segunda-feira, 6 de junho de 2011

ECONOMIA - Até que ponto o setor financeiro corrompeu os estudos econômicos?

"Você só tem mais três minutos. Prepare seu melhor golpe." Glenn Hubbard é reitor de um dos centros de ensino mais prestigiosos do mundo, a Escola de Economia de Columbia. Para seu pesar, também é um dos protagonistas de "Inside Job" [Trabalho interno]. Esse documentário, ganhador de um Oscar, analisa as causas que originaram a crise financeira nos EUA. Os realizadores do filme denunciam o papel que tiveram nessa catástrofe os salários dos banqueiros, as agências de classificação de risco e os políticos. E também indicam os professores de universidades e escolas de economia. Na sua opinião, o setor financeiro corrompeu o estudo da economia e muitos professores apoiaram a desregulamentação dos mercados, uma colaboração que foi recompensada com altos valores por serviços de consultoria. Hubbard responde aos cineastas de modo altivo, desafiador e visivelmente nervoso quando estes lhe perguntam sobre seus potenciais conflitos de interesse. O decano de Columbia foi chefe do conselho econômico durante o governo George W. Bush, recebeu US$ 100 mil para depor a favor dos administradores dos fundos do Bearn Stearns, acusados de fraude, realizou um relatório para o Goldman Sachs em 2004 no qual elogiava os produtos derivados e a cadeia de créditos hipotecários, argumentando que melhoram a estabilidade financeira, é diretor da MetLife, assessor da Nomura, da KKR... Sua resposta a se esses trabalhos podem condicionar sua atividade docente é um lacônico "não".

A reportagem é de David Fernández, publicada pelo jornal El País e reproduzida pelo Portal Uol, 06-06-2011.

As ligações entre a indústria financeira e o mundo acadêmico não se limitam a Hubbard. Martin Feldstein, professor de economia em Harvard e ex-assessor de Ronald Reagan, foi um importante arquiteto da desregulamentação financeira e fez parte do conselho da AIG; Laura Tyson, professora da Universidade da Califórnia em Berkeley, passou a fazer parte da diretoria do Morgan Stanley depois de deixar a presidência do Conselho Econômico Nacional durante o governo Bill Clinton; Ruth Simmons, presidente da Universidade Brown, é diretora do Goldman Sachs; Larry Summers, que promoveu a desregulamentação do mercado de derivados durante sua época no governo, é presidente de Harvard, cargo que não o impediu de ganhar milhões de dólares assessorando vários fundos de investimentos especulativos; Frederic Mishkin, que voltou a dar aulas em Columbia depois de trabalhar no banco central dos EUA, escreveu um relatório em 2006 financiado pela Câmara de Comércio da Islândia (recebeu US$ 124 mil) elogiando a força da economia desse país...

Até que ponto a indústria financeira se serviu de seu convincente talão de cheques para ganhar um aval acadêmico e apoio intelectual a suas políticas ultraliberais? Os centros de ensino entoam o "mea culpa" e desqualificam qualquer atitude pouco ética. No entanto, ressaltam que se trata de casos individuais, mais que uma tendência generalizada, lembram que defender a mesma teoria apoiada pelo setor financeiro não implica ser comprados por este e destacam que a colaboração entre o mundo acadêmico e o empresarial é positiva desde que haja transparência e não se ultrapassem certos limites.

Ángel Cabrera é o único espanhol que dirige uma escola de administração nos EUA, a prestigiosa Thunderbird, no Arizona. Na opinião dele, o papel do mundo acadêmico na gestão da crise não tem tanto a ver com os conflitos de interesse ocasionais, mas sim com o fato de que durante décadas os centros de ensino transmitiram uma série de valores sobre o funcionamento dos mercados, a gestão do risco ou os recursos humanos que se demonstraram errôneos e prejudiciais. "Toda a teoria da eficiência dos mercados, por exemplo, passou a ser religião. Chegou-se à conclusão universal de que qualquer intervenção era ruim. Assim mesmo, nas políticas de retribuição, se você tratar as pessoas como oportunistas e egoístas por natureza, criando incentivos enormes em curto prazo, abre a porta para que se comportem assim."

Cabrera salienta que os centros acadêmicos deram forma ao sistema de valores de Wall Street, criando uma "plataforma de legitimidade" para determinadas condutas. Antes da explosão da crise a Thunderbird começou a promover o juramento hipocrático entre seus alunos, pelo qual estes se comprometem a usar seus conhecimentos para criar valor e não para destruir. "Há alguns anos nos olhavam como animais raros, agora nem tanto. Há indícios de que as coisas estão mudando, mas em um ritmo muito lento. Muita gente saiu do armário, e nos âmbitos acadêmicos se começa a falar em ética, responsabilidade corporativa, outra forma de ver a empresa."

Cabrera explica que os centros acadêmicos têm códigos de conduta, e se algum professor é apanhado em infração corre o risco de perder o emprego. O presidente de Thunderbird, porém, reconhece que a estrutura de salários dos professores abre a porta para potenciais conflitos de interesse. Nos EUA o salário médio de um professor de uma escola de economia está em torno de US$ 200 mil por ano, mas em muitos casos as receitas totais podem chegar a US$ 1 milhão graças aos serviços de consultoria, presença em conselhos administrativos, conferências... "Há uma cultura de livre mercado na qual é bem visto que você ganhe tudo o que conseguir. Considera-se positivo para as escolas, porque o professor pode dar mais a seus alunos ao deixar de ser um simples teórico e estar em contato com as empresas. A questão é quanto do salário deveria estar vinculado a essas atividades externas, que tipo de trabalhos são compatíveis com o cargo de professor e onde podem estar os conflitos de interesse", argumenta.

Outro docente espanhol com mais peso no mundo acadêmico anglo-saxão é Mauro Guillén, professor da Escola de Economia Wharton, da Universidade da Pensilvânia. Em torno do debate da contribuição de economistas e professores na gestão da crise, acredita que é preciso estabelecer uma separação entre o que são atitudes desonestas ou erros de avaliação. "Os conflitos de interesse não têm justificativa. Quando um professor escreve um trabalho que foi financiado por uma entidade, deve sempre mencionar o fato", indica. "Outra coisa é se um acadêmico propôs métodos ou modelos que contribuíram para criar a crise. Nesse sentido, creio que é preciso proteger a liberdade de expressão. Um professor pode propor as teorias que quiser. A decisão, em todo caso, foi dos reguladores, que não souberam se antecipar ao perigo que representavam certas operações nos mercados financeiros", acrescenta.

Em relação à vinculação das escolas na formação de líderes empresariais cujas decisões puseram em xeque o sistema, Guillén acredita que as escolas não podem ser responsabilizadas por todos os atos de seus ex-alunos ao longo de sua vida profissional. "Nosso trabalho se limita a tentar desenvolver um espírito crítico em nossos alunos, explicar-lhes os benefícios da ética nos negócios e deixar claro para eles que as decisões que tomarem podem ter repercussões para toda a sociedade", diz.

Na Espanha não foram detectados casos tão flagrantes de colaboração do mundo acadêmico com os interesses de determinados grupos de pressão empresariais. No entanto, durante os anos de gestação do boom imobiliário quase não se escutaram vozes críticas dos economistas. Alfons Sauquet, decano da Escola Superior de Administração e Direção de Empresas (Esade), acredita que isso não significa que tenha havido um aval acadêmico na origem da crise. "Em economia, sob um mesmo teto existem versões contraditórias. Houve professores que apoiaram as teses da indústria financeira e imobiliária e outros que discordaram." Sauquet acredita que uma lição a ser tirada pelas escolas é dar mais voz à diversidade: "Aqueles que foram mais céticos com as práticas financeiras não se deixaram ouvir o suficiente, não fizeram da cautela uma bandeira mais clara. Mas isso sempre é difícil de fazer. Quem se atreve em uma festa a desligar a música e levar embora o carrinho de bebidas?"

David Bach, reitor de programa da IE Business School, critica que se coloquem todos no mesmo saco, já que os acadêmicos estiveram dos dois lados do debate, e dá como exemplo o professor Robert Shiller, de Yale, que foi muito ativo na denúncia dos riscos do mercado imobiliário e uso maciço de produtos financeiros complexos por parte dos bancos.

"Na Espanha, o estouro da bolha imobiliária revelou os problemas estruturais de nossa economia, como por exemplo a baixa produtividade, que vimos denunciando há anos nos âmbitos acadêmicos", indica Bach. Ele reconhece que as escolas devem assumir sua parte de responsabilidade na crise, questionando-se, por exemplo, se nos programas se insiste o suficiente na formação de riscos ou na importância dos fundamentos da economia real, e não só financeira. "Entretanto, também seria bom se reconhecessem nossa contribuição pelas centenas de empresas e os milhares de postos de trabalho que nossos alunos criaram ao longo dos anos", lamenta.

As escolas de negócios na Espanha têm um sistema mais centralizado do que nos EUA sobre as colaborações externas que seus professores podem exercer, o que na teoria serve de porta corta-fogo diante de possíveis conflitos de interesse. Sauquet opina que as relações dos professores com as empresas são boas, desde que tenham um retorno acadêmico, isto é, devem servir para melhorar a atividade docente dos professores ou sua pesquisa. "Na Esade, quando nos encomendam estudos de conjuntura, sempre dizemos quem é nosso patrocinador. Nosso regulamento especifica que os trabalhos de consultoria devem ser divulgados e ter a aprovação da escola", explica.

Na IE Business School, por exemplo, os professores podem oferecer serviços de consultoria, mas devem contar com a autorização do reitor, que analisará se o trabalho é compatível com seu trabalho docente e de pesquisa. "Em geral é bom que os acadêmicos colaborem com governos e empresas privadas. Pedem-nos que nossa pesquisa tenha relevância no mundo real. O importante é a transparência, quer dizer, sempre informar de onde vem o dinheiro para a pesquisa. Em nossa escola é comum colaborarmos com setores econômicos para estudar determinados aspectos. Outra coisa muito diferente é que lhe ofereçam para assinar um trabalho que vai servir para um terceiro fazer lobby. Não estou consciente de que uma proposta dessas tenha chegado a nós, mas em todo caso seria rejeitada", afirma Bach.

O mundo da docência, reconhece Rafael Sarandeses, diretor-geral da Fundação de Estudos Financeiros (FEF), tem um atrativo especial para o pessoal do mundo financeiro, "porque confere um selo acadêmico, uma pátina de credibilidade". "No entanto, um professor pode estar de acordo com uma teoria que depois se revela errônea. Não ter razão não deve induzir automaticamente à suspeita." A FEF tem como patronos 30 das principais empresas espanholas, e em suas publicações colaboram membros do mundo empresarial e acadêmico. Enquanto os primeiros costumam renunciar à retribuição que a FEF lhes oferece, o pessoal do âmbito universitário costuma recebê-la. "Temos um orçamento muito modesto. É totalmente ilógico que um acadêmico de prestígio que colabore conosco vá perder seu espírito crítico por ganhar uma quantia simbólica", salienta Sarandeses.

O filme "Inside Job" provocou um intenso debate em alguns centros acadêmicos. Em Columbia, por exemplo, aprovaram há apenas duas semanas novas normas de transparência para evitar conflitos de interesse. Concretamente, os professores deverão divulgar todas as entidades às quais prestaram serviços, remunerados ou não, nos últimos cinco anos e detalhar a natureza desses trabalhos. Parece que Hubbard já recebeu o golpe que arrogantemente pediu aos autores do documentário.

Professores na mira

Martin Feldstein. Professor da Universidade Harvard. Entre 1982 e 1984 presidiu o conselho de assessores econômicos do presidente americano Ronald Reagan, governo marcado pela desregulamentação financeira. Em 1988 foi contratado pela AIG. Como membro do conselho da seguradora, era um dos encarregados de supervisionar os produtos que a levaram à beira da falência.

Larry Summers. No âmbito acadêmico foi presidente de Harvard entre 2001 e 2006. Além disso, foi assessor econômico tanto no governo Reagan como com Barack Obama. Recebeu diversas críticas, já que seu cargo acadêmico não o impediu de faturar milhões de dólares assessorando fundos especulativos e dando conferências patrocinadas pelos bancos de investimento.

Frederic Mishkin. Desenvolveu toda a sua vida profissional como professor de economia na Universidade Columbia. Entre 2006 e 2008 foi membro do conselho de governadores do Federal Reserve dos EUA (banco central). Também realizou trabalhos de consultoria para o Banco Mundial e o FMI. Em 2006 publicou um trabalho financiado pela Câmara de Comércio da Islândia, elogiando a economia do país nórdico. Não divulgou seus honorários, e quando a crise arrasou a Islândia mudou o título do relatório.

Glenn Hubbard. Reitor da Escola de Economia de Columbia. Entre 1991 e 1993 foi assistente do Departamento do Tesouro dos EUA. De 2001 a 2003 foi presidente do conselho de assessores econômicos de George W. Bush. Trabalha para diversas empresas privadas, como MetLife, Nomura, KKR... Em 2004 publicou para o Goldman Sachs um polêmico trabalho defendendo o uso dos derivados.

Fonte:IHU

domingo, 5 de junho de 2011

ECONOMIA - "Liberdade de mercado" é isso aí.

Crise do etanol não é safra. É estratégia de negócios

Tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, o etanol baixou – até a ANP percebeu isso – e estamos todos resolvidos. Estamos?

Conversa fiada, o etanol está muito caro.

Ano passado, por esta época, não batia R$ 0,73 por litro, contra do R$ 1 real por litro de hoje, no preço pago às usinas.

