segunda-feira, 2 de novembro de 2009

EUA - Os EUA como Estado fracassado.

Os super-ricos riem ao dizer "Que comam bolos"

por Paul Craig Roberts (*)

Os EUA têm todas as características de um Estado fracassado.
O presente orçamento operativo do governo dos EUA está dependente de financiamento estrangeiro e de criação monetária.
Como país demasiado fraco politicamente para defender os seus interesses através da diplomacia, os EUA têm de confiar no terrorismo e na agressão militar. Os custos estão fora de controle e as prioridades são distorcidas no interesse de ricos grupos de interesse organizados a expensas da vasta maioria dos cidadãos. Por exemplo, a guerra a todo custo, que enriquece a indústria de armamento, os corpos de oficiais e as firmas financeiras que manuseiam o financiamento da guerra, ganha precedência sobre as necessidades dos cidadãos americanos. Não há dinheiro para fornecer cuidados de saúde aos não segurados, mas oficiais do Pentágono disseram no Defense Appropriations Subcommittee na Câmara dos Deputados que todo galão [3,785 litros] de gasolina entregue às tropas dos EUA no Afeganistão custa aos contribuintes americanos US$400.
"É um número de que não estávamos conscientes e que é preocupante", disse o republicano John Murtha, presidente do subcomitê.
Segundo relatórios, os US Marines no Afeganistão gastam 800 mil galões de gasolina por dia. A US$400 por galão, isso dá uma conta de combustível diária de US$320 milhões só para os Fuzileiros Navais. Só um país totalmente descontrolado dissiparia recursos deste modo.
Enquanto o governo dos EUA desperdiça US$400 por galão de gasolina a fim de matar mulheres e crianças no Afeganistão, muitos milhões de americanos perderam os seus empregos e as suas casas e estão a experimentar a espécie de miséria que é a vida diária dos povos pobres do terceiro mundo. Americanos estão a viver nos seus carros e em parques públicos. As cidades e estados da América estão a sofrer os custos das deslocações econômicas e da redução de rendimentos fiscais devidos ao declínio da economia. Contudo, Obama enviou mais tropas para o Afeganistão, um país do outro lado do mundo que não é uma ameaça para a América.
Custa US$750 mil por ano cada soldado que temos no Afeganistão. Aos soldados, que estão em risco de vida e de pernas, é pago uma ninharia. Mas os serviços privatizados para os militares estão a nadar em lucros. Uma das maiores fraudes perpetradas contra o povo americano foi a privatização de serviços que os militares americanos tradicionalmente efetuavam por si próprios. Os "nossos" líderes eleitos não podiam resistir a qualquer oportunidade para criar riqueza privada a expensas dos contribuintes, riqueza que podia ser reciclada para políticos em contribuições de campanhas eleitorais.
Republicanos e democratas a receberem de companhias de seguro privadas sustentam que os EUA não podem permitir-se proporcionar aos americanos cuidados de saúde e que devem ser feitos cortes mesmo na Segurança Social e no Medicare. Assim, como podem os EUA permitirem-se guerras ruinosas, e muito menos guerra totalmente inúteis que não servem qualquer interesse americano?
A enorme escala de empréstimos estrangeiros e de criação de moeda necessários para financiar as guerras de Washington estão remetendo o dólar para baixas históricas. O declínio do valor do dólar reduz o poder de compra dos americanos, já com rendimentos em declínio.
Apesar do mais baixo nível de construções de casas em 64 anos, o mercado habitacional dos EUA está inundados com casas não vendidas e as instituições financeiras têm um enorme e crescente estoque de casas retomadas que ainda não estão no mercado.
A produção industrial entrou num colapso que a levou ao nível de 1999, liquidando uma década de crescimento da produção industrial.
As enormes reservas dos bancos criadas pelo Federal Reserve não descobriram o seu caminho para dentro da economia. Ao invés disso, os bancos estão a entesourar as reservas como seguro contra os derivativos fraudulentos que eles compraram dos gangsteres dos bancos de investimento da Wall Street.
As agências regulatórias foram corrompidas pelos interesses privados. A Frontline informa que Alan Greenspan, Robert Rubin e Larry Summers obstruíram Brooksley Born, o responsável da Commodity Futures Trading Commission de regulamentar derivativos. O presidente Obama premiou Larry Summers por sua idiotice nomeando-o diretor do National Economic Council. O que isto significa é que lucros para a Wall Street continuarão a ser transferidos do decrescente abastecimento de sangue da economia americana.
Um inequívoco sinal de despotismo terceiro-mundista é uma força policial que encara o público como o inimigo. Graças ao governo federal, nossas forças policiais locais agora estão militarizadas e imbuídas de atitudes hostis para com o publico. Equipes de choque (SWAT teams) proliferaram e mesmo pequenas cidades têm agora forças policiais com o poder de fogo das US Special Forces. Intimações são cada vez mais entregues por equipes de choque que tiranizam cidadãos arrebentando portas, uma reparação de US$400 ou 500 para o tiranizado morador. Recentemente um presidente de municipalidade e a sua família foram as vítimas da incompetência da equipe de choque da cidade, a qual por erro devastou a casa do presidente, aterrorizou a sua família e matou os dois amistosos cães Labrador da família.
Se um presidente de municipalidade pode ser tratado deste modo, como será o destino dos pobres, brancos ou negros? Ou do estudante idealista que protesta contra a desumanidade do seu governo?
Em qualquer Estado fracassado, a maior ameaça à população vem do governo e da polícia. Esta é certamente a situação hoje nos EUA. Os americanos não têm maior inimigo do que o seu próprio governo. Washington é controlado por grupos de interesses que se enriquecem a expensas do povo americano.
Os um por cento que incluem os super-ricos estão a rir quando dizem: "que comam bolos".
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(*) Ex-secretário assistente do Tesouro na administração Reagan, co-autor de The Tyranny of Good Intentions .
Email: PaulCraigRoberts@yahoo.com
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O original encontra-se em Counter Punch
Este artigo encontra-se em Resistir

REFLEXÕES DE FIDEL - Notícias relevantes.

HÁ uns dias, importantes acontecimentos tiveram lugar em nosso país.

Em 28 de outubro, às 7h30, foi comemorado o 50º aniversário do desaparecimento físico de Camilo Cienfuegos. O triste acontecimento ocorreu num entardecer tempestuoso, quando ele vinha num teco-teco da província de Camagüey para a capital, pelo norte de Cuba.

Em Yaguajay, ele tinha travado seu último combate vitorioso contra a tirania, no final de dezembro de 1958. Ali foi inaugurado um mausoléu, onde jazem os restos mortais dos que tombaram na guerra no Front Norte da província de Las Villas e dos que morreram depois de 1º de janeiro de 1959 e também jazerão os daqueles que fizeram parte de sua Coluna Invasora e daqueles que se uniram a ela no centro do país e que ainda vivem. Alguém o chamou de Herói de Yaguajay e esse apelido ainda perdura. Ele era ainda mais: o Herói da Coluna Invasora "Antonio Maceo". O audaz comandante, no avanço de sua coluna ligeira, tinha como destino a província de Pinar del Río, e teria chegado até suas montanhas, se não tivesse recebido a ordem da Serra Maestra de não continuar e de lutar junto ao Che, sob as ordens dele, na zona central do país. Não era necessário arriscá-lo nessa missão, que constituía uma interpretação incorreta das circunstâncias históricas. Em 2 de janeiro, iniciou com o Che a marcha histórica para a capital. Quanta coisa se poderia pesquisar e refletir nisso!

Por decisão do Partido e do governo, a partir deste 50º aniversário, sua silhueta de aço ilumina, junto à do Guerrilheiro Heróico, o fundo da Praça da Revolução, as duas de plantão frente à estátua do Nosso Herói Nacional, José Martí.

Também, em 28 de outubro, às 9h, por acaso começou o debate sobre a resolução apresentada por Cuba contra o bloqueio econômico, financeiro e comercial dos Estados Unidos a nossa Pátria. Foram escutadas as palavras emotivas dos representantes de numerosos países do Terceiro Mundo, que deixaram constatação de sua grande estima ao país insubmisso e solidário que, durante meio século, enfrenta o império desapiedado e desumano erigido nas proximidades da nossa Ilha. Um número considerável de países viu na resistência de Cuba uma luta por seu próprio direito à soberania.

A obra discreta e solidária do nosso povo desde os primeiros anos da Revolução e sua heroica resistência ao criminoso bloqueio dos Estados Unidos, não foram esquecidas pela maioria dos 192 Estados soberanos do mundo.

Os argumentos irrefutáveis do nosso chanceler, Bruno Rodríguez, ressoavam como marteladas naquela sala, localizada no coração de Nova Iorque e muito próxima de Wall Street.

Pela primeira vez, em muitos anos de debates, todos os Estados-membros das Nações Unidas participaram da discussão do embaraçoso e compromissório tema.

Até os aliados europeus da OTAN e os membros da comunidade europeia, desenvolvidos, consumistas e ricos, consideraram necessário expressar sua inconformidade com o bloqueio econômico a Cuba. A contestação do nosso chanceler ao discurso justificativo e plangente da representação dos Estados Unidos foi contundente.

Quando o presidente da Assembleia procedeu à votação, dos 192 Estados, apenas três delegações votaram contra o projeto de Cuba: Estados Unidos; Israel, seu aliado no holocausto palestino, e Palau. Um advogado norte-americano com cidadania israelense que representa Palau, um território no oceano Pacífico de 450 quilômetros quadrados, que esteve sob a administração ianque por quase 50 anos, votou na ONU a favor dos Estados Unidos. Dois Estados se abstiveram e 187 condenaram o bloqueio.

Contudo, estes fatos, por acaso, não foram os únicos dois importantes para os cubanos nesse dia. À tarde, a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), a doutora Margaret Chan, finalizava sua visita a nossa Pátria, acompanhada da diretora da Organização Pan-Americana da Saúde (OPS), Mirta Roses. As duas representam os dois organismos internacionais mais importantes que assumem a responsabilidade por essa vital tarefa. Na terça-feira, 27 de outubro, eu tive a honra de conversar com elas.

Considerando que o tema da epidemia de gripe A (H1 N1) é muito importante para todos os povos, principalmente para os do Terceiro Mundo — os que mais têm sofrido as conseqüências da exploração e do saqueio —, pedi-lhes marcar um encontro dentro de seu apertado programa.

Apesar da preocupação e dos esforços do nosso Ministério da Saúde Pública e de seus programas de informação aos nossos cidadãos, considerei oportuno aprofundar o tema da epidemia.

A saúde pública foi uma das causas que tornaram necessária uma revolução em Cuba. Não é o meu objetivo expor os avanços obtidos, os quais nos colocam como o país com maior quantidade de médicos per capita no mundo — um exemplo do que se pode fazer por outros povos —, apesar de ser uma nação bloqueada e agredida pelo poderoso império há meio século. Nossa Pátria não só foi vítima do roubo desapiedado de cérebros, mas também alvo das agressões biológicas do governo dos Estados Unidos, que não se limitou ao uso de vírus e bactérias contra plantas e animais, senão também os utilizou contra a própria população. O dengue afetou mais de 300 mil pessoas, e o sorotipo número 2 foi introduzido em Cuba e no hemisfério quando ainda não era epidemia em nenhum outro país.

Omitindo muitos outros dados para ser breve, é bom lembrar nesta reflexão que o dengue é transmitido pelo mosquito, porém a gripe A (H1 N1) propala-se muito mais facil e diretamente através das vias respiratórias.

Nossa população deve conhecer que, depois do fim da Primeira Guerra Mundial, uma epidemia de gripe matou dezenas de milhões de pessoas numa etapa em que a população do planeta apenas ultrapassava 1,5 bilhão de habitantes. Os recursos científicos e técnicos da humanidade eram muito menos que os de hoje.

Esta realidade não nos deve levar ao excesso de confiança. Quando surgem epidemias dessa índole, precisam-se de recursos que ajudam a preveê-las ou a combatê-las, como aconteceu com a febre amarela, a poliomielite, o tétano e outras, como as vacinas que, há anos, protegem as crianças e a população de numerosas doenças extremamente prejudiciais.

Além disso, atualmente existem outros tipos de vacinas, particularmente, as que protegem a população dos vírus gripais e são aplicadas às pessoas mais vulneráveis por causas transitórias ou permanentes.

