plano de investimentos ao longo dos próximos anos. Até o desfecho dessas situações, a companhia deverá sofrer em bolsa, sobretudo pela desconfiança desencadeada pelos "escândalos de corrupção" [envolvendo seus fornecedores e ex-diretores. Muito amplificado pela mídia e oposição, que defendem interesses de petrolíferas estrangeiras, especialmente dos EUA]. Enquanto isso, o setor continua sendo destino da maior parte dos investimentos previstos para 2015. Segundo expectativas do BNDES, no horizonte 2015-2018 deve haver investimentos da ordem de R$ 509 bilhões, crescimento de 42,1% frente ao realizado entre 2010 e 2013."


FONTE: escrito por Arthur Ordones no "Infomoney". Transcrito no jornal digital "Brasil 247"    (http://www.brasil247.com/pt/247/economia/167485/%E2%80%98Petrobras-tem-futuro-interessante-na-Bolsa%E2%80%99.htm).[Trechos entre colchetes acrescentados por este blog 'democracia&política']

PETROBRAS - Resposta aos críticos do regime de partilha do pré-sal.


Não confunda alhos com bugalhos

           
                

Diretoria da AEPET responde aos críticos do regime de partilha da exploração do pré-sal
 
Em relação à Petrobrás e a correlação oportunista e descabida entre as revelações da operação Lava Jato e o regime de partilha da exploração do pré-sal, com garantia de participação mínima de 30% e operação única pela estatal. Esse artigo é um contraponto aos repetitivos editoriais, artigos de opinião e de “notícias”, melhor definidas como propagandas, que têm sido divulgadas pelos meios empresariais de comunicação no Brasil. Em especial, um esclarecimento ao senhor Sacha Calmon que assina o artigo “Quem tudo quer, tudo perde” no caderno de opinião do Jornal o Estado de Minas em 18/01/15 [1].
 
Pode-se criticar a mídia empresarial e seus porta-vozes com diversos argumentos, mas esse pequeno grupo de brasileiros não pode ser chamado de incoerente. Têm sido historicamente coerentes contra a Petrobrás, mesmo antes da sua criação, fruto de uma das maiores mobilizações populares da história da república, a campanha “O Petróleo é Nosso”. Sempre promovendo a propaganda de que primeiro, não haveria petróleo no Brasil, e depois de que não seriamos capazes técnica, econômica e financeiramente de produzi-lo com recursos brasileiros. Mais de 60 anos após a criação da Petrobrás e mesmo com seu pleno sucesso em abastecer e desenvolver o mercado brasileiro, eles ainda mantêm o oportunismo e o histórico viés entreguista ocupando os meios privados de comunicação. Desde a linha editorial do Estado de S. Paulo na época da criação da Petrobrás[2] ao artigo a que já fiz referência, as argumentações podem ser entendidas como resultado do interesse material, do sentimento antinacional ou, na melhor das hipóteses, da ignorância de uma elite que insiste em manter características coloniais sob o velho eufemismo da “defesa da modernidade”.
 
Existem diversos modelos de regulação da atividade petroleira, foram e são utilizados em diferentes países, atendendo a vários interesses que disputam no interior dos estados nacionais, e na geopolítica internacional, a sua hegemonia ante os demais.
 
O modelo do monopólio estatal exercido pela Petrobrás desde sua criação foi um absoluto sucesso até 1997 (quando, através da lei 9.478/97, foi regulamentada a quebra do monopólio, aprovada pelo Congresso em 1995). O desenvolvimento das forças produtivas da indústria, liderado pela Petrobrás, e o desenvolvimento de tecnologias de ponta, reconhecidas internacionalmente, na produção de petróleo em águas profundas, além do domínio das principais tecnologias de refino são provas indeléveis do sucesso do modelo. Com o monopólio o país descobriu e desenvolveu uma nova fronteira exploratória em termos mundiais, o petróleo sob águas profundas. Também implantou todo o parque de refino e petroquímico responsável pela industrialização nacional.
 
Em 1995, o governo FHC, em polêmica medida alvo de julgamento controverso no Supremo Tribunal Federal quebrou o monopólio constitucional da União exercido pela Petrobrás. Desde então a Petrobrás passou a disputar ou se associar a outras companhias nacionais e internacionais para garantir o acesso a novas reservas de petróleo. Ainda nesse modelo, a Petrobrás investiu e assumiu o risco de procurar petróleo em nova fronteira exploratória, a camada do pré-sal. Mais uma vez teve sucesso e liderou a indústria internacional no desenvolvimento de campos nunca alcançados. O sucesso no pré-sal deve ser entendido como o sucesso do desenvolvimento tecnológico obtido durante os 42 anos do monopólio estatal sem o qual não haveria sido possível edificar o conhecimento hoje a serviço da companhia.
 
Com tamanha descoberta responsável pelo aumento ainda não plenamente quantificado mas estimado em mais de 5 vezes da reserva nacional de petróleo, e conhecido o seu baixo risco exploratório, o governo Lula decidiu reavaliar o marco regulatório da exploração petrolífera.
 
Foi adotado para o pré-sal o regime de partilha no qual a União possui maior participação na propriedade do petróleo produzido. Foi garantida participação mínima de 30% e a operação única para a Petrobrás, principal responsável pela descoberta da riqueza em disputa. Sem dúvida um avanço em relação ao regime anterior, o das concessões, mas ainda aquém do bem sucedido monopólio exercido durante 42 anos pela Petrobrás. O juízo de valor, na comparação entre os diferentes modelos, expresso nesse artigo diz respeito ao interesse popular, da maioria da população, dos chamados 99% em contradição com o dos 1% que no Brasil e no mundo concentram cada vez mais poder econômico e político.
 