Ponha aí 10% de inflação – muito mais que a real - acumulada e o preço seria de R$ 0,80 por litro.

Isso dá uma aumento de perto de 25% em valores nominais ou 18,3% em valor real, descontada a inflação.

O preço não caiu mais porque, com é legítimo dentro das “leis de mercado” os grandes produtores estão vendendo menos do que produzem.

Porque agora podem, até com financiamentos públicos, estocar . Estocando, podem vender a preços melhores na entressafra.

E o “livre mercado” não pode controlar isso? Não, porque metade da produção está concentrada em cerca de 30 empresas.

A ANP faz pressão para que o BNDES financie a construção de tanques nas usinas. Coisa pouca, “só” R$ 3 bilhões. E os próprios fabricantes de tanques dizem que, de tanques de um milhão de litros, as usinas agora querem tancagem de 10, 20 e até 40 milhões de litros de etanol.

Tanques que chegarão na entressafra abarrotados, para aproveitar ao máximo a alta de preços. E que, ao serem enchidos no período da safra ajudarão a “segurar” a oferta e, com ela, os preços.

A Presidenta Dilma assinou, há mais de um mês, uma Medida Provisória que dá à ANP o poder de controlar a produção e os estoques de etanol. A ANP colocará isso em prática no dia seguinte ao de São Nunca.

A Petrobras desenvolver uma capacidade própria de tancagem é essencial, mas não é o suficiente. As usinas têm de ser obrigadas a vender na safra o que produzem ou, se estocarem, a vender a preços administrados. Ou seja, podem guardar etanol, mas ao vender o que têm guardado devem ser impedidas de fazê-lo com mais – e muito mais – lucro que se o tivesssem colocado.

Ninguém está, é claro, advogando uma solução primária daquele tipo de “ir laçar boi no pasto”, com a cana agora no lugar do boi. Mas tem-se de encontrar maneiras de “punir” financeiramente a estocagem especulativa, que as grandes usinas fazem e, claro, os pequenos e médios produtores não fazem.

O mercado sucroalcooeleiro sabe muito bem disso. Veja o que saiu há poucos dias no site Brasilagro, especializado em agronegócios:

A baixa oferta de etanol durante a entressafra, quando os preços tradicionalmente sobem, é um grande filão para os grupos produtores do setor sucroalcooleiro. Mas para isso, as usinas devem ter caixa, pois o custo de armazenagem requer capital de giro disponível. A ETH Bioenergia, divisão de etanol do Grupo Odebretch, pretende nesta safra armazenar cerca de 60% de sua produção para vender após o fim da colheita no Centro-Sul do país. - Os custos para armazenagem fazem parte da estratégia do grupo desde que a ETH foi criada – afirma o vice-presidente de operações da Agroindustriais da ETH Bioenergia, Luis Felli.

“Liberdade de mercado” é isso aí. Se não houver auditagem pública dos estoques, estabelecimento de cotas de comercialização e capacidade estatal, via Petrobras, de manter estoques em volume capaz de interferir em surtos especulativos na oferta, o drama dos preços do etanol fica igual ao carnaval: um ano,um pouco mais cedo, noutro ano, um pouco mais tarde, mas todo ano tem.
Blog Tijolaço, do Brizola Neto.

POLÍTICA - "Indignados": geração "nem estuda, nem trabalha" toma ruas.

"Uma faculdade, dois mestrados, três idiomas, cinco anos de experiência e um estágio de 600 euros".

Os dizeres na placa que a cientista ambiental Lilian García, 25, segurava em uma das manifestações que tomaram as ruas de Madri na semana passada eram fictícios. "Esse estágio foi há três anos. Desde então estou desempregada".

A reportagem é de Luísa Belchior e Rodrigo Russo e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 05-06-2011.

Como ela estão 45% da população jovem espanhola, em torno de 700 mil pessoas.

Com os protestos e acampamentos nas praças do país, revelaram ao mundo uma Espanha que já não consegue dar conta de inseri-los no mercado de trabalho.

O resultado é que os jovens que podem deixam o país em busca de empregos em vizinhos europeus - em 2010, 166 mil emigraram.

Chamada de geração "ni-ni" - ni estudia, ni trabaja -, este quase milhão de espanhóis tem a melhor formação na história do país e um dos piores cenários de emprego.

Javier Garcia, 28, veio dos EUA participar dos protestos. "Eu odeio ter que estar longe do meu país para poder
trabalhar. Tenho muitos amigos aqui sem emprego. Nossa geração é a mais bem preparada da história. Nunca vimos tantos garçons com doutorado e três idiomas".

Em Barcelona, o movimento dos "indignados" ganhou força após o dia 27 de maio, quando, a pretexto de limpar a praça Catalunha, onde os jovens acampavam, policiais agrediram os manifestantes, deixando 121 pessoas feridas.

A agilidade com que os acampados divulgaram pelas redes sociais fotos e vídeos de policiais agindo violentamente foi determinante para que a praça fosse novamente liberada para os protestos.

Em uma das entradas da praça, uma faixa avisa aos transeuntes: "Estamos construindo um mundo melhor, desculpem os transtornos".

"Estávamos anestesiados, cansados de políticos", diz Judith Casas, 33.

Já para o estudante de ciências ambientais Raul Sanchez, 25, que trabalha em um call center e é garçom aos finais de semana, o movimento é um meio de pedir outro modelo para empregos: "Não queremos mais trabalhar só com turismo ou construção", desabafa. Sua renda mensal é de 1.000.

Os jovens têm inspiração na praça egípcia Tahrir, onde protestos levaram à queda da ditadura, e na população da Islândia, que em referendos rejeitou o pagamento de dívidas externas do país.

ECONOMIA - Strauss-Kahn: uma metáfora das práticas do FMI.

"O que o diretor-geral do FMI fez com Nafissatou Diallo é uma metáfora daquilo que estava fazendo com os países em dificuldades financeiras. Mereceria cadeia não só pela violência sexual contra a camareira mas muito mais pelo estupro econômico ao povo, que ele articulava a partir do FMI", escreve Leonardo Boff, teólogo e escritor, em artigo publicado por Carta Maior, 04-06-2011.

Eis o artigo.

O leitor ou leitora pensará que foi uma tragédia o fato de o diretor-gerente do FMI, Strauss-Kahn, ter dado asas ao seu vício, a obsessiva busca por sexo perverso, nu, correndo atrás de uma camareira negra na suite 2806 do hotel Sofitel em Nova York, até agarrá-la e forçá-la a praticar sexo, com detalhes que a Promotoria de Nova York, descreve em detalhes e que, por decência, me dispenso de dizer. Para ele não era uma tragédia. Era uma vítima a mais, entre outras, que fez pelo mundo afora. Vestiu-se e foi direto para o aeroporto. O cômico foi que, imbecil, esqueceu o celular na suite e assim pôde ser preso pela polícia ainda dentro do avião.

A tragédia ocorreu não com ele, mas com a vítima que ninguém se interessa em saber. Seu nome é Nifissatou Diallo, da Guiné, africana, muçulmana, viúva e mãe de uma filha de 15 anos. A polícia encontrou-a escondida atrás de um armário, chorando e vomitando, traumatizada pela violência sofrida pelo hóspede da suite, cujo nome sequer conhecia. A maior parte da imprensa francesa, com cinismo e indisfarçável machismo, procurou esconder o fato, alegando até uma possível armadilha contra o futuro candidato socialista à Presidência da República. O ex-ministro da cultura e educação, Jacques Lang, de quem se poderia esperar algum esprit de finesse, com desprezo, afirmou:"Afinal não morreu ninguém". Que deixe uma mulher psicologicamente destruida pela brutalidade do Mr. Strauss-Kahn não conta muito. Finalmente, para essa gente, se trata apenas de uma mulher e africana. Mulher conta alguma coisa para este tipo de mentalidade atrasada, senão para ser mero "objeto de cama e mesa"?

Para sermos justos, temos que ver este fato a partir do olhar da vítima. Aí dimensionamos seu sofrimento e a humilhação de tantas mulheres no mundo que são sequestradas, violadas e vendidas como escravas do sexo. Só uma sociedade que perdeu todo o sentido de dignidade e se brutalizou pela predominância de uma concepção materialista de vida que faz tudo ser objeto e mercadoria, pode possibilitar tal prática. Hoje, tudo virou mercadoria e ocasião de ganho desde o bens comuns da humanidade, privatizados (commons como água, solos, sementes), até órgãos humanos, crianças e mulheres prostituidas. Se Marx visse esta situação ficaria seguramente escandalizado, pois para ele o capital vive da exploração da força de trabalho mas não da venda de vidas. No entanto, já em 1847 na Miséria da Filosofia intuía:

"Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalieável se tornou objeto de troca, de tráfico e podia alienar-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas jamais trocadas, dadas, mas jamais vendidas: adquiridas mas jamais compradas como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência, em que tudo passou para o comércio. Reina o tempo da corrupção geral e da venalidade universal....em que tudo é levado ao mercado".

Strauss-Kahn é uma metáfora do atual sistema neoliberal. Suga o sangue dos países em crise como a Islândia, a Irlanda, a Grécia, Portugal e agora a Espanha como fizera antes com o Brasil e os paises da América Latina e da Asia. Para salvar os bancos e obrigar a saldar as dívidas, arrasam a sociedade, desempregam, privatizam bens públicos, diminuem salários, aumentam os anos para as aposentadorias, fazem trabalhar mais horas. Só por causa do capital. O articulador destas políticas mundiais, entre outros, é o FMI, do qual Strauss-Kahn era a figura central.

O que ele fez com Nafissatou Diallo é uma metáfora daquilo que estava fazendo com os paises em dificuldades financeiras. Mereceria cadeia não só pela violência sexual contra a camareira mas muito mais pelo estupro econômico ao povo, que ele articulava a partir do FMI. Estamos desolados.

Fonte: IHU

sexta-feira, 3 de junho de 2011

POLÍTICA - Os "indignados" e o banqueiro.

"Os "indignados" das ruas da Espanha e os desanimados de Portugal com razão já se mostram indiferentes às trocas de governo, de "seis" por "meia dúzia". A crise, a reação da finança e da Alemanha e as propostas de unificação econômica final vão tornar a política partidária local ainda mais irrelevante, assim como o voto de seus eleitores", escreve Vinícius Torres Freire, jornalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 03-06-2011.

Eis o artigo.

Alguns jovens "indignados" espanhóis fizeram manifestações simpáticas contra "tudo isso que está aí (lá)". Contra o desemprego de 40% das pessoas de até 24 anos. Contra a "corrupção". Contra a "política convencional" e os partidos dominantes: contra a opção entre os "seis" (a direita, o Partido Popular) e os "meia dúzia", os socialistas.

Os "indignados" pregavam o voto em ninguém na eleição havida faz uma dúzia de dias. Os espanhóis convencionais acabaram votando na direita, não porque o sejam, mas porque os socialistas eram o poder de turno na crise da vez.

Tal como jovens despolitizados do mundo todo gostam de alardear, o protesto "indignado" não tinha "lideranças" nem um "programa fechado". Tal como qualquer protesto sem liderança e programa (que não os tem ou não os cria), o camping dos "indignados" se dispersou como um protesto nuvem: virtual.

Domingo, há eleição em Portugal. O país viverá recessão neste ano, no próximo e talvez por muito tempo, pois quebrado e sob tutela europeia.

Não costuma haver protestos em Portugal. Espera-se abstenção grande. Um terço do eleitorado ainda não sabe se vota nos "meia dúzia" (os socialistas, que eram o poder de turno) ou nos social-democratas (a direita, os "seis"). Na falta de maioria clara e disposta a aprovar medidas que arranquem o couro da população, fala-se em "governo de união nacional".

Os governos europeus, da direita à esquerda moderadas, não têm o que dizer sobre política econômica faz quase 20 anos, e menos ainda o que fazer depois da união monetária, faz mais de uma década.

Mandam pouco nos ministros de Finanças e ainda menos no Banco Central Europeu (BCE). Temem também mexer no sistema de bem-estar social. Tal como os americanos, os europeus não sabem (ou não têm como) criar empregos, transferidos para o complexo China, problema piorado pelo engessamento das economias, de resto "competitivas" em setores de ponta, que empregam pouco e concentram renda.

Ao contrário dos "indignados" espanhóis e outros perdidos, a finança e a grande empresa europeia têm lideranças e programa. Ontem, o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, sugeriu a criação de um ministério de Finanças europeu. Isto é, um ministério para regular gastos e impostos dos governos nacionais.

Em tese e em parte, tal regulação já existe, com os limites ora estourados do Tratado de Maastricht. Mas a ideia básica agora é acabar de vez com os governos locais.

Claro, trata-se de coisa enrolada e polêmica. Na prática, os países menores já estão sob intervenção europeia, como Grécia e, em menor grau, Irlanda e Portugal. De resto, Trichet deixa o BCE em novembro. Mas seu provável sucessor, o italiano Mario Draghi, já faz salamaleques para os donos do dinheiro na Europa, a elite alemã, que tem horror de relaxamento monetário e fiscal e quer conduzir o seu quintal econômico sob rédea curta.

Os "indignados" das ruas da Espanha e os desanimados de Portugal com razão já se mostram indiferentes às trocas de governo, de "seis" por "meia dúzia". A crise, a reação da finança e da Alemanha e as propostas de unificação econômica final vão tornar a política partidária local ainda mais irrelevante, assim como o voto de seus eleitores.
Fonte: IHU

MÍDIA - Quem confia na Globo morre em suas garras.

Do Blog Tijolaço.