Nossos cidadãos devem ter conhecimento de que as vacinas contra determinados vírus são mais difíceis devido às transformações genéticas deles, como os associados à gripe A (H1 N1) e outros.

Os países mais desenvolvidos e ricos possuem laboratórios bastante sofisticados e custosos. Cuba, apesar do subdesenvolvimento e do bloqueio ianque, foi capaz de criar alguns laboratórios para a produção de vacinas e medicamentos.

Em nível internacional, surgiu logicamente temor à referida gripe, por sua capacidade de disseminação e seus efeitos em pessoas mais vulneráveis. Além dos aspectos relacionados com a cooperação internacional de nossos médicos — que têm feito com que Cuba ganhe grande autoridade e prestígio —, desejava analisar junto com a diretora-geral da OMS o tema da epidemia A (H1 N1). Ela enfatizou que a dificuldade com as vacinas é devida a que os laboratórios capazes de produzi-las na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá estão obtendo muito menos volume de vacinas das necessárias; que a demanda nos países desenvolvidos era grande e as primeiras vacinas disponíveis para os outros países não estariam prontas até o final deste ano, e seus preços tendem a aumentar consideravelmente. Entre os países que devem ser priorizados, ela incluiu Cuba por sua cooperação internacional e sua capacidade de aplicar logo as vacinas a pessoas priorizadas através de sua rede hospitalar.

A doutora Chan sabe que, onde quer que os médicos cubanos estiverem, cooperarão na rápida aplicação das vacinas.

São notícias logicamente positivas para o nosso povo. Contudo, devemos levar em conta certas questões.

As primeiras vacinas demorarão várias semanas em chegar, ou talvez, dois ou três meses.

A maior inquietação da OMS é que a capacidade de transformação do vírus da epidemia ultrapasse rapidamente o efeito das vacinas e seja necessário iniciar novamente a busca de outra vacina eficaz. Isso, na minha opinião, determina a importância de uma rede adequada de serviços médicos, como a que existe no nosso país, e a orientação sistemática a uma população que possui alto nível de instrução para que coopere com as medidas pertinentes.

A falta de serviços médicos adequados em muitos países, inclusive nos Estados Unidos, onde quase 50 milhões de pessoas não recebem atendimento médico, eleva consideravelmente o número de possíveis vítimas. Nesse país, foi declarada a Emergência Sanitária. Há dois dias, escutei a notícia de que nos Estados Unidos, de novembro a março próximo, a gripe A (H1 N1) poderia causar a morte a 90 mil pessoas nesse país, visto que os meses de frio favorecem o desenvolvimento da epidemia. Tomara esses cálculos estejam errados e o dano seja menor. Com uma população que ultrapassa pelo menos 27 vezes a população de Cuba, seria equivalente a mais de 3 mil falecidos em nosso país e a muitos milhões de pessoas no mundo, apesar dos avanços da ciência.

Os sintomas da influenza A (H1 N1) apareceram no México no primeiro trimestre deste ano e quase simultaneamente nos Estados Unidos e no Canadá. Daí passou para a Espanha, um dos primeiros países da Europa aonde se estendeu a epidemia.

Quando o atual presidente dos Estados Unidos suspendeu as restrições de viajar a Cuba aos cubano-americanos, em boa parte dos estados dessa nação a epidemia já se tinha expandido. Assim, os quatro países com maior número de turistas ao nosso país por outras causas, eram aqueles nos quais, em maior grau, se alastroy a epidemia pelo mundo.

Os primeiros casos portadores do vírus foram viajantes vindos do estrangeiro. As pessoas contagiadas em nosso país eram relativamente poucas; durante meses não houve um só óbito. Mas à medida que o vírus foi se propalando por todas as províncias, principalmente por aquelas com maior número de familiares residentes nos Estados Unidos, foi necessário adquirir novos equipamentos para fazer exames para o Instituto de Medicina Tropical "Pedro Kourí", e multiplicar os esforços ao passo que se combatia o dengue.

Foi assim que se ocorreu o estranho caso de que os Estados Unidos, por um lado, autorizaram as viagens do maior número de pessoas portadoras do vírus e, por outro, proibiram a aquisição de equipamentos e medicamentos para combater a epidemia. Com certeza, não penso que foi essa a intenção do governo dos Estados Unidos, porém é a realidade resultante do absurdo e vergonhoso bloqueio imposto ao nosso povo.

Com os equipamentos de outras nações estamos em condições de conhecermos, com absoluta exatidão, o número de infectados pela epidemia e o de pessoas, cuja morte esteja relacionada com a presença do vírus que a origina.

Felizmente, além dos serviços e do pessoal médico bem qualificado do nosso país, no mercado internacional existe um medicamento antiviral eficaz, especialmente se for aplicado às pessoas com sintomas inconfundíveis do vírus, que recebem diretamente atendimento.

Dispomos de esse conquetel antiviral e também da matéria-prima necessária para continuar produzindo uma cifra similar à disponível, e se fará o esforço necessário para dispormos das doses indispensáveis.

Embora em muitos países, devido à ausência de redes de serviço e de pessoal médico, não se ofereça aos organismos internacionais a informação pertinente sobre a epidemia, sabemos do firme propósito do nosso governo de comunicar com exatidão a esses organismos o número de casos e os óbitos associados à epidemia, como sempre fizemos com os dados da saúde pública de Cuba.

O nosso país, por seu lado, conta felizmente com uma rede de serviços de saúde; a possibilidade de dar atendimento imediato às pessoas contagiadas é real, e dispõe do número suficiente e de médicos qualificados, muitos dos quais cumpriram honrosas e inesquecíveis missões internacionalistas.
Fonte:Granma

TEMOS UMA TERCEIRA ESCRAVIDÃO NO BRASIL.

'Temos uma terceira escravidão no Brasil’, constata sociólogo

“A nossa economia, diferente da economia de modelo, da literatura teórica, histórica e econômica, é uma economia dependente da acumulação primitiva. Ou seja, tem o lucro normal do capital mais o lucro extraordinário da acumulação primitiva, que depreda o ambiente, depreda a mão de obra, rebaixa os custos por meios violentos. Enfim, é uma economia muito dependente de formas primitivas de extração da riqueza”. A afirmação é do sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista a Agência Brasil, 31-10-2009.

Segundo o sociólogo, tivemos duas escravidões no Brasil e temos agora uma terceira: "Tivemos a escravidão indígena, a escravidão negra e depois a escravidão da peonagem, com radiantes em várias partes do Brasil".

Eis a entrevista.

No seu hobby de fotógrafo o senhor tem registrado o fechamento de fábricas em São Paulo. Qual a explicação sociológica para esse fenômeno?

Essa é uma visão impressionista minha, porque andei em algumas fábricas que fotografei e em outras. Há nos antigos bairros operários de São Paulo e no subúrbio uma clara e extensa desativação de fábricas. Os fatores são vários e combinados. A supervalorização dos terrenos torna aquela fábrica antieconômica. Se o dono da terra agrega no preço do terreno o capital que ele mobilizou para produzir, acaba sendo mais interessante para ele fechar a fábrica, vender tudo o que tem, transformar em ferro-velho (foi o que eu documentei em foto), e vender o terreno nu para construir condomínios, prédios, supermercados, etc. Só na área em que eu nasci, em volta da minha casa, três grandes fábricas foram fechadas nesses últimos 20 anos. Além da supervalorização da terra, podemos acrescentar outras coisas: algumas fábricas tornaram-se obsoletas, não têm mais sentido, o produto que fabricavam não interessa mais. Um exemplo: ao lado da Estação de Santo André havia a fábrica Kowarick, da avó do Lúcio Kowarick, professor de Ciência Política na USP. Ela fechou porque era produtora de casimira [tecido]. Ninguém mais faz terno de casimira, que vai lã no meio. Estamos em um país tropical, a casimira é de uma época em que os brasileiros queriam se vestir como os europeus, não importando a temperatura.

Também há o deslocamento da produção, não?

Outro fator que houve, especificamente na região do ABC, foi que o adensamento de trabalhadores fortaleceu muito a classe operária. O fato de ter uma fábrica ao lado da outra, quando desencadeia uma greve a possibilidade de comunicação, especialmente se forem do mesmo ramo, é rapidíssima. Eu acho que houve uma estratégia da indústria no sentido de dispersar as fábricas para o interior, lugares onde não há tradição de lutas operárias. Isso é uma técnica social, é uma forma de esvaziar os sindicatos. Pode ser até uma forma de modernizar, de sair da greve, que rapidamente pelo cochicho se difunde, e ir para um padrão de mobilização que envolve mais negociação.

Em sua apresentação, durante o encontro da Anpocs, o senhor também chamou a atenção para o processo de "menos-valia", de desacumulação de capital. O que é isso?

A menos-valia é outro lado da questão. A gente tende a pensar o capital como se fosse um ser imortal, quer dizer, o empresário que o personifica nunca vai perder o que tem. Há alguns anos a revista Veja publicou uma capa muito interessante: havia uma fotografia de 1929 com a primeira diretoria da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo]. Todos os grandes nomes da história da industrialização de São Paulo estão lá: Roberto Simonsen, Francisco Matarazzo, etc. Aí a reportagem pergunta: "quantas famílias desses empresários ainda mantém a indústria?". A resposta: "só uma". Eles faliram, perderam tudo. Os familiares não conseguiram tocar o negócio, não demonstram competência empresarial, o dinamismo que dizem que devem ter. Quer dizer, o capital era muito personalizado e se reproduzia em condições muito particulares. Então também tem isso: uma cultura empresarial ainda com pouca solidez.

Há muita idealização sobre esse processo inicial de industrialização brasileiro. O senhor já demonstrou que ele não foi exatamente ético e legal.

Em nenhum lugar do mundo esse processo foi limpo. Algum tipo de lesão ao direito sempre aconteceu. Eu sempre me lembro de uma placa fixada ao lado da porta do Barclays Bank, em Cambridge [na Inglaterra] que dizia algo como: o fundador desse banco [1690] tinha como lema "o que vocês chamam de corrupção, eu chamo de relações de interesse". Os empresários não questionavam moralmente o negócio. Houve muita coisa desse tipo no Brasil, negócio com o governo, etc. Você pega a história da industrialização no país no final do século 19 e no começo do século passado, sempre há alguma coisa estranha que as pessoas levantavam suspeita. Hoje há mais controle, naquela época não havia nenhum. Se pensarmos no período Vargas, quanta licenciosidade não havia no Estado brasileiro, quanto não se facilitou a vida desses empresários com grandes empréstimos a juros subsidiados, às vezes considerados escandalosos.

Além dessa lesão ao direito, a industrialização e outras atividades econômicas no Brasil também estão assentadas em processos de grande exploração da mão de obra e de destruição ambiental.

Isso vem desde o começo. Grande parte da chamada "acumulação primitiva" ocorreu com a escravidão. Essa história de que o capitalismo brasileiro esperou o fim da escravidão, isso é teórico. Na verdade, a grande acumulação se deu na escravidão. No caso do Sudeste, foi no café mesmo. O trabalho livre chegou aqui no limite da história da escravidão, enquanto houve essa possibilidade eles seguraram. Introduziram trabalho livre porque não havia reposição com a cessação do tráfico negreiro e o preço do escravo começou a subir a ponto de virar uma mão de obra antieconômica. Depois, eles reintroduziram o trabalho escravo com outra cara, que é o colonato, sistema em que trabalhador produzia a sua própria comida e praticamente não recebia salário. Dizer que acabou a escravidão e começou o trabalho assalariado não é verdade.

Uma forma assemelhada do que hoje chamamos de trabalho análogo à escravidão?

Que não é análogo. Nós temos uma terceira escravidão no Brasil. Há um sistema razoavelmente eficiente no governo federal de combate à escravidão, mas só razoavelmente eficiente, porque não consegue acabar com a escravidão. Quer dizer, ela sai daqui e aparece ali. A nossa economia, diferente da economia de modelo, da literatura teórica, histórica e econômica, é uma economia dependente da acumulação primitiva. Ou seja, tem o lucro normal do capital mais o lucro extraordinário da acumulação primitiva, que depreda o ambiente, depreda a mão de obra, rebaixa os custos por meios violentos. Enfim, é uma economia muito dependente de formas primitivas de extração da riqueza.

Essas atividades não são periféricas na nossa economia?

