sábado, 14 de agosto de 2021

O violento caso da alemã deportada.

 

O violento caso da alemã deportada pela Colômbia por apoiar a revolta social

Dias depois de ser alvo de um ataque a tiros em que um amigo morreu tentando salvar sua vida, Rebecca Sprösser foi expulsa do país e proibida de voltar por dez anos, pelo ''crime'' de participar das marchas e ser ligada aos manifestantes em Cali

 
11/08/2021 16:24

Rebecca Sprösser em manifestação popular em Cali, Colômbia (Reprodução/Instagram)

Créditos da foto: Rebecca Sprösser em manifestação popular em Cali, Colômbia (Reprodução/Instagram)

 
Quem conhece a história de Rebecca Sprösser? A cidadã alemã ameaçada de morte e expulsa da Colômbia por apoiar os protestos, e que deixou o país no mesmo momento em que o homem que salvou sua vida morria e era difamado como criminoso pela imprensa local.

Parece uma história chocante, e certamente seria uma das mais repercutidas do ano em todo o mundo se tivesse acontecido na Venezuela, em Cuba ou em alguns dos países que costumam ser tratados como inimigos por certa imprensa corporativa. Mas aconteceu na Colômbia, país governado pela direita e que há três meses vive uma revolta social a qual poucos meios de comunicação brasileiros e internacionais se atrevem a abordar.

Descubra nos próximos parágrafos a comovente história de Rebecca Sprösser, que chama a atenção não só pelos incríveis acontecimentos que ela viveu, mas também por quão insólito é saber que esses fatos foram totalmente ignorados pela grande mídia, apesar de terem ocorrido já há algumas semanas.

Quem é Rebecca Sprösser

A protagonista desta trama é Rebecca Linda Marlene Sprösser, uma engenheira alemã de 34 anos que adora viajar – ela afirma já ter visitado 75 países – e bailar salsa. Ao misturar estas duas paixões, viu-se obrigada a ir para Cali, cidade colombiana que se orgulha de ser a “capital mundial da salsa”.

Ela chegou à Colômbia em meados de março com a intenção de ficar um mês, mas se apaixonou pelo país e sua cultura, não apenas o ritmo, e por isso estendeu sua estadia por algumas semanas.

No final de abril, ela se deparou com a revolta social colombiana, que começou como um protesto contra uma reforma tributária lançada pelo presidente Iván Duque, mas rapidamente se tornou um movimento que exige mudanças sociais profundas, mais direitos e uma vida mais digna para os cidadãos.

Naquela época, Rebecca estava em Cali, uma das cidades onde os protestos foram mais massivos – e, consequentemente, onde a repressão policial foi mais brutal e com mais resultados de mortes e abusos contra manifestantes.

Rebecca e a revolta colombiana

Diante dessa situação, longe de se sentir intimidada pelo conflito, a turista alemã decidiu participar das marchas junto com as centenas de milhares de pessoas que saíram às ruas para protestar por uma vida mais digna.

“Começou ontem a marcha nacional na Colômbia, contra o desgoverno liderado de forma autoritária pelo presidente Iván Duque, e que é o maior protesto antigovernamental em mais de quatro décadas”, descreveu Rebecca em suas redes sociais.

(Reprodução/Instagram) Clique na imagem para ver a publicação

Além disso, passou a gravar as marchas com a câmera do seu celular e a fazer o upload das fotos e vídeos nas redes sociais. Ficou amiga dos rapazes da chamada “Primera Línea”, que é como os colombianos se referem à Linha de Frente, ou seja, um grupo de jovens que se coloca na frente das marchas para enfrentar a polícia, com escudos improvisados e a cara coberta com capuzes, tentando evitar que as bombas e balas de borracha atinjam os demais manifestantes. Rebecca tirou dezenas de fotos com eles, as quais compartilhava em sua conta de Instagram.

“Procuro as mais belas histórias de amor, casais que se conheceram nas marchas, nas bases da resistência, na Linha de Frente. Quero contar suas histórias para que o mundo inteiro saiba que nós somos os que temos o coração no lugar certo. O amor é mais forte do que esse ódio de merda. P.S.: Próximo projeto a realizar: ‘Amor em tempos de combate’”, postou Rebecca, junto com fotos suas ao lado dos rapazes da Linha de Frente em Cali.

(Reprodução/Instagram) Clique na imagem para ver a publicação

Esse apoio à Linha de Frente e aos protestos em geral teve pouca repercussão em seu país, mas gerou uma onda de ataques a seus perfis nas redes por parte de internautas de direita e de extrema direita, contrariados por ver uma mulher europeia se posicionar contra seu governo.