A sabedoria dos portugueses é realmente exemplar e suficiente para nos dispor de muitos ditados entre os quais pode-se escolher aqueles de nosso interesse particular e apresentar ao conjunto da sociedade como de interesse geral. Foi isso o que fez, de forma consciente ou não, o senhor Sacha Calmon e não cabe aos portugueses nenhuma responsabilidade. Escolho o ditado “Não confunda alhos com bugalhos” mas aqui apresento os argumentos que sustentam o interesse da maioria dos brasileiros e não escondo que são contraditórios ao interesse de uma minoria que sempre se compôs com a exploração de nossas riquezas, em benefício do império e dos centros do capitalismo, desde a colônia à república.
 
Não conheço nenhuma criança que confunda o céu e o mar. Da mesma forma que não vejo sentido na identificação “disfuncional” ao regime de partilha que é utilizado amplamente em diversos países do mundo. A descoberta do pré-sal não pode ser creditada a terceiros pois foi feita pela Petrobrás, com tecnologia e recursos próprios e assumindo todos os riscos da empreitada em fronteira antes inexplorada mundialmente. Com a descoberta do pré-sal, pela Petrobrás, estima-se que as reservas brasileiras se multiplicaram por cinco. Para garantir o atendimento ao nosso mercado não são necessários novos leilões em benefício de empresas multinacionais.
 
Em qualquer corporação de natureza privada, os acionistas têm apenas dois objetivos, obtenção de dividendos ou crescimento refletido no valor patrimonial das ações. A Petrobrás é uma empresa estatal e tem outros objetivos, de caráter social, como a garantia de abastecimento do mercado nacional, o controle de preços evitando volatilidade internacional no mercado interno, e o desenvolvimento de fornecedores, de tecnologia e do emprego qualificado no Brasil. O colunista do Estado de Minas lista defeitos na gestão em prol do interesse dos acionistas, não necessariamente no atendimento ao interesse social, da maioria dos brasileiros, do qual também existiram falhas nos governos Lula-Dilma. Entre as graves falhas, a fragilidade da Petrobrás na relação com fornecedores de bens e serviços, empresários cartelizados que fraudaram a Petrobrás como tem sido revelado pela Operação Lava Jato.
 
A estratégia e o planejamento energético de um país soberano devem ter como objetivo primordial o atendimento as necessidades nacionais. O número de poços perfurados por ano não é um bom indicador da qualidade do planejamento energético. A relação entre a reserva e a produção é um indicador muito mais adequado e neste aspecto o Brasil avançou muito com a descoberta, pela Petrobrás, do pré-sal. A alta produtividade dos poços do pré-sal, operados pela Petrobrás, demonstram que o domínio tecnológico alcançado pelo Brasil permite que com menor número de poços, e de investimentos, se possa produzir mais em termos proporcionais. Neste aspecto, o melhor indicador seria produção por poço e não número de poços perfurados por ano.
 
A Petrobrás, em seu mais recente planejamento estratégico e de negócios, priorizou os investimentos na Produção em comparação com os investimentos relativos em Exploração (procura de petróleo), ao Abastecimento (refino) e outros. A decisão visa atender um ambicioso programa de investimento com o objetivo de acelerar a curva de produção e a geração de excedente para exportação até 2020. A decisão é questionável mas não sob os aspectos do interesse das multinacionais prestadoras de serviços instaladas no Brasil. É necessário revisar o plano no sentido de atender o interesse e as necessidades da maioria dos brasileiros no curto, médio e longo prazos. O que atualmente caracteriza os preços do petróleo no mercado internacional é sua oscilação e não os seus preços altos ou baixos. O custo de produção tem aumentado enquanto a capacidade da economia mundial em arcar com eles não é ilimitada, este é o fato novo, a questão do nosso tempo.
 
Todos os gestores responsáveis por atos lesivos à Petrobrás, em benefício de empresários corruptores, organizados em cartel, para obter contratos super lucrativos, devem responder à lei. Que sejam julgados e, se comprovados os delitos, punidos os corruptos e corruptores. Que os recursos desviados sejam ressarcidos à Petrobrás. O oportunismo de reclamar por novos leilões ou pela mudança do regime de exploração do pré-sal não se justifica, é confundir alhos com bugalhos.
 
A Petrobrás é a maior produtora mundial de petróleo entre as companhias com ações negociadas em bolsa de valores, tendo recentemente ultrapassado a ExxonMobil. O endividamento da companhia corresponde ao maior potencial exploratório descoberto no mundo recentemente. A aceleração acentuada da curva de produção, com o objetivo de exportação, deve ser questionada mas as perspectivas da Petrobrás são melhores do que todas as demais companhias de capital aberto. O endividamento e o desinvestimento são a realidade da indústria internacional do petróleo, a Petrobrás reúne melhores condições graças a qualidade do seu corpo técnico e ao potencial natural brasileiro. Patrimonialismo é subjugar a Petrobrás ao interesse de curto prazo de alguns acionistas, empresários cartelizados, multinacionais do petróleo ou ao sistema financeiro. Defender a Petrobrás e coloca-la a serviço da maioria dos brasileiros. Corruptos, corruptores e entreguistas não passarão!
 
[1] http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2015/01/18/interna_politica,609169/quem-tudo-quer-tudo-perde.shtml
[2] A criação da Petrobras nas páginas dos jornais O Estado de S. Paulo e Diário de Notícias, dissertação de Celso Carvalho Jr http://memoria.petrobras.com.br/artigos-e-publicacoes/a-criaao-da-petrobras-nas-paginas-dos-jornais#.VMZkCmA5BlY