Eu estudei muito isso, não é periferia. Se você pensar a economia em grupos econômicos, articulados em rede, você vai ver que todas as grandes empresas têm o seu centro e a sua periferia. E na sua periferia, pratica trabalho escravo. Isso vai da indústria à agricultura. Eu me lembro do caso emblemático da fazenda Vale do Rio Cristalino, no sul do Pará, que era da Volkswagen e onde havia trabalho escravo. No fim da ditadura militar [1964-1985], uma comissão de deputados recebeu uma denúncia de que havia exploração de trabalho escravo na produção de carne. A fazenda tinha o equipamento mais moderno para abater, frigorificar e transportar essa carne para a Alemanha, que ia de avião e chegava lá no dia seguinte, como carne fresca. O trabalho de derrubar a mata, plantar o pasto, o trabalho bestial era trabalho escravo, a chamada “peonagem”, escravidão por dívida. Cada vaca da Volkswagen tinha um chip implantado e a saúde do rebanho era controlada por computador, via satélite, na fábrica de São Bernardo.

De um lado a modernidade da tecnologia e de outro lado o passado no trabalho precário.

Essa coisa da sociologia brasileira, de separar o tradicional e o moderno, está errada. Os dois estão juntos, não se separam. Você encontra isso permanentemente. Por isso, tivemos grande acumulação de capital e até industrialização na escravidão. Isso não foi anômalo. As duas coisas estavam juntas no mesmo sistema de produção de riqueza. A mesma coisa continua acontecendo até hoje.

Mas isso não tem grande visibilidade, não?

A sociedade não vê porque ela não acredita. Nós temos uma cultura escolar de bestificação das pessoas. "Acabou a escravidão no dia 13 de maio de 1888", esta é uma historiografia idiota! Não analisa os processos. Não salienta que tivemos duas escravidões no Brasil e temos agora uma terceira. Tivemos então: a escravidão indígena, a escravidão negra e depois a escravidão da peonagem, com radiantes em várias partes do Brasil. Se a escola educasse melhor para as pessoas enxergarem a história como ela é, as pessoas seriam mais sensíveis. Essa informação sobre a terceira escravidão está sendo publicada todo o tempo, mas as pessoas não enxergam. É uma deturpação cultural derivada da matriz de entendimento das coisas.
Fonte:IHU

UM RÉQUIEM PARA FHC.

O texto do ex-presidente tucano, publicado em vários jornais no domingo, revela um erro de cálculo político sem precedentes. Contrariando seus aliados, que desejavam vê-lo distante da campanha do PSDB para presidente em 2010, FHC trouxe para o próximo pleito a comparação entre as políticas de seu governo e as do governo Lula: a única polarização que a direita não queria. Imaginando-se um estrategista, virou um fardo pesado para as possíveis candidaturas de José Serra e de Aécio Neves. O artigo é de Gilson Caroni Filho.

Gilson Caroni Filho

As palavras são as armas. E foi acreditando em sua capacidade de manejá-las com destreza que Fernando Henrique Cardoso tentou atacar o presidente Lula em seu artigo publicado no jornal O Globo, do último domingo. Em sua vaidade desmedida, imaginava-se escrevendo um texto inaugural, um manifesto histórico capaz de desvendar a cena política, retirando a oposição do estado letárgico em que se encontra. O efeito foi exatamente o contrário.

O texto mal escrito, sem sentido em muitos parágrafos, revela um erro de cálculo político sem precedentes. Contrariando seus aliados, que desejavam vê-lo distante da campanha do PSDB para presidente em 2010, FHC trouxe para o próximo pleito a comparação entre a política econômica do governo e a da gestão petista: a única polarização que a direita não queria. Imaginando-se um estrategista, virou um fardo pesado para as possíveis candidaturas de José Serra e de Aécio Neves. Triste para o prestigiado sociólogo, deplorável para o experiente político.

Comparações são ociosas, mesmo porque cada polemista tem o seu tempo na história. Mas não é de hoje que o sonho do“"príncipe dos sociólogos" é ser um Carlos Lacerda redivivo. Vê a si próprio como um panfletário versátil e demolidor, capaz de usar as palavras como metralhadoras giratórias nas mãos de um guerrilheiro. O problema é que seu estilo é tosco e seus escritos ininteligíveis. Não é capaz de açular os medos da classe média, mesmo usando os velhos ingredientes que vão da ameaça de uma república sindicalista a um quadro incontrolável de corrupção. Não aprendeu que, sem o apoio das bases sociais que o acompanham, seu suposto prestígio pessoal conta pouco.

Para criar condições de instabilidade superestrutural não bastam editoriais, artigos e noticiários de jornalistas de direita. É preciso que as classes dominantes se encontrem excepcionalmente reunidas em torno de um só objetivo. Para isso, do outro lado, tem que haver um governo fragilizado, com escassa base de apoio, incapaz de promover crescimento econômico com redistribuição de renda. Reeditar uma“"Marcha da Família com Deus, pela liberdade" não é o troféu fácil que o voluntarismo pedante imagina.

Quando escreve que "é possível escolher ao acaso os exemplos de "pequenos assassinatos". Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal-ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira "nacionalista", pois, se o sistema atual, de concessões, fosse "entreguista", deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública", seu objetivo é tão claro como raso.

É uma volta ao passado como farsa. Aos tempos em que os nacionalistas lutavam por uma solução independente para extração e refino do petróleo, de importância estratégica para o desenvolvimento do país, enquanto os entreguistas definiam-se abertamente pela exploração do produto pelo capital estrangeiro. Claro que estamos tratando de realidades distintas no tempo e no espaço, mas a motivação da direita é idêntica. E é a ela que a inspiração de FHC se dirige, inebriado como se cavalgasse uma fulgurante carreira política. O desespero e o patético andam sempre de mãos juntas. Ainda mais se lembramos "quem cevou os facilitadores de negócios na máquina pública" no período que vai de 1994 a 2002.

Criticando o que chama de "autoritarismo popular", o candidato a polemista prossegue: "Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são "estrelas novas". Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam."

A recorrência aos riscos de uma república sindicalista mostra a linhagem golpista do artigo de FHC, mas a falta de prudência, indispensável para quem pensa estar escrevendo um novo Manifesto dos Coronéis, leva a indagações. O autoritarismo de mercado, marca do seu mandato, é exemplo de democracia? A era da ligeireza econômica, da irresponsabilidade estatal ante a economia fortalecia as instituições do Estado Democrático de Direito? Ou não seria exatamente o oposto? Um bloco de poder composto pelo agronegócio, grandes corporações midiáticas e uma burguesia desde sempre associada, que privilegiava a ampliação crescente das margens de lucro, ignorando os custos sociais que isso implicava. Qual a autoridade política do ex-presidente para interpelar o atual?

O que foi seu governo senão uma tentativa desastrosa de adaptar o aparelho de Estado às exigências criadas pelo neoliberalismo, contendo, a todo custo, as reivindicações dos trabalhadores do campo e da cidade? No final, com uma impopularidade recorde, a superestrutura política entrou em crise e os aliados contemplaram a rota de afastamento. É a isso que FHC nos convida a voltar?

Outra observação interessante pode ser extraída desse trecho: "Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental numa companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas?". Aqui, o lacerdista frustrado ultrapassou qualquer limite da sensatez. Abriu o flanco, ao permitir a inversão da pergunta que faz.

Como destacaram, em 1997, Cid Benjamim e Ricardo Bueno, no "Dossiê da Vale do Rio Doce", "o Brasil levou 54 anos para construir e amadurecer esse gigantesco complexo produtivo. O governo FHC pretende vendê-lo, recebendo no leilão uma quantia que corresponderá, mais ou menos a um mês de juros da dívida interna". Em maio daquele ano, a Vale foi vendida pelo governo federal por R$ 3,3 bilhões. Em 2007, seu valor de mercado estava em torno de R$103 bilhões. Em nenhum outro período a máquina estatal foi usada para transferir recursos públicos para o capital privado como nos dois governos do tucanato. Foi a esse continuísmo que a população deu um basta em outubro de 2002.

O que se pode depreender das linhas escritas pelo tucano que queria ser corvo? FHC se especializou na arte do embarque em canoas onde o lugar do náufrago está antecipadamente destinado ao canoeiro de ocasião. Julgava estar redigindo um artigo que funcionaria como divisor de águas. Mas afundou junto com ele. Escreveu o seu próprio réquiem, levando junto velhos próceres do PSDB. Um trabalho e tanto. Extremamente apropriado para leitura no dia 2 de novembro.
Fonte:Agência Carta Maior

domingo, 1 de novembro de 2009

GLOBO E JEREISSATI VÃO CORTAR RELAÇÕES BRASIL- NOVA IORQUE?

Copiado do "Blog do Brizola Neto"

Bloomberg,o bilionário. Alguém vai dizer que ele é ditador?

Eu abordei aqui a reação provinciana do Senador Tasso Jereissati e o editorial furibundo de O Globo contra a entrada da Venezuela, terceiro parceiro comercial brasileiro, no Mercosul. Agora, por um dever de coerência, acho que eles deviam propor o fim de qualquer relacionamento comercial brasileiro com empresas instaladas em Nova York e reivindicar a suspensão de vistos para os brasileiros que quiserem ir à cidade.

É que os jornais anunciam que o prefeito (e milionário) Michael Bloomberg mudou a lei municipal e conseguiu a aprovação num referendo para um terceiro mandato num referendo. Ao contrário do que aconteceu na Venezuela, porém, Bloomberg fez como Fernando Henrique fez no Brasil para criar a reeleição: nada de consulta em referendo, para saber se o povo concordava.

Isso valeu-lhe um comentário com comparação semelhante do jornalista Clyde Haberman, no The New York Times:

O homem que voltou a consultar o povo era o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Ainda que seja severamente criticado nos Estados Unidos, descrito como déspota e até mesmo como um bufão, ele fez aquilo que o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, não teve coragem de fazer. E venceu, da mesma forma que muitos cidadãos de Nova York imaginam Bloomberg teria vencido, caso depositasse mais fé no eleitorado. No domingo, os venezuelanos aprovaram em um referendo o direito do presidente e outros ocupantes de cargos eletivos a se eleger quantas vezes quiserem para um mesmo posto.
Perguntaram ao prefeito um dia desses se a experiência venezuelana o havia levado a reconsiderar a forma pela qual alterou a lei de limitação de mandatos na cidade. A questão irritou Bloomberg. Hoje em dia, prepotência em entrevistas coletivas se tornou sua marca registrada. “O que temos nós a ver com Hugo Chávez?”, ele rebateu.

Bloomberg usa sua própria fortuna, estimada em 17,5 bilhões de dólares, para dominar a campanha eleitoral. Calcula-se que tenha gasto, do bolso, cerca US$ 100 a 140 milhões. Seu rival, o democrata Bill Thomson, investiu US$ 6 milhões.

Sei que Jereissati tem uma simpatia natural por Bloomberg: ambos viajam nos seus próprios jatinhos, “porque podem”. Mas espero ver, antes da eleição de terça-feira, um editorial de O Globo e um discurso do senador contra este “ditadorzinho latino americano” de Nova York.

JOSÉ ALENCAR JÁ ADMITE SE CANDIDATAR EM 2010.

Ricardo Kotscho

BRASÍLIA _ “Lula, estou com um problema sério. Eu já tinha planejado tudo para morrer, até o cemitério, e agora, de uma semana para cá, vi que vou ter que replanejar tudo”, confidenciou o vice José Alencar durante a feijoada em que só parentes e velhos amigos da família Silva, umas 30 pessoas, comemoraram, neste sábado, os 64 anos do presidente, na Granja do Torto, em Brasília.

Feliz da vida com os resultados dos últimos exames, que mostraram uma regressão dos tumores no intestino, José Alencar chegou animado à festa acompanhado da mulher, dona Mariza. A presença dele foi uma surpresa que a outra Marisa, mulher de Lula, preparou para o presidente, porque a festa oficial de aniversário, com os membros do governo, já tinha acontecido na terça-feira, no Alvorada.

Maior foi a surpresa do presidente Lula quando, já no final do almoço, meio brincando, meio falando sério, o vice-presidente revelou a ele seus planos para 2010:

“Diante dos últimos exames, meu nome está de novo à disposição. Só não posso ser candidato a vereador nem a prefeito porque no ano que vem não tem eleição municipal. Fora isso, posso ser candidato a qualquer cargo em 2010″.

