segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O terraplanismo da mídia e o preço da gasolina.

 

O terraplanismo da mídia e o preço da gasolina, por Luis Nassif

Se todos seguirem os preços internacionais, jamais haverá competição, pois o preço estará dado.

Divulgação

A falta de lógica do debate econômico chegou às raias do absurdo. A total falta de senso crítico por parte do jornalismo econômico permitiu a proliferação de teses fantasiosas sobre temas de segurança nacional, como a energia.

Tome-se a reportagem de O Globo, ‘Barril de petróleo vai ultrapassar US$ 100. E a tendência é de alta’, diz consultor.

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O repórter Bruno Rosa age como jornalista. Indaga do consultor porque a privatização do refino e da distribuição não reduziu os preços dos combustíveis como apregoado. A resposta é óbvia: porque substituiu-se um monopólio estatal por um monopólio privado. Esse era o argumento mais óbvio contra o desmonte da Petrobras, mas foi escondido pela mídia durante todo o processo.

Mais que isso. A maneira de aumentar a competitividade no setor seria trazer capital privado para construir novas refinarias, não para comprar as refinarias existentes. 

Foi um dos maiores assaltos contra o interesse nacional, articulado pelo governo Bolsonaro, Supremo Tribunal Federal e até o ato abusivo do CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) “condenando” a Petrobras a vender as refinarias, por excesso de controle do mercado. Ou seja, um burocrata do CADE passando por cima da Constituição e impondo uma privatização à Petrobras. E a direção da Petrobras aceitando a marmelada.

Na entrevista, o tal consultor defende que a melhor maneira da Petrobras reduzir o preço do combustível é aumentar o preço do combustível para acompanhar o mercado internacional. Note que o petróleo se tornou um ativo financeiro. As oscilações nas cotações respondem muito mais a jogadas especulativas de fundos de investimento do que às condições reais de consumo.

A lógica do consultor é fantástica. Embora não tenha explicado em detalhes, segue o seguinte raciocínio.

  1. Como a Petrobras tem parte relevante da produção de petróleo nacional, em tese poderia reduzir o custo na bomba. Bastaria fazer um mix de preços entre o petróleo importado e o produzido internamente. É o que bastaria para poupar o consumidor brasileiro e impedir o aumento da inflação.
  2. Fazendo isso, porém, prejudicaria os players estrangeiros, que trabalham exclusivamente com petróleo importado.
  3. Mantendo a cotação internacional, os players estrangeiros não seriam prejudicados e haveria mais competição, reduzindo o preço futuro do combustível.

É de um fantástico contra-senso. Se todos seguirem os preços internacionais, jamais haverá competição, pois o preço estará dado. A única maneira de melhorar os preços seria um mix entre o custo do petróleo importado e o produzido internamente. É o que preservaria a economia e faria a Petrobras cumprir com sua responsabilidade como empresa pública.

Mas essa lógica é complexa demais para uma imprensa que aprendeu a comprar gato por lebre — e apreciou a troca.

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