A se confirmar que o Ministro Antonio Palocci vai falar, com exclusividade, para o Jornal Nacional, terá errado antes de começar a falar.

À esquerda e aos que conhecem o que representa a Globo no sistema de comunicações brasileiro, não evitará – ainda que não o seja – a impressão de que é uma “entrevista” combinada com alguém que é “amigo da casa”.

Para os formadores de opinião,qualquer explicação que o ministro dê será pouca. Porque ficará a impressão de que foi “combinado”.

Os apresentadores do Jornal Nacional foram mais espertos que Palocci. Perceberam isso e vão deixar a entrevista para um repórter em Brasília, como se noticia.

Ao mesmo tempo, por temperamento, por natureza, por posições políticas e, para culminar, pelo veículo escolhido, Palocci não poderá usar aquela antiquíssima máxima de que a melhor defesa é o ataque.

Não é apenas um erro político esta decisão. É um erro estratégico.

A Globo não tem amigos, tem interesses.

Se Palocci foi um interlocutor forte para ela no Governo Lula e, potencialmente, poderia vir a ser no Governo Dilma.

Mas, politicamente fraco, Palocci não é interlocutor para nada.

E a Globo será a primeira a usa-lo – sem piedade – em favor dos seus interesses: enfraquecer o Governo Dilma e criar intrigas entre ela e Lula.

Quem não entende isso está fadado a ser devorado pela Globo de quem um dia pensou ser amigo.

PERÚ - A elite prefere ditadores a governos populares.

Do Blog do Rovai

As eleições do Peru que acontecem neste domingo são mais um exemplo do vale-tudo da elite pra impedir que um governo de caráter popular se estabeleça.

Disputam o segundo turno, Keiko Fujimori, cuja história do pai dispensa apresentação, e Ollanta Humala, “acusado” de ser próximo ideologicamente a Hugo Chávez.

A eleição está pau-a-pau. E tudo indica que o vitorioso ainda está para ser decidido nas reflexões dos indecisos que devem ocorrer nessas últimas horas.

A filha de Fujimori, porém, vence de goleada nas classes A e B do país e nas regiões mais desenvolvidas, principalmente na chamada grande Lima, capital do país.



Em Lima, a diferença a favor de Keiko, supera 20% dos votos.

Ollanta tem seu melhor desempenho entre os mais pobres e os grupos indígenas.

O prêmio Nobel de literatura e convicto liberal, Mario Vargas Llosa deu seu apoio crítico a Ollanta. Mas nem isso comoveu a elite do país.

Ao contrário, a campanha a favor da filha do ex-ditador tem sido tão ostensiva e intoxicada, que o Vargas Llosa decidiu proibir a veiculação de sua coluna no maior jornal diário, o El Comércio, que, segundo ele, se tornou “uma máquina de propaganda a favor de Keiko”.

Entre outras coisas, uma verdade que essa campanha peruana escancara é que as elites, de cá ou de lá, não têm compromisso com os valores democráticos. E preferem ditadores a governos populares.

É triste, mas é vero.

MÍDIA - Cai a ficha da grande mídia.

Por Venício A. de Lima, no Observatório da Imprensa:

Raras vezes a realidade fala mais alto e revela ter mais poder do que alguns atores tradicionais da grande mídia brasileira.

Um artigo de Soraya Aggege, sob o título “O poder da maioria”, recentemente publicado na CartaCapital (n. 644, de 4/5/2011), fez um interessante resumo de informações que têm circulado há algum tempo sobre a impressionante ascensão que a classe C teve em nosso país, nos últimos anos. A revista se utiliza, sobretudo, de dados do instituto Data Popular, especializado em pesquisar esse segmento da população que, em 2014, será majoritário e concentrará 54% do eleitorado.

Nada de novo. Apenas algumas confirmações e, mais importante, algumas conseqüências.

“Deslocando” a formação da opinião

A matéria afirma que “no atual contexto, dizem os especialistas, o eixo da formação de opinião deslocou-se dos pais, ou de velhas lideranças locais, como padres e representantes comunitários, para os filhos”. E prossegue: “Os dados revelam que, nesse segmento, o que mais vale não é o que diz a televisão. Nada menos que 79% deles confiam mais nas recomendações dos parentes que na propaganda de tevê. Para se ter uma ideia, no Nordeste, onde se deu a maior expansão desse estrato social, 74% preferem se informar pelo boca a boca”.

Ao longo do texto alguns depoimentos colhidos de novos representantes da Classe C ratificam aquilo que as pesquisas revelam. Exemplo:

** “Aos 20 anos, [Vanessa Antonio] integra a porção jovem dos 31 milhões de brasileiros recém-instalados no meio da pirâmide social, com renda familiar mensal entre 1,5 mil e 5 mil reais. [Ela] e outros milhões de jovens das periferias começam a desempenhar o papel de principais formadores de opinião da chamada “nova classe média”. E mais: “Para os jovens como [Vanessa], três fatores aumentaram seu poder de opinião sobre a família e suas comunidades: emprego, estudos e o que eles chamam de “nova bomba do mundo”, a tecnologia. “Temos computadores e celulares. Nossas famílias agora têm mais acesso à informação. Agente vê as notícias, compara na internet e conta para eles.”

Esse extraordinário fenômeno de deslocamento do poder de construção da opinião pública de seus “formadores tradicionais” (pais, padres, professores e colunistas da velha mídia, dentre outros) para “líderes de opinião” das classes em ascensão social, com acesso direto e/ou indireto a fontes alternativas de informação, sobretudo à internet, já havia sido identificado faz tempo e deu mostras inequívocas de seu poder pelo menos desde as eleições de 2006 [cf. Venício A. de Lima, A Mídia nas Eleições de 2006, Perseu Abramo; 2007 e, neste Observatório , “A internet e os novos formadores de opinião”].

A grande mídia brasileira, no entanto, fazia de conta que não via o que estava acontecendo no país [ver, neste OI, “A velha mídia finge que o país não mudou”].

A entrevista de Florisbal

Por total coincidência, alguns dias depois da matéria da CartaCapital, sob o sugestivo título “Globo muda programação para atender a nova classe C”, o portal UOL divulga uma longa entrevista com Octavio Florisbal, diretor-geral da Globo. O que diz ele? Vale a pena ler a entrevista na sua totalidade, mas reproduzo abaixo alguns highlights:

Na introdução à entrevista Maurício Stycer escreve:

“A Rede Globo aprofundou um processo de modificações em sua programação para atender a uma nova clientela: a emergente classe C. As mudanças afetam as áreas de novelas, os programas de humor e o jornalismo. E objetivam deixar a programação mais popular. A nova classe C, na visão da emissora, quer se ver retratada nas telas.”

O diretor-geral da Globo afirma:

** “Em dramaturgia, se você voltar 20 anos, você tinha alguns estereótipos. A novela estava centrada nos Jardins, em São Paulo, ou na zona sul do Rio e tinha um núcleo, aquele núcleo alegre, de classe C, na periferia. Hoje, não. A gente começa a ver essas histórias trafegando mais na periferia.”

** “[A classe C] tem que estar mais bem representada e identificada na dramaturgia, no jornalismo. Antes, você fazia uma coisa mais geral. Hoje, não. A gente tem que ir, principalmente nos telejornais locais, ao encontro deles. Eles têm que ver a sua realidade retratada nos telejornais. (...) No jornalismo é a mesma coisa. (...) Tem a redação móvel, que vai nas periferias e faz de lá. Nos telejornais nacionais você também tem que cuidar bem para não colocar em excesso certos temas que não atendem tanto.”

Aaahhh... Então a classe C não estava sendo “retratada nas telas”, ausente no entretenimento e ausente no jornalismo? Uai... não era a exclusão de alguns setores da população da telinha – a ausência de pluralidade e diversidade na representação – exatamente o que críticos da mídia apontam há anos?

E continua o diretor-geral:

** “No passado, a classe C seguia muito os padrões das classes A e B. (...) Eram seguidores. (...) Houve uma mudança de comportamento e de valores para estas pessoas. Acabamos de fazer uma pesquisa muito interessante de classe C que mostra isso. (...) Aquela divisão de que 80% do público é das classes C, D e E continua, mas eles têm mais presença, mais opinião. Eles ascenderam. Têm um jeito próprio de ser. Você tem que atendê-los melhor.”

Aaahhh... quer dizer que a classe C não é mais seguidora, agora ela sabe o que quer. Talvez, quem sabe, tenha aprendido até mesmo a votar, não é mesmo?

Mudanças inevitáveis?

Ao que parece, alguns princípios consagrados na Constituição de 1988, esperando há mais de 22 anos para serem cumpridos, acabarão acontecendo por força das mudanças que ocorreram no país, independente até mesmo da regulamentação legal. Exemplo: a regionalização da produção cultural, artística e jornalística.

Da mesma forma, a sobrevivência no “mercado” talvez obrigue o jornalismo televisivo a operar mudanças não só aos níveis local e regional, mas também no nacional. Afinal, a classe C agora sabe o que quer, tem “mais presença, mais opinião” e é preciso atendê-la.

Há realmente momentos em que a realidade parece ser mais forte do que o status quo.

A ver.
Postado por Miro

PRECONCEITO AOS NORDESTINOS - Ação penal contra Mayara Petruso.

OAB-PE: Ministério Público de SP é leniente no caso Mayara

Ana Cláudia Barros

A Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Pernambuco (OAB-PE), entrou com uma ação penal privada contra Mayara Petruso, autora dos ataques que desencadearam uma onda de preconceito a nordestinos na internet, logo após a vitória eleitoral da então candidata Dilma Rousseff (PT). A ação foi protocolada diretamente na Justiça Federal de São Paulo, nesta semana. É a segunda investida da entidade contra a jovem. Em novembro do ano passado, a OAB-PE havia apresentado notícia-crime ao Ministério Público Federal de São Paulo (MPF-SP), que, passados quase sete meses, não comunicou à Ordem se ingressou com ação penal pública contra a internauta.

- Desde novembro que não sabemos quais procedimentos eventualmente foram adotados pelo Ministério Público. O órgão vem nos sonegando, nos negando informações. Entendemos que esta demora é absolutamente injustificada. Então, oferecemos essa ação penal privada, subsidiária à pública, que é movida pela parte interessada quando a autoridade pública competente, no caso o MPF-SP, deixa de adotar as medidas que deveria adotar - explica o presidente da entidade, Henrique Mariano.

Mariano vê "descaso" no posicionamento do MPF-SP e diz que o órgão está sendo leniente.

- Fizemos um trabalho criterioso. Oferecemos ao Ministério Público todos os dados, o endereço de Mayara Petruso, a qualificação completa. Ao nosso ver, nada justifica a leniência no que diz respeito à apresentação dessa ação penal pública contra a estudante. A OAB-PE não aceita esse tipo de postura. O Ministério Público tem, sim, o dever de informar. Não precisa entrar em detalhes se está fazendo algum tipo de investigação, mas que informe o que está sendo feito para podermos nos posicionar. Fomos a entidade que legitimamente apresentou a denúncia. Não aceitamos esse tipo de posição.

Sobre a ação penal protocolada na Justiça Federal de São Paulo, a expectativa, conforme o presidente é que Mayara passe a responder criminalmente.

- Esperamos que o juiz aceite e intime a Mayara e que ela passe efetivamente a responder. Queremos que essas pessoas respondam pelo crime praticado. No caso da Mayara, oferecemos a denúncia para que ela responda por incitação pública à pratica delituosa e racismo (a pena varia de dois a cinco anos de reclusão). Ela incitou a prática do crime de homicídio, porque nas mensagens postadas, sugeriu que cada paulista matasse um nordestino afogado - afirma.

Na avaliação de Mariano, uma possível punição de Mayara teria "efeito pedagógico".

- Está se criando uma cultura de utilizar as redes sociais para colocar mensagens ofensivas contra grupos de pessoas ou, às vezes, como foi o caso da Mayara, contra toda a população do Nordeste, que representa 30% da população brasileira. Acho que as autoridades públicas têm que dar o exemplo. Esse sentimento de impunidade só vai acabar quando houver uma medida judicial concreta e objetiva adotada em relação a essas pessoas. Só dessa forma, isso teria fim.

Por meio da assessoria de imprensa, o MPF-SP negou a acusação de leniência e afirmou impossibilidade de divulgar informações sobre o caso, porque este "corre em sigilo". Afirmou ainda que não poderia fornecer o nome do procurador responsável ou dizer se já ofereceu ou não denúncia contra Mayara Petruso.

Outros denunciados

Dois dias depois de encaminhar ao MPF-SP denúncia contra Mayara Petruso, em novembro, a OAB-PE ofereceu ao órgão outra notícia-crime, "arrolando as demais pessoas que, igualmente a ela, postaram mensagens caracterizadoras do crime de racismo e preconceito contra o povo nordestino", diz Mariano.

- Como essas outras pessoas não tinham sido, naquela ocasião, identificadas ainda a autoria de cada um, então, oferecemos ao Ministério Público, através de um CD todas as informações que havíamos reunido. No caso das demais pessoas, podia até se justificar a demora do MPF-SP, porque, realmente, havia a possibilidade de se fazer um procedimento prévio de investigação para identificar as autorias. Compreendemos que em relação às demais pessoas, é possível, sim, que o Ministério Público tenha adotado alguma medida interna - pondera.

Ondas de preconceito

Em recente estudo elaborado pela SaferNet Brasil sobre evolução diária de denúncias no Twitter, foi constatado que as ondas de preconceito e ódio no microblog são deflagradas a partir de "perfis detonadores", usuários que assumem a dianteira e inauguram uma sequência de atos hostis. A primeira grande onda observada na rede social aconteceu entre 1º e 4 de novembro do ano passado, justamente logo após o anúncio do resultado das eleições presidenciais.

