Às vésperas de inaugurar a mais nova obra de seu governo, a marca de 300 mil brasileiros mortos por covid-19, Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em cadeia de rádio e TV nesta terça (23). Adotando um estilo modesto, tentou afastar a paternidade por essa conquista. Mas uma trilha sonora de panelas mostrou que ele já está eternizado por isso.
Mais moderado, no famoso estilo "não-posso-perder-o-apoio-do-centrão-e-do-empresariado-se-não-me-lasco", o presidente da República focou o discurso na vacinação. Disse que nunca foi contra elas, mesmo após ter sido sistematicamente contra. E mentiu descaradamente ao afirmar que fez tudo o que podia para combater o cortonavírus e garantir a maior quantidade possível de imunizantes.
Relembrar é viver... No ano passado, alegando que vacinas poderiam causar mutações a quem optasse por recebê-las, ele alertou: "Se você virar um jacaré, é problema de você". Também afirmou que o melhor imunizante é pegar a doença. "Eu tive a melhor vacina, foi o vírus", disse no dia 23 de dezembro para o seu rebanho. E acrescentou "sem efeito colateral".
O problema é que, até esta terça (23), o efeito colateral de pegar o vírus foi a morte para 298.843 brasileiros.
Bolsonaro fez um autoelogio sobre o ritmo de vacinados, o que é um insulto à nossa inteligência. O médico sanitarista e fundador da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gonzalo Vecina, diz que o Brasil poderia estar imunizando 2 milhões de pessoas por dia, por conta da experiência do Programa Nacional de Imunizações do Sistema Único de Saúde, se tivesse doses o suficiente. Mas não têm.
Ele garantiu que, até o final do ano, estaremos todos vacinados - mesmo que a desorganização de seu governo e constantes atrasos de chegadas de doses apontem para um desfecho apenas em 2022. Se quisesse defender vidas e empregos, como disse, não teria sido omisso e negacionista até aqui. Poderíamos estar vacinados até o final do primeiro semestre deste ano. Se o presidente fosse outro.
Jair começou o pronunciamento culpando a variante brasileira do coronavírus pelo aumento da mortalidade pela doença. Praticou, dessa forma, seu esporte preferido: o Arremesso de Responsabilidade à Distância.
A doutora em microbiologia e fundadora do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, discorda dessa avaliação. Ela já havia explicado, em entrevista ao UOL, que o que causou a situação calamitosa não foi a variante, pelo contrário: ela é consequência da situação calamitosa em que o governo Bolsonaro nos colocou. "A gente se torna uma ameaça sanitária para o mundo. Por que se tem um país do tamanho do nosso que não controla a pandemia, o mundo não controla a pandemia", alertou.
Bolsonaro, ao menos, solidarizou-se com quem perdeu entes queridos para a doença. Em um discurso em São Simão (GO), em 4 de março, a abordagem havia sido outra: "Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?"
E o dia escolhido por ele para tentar dar um migué na população também não poderia ter sido pior. O Brasil atingiu 3.158 mortes registradas em 24 horas, ultrapassando, pela primeira vez, a marca dos três mil óbitos por covid-19 em um só dia, de acordo com a contagem do consórcio de veículos de imprensa. E ainda estamos longe do pico. Prova disso são as filas por leitos de UTIs e a insistente luta pessoal do presidente contra os lockdowns.
Ao mesmo tempo, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal concedeu um habeas corpus à defesa de Lula e considerou que o ex-juiz federal Sergio Moro foi parcial no processo contra o ex-presidente. Isso somado à anulação das condenações do petista, após a 13ª Vara Federal de Curitiba ter sido considerada incompetente para analisar o processo, reforça que Lula está elegível e, muito provavelmente, irá enfrentá-lo nas eleições presidenciais do ano que vem.
(Leia a íntegra do texto no post da coluna)
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