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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

POLÍTICA - Barbárie e desalento generalizados.

Barbárie e desalento generalizados já são as marcas de 2017 no Brasil





Bar­bárie e des­ca­labro ge­ne­ra­li­zados são duas pa­la­vras que podem de­finir o Brasil deste breve 2017. Mal co­me­çado o ano, uma luta fra­tri­cida entre fac­ções do trá­fico, em nome do con­trole de um mer­cado que se ex­pande pelo con­ti­nente, matou mais de uma cen­tena de presos em dis­tintos pre­sí­dios. Nesta se­mana, um motim por me­lhores sa­lá­rios e con­di­ções dos po­li­ciais mi­li­tares faz do Es­pí­rito Santo (e talvez o RJ a partir desta sexta) au­tên­tica terra de nin­guém. Em meio a isso, um go­verno in­capaz de apre­sentar so­lução para este e qual­quer outro pro­blema que es­teja na ordem do dia. Sobre um quadro de de­vas­tação so­cial sem data pra acabar, con­ver­samos com Ar­mando Tam­belli, 25 anos de ex­pe­ri­ência na Pas­toral Car­ce­rária.

“(O uso das forças ar­madas) Vale pon­tu­al­mente, mas como po­lí­tica de se­gu­rança não produz qual­quer efeito. Per­tence a um âm­bito bem bra­si­leiro de ideias ul­tra­pas­sadas que ainda ad­vogam que a ex­po­sição de ‘mús­culos’ é re­curso de con­tenção. Uma parte do crime também pensa assim, tanto que também os­tenta suas armas. Assim que “a pa­trulha passa” a po­pu­lação é lem­brada de que logo tudo volta ao ‘normal’. Por­tanto, é o povo que sofre múl­ti­plas in­ti­mi­da­ções: crime, exér­cito, po­lí­cias, crime...”, ana­lisou.

Ade­mais, Ar­mando, também pro­fessor e ad­vo­gado, res­salta que a eco­nomia da con­tra­venção e o crime or­ga­ni­zado vão muito além dos grupos que co­mandam o nar­co­trá­fico, cuja cri­mi­na­li­dade se des­taca ba­si­ca­mente pela san­gui­no­lência acima da média. “É im­por­tante res­saltar que PCC e que­jandos as­sustam mais pela bru­ta­li­dade do que pela efi­cácia dos seus ne­gó­cios. É muita mídia para um vo­lume de vi­o­lência que chama atenção, mas não mo­vi­menta 10% ou 20% do que mo­vi­menta uma - e só uma - grande fraude no campo fiscal, por exemplo”, pon­derou.

Para apro­fundar o de­bate desta tre­menda crise so­cial, Ar­mando cri­tica de forma im­pla­cável toda a ca­deia de poder, desde os go­vernos e au­to­ri­dades es­ta­duais e mu­ni­ci­pais até as es­tru­turas cen­trais, e não perdoa o Ju­di­ciário bra­si­leiro, a seu ver com­ple­ta­mente inepto e agora ri­di­cu­la­ri­zado com a no­me­ação de Ale­xandre de Mo­rais para o STF. Pra com­pletar, atribui um enorme papel aos mo­no­pó­lios da mídia.

“As grandes mí­dias e suas fa­mí­lias con­tro­la­doras da opi­nião que ali­mentam ainda muito da in­for­mação de boa parte da po­pu­lação são de uma ca­na­lhice des­con­cer­tante. São uma grande qua­drilha que opera de forma or­ga­ni­zada em todo o país em nome de seus in­te­resses. Não há como con­frontá-la por en­quanto. Há que se cons­truir uma nar­ra­tiva pa­ra­lela e avançar na forma de se co­mu­nicar com a po­pu­lação”, des­tacou.

“Não verás país ne­nhum”, fa­moso tí­tulo li­te­rário, seria uma boa forma de clas­si­ficar a si­tu­ação bra­si­leira de acordo com a aná­lise que se segue. Leia a ín­tegra abaixo.