De acordo com a SaferNet, organização não-governamental que atua no combate a crimes contra direitos humanos na rede, o perfil de Mayara aparece como o "detonador". Em uma das mensagens postadas pela jovem, que responsabilizou o povo do Nordeste pela vitória de Dilma, ela vociferava: "Nordestino não é gente, faça um favor a SP, mate um nordestino afogado!"

Diante da proporção que o caso tomou, Mayara tentou se retratar, postando um pedido de "sinceras desculpas". Ela alegou ainda que errar era humano.

Em maio, outra onda de preconceito contra nordestinos emergiu no Twitter depois da desclassificação do Flamengo pelo Ceará, na Copa do Brasil. Revoltada com a derrota do time carioca, a internauta Amanda Regis postou: "Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham quem tem moral, cambada de feios. Não é atoa que não gosto desse tipo de raça" (sic).

Assustada com a repercussão, a jovem também tentou remediar o estrago: "Meu Deus gente. Agi por impulso por causa do Flamengo. Não tenho nada contra nordestinos... Desculpa aí galera. JAMAIS DEVERIA TER FEITO ISSO" (sic).

Sobre esse último caso, Mariano informa:

- A OAB do Ceará e a OAB de Pernambuco ofereceram, nos mesmos moldes do que foi feito em São Paulo, denúncia no Ministério Público de Santa Catarina, onde reside a estudante. Estamos monitorando.

MÍDIA - "Jornalismo de resultados"

Depois do futebol de resultados chegou a vez do "jornalismo de resultados"

Depois do "futebol de resultados", com o resultado [aqui eu me referia ao fiasco da seleção dirigida por Parreira na Copa da Alemanha daquele ano] que vimos, agora é a vez do "jornalismo de resultados". Para seus defensores, este tipo de jornalismo é o jornalismo habitual, mas sem as frescuras. É irmão do "futebol de resultados", porque para ambos não interessa jogar limpo, respeitar as regras e os adversários - o importante é o resultado.

Por exemplo: se alguém é acusado de um crime e ele nos parece realmente culpado, por que chamá-lo de acusado, se podemos chamá-lo de criminoso? Por que devemos ouvir a versão dele, se sabemos que ele irá mentir, porque assim agem os de seu partido, religião, classe social?

Portanto, onde o jornalismo escreveria que o deputado Fulano de Tal, acusado de desviar verbas da educação em benefício próprio, alegou X e disse que apresentaria as provas Y, o "jornalismo de resultados" diria simplesmente o deputado Fulano de Tal desviou verbas da educação em benefício próprio.

Se duas pessoas têm visões opostas sobre um mesmo assunto, para que ouvir as duas partes? Para o "jornalismo de resultados" deve-se escolher apenas a versão do "lado certo" e ignorar solenemente a outra. Esse "lado certo", é claro, é o do veículo, jornalista ou blogueiro.

Para os praticantes desse "jornalismo" só existe um pecado mortal no veículo, jornalista ou blogueiro: a falta de posicionamento. Se você, por exemplo, acha que o presidente [à época] Lula é uma besta, isso deve ficar claro em todas as reportagens ou postagens. Como nessa história:

O Papa vem ao Brasil para visitar os fiéis e resolve ir a Manaus conhecer o Rio Amazonas. Lula vai com ele, junto com toda a comitiva, mais aquele monte de gente da imprensa. Chegando lá, resolvem passear de barco pelo rio, mas, num solavanco das águas, o Papa cai e começa a se afogar.

Pânico. Ninguém sabe o que fazer, pois as águas estão agitadas demais. O papa se distancia cada vez mais do barco. Lula, então, pula no rio, mas em vez de afundar começa a... andar sobre as águas!!! Ele caminha sobre o rio até chegar junto ao Papa, estende-lhe a mão e o leva com segurança para o barco.

Manchete do "jornalismo de resultados":

"LULA NÃO SABE NADAR!"

Blog do Mello.

BLOGS - Carta dos Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro.

Carta dos Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro

Somos jovens, somos não tão jovens. Somos homens e mulheres, meninas e meninos. Temos todas as cores, todas as religiões, diferentes crenças ideológicas, mas apenas um compromisso: liberdade com justiça social. Somos centenas e não baixamos a cabeça para ninguém. Somos os blogueiros progressistas do estado do Rio de Janeiro.

No atual estágio da luta de classes, a blogosfera é uma trincheira fundamental na defesa dos trabalhadores contra a selvageria e crueldade do capitalismo. Nossos blogs tornaram-se ferramentas de grande utilidade nas batalhas cotidianas contra as mentiras contadas e recontadas diariamente pela velha mídia golpista. Milhares de blogs nascem a cada dia, como flores anunciando a primavera. A cada embuste desferido pelos tradicionais meios de comunicação, ganha força o ativismo nas redes sociais, temperado no fogo da luta!

Como na bela canção de Chico Science, percebemos que “nos organizando podemos desorganizar”. Seguiremos nessa toada enquanto a ditadura da mídia prosseguir obstruindo um debate político mais livre. Depois disso, outras frentes de batalha virão, porque a luta pela justiça social é eterna.

Nos dias 6 a 8 de maio deste ano, realizamos o I Encontro Estadual de Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro. Com a presença de mais de 200 blogueiros de todo o estado (e vários de outras regiões do país) trocamos experiências, acumulamos debate, confraternizamo-nos alegremente, manifestamo-nos corajosamente em frente à sede da Rádio CBN - a rádio que troca a notícia –, e aprovamos a criação da Associação de Blogueiros do Estado do Rio de Janeiro (ABERJ).

Se você é blogueiro ou simpatizante da blogosfera e se indigna com a opressão midiática, então você é nosso companheiro.

Blogueiros Progressistas de todo o mundo, uni-vos!

Entre as propostas aprovadas na assembleia final do I Encontro Estadual de Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro estão:

- Apoio a PEC da Banda Larga;

- Defesa da neutralidade da rede;

- Luta pela aprovação do Conselho Estadual de Comunicação;

- Criação do Marco regulatório da comunicação;

- Pela simplificação da regularização das rádios comunitárias;

- Criação da "Associação dos Blogueiros do estado do Rio de Janeiro - ABERJ";

- Criação de uma linha de publicidade pública para blogs;

- Defender a simplificação dos processos de legalização de rádios comunitários;

- Moção de solidariedade ao blogueiro Esmael Morais, do Paraná, perseguido pelo governo daquele estado;

- Moção de solidariedade ao blogueiro carioca Ricardo Gama, que sofreu um hediondo atentado, no Rio de Janeiro, provavelmente em virtude de suas denúncias políticas.
Blog ÓLEO do DIABO

ANOS DE CHUMBO - Os meninos da Praça de Maio.

Enviado por luisnassif

Por Eugênio Issamu

Do Estadão

Justiça argentina determina teste compulsório de sangue dos herdeiros do 'Clarín'



A Justiça argentina determinou nesta quinta-feira que os filhos adotivos da empresária Ernestina Herrera de Noble, dona do jornal Clarín, sejam submetidos à realização "compulsiva" de exame de sangue para comprovar se são ou não filhos biológicos de desaparecidos políticos durante a ditadura militar no país (1976-1983).
Esta é a primeira vez em que a Justiça adota esta decisão no caso que envolve uma das principais empresárias do país e a entidade de direitos humanos Avós da Praça de Maio.

As Avós entraram na Justiça para saber a identidade verdadeira de Marcela e Felipe, adotados pela empresária há cerca de 35 anos.

"Se eles não quiserem ir espontaneamente, serão levados pela força pública. Quer dizer, pela polícia", disse à BBC Brasil o advogado da entidade de direitos humanos Avós da Praça de Maio, Alan Iud.

Alan Iud afirma que Marcela e Felipe de Noble Herrera ainda poderão recorrer da medida na Suprema Corte de Justiça. Os exames dos dois serão comparados com os de familiares das vítimas do período ditatorial.

Os irmãos sustentam que a adoção foi legal e dizem se sentir vítimas de uma perseguição. Seus advogados consideraram a decisão desta quinta-feira inconstitucional.

Apelação

No entanto, a presidente da Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, disse que apelará à Suprema Corte por discordar da decisão da Justiça de limitar a comparação dos exames somente com familiares daqueles que desapareceram até 7 de julho de 1976, dois meses após o golpe militar que ocorreu em março daquele ano.

"Queremos que a comparação seja feita com todos os exames de sangue que temos no nosso banco de DNA, na entidade. Ou a Justiça estará dando um privilégio que não foi dado a outros familiares", disse Carlotto à TV estatal, Canal 7.

Ela disse ainda que as Avós da Praça de Maio, que procuram seus netos, têm idade avançada e que por isso este caso deveria ser definido de forma mais rápida.

"Estamos perdendo tempo, e as avós são idosas. Elas precisam saber se os dois jovens são seus netos ou não. Mas esta questão agora vai para a Suprema Corte, e é mais tempo que vamos perdendo e não temos mais tanto tempo assim", disse.

Segundo ela, a Justiça já teria comprovado que a adoção "foi ilegal" e os "papéis falsificados", o que em sua opinião poderia confirmar que os dois poderiam ser filhos de desaparecidos políticos.

Proibição de extraçãoEm 2009, em outro caso sobre o reconhecimento de filhos de desaparecidos políticos, a Suprema Corte definiu que "o Estado não pode obrigar a extração compulsiva de sangue", como publicou o jornal La Nación em sua edição online. Mas essa decisão não influencia o caso dos irmãos adotados pela dona do Clarín.
Recentemente, policiais recolheram objetos pessoais de Marcela e de Felipe na casa onde residem em busca de material genético que pudesse ser usado para realizar os testes, mas os resultados deram negativo na comparação com dados de familiares de vítimas da ditadura, como afirmou Iud.

"Aqueles exames não serviram. Por isso, agora é necessário o exame de sangue", disse. Na ocasião, foram recolhidas escovas de dente e de cabelos dos dois para os exames de DNA.

O advogado de Marcela e de Felipe, Jorge Anzorreguy, disse à BBC Brasil, no ano passado, que os irmãos já tinham realizado exame de sangue, mas para a comparação especifica com os dados genéticos de uma família que tinha acionado a Justiça.

"Eles já fizeram o exame de sangue espontaneamente e deu negativo", afirmou, na ocasião. No entanto, as avós não confiaram nas mostras de sangue analisadas e por isso, segundo representantes da entidade, pedem que Marcela e Felipe sejam levados "pessoalmente" ao banco de dados de DNA da entidade.

As Avós da Praça de Maio já localizaram mais de cem netos, filhos de desaparecidos políticos criados por pais adotivos, após seqüestro e desaparecimento de seus pais biológicos. A entidade estima que 500 bebês, agora com mais de 30 anos de idade, foram retirados de seus pais verdadeiros durante a ditadura militar.

ECONOMIA - Bancos pegam dólares no exterior e emprestam em reais a altos juros no Brasil.

Bancos pegam dólares (a baixos juros) no exterior e emprestam no Brasil em reais (a altos juros). Com isso, estão elevando a dívida externa para quase US$ 400 bilhões.

Carlos Newton

Não é de espantar que a dívida externa dos bancos brasileiros tenha dobrado nos últimos 15 meses – de US$ 63,6 bilhões em dezembro de 2009 para US$ 122 bilhões em março deste ano. É um ritmo bem superior ao endividamento externo total do País, incluindo empresas e governos, que saiu de US$ 277,6 bilhões para US$ 381,3 bilhões no mesmo período, uma alta de 37%.

Muita gente ainda pensa que o governo Lula pagou a dívida externa, mas não é bem assim. O governo apenas pagou antecipadamente a dívida com o Fundo Monetário Internacional (o que não foi um bom negócio, porque os juros cobrados pelo FMI são baixos, o governo poderia ter quitado outras dividas). E não apenas pagou, como depois ainda emprestou dinheiro ao FMI (outro péssimo negócio, pois o FMI paga juros muito baixos).

A confusão pagou-não-pagou a dívida externa se deve também ao fato de que hoje o Governo tem reservas cambiais que são suficientes para pagar quase toda a dívida externa do país, mas nem precisaria, porque do total de 381,3 bilhões de dólares, somente são devidos pela União cerca de 100 bilhões. O resto são dívidas de governos estaduais, prefeituras, empresas privadas, estatais e bancos.

Os bancos pegam dólares emprestados lá fora, a baixos juros, cerca de 6% por ano, convertem em reais e aplicam no Brasil em títulos públicos (12% ao ano) ou em operações financeiras (onde o céu é o limite em matéria de juros).

O governo se preocupa com a dívida externa dos bancos, porque isso contribui para derrubar a cotação do dólar. Além disso, ao transformar o dinheiro lá de fora em empréstimo aqui dentro, os bancos estimulam o consumo, justamente quando são adotadas medidas para conter a escalada da inflação por meio da desaceleração da economia. Nos últimos 12 meses, o crédito total na economia brasileira se expandiu 20,7%, um ritmo superior ao que os próprios bancos esperavam, pois no fim do ano passado, a expansão estava entre 13% e 16%.

Mas se essa situação preocupa o governo, os bancos não estão nem aí. O endividamento externo não lhes oferece maior risco, porque as instituições financeiras são obrigadas a se proteger das eventuais variações cambiais recorrendo a uma operação do mercado chamada de “hedge cambial”. Com isso, os riscos de que uma brusca oscilação do real ante o dólar provoque uma crise são reduzidos.

