sábado, 3 de abril de 2021

"Ditadura Nunca Mais".

 

Da série "Ditadura Nunca Mais"
“A minha família foi dizimada” Assim Laura Petit da Silva descreve o que aconteceu aos três irmãos. Lúcio, Jaime e Maria Lúcia mortos no Araguaia! Os restos mortais de Pituquinha, como Maria Lucia era chamada pela família, desaparecida desde 1972, foram encontrados em 1991 no cemitério de Xambioá, no Tocantins. A família pôde enterrá-la, em Bauru (SP), em 1996. Em 1973, Jaime Petit da Silva foi assassinado pelo regime militar e um ano depois, Lúcio, o mais velho, teve o mesmo destino. Ousar Lutar! Ousar Vencer! Esquecer Jamais! Maria Lucia Petit Presente! Jaime Petit Presente! Lucio Petit Presente! Para honrar os que lutaram e tombaram por Democracia e Justiça!! A irmã Laura também militou no movimento estudantil. Como havia se casado em 1968 e tinha que ajudar a mãe, viúva, a cuidar de um irmão mais novo, não foi para o Araguaia com Lúcio, Jaime e Maria Lúcia. Laura se emociona ao dizer: “Fiquei. Para contar essa história”. A mãe sabia do envolvimento dos filhos com a política, mas não do envolvimento direto com a Guerrilha. Até a Lei da Anistia, em 1979, acreditava que eles pudessem estar vivos, presos ou vivendo no Exterior, impossibilitados de se comunicar com ela. – A minha mãe dizia: “Agora, com a anistia, eles vão poder voltar para casa”. Ao lado de um retrato de Maria Lúcia, colocava religiosamente uma flor no dia do aniversário da filha, que só retirava quando as pétalas caiam. Laura: “- Acho que o Lúcio foi o último a morrer. Ele era o mais forte. O Jaime era muito emocional. Um colega deles da guerrilha contou que quando soube da morte da irmã ele sofreu tanto! Quando minha filha morreu, abracei seu corpinho. Mas não era só o corpo dela que eu abraçava. Era o de Maria Lúcia, o de Jaime, o de Lulacio. Aí eu chorei tanto, chorei por minha filha e pelos meus irmãos. Estavam todos ali, no corpo de minha filha. Meu Deus, eu queria tanto ter abraçado a Maria Lúcia. Ninguém, governo algum, pode impedir que a família abrace e agasalhe seus mortos. Eles nunca devolveram os corpos dos meus irmãos. Isso é uma maldade sem tamanho.” Laura soube primeiro da morte de Lúcia através de um relato de José Genoíno, no fim de 72. Mas preferiu não dizer nada à mãe. Guardou o segredo até 1979, quando veio a anistia: – A minha mãe dizia: “Agora, com a anistia, eles vão poder voltar para casa”. Ela esperava que entrassem a qualquer momento. Então, contei da morte da Lúcia. A dos outros nós tivemos a confirmação no ano _npassado, quando nos deram o atestado de óbito. Você não sabe a aflição que é estar sempre achando que se vai dar de cara com um irmão a cada esquina. Mesmo sabendo que está morto, sem o corpo e a revelação das circunstâncias da morte, sempre resta uma esperança de que estejam vivos. Com aquelas carinhas que tinham aos 20 anos. Aí meu Deus, que saudade …” Maria Lúcia nasceu em Agudos, no interior do estado de São Paulo. Era filha de José Bernardino da Silva Júnior e de Julieta Petit da Silva, e irmã de Jaime Petit da Silva e Lúcio Petit da Silva, ambos guerrilheiros que desaparaceram no Araguaia durante o regime militar. Cursou o primário, o ginasial e os dois primeiros anos do curso Normal em Duartina (SP), vindo a concluí-lo em São Paulo, no Instituto de Educação Fernão Dias, no bairro de Pinheiros, em 1968, quando participou do movimento estudantil secundarista. Em 1969, prestou concurso público para o magistério e passou a lecionar na EMPG Tenente Aviador Frederico Gustavo