Virando-se para as outras pessoas na mesa principal _ as respectivas mulheres, os médicos Roberto Kalil, Nana Miura e Cláudia Cozer, e o cantor e compositor Noca da Portela _ José Alencar falou dos seus novos planos:

“O Lula está me devendo… Eu tinha mais quatro anos no senado e saí para ser vice dele… agora ele tem que me apoiar para devolver estes quatro anos…”

Em outras palavras: o vice José Alencar está “colocando à disposição” o seu nome para disputar uma das duas vagas para o Senado por Minas Gerais. Comentário meu: do jeito que anda seu prestígio em todo o país, Alencar seria um dos poucos candiodatos majoritários no ano que vem não precisaria nem do apoio do presidente Lula para se eleger.

Na festa de Lula, a
estrela é Noca da Portela

Outra surpresa preparada para o presidente Lula por dona Marisa, que cuidou da feijoada, e pela nora Marlene Araújo, encarregada da “produção”, foi um show do velho sambista Noca da Portela, autor, entre outros grandes sucessos, nos seus 55 anos de carreira, do jingle “Estrela da Esperança”, que fez em parceria com Riko Dirolêo, para a campanha de 2002.

Aos 76 anos, mesma idade de José Alencar, ele contou que veio prestar uma homenagem ao presidente, “com cachê zero”, e já chegou entoando os versos iniciais da música:

Está em festa o meu país
Nossa gente está contente
O Brasil está feliz
Lula é o nosso presidente

Acompanhado de apenas quatro ritmistas (dois deles alunos do Pró-Uni) e do parceiro Toninho Nascimento, Noca da Portela cantou a tarde toda e, nos intervalos, contou passagens da sua vida desde que deixou a sua pequena Leopoldina, em Minas gerais, e foi para o Rio de Janeiro, com cinco anos.

Nascido Osvaldo Alves Pereira, Noca fez seu primeiro samba enredo, o “Grito do Ipiranga”, com apenas 14 anos, para a escola Irmãos Unidos do Catete. Em 1966, seria levado para a Portela por Paulinho da Viola e de lá nunca mais saiu.

A família era da roça em Minas, mas o pai, Ernesto Domingos Araújo, seu mestre, foi um importante violonista no Rio de Janeiro, embora nunca tenha gravado um disco. Sua casa era frequentada por Cartola, Noel Rosa, Chico Alves, entre outros grandes nomes da nossa música popular.

Antes de se tornar famoso e ganhar a vida como músico, Noca foi feirante de frutas e legumes, dos 18 aos 28 anos. Como o pai, também foi militante do Partido Comunista Brasileiro, o antigo Partidão. “Desde jovem, a política e a música sempre se misturaram na minha vida. Meu ídolo era o Luiz Carlos Prestes. Viajei o Brasil inteiro junto com o taiguara fazendo shows para o Partidão”.

Depois de participar de toda a Campanha das Diretas ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo, Brizola e Lula, no final dos anos 1980, ele ainda faria o jingle da campanha de Roberto Freire, o candidato do PCB a presidente da república. Logo em seguida, aproximou-se do PT.

“Eu quero ajudar o meu país. Quando o Partidão acabou, a maioria foi para o PT e, em 2002, fiz o jingle da primeira vitória do Lula. Esse Brasil do nosso Lula deu oportunidade para mostrarmos o nosso rosto, um rosto bonito. Antes a gente escondia o rosto de vergonha”.

Músicos e convidados tomaram chope e caipirinha, menos Lula, que está fazendo a dieta da proteína e só comeu as carnes da feijoada. Foi uma festa bem caseira. Milhares de outros Silva devem ter comemorado deste jeito, com samba, cachaça e feijão, os seus aniversários por todo o Brasil neste sábado. Quando a música parou, a lua cheia começou a aparecer no horizonte da Granja do Torto. Foi o penúltimo aniversário que Lula comemorou aqui.
Fonte:Balaio do Kotscho

MÍDIA - Retorno dos jornais à origem partidária.

Altamiro Borges

No excelente artigo “jornais ‘independentes’ fazem retorno invertido às suas origens partidárias”, publicado na Agência Carta Maior, o professor Venício A. de Lima, um dos maiores especialistas em mídia no país, dá uma aula de história e denuncia a crescente partidarização da chamada grande imprensa. Reproduzo-o abaixo:

A imprensa – ou o de mais parecido com aquilo que hoje entendemos como tal – nasceu vinculada à política, aos políticos e aos partidos políticos.

No curso da revolução na França calcula-se que, entre 1789 e 1800, foram publicados mais de 1.350 jornais. Na Paris de 1789 e depois novamente em 1848, todos os políticos de algum destaque fundam o próprio clube e, de cada dois políticos, um dá vida a um jornal; somente entre fevereiro e maio surgem 450 clubes e mais de 200 jornais (citado in Domenico Losurdo; Democracia ou bonapartismo; Editoras UFRJ/UNESP; 2004; p. 148).

Historiadores da imprensa periódica nos países onde ela primeiro floresceu, sobretudo Inglaterra, França e Estados Unidos, concordam que ela teve sua origem na política e, numa segunda fase, se transformou em imprensa comercial, financiada por seus anunciantes e leitores.

No Brasil, as circunstâncias históricas certamente nos diferenciam de países como Inglaterra, França e Estados Unidos. Não há distinção, todavia, em relação às origens políticas e partidárias da imprensa nativa. Escrevendo especificamente sobre “as reformas dos anos 50 (que) assinalaram a passagem do jornalismo político-literário para o empresarial”, a professora Ana Paula Goulart Ribeiro afirma:

“O jornalismo que se desenvolveu, no Rio de Janeiro, a partir de 1821 (com o fim da censura prévia) era profundamente ideológico, militante e panfletário. O objetivo dos jornais, antes mesmo de informar, era tomar posição, tendo em vista a mobilização dos leitores para as diferentes causas. A imprensa, um dos principais instrumentos da luta política, era essencialmente de opinião (Imprensa e História no Rio de Janeiro dos anos 50; E-Papers; 2007; p. 25)”.

Outra periodização

A exceção à ordem dessa periodização – que deve ser mencionada aqui pela relevância de que desfruta na discussão contemporânea sobre a “democracia deliberativa” – é representada por Jürgen Habermas. O pensador alemão descreve a existência de uma primeira imprensa que era a principal instituição da “esfera pública burguesa” do final do século XVII e início do século XVIII, na Inglaterra e na França. Nesta “esfera pública” a imprensa se constituía em espaço mediador “neutro” e não impedia a delimitação entre as esferas pública e privada. Embora também comercial, não era ainda o empreendimento em escala industrial que corresponde a outra etapa do capitalismo quando, depois da fase político-partidária, ela se transforma em imprensa comercial moderna.

Todavia, é o próprio Habermas quem afirma: “Na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, o caminho estava preparado para a transição de uma imprensa partidária para uma imprensa comercializada mais ou menos à mesma época durante os anos 30 do século XIX. (...) Essas primeiras tentativas de uma moderna imprensa comercial devolveram ao jornal o caráter unívoco de uma empresa de economia privada destinada a gerar lucros; mas, agora, por certo, contrastando com as empresas manufatureiras dos velhos ‘editores’, dentro do novo nível atingido pela evolução da grande empresa do capitalismo avançado; já pela metade do século havia uma série de empresas jornalísticas organizadas como sociedades anônimas (Mudança Estrutural da Esfera Pública; Tempo Brasileiro, 1984; pp.216-217; tradução revisada).

Ação política conservadora

O filósofo e historiador italiano Domenico Losurdo lembra que o desaparecimento dos jornais partidários e sindicais não pode ser, no entanto, explicado como resultado exclusivo de um processo econômico. Ao contrário, deve ser compreendido como parte do processo histórico de organização política e sindical das classes subalternas e da reação conservadora que se desenvolve no final do século XIX contra a expressão relativamente autônoma dessas classes. Uma ação política que incluiu também o combate ao princípio do sufrágio universal.

Tomando como referência o que ocorreu nos Estados Unidos, afirma Losurdo: “Malgrado as tentativas do patronato, que se esforça de todas as maneiras, e, sobretudo, mediante a demissão dos operários surpreendidos na sua leitura (da ‘labor press’) para limitar sua influência, esta não é desprezível... Esta imprensa se torna o alvo e a vítima da reação conservadora que se desenvolve no final do século XIX. (...) (Os jornais partidários e sindicais) são suplantados por uma imprensa que se jacta de ser independente, mas é controlada pela grande propriedade (citado in op. cit.; pp. 159-160).

A imprensa que se autodenomina “independente” é aquela que passa a ser financiada, sobretudo, pelos anunciantes e, ao longo do tempo, busca sua legitimação no princípio liberal do “mercado livre de idéias”, externo e/ou interno à própria imprensa e, mais recentemente, através de um retorno à idéia da própria “esfera pública” habermasiana.

Mas teriam os jornais realmente se libertado de seu vínculo originário com a política, os políticos e a ação político-partidária? Teriam eles se tornado independentes?

Independência e “mercado livre de idéias”

Há mais de 60 anos, isto é, pelo menos desde a Hutchins Commission (EUA/1942-1947), a teoria liberal da independência da imprensa vem sendo “retrabalhada” e passou a se apoiar em três idéias centrais: pluralismo interno, responsabilidade social e profissionalismo.

Esse “retrabalhar” decorreu da impossibilidade de se continuar sustentando o discurso do “market place of ideas” – semelhante ao mercado “autocontrolado” de Adam Smith – em face do avanço real da oligopolização da mídia e da formação de redes regionais e nacionais de rádio e televisão. Trata-se agora de trazer o “market place of ideas” para dentro dos próprios jornais.

A idéia, no entanto, encontra dificuldades incontornáveis. Se, por um lado, a solução é inviável em sociedades onde existe uma tradição historicamente consolidada de imprensa partidária, por outro, os estudos sobre linguagem, a sociologia do jornalismo, a construção da notícia (newsmaking), o enquadramento (framing) e o agendamento (agenda setting), apesar de diferenças significativas, revelam que a prática do jornalismo profissional ocorre no contexto de uma subcultura própria; de rotinas produtivas que se transformam em normas; e de interferências editoriais – explícitas ou não – que tornam sem sentido qualquer pretensão à existência do mito da objetividade ou de uma prática jornalística neutra e isenta, vale dizer, independente.

Mídia como partido político

Foi Antonio Gramsci, referindo-se à imprensa italiana do início do século XX, quem primeiro chamou a atenção para o fato de que os jornais se transformaram nos verdadeiros partidos políticos. Muitos anos depois, entre nós, Octávio Ianni chamou a mídia de “o Príncipe eletrônico”.

Na Ciência Política contemporânea, apesar de toda a resistência em problematizar “a construção coletiva das preferências” no debate teórico sobre a democracia, já se admite que a mídia venha, historicamente, substituindo os partidos políticos em algumas de suas funções tradicionais como, por exemplo, construir a agenda pública (agendamento); gerar e transmitir informações políticas; fiscalizar as ações de governo; exercer a crítica das políticas públicas e canalizar as demandas da população.

Retorno invertido

Dentro deste amplo quadro histórico é que devemos compreender certo “mal estar” contemporâneo generalizado que está cada vez mais difícil de esconder e refere-se à crescente partidarização da grande mídia. Este não é, certamente um fenômeno restrito às democracias da América Latina, como demonstra a ousada e inédita atitude do governo Barack Obama de tratar publicamente os veículos ligados à rede Fox de televisão como “partido político de oposição”.

Se, para alguns analistas, a “crise” que a imprensa enfrenta, em decorrência da revolução digital, está levando à sua partidarização como forma (equivocada) de sobrevivência, devemos recorrer à história e verificar que, ao assumir uma posição inequivocamente partidária, a grande mídia está fazendo uma espécie de “retorno invertido” às suas origens, no contexto da reação histórica conservadora do final do século XIX.

No Brasil, a imprensa declaradamente partidária e associada a bandeiras de luta política operária teve vida curta (cf. M. Nazareth Ferreira, A Imprensa Operária no Brasil, Vozes, 1978) e, por óbvio, essa nunca foi vocação de nossa grande mídia. Por outro lado, nos países em que primeiro surgiu, a imprensa partidária, quando desapareceu, estava associada às lutas de afirmação histórica das classes subalternas.