Quem sempre corre muito risco são os clientes dos bancos, que pagam tarifas em tudo, basta entrar na agência e operar o caixa eletrônico que já está pagando. Hoje o risco maior é a chamada bolha imobiliária. Nos 12 meses encerrados em março, o crédito imobiliário às pessoas físicas avançou 49,6%. Nas pessoas jurídicas, 48,3%. Os imóveis aumentaram de preço artificialmente, o mercado está eufórico, mas muita gente vai ter prejuízo quando a situação normalizar. Os alugueis, por exemplo, já estão caindo de novo. Numa economia estabilizada, tudo que sobe muito, depois desce. Podem crer.
Fonte: Tribuna da Imprensa.

BANDA LARGA - CUT critica proposta.

CUT critica proposta de banda larga de ministro petista


O artigo da Secretaria Nacional de Comunicação da CUT merce ser lido pela clareza da sua exposição acerca do debate da implantação do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). No movimento social instalou-se um clima de desconfiança em relação ao governo, por conta da demissão de Rogério Santana, da Telebrás, e das últimas declarações do ministro Paulo Bernardo, do PT. Leia o texto de Rosane Bertotti e entenda o imbróglio.

Fortalecer a Telebrás para viabilizar o PNBL
Rosane Bertotti, secretária de Comunicação da CUT Nacional

Nosso compromisso militante com a universalização da banda larga nos impele a tecer considerações sobre os desafios colocados pela conjuntura no embate entre a afirmação de um projeto estratégico nacional de digitalização, no qual o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) se insere, e a manutenção da lógica das teles que controlam o setor.
Para nós, combatentes pela democratização da comunicação, a manutenção de tão desastroso monopólio representa o avesso de tudo o quanto buscamos: a universalização dos serviços com o acesso à internet a baixos custos e com qualidade para todos, o que necessariamente deve estar articulado ao processo de digitalização da TV e do rádio em curso no país.
Em tempos de convergência digital, uma Telebrás amarrada à lógica privatista, incapacitada pelos sucessivos cortes de recursos, e, pelas recentes declarações do ministro Paulo Bernardo de que “Não é tarefa da Telebrás disputar mercado com as teles. Ela vai sair da disputa para ser uma articuladora de ações”, é tudo o que não precisamos. Pois é tudo o que as teles querem, para que nada mude.
Na nossa compreensão, isso seria mais do que uma capitulação do governo diante dos interesses do capital estrangeiro, representaria um verdadeiro crime contra o desenvolvimento nacional, já que comprometeria o presente e o futuro de gerações, que ficariam à mercê dos interesses dos monopólios privados. É um cartel que atua tão somente nas “áreas atrativas”, inferior à metade do nosso território, onde vivem 58% da população, excluindo, antes de mais nada, 42% dos brasileiros. Conforme a Telebrasil, associação das teles, existem no país apenas 10 milhões de usuários da banda larga. Como alertou o ex-presidente da Telebrás, Rogério Santana, “90%, 95% dos acessos de Internet vendidos no país estão na mão de cinco empresas, sendo que 85% na mão de três – a Telefónica, a Oi e a Net/Embratel”.
Todos sabemos o que representa, na nossa vida prática, no bolso, esse controle das teles: desembolsamos preços exorbitantes por serviços de péssima qualidade, onde se dão ao luxo de poder nos oferecer somente 1/16 do contratado, ao que se soma um rol de abusos, incapacidade permanente de atendimento e péssimos serviços. Não por acaso, elas estão entre os campeãs de reclamação no Procon, com recordes sucessivos.
Só para lembrar: em 2008, o faturamento da Telefónica, Embratel, Oi, Vivo, TIM, Brasil Telecom e Claro foi de US$ 58,1 bilhões, mais da metade dos US$ 110 bilhões de faturamento das 200 maiores empresas de tecnologia instaladas no país. Em 2010 o faturamento das sete teles acima foi alavancado: alcançou U$ 96,5 bilhões.
A forma parasitária com que atuam é uma herança do desgoverno Fernando Henrique, que as instalou – via privatização/desnacionalização – nesta esfera estratégica de poder. Não por acaso o presidente Lula indicou Rogério Santanna, idealizador do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) para tecer uma malha independente – deixando as teles com a rede delas e criando uma rede neutra, pública, a partir da utilização da rede de fibras ópticas do governo.
Assim foi concebida a reativação da Telebrás, obviamente sabotada pelas teles e por todos os seus marionetes, na mídia, no parlamento – e também no governo -, ávidos por algo das migalhas dos lucros estratosféricos recebidos pelos serviços de baixíssima qualidade.
Diferentemente do que propalam os que querem manter o país marcando passo na era digital, os custos do Plano Nacional de Banda Larga são irrisórios para o Estado, diante da magnitude da sua relevância para o desenvolvimento. Ainda mais porque se utiliza de uma rede que – em grande parte – já existe, colocando o atendimento direto ao usuário – a “última milha” – aos pequenos provedores privados, o que também aquece a economia. Basta ver que com a Telebrás operando no atacado, o governo garantiria que mais de dois mil provedores pudessem atender ao usuário no varejo. E nas localidades sem provedores a estatal poderia atender diretamente ao usuário.
O aporte inicial projetado pelo governo Lula à Telebrás foi de R$ 1 bilhão até o final de 2011 – com possível suplementação de R$ 400 milhões. Infelizmente, o primeiro aporte, de R$ 600 milhões, foi diminuído no atual governo para R$ 316 milhões, com sucessivas reduções que acabam inviabilizando a meta do PNBL para 2011.
Neste momento de definições, cabe à militância cutista somar esforços com as demais centrais, movimentos sociais e pela democratização da comunicação em torno à campanha Banda Larga é um direito seu. A mobilização popular deve ampliar a pressão para que não haja recuo no PNBL, a Telebrás seja valorizada e colocada no patamar que o Brasil e a sociedade brasileira merecem
Blog do Rovai

quinta-feira, 2 de junho de 2011

ECONOMIA - Melhor que roubar bancos.

"A grande banca mundial agora já se enche de ares e dá pitos em governos quebrados (dos quais são cúmplices em irresponsabilidade). Conseguiu repelir muito da modesta ofensiva regulatória de 2009. Os financistas voltaram a fazer dinheiro. A fortuna que ganharam inventando dinheiro fictício para negócios inviáveis ficou nos seus bolsos", escreve Vinícius Torres Freire, jornalista, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 27-05-2011.

Eis o artigo.

As bandalheiras legais e ilegais da grande finança nos anos em torno do crítico 2008 aos poucos viram poeira de história. Mas, a bem da justiça e em nome de tanta gente esfolada pela crise, convém recordar quão grande foi o descaramento.

Acaba de vir à luz, por exemplo, como mais uma operação de emergência do banco central dos EUA (Fed) tornou-se enfim um programa de subsídios para bancões.

O que nos importa o Fed dar dinheiro à banca euroamericana?

A grande banca mundial agora já se enche de ares e dá pitos em governos quebrados (dos quais são cúmplices em irresponsabilidade). Conseguiu repelir muito da modesta ofensiva regulatória de 2009. Os financistas voltaram a fazer dinheiro. A fortuna que ganharam inventando dinheiro fictício para negócios inviáveis ficou nos seus bolsos.

Ainda vai levar anos para que a conta da esbórnia seja paga, conta que de início foi bancada por governos, os quais tiveram de agir a fim de evitar colapso terminal da economia. Os governos, premidos pelos credores, agora repassam a conta para a população bestificada.

Imediatamente, há cortes de benefícios sociais por quase todo o mundo rico, em especial no sul da Europa. Mas os programas de contenção da crise têm efeitos colaterais pelo mundo. A grande expansão monetária americana causa desequilíbrios econômicos, entre eles um empurrão adicional no preço já em alta de combustíveis e comida, conta que pinga na tigela de comida de pobres da África e do sul da Ásia.

O que acabamos de saber? Meios de comunicação dos EUA, em especial a agência de notícias Bloomberg, têm se batido na Justiça contra o Fed, demandando a abertura de informações sobre os programas de socorro à banca que datam de 2008.

Premido mesmo pelo temor de paralisia e colapso gerais do sistema financeiro, o Fed abriu linhas várias de financiamento de curto prazo para a banca e pares. Dadas, ademais, a simpatia e a promiscuidade entre integrantes da autoridade monetária e a banca (o Fed é, de certo modo, "privado"), alguns arranjos terminaram em subsídio mesmo.

A partir de 2008, conta a Bloomberg, bancos como Credit Suisse, Goldman Sachs, Deutsche Bank, os quase quebrados Barclays e RBS e o UBS tomaram empréstimos a taxas de juros ainda inferiores à taxa de redesconto do Fed (taxa de empréstimos de socorro para bancos com problemas transitórios de liquidez).

Tratava-se de "repos", em suma uma troca temporária de dinheiro barato (do Fed) por (no caso) títulos lastreados em hipotecas, aqueles mesmos, que deram origem à crise e que na época ninguém trocava nem por banana passada, muito menos por empréstimo a juro real negativo.

Não foi a única farra da finança, que cometeu a alocação de capital mais estúpida e cinicamente incompetente da história (o papelório imobiliário), levou empréstimos baratinhos, viu o Fed comprar ou garantir seus papéis podres, quando não cometeu crimes, relacionados ou não à grande bolha dos derivativos.

Pois é essa gente responsável que vive a fazer a política nos corredores do G20, do G8, do FMI, de BCs etc. Ou que faz pose mesmo quando ainda pede, como agora, que o Banco Central Europeu e a União Europeia os salve de uma

Fonte:IHU

MÍDIA - Protesto de Vargas Llosa.

Em protesto contra apoio de jornal à filha de Fujimori, Vargas Llosa deixa de publicar sua coluna.

Carlos Newton

Era só o que faltava. O prêmio Nobel de Literatura, Mario Vargas Llosa, desistiu de seguir publicando sua coluna “Pedra de Toque” no jornal peruano “El Comercio”, ao qual acusou, por carta, de ter se tornado uma “máquina de propaganda” da candidatura da direitista Keiko Fujimori.

“El Comercio” é uma espécie de “O Globo” peruano, pois a organização é proprietária também dos jornais “Perú21”, “Gestión”, “Trome” e “Depor”, assim como do “Canal N” de televisão a cabo. Além disso, é acionista majoritário da “América TV”, canal mais importante do país.

“Em seu afã de impedir por todos os meios a vitória de Ollanta Humala, “El Comercio” viola as mais elementares noções de objetividade e de ética jornalísticas”, afirma o escritor. “Silencia e manipula a informação, deforma os fatos, abre suas páginas às mentiras e calúnias que possam danificar o adversário, enquanto em todo o grupo de comunicação (que possui) demite ou intimida os jornalistas independentes”.

“Não posso permitir que minha coluna ‘Pedra de Toque’ continue sendo publicada nessa caricatura do que deve ser um órgão de expressão genuinamente livre, pluralista e democrático”, enfatiza ao pedir ao diário espanhol “El País” – que divulga suas colunas em vários países – que deixe de enviar suas colaborações ao “El Comercio”, jornal mais antigo do Peru.

O escritor apoia o candidato de esquerda Ollanta Humala no segundo turno das eleições presidenciais de 5 de junho contra a fujimorista Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, condenado a 25 anos de prisão em 2009 por violações dos Direito Humanos durante seu mandato.
Fonte: Tribuna da

ECONOMIA -Investimentos suspeitos.

Aumento súbito de investimento no país é ''suspeito'', diz FMI

O economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, afirmou ontem que o aumento súbito do investimento estrangeiro direto no Brasil é "suspeito" e que o governo deveria taxar esse tipo de fluxo de capital.

A reportagem é de Patrícia Campos Mello e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 28-05-2011.

"Os números de investimento estrangeiro no Brasil são bastante suspeitos. O investimento começa a subir muito justamente quando ele fica de fora do imposto (IOF).

Talvez esse dinheiro não seja mesmo investimento", disse Blanchard ontem, após seminário sobre fluxos de capital.

O governo elevou a cobrança de IOF sobre fluxos de capital de curto prazo para desestimular a entrada dessas aplicações, que têm levado à valorização do real.

A suspeita é que alguns investidores estão fazendo investimentos diretos de longo prazo para driblar o IOF.
No acumulado do ano, de janeiro a abril, a entrada líquida de investimento estrangeiro direto no Brasil foi de US$ 22,985 bilhões - o valor é quase três vezes maior que o fluxo que ingressou no país no mesmo período do ano passado.

Para Blanchard, o próximo passo do governo deveria ser aumentar o alcance das medidas "e começar a taxar o investimento direto".

O economista deixou claro que o FMI vê com bons olhos o uso de taxação para desestimular a entrada excessiva de capitais estrangeiros, que podem causar sobrevalorização da moeda e perda de competitividade da indústria. Mas afirmou que, provavelmente, o Brasil e outros países "não estão usando esses instrumentos da forma mais eficiente".

"Se estiverem dispostos a adotar uma ampla gama de controles de capital, aí sim funciona", avaliou.

MUDANÇA

A posição é uma mudança e tanto para o fundo, que até pouco tempo condenava o uso de instrumentos que restringissem a entrada ou saída de capitais estrangeiros.

No ano passado, o FMI passou a "aceitar" o uso instrumentos de controle, desde que antes fossem esgotadas todas as outras opções, como medidas de política fiscal e macroeconômica.

"Nós mudamos nossa posição. Não necessariamente o controle de capital tem de ser só o último recurso -às vezes é preciso adotá-lo como primeira linha de defesa", disse Blanchard.

ECONOMIA - Capitalismo Selvagem.