dos Santos, na Vila Cachoeirinha, na capital paulista. No início de 1970, como militante do PC do B, foi para o interior de Goiás e, logo após para o sudeste do Pará. Maria Lucia se dedicou ao magistério e ao trabalho na roça, conquistando grande simpatia dos moradores da redondeza. Segundo depoimentos de sobreviventes, ela foi morta a tiro em junho de 1972, em confronto com uma patrulha do Exército Brasileiro próximo a Xambioá, região do Araguaia, sul do Pará. Maria liderou um grupo na tarde de 16 de junho até a casa de ‘João Coioió’, caboclo da região e até então amigo de confiança dos guerrilheiros, na busca por suprimentos. Coioió, como vários camponeses da área, havia se passado para o lado dos militares e atingiu Maria com um tiro de carabina na trilha próxima à casa, que a matou instantaneamente. O Relatório Arroyo, escrito por Ângelo Arroyo, dirigente do PCdoB que conseguiu escapar do cerco militar à região em 1974, descreveu sua morte: Em meados de junho, três companheiros dirigidos por Mundico [Rosalindo Souza] procuraram um elemento de massa, João Coioió, para pedir-lhe que fizesse uma pequena compra em São Geraldo. Coioió já tinha ajudado várias vezes os guerrilheiros com comida e informação. Ficou acertado o dia em que ele voltaria de São Geraldo para entregar as encomendas. À noitinha desse dia aproximaram-se da casa Mundico, Cazuza [Miguel Pereira dos Santos] e Maria [Maria Lúcia Petit da Silva], mas perceberam que não havia ninguém. Cazuza afirmou que ouvira alguém dizendo baixinho: “pega, pega”. Mas os outros dois nada tinham ouvido. Acamparam a uns 200 metros. Durante a noite ouviram barulho que parecia de tropa de burro chegando na casa. De manhã cedo, ouviram barulho de pilão batendo. Aproximaram-se com cautela, protegendo-se nas árvores. Maria ia à frente. A uns 50 metros da casa, recebeu um tiro e caiu morta. Os outros dois retiraram-se rapidamente. Dez minutos depois, os helicópteros metralhavam as áreas próximas da casa. Alguns elementos de massa disseram, mais tarde, que Maria fora morta com um tiro de espingarda desfechado por Coioió. Este, logo depois, desapareceu com toda a família. No final de 1973, o ex-estudante de engenharia Jaime Petit da Silva foi metralhado pelo Exército brasileiro numa cabana no meio da mata, na região do Araguaia, hoje Tocantins. Os disparos foram tantos e tão intensos que a chopana pegou fogo. Do lado de dentro, um homem magro, doente, sozinho, desarmado. Meses depois, em abril de 1974, o irmão mais velho de Jaime, Lúcio Petit da Silva, também morreu no Araguaia. Feito prisioneiro com outros dois companheiros do PCdoB, ele foi visto por moradores do município de São Domingos sendo levado de helicóptero para a base militar de São Raimundo. Em 2001, Laura, acompanhando uma diligência do Ministério Público Federal à região, ouviu da boca de um mateiro, que tinha trabalhado muitos anos para o Exército, que Lúcio tinha tido sua cabeça cortada para ser levada ao comandante da base. Ainda segundo o mateiro, Lúcio tinha documentos de identidade verdadeiros. O Exército brasileiro sabia, portanto, exatamente, quem ele era. Seus restos mortais, e também os do irmão Jaime, nunca foram entregues à família. A primeira identificada Enterrada em sigilo pelos militares no cemitério de Xambioá, envolta num tecido de pára-quedas e com a cabeça coberta por um plástico, foi dada como desaparecida por quase duas décadas, até que seus seus restos mortais foram localizados em 1991 e identificados em 1996, após cinco anos de