Cor­reio da Ci­da­dania: O ano co­meçou com uma vi­o­lenta crise car­ce­rária que sim­bo­lizou as dis­putas econô­micas das fac­ções do nar­co­trá­fico e matou mais de 100 pes­soas. Agora, o Brasil de­para com a crise do ES, que es­tourou após a greve, mesmo in­formal, dos po­li­ciais mi­li­tares. A que se de­veria todo esse quadro em sua visão?

Ar­mando Tam­belli: O pas­sivo his­tó­rico e so­cial em ma­téria de se­gu­rança pú­blica e po­lí­tica pe­ni­ten­ciária, no caso bra­si­leiro, con­si­de­rando onde es­taria a gê­nese do des­ca­labro, seria muito di­fícil de exa­minar aqui.

Para fa­ci­litar po­demos lo­ca­lizar a dé­cada de 1980 do sé­culo 20 como a re­fe­rência de aná­lise, prin­ci­pal­mente por ser a época da cri­ação dos fortes grupos do crime li­gados ao trá­fico de drogas, mas não só. Não se fala aqui apenas do CV ou PCC, que são re­sul­tado de uma si­tu­ação an­te­rior e as­su­miram a forma de hoje na dé­cada de 1990. Seus pre­de­ces­sores não se pre­o­cu­param com si­glas (as si­glas são cri­ação das ca­deias que abri­garam as ge­ra­ções se­guintes aos grupos que se or­ga­ni­zaram na dé­cada de 1980).

Aqueles pri­meiros grupos im­plan­taram o aten­di­mento em es­cala mas­siva dos usuá­rios. Lem­bramos que o nú­mero de con­su­mi­dores au­mentou por mo­tivos va­ri­ados, sendo um dos prin­ci­pais a ex­plosão ur­bana bra­si­leira no sé­culo 20. Nestes termos, a so­bre­vi­vência do mer­cado das drogas se deveu a uma das má­ximas econô­micas: a lei da oferta e da pro­cura. Se nas dé­cadas de 1960 e 1970 as drogas eram ba­si­ca­mente de uso re­cre­a­tivo ou res­trito a certos grupos, sua ex­pansão tornou-se atra­tiva como ne­gócio. 

Ou­tras formas de crime também ga­nharam em so­fis­ti­cação, com graus va­ri­ados de au­dácia e pe­rigos para seus exe­cu­tores: roubo de carga nos en­tre­postos, nas es­tradas e portos, com roubo e furto de me­di­ca­mentos, ele­tro­e­le­trô­nicos, ci­garros, ali­mentos etc.; roubo a bancos, carros fortes e va­lores, atu­al­mente de jo­a­lhe­rias; furto e roubo de au­to­mó­veis com os des­man­ches e au­to­peças frias e uma rede de “es­quen­ta­dores” e en­tre­ga­dores de en­co­mendas; pi­ra­tagem de todo tipo; con­tra­bando de toda e qual­quer mer­ca­doria que se possa ima­ginar, prin­ci­pal­mente armas – a lista seria in­fin­dável.

E, ainda, redes de ali­ci­a­mento e pros­ti­tuição com casas de di­versão, mo­téis, books e sis­tema de­li­very. Sem falar nas qua­dri­lhas de todo tipo, desde fal­si­fi­cação em geral, de di­nheiro e do­cu­mentos, até frau­da­dores do INSS e todos os qua­dri­lheiros de co­la­rinho branco, ges­tores de caixa dois, do­leiros, co­bra­dores de pro­pina, ad­mi­nis­tra­dores de pe­quenas e grandes van­ta­gens em con­tratos pú­blicos dos dois lados do balcão etc. Má­quinas e casas de jogos de todo tipo, mesas de pô­quer, que são proi­bidas, mas estão es­pa­lhadas por todo o país... As “ca­deias pro­du­tivas” do crime são imensas.