“A Seara patrocina a Seleção, mas deixa o trabalhador adoentado e na mão”

Na sexta-feira, 27 de junho, Valdeci Ferreira de Oliveira, trabalhador da Seara em Sidrolândia-MS, completou três anos e 11 meses de afastamento pelo INSS. Tem bursite e tendinite. Rompeu o tendão. Em 2007 fez a primeira operação, em 2009, a segunda. As cirurgias não deram em nada. Ocorreram após o médico da empresa ter dito que Valdeci estava de “h”, “enrolando para não trabalhar” e o mandado de volta à linha de produção. A ressonância apontou o que o trabalhador já sabia: a urgência da cirurgia, que poderia não ter sido necessária caso tivesse sido afastado da função. “Agora o médico quer que eu faça outra operação. Como? Pra quê?”

A reportagem é de Leonardo Wexell Severo e publicado pelo portal da CUT, 01-06-2011.

Valdeci mostra os pontos no ombro e o papel com a sentença do Tribunal Regional do Trabalho que determina à Seara o pagamento da indenização: R$ 15 mil por danos morais, R$ 15 mil por danos materiais. A condenação também determina que a empresa restabeleça o plano de saúde, cortado quando o trabalhador mais precisava. No total, o valor arbitrado à condenação é de R$ 40 mil. A bilionária empresa recorreu. Enquanto isso, o ex-balanceiro, submetido por anos ao “esforço repetitivo e rápido”, sofre com a dor, a lentidão do processo e a morosidade da Justiça. “É só mudar o tempo e esfriar um pouco que preciso tomar injeção”. “O pior é que a gente vê os patrocínios milionários dados ao Santos e à Seleção brasileira. Já o time da produção, o trabalhador que mais precisa, fica largado, adoentado, na mão. Isso é inaceitável”, protesta.

Num dos poucos casos que presenciei em Sidrolândia, onde 90% dos Comunicados por Acidente de Trabalho (CAT) são mascarados pelos médicos do trabalho, Valdeci conseguiu ser enquadrado pela Previdência no código de doença profissional 91, o que lhe garante estabilidade, obrigando a empresa a recolher o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) por vincular a enfermidade ao tipo de trabalho que executava.

Comemorando o patrocínio fechado com a Marfrig, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é só elogios a “uma das maiores empresas de alimentos do mundo”. Justificando o acordo publicitário, a CBF lembra que “o Grupo controla, entre outras, cinco grandes corporações: Seara Alimentos (2º maior exportador e processador de aves do Brasil), Marfrig Alimentos (2º maior produtor e exportador de carne bovina do Brasil), Moy Park (maior processador de frangos no Reino Unido), Quickfood (maior empresa de carne bovina na Argentina) e Tacuarembó (maior empresa privada no Uruguai). O Grupo tem 72.000 colaboradores e 92 instalações localizadas em 13 países. Seus produtos estão presentes hoje em mais de 100 nações. Em 2009, o Grupo Marfrig atingiu o faturamento bruto de R$ 10.2 bilhões. O portfólio de produtos é amplo e variado e, por isso, a organização é reconhecida como uma das mais diversificadas em alimentos no mercado global”.

Roseli Aparecida Alegre Rodrigues trabalha no setor de eviceração de frango da Seara/Marfrig em Sidrolândia-MS, separando miúdos, classificação de pés, inspeção federal e escaldagem. Em 2009, ávida por mostrar serviço no novo emprego, acompanhou o ritmo intenso e conquistou uma bursite no ombro esquerdo. A empresa não tomou providências. “Procurei o ortopedista, corri atrás”. Resultado: cinco meses de afastamento médico. “É caro. São consultas, fisioterapia, exames e tudo é cobrado. Todo mês passo no médico. Só em fisioterapia dá uns R$ 100. A gente sabe a causa da dor: é o esforço repetitivo. O doutor foi claro, disse que o remédio vai aliviar a inflamação, mas que não tem cura”.

A lesão deixa marcas que vão acompanhar os trabalhadores pelo resto da vida, desabafa Marlene Mamede Gabriel. “Trabalhei na Seara quatro anos e cinco meses. Fiquei afastada uns nove meses. Eu desossava peito na época, com muitas dores nos ombros, nas costas e no braço. Fiquei com sequela, não tem jeito. Tendinite e bursite nos dois ombros, tendinite no punho e no cotovelo”.

O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação (Contac/CUT), Siderlei de Oliveira, acredita que a situação acima retratada “vem comprovar duas coisas: que a empresa abandona os doentes e que é urgente uma mudança na forma de produção, diminuindo o ritmo e a jornada e estabelecendo pausas”. Do contrário, alerta, casos como o de Valdeci, Roseli e Marlene continuarão se repetindo aos milhares

ANOS DE CHUMBO - A resposta de Pérsio Arida.

Da Folha

O coronel e a tortura

PERSIO ARIDA

Provar que algo não aconteceu porque não consta do processo no tribunal de exceção, como fez o coronel Ustra, é uma afronta à razão e à história

Confesso minha surpresa com o artigo do coronel Ustra ("O delírio de Persio Arida", "Tendências/Debates", 27/5). Ele não aparece em minhas memórias. Não que o coronel fosse desimportante -pelo contrário, era o chefe do DOI-Codi, em São Paulo, um dos mais notórios centros de tortura dos anos de chumbo. É que escrevi memórias para registrar sentimentos, não para acusar pessoas.

A tortura foi no Brasil uma política de Estado, e não um desmando deste ou daquele militar. O que teria levado o coronel a escrever seu artigo? Talvez tenha ficado incomodado com o relato da tortura.

O coronel conseguiu a proeza de escrever um livro de mais de 500 páginas sem mencionar os horrores daqueles anos. Talvez tenha se sentido diminuído por eu ter contado que fui removido para outra central de torturas no Rio de Janeiro. Talvez tenha ficado chateado com as esfihas que burlaram a segurança da Operação Bandeirantes.

Sejam quais forem os seus motivos, vamos aos fatos que vivi.

Reafirmo: encontrei o Bacuri, sim; Massafumi fez uma preleção aos presos sobre as maravilhas da Transamazônica; os colchões da prisão estavam manchados de sangue; ouvia gritos de dor e de sofrimento durante as noites. A primeira dependência que me fizeram visitar, logo que cheguei à Operação Bandeirantes, foi a sala de torturas, onde ficava a cadeira do dragão. O choque elétrico tem a vantagem de não deixar marcas.

É uma pena que tenha que ser minha palavra contra a do coronel.

Se o Brasil tivesse instaurado uma Comissão de Justiça e Verdade, um processo aberto de depoimentos para que pudéssemos aprender com nossa própria história, o coronel teria a oportunidade não de ler um artigo na revista "Piauí", mas de ouvir várias centenas de testemunhos do que se passou em sua prisão. Sua memória e o Brasil teriam muito a ganhar com isso.

O coronel argumenta como se tudo o que aconteceu constasse dos autos dos processos. Se não consta dos autos, é porque não aconteceu.

O coronel "prova" assim que não fui transferido de São Paulo para o Rio porque isso não consta do meu processo na Justiça Militar.

Logo, minha tortura no Rio teria que ser fantasiosa. O coronel "prova" que Bacuri não passou por São Paulo porque consta que ele foi preso no Rio. E assim por diante.

A argumentação, por um lado, é bisonha -se a ditadura era capaz de mover pessoas do solo da terra para o fundo do mar, como o fez com Rubens Paiva, por que não moveria presos entre São Paulo e Rio de Janeiro? Por outro, ignora que os tribunais militares, no Brasil da época, apenas ratificavam as decisões da cúpula dos órgãos de repressão.

Todas as ditaduras gostam de conceder simulacro de legalidade ao julgamento de seus inimigos.

Provar que algo não aconteceu porque não consta do processo no tribunal de exceção é uma afronta à razão e à história. Eu assinei o que mandaram assinar. Quem ousaria fazer diferente diante da perspectiva de mais uma rodada na sala de torturas? Ao usar documentos oficiais manipulados para provar seus argumentos, é o senhor, coronel, quem delira.

A ideia de que só se pode provar o que consta da documentação legal é perigosa. Hitler não assinou nenhuma ordem para adotar a solução final. Isso permite provar que inexistiu uma política oficial de extermínio dos judeus?

Estivemos em lados opostos, coronel. Eu deixei de ser comunista ou socialista há muito tempo.

Mas, se tivesse que escolher entre ser um jovem idealista, mas equivocado, ou o chefe da Operação Bandeirantes, eu preferiria ter sido quem fui, mesmo que tivesse que ser preso de novo. Eu não suportaria a vergonha de ter comandado uma casa de torturas.

MÍDIA - Vargas Llosa rompe com o PIG peruano.

Por Juliana Sada, no blog Escrevinhador:

A disputa presidencial peruana se acirra e a sociedade está cada vez mais envolvida. Nesta terça-feira, o escritor Mario Vargas Llosa tomou mais uma atitude nesta disputa e anunciou o fim de sua coluna no jornal “El Comercio”, um dos principais do país e apoiador de Keiko Fujimori, a candidata da direita.

Apesar de ser conhecido por suas posições políticas conservadoras, o escritor e prêmio Nobel de literatura já havia declarado apoio ao candidato Ollanta Humala, identificado com a esquerda nacionalista.

De acordo com Llosa, em carta enviada ao diretor do jornal, o veículo se converteu em uma máquina de propaganda de Keiko – que “em seu afã de impedir, por todos os meios, a vitória de Ollanta Humala, viola diariamente as mais elementares noções de objetividade e ética jornalística”. O escritor acusa o jornal de manipular informações e “abrir suas páginas a mentiras e calúnias que possam prejudicar o adversário”.

Em sua carta, Llosa afirma que não pode permitir que sua coluna "'Pedra de Toque' siga aparecendo nesta caricatura do que deve ser um órgão de expressão genuinamente livre, pluralista e democrático”.

O jornal teria se tornado “uma máquina de propaganda de Keiko” quando Martha Miró Quesada e “um punhado de acionistas” tomou controle do grupo midiático. A família Miró Quesada fundou o jornal “El Comercio” em 1839 e até hoje controla o veículo.

O grupo midiático “El Comercio” possui cinco jornais, um canal de televisão a cabo e é acionista majoritário do canal América TV. Vargas Llosa denuncia que em todo o grupo, ocorrem intimidações aos jornalistas independentes.

Disputa Eleitoral

O segundo turno da eleição presidencial ocorre neste domingo e as pesquisas indicam empate técnico entre os dois candidatos. A vitória de Ollanta Humala pode causar uma grande mudança nos rumos do país, que há anos é governado pela direita. Além de impactar no resto da América Latina, como explica nosso colunista Marcelo Salles, em seu artigo de hoje.
Postado por Miro

quarta-feira, 1 de junho de 2011

POLÍTICA - Dilma: a falsa encruzilhada e a real.

O problema da presidente não são as negociações com o PMDB. É a necessidade de uma nova estratégia — que tem forte relação com a economia e não pode ser substituída pela ilusória imagem de “dama de ferro”

Por Luis Nassif

Vamos a algumas considerações sobre os primeiros cinco meses do governo Dilma Rousseff.

É um evidente exagero dar o governo como acabado, como pretendem alguns. Ou considerar uma rendição eventuais concessões ao PMDB, como pretendem outros. Mas que há necessidade de se rever estratégias, não se tenha dúvida.

Collor e Jânio caíram não por malfeitos, bebedeiras ou quetais, mas porque enfrentaram o Congresso. Lula sobreviveu não apenas por sua liderança carismática mas porque soube recompor a maioria parlamentar.

Aliás, causa espanto que intelectuais sofisticados, como Marcos Nobre, considerem que concessões a aliados signifiquem o fim “do grande projeto político” de Dilma (clique aqui). Esse mundo maravilhoso, em que presidentes podem governar como executivos, sem concessões, costuma habitar o imaginário de não-políticos – não de cientistas sociais.

Nos três primeiros meses de governo, Dilma se valeu da blindagem de todo recém-eleito para endurecer com aliados na definição de alguns postos-chaves no governo. De início, consegue-se a admiração do mundo não-político, mas no mundo político – que é o que garante a governabilidade – as mágoas vão se acumulando, a frente política vai se desgastando, os derrotados seguram a reação até o momento em que um episódio qualquer permite a explosão coletiva.

Ficando vulnerável na frente política, torna-se presa fácil da guerra de informações da velha mídia.

O risco da “dama de ferro”

No início de seu governo, a estratégia de Dilma consistiu em baixar a fervura política. Atuou de forma correta. Foi ao aniversário da Folha, acenou para adversários, conquistou aplausos para seu endurecimento com aliados políticos. Esvaziou os factoides gerados na guerra da mídia contra Lula, falando pouco, trazendo o componente direitos humanos para a diplomacia, agindo tecnicamente no preenchimento das vagas do segundo e terceiro escalão.

Mas, ao mesmo tempo, esvaziou o discurso político. Mais ainda, mesmo não se iludindo quanto aos propósitos da velha mídia, caiu na armadilha criada, de vestir a roupa de Margareth Thatcher brasileira, a dama-de-ferro que resolve todas as pendências políticas endurecendo o jogo, que coloca o objetivo técnico acima das demandas políticas.

Não há veneno maior na vida de um governante do que a ilusão dos plenos poderes, de onipotência. Envenena o ambiente político. Sendo uma ficção – porque não existem plenos poderes em ambiente democrático – é uma imagem facilmente descontruída no mundo não-político. Basta a primeira crise para trazer uma decepção diretamente proporcional à admiração gerada pela falsa ideia da onipotência. Qualquer ato de concessão política demole em instantes a falsa imagem criada no período anterior. A ponto de até o intelectual Nobre cair nessa armadilha.

