Uma das cenas mais degradantes que o Brasil viu nos últimos dias foi a do empresário bolsonarista Cassio Cenali, de Itapeva, em São Paulo, oferecendo uma marmita para uma mulher e depois dizendo que não iria mais fazer a doação, porque ela votaria no PT. Os jornais o identificaram como um empresário de agronegócio, apoiador fanático do presidente. No dia 5 de setembro, outra representante do agro foi bem específica em seu recado pró-Jair Bolsonaro. “Façam um levantamento. Quem for votar no Lula, demitam, e demitam sem dó, porque não é uma questão de política, é uma questão de sobrevivência. E você, que trabalha com o agro e que defende o Lula, faça o favor, saia também”, disse Roseli Vitória Martelli D'Agostini Lins, da cidade baiana de Luís Eduardo Magalhães.
Por que seria uma questão de “sobrevivência” a vitória de Bolsonaro e a derrota de Lula para o agronegócio? Nos dois mandatos do ex-presidente petista, as exportações do setor deram um salto. A China crescia a dois dígitos anuais e decidiu buscar soja e minério no Brasil para acompanhar o aumento da demanda daquele período. Houve farto crédito para investir no agronegócio e ampliar o comércio exterior. Foi o famoso tempo do boom das commodities que, na visão de adversários de Lula, teria beneficiado os números vistosos de aprovação do seu governo.
Bolsonaro, porém, também beneficiou o agro, inclusive em detrimento de outros setores. Contou não só com as tradicionais linhas dedicadas ao setor rural pelo Banco do Brasil. Recorreu até à ajuda turbinada do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, para demonstrar sua lealdade a esse eleitorado. Em outras palavras, deixou outros no aperto para mostrar generosidade a quem está ao seu lado.
“Esse governo é de vocês”, disse Bolsonaro em julho de 2019, dirigindo-se à bancada ruralista, formada por empresários ou lobistas de produtores rurais. E o mandatário não mentiu. Favoreceu os aliados mesmo que, para isso, tenha sido necessário tomar posse do BNDES, criado para fortalecer a indústria no Brasil, para garantir mais linhas de crédito a produtores rurais. Hoje, 26% do total de recursos vai para o agro, e só 16% para projetos industriais, como mostra reportagem da Agência Senado.
Trata-se de uma inversão de prioridades do banco a partir de 2018. Em 2009, ele tinha na indústria seu grande vetor, com quase metade do orçamento voltado para ela. Era o tempo em que o então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a Fiesp, Paulo Skaf, era colado no governo, antes de virar defensor do impeachment de Dilma Rousseff em 2014 e promotor da campanha do "pato da Paulista", sugerindo que o brasileiro era um pato nas mãos do PT. Sua aposta míope se revela pelos números acima que sobraram para o setor industrial.
Há uma elite empresarial que já abriu os olhos para o jogo nefasto que estamos vivendo. São empresários ou famílias abastadas apoiadoras de toda sorte de projetos ligados à educação, ao meio ambiente ou que simplesmente ajudam a fortalecer a democracia. O constrangimento não tem classe social diante da crueldade do vídeo como o do bolsonarista de Itapeva. Nem todos os representantes do agronegócio são tão perversos como ele. Mas o setor é um dos que mais acolhe integrantes radicais que abraçam as pautas violentas do governo Bolsonaro. Da liberação de armas ao desmatamento ilegal, até os desvarios antidemocráticos do presidente.
Ao menos um ruralista fez uma contribuição generosíssima à campanha pela reeleição de Bolsonaro deste ano: Oscar Luiz Cervi, dono de plantações de soja e milho no Mato Grosso do Sul, que doou R$ 1 milhão. Outros financiaram caminhões para os atos antidemocráticos do 7 de setembro do ano passado, como revelou reportagem do observatório De Olho nos Ruralistas. Alguns deles com processos por trabalho escravo e crimes ambientais.
O agro representa quase um terço do PIB do país, um recurso garantido para ajudar a economia a girar. O efeito colateral desse mercado cativo é a manutenção do status quo. Um projeto fácil de ser patrocinado, se um oportunista assumir o poder e jogar com os recursos da máquina pública para comprar uma aliança com ruralistas. Mesmo que para isso seja necessário sucatear a indústria, a ciência, o investimento em inovação.
Eles só pleiteiam o que eles precisam, que é seguir o modelo de exportação de matérias-primas. O mesmo que o Brasil adota e conhece como ninguém desde a chegada dos portugueses. E se for necessário apoiar um presidente que venha a torturar a democracia para manter esse padrão, tudo bem. E se for para ser um dos campeões em uso de veneno no campo e em desmatamento fatal da Amazônia, tudo bem também. O agro, afinal, é pop.
Por outro lado, é um segmento que dá espaço a esse núcleo maldito do Brasil profundo — do qual Cenali, de Itapeva, já demonstrou ser integrante, comprando gado com cheques sem fundo. Há, ainda, os que adotam práticas como a do trabalho escravo, ou tomam posse de terras públicas com ajuda de políticos corruptos e acham normal a execucação de indígenas e o estupro dessas mulheres em nome do avanço da exploração da madeira ilegal. São os Cenali que tomaram o Brasil de Bolsonaro, com trilha sonora de Gustavo Lima. O estado da arte do Brasil vulgar e ultrapassado. São séculos de um desenho de economia que perverte a sociedade. Uma algema de ouro da qual, em algum momento, precisamos recuperar a chave. |
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