Será possível afirmar que, na conjuntura atual, a grande mídia que abertamente se partidariza, expressa e representa os interesses dessas mesmas classes?
Fonte:Blog do Miro.

A LÓGICA MORTAL DA GUERRA SEM FIM.

Para escritor Tariq Ali, americanos não entenderam que quanto mais longa a ocupação, maior a resistência

Ivan Marsiglia, de O Estado de S.Paulo

Tariq Ali: 'em público, Obama criticou assentamentos de Israel; privadamente, os estimulou'
SÃO PAULO - O chão tremeu três horas depois que a secretária de Estado americana Hillary Clinton pisou em Islamabad, capital do Paquistão, na quarta-feira. A explosão de um carro-bomba em um mercado popular em Peshawar, no noroeste do país, matou 105 pessoas, 13 das quais crianças. No mesmo dia em Cabul, capital do Afeganistão, o ataque a uma hospedaria usada por funcionários da ONU tirou a vida de outras 12 pessoas. Tudo em uma semana em que 8 soldados americanos morreram em confrontos no sul do país – elevando para 55 o número de militares dos EUA mortos só em outubro, recorde mensal desde a invasão, em 2001 – e 155 iraquianos morreram e mais 500 ficaram feridos em dois atentados a bomba no domingo, em Bagdá.


Parece que o céu caiu sobre as cabeças dos americanos neste início de século 21. Mergulhado na maior crise econômica desde o crash da bolsa de Nova York em 1929 e às voltas com uma crise militar evidenciada na instabilidade permanente de todos os fronts de batalha em que se meteu durante a administração George W. Bush, os EUA de hoje são um desafio monumental às esperanças catalisadas pela eleição de Barack Obama para a Casa Branca. Estaria o democrata – e sua esfuziante secretária de Estado – à altura da responsabilidade? Para o escritor e ativista paquistanês Tariq Ali, não.


“Obama é um presidente fraco, que não está à altura das dimensões da crise que enfrenta”, dispara, sem piedade, o autor de Confronto de Fundamentalismos – Cruzadas, Jihads e Modernidade (Record, 2002), livro explosivo que colocava no mesmo patamar moral os fanáticos religiosos do Islã e os “falcões” da extrema direita americana na era Bush. Aos 66 anos, o intelectual nascido e criado na cidade de Lahore, então parte da Índia colonial, e radicado em Londres, é um crítico agudo do “Estado imperialista” americano e de teologias econômicas que colocam o deus-mercado acima de quaisquer necessidades dos homens. Não por acaso, Tariq é um dos editores da New Left Review, revista fundada nos anos 60 que se tornou a bíblia da esquerda britânica. E é colunista do jornal The Guardian.


Com dezenas de livros publicados sobre política internacional, história e cultura do Oriente, além de novelas ficcionais, roteiros de cinema e peças de teatro, Tariq acaba de lançar no Brasil, pela Jorge Zahar Editor, Fidel Castro – As Declarações de Havana, uma compilação comentada de três discursos proferidos pelo ditador cubano entre 1953 e 1961, em que não esconde sua admiração por ele. Entusiasta também das ideias do venezuelano Hugo Chávez e do boliviano Evo Morales, Tariq definitivamente não reza pelo mesmo terço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem considera “uma versão tropical de Tony Blair, desesperado para agradar pessoas às quais deveria se opor”.


Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade ao Aliás, Tariq Ali aponta a sua metralhadora verbal para a administração Obama – “incapaz de entender que é a guerra no Afeganistão que está exacerbando a crise no Paquistão” –, diz que a vida em Bagdá hoje é “pior do que era sob Saddam Hussein” e profetiza que, se um dia os EUA apoiarem Israel em uma incursão militar ao Irã, “a guerra no Iraque, em comparação, vai parecer um piquenique”.


Nesta semana, dois atentados no sul do Afeganistão mataram oito soldados americanos. Outubro foi o mês mais mortal para as tropas dos EUA no país desde a invasão, em 2002 – com 55 mortos. E o presidente Barack Obama enfrenta o dilema sobre enviar ou não mais tropas para lá. O que ele deveria fazer?


É verdade que o número de baixas entre soldados dos EUA e da Otan aumentou dramaticamente nos últimos seis meses, mas não se esqueça também da morte de civis inocentes na região. Há, de fato, um debate sério nos altos escalões políticos e militares americanos e me parece evidente que muitos estão defendendo uma retirada estratégica do país. Até Thomas Friedman, do New York Times, normalmente um “falcão” nesse tipo de assunto, tem sugerido que os EUA saiam de lá. São tensões que se refletem na política americana no Afeganistão. Há algumas semanas, o chefe das Nações Unidas em Cabul, um norueguês cabeça-dura, insistiu que as eleições presidenciais tinham sido justas e (o presidente Hamid) Karzai era o legítimo mandatário reeleito. Aí, seu assessor, Peter Galbraith, uma espécie de representante não oficial do Departamento de Estado, ficou furioso – pois agora os EUA andam insatisfeitos com Karzai, que é uma criação deles mesmos. Discordou e acabou demitido.


E ficou claro que houve fraude.


Quando o grupo de observadores eleitorais da ONU afirmou com todas as letras que as eleições tinham sido fraudadas, as montanhas Hindu Kush devem ter tremido com as gargalhadas dos pashtuns (etnia que habita o sudeste do Afeganistão e noroeste do Paquistão e se opõe ao governo aliado dos EUA). O bando de marionetes que apoiava Karzai perdeu porque se recusa a dividir poder e dinheiro com outros colaboradores. Se for autorizado a permanecer no poder, terá que ser mais maleável... Quando o general Stanley McChrystal interveio no debate político pedindo mais tropas, Obama deveria tê-lo demitido – a exemplo do que (o presidente Harry) Truman fez com (o general Douglas) MacArthur durante a Guerra da Coreia (1950–1953).


O senhor publicou um artigo na ‘New Left Review’ defendendo a ideia de que foi o fracasso da ocupação norte-americana que ressuscitou o Taleban no Afeganistão. Abandonar o país agora não seria perigoso tanto para os EUA como para a segurança internacional?


O que escrevi naquela ocasião acabou confirmado pelos acontecimentos. Quanto mais longa é a ocupação, maior a resistência a ela. A questão agora não é de “segurança internacional” (seja lá o que isso signifique), trata-se simplesmente de livrar a cara da Otan. As pessoas precisam aprender a diferenciar os insurgentes dos membros da Al-Qaeda. Mesmo a mais avançada central de inteligência ocidental sabe que a ameaça da Al-Qaeda hoje é mínima, se é que ela ainda existe. E seus líderes não se encontram no Afeganistão, mas presos no Paquistão ou espalhados por lá.


É por isso que a tensão em Cabul se espraia para o Paquistão?


Exato. Enquanto essa farsa acontece em Cabul, no vizinho Paquistão a situação vai se tornando cada vez mais mortal. O governo Zadari – que na realidade é dirigido pela embaixadora americana Anne W. Patterson – ordenou que o Exército paquistanês varresse o Taleban do Waziristão do Sul, próximo à fronteira com o Afeganistão. Uma outra iniciativa fadada ao fracasso. Mais inocentes vão morrer e outros refugiados vão se juntar aos 2 milhões de pessoas expulsas de suas casas que já estão morando nos campos. O resultado será um legado amargo de ódios realimentados e desejo de vingança que só poderá resultar em novos ataques na região – além do risco de criar tensões dentro das Forças Armadas paquistanesas. A administração Obama é incapaz de entender que é a guerra no Afeganistão que está exacerbando a crise no Paquistão, e se continuar assim as coisas só vão piorar. Não foi por acaso que essa semana o ex-marine Matthew Hoh, oficial sênior do serviço exterior no Afeganistão, criticou o esforço de guerra da Otan. Ela é parte do problema, não da solução.


No domingo, 155 pessoas foram mortas no Iraque numa série de explosões – no momento em que as tropas americanas começam a deixar os centros urbanos e devolver a gestão da segurança aos iraquianos. Sair do Iraque foi uma das promessas de campanha de Obama. Ele poderá mantê-la?


Nunca houve a intenção de fazer uma retirada completa. Só o que foi proposto foi restringir a presença militar americana às bases dos EUA no Iraque – onde essas tropas permaneceriam prontas para agir como uma força de emergência para garantir os interesses americanos. Essas tropas seriam reduzidas e parte delas despachada para o Afeganistão. Mas a guerra no Iraque ainda não terminou, e o regime instalado no país não duraria sem a presença americana. Então, neste momento, está completamente fora de questão uma retirada total do Iraque. Obama, isso não deveria ser esquecido, é o presidente de um Estado imperialista. Ele também serve a esses propósitos, de outra maneira não estaria na Casa Branca.


Após os ataques, o chanceler iraquiano, Hshyar Zebari, acusou a Síria e outros países vizinhos de não evitarem ações terroristas na fronteira com o Iraque. O governo sírio respondeu chamando as acusações de Zebari de ‘imorais’. Quem está com a razão?


Sempre que esse regime fantoche dependente das tropas de ocupação americanas é atacado vai correndo pôr a culpa em países vizinhos, porque olhar para o espelho seria doloroso demais. Mas basta tirar sua máscara para ver o tamanho do desastre. A vida no Iraque hoje é pior do que era sob Saddam Hussein. A repressão dos clérigos prevalece sem que os EUA sejam capazes de controlá-la.


Em seu livro ‘Confronto de Fundamentalismos’, de 2002, o senhor critica tanto os fanáticos religiosos quanto os ‘falcões’ do presidente Bush e prevê que a segurança do mundo pioraria muito caso os EUA invadissem o Iraque. Um diagnóstico que se confirmou. Qual o primeiro passo para alterar a situação?


Seria os EUA e seus aliados pararem de promover guerras por influência política, retirar suas tropas do Oriente Médio e do Afeganistão. Isso exige uma solução para a questão entre israelenses e palestinos, que se prolonga por mais de meio século. Obama falou com uma língua bífida no Cairo. Publicamente, criticou os assentamentos de Israel nos territórios ocupados. Privadamente, os estimulou. Quem disse isso foi um porta-voz israelense na televisão Al-Jazira. Então, o primeiro passo ainda está longe de ser dado.


Mas Obama sofre uma tremenda pressão interna nos EUA, por supostamente não defender como deveria os interesses nacionais. E, ao mesmo tempo que tem que lidar com o duro legado da administração Bush, anuncia uma nova política externa, com ênfase no multilateralismo. É só discurso? Como avalia o governo Obama até agora?


Existe um forte anseio da parte de muita gente nos EUA e no resto do mundo por uma mudança significativa, e muitas dessas esperanças apareceram representadas na vitória de Obama. Então, ele estava a caminho de se tornar um grande líder. Mas o problema não é individual, é sistêmico. A crise econômica e militar que os EUA estão enfrentando exige medidas fortes: o desmonte da economia neoliberal e sua substituição por um capitalismo de utilidade pública. Joseph Stiglitz e mesmo Paul Krugman defendem essa transição. E muitos dos apoiadores de Obama estão ficando cada vez mais deprimidos. Um dos mais inteligentes deles, Frank Rich, do New York Times, está obviamente farto dos recuos na agenda interna. Recentemente, escreveu: “Os americanos continuam suspeitando de que Washington esteja mancomunada com interesses poderosos, contribuindo para a confusão e o ceticismo sobre o que acontece longe dos olhos do público na batalha pela reforma do sistema de saúde. O público tem razão. Acordos legislativos da atual administração com companhias farmacêuticas foram assinados a portas fechadas. Business Week reportou no início de agosto que o United Health Group e os gigantes do ramo de seguros, que são seus parceiros, andaram rondando discretamente parlamentares democratas para impedir qualquer opção de saúde pública que possa competir com eles nos negócios”. Acho que Obama é um presidente fraco, que não está à altura das dimensões da crise que enfrenta. E o pior é que não há uma oposição organizada ao governo, a não ser da parte dos republicanos de direita. Os liberais silenciaram em nome da lealdade e da incapacidade de propor mudanças às políticas interna e externa do país.


O jornalista britânico Robert Fisk afirma que a maior ameaça à segurança internacional não está no Irã, no Iraque ou no Afeganistão, mas no Paquistão – que tem armas nucleares e uma situação política instável. O senhor concorda?


