Acabo de saber da morte de dona Terezinha. Na fase barra pesada dos primeiros embates contra o jornalismo de ódio, éramos poucos blogs. A família de dona Terezinha era essencial. A filha Namaria era leitora ávida dos Diários Oficiais e mandava dicas preciosas sobre as jogadas de José Serra com a Abril e jornalões, comprando milhares de assinaturas, até de gibis. E dona Terezinha entrava com sua parte: orações diárias, da mesma maneira que minhas tias, sabendo da luta selvagem que se tinha pela frente. Assim como minhas tias, me chamava de “menino Luis”, mesmo já chegando nos 60 anos. E tinha o mesmo nome da minha mãe.

Foi o início da Internet, da blogosfera, e da luta feroz contra o espírito que já tinha tomado conta da política, da sociedade, com a degradação da mídia e a exploração do discurso de ódio.

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Aliás, aproveitei o fim de semana para conferir meus arquivos. No meio deles, achei um dossiê de 177 páginas de ataques que sofri de Reinaldo Azevedo, na época a soldo da revista Veja – que o contratou especificamente para as guerras digitais.

Era uma guerra insana em que não se podia cair na armadilha das ofensas, para não entrar no terreno do adversário. “Mão peluda”, “mascate”, “frequentador de sauna gay”, não havia limites para os ataques. Sabendo que a parte mais vulnerável de uma pessoa é a família, investiram contra minha então esposa, que tinha um blog de poemas.

Veja impunha tanto terror, com sua máquina de assassinar reputações, que ninguém saiu em minha defesa, nem Federação de Jornalistas, nem Sindicato, nem a Associação Brasileira de Imprensa, na época em mãos indevidas, mesmo tendo passado os anos 1990 e 2000 defendendo vítimas de linchamentos midiáticos.

Dia desses, conversando com uma contemporânea, tentávamos decifrar o enigma Azevedo, hoje em dia um bravo defensor de causas legítimas, contra a selvageria que ele mesmo disseminou: desequilíbrio, oportunismo, mercenarismo, desespero, depois de seu projeto de revista ter afundado? E agora, a conversão de Paulo ou a constatação de que a nova onda é garantista, depois que a grande mídia expurgou os cronistas de ódio de suas páginas?

Anos atrás, um artigo de Azevedo explicou as razões: a mãe, empregada doméstica, sendo humilhada pela patroa por ter gasto demais detergente.

De um lado, portanto, era a síndrome do Coringa, a revanche contra o mundo, de alguém que precisaria destruir qualquer oponente, cumprir qualquer missão para superar os traumas de infância. Era um Coringa às avessas, sendo pago para destruir os inimigos dos poderosos.

De outro, o mercenarismo extremado, de se enganchar em alguma empresa da época, depois que seu projeto de revista naufragou. E a oportunidade que se abriu foi a Veja que descobrira o caminho do discurso de ódio e da retórica da ultradireita – inaugurados por Olavo de Carvalho e que tiveram em Reinaldo seu maior apóstolo. Antes da contratação, Azevedo montou um dos primeiros blogs explorando a onda da ultra-direita, além de explorar o promissor mundo dos livros de ultradireita que se abria.

E, digo a vocês, o maior desafio que se tem nessa hora, é não revidar na mesma moeda. Não faltavam relatos que me eram passados por colegas. Não faltava a indignação com o fato de filhas pequenas irem para a escola e a gente ficar em casa, sem saber o que chegaria até elas.

As insinuações de promiscuidade que me jogava era uma mera jogada defensiva, para prevenir exploração eventual de suas fraquezas, como me relatou o saudoso Nirlando Beirão.

A informação de que ele era pai me fez pensar nas suas filhas, e ajudou a me conter.

Na linha de frente jornalística, dos egressos da mídia corporativa, além do meu Blog havia o Paulo Henrique Amorim, com sua Conversa Afiada, e Mino Carta, com a Carta Capital, todos submetidos a um cerco implacável de baixarias de diversos naipes.

Foi uma luta sangrenta. 

As baixarias de Veja, através de Reinaldo e Diogo Mainardi, não foram suficientes para nos abalar. A revista acabou recuando, depois de uma série em que mostrei suas piores jogadas comerciais, admitindo tacitamente ter perdido a guerra e entrando em um campo que, dali para frente, seria o campo covarde preferencial: o das ações judiciais contra os críticos, valendo-se de sua influência no Judiciário.

Em outros jornais, especialmente na Folha, jornalistas tentando escalar na carreira, dispunham-se ao trabalho de atacar colegas, especialmente Leandro Colón e Vera Magalhães.

Lembro-me quando Paulo Markun rompeu meu contrato com a TV Cultura, para mostrar serviços a José Serra. Na época recebi um telefonema do Secretário de Cultura, João Sayad, relatando que o gesto prestimoso de Markun tornou-o mais realista que o próprio Serra, que tentava restabelecer pontes comigo.

Logo depois, Helena Chagas me convidou para a TV Brasil. Ou seja, fui para a TV Brasil porque um cerco implacável me cortava todas as possibilidades de trabalho em outros veículos.

No clima de baixarias da época, a então editora de Política da Folha, Vera Magalhães, preparou um Fakenews – de que eu havia sido contratado sem licitação, uma tolice monumental. Na época, Vera mandou uma repórter ouvir a Fundação Padre Anchieta, que lhe disse o óbvio: não há licitação para contratar pessoas públicas, porque a imagem pública é intransferível. Vera cortou a explicação da reportagem e publicou na forma de “denúncia”. 

Anos depois, foi contratada para mediar o Roda Viva. Sem licitação.

Dou esse pano de fundo para reforçar o significado de apoios como o de dona Terezinha. A cada baixaria de Reinaldo, a cada ataque de mercenários dos jornais, vinha o recado dela, de estar rezando pelo “menino Nassif”. 

E também para lembrar personagens fundamentais daquele período.

Um deles foi o misterioso Stanley Burburinho, um especialista em tecnologia, que provavelmente passou pelo MIT e, em algum momento, estudou com Pedro Malan. Conhecedor profundo das entranhas da Internet, Burburinho tinha a capacidade de identificar os primeiros ataques anônimos que exploravam as novas formas de comunicação.

Em um deles, identificou o autor, divulgou sua biografia profissional completa, onde trabalhava, onde estudou, quem o promoveu, acabando com os ataques.

Grande Burburinho, tornou-se uma lenda na Internet. Desapareceu há anos sem revelar sua identidade.

Certa vez, a psicóloga Ivanisa Teitelroit tentou entender qual a explicação para o que ela considerava resiliência inexplicável de minha parte, suportando toneladas de baixaria sem me deixar abater.E constatou que era o lençol de carinho estendido pelos leitores nos comentários do blog.

Foi através deles que entendi a informação como direito tão fundamental como o direito à saúde, à educação, à alimentação.

Vários deles, de várias partes do país, escreviam para dizer que a família rezava toda noite pela minha segurança. Um deles, de Goiás, ofereceu sua bicicleta para uma rifa visando angariar recursos para enfrentar os processos.

E, acima de todos os apoio, não havia nada mais confortador que as orações de dona Terezinha.