Vulnerabilizando-se na frente política, fica fácil para a oposição destruir o apoio do mundo não-político: basta um escândalo real ou fabricado. No primeiro governo Lula, foi o caso Valdomiro – cujos escândalos reais ocorrerem, na verdade, no governo Garotinho.

A sorte de Dilma é que a primeira tentativa de desestabilização ocorreu com um auxiliar polêmico, mas longe de ser um Valdomiro. E quando ela ainda carrega um bom estoque de credibilidade, inclusive para corrigir os rumos iniciais do seu governo.

O isolamento político.

A vulnerabilidade de Dilma não reside em eventuais concessões ao PMDB – ainda que doa na alma de qualquer cidadão. Reside em seu isolamento político e do seu governo, algo que poderá ser corrigido daqui para frente.

Ela se isolou não apenas dos aliados – a arrogância de Antônio Palocci com um vice-presidente foi sintomática -, mas também impôs uma lei do silêncio ao primeiro e segundo escalão, que acabou comprometendo o fluxo de informações e análises, inclusive os contatos em off.

Aí, cria-se uma balbúrdia.

Exemplo disso é a estratégia conduzida pela Fazenda e pelo Banco Central, para fugir ao cerco dos “juristas” (os defensores dos juros altos), ou as declarações desencontradas sobre câmbio e controle de capitais.

A grande batalha do governo Dilma ocorre na frente econômica. Se não sustentar o crescimento, dança; se deixar a inflação aumentar, dança.

Montou-se uma estratégia complexa de desarmar gradativamente a armadilha dos juros altos, em um mundo fundamentalmente instável. Mas não se comunica.

Na crise de 2008, mesmo ainda sob a égide do Banco Central de Henrique Meirelles, o fluxo de informações e de explicações era muito mais abundante do que agora. E foi fundamental para que a lógica da Fazenda se impusesse sobre a ortodoxia desvairada de Meirelles.

Em outras áreas não é muito diferente. A começar da própria presidência da República.

Foi importante o artigo da Maria Inês instando a presidente a fazer política. E por tal não se entenda apenas conversar com aliados e ampliar as concessões, mas retomar os contatos com a opinião pública, desobstruir canais.

Não se espere que Dilma repita o estilo Lula, da fala fácil e abundante. Mas há que se descer do andor.

No seu início de governo, apresentou um conjunto relevante de iniciativas que irá florescer no futuro: o novo modelo de gestão, a ênfase no fim da miséria absoluta, a clareza na criação dos quatro macro-temas. Ora, existe uma lógica no seu governo, a parte mais difícil.

Mas não basta o enunciado inicial. Há que se ter o cuidado permanente de manter o discurso vivo e a lógica reafirmada. E, principalmente, de tirar o mais rapidamente possível essa armadura improvável de dama-de-ferro.

COMPREENDER A GUERRA DA LÍBIA.

• Michael Collon (*), que já publicou vários livros sobre as estratégias da guerra dos EUA e da mídia nos conflitos precedentes, apresenta uma análise global do caso líbio, em três partes: I: Perguntas que é preciso colocar em cada guerra; II: Os verdadeiros objetivos dos EUA vão mais além do petróleo; III: Pistas para atuar

• 1ª PARTE: Perguntas que é preciso colocar em cada guerra.

27 vezes. Vinte e sete vezes os EUA bombardearam algum país, desde 1945. E cada vez tem-nos afirmado que estes atos de guerra eram "justos" e "humanitários". Hoje, dizem-nos que esta guerra é diferente das precedentes. O mesmo que foi dito da anterior. E da anterior. E de cada vez. Não estamos já na hora de pôr a preto e branco as perguntas que é preciso colocar em cada guerra para não deixar-se manipular?

HÁ SEMPRE DINHEIRO PARA A GUERRA?

No país mais poderosos do globo, 45 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza. Nos EUA, escolas e serviços públicos estão ruindo porque o Estado "não tem dinheiro". Na Europa, também acontece o mesmo, "não há dinheiro" para as pensões ou para a promoção do emprego.

Porém, quando a cobiça dos banqueiros desencadeia a crise financeira, então, em só uns dias, aparecem bilhões para os salvar. Isto permitiu aos banqueiros dos EUA repartirem no ano passado US$ 140 bilhões de lucros e bônus a seus acionistas e especuladores.

Também para a guerra parece fácil encontrar bilhões. Ora bem, são nossos impostos que pagam estas armas e estas destruições. É razoável converter em fumaça centenas de milhares de euros em cada míssil ou esbanjar cinquenta mil euros por hora de um porta-aviões? Ou será porque a guerra é um bom negócio para alguns? Ao mesmo tempo, uma criança morre de fome a cada cinco segundos e o número de pobres não cessa de aumentar no nosso planeta, apesar de tantas promessas.

Qual a diferença entre um líbio, um bareinita e um palestino? Presidentes, ministros, generais, todos juram solenemente que seu objetivo é unicamente salvar os líbios. Mas, ao mesmo tempo, o sultão do Barein esmaga os manifestantes desarmados, graças aos dois mil soldados sauditas enviados pelos EUA! Ao mesmo tempo, no Iêmen, as tropas do ditador Saleh, aliado dos EUA, matam 52 manifestantes com suas metralhadoras. Estes fatos ninguém os põe em dúvida, mas o ministro dos EUA para a guerra, Robert Gates, acabou de declarar: "Não acho que seja o meu papel intervir nos assuntos internos de Iêmen".(1)

Por que estes dois pesos e duas medidas? Por que Saleh acolhe docilmente a 5ª Frota dos EUA e diz sim a todo o que Washington ordenar? Por que o regime bárbaro da Arabia Saudita é cúmplice das multinacionais petrolíferas? Será que existem "bons ditadores" e "maus ditadores"? Como os EUA e a França podem pretender ser "humanitários"? Quando Israel matou dois mil civis nos bombardeios sobre Gaza, eles declararam uma zona de exclusão aérea? Não. Decretaram alguma sanção? Nenhuma. Ainda pior, Solana, então responsável pelos Assuntos Exteriores da UE declarou em Jerusalém: "Israel é um membro da UE sem ser membro de suas instituições. Israel faz parte ativa de todos os programas de pesquisa e de tecnologia da Europa dos 27". Acrescentando ainda: "Nenhum país fora do continente tem o mesmo tipo de relacionamentos que Israel com a União Européia". Neste ponto, Solana tem razão: A Europa e seus fabricantes de armas colaboram estreitamente com Israel na fabricação de 'drones', mísseis e outros armamentos que semeiam a morte em Gaza.

Recordemos que Israel, que expulsou 700 mil palestinos das suas aldeias, em 1948, se recusa a devolver-lhe seus direitos e continua cometendo inumeráveis crimes de guerra. Sob esta ocupação, 20% da população palestina atual está ou passou pelas prisões israelenses. Mulheres grávidas foram obrigadas a darem à luz atadas ao leito e reenviadas imediatamente às suas celas com os bebês. Esses crimes são cometidos com a cumplicidade dos EUA e da UE.

A vida de um palestino ou de um barenita vale menos do que a de um líbio? Há árabes "bons" e árabes "maus"?

PARA OS QUE AINDA ACREDITAM NA GUERRA HUMANITÁRIA...

Em um debate televisionado que tive com Louis Michel, ex-ministro belga dos Assuntos Exteriores e Comissário Europeu para a Cooperação e o Desenvolvimento, este me jurou, com a mão no peito, que esta guerra tinha como objetivo "pôr de acordo as consciências da Europa". Era apoiado por Isabelle Durant, líder dos Verdes belgas e europeus. Dessa forma, os ecologistas ("peace and love") viraram belicistas!

O problema é que a cada vez mais nos falam de guerra humanitária e que gente de esquerda como Durant se deixa enganar. Não fariam melhor em ler o que pensam os verdadeiros líderes dos EUA em vez de olharem e assistirem a TV? Escutem, por exemplo, a propósito dos bombardeios contra o Iraque, o célebre Alan Greenspan, durante muito tempo diretor da Reserva Federal dos EUA. Greenspan escreve em suas memórias: "Sinto-me triste quando vejo que é politicamente incorreto reconhecer o que todo mundo sabe: a guerra no Iraque foi exclusivamente pelo petróleo" (2). E acrescenta: "Os oficiais da Casa Branca responderam-me: ‘pois, efetivamente, infelizmente não podemos falar de petróleo’". (3)

A propósito dos bombardeios sobre a Jugoslávia escutem John Norris, diretor de Comunicações de Strobe Talbot que, nesse então, era vice-ministro dos EUA dos Assuntos Exteriores encarregado para os Bálcãs. Norris escreve em suas memórias: "O que melhor explica a guerra da OTAN é que a Jugoslávia se resistia às grandes tendências de reformas políticas e econômicas (quer dizer: negava-se a abrir mão do socialismo), e esse não era nosso compromisso com os albaneses do Kosovo". (4)

Escutem, a propósito dos bombardeios contra o Afeganistão, o que dizia o antigo ministro de Assuntos Exteriores, Henri Kissinger: "Há tendências, sustentadas pela China e pelo Japão, de criar uma zona de livre-câmbio na Ásia. Um bloco asiático hostil, que combine as nações mais povoadas do mundo com grandes recursos e alguns dos países industrializados mais importantes, seria incompatível com o interesse nacional americano. Por estas razões, a América deve manter a sua presença na Ásia..." (5)

O que vinha a confirmar a estratégia avançada por Zbigniew Brzezinski, que foi responsável pela política exterior com Carter e é o inspirador de Obama: "Eurasia (Europa+Ásia) é o tabuleiro sobre o qual se desenvolve o combate pela primacia global. (?) A maneira como os EUA "manejam" a Eurasia é de uma importância crucial. O maior continente da superfície da terra é também seu eixo geopolítico. A potência que o controlar, controlará de fato duas das três grandes regiões mais desenvolvidas e mais produtivas: 75% da população mundial, a maior parte das riquezas físicas, sob a forma de empresas ou de jazidas de matérias-primas, 60% do total mundial". (6)

Nada aprendeu a esquerda das falsidades humanitárias transmitidas pela mídia nas guerras precedentes? Quando o próprio Obama falou, tampouco acreditaram nele? Neste mesmo 28 de março, Obama justificava assim a guerra da Líbia: "Conscientes dos riscos e das despesas da atividade militar, somos naturalmente reticentes a empregar a força para resolver os numerosos desafios do mundo. Mas quando os nossos interesses e valores estão em jogo, temos a responsabilidade de agir. Vistos os custos e riscos da intervenção, temos que calcular, a cada vez, nossos interesses ante a necessidade de uma ação. A América tem um grande interesse estratégico em impedir que Kadafi derrote a oposição".

Não está claro? Então alguns vão e dizem: "Sim, é verdade, os EUA não reagem se não virem nisso o seu interesse. Mas ao menos, já que não pode intervir em todos os sítios, salvará àquela gente" Falso. Vamos demonstrar que são unicamente seus interesses os que procura defender. Não os valores. Em primeiro lugar, cada guerra dos EUA produz mais vítimas do que a anterior (um milhão no Iraque, diretas ou indiretas). A intervenção na Líbia, prepara-se para produzir mais...

QUEM SE NEGA A NEGOCIAR?

Desde o momento em que colocarem uma dúvida sobre a oportunidade desta guerra contra a Líbia, imediatamente serão culpados: "então recusam-se a salvar os líbios do massacre? Assunto mal proposto. Suponhamos que todo o que se nos tem contado fosse verdade. Em primeiro lugar, pode-se parar um massacre com outro massacre? Já sabemos que nossos exércitos ao bombardearem vão matar muitos civis inocentes. Inclusive se, como a cada guerra, os generais nos prometem que vai ser "limpa"; já estamos habituados a essa propaganda.

Em segundo lugar, há um meio bem mais singelo e eficaz de salvar vidas. Todos os países da América latina propuseram enviar imediatamente uma mediação presidida por Lula. A Liga Árabe e a União Africana apoiavam esta gestão e Kadafi tinha-a aceitado (propondo ele também que fossem enviados observadores internacionais para verificar o cessar-fogo). Mas os insurgentes líbios e os ocidentais recusaram esta mediação.

Por quê? "Porque Kadafi não é de fiar", dizem. É possível. E os insurgentes e os seus protetores ocidentais são sempre de fiar? A propósito dos EUA, convém recordar como se comportaram em todas as guerras anteriores, cada vez que um cessar-fogo era possível. Em 1991, quando Bush pai atacou o Iraque, porque este invadia o Kuweit, Saddam Hussein propôs se retirar e que Israel se retirasse também dos territórios ilegalmente ocupados na Palestina. Mas os EUA e os países europeus recusaram seis propostas de negociação. (7)

Em 1999, quando Clinton bombardeou a Jugoslávia, Milosevic aceitava as condições impostas em Rambouillet, mas os EUA e a OTAN acrescentaram uma, intencionadamente inaceitável: a ocupação total da Sérvia.

Em 2001, quando Bush filho atacou o Afeganistão, os talibãs propunham a entrega de Bin Laden a um tribunal internacional se eram apresentadas provas do seu envolvimento, mas Bush rejeitou a negociação.