Fisk exagera. As instalações nucleares do Paquistão estão seguras, a não ser que as Forças Armadas se desestabilizem, o que é muito improvável – só ocorreria se a escalada da guerra dos EUA no Afeganistão se tornar incontrolável. Nesse caso, Fisk poderia estar certo. Mas os reais problemas do país são a existência de uma elite venal e de uma população atingida pela pobreza. O regime corrupto liderado por Asif Zardari obedece às instruções da embaixada americana em Islamabad sem questionar nada. A representante americana no Paquistão, Anne Patterson, é por vezes de uma franqueza desconcertante. No início do ano ela ofereceu uma verdadeira pérola a um chefe da inteligência europeia em visita ao país. Disse que, enquanto Musharraf costumava ser pouco confiável, dizendo uma coisa em Washington e fazendo o contrário quando chegava em casa, Zardari é perfeito: “Ele faz tudo o que a gente pede”. O mais perturbador não é a candura da senhora Patterson, mas sua total incapacidade de julgamento. Zardari pode ser uma doce criatura aos olhos de Washington, mas o ódio que desperta no Paquistão não se limita apenas a seus adversários políticos. Ele é desprezado principalmente por ser venal. Deixou seu posto como ministro do Investimento e, poucas semanas depois de ocupar o palácio presidencial, seus asseclas já assediavam os grandes empresários do país em busca de uma parcela de seus lucros.


E o atentado que matou mais de cem pessoas quarta-feira no Paquistão, horas depois da chegada de Hillary Clinton ao país? Foi apenas, como ela disse depois, a manifestação do desespero de certos grupos que estão ‘no lado derrotado da História’ ou significa que o Taleban está se tornando mais forte no Paquistão?


Se o atentado foi praticado pelo Taleban ou por um grupo tribal pashtun, não sabemos. Mas o que é evidente é que foi uma resposta à recente ofensiva ao Waziristão do Sul. Há uma lógica mortal nesse tipo de guerra, cuja lição Washington ainda não aprendeu. Deveriam ter perguntado a Hillary Clinton se o Taleban era o “lado derrotado” quando os EUA começaram a negociar com ele.


Seu livro lançado recentemente no Brasil, ‘As Declarações de Havana’, traz a público três discursos de Fidel Castro no início da revolução que dão pistas sobre sua concepção de história e suas relações com os EUA. Essa semana, a ONU pediu novamente ao governo americano que ponha fim ao embargo econômico à ilha. Sabemos que tal decisão não depende apenas da vontade de Obama, mas, principalmente, dos congressistas americanos. Acha que hoje exista um clima melhor na sociedade americana para a derrubada do embargo?


A nova geração cubano-americana de Miami já não sente o mesmo ódio que seus avós alimentavam contra Cuba. O bloqueio econômico sempre foi imoral. É agora um anacronismo e Obama poderia se empenhar mais se não estivesse tão afundado em problemas. Quando o embargo cair, um novo debate terá início em Cuba. O debate sobre para que direção seguir: Miami ou Pequim?


Juanita Castro, irmã de Fidel que vive em Miami, veio a público esta semana dizer que trabalhou como espiã para a CIA contra o regime castrista. O que sabe dessa história?


Tudo o que eu sei é que isso não é exatamente uma surpresa. Fidel pertencia a uma família cubana tradicional e reacionária. Ele rompeu com seu passado e com sua classe social originária. Sua família, não. Juanita, em particular, tem feito discursos venenosos contra o regime por muitas décadas. Então, não é nenhuma surpresa.


Em 2006, o senhor declarou à BBC que estava ‘muito decepcionado’ com o primeiro mandato do presidente Lula. Por quê? Agora que o segundo mandato está chegando ao fim, que legado ele deixará ao Brasil e à América Latina?


O que eu quis dizer naquela ocasião foi que, após os anos de governo Cardoso, de desindustrialização do Brasil pela implementação do neoliberalismo, era triste ver Lula e seus aliados prosseguirem no mesmo caminho. Também não foi agradável ver o País enviar tropas para policiar o Haiti – resultando na renúncia de um comandante brasileiro e no suicídio de outro. Triste. Eu o vejo como uma versão tropical de Tony Blair, desesperado para agradar pessoas às quais deveria se opor. O segundo mandato tem sido melhor em alguns aspectos, mas não na economia – que, para mim,necessita de uma mudança de grandes proporções. Na política externa, Lula sabiamente recusou-se a participar dos planos americanos para desestabilizar Evo Morales e Hugo Chávez. E manifestou-se contra a instalação de bases dos EUA na Colômbia, mas não deveria ter se deixado convencer tão facilmente por Obama.


A visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil, marcada para o dia 23 de novembro, tem sido alvo de críticas da comunidade israelense no País e até de parlamentares americanos, como o democrata Eliot Engel. Eles argumentam, entre outras coisas, que Ahmadinejad nega a existência do Holocausto e, portanto, não deveria ser recebido em um país democrático. Aceitando o encontro, Lula não dá uma mensagem ambígua ao mundo?


Há uma controvérsia sobre o que Ahmadinejad realmente disse a propósito do Holocausto. Seus partidários insistem que o que ele criticou foi o uso que Israel faz hoje em dia do tema do Holocausto. É o que (o cientista político americano) Norman Finkelstein, cujos pais passaram a juventude em um campo de concentração nazista, chama de “indústria do Holocausto”. Acho curioso que israelenses se julguem no direito de dizer quem pode visitar quem. Eles não têm muita moral depois dos contínuos ataques militares à população palestina e as guerras no Líbano e em Gaza.


Mas Israel não tem motivos reais para temer o Irã?


Essencialmente, Israel deseja preservar seu monopólio em armamento nuclear na região. Por isso, desencadeou uma campanha feroz contra o Irã e tem tentado persuadir os EUA a apoiar uma incursão militar àquele país. Se isso um dia acontecer a guerra no Iraque, em comparação, vai parecer um piquenique. Até agora, o Pentágono tem resistido às pressões dos lobbies israelenses. Vou ser um pouco duro: o crime que foi o genocídio de judeus durante a 2ª Guerra não dá a Israel um cheque em branco. E deveria ser motivo de orgulho para a América Latina que os únicos países que romperam relações com Israel após os ataques a Gaza tenham sido a Venezuela e a Bolívia, não o Egito e a Turquia. Então, Lula não deveria se intimidar pelas pressões do lobby de Israel – que não admite críticas a seu país. Por outro lado, ele certamente deveria aproveitar a visita para perguntar ao presidente iraniano se ele acredita ou não que milhões de judeus foram exterminados pelo Terceiro Reich.
Fonte:Estadão

GARCIA LORCA EM TODAS AS ENCARNAÇÕES.

“A poesia não quer adeptos: quer amantes”, disse certa vez o poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca, que viveu de acordo com suas palavras até ser fuzilado em 1938 por adeptos do regime franquista que se instalara em seu país. García Lorca foi uma das primeiras vítimas das cerca de um milhão que morreriam na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

García Lorca não era militante das causa políticas mas, mesmo assim, não abria mão da sua liberdade. Ao morrer por ela, tornou-se uma espécie de mártir para os escritores de sua geração. No Brasil, foi tema de trabalhos dos também poetas Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Vinicius de Morais, entre outros.

A ocasião de sua morte até hoje é desconhecida. Na sua cidade natal, Granada, onde foi refugiar-se assim que a situação apertou na Espanha, seus habitantes evitam falar do episódio. Acredita-se que o corpo do poeta tenha sido enterrado em uma vala comum na companhia de outras três pessoas: Francisco Galadí, Joaquín Arcollas e Dióscoro Galindo.

Esta semana, no entanto, começaram escavações na mesma região onde se crê que o escritor esteja enterrado. O objetivo da empreitada é identificar outros corpos que tiveram o mesmo fim de García Lorca.

Devido à incerteza sobre as circunstâncias de seu assassinato e seu sepultamento, pode ser que a partir dessas investigações sejam descobertos seus restos mortais em algum outro lugar, que não o que se acredita. Uma lenda regional diz que o corpo do poeta teria sido levado para sua casa – onde agora funciona um museu em sua homenagem – poucos dias depois de ter sido enterrado.

Lendas à parte, a família García Lorca é totalmente contra a exumação.

O filme “O desaparecimento de García Lorca” (The Disappearance of Garcia Lorca, 1996), baseado no livro de Ian Gibson, trata dessa dúvida quanto à circunstância da morte do poeta. No drama, um jornalista e admirador de García Lorca volta a Granada anos depois da morte de seu ídolo (interpretado por Andy Garcia) para tentar descobrir a verdade a respeito do assassinato.

Fonte: Opera Mundi

SARAMAGO - Porque nunca houve greves em fábricas de armas?

Esta é a questão que serve ponto de partida para o próximo livro do escritor português José Saramago, que já está sendo escrito. A revelação foi feita pelo próprioescritor durante a apresentação da sua última obra, Caim, em Lisboa
“Todos aqueles que me conhecem bem sabem que sempre me tenho interrogado: por que é que nunca houve uma greve numa fábrica de armas? Nunca… Serão aqueles operários menos conscientes?", questionou Saramago.

“Assim como Deus não é de fiar, os exércitos também não. O cidadão deve exercer a sua parte de vigilante e não se deixar levar pela banda de música ou pelo seu porta-estandarte”, apontou ainda o Prémio Nobel da Literatura de 1998.

Com agências

EUA - Dez perguntas a Barak Obama.

Copiado do blog "Rodapé"

Presidente Barack Obama: se o senhor ainda não lê o blog Rodapé, deveria fazê-lo. Tenho a esperança de que algum funcionário do consulado norte americano em São Paulo irá indicá-lo ao senhor. O que me motiva, desde já, a encaminhar à sua consideração a possibilidade de responder a algumas perguntinhas, não só ao blog, mas quem sabe ao mundo, agora também na condição de ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2009. Vamos a elas:

1 – Qual o número de ogivas nucleares ainda guardadas em arsenais norte americanos?
2 – Por qual motivo o seu governo não condena o Estado de Israel por possuir armas nucleares, quando se condena a República do Irã a evitá-las?
3 – Por quê enviar mais 25 mil soldados ao Afeganistão?
4 – Por quê não retirar as tropas norte americanas do Afeganistão e do Iraque?
5 – Por quê manter o ignominioso bloqueio econômico a Cuba?
6 – Por quê não fechar a base militar de Guantánamo em território cubano?
7 – Por quê aumentar o número de bases militares na Colômbia?
8 – Por quê não condenar efetivamente o golpe militar contra o governo eleito democraticamente do senhor Manuel Zelaya em Honduras?
9 – Por quê reativar a IVª frota da Marinha de Guerra norte americana para operar no Atlântico Sul?
10 – Diante destas perguntas, por qual motivo o senhor não recusou o prêmio Nobel da Paz, na sua versão de 2009?

Creio que o mundo inteiro – e o digo sem nenhum tipo de ironia – gostaria de ver estas perguntas respondidas, com a transparência e a dignidade com que é suposto ter um agraciado com tal prêmio.
Como não posso falar em nome de todos, faço-o em meu próprio, no de meus três filhos e do meu netinho Leonardo, que ainda têm a expectativa de poder viver realmente em paz nos próximos anos.

Izaías Almada, escritor, dramaturgo e colunista do Blog Rodapé.

SAÚDE - Aprenda a comer devagar.

Mauro Scharf, endocrinologista do Bronstein Medidina Diagnóstica/DASA, explica os
Um estudo divulgado em setembro deste ano pela Universidade de Wageningen, na Holanda, mostrou a relação entre o ritmo em que se come e a quantidade de calorias consumidas. Os pesquisadores constataram que comer devagar, colocando menores porções de comida na boca e mastigando por mais tempo, pode reduzir a ingestão de calorias e, consequentemente, ajudar na perda de peso. De acordo com os autores, essa prática faz com que as pessoas se sintam satisfeitas mais rapidamente, fazendo-as comer menos. O teste foi feito com pudim e revelou que as pessoas que permaneceram com o alimento na boca por nove segundos ingeriram, em média, 42 gramas a menos.

Uma outra pesquisa, publicada na revista científica American Journal of Clinical Nutrition, mostrou que, quando mulheres jovens comiam massa com tomate e queijo mais lentamente, mastigando cuidadosamente, elas consumiam 70 calorias a menos, além de se sentirem mais satisfeitas após a refeição. Acredita-se que isso acontece porque uma refeição mais lenta permite que o organismo humano dê os sinais naturais de saciedade, como distensão do estômago e mudanças nos hormônios associados ao apetite. Esses sinais, segundo a análise, alertam o organismo sobre a hora certa para se interromper o ato de comer.