Fi­camos muitas vezes apenas na su­per­fície do pro­blema e na vi­o­lência vi­sível. Há um con­tato muito maior do que ima­gi­namos, entre a eco­nomia formal e a eco­nomia do crime. O ci­dadão comum uti­liza-se de ca­mi­nhos “es­quen­ta­dores” de di­nheiro do crime em si­tu­a­ções em que nem ima­gina, tais como: ônibus, es­ta­ci­o­na­mento, bares, casas de shows, res­tau­rantes, ca­be­lei­reiro, mer­cado, ma­te­rial de cons­trução, água, gás, lojas, ofi­cinas, enfim, em cen­tenas de es­ta­be­le­ci­mentos acima de qual­quer sus­peita. O caixa dois das em­presas e do mer­cado fi­nan­ceiro em pa­ra­lelo com o caixa do trá­fico inunda também o co­mércio, prin­ci­pal­mente de carros de luxo, lojas de grife e joias; o ramo imo­bi­liário etc.

Não é pos­sível es­timar a quan­ti­dade de pes­soas que tra­ba­lham para o crime leve ou grave, formal e in­for­mal­mente, di­reta ou in­di­re­ta­mente, sa­bendo ou não fa­zendo a mí­nima ideia. To­memos o caso de uma prá­tica con­tra­ven­ci­onal e em muitos casos cri­mi­nosa em sua luta para a ma­nu­tenção do poder: o Jogo do Bicho. Na ci­dade de São Paulo, a mai­oria dos bares em todos os bairros, ricos e po­bres, tem ban­quinha do jogo com ma­qui­ninha para cartão! O banco dessa conta se faz de bobo? Como se dá o acerto entre os donos dos bares e os bi­cheiros? Qual o acerto com a po­lícia? A ilustre fre­guesa que toma um café e bebe uma água sabe do que se trata aquela me­nina li­xando as unhas sen­tada na porta do bar?

Cor­reio da Ci­da­dania: Vocês nunca fi­zeram uma es­ti­ma­tiva de quantas pes­soas tra­ba­lham para o jogo ou quantas fa­mí­lias são sus­ten­tadas por esta ati­vi­dade?

Ar­mando Tam­belli: Isso pode pa­recer uma bes­teira, mas não é! Mostra apenas que já não há mais fron­teira entre o crime e não crime em múl­ti­plas si­tu­a­ções.

Nas ca­deias, estão os que deram azar de serem presos, por va­ri­ados mo­tivos. De dentro da prisão mi­me­tizam o mundo ex­te­rior e o pró­prio mundo do crime. Ou seja: o mais es­tri­dente e mais vi­sível é o preso e presa li­gado ao trá­fico de drogas. Eles são a linha de frente da ca­deia. Os ou­tros presos e presas em geral são “pés ra­pados”, presos sin­gu­lares de crimes que não per­tencem ao rol dos grandes grupos cri­mi­nosos. Estes ge­ral­mente não vão presos, gastam muito em pro­teção, acertos, se­gu­rança e ad­vo­gados. Quando vão presos, são exem­plares e co­mandam com dis­crição.

Assim sendo, boa parte da vi­o­lência que as­sis­timos tem re­lação com as con­cep­ções de en­car­ce­ra­mento que são in­viá­veis – o ju­di­ciário está des­con­tro­lado – e não ofe­recem as mí­nimas con­di­ções de re­forma do sis­tema, que sim­ples­mente de­veria deixar de existir en­quanto tal.

Re­la­ciona-se também o grau de hi­po­crisia e da dupla moral sobre quem é cri­mi­noso e quem não é: o rapaz ou a me­nina com 20 trou­xi­nhas é cri­mi­noso, a me­nina ou o rapaz com­ple­ta­mente em­bri­a­gado que atro­pela, mata e foge, não é; com­prar in­gresso do cam­bista que su­bornou o caixa é “normal”, com­prar um Iphone de pro­ce­dência du­vi­dosa de um mo­leque faz do mo­leque re­cep­tador, mas do com­prador não. Pode pa­recer bes­teira, mas o sis­tema está cheio de re­cep­ta­dores e de pe­quenos “tra­fi­cantes”.

