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terça-feira, 14 de março de 2017

ECONOMIA - O Marx 2.0

Thomas Piketty, o « Marx 2.0 »


Em conferência em Paris, ele citou quase uma dezena de vezes o Brasil entre os campeões de desigualdades




Leneide Duarte-Plon, de Paris* Wikimedia Commons
Poucas conferências de economistas atingem um público tão variado de não-especialistas e enchem auditórios tão grandes quanto as de Thomas Piketty. O economista - militante da esquerda francesa e membro da equipe do candidato à presidência pelo Partido Socialista, Benoît Hamon – mereceu há três anos na revista « M », do Le Monde, uma reportagem de capa cujo título era eloquente : « Como um economista tornou-se um rock star ».

Falando na quinta-feira, dia 9 de março como o conferencista da semana do ciclo que o Institut du Monde Arabe (IMA) promove, o economista discorreu sobre as desigualdades no mundo e mais especificamente no Oriente Médio, em função do lançamento do livro em árabe. O apresentador frisou que fazia um ano que o economista fora convidado.

Diante de um público que lotou o grande e luxuoso auditório do IMA, (cerca de 400 pessoas) o « professor » Piketty discorreu mais de uma hora sobre « Capital e desigualdades : uma perspectiva do Oriente Médio ». A rapidez com que fala sem notas e o brilho de sua inteligência  impressionam todos os que o ouvem.

Brasil no pódio dos campeões

Em janeiro de 2016, juntamente com Daniel Cohn-Bendit, ele lançou um movimento por uma candidatura única da esquerda francesa, última esperança de alcançar o segundo turno da eleição, em maio deste ano. Com as candidaturas de Hamon e Jean-Luc Mélenchon, a esquerda se apresenta dividida e com pouca chance de chegar ao segundo turno. Pela configuração atual das pesquisas de opinião, a chance é zero.

Lançado na França em setembro de 2013, o livro « O Capital no século XXI » (« Le Capital au XXIe siècle ») se tornou um sucesso planetário e transformou seu jovem autor de 45 anos numa celebridade, uma espécie de « Marx 2.0 », como o chamou a revista « Time » quando o livro foi lançado nos EUA, em 2014.

No « New York Times », o economista Paul Krugman, que também denuncia as desigualdades há muito tempo, falou do livro como « o mais importante do ano, e mesmo da década ».

« O Capital no século XXI » foi traduzido em 40 línguas e já vendeu 3 milhões de exemplares, levando o autor a viagens ao redor do mundo para lançamentos e conferências. Resultado de mais de 20 anos de pesquisa, a obra é fruto do trabalho de diversos pesquisadores e revela um panorama da repartição das riquezas desde o século XVIII em diversos países. No livro, as desigualdades saltam aos olhos.

Sem surpresa, ouvi o economista citar na conferência quase uma dezena de vezes o Brasil como campeão de desigualdades, quase sempre acompanhado da África do Sul e da Índia. Os Estados Unidos - país que se vangloria de ser o campeão da democracia que pretende exportar, com tropas e bombas, ao mundo todo - são também um grande campeão no quesito desigualdades.

Depois do governo Reagan e da reforma do sistema fiscal na qual os ricos passaram a pagar menos impostos, « os Estados Unidos se tornaram o país paradigma das desigualdades ».

O Brasil foi citado entre os que têm maiores níveis de desigualdades no mundo, ao lado da Índia e da África do Sul.






« O Brasil tem um passivo extremamente pesado quanto às desigualdades sociais. Foi o último país do mundo a abolir a escravidão e hoje, 60% da renda total é concentrada entre os 10% mais ricos », informou o economista.

Como comparação, os Estados Unidos têm 50% da renda total concentrada entre 10% mais ricos e na Europa esses números caem para 30% nas mãos dos 10% mais ricos.

« É inegável que a Europa tem um nível de desigualdade mais fraco que os Estados Unidos », disse Piketty, acrescentando que em certas elites europeias há uma tendência a negar as desigualdades.

Apesar de reconhecer que seu livro é francocentrado e ocidental-centrado, o economista se arriscou a fazer um voo sobre o Oriente Médio para constatar que essa « é uma das regiões onde as desigualdades são as mais elevadas no mundo, pelo menos iguais às do Brasil ». No Oriente Médio, a pesquisa enfrenta a barreira de dados difíceis de comprovar por fontes oficiais.

Por isso, Piketty se disse aberto a receber estudos, relatórios e pesquisas que possam trazer novas informações sobre o Grande Oriente Médio, região com uma população de 300 milhões de habitantes e uma grande concentração de renda.

Um mundo onde as desigualdades ainda são abissais.

Pelo menos iguais às do Brasil, segundo suas próprias palavras.

* Leneide Duarte-Plon é autora de « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado » (Editora Civilização Brasileira, 2016).

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