Rebecca se tornou trending topic entre os colombianos. Alguns argumentavam que, como turista estrangeira, ela não tinha o direito de comentar sobre o que estava acontecendo na Colômbia ou de participar das marchas. Alguns foram até mais longe e a acusaram de ser uma espiã, possivelmente ligada à Rússia, com a missão de desestabilizar o governo de Iván Duque.

Como é fácil supor, muitas dessas mensagens vinham carregadas de ameaças de morte e ofensas misóginas sobre sua ligação com a Linha de Frente – seu apelido “A Alemã da Linha de Frente” pode soar simpático para alguns, mas às vezes era carregado de ironias sexistas e alusões que duplo sentido.

Mas nada disso intimidou Rebecca, que continuou a publicar suas fotos e vídeos, não só mostrando os protestos como também denunciando a violência e ilegalidade da polícia – em um desses vídeos, ela se aproxima de um grupo de oficiais e questiona o fato de que seus uniformes não tinham identificação.

Das ameaças aos ataques

Depois das ameaças por escrito, Rebecca passou a receber também ligações anônimas, e a partir de então ela começou a se sentir realmente intimidada.

Uma das medidas que teve que adotar diante dessa situação foi a troca frequente de hospedagem, pois muitas das mensagens e ligações descreviam seu endereço ou os lugares por onde ela costumava passear ou encontrar amigos.

As coisas ficaram mais tensas no dia 4 de julho, quando Rebecca foi vítima de uma tentativa de assalto no bairro de San Antonio, realizada por dois homens em uma motocicleta, que tentaram levar seu celular e uma bolsa. Ela agarrou seus pertences e conseguiu evitar o roubo, mas acabou sendo arrastada por alguns metros. Seus gritos fizeram com que vizinhos do setor se aproximassem para ajudá-la, enquanto seus agressores a soltaram e fugiram.



A princípio, ela mesma disse achar que se tratava de uma simples tentativa de roubo, mas muitos dos ativistas que a conheciam desconfiaram que pudesse ser outra coisa, não só pela visibilidade que a alemã tinha nas redes sociais, mas principalmente pelo fato de que as ameaças contra ela eram a prova de que havia pessoas que seguiram seus passos e conheciam seus comportamentos. A partir de então, ela passou a andar sempre acompanhada, mesmo durante o dia.

Na mídia colombiana, Rebecca era bem conhecida, especialmente pela mídia de direita alinhada ao governo de Duque, que viu nela a figura ideal para comprovar a tese governista de que os protestos contra o presidente eram uma ação de desestabilização orquestrada por estrangeiros – desculpa que não tinha nada de original, já tinha sido usada por Sebastián Piñera no Chile e por Lenín Moreno no Equador, em anos anteriores.

O setor mais conservador da imprensa colombiana passou a dedicar a Rebecca o mesmo tom ameaçador que se via no Twitter, mas com maiores apelos institucionais, questionando as autoridades sobre ações a serem tomadas contra ela e inclusive pedindo sua deportação.

O cúmulo dessa campanha mediática contra o turista alemã ocorreu no dia 19 de julho, durante sua visita à rádio La FM, da rede RCN, onde ela foi intimidada no ar pelo apresentador Luis Carlos Vélez – conhecido por suas posições ultraconservadoras. Em um momento da conversa, o jornalista começou a interromper quase todas as tentativas de Rebecca de dar sua versão dos fatos, e a dizer coisas como “é muito grave que gente como você venha ao meu país e faça o que você não é capaz de fazer no seu país (...) eu acho que estão te enganando, digo isso com todo o carinho e respeito, para que você pegue um jornal e leia um pouco mais, e perceba a gravidade da situação da Colômbia, do meu país, para o qual você foi convidada e está fazendo coisas que não deveria”.



O atentado contra sua vida

O pior momento de Rebecca Sprösser na Colômbia aconteceu três dias depois daquela inquisição radiofônica, e teve duas consequências terríveis que a marcarão para o resto da vida.

Na noite do dia 22 de julho, Rebecca estava no centro de Cali, reunida com amigos para conversar sobre assuntos relacionados aos protestos. Estavam sentados em um local público e aberto, quando um sujeito se aproximou com uma pistola e começou a atirar.

O ataque foi dirigido a Rebecca e ao jovem Johan Sebastián Bonilla Bermúdez, de 26 anos, porta-voz da organização Puerto Resistencia – que representa a Linha de Frente em Cali. Como costumava fazer nos protestos, o rapaz se colocou entre ela e as balas, recebendo treze tiros em seu corpo, três deles em sua cabeça. Alguns disparos chegaram a atingir a alemã depois que atravessaram o tórax do seu amigo, mas só causaram ferimentos leves.



