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sábado, 26 de novembro de 2016

POLÍTICA - A noite em que Fidel cansou de dar autógrafos.

A noite em que Fidel cansou de dar autógrafos.


"Chega! Estão pensando que eu sou o Marlon Brando?"
Tem cenas que a gente não esquece por mais que corra o tempo.
Setembro de 1981, tempos de Guerra Fria, quando o Brasil ainda não havia reatado relações diplomáticas com Cuba e era proibido viajar para lá com passaporte brasileiro.
Na primeira das muitas viagens que fiz a Cuba a trabalho ou a passeio, fui testemunha de um episódio pitoresco na recepção oferecida por Fidel Castro, no Palácio da Revolução, aos visitantes estrangeiros convidados para o Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América, uma iniciativa de Gabriel García Márquez.
Lembro-me que eu estava quase no final de uma longa fila de cumprimentos ao "Comandante", como todos o chamavam, quando tive a ideia. De bloco de repórter e caneta na mão, enquanto esperava minha vez, achei que podia ser a hora de pedir um autógrafo a Fidel em carne e osso para poder provar a todo mundo na volta que eu estive lá.
O que poderia acontecer? No máximo, pensar que eu era maluco e passar para o próximo da fila, mas Fidel achou engraçado meu pedido de autógrafo, algo a que não estava habituado nas reverentes cerimonias oficiais na ilha. Para não ficar chato, disse que era para uma grande admiradora dele, a minha mulher. E o comandante, sem pressa, caprichou na dedicatória.
Os que estavam depois de mim na fila gostaram da ideia e também pediram a sua assinatura em qualquer papel que pudessem achar para guardar de lembrança. Para todos ali, o revolucionário Fidel era uma lenda viva e não queriam perder esta rara oportunidade.
De repente, formou-se uma roda em volta dele como se o comandante de Sierra Maestra fosse um artista pop, quebrando todas as regras do cerimonial, e ele se tocou que era hora de acabar com aquele oba-oba. Abriu os braços, como se estivesse dando uma bronca, dando por finda a inesperada noite de autógrafos.
"Chega! Estão pensando que eu sou o Marlon Brando?".
Um ajudante de ordens abriu caminho e levou-o para uma sala reservada onde ele queria conversar com algumas pessoas longe do bochicho. Em seguida, mandou chamar meu amigo Frei Betto, um dos integrantes da comitiva brasileira, que no domingo anterior tinha pedido para assistir à missa numa igreja, outro pedido inusitado em Cuba.
Eu tinha ido à igreja junto com ele e, por conta disso, outros membros da comitiva, ligados ao velho Partidão, passaram a nos chamar de "papa hóstia", tirando um sarro da gente. Onde já se viu pedir para ir à missa em Havana?
Resolvi ir à forra quando me perguntavam se eu sabia onde estava o Frei Betto, que demorava para voltar ao salão de recepções. Achavam que era brincadeira quando eu respondia que ele estava numa conversa com Fidel.
Deve ter sido ali que começou o longo trabalho do frade dominicano na reaproximação da Igreja Católica com o governo cubano, que resultou no livro "Fidel e a Religião". Os dois ficaram velhos amigos naquele dia.
E o resto agora é história.
Vida que segue.

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