perícias na UNICAMP, sendo sepultados na cidade de Bauru, estado de São Paulo. É um dos dois corpos até hoje identificados por exame de DNA. A ossada apresentava uma perfuração a bala na nuca e foi enterrada junto com um cartucho de espingarda calibre 20. Além disso, a etiqueta contendo o nome do fabricante do pára-quedas, que poderia identificar seu proprietário, foi cortada, possivelmente antes que o equipamento fosse usado como mortalha. Laura Petit chegou ao velho casarão onde funciona a União de Mulheres de São Paulo, no bairro da Bela Vista, aflita, após o telefonema que levantava a possibilidade de a foto de uma moça morta na guerrilha do Araguaia ser de sua irmã, Maria Lúcia. Vinha em busca de uma resposta que há 24 anos torturava sua família: as circunstâncias do desaparecimento da caçula da cas_na, que foi para o Araguaia com mais dois irmãos – Jaime e Lúcio – no início dos anos 70 e, como eles, nunca mais voltou. Ela não tinha dúvidas de que a irmã estava morta e a família até já recebeu o atestado de óbito. Mas, como o de todos os outros desaparecidos na guerrilha, o documento veio em branco, trazendo apenas o nome e a data da morte. Laura tinha o olhar daqueles que buscam algo que temem encontrar. Pegou as fotos, ajeitou-se na cadeira, pôs os óculos e, com a voz baixa, mas firme, e uma expressão de dor, afirmou: – É a Maria Lúcia. (…) É ela. Tinha essa sombra nos olhos porque usava óculos. Antes ela tinha um cabelo comprido, depois cortou bem curtinho. Olha só esse queixo partidinho, o nariz arrebitado. Depois chorou, de mansinho, com a dor de quem acaba de perder a irmã. (…) Pela primeira vez ela tinha um corpo para chorar. Vieram as lembranças, não só da ‘Pituquinha’, como a irmã era chamada – descrita por Laura como dona de um sorriso largo e enorme alegria de viver – mas também dos outros dois irmãos. Contou histórias deles, da vida em família, das personalidades. Lúcia, a mais nova, era professora, tinha 22 anos quando foi para o Araguaia. Lúcio, 24, e Jaime, 26, eram estudantes de engenharia. – Acho que o Lúcio foi o último a morrer. Ele era o mais forte. O Jaime era muito emocional. Um colega deles da guerrilha contou que quando soube da morte da irmã ele sofreu tanto … (…) Quando minha filha morreu, abracei seu corpinho. Mas não era só o corpo dela que eu abraçava. Era o de Maria Lúcia, o de Jaime, o de Lúcio. Aí eu chorei tanto, chorei por minha filha e pelos meus irmãos. Estavam todos ali, no corpo de minha filha. Meu Deus, eu queria tanto ter abraçado a Maria Lúcia. Ninguém, governo algum, pode impedir que a família abrace e agasalhe seus mortos. Eles nunca devolveram os corpos dos meus irmãos. Isso é uma maldade sem tamanho. Laura soube primeiro da morte de Lúcia através de um relato do também guerrilheiro, e hoje deputado, José Genoíno, no fim de 72. Mas preferiu não dizer nada à mãe. Guardou o segredo até 79, quando veio a anistia: – A minha mãe dizia: “Agora, com a anistia, eles vão poder voltar para casa”. Ela esperava que entrassem a qualquer momento. Então, contei da morte da Lúcia. A dos outros nós tivemos a confirmação no ano passado, quando nos deram o atestado de óbito. Você não sabe a aflição que é estar sempre achando que se vai dar de cara com um irmão a cada esquina. Mesmo sabendo que está morto, sem o corpo e a revelação das circunstâncias da morte, sempre resta uma esperança de que estejam vivos. Com aquelas carinhas que tinham aos 20 anos. Aí meu Deus, que saudade …”

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