Rebecca e outros ativistas tiveram que levar o corpo de Johan a três hospitais, porque os dois primeiros não quiseram recebê-lo – um deles alegou estar lotado de pacientes com covid. O jovem chegou vivo ao terceiro centro médico, mas em estado gravíssimo.

Depois de alguns dias, enquanto seu salvador estava entre a vida e a morte, Rebecca soube que as autoridades colombianas reagiram ao ocorrido, mas engana-se quem pensa que se tratava da investigação sobre a identidade do agressor.

Na verdade, quem agiu foi o Departamento de Migração da Colômbia, que decidiu deportar a engenheira alemã, e também proibir seu retorno ao país pelos próximos dez anos. A justificativa para tal medida parece ter sido copiada do discurso da direita no Twitter, ou da imprensa conservadora colombiana, para quem o “crime” de Rebecca seria o de “realizar atividades não autorizadas a pessoas em sua condição de turista, e que afetam a ordem e a tranquilidade públicas”. O parágrafo seguinte teve um pouco mais de hipocrisia, ao garantir que a decisão “visa salvaguardar a sua integridade pessoal, bem como manter a ordem e a segurança nacional”.

Quanto às responsabilidades pelo atentado, a polícia de Cali simplesmente descartou uma investigação mais aprofundada dos fatos, alegando que se trata de uma simples tentativa de roubo ou um ajuste de contas por motivos pessoais.

Rebecca Sprösser teve que deixar o território colombiano no dia 28 de julho, mas não sem antes sofrer com uma dor ainda mais intensa: minutos antes de embarcar no avião que a levaria de volta à Alemanha, ela recebeu a notícia de que Johan Bonilla não resistiu e morreu devido aos tiros que levou ao tentar salvá-la.

“No começo eu não conseguia respirar e pensei que meu coração iria parar de bater. Depois de alguns segundos, comecei a gritar e a gritar, e a chorar sem parar. Continuei gritando e chorando durante as 12 horas de voo. Achei que fosse morrer naquele avião. Aterrissei na Alemanha viva, mas morta por dentro”, disse Rebecca sobre como foi o momento em que soube da morte do jovem, a quem desde então passou a chamar sempre de “meu anjo da guarda”.

Longe da Colômbia

Desde então, a imprensa colombiana tenta sustentar o relato da polícia, de que o assassinato do jovem é uma questão menor, chegando a divulgar um relatório policial de cinco anos atrás sobre um crime de furto cometido por Bonilla, como se isso justificasse o seu assassinato.

Já na Alemanha, a engenheira tentou manter contato com ativistas colombianos e até teve acesso virtual a figuras da oposição, como os senadores Gustavo Petro e Gustavo Bolívar, de quem ouviu o compromisso de que lutarão para impedir que o caso de Johan Bonilla fique impune.

Além disso, a Missão Internacional SOS Colômbia, um grupo de observadores de direitos humanos que visitou o país para conhecer os casos de violações durante a revolta social, afirmou que “todos esses antecedentes mostram que Johan Sebastián Bonilla Bermúdez foi constantemente ameaçado por seu papel de liderança na Linha de Frente e por ser o porta-voz do movimento Puerto Resistencia. Apesar dessas fortes ameaças e ataques, o Estado não cumpriu com a sua obrigação de garantir seu direito à vida”.

Os observadores também lembraram os números relativos às violações de direitos humanos durante a revolta social na Colômbia, reconhecidos em um relatório da Anistia Internacional que contabiliza 54 mortes de civis, 327 pessoas consideradas “desaparecidas”, mais de 2 mil detenções arbitrárias e 49 casos de abusos sexuais cometidos pela polícia colombiana. A maioria dessas violações, também segundo o informe, foram cometidas em Cali, cidade onde os confrontos entre os manifestantes e a ESMAD (Esquadrão Móvel Anti-Motim) têm sido mais frequentes. O relatório foi publicado no dia 2 de agosto e reúne os casos registrados até meados de julho, antes do atentado contra Rebecca e Johan.

Apesar de não poder retornar à Colômbia, Rebecca Sprösser garante que continuará lutando, esteja onde estiver, para que se faça justiça no caso de Johan Bonilla. “Quando o levamos para o hospital, ele nunca reclamou, lutou como um leão, e enquanto eu estava com o sangue dele nas minhas mãos ele só me pediu para não deixá-lo sozinho. Prometi a ele não abandoná-lo e vou cumprir minha promessa”, assegurou a alemã, em uma entrevista a um canal de Facebook.

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