Por fim, a vi­o­lência tem re­lação com PCC, CV, Fa­mília do Norte etc.? Sim, mas não acon­tece apenas por que existem essas fac­ções e elas estão bus­cando for­ta­lecer suas po­si­ções. Acon­tece porque são presos po­bres que têm a chance de sair da sua in­sig­ni­fi­cância, da sua di­fi­cul­dade desde sempre em ser ou­vido, e mandar re­cado para “os ba­canas” e os ou­tros presos: “aqui há uma moral! A nossa!”

Cor­reio da Ci­da­dania: Como ana­lisa a re­ação das au­to­ri­dades go­ver­na­men­tais, de di­versas es­feras, a essa onda de vi­o­lência?

Ar­mando Tam­belli: Infe­liz­mente, no caso de Ma­naus, Boa Vista e no Rio Grande do Norte a es­pe­rada: inepta, lenta, de­ma­gó­gica... Em Ma­naus a si­tu­ação era clara, o ad­mi­nis­trador tinha de ser su­ma­ri­a­mente sus­penso da par­ceria, aliás, to­cada por uma em­presa sus­pei­tís­sima; o se­cre­tário res­pon­sável de­veria ser su­ma­ri­a­mente de­mi­tido, o go­ver­nador de­veria ser con­vo­cado à As­sem­bleia para se ex­plicar e ir a Bra­sília; todas as pes­soas com algum nível de res­pon­sa­bi­li­dade na si­tu­ação de­ve­riam so­frer sin­di­cância e assim por di­ante. Mas, no Brasil do mo­mento em que vi­vemos, é im­pen­sável qual­quer me­dida se­me­lhante. O jogo de em­purra foi de­pri­mente.

O ju­di­ciário e o STF foram ri­di­cu­la­mente re­pre­sen­tados pela sua pre­si­dente. Vai até lá e propõe fazer mu­tirão para ver se tem preso que já cum­priu pena. É ri­sível! O Mi­nis­tério Pú­blico Es­ta­dual e Mi­nis­tério Pú­blico Fe­deral e, es­pe­ci­al­mente, seu prin­cipal órgão, o Con­selho Na­ci­onal do MP, fingiu que não era com ele! Só in­te­ressa a Lava Jato.

O mi­nistro da Jus­tiça foi um caso à parte. Com o cur­rí­culo que tem, era de se es­perar o que acon­teceu: nada! Men­ti­roso, en­rolão, sa­bo­nete...

A Se­cre­tária Na­ci­onal de Di­reitos Hu­manos, pessoa que deixa al­guém que co­nhece sua tra­je­tória in­tri­gado sobre o porquê de ter acei­tado este cargo neste go­verno, sim­ples­mente abs­teve-se de qual­quer po­sição como res­pon­sável pela pasta.

Fi­nal­mente, aquele que se diz pre­si­dente da Re­pú­blica: sem co­men­tá­rios! Não é um es­ta­dista! Go­verna através de pe­quenos opor­tu­nismos, o que pode ser ve­ri­fi­cado pelas suas con­si­de­ra­ções ini­ciais de que foi um “aci­dente”. Dada a re­ação, mudou o dis­curso. É um go­ver­nante pífio e pu­si­lâ­nime. Não tem um plano de go­verno, que dirá um plano para pri­sões!

Cor­reio da Ci­da­dania: O que pensa do rei­te­rado uso das forças ar­madas para conter as crises, seja nos pre­sí­dios, seja nas ruas, como no caso ca­pi­xaba?