Segundo Mauro Scharf, endocrinologista do Bronstein Medicina Diagnóstica / DASA, os estudos ainda são iniciais e é preciso que sejam feitas mais análises para constatar se isso acontece para todas as pessoas e com todos os tipos de alimentos. “Mas é inegável que comer devagar faz bem”, reforça o especialista.

Os benefícios de saborear com calma o alimento são um dos principais focos do slow food, associação internacional sem fins lucrativos fundada em 1986, na Itália. Hoje o movimento conta com mais de 80 mil associados e tem escritórios e apoiadores em mais de 120 países. O slow food segue o conceito da ecogastronomia, conjugando o prazer e a alimentação com consciência e responsabilidade. A filosofia do grupo se baseia na ideia de que melhorar a qualidade da alimentação e arranjar tempo para saborear é uma forma simples de tornar o cotidiano mais prazeroso. No Brasil, o movimento é representado pelo site www.slowfoodbrasil.com.

O médico ressalta os cinco principais motivos pregados pelo slow food para comer devagar. O primeiro é perder peso. Segundo o movimento, o cérebro leva 20 minutos para processar que está satisfeito. Se a pessoa comer rápido, pode passar do ponto em que está satisfeita e acabar comendo mais. O segundo é apreciar a comida, fazendo das refeições um prazer gastronômico. O terceiro benefício é melhorar a digestão, já que, quanto mais trabalho se faz na mastigação, menos trabalho o estômago terá, podendo conduzir a menos problemas digestivos. O quarto é diminuir o estresse, pois comer devagar pode ser um grande exercício de concentração. Por fim, rebelar-se contra o fast food e a vida corrida, tidos pelo slow food como um estilo de vida desumano e maléfico à saúde.

Scharf lembra que o ideal é que se gaste pelo menos 30 minutos em cada refeição, mastigando várias vezes antes de engolir e em pequenas garfadas, para saborear melhor os alimentos. Outra dica é não se sentar à mesa com muita fome, pois assim acaba-se comendo tudo em poucos minutos. O especialista reforça que é importante começar a refeição com saladas verdes, já que as folhas exigem mais mastigação, além de serem muito importantes para o organismo. “Mas é sempre importante lembrar que temos que saber a quantidade diária de alimento necessário para cada pessoa, que depende de fatores como o sexo, peso, atividade física e a idade”, finaliza o endocrinologista.
Fonte:Opinião e Notícia.

ECONOMIA - A idéia de que o melhor Estado é o mínimo foi enterrada para sempre.

John Williamson, o economista que cunhou a expressão "Consenso de Washington", diz que o Brasil deve elevar o imposto sobre capital estrangeiro para 4% ou 5% e afirma que a crise financeira enterrou de vez muitos dos princípios do chamado neoliberalismo - principalmente a ideia de que controle de capital é uma heresia. Williamson diz que o Fundo Monetário Internacional (FMI) erra ao condenar a taxa brasileira.

A reportagem e a entrevista é de Patrícia Campos Mello e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 01-11-2009.

"O FMI deveria é assessorar os países com ideias para tornar os controles de capital mais eficientes", disse Williamson em entrevista, da sede do Instituto Peterson de Economia Internacional. Segundo ele, no Brasil, a alíquota de 2% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para o capital estrangeiro "é parcialmente eficiente", então "pode ser necessário elevar o imposto para 4% ou 5%". Em artigo publicado no Financial Times, Williamson e seu colega Arvind Subramanian, do Peterson, criticam o Fundo por ter desaprovado o IOF.

O FMI disse que o imposto iria funcionar apenas temporariamente, porque eventualmente os investidores acham maneiras de burlar esses controles de capital. E não iria adiantar muita coisa se o Brasil não adotasse reformas e apertasse a política fiscal. Para Williamson, o imposto faz parte de um arsenal importante de que os países emergentes dispõem para lidar com excesso de fluxos de capital e superaquecimento da economia.

Eis a entrevista.

O sr. acha que foi inadequada a reação do FMI ao imposto sobre capital estrangeiro adotado pelo Brasil? Restrições de capital ainda são inaceitáveis?

Ainda é importante ser "amigável ao mercado", mas os países não devem mais ser dominados ou aceitar de forma passiva o julgamento do mercado, e isso ficou muito claro com a crise. O modelo que era visto como sacrossanto antes da crise asiática, que pregava a mobilidade de capitais, começou a mudar depois da crise da Ásia e completou sua transformação nessa crise.

Quais outros princípios do chamado Consenso de Washington, ou do que ficou conhecido como tal, mudaram por causa da crise?

Hoje se reconhece que há espaço para políticas keynesianas em tempos keynesianos, quando a economia está sofrendo de demanda agregada inadequada. E é necessário estatizar algumas coisas - privatização era uma das palavras de ordem do Consenso. Em alguns momentos, é preciso engatar uma marcha à ré nas privatizações. A ideia de que o melhor Estado é o mínimo foi enterrada para sempre.

O FMI continua não endossando políticas de restrição de capitais.

É um erro o FMI adotar essa postura fria e reservada. O Fundo deveria é assessorar os países sobre as formas mais eficientes de taxar o capital estrangeiro. Deveriam ajudar os países a implementar esse imposto e achar outras maneiras de desencorajar fluxos de capital. Ficar simplesmente dizendo que taxa sobre capital estrangeiro não é uma boa ideia, e dizer que o país tem que fazer todas essas coisas grandiosas antes, como restringir a política fiscal, isso não funciona.

O sr. acha que essa taxa pode ser eficiente, ou é legítima a crítica de que os investidores sempre acham maneiras de burlar esses controles?

É verdade que há maneiras de burlar. A taxa é parcialmente eficiente.

Mas, se é parcialmente eficiente, mesmo assim vale a pena manter o imposto?

Em vez de ter um imposto de 2%, pode ser necessário elevar a taxa a 4% ou 5% no Brasil.

Mas isso não espantaria demais os investidores?

Se os investidores querem ir para o Brasil, eles estão dispostos a pagar. Eu não vejo (essa elevação de taxa) como um ato muito hostil.

O Fundo diz que, com o IOF, o governo brasileiro pode se sentir tentado a adiar algumas reformas necessárias.

Isso é bobagem, pode-se fazer reformas ao mesmo tempo em que se adotam controles de capital.

E o Fundo diz também que esses controles de capital dificilmente vão ser muito eficazes se o Brasil não apertar sua política fiscal e baixar os juros.

De fato, provavelmente está na hora de o Brasil começar a desfazer suas políticas de expansão fiscal. Foi adequado adotar essas medidas no ano passado porque o mundo vivia uma recessão e havia grande perigo, então era necessário ter política fiscal expansionista. Mas agora chegou a hora de o Brasil começar a reduzir gastos do governo e, idealmente, ter um superávit nominal, não apenas primário.

Na reunião anual do FMI em Istambul, havia uma discussão forte sobre a necessidade de o Brasil deixar de acumular reservas e manter um pequeno déficit em conta-corrente. Esse seria o papel do País no processo de correção dos desequilíbrios globais. Mas muitos não concordam com essa ideia, já que o colchão de reservas ajudou o País a sobreviver melhor à crise. O que o sr acha?

Obviamente, há necessidade de um reequilíbrio global, mas não significa que países como o Brasil precisem parar de aumentar suas reservas. Eu não sei se é o melhor uso para os recursos do Brasil aumentar ainda mais o nível de reservas. Mas o principal problema é a China. E o Brasil deveria manter um déficit em conta corrente pequeno e o nível de reservas constante, talvez aumentando um pouco.

O sr. afirma que os países devem ter um arsenal de políticas contracíclicas para lidar com as crises.

Todos os países se beneficiariam de políticas contracíclicas. Mas é importante notar que só se pode iniciar uma política contracíclica na boa fase do ciclo, no alto. É preciso começar a economizar para poder gastar depois. Então agora é um ótimo momento para o Brasil começar.

Há a percepção de que haver maior expansão na política fiscal em 2010, ano de eleições.

Já tem havido expansão demais na política fiscal no Brasil e seria ótimo se os gastos do governo caíssem, mas isso é pedir demais em ano de eleição. Só esperemos que a situação não piore.
Fonte:IHU

O CASO UNIBAN E A VOLTA TRIUNFANTE DA INQUISIÇÃO.

Blog do Sakamoto, por Leonardo Sakamoto

Muitos leitores me pediram para escrever algo sobre o caso de imbecilidade coletiva ocorrido na Uniban. Outros fizeram comentários que não parecem saídos das mãos de um ser humano – tive, inclusive que deletar alguns porque praticamente incitavam mais violência contra as pessoas que adotam um estilo de vida diferente do deles. O pior não é encontrar comentários com um grau de preconceito, estupidez, machismo e ignorância como esses. Se eles fossem apenas distorções, vá lá. O problema é saber que, infelizmente, essas análises rasas (de homens e mulheres) refletem um naco da sociedade brasileira formado por ricos e pobres, letrados ou não. Que não entendem o que é alteridade, que não conseguem suportar as diferenças, que estão em um degrau abaixo na escala da evolução social humana.

Pesquisas apontam que a violência contra a mulher não é monopólio de determinada classe social e nível de escolaridade. Homofobia e machismo são problemas que ocorrem em toda a sociedade, da norte-americana à brasileira. OK, coloquemos a culpa no processo de formação do Brasil, na herança do patriarcalismo português, nas imposições religiosas, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil atestar que somos frutos de algo, determinados pelo passado, do que tentar romper com uma inércia que mantém homens como cidadãos de primeira classe e mulheres como meros objetos a serem defenestrados quando necessário for. Tem sido uma luta inglória, mas necessária, tentar abrir a cabeça da sociedade para o respeito às diferenças.

Isso inclui uma profunda reflexão com a exposição daqueles que, em funções públicas, rasgam os preceitos básicos dos direitos fundamentais e falam abobrinhas, como também foi o caso na universidade paulista.

CUBA - Passeio por Havana.

Frei Betto *

Adital

Havana, nesta época do ano, é banhada por suave temperatura. O calor é amenizado pelo hálito de frescor que sopra das águas azuladas por trás do Malecón. A umidade reflui, embora a população se mantenha atenta à meteorologia: outubro e novembro são meses de furacões. Ano passado, ceifaram quase 20% do PIB, hoje calculado em US$ 50 bilhões.

Não há sinal de que o desastre se repita este ano. Impossível, contudo, prever as reações vingativas de Gaia, cruelmente estuprada por nossa ambição de lucro e solene desprezo à mãe ambiente.

A visita à Cuba, na penúltima semana de outubro, não tinha agenda de trabalho. Fui a convite do querido amigo José Alberto de Camargo que, para comemorar aniversário, escolheu a cidade reencantada pela literatura de Lezama Lima, Alejo Carpentier e Nicolás Guillén.

A comitiva (comitiva do coração) incluiu os jornalistas Chico Pinheiro e Ricardo Kotscho, este acompanhado de Mara, sua mulher. Alojados no octogenário Hotel Nacional, brindamos o desembarque com o daiquiri de La Floridita, onde Hemingway tomava seus porres. Visitamos a casa de praia em que ele morou e escreveu "O velho e o mar", bem como o Hotel Ambos Mundos, no qual viveu seis anos e redigiu "Por quem os sinos dobram".

Foram dias de boa culinária caribenha no El Templete, à beira do porto, e em El Oriente, frequentado por Saramago e García Márquez. Entre mojitos e o aroma perfumado dos charutos Cohiba, cuja fábrica percorremos, mantivemos proveitosas conversas com cidadãos anônimos e autoridades do país, como Ricardo Alarcón, presidente da Assembleia Nacional; Eusébio Leal, historiador da cidade (e responsável pela restauração da área colonial de Havana); Homero Acosta, secretário do Conselho de Estado (no qual se congregam ministros e dirigentes do país); Armando Hart, do Centro de Estudos Martianos; Abel Prieto, ministro da Cultura; e Caridad Diego, responsável pelo Gabinete de Assuntos Religiosos (que cuida da relação entre Estado e denominações confessionais).

