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terça-feira, 24 de janeiro de 2017

POLÍTICA - Concordo plenamente.



Rillo: Compor com golpistas é legitimar a facada nas costas que Dilma e todos nós levamos; a militância não vai perdoar

23 de janeiro de 2017 às 23h15
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por João Paulo Rillo*
A resolução do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, autorizando a bancada de senadores e deputados federais a votar, se desejar, em golpistas nas eleições para as mesas diretoras, sintetiza um dos problemas centrais do PT, um abismo entre a base social e militantes e a cúpula partidária.
Em momentos cruciais nos últimos 13 anos, diversas vezes as direções sucumbiram ora ao governo federal, ora a um pequeníssimo núcleo de decisões, abdicando de tomar posições compatíveis com o nosso programa e o sentimento da maioria dos seus filiados e apoiadores.
Incluem-se aqui companheiros que, mesmo não sendo da direção, ocupavam espaços de extrema importância no governo federal.
Eles assistiram passivamente aos erros políticos e econômicos do governo Dilma, erros que também nos distanciaram da nossa base social.
Desencontros entre base e cúpula acontecem em partidos populares de esquerda. Mas devem ser evitados tanto quanto possível porque sempre deixam feridas, algumas incicatrizáveis, quando acontecem muitas vezes.
Dessa vez, feito Pilatos, o Diretório Nacional lavou as mãos e delegou a uma instância menor uma decisão maior, cara à nossa luta, que, neste momento, não cabe apenas às bancadas. Deve envolver, sim, o conjunto de filiados e apoiadores.
Por mais que alguns gênios do pragmatismo digam que é uma questão menor, pontual, tática, não nos convence, porque, na verdade, ela é estrutural, estratégica.
O combate claro aos golpistas faz parte de um conjunto de sinais que precisamos emitir ao povo brasileiro, que já confiou seu futuro a nós e, hoje, nos olha com, no mínimo, desconfiança e assiste à destruição pelos traidores e vendilhões da pátria do que construímos para a classe trabalhadora.
Não somos mais poder central. Deixamos de ser por uma via violenta e traiçoeira. Isso faz dessa questão ainda mais estrutural e menos pontual.
Quando se é governo central, na linha “conciliação acima de tudo”, e existe normalidade democrática e respeito às regras, é razoável compor o parlamento (que é plural e heterogêneo por natureza) com partidos ideologicamente díspares.
Sendo oposição, dentro das regras e normalidade democrática, também me parece razoável, mas é necessária uma preocupação estratégica e não apenas tática.
Já na situação em que nos encontramos, de oposição a um governo que deu um golpe jurídico-parlamentar, o mínimo que se espera do partido atingido em cheio é que ele faça de cada mandato conquistado pelo voto popular uma trincheira de luta e resistência.
Que ele lidere a construção de uma grande frente ampla e popular de resistência e fomento de sonhos e esperança em dias melhores.
Não esperamos um comportamento rebaixado, conciliador, que ajude a legitimar o golpe e os golpistas.
É necessário olhar a história e colocar a mão na consciência para perceber a mancha irreversível que deixaremos como legado.
O PT já demonstrou força e capacidade de recuperação em muitos momentos difíceis, mas está cansado e muito ferido de guerra.
Sua militância está cabisbaixa, envergonhada, sem voz, sem discurso.
A cada passo em falso, como o tomado pela direção na semana passada, o sangue jorra.
Essa é a grande oportunidade de a Direção Nacional do PT se reencontrar com sua base social e sua cultura de esquerda popular.
Quando as posições estão bem divididas na base do partido, a direção tem o direito de fazer sua opção e até errar.
Mas quando a esmagadora maioria da sua base tem uma clara e convicta posição, a direção perde o direito de errar sozinha.
Se tiver que errar, que seja junto a essa esmagadora maioria política e não junto a uma pseudomaioria, institucional e burocratizada.
Está clara a posição da nação petista e das mulheres e homens de esquerda deste país.
Elas e eles não querem compor com golpistas, eles e elas não querem perdoar os algozes da democracia, elas e eles não querem legitimar a facada violenta que Dilma e todos nós tomamos nas costas.
Eles e elas querem enfrentar de peito aberto essa agenda econômica e social regressiva e selvagem da casa grande.
Ainda há tempo de mudar e ouvir a nação de mulheres e homens que, apesar do golpe, ainda sonham com um projeto de país livre e democrático.
Os argumentos que tentam justificar a aliança com golpistas são frágeis, não se sustentam.
É falsa a tese de que estar na mesa diretora garante mais condições de enfrentar a direita e o golpe.
É ilusório pensar que, ao fazer parte da mesa, ficaremos menos isolados do que já estamos.
Mas é verdade que, ao termos mais cargos e estrutura nas casas legislativas e boa relação com os presidentes dos poderes legislativos, tem-se caminhos encurtados no governo.
No entanto, de que valem esses atalhos se nosso projeto de país não cabe dentro desse governo?
De que vale ter meia dúzia de deputados bem relacionados, com portas abertas no governo, se a esmagadora maioria da esquerda e de seus líderes está sendo perseguida pela repressão fascista?
A verdade é que essa composição com golpistas é muito boa apenas para o carreirismo parlamentar de alguns.
Não são 60 ou 80 cargos a mais ou a menos que estruturarão um novo projeto a ser defendido nas ruas por nós, mulheres e homens livres e de esquerda.
É preciso tirar a fantasia de governo, carnaval acabou.
Somos oposição aos golpistas e usurpadores.
O PT não pode se rebaixar frente à responsabilidade histórica apresentada.
Não pode sucumbir ao cretinismo parlamentar. A recuperação de sua desgastada imagem passa pelo resgate da confiança dos militantes e apoiadores.
A militância quer lutar e já decidiu o seu lado. Ainda é tempo de a Direção Nacional decidir o seu.
João Paulo Rillo é deputado estadual pelo PT/SP.

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