De Witzel à Lava Jato, a tara justiceira por atingir pessoas na cabeça
"Precisamos atingir Lula na cabeça (prioridade número 1)." Em uma troca de mensagens entre membros da operação Lava Jato, uma procuradora da República deu a sugestão acima, em 5 de março de 2016, logo após a repercussão negativa pela desnecessária condução coercitiva do ex-presidente.
Mesmo em sentido figurado, não deixa de ser chocante.
Também disse que se os colegas tentassem "atingir ministros do STF", a corte se juntaria contra a operação. Portanto "tá de bom tamanho" atingir "o ministro mais novo do STJ [Superior Tribunal de Justiça]". E reafirmou que Lula e o senador Renan Calheiros (MDB-AL) eram essenciais para "vencermos as batalhas já abertas".
A defesa de Lula levou essa troca de mensagens ao conhecimento do Supremo Tribunal Federal, através de uma petição, segundo informou, nesta sexta, a coluna de Monica Bergamo, na Folha de S.Paulo.
Até guerras são regidas pela Convenção de Genebra. Contudo, no dia a dia do Brasil, vale tudo - o que ficou registrado ao longo da publicação dos diálogos da Lava Jato pelo site The Intercept Brasil e outros veículos da imprensa e, agora, com uma quantidade muito maior de mensagens obtidas por hackers e apreendidas pela operação Spoofing.
Essa história de atingir alguém na cabeça lembra a declaração de outro operador do sistema de Justiça acusado de ter desrespeitado a lei, alguém que, em 2018, decidiu deixar a toga de juiz federal para assumir um cargo público na esteira da vitória do bolsonarismo. Não, não é Sergio Moro.
"A polícia vai mirar na cabecinha e... fogo! Para não ter erro." A icônica frase de Wilson Witzel, dita em novembro de 2018, reforçou que o então governador eleito do Rio de Janeiro acreditava tanto em justiça sumária quanto em figuras que misturam os papeis de investigador, acusador, magistrado e carrasco. Referindo-se ao direito ao "abate" de criminosos que portassem fuzis, expôs sua visão de mundo.
A frase criminosa foi um salvo-conduto para policiais que se achavam acima da lei. Vale lembrar que PMs haviam matado, dois meses antes, Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, de 26 anos, na favela do Chapéu Mangueira, ao confundirem seu guarda-chuva com um fuzil. Ele não havia feito nada de errado, mas, para uma parcela dos autointitulados "homens de mulheres de bem", se foi morto é porque era culpado de algo.
Aliás, para alguns "homens e mulheres de bem", declarações sobre acertar a cabecinha devem dar um tesão louco.
É paradigmático como membros do sistema de Justiça usam, com facilidade, a ideia de execução física ou simbólica. O que reforça a percepção de que não é a busca por fatos o que guia suas intenções, mas a tentativa de destruição do outro.
No meio do caminho, abatem-se culpados e inocentes, passando por cima do devido processo legal e, portanto, reduzindo a democracia que prometeram defender.
E, ironicamente, tal comportamento justiceiro deixa marcas em quem é abatido, mas também em quem abate.
Witzel foi afastado devido a um escândalo de corrupção. Moro perdeu o cargo após bater de frente com os interesses do presidente que ajudou a eleger e, hoje, enfrenta as críticas decorrentes de um banho de sol sobre suas decisões. E a Lava Jato se tornou uma sombra do que era, menos pelos ataques de seus inimigos e mais por seus próprios erros.




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