Ar­mando Tam­belli: Inócuo! Tem um papel in­ti­mi­da­tório sobre a po­pu­lação em geral, mas é ine­ficaz contra o crime. Vale pon­tu­al­mente, mas como po­lí­tica de se­gu­rança não produz qual­quer efeito. Per­tence a um âm­bito bem bra­si­leiro de ideias ul­tra­pas­sadas que ainda ad­vogam que a ex­po­sição de “mús­culos” é re­curso de con­tenção. Uma parte do crime também pensa assim, tanto que também os­tenta suas armas. Assim que “a pa­trulha passa” a po­pu­lação é lem­brada de que logo tudo volta ao “normal”. Por­tanto, é o povo que sofre múl­ti­plas in­ti­mi­da­ções: crime, exér­cito, po­lí­cias, crime...

Cor­reio da Ci­da­dania: O que você co­menta sobre Ale­xandre Mo­rais e sua tra­je­tória re­cente, de mi­nistro da Jus­tiça e agora do STF? Qual a ló­gica da as­censão de al­guém cujo man­dato viu a vi­o­lência se am­pliar e des­con­trolar, pra não falar das con­tro­vér­sias an­te­ri­ores de sua car­reira?

Ar­mando Tam­belli: Trata-se de uma pessoa co­nhe­cida aqui em São Paulo. O início de seu pro­jeto pes­soal de as­censão po­lí­tica in­dica que é um car­rei­rista que atirou em todas as di­re­ções. Foi do MP, pro­fessor da USP, flertou com os Di­reitos Hu­manos usando esse âm­bito como de­grau e foi se “con­ver­tendo” e acabou por jus­ti­ficar a tor­tura; foi Se­cre­tário de Se­gu­rança e Pre­si­dente da Fun­dação Casa; foi para a pre­fei­tura cuidar de trans­portes(?); ad­vogou de forma te­me­rária; foi para a Se­gu­rança Pú­blica de novo e es­pe­ci­a­lizou-se em des­cum­prir or­dens ju­di­ciais e to­lerar uma PM que bate, atira e de­pois per­gunta; disse que as cha­cinas da Grande São Paulo es­tavam re­sol­vidas, mas não re­solveu, pois não é o que ou­tros po­li­ciais dizem; passou pelo DEM, o PMDB e o PSDB. Virou um inepto mi­nistro da Jus­tiça, fan­farrão e men­ti­roso e como re­com­pensa por tudo vai ser mi­nistro do STF. Ótimo!

Porém, não se pode ter ilu­sões: ele é pe­ri­goso no sen­tido de que en­trega o que es­pera quem o no­meia, seja o que for. É pés­sima in­di­cação porque vem com o verniz da sa­be­doria ju­rí­dica e finge que nada é com ele!

Cor­reio da Ci­da­dania: Afinal, o que se de­senha no crime or­ga­ni­zado bra­si­leiro? Temos um pro­cesso de ex­pansão econô­mica do PCC, na­ci­onal e con­ti­nental?

Ar­mando Tam­belli: No­va­mente, é im­por­tante res­saltar que PCC e que­jandos as­sustam mais pela bru­ta­li­dade do que pela efi­cácia dos seus ne­gó­cios. É muita mídia para um vo­lume de vi­o­lência que chama atenção, mas não mo­vi­menta 10% ou 20% do que mo­vi­menta uma - e só uma - grande fraude no campo fiscal, por exemplo. O crime or­ga­ni­zado apa­ren­te­mente não vi­o­lento, feito de golpes e tra­paças con­tá­beis, evasão, off-shores etc. é muito mais limpo e pro­du­tivo.

O pro­blema é que o trá­fico e ou­tros crimes que en­volvem vi­o­lência fí­sica e se ex­pandem de­pendem de con­quista de ter­ri­tó­rios, acertos com di­fe­rentes agentes da lei com cos­tumes di­fe­rentes, cir­cuns­tân­cias lo­cais va­ri­adas e grupos já ins­ta­lados que podem ou não virem a ser ali­ados.

Mas não há dú­vida de que quem vive do trá­fico em larga es­cala está pre­ci­sando se re­po­si­ci­onar em função das mu­danças po­lí­ticas que estão ocor­rendo em países que são peças im­por­tantes na ca­deia de pro­dução e for­ne­ci­mento da droga e das formas de en­trega ao des­tino final.