Em 2003, quando Bush filho atacou o Iraque, sob o pretexto das armas de destruição em massa, Saddam Hussein propôs o envio de inspetores, mas Bush o recusou porque ele sabia que os inspetores não iam encontrar nada. Isto está confirmado na divulgação de um memorando de uma reunião entre o governo britânico e os líderes dos serviços secretos britânicos, em julho de 2002: "os líderes britânicos esperavam que o ultimato fosse redigido em termos inaceitáveis, de modo que Saddam Hussein o recusasse diretamente. Mas não estavam certos de que isso iria funcionar.

Então tinham um plano B: que os aviões que patrulhavam a "zona de exclusão aérea" lançassem muitíssimas mais bombas à espera de uma reação que desse a desculpa para uma ampla campanha de bombardeios. (9) Então, antes de afirmar que "nós" dizemos sempre a verdade e que "eles" sempre mentem, asssim como que "nós" procuramos sempre uma solução pacífica e "eles" não querem se comprometer, teria que ser mais prudentes... Mais cedo ou mais tarde, a gente saberá o que se passou com as negociações nos bastidores e constatará, mais uma vez, que foi manipulada. Mas será muito tarde e os mortos já não os ressuscitaremos.

A LÍBIA É IGUAL QUE A TUNÍSIA OU O EGITO?

Em sua excelente entrevista publicada há alguns dias por Investi'Action, Mohamed Hassan, professor de doutrina islâmica e especialista do Oriente Médio, colocava a verdadeira questão: "Líbia: levante popular, guerra civil ou agressão militar?" À luz de recentes investigações é possível responder: as três coisas. Uma revolta espontânea rapidamente recuperada e transformada em guerra civil (que já estava preparada), tudo servindo de pretexto para uma agressão militar. A qual, também, estava preparada. Nada em política cai do céu. Consigo explicar-me?

Na Tunísia e no Egito a revolta popular cresceu progressivamente em umas semanas, organizando-se pouco a pouco e unificando-se em reivindicações claras, o que permitiu derrotar os tiranos. Mas, quando analisamos a sucessão ultrarrápida dos acontecimentos em Benghazi, a gente fica intrigada. Em 15 de fevereiro houve manifestações de parentes de presos políticos da revolta de 2006.

Manifestação duramente reprimida como foi sempre na Líbia e nos demais países árabes. Dois dias escassos mais tarde, outra manifestação, desta vez os manifestantes saem armados e passam diretamente a uma escalada contra o regime de Kadafi. Em dois dias, incrivelmente, uma revolta popular se converte em guerra civil. Totalmente espontânea?

Para saber isso, é preciso examinar o que se oculta abaixo do impreciso vocábulo "oposição líbia". Em minha opinião, quatro componentes com interesses muito diferentes : 1º Uma oposição democrática. 2º Dirigentes de Kadafi "regressados" do oeste. 3º Clãs líbios descontentes da partilha das riquezas. 4º Combatentes de tendência islãmica. Quem compõe esta "oposição líbia"?

Em toda esta rede é importante sabermos de que estamos a falar. E sobretudo, que fação é a aceite pelas grandes potências...

1º Oposição democrática. É legítimo ter reivindicações ante o regime de Kadafi, tão ditatorial e corrupto como os outros regimes árabes. Um povo tem o direito de querer substituir um regime autoritário por um sistema mais democrático. No entanto, estas reivindicações estão até hoje pouco organizadas e sem programa concreto. Temos, ainda, no estrangeiro, movimentos revolucionários líbios, igualmente dispersos, mas todos opostos à ingerência estrangeira. Por diversas razões que expomos mais adiante, não são estes elementos democráticos os que têm muito que dizer hoje, sob a bandeira dos EUA nem da França.

2º Dignatários "regressados". Em Bengazhi, um "governo provisório" foi instaurado e está dirigido por Mustafá Abud Jalil. Este homem era, até 21 de fevereiro, ministro da Justiça de Kadafi. Dois meses antes, a Anistia Internacional tinha-o posto na lista dos mais horríveis responsáveis por violações de direitos humanos do norte da África. É este indivíduo o que, segundo as autoridades búlgaras, organizava as torturas de enfermeiras búlgaras e do médico palestino detidos durante longo tempo pelo regime.

Outro "homem forte" desta oposição é o general Abdul Faah Yunis, ex-ministro do Interior de Kadafi e antes chefe da polícia política. Compreende-se que Massimo Introvigne, representante da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa) para a luta contra o racismo, a xenofobia e a discriminação, estime que estes personagens "não são os 'sinceros democratas' dos discursos de Obama, mas foram dos piores instrumentos do regime de Kadafi, que aspiram a tirar o coronel para tomar seu lugar".

3º Clãs descontentes. Como sublinhava Mohamed Hassan, a estrutura da Líbia continua sendo tribal. Durante o período colonial, sob o regime do rei Idriss, os clãs do Leste dominavam e aproveitavam-se das riquezas petrolíferas. Após a revolução de 1969, Kadafi apoiou-se nas tribos do oeste e o Leste viu-se desfavorecido. É lamentável; um poder democrático e justo deve zelar por eliminar as discriminações entre as regiões. Pode-se perguntar se as antigas potências coloniais não incitaram as tribos rebeldes para enfraquecer a unidade do país. Não seria a primeira vez. Hoje, França e os EUA apostam nos clãs do Leste para tomar o controle do país. Dividir para reinar, um velho dito clássico do colonialismo.

4° Elementos da Al-Qaeda. Cabogramas difundidos pelo Wikileaks advertem que o Leste da Líbia era, proporcionalmente, o primeiro exportador no mundo de "combatentes mártires" no Iraque. Relatórios do Pentágono descrevem um cenário "alarmante" acerca dos rebeldes líbios de Bengazhi e Derna. Derna, uma cidade de escassos 80.000 habitantes, seria a fonte principal de yihaidistas no Iraque. Da mesma forma, Vincent Cannistrar, antigo chefe da CIA na Líbia, assinala entre os rebeldes muitos "extremistas islâmicos capazes de criar problemas" e que "as possibilidades [são] muito altas de que os indivíduos mais perigosos possam ter uma influência, caso Kadafi cair".

Evidentemente tudo isto se escrevia quando Kadafi era ainda um "amigo". Mas isto mostra a ausência total de princípios no chefe dos EUA e dos seus aliados. Quando Kadafi reprimiu a revolta islamista de Bengazhi, em 2006, fez isso com as armas e o apoio de Ocidente. Uma vez, somos contra os combatentes do tipo Bin Laden, outra vez, utilizamo-los. Vamos lá ver como.

Entre estas diversas "oposições" qual prevalecerá? Pode ser este também um objetivo da intervenção militar de Washington, Paris e Londres: tentar que "os bons" ganhem? Os bons do ponto de vista deles, é claro. Mais tarde, vai utilizar-se a "ameaça islâmica" como pretexto para se instalarem de forma permanente. Em qualquer caso uma coisa é segura: o cenário libio é diferente dos cenários tunisino ou egípcio. Ali era "um povo unido contra um tirano". Aqui estamos em uma guerra civil, com um Kadafi que conta com o apoio de uma parte da população. E nesta guerra civil o papel que jogaram os serviços secretos americanos e franceses já não é tão secreto...

Qual foi o papel dos serviços secretos?

Na realidade, o assunto líbio não começou em fevereiro em Benghazi, mas sim em Paris, em 21 de outubro de 2010. Segundo revelações do jornalista Franco Bechis (Libero, 24 de março), nesse dia, os serviços secretos franceses prepararam a revolta de Benghazi. Fizeram "voltar" (ou talvez já anteriormente) Nuri Mesmari, chefe do protocolo de Kadafi, praticamente seu braço direito. O único que entrava sem chamar na residência do líder líbio. Em uma viagem a Paris com toda sua família para uma cirurgia, Mesmari não se encontrou com nenhum médico, pelo conttrário, teve encontros com vários servidores públicos dos serviços secretos franceses e com próximos colaboradores de Sarkozy, segundo o boletim digital Magreb Confidential.

Em 16 de novembro, no hotel Concorde Lafayette, prepararia uma imponente delegação que devia viajar dois dias mais tarde a Benghazi. Oficialmente, tratava-se de responsáveis pelo ministério da Agricultura e de líderes das firmas France Export Céréales, France Agrimer, Louis Dreyfus, Glencore, Cargill e Conagra. Mas, segundo os serviços italianos, a delegação incluía também vários militares franceses camuflados como homens de negócios. Em Benghazi, encontraram-se com Abdallah Gehani, um coronel líbio ao que Mesmari lhes tinha apresentado como disposto a desertar.

Em meados de dezembro, Kadafi, desconfiando, enviou um emissário a Paris para tentar contactar com Mesmari. Mas este foi preso na França. Outros líbios vão de visita a Paris no dia 23 de dezembro e são eles que vão dirigir a revolta de Benghazi com as milícias do coronel Gehani. Ainda, Mesmari revelou inúmeros segredos da defesa líbia. De tudo isto resulta que a revolta no Leste não foi tão espontânea como nos foi dito. Mas isto não é tudo. Não só foram os franceses?

Quem dirige atualmente as operações militares do "Conselho Nacional Líbio" anti-Kadafi? Um homem justamente chegado dos EUA, em 14 de março, segundo Al-Jazzira. Apresentado como uma das duas "estrelas" da insurreição líbia, pelo jornal britânico de direita, Dail Mail, Khalifa Hifter é um antigo coronel do exército líbio exilado nos EUA. Foi um dos principais comandantes da Líbia até a desastrosa expedição ao Chade, no final dos 80; emigrou imediatamente para os EUA e viveu os últimos vinte anos na Virgínia. Sem nenhuma fonte de rendimentos conhecida, mas a muito pouca distância dos escritórios... da CIA (10). O mundo é um muito pequeno.

Como é que um militar líbio de alta patente pode entrar com toda a tranquilidade nos EUA, uns anos após o atentado terrorista de Lockerbie, pelo qual a Líbia foi condenada, e viver durante vinte anos, tranquilamente, ao lado da CIA? Por força teve que oferecer algo em troca.

Publicado em 2001, o livro Manipulations africaines (Manipulações africanas) de Pierre Péan, traça as conexões de Hifter com a CIA e a criação, com o apoio da mesma, da Frente Nacional de Libertação Líbia. A única façanha da tal frente será a organização, em 2007, nos EUA, de um "congresso nacional" financiado pelo National Endowment for Democracy(11), tradicionalmente o mediador da CIA para manter lubrificadas as organizações a serviço dos EUA.

Em março deste ano, em data não comunicada, o presidente Obama assinou uma ordem secreta que autoriza a CIA a empreender operações na Líbia, para derrocar Kadafi. O The Wall Street Journal, que informa disso, em 31 de março, acrescenta: "Os responsáveis pela CIA reconhecem ter estado ativos na Líbia desde fazia várias semanas, tal como outros serviços secretos ocidentais".

Tudo isto já não é muito secreto, circula pela Internet faz algum tempo; o que é estranho é que a grande mídia não diga nem uma palavra. No entanto, conhecem-se muitos exemplos de "combatentes da liberdade" armados deste modo e financiados pela CIA. Por exemplo, nos anos 80, as milícias terroristas da ‘contra’, organizadas por Reagan para desestabilizarem a Nicarágua e derrocarem seu governo progressista. Nada se aprendeu da História? Esta "Esquerda" européia que aplaude os bombardeios não utiliza a Internet?

Terá que se estranhar de que os serviços secretos italianos "delatem" assim as façanhas dos seus colegas franceses e que estes "delatem" seus colegas americanos? Isso só é possível se acreditarmos em histórias bonitas sobre a amizade entre "aliados ocidentais" Já falaremos... (Extraído do Investig’Action)

Notas:

1- Reuters, 22/3.

2- Sunday Times, 16 setembro 2007.

3- Washington Post, 17 setembro 2007.

4- Collision Course, Praeger, 2005, p.xiii.

5- Does America need a foreign policy, Simon and Schuster, 2001, p. 111.

6- Le Grand Echiquier, Paris 1997, p. 59-61

7- Michel Collon, Attention, médias Bruxelles, 1992, p. 92.

8- Michel Collon, Monopoly, - L’Otan á la conquête du monde, Bruxelles 2000, page 38.

9- Michael Smith, La véritable information des mémos de Downing Street, Los Angeles Times, 23 jun 2005.

10- McClatchy Newspapers (USA), 27 mars.

11- Eva Golinger, Code Chavez, CIA contra Venezuela, Liége, 2006.

(*) Jornalista, escritor e historiador belga •

FUTEBOL - Confederação Sindical Internacional critica Copa no Qatar.

A Confederação Sindical Internacional (CSI) lança hoje um relatório com críticas ao governo do Qatar pelas condições de trabalho existentes no país. O Qatar planeja gastar dezenas de bilhões de dólares na construção de estádios, hotéis e infraestrutura para sediar a Copa do Mundo de 2022.

A notícia é do jornal Valor, 01-06-2011.

Estima-se que até um milhão de estrangeiros irão para o país em busca de trabalho nas obras a Copa. "As condições para trabalhadores migrantes no Oriente Médio são inaceitáveis", afirma Sharan Burrow, secretária-geral da organização sediada em Viena. O documento da CSI expressa a preocupação de que os operários possam "ser vítimas de agências buscando dinheiro fácil com o recrutamento da Copa do Mundo".

O relatório da CSI cita como problemas no Qatar a proibição à existência de sindicatos e ao direito de greve do migrante, alojamentos precários e leis que dificultam aos trabalhadores mudar ou desistir de empregos. "A economia nacional é totalmente dependente da exploração intensa de mão de obra migrante, que trabalha em condições análogas à escravidão", diz Ambet Yuson, secretário-geral da Internacional dos Trabalhadores da Construção e Madeira (ICM).
Fonte: IHU