A ‘guarda revolucionária’ da imprensa
Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa
"Este observador recebe regularmente mensagens de jornalistas que atuam
nos principais veículos de comunicação. São em geral desabafos,
lamentações, queixas de profissionais que se dizem pressionados por
dirigentes, editorialistas e até mesmo colunistas, que agem como
aiatolás em defesa da doutrina predominante na imprensa. A “guarda
revolucionária” das redações acredita piamente que está batendo às
portas de Teerã.
Eventualmente, podem ser vistos no café, em conversas cautelosas com
colegas mais jovens, curiosos por saber como era a profissão no tempo em
que a imprensa brasileira ainda era sinônimo de jornalismo. Os produtos
de seu trabalho são utilizados pelos jornais para responder à acusação
de que estão alinhados automaticamente a este ou àquele grupo político.
O jornalista cearense, conhecido por seu texto jocoso e temperado com
muita malícia, preferiu deixar o jornal. Fez o anúncio numa série de
postagens iradas pelo Twitter, e na manhã de terça-feira (14/10)
publicou no Facebook ( ver aqui) seu relato sobre o episódio.
O episódio é revelador de como jornalistas que não concordam com a
linha editorial adotada homogeneamente pelos principais meios de
comunicação do país são submetidos a pressões constantes nas redações.
Quem não se dispõe, como Xico Sá, a romper o vínculo com a empresa, por
motivos que cabem a cada um, tem que sobreviver desprovido da autonomia
básica que o jornalista precisa ter para exercer sua profissão com
dignidade. A isso, externamente, se dá o nome de “liberdade de
imprensa”.
Nesta altura dos acontecimentos, a duas semanas da decisão nas urnas,
as empresas de comunicação jogam suas últimas fichas para tentar quebrar
a série de governos sob a bandeira do Partido dos Trabalhadores. A
obsessão dos donos de jornais tem razões econômicas – na defesa dos
interesses dessas empresas – e ideológicas, e não conhece limites para a
consecução de seu objetivo.
O cenário eleitoral ainda é nebuloso, e os jornais evitam divulgar os
dados do rastreamento de pesquisas, mas vazam números cuidadosamente
selecionados para agentes do mercado. Enquanto se aguarda a próxima
pesquisa, colhem-se dividendos aqui e ali."
Não é incomum que repórteres sejam abordados, em meio a suas tarefas,
por esses diligentes guardiães da pauta, sempre ciosos de que o texto
final seja uma reprodução exata daquilo que foi imaginado pelos
planejadores da edição.
Apenas uns poucos jornalistas são poupados desse assédio, porque podem
transferir aos veículos em que trabalham a reputação que cultivaram em
muitos anos de militância no jornalismo. Para esses são criadas ilhas de
autonomia, onde pontificam sobre o que quiserem, mas sempre com o
cuidado de não entrar em confronto direto com a linha editorial.
Por essa razão, é de se questionar a natureza do papel que representam,
ao aceitarem ser usados como argumento contra a constatação de que as
redações se tornaram ambientes nocivos à diversidade e à liberdade de
expressão.
Num cenário exatamente oposto, os repórteres, editores e colunistas que
aderem sem restrições ao viés dominante na mídia nacional desfilam sua
“coragem intelectual” entre as mesas da redação, conscientes de que em
algum momento a História lhes dará a justificativa moral pelo trabalho
sujo de conspurcar uma das funções mais relevantes da sociedade moderna.
Para esses não há limite na deturpação da linguagem e na flexibilização
da semântica, desde que sua produção esteja alinhada com o objetivo
central.
Lucrando com boatos
Francisco Reginaldo de Sá Menezes, conhecido como Xico Sá, deixou sua coluna na seção de Esportes da Folha de S.Paulo, nesta semana, porque imaginou que, como os pitbulls
da imprensa que dizem o que pensam e fazem abertamente suas campanhas
eleitorais, também poderia manifestar sua opinião no espaço que lhe era
destinado.
Acontece que ele se declara adepto da candidatura da presidente Dilma
Rousseff. Disseram-lhe, então, que só poderia fazer sua manifestação em
artigo a ser possivelmente publicado na página de opinião.
No texto que motivou seu rompimento com a Folha, ele comenta o
que chama de “Fla-Flu eleitoral”, defende mais transparência dos jornais
em seu posicionamento político-partidário e critica a cobertura
eleitoral feita pela imprensa, que considera desequilibrada. No final,
declara seu voto em Dilma Rousseff.
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