Chegou o tão alardeado 7 de setembro, a última cartada de Bolsonaro para as eleições. Como prometido, ele entregou ruas lotadas em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. E não faltou também o esperado discurso de causar vergonha nacional. Mas o cheiro de golpe mesmo a gente não sentiu. E agora, o que acontece?
Não deixa de ser triste que, no ano do bicentenário da independência, o presidente do Brasil veja a data apenas como um potencial eleitoral. Seus eleitores, que via de regra gostam de se orgulhar de seu patriotismo, embarcam no jogo de reduzir o Brasil ao seu líder e aceitam ver a pátria ser feita de refém pelo presidente, que a usa para fins pessoais. Que patriotismo é esse?
Mas infelizmente piora. A comemoração dos 200 anos da independência teve como auge, no lugar de alguma saudação ao país, a ode à autoproclamada potência sexual do presidente.
Isso tudo, além de constrangedor e um tanto deprimente, também tem indícios de ilegalidade. O uso de dinheiro público financiando comícios eleitorais deve ser questionado na Justiça Eleitoral por partidos de oposição, de esquerda e direita. Até o fim da tarde de ontem, as campanhas de Lula (PT), Ciro Gomes (PDT) e Soraya Thronicke (União Brasil) haviam anunciado que iriam acionar o Judiciário por “abuso de poder econômico e político acachapante, com o uso de recursos públicos, de uma grande estrutura pública, para fazer campanha", de acordo com nota dos advogados da campanha de Lula. Diversos especialistas corroboram com essa visão, como você pode ler aqui.
E politicamente, como fica? Bom, o golpe temido por muitos não veio. Nem apoio de outros poderes o presidente teve. Ao seu lado na celebração em Brasília, quem figurou foi um empresário sonegador de impostos, cuja participação, aliás, gerou constrangimentos. No plural mesmo. Primeiro, porque Bolsonaro quebrou protocolos ao colocá-lo na tribuna de honra, local reservado a autoridades, e depois porque o empresário foi posicionado entre o presidente brasileiro e o de Portugal, que ficou visivelmente contrariado.
Por mais que Bolsonaro ainda tente se mostrar como um outsider, aquela figura antissistema, contra a política tradicional (embora tenha feito parte dela por três décadas), ele depende do Centrão e das forças políticas tradicionais para levar seus planos adiante. E essas forças não compareceram.
Ao mesmo tempo, parece pouco provável que as manifestações políticas do Dia da Independência aumentem seu capital eleitoral, já que o presidente jogou para seu público já cativo, para o cercadinho. Para o psicanalista Christian Dunker, a fala do presidente “cria um conjunto de identificações com aquelas pessoas que sentem que a sua masculinidade tradicional heteronormativa está ameaçada com as transformações recentes”. Se por um lado ele consegue desviar o debate das denúncias de corrupção contra sua família e não explicar o recente escândalo da compra de 51 imóveis com R$ 26 milhões em dinheiro vivo, por outro essa não parece ser a melhor estratégia para se aproximar do público feminino, que é o que ele precisa conquistar.
Ele sabe disso. O problema é que o jogo, para Bolsonaro, não diz mais respeito a ganhar ou perder eleição. Tem tudo a ver com a eleição, mas não com as regras democráticas inerentes a ela. Bolsonaro quer inflamar seu público e alimentar a instabilidade política para o pós-eleições. Quer fazer crer que a eleição será roubada e estimular revoltas e violência. Essa será a tônica do próximo período, que não há de ser fácil.
Se Lula for eleito, como indicam as pesquisas, ele terá que lidar com uma quantidade considerável de pessoas mais radicalizadas e dispostas à violência e um país imerso em fake news, insegurança e instabilidade. O trabalho de quem quer que assuma a cadeira do Palácio do Planalto não vai ser fácil.
Quando até quem tem que checar embarca...
Fake news estão na moda, e nem sempre elas vêm do governo. Esta semana uma fala do dirigente do MST João Pedro Stedile no podcast Três por Quatro, do Brasil de Fato, foi reproduzida de forma distorcida por diversos veículos da mídia comercial.
Stedile fez uma análise sobre o encasulamento das forças populares no último período e disse acreditar que mobilizações populares, de diversas formas, devem voltar a acontecer com a provável vitória de Lula nas urnas. Pronto, a manchete virou que MST promete retomar “invasões” com a eleição do ex-presidente.
Contamos essa história aqui, mas fica o convite para ouvir o podcast na íntegra e analisar a fala de Stedile com contexto. É só clicar aqui para ouvir no Spotify ou buscar Três por Quatro no seu tocador preferido.
E amanhã às 7h sai episódio novo! Já segue lá pra não perder ;)
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