Cor­reio da Ci­da­dania: Há risco de “me­xi­ca­ni­zação”, como al­guns ana­listas afirmam?

Ar­mando Tam­belli: Creio que cada país tem suas pe­cu­li­a­ri­dades. O que acon­tece no Mé­xico, mas não só lá, é um pro­cesso de es­fa­re­la­mento de um Es­tado que se de­te­ri­orou pelas me­didas ul­tra­li­be­rais das úl­timas dé­cadas. Fala-se do Mé­xico, mas não se fala da Ar­gen­tina, que está ca­mi­nhando para si­tu­ação se­me­lhante, ou do Pa­ra­guai, que já está lá. A me­nina dos olhos dos eco­no­mistas ne­o­li­be­rais, o Chile, tem apre­sen­tado taxas de cri­mi­na­li­dade que não deixam para trás ne­nhum dos ou­tros vi­zi­nhos. As an­tigas Gui­anas ho­lan­desa e in­glesa nunca são ci­tadas, porém são fortes per­so­na­gens nas en­gre­na­gens do trá­fico e ou­tros crimes. Ve­ne­zuela, Peru, Bo­lívia, Colômbia, todos passam pelos pro­blemas do Mé­xico em maior ou menor grau.

Neste sen­tido, creio que já es­tamos me­xi­ca­ni­zados tanto quanto eles estão abra­si­lei­rados. O que es­tamos é ga­nhando em re­quintes de vi­o­lência ex­pressa e em al­guns mo­mentos des­con­tro­lada, na in­ter­mi­nável luta por ter­ri­tório real e ima­gi­nário, bem pró­pria dos car­teis me­xi­canos, mas também da Colômbia e da Ve­ne­zuela.

Cabe lem­brar que os norte-ame­ri­canos também passam por pro­blemas as­se­me­lhados, em geral como ponta re­cep­tora, como por exemplo no caso das drogas. Boa parte de toda a mo­vi­men­tação cri­mi­nosa no Mé­xico e em parte no Brasil e em ou­tros países é para abas­tecer o mer­cado es­ta­du­ni­dense. O grau de vi­o­lência das di­versas qua­dri­lhas li­gadas ao trá­fico é muito maior que as daqui e as ou­tras formas de crime or­ga­ni­zado fazem muitos dos nossos es­quemas pa­re­cerem ini­ci­antes.     

Cor­reio da Ci­da­dania: Se jun­tarmos com a in­for­ma­li­dade, é pos­sível es­timar um de­sem­prego na casa de 20 mi­lhões de bra­si­leiros. O que po­demos es­perar para esse ano, con­si­de­rando o que dis­cu­timos aqui?

Ar­mando Tam­belli: No âm­bito da cri­mi­na­li­dade, da vi­o­lência, das pri­sões, se­gu­rança pú­blica, creio que já es­tamos a ca­minho de uma am­pli­ação dos con­flitos. O grau de frus­tração de uma par­cela da po­pu­lação com o rom­pi­mento de um pro­cesso de as­censão, que se não era vir­tuoso pelo menos vis­lum­brava uma al­ter­na­tiva, já co­meça a ser per­ce­bido.

A pri­meira fase de apro­pri­ação dessa de­ses­pe­rança sempre é dos de­ma­gogos, mis­ti­fi­ca­dores e ma­ni­pu­la­dores, vide o pre­feito Dória, Bol­so­naro, al­guns de­pu­tados e se­na­dores de­pri­mentes, os apre­sen­ta­dores de pro­gramas de crime na TV por todo o país; e ainda as formas fas­cis­toides de lidar com in­te­grantes do go­verno de­posto ou com qual­quer um que de­fenda po­si­ções so­ciais pro­gres­sistas; a morte de Ma­risa Lula da Silva e os res­pon­sá­veis por co­men­tá­rios e re­a­ções ab­so­lu­ta­mente im­becis ali­ados a uma di­reita or­ga­ni­zada e sub­ven­ci­o­nada por di­nheiro de origem in­certa com muita ati­vi­dade nas redes so­ciais e agindo de caso pen­sado.