Permaneci um dia a mais para encontrar-me com Raúl Castro, atual presidente, com quem almocei no sábado, 24, e Fidel que, na tarde do mesmo dia, me recebeu em sua casa, com direito a jantar.

Cuba se encontra grávida de si mesma. Após 50 anos de Revolução, é hora de analisar erros e impasses. Mira-se o passado para enxergar melhor o futuro. Em 2010, o 9º Congresso do Partido Comunista deverá submeter o país à verificação de suas contradições e elaboração de novas estratégias, sobretudo no que concerne à economia e à emulação ética.

Engana-se quem supõe Cuba retrocedendo ao capitalismo. Ainda que se multipliquem aberturas à economia de mercado, devido à globalização e o mundo unipolar hegemonizado pelo neoliberalismo, não interessa à Ilha priorizar a acumulação privada da riqueza em detrimento da maioria da população. A América Central é o espelho no qual Cuba não quer se ver: ali os índices de violência são, hoje, os mais altos do mundo, com 23 assassinatos/ano por cada grupo de 100 mil habitantes. No Brasil, o índice é de 31/100 mil e, em Cuba, 5,8/100 mil. Basta dizer que, no Rio, a polícia matou, em 2007, 1.330 pessoas. No ano anterior, em todo os EUA foram mortas pela polícia 347 pessoas.

Os cubanos são conscientes de as falhas do país não poderem ser todas atribuídas ao criminoso bloqueio imposto, há mais de 40 anos, pela Casa Branca (e, agora, em vias de distensão pela administração Obama).

A manutenção, por longo tempo, de medidas justificadas pela Guerra Fria, começa a ser questionada. É o caso do caráter paternalista do Estado que assegura, a 11 milhões de habitantes, gratuitamente, cesta básica, saúde e educação de qualidade.

Por essa razão, a qualidade de vida em Cuba, onde o analfabetismo está erradicado, figura em 51º lugar, entre 182 países, no Índice de Desenvolvimento Humano 2009, da ONU. O Brasil mereceu a 75ª classificação. Não se cogita alterar o direito universal e gratuito à saúde e à educação. Porém, a redução dos subsídios à alimentação deverá coincidir com o aumento de salários e da produtividade agrícola, de modo a diminuir a importação de 80% dos alimentos consumidos.

Busca-se solução a curto prazo para a duplicidade de moedas: o CUC adquirido pelos turistas (evita o câmbio paralelo e a evasão de divisas) e o peso utilizado pelo cidadão cubano. O turismo, ao lado da exportação de níquel, é das principais fontes de arrecadação de Cuba que, com tamanho 64 vezes inferior ao Brasil, recebe 2,5 milhões de turistas por ano, metade dos que desembarcam em nosso país no mesmo período.

Toda a América Latina se opõe, hoje, ao bloqueio e apoia a reintegração de Cuba nos organismos continentais. A questão política mais relevante nas relações internacionais é a urgente libertação dos cinco cubanos presos nos EUA desde 1998, condenados a penas elevadíssimas, acusados - acreditem! - de evitar atos terroristas. Os cinco lograram abortar 170 atentados planejados contra Cuba dentro da comunidade cubana de Miami.

Fernando Morais, com quem jantamos em Havana, promete lançar, em 2010, livro em que conta a esdrúxula história do processo movido pela Justiça usamericana contra os cinco cubanos.

PS: A quem possa interessar: Fidel goza de muito boa saúde e excelente bom humor.

ANOS DE CHUMBO - A verdadeira história de Virgílio Gomes da Silva, codinome Jonas.

O deputado verde Fernando Gabeira é dotado de um incrível senso de oportunidade. Nos anos 80 tornou-se o símbolo da ação mais ousada da esquerda armada contra a ditadura – o sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick, em 4 de setembro de 1969 – ao publicar o livro “O que é isso companheiro?”. Seus parceiros na ação (e os parentes dos que não sobreviveram) foram unânimes em reprovar a obra. Só não fizeram muito barulho na época porque, justiça seja feita, só ele tinha tomado tal iniciativa. Mas aí veio o filme de mesmo nome e o caldo entornou de vez. Além de colocar Gabeira como protagonista, tendo ele sido no máximo coadjuvante, o longa de Bruno Barreto ridicularizou um dos mentores de fato do sequestro: Virgilio Gomes da Silva, codinome Jonas. A resposta nesse caso foi direta e incisiva. Com algum atraso, os remanescentes da operação escreveram artigos e o compilaram em um livro da Fundação Perseu Abramo – “O Sequestro da história” – e protagonizaram um documentário – “Hércules 56” – ambos respondendo à indelicadeza de Gabeira, que ficou em silêncio diante da escandalosa versão cinematográfica dos Barreto.
Mas isso é polêmica antiga. A novidade é que só agora, 40 anos depois do sequestro, a história de Virgilio foi resgatada com riqueza de detalhes. Quis o destino, se é que ele existe, que a efeméride do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick coincidisse com o reconhecimento do Exército pela sua morte. Foi apenas em 2004, e graças a uma investigação jornalística do repórter Mário Magalhães, da Folha de S. Paulo, que a família de Jonas descobriu e teve acesso ao laudo de sua morte. Até então considerado “desaparecido político”, ficou-se sabendo que ele está enterrado no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo.
“Não sabemos em que sepultura. Quero que o Exército se responsabilize por essa busca, especialmente agora que eles reconheceram a morte dele dentro de suas dependências. Virgilio merece um enterro decente”, diz a viúva, Ilda Martins da Silva. Além do reconhecimento tardio, Virgilio ganhou uma biografia. “De retirante a guerrilheiro”, lançada no último dia 28 de setembro, durante ato em homenagem a Jonas, na sede do Sindicato dos Químicos de São Paulo. Fruto de minuciosa pesquisa, é assinada pelos historiadores Edson Teixeira e Edileusa Pimenta de Lima, que também é namorada de Virgilio Filho, filho de Jonas. Um acerto definitivo de contas.

A ação e a reação
Virgilio Gomes da Silva chegou a São Paulo aos 18 anos, em 1954, de carona em um caminhão de carnes. Veio com cara, coragem e uns trocados no bolso. Disposto a deixar de vez a vida na roça do Rio Grande do Norte, onde morava com a família. Chegou a passar a fome antes de conseguir emprego na indústria química de São Miguel Paulista. Em 1957 entrou no PCB. Ganhou status de quadro político durante uma greve dos químicos, na qual conheceu sua esposa, Ilda. Número 2 na hierarquia da ALN em 1969 (o número 1 era Carlos Marighella), Jonas planejou e executou a ação à revelia do comando da organização. Foi preso pouco tempo depois do sequestro, no dia 29 de setembro, na casa da família do jornalista Antonio Carlos Fon, na rua Duque de Caxias, em São Paulo. “Alguém do Grupo Tático Armado da ALN, do qual Jonas era o comandante, abriu o local. Depois tentaram jogar a culpa nas costas do Francisco Gomes da Silva, irmão dele, morto recentemente. Chico negou até o fim”, afirma Paulo de Tarso Venceslau, também da ALN e integrante do sequestro.
“De retirante a guerrilheiro” revela detalhes inéditos dos últimos momentos de Jonas na prisão. “Ele passou por uma sessão de 12 horas de tortura, com choques e afogamento. No fim, ainda guardou água na boca para cuspir na cara do torturador”, conta a autora, Edileusa Lima. Virgilio Gomes da Silva foi assassinado a chutes, pontapés e pauladas pouco tempo depois. Pai deste repórter, Paulo de Tarso Venceslau, foi preso logo em seguida, em uma emboscada em São Sebastião, para onde foi com a finalidade de buscar justamente a família de Jonas, que já estava presa. É ele quem conta: “Me levaram para uma sala e me deixaram em um pau de arara em frente a uma parede cheia de sangue e com um volume, que disseram ser a massa encefálica do Jonas.” Pode-se dizer que essa foi a terceira morte de Virgilio Gomes da Silva. Entre a primeira, a física, naquele fatídico dia 28, e a terceira, a oficial, em 2004, Jonas foi massacrado pelo filme “O que é isso companheiro?” , baseado no livro homônimo de Fernando de Gabeira. “O filme é uma fraude. Virgilio não era louco e agressivo como eles mostraram. Também não fumava, mas nas cenas aparece fumando sem parar. Processei a produtora e ganhei em primeira instância. Perdi na segunda e estou aguardando a terceira”, diz a viúva Ilda. A propósito: a biografia recém-lançada dedica um capítulo a esse episódio. “Fizeram uma caricatura covarde e infame do Jonas. No filme ele é retratado como um idiota. O Gabeira não teve a decência de vir a público dizer que o filme distorcia a verdade”, afirma o historiador Daniel Aaarão Reis, um dos idealizadores do sequestro.



Ministro Franklin Martins não pode entrar nos EUA

A famosa carta lida no Jornal Nacional com a exigência do grupo (a libertação de 15 militantes de esquerda, entre eles José Dirceu e o ex-parlamentar comunista Gregório Bezerra) foi escrita pelo atual ministro Franklin Martins, e não pelo deputado federal Fernando Gabeira, como mostra o filme “O que é isso companheiro?”. Assim como a ideia de “capturar” o embaixador nasceu de uma conversa entre Franklin, que havia recentemente passado para a Frente de Trabalho Armado do grupo, e Cid Queiroz Benjamin. A ALN já tinha decidido que faria uma ação de impacto, quando a dupla passou por acaso em frente à casa do embaixador, no Rio, e percebeu que não havia ali nenhum grande aparato de segurança.
Como represália à participação no sequestro, Franklin ainda está proibido de entrar nos EUA, mesmo sendo do primeiro escalão do governo. “Eu nunca viajei aos EUA. E também nunca pedi visto, até porque ele seria negado e não quero passar por isso”, afirmou em entrevista à Fórum. Nas viagens oficiais de Lula ao país, o adjunto de Franklin, Nelson Breve, o representa na comitiva oficial.


Um equívoco triunfal

Quarenta anos depois do sequestro de Charles Elbrick, a maioria de seus integrantes reconhece que a ação acabou contribuindo para que o governo militar apertasse o cerco e ampliasse a violência contra qualquer tipo de reação, ainda que pacífica. No filme “Hércules 56”, o jornalista Flavio Tavares, que estava entre os libertados que foram para Cuba, cravou: “Foi nosso equívoco triunfal”. Já Vladimir Palmeira, que também integrou o grupo que foi beneficiado pela ação, foi mais incisivo. “Foi uma ação politicamente errada. A repressão que se seguiu matou o Marighella, o Jonas e deixou a esquerda na defensiva”. O historiador Daniel Aarão Reis, que era da ALN e foi um dos idealizadores da ação, pondera. “A ação repousava na análise de que a luta estava em plena ofensiva. O Marighella anunciava a guerrilha rural para o ano seguinte e para nós era urgente dar um golpe no golpe na semana da pátria. O erro básico foi superestimar a dinâmica revolucionária nossa e da sociedade”.

Gregório Bezerra vai virar filme

A história de Gregório Bezerra, um dos 14 presos políticos trocados por Charles Burke Elbrick, vai virar filme. O militante será interpretado pelo ator Werner Schunemann no longa "História de um Valente", de Cláudio Barroso. A primeira opção era Jackson Antunes, mas o ator teve uma trombose e não pôde filmar a antológica surra que Bezerra levou em uma praça no Recife. O longa tem como base a trajetória de Gregório entre 1957 e 1964, quando foi preso pelos militares. Ele foi o único ativista a ser torturado em praça pública, no Recife.
Além de Schunemann, estarão no elenco Edmilson Barros (Miguel Arraes), Tuca Andrada (Lúcio Flávio), Carol Holanda (Eliane), Magdale Alves (Maroca, mulher de Gregório), Hermila Guedes (Jandira, filha de Gregório), Germano Haiut (Dr. Bastos) e Armando Babaioff (o camponês Cícero). Com custo de R$ 3,5 milhões, o filme será ambientado nas décadas de 50 e 60.
Serão reconstituídos, por exemplo, lugares como a Praça de Casa Forte (local onde Gregório Bezerra foi publicamente torturado), pontos do bairro de Jardim São Paulo (onde o comunista morou) e ainda a Zona da Mata Sul de Pernambuco. "Eu quero desenvolver o filme num tom de suspense político-policial, mas não vou esquecer o lado humano de Gregório", afirma o cineasta.


Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de outubro. Nas bancas.
Fonte:Revista Fórum