As grandes mí­dias e suas fa­mí­lias con­tro­la­doras da opi­nião que ali­mentam ainda muito da in­for­mação de boa parte da po­pu­lação são de uma ca­na­lhice des­con­cer­tante. São uma grande qua­drilha que opera de forma or­ga­ni­zada em todo o país em nome de seus in­te­resses. Não há como con­frontá-la por en­quanto. Há que se cons­truir uma nar­ra­tiva pa­ra­lela e avançar na forma de se co­mu­nicar com a po­pu­lação.

Esta im­prensa não apre­sen­tará nada que não seja do seu in­te­resse. Para ela a vi­o­lência con­ti­nuará sendo re­sul­tado de ini­ci­a­tiva in­di­vi­dual ou de grupos sem co­nexão com este mundo. Ali­e­ní­genas!

Não há forças em con­di­ções de con­fronto para fus­tigar um go­verno de cri­mi­nosos e para saber como ele pre­tende evitar o tra­balho de cri­ação de um exér­cito de re­serva para o crime com suas po­lí­ticas an­tis­so­ciais.

Es­tamos no re­fluxo do tsu­nami. O mar re­cuou e boa parte da po­pu­lação não sabe di­reito o que está acon­te­cendo. A al­tura e a vi­o­lência da onda que se avi­zinha ainda não são ava­liá­veis. O que pode acon­tecer é de o mar voltar e não en­con­trar mais nada para des­truir, pois esse go­verno e seus as­se­clas já cui­daram de tudo!  

Cor­reio da Ci­da­dania: Por­tanto, você se­quer con­segue vis­lum­brar so­lu­ções em meio à atual con­for­mação da po­lí­tica bra­si­leira? O que po­deria ser feito de toda forma?

Ar­mando Tam­belli: Não pa­rece que te­remos saídas pelas vias usuais. Os par­tidos à es­querda, que é o que in­te­ressa, não vão se mexer mais do que o li­mite dos acordos que con­se­guirem fazer para manter a pro­messa de al­ter­nância de poder. Ou seja, acre­ditam que a ca­ma­rilha que se apo­derou da má­quina vai per­mitir que as re­gras va­lham para todos. En­gano!

Não ha­verá al­ter­na­tiva que não seja o con­fronto po­lí­tico não con­for­mista e não tra­di­ci­onal: a de­so­be­di­ência civil, a re­sis­tência fiscal, o de­boche no âm­bito cul­tural e em ma­ni­fes­ta­ções de rua re­lâm­pago, a for­mação de pe­quenos co­mitês para or­ga­ni­zação de boi­cotes mesmo que sim­bó­licos, para ações po­lí­ticas lo­ca­li­zadas e para pro­dução ca­seira de ações que possam ir para as redes; a ação di­reta quando for o caso, a greve de fome co­le­tiva como ato po­lí­tico; o en­fren­ta­mento da po­lícia com cri­a­ti­vi­dade, pois ela não po­derá bater im­pu­ne­mente por muito tempo, e não ba­terá se houver uma me­lhora na or­ga­ni­zação das ma­ni­fes­ta­ções; re­tomar a velha e boa edu­cação po­lí­tica com es­tra­té­gias ve­lhas e novas...

É pre­ciso também chamar os de­sem­pre­gados para ma­ni­fes­ta­ções, não aceitar o des­tino que a Globo es­co­lheu para o povo bra­si­leiro e não deixar mais que ne­nhuma re­por­tagem seja feita na rua. Não pre­cisa vi­o­lência, basta ficar gri­tando. Tem muito mais que pode ser feito.

A im­pressão geral é de que ca­pi­tu­lamos. E pa­rece mesmo. É sempre o que pa­rece, mas não é.


Ga­briel Brito é editor-ad­junto do Cor­reio da Ci­da­dania.

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