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terça-feira, 23 de maio de 2017

ESPIRITISMO - Há provas científicas da existência dos Espíritos? Parte IV.


Há provas científicas da existência dos Espíritos? Parte IV
por Marcos Villas-Bôas

No texto anterior, terminamos tratando de Gabriel Delanne e William Crookes. O livro deste último é emblemático, pois é uma coletânea de artigos que vai demonstrando, ao longo dos meses, a evolução do pensamento do autor sobre o tema dos Espíritos. Ele inicia admitindo que não conhece quase nada sobre o assunto, mas que, por estarem todos interessados, entende ser importante submetê-los a experimentos científicos cuidadosos:
“Some weeks ago the fact that I was engaged investigating Spiritualism, so called, was announced in a contemporary: and in consequence of the many communications I have since received, I think it desirable to say a little concerning the investigation which I have commenced. Views or opinions I cannot be said to possess on a subject which I do not pretend to understand. I consider it the duty of scientific men who have learnt exact modes of working, to examine phenomena which attract the attention of the public, in order to confirm their genuineness, or to explain, if possible, the delusions of the honest and to expose the tricks of deceivers. But I think it a pitty that any public announcement of a man’s investigation should be made until he has shown himself willing to speak out.
A man may be a true scientific man, and yet agree with Professor De Morgan, when he says – ‘I have both seen and heard, in a manner which would make unbelief impossible, things called spiritual, which cannot be taken by a rational being to be capable of explanation by imposture, coincidence, or mistake. So far I feel the ground firm under me; but when it comes to what is the cause of these phenomena, I find I cannot adopt any explanation which has yet been suggested...The physical explanation which I have seen are easy, but miserably insufficient. The spiritual hypothesis is sufficient, but ponderously difficult’” (Researches in the Phenomena of Spiritualism, p. 3). 
Em tradução livre para o português, Crookes disse:
“Algumas semanas atrás, o fato de que eu me engajei no estudo do Espiritualismo, assim chamado, foi anunciado em um jornal contemporâneo [The Athenaum]: e em consequência às muitas comunicações que eu tenho recebido desde então, acho que é apropriado dizer alguma coisa sobre a investigação que comecei. Não se pode dizer que tenho visões ou opiniões sobre um tema que eu não finjo entender. Eu considero o dever de homens científicos que aprenderam modos exatos de trabalho examinar fenômenos que atraem a atenção do público, com o objetivo de confirmar a sua genuinidade, ou para explicar, se possível, as ilusões dos honestos e expor os truques dos enganadores. Mas, eu acho uma pena qualquer anúncio público sobre a investigação de um homem sem que ele tenha se mostrado disposto a falar.
Alguém pode ser um verdadeiro homem científico e, ainda assim, concordar com o professor De Morgan quando ele diz: “Eu vi e ouvi, de uma maneira que faria a descrença impossível, coisas chamadas de espirituais, que não podem ser tomadas por um ser racional capazes de explicação de impostura, coincidência ou erro. Até então, eu sinto o chão firme sob mim; mas, quando se trata da causa desses fenômenos, eu descubro que não posso adotar nenhuma explicação que já foi sugerida...As explicações físicas que eu vi são fáceis, mas miseravelmente insuficientes. A hipótese espiritual é suficiente, mas ponderadamente difícil” (Pesquisas nos Fenômenos do Espiritualismo, p. 3). 
Com postura típica do gênio que era, Crookes se deixa aberto a estudar o que se chama à época dele de Espiritualismo e verificar se, de fato, eram os Espíritos que estavam ajudando a promover aqueles acontecimentos estranhíssimos e inexplicáveis pelas leis conhecidas da Física até então. Em trecho posterior, ele afirma serem necessárias, para concluir pela existência de algo “espiritual”, a “exatidão da observação” e uma prova cabal, convincente:
“My whole scientific education has been one long lesson in exactness of observation, and I wish it to be distinctly understood that this firm conviction is the result of the most careful investigation. But I cannot, at present, hazard even the most vague hypothesis as to the cause of the phenomena. Hitherto I have seen nothing to convince me of the truth of the ‘spiritual’ theory. In such an inquiry the intellect demands that the spiritual proof must be absolutely incapable of being explained away; it must be so strikingly and convincingly true that we cannot, dare not deny it.
Faraday says: ‘Before we proceed to consider any question involving physical principles, we should set out with clear ideas of the naturally possible and impossible’. But this appears like reasoning in a circle: we are to investigate nothing till we know it to be possible, whilst we cannot say what is impossible, outside pure mathematics, till we know everything” (Researches in the Phenomena of Spiritualism, p. 4).
Em tradução livre:
“Toda a minha educação científica tem sido uma longa lição em exatidão da observação e eu desejo que seja nitidamente entendido que essa firme convicção é resultado da mais cuidadosa investigação. Mas, eu não posso, no momento, arriscar até a mais vaga hipótese relativa à causa dos fenômenos. Até aqui, eu não vi nada que me convença da verdade da teoria ‘espiritual’. Numa questão como essa, o intelecto demanda que a prova espiritual deva ser absolutamente incapaz de ser afastada; ela deve ser tão contundentemente e convincentemente verdadeira que nós não possamos nos atrever a negá-la.
Faraday diz: ‘Antes de procedermos a considerar qualquer questão envolvendo princípios físicos, nós deveríamos fixar ideias claras sobre o possível e o impossível’. Mas, isso parece argumentar em círculos: nós não iremos investigar nada até saber que é possível, enquanto que nós não podemos dizer o que é impossível, fora da matemática pura, até que nós conheçamos tudo” (Pesquisas nos Fenômenos do Espiritualismo, p. 4). 
Como um excelente cientista que era, Crookes demonstra postura bem cética em relação a Espíritos estarem por trás dos fenômenos, porém não se fecha para a possibilidade, percebendo que, se quisermos aprender mais, precisamos compreender primeiro que não sabemos de quase nada, que o nosso campo do “possível” hoje ainda é muito limitado e que só descobriremos que o supostamente impossível é possível quando pesquisarmos sobre ele com cuidado.
Todo o primeiro capítulo do livro de Crookes corresponde a um primeiro artigo que ele publicou sobre o tema, como visto, por conta de um periódico ter exposto o fato de que ele estaria investigando sobre o Espiritualismo, o que era – e ainda é, em regra – muito mal visto no meio científico. Mesmo que hoje ainda exista muito preconceito, naquela época o tema era incipiente e havia bem menos estudiosos interessados nele.
Como muitos outros cientistas sérios da época, a novidade dos fenômenos espirituais parecia algo muito espetaculoso a Crookes e a falta de maior postura crítico-científica dos espíritas o incomodava. Ele faz a seguinte crítica:
“The pseudo-scientific spiritualist professes to know everything: no calculations trouble his serenity, no hard experiments, no long laborious readings; no weary attempts to make clear in words that which has rejoiced the heart and elevated the mind.
[...] The spiritualist tells of flowers with the fresh dew on them, of fruit, and living objects being carried through closed windows, and even solid brick-walls. The scientific investigator naturally asks that an additional weight (if it be only  the 1000th part of a grain) be deposited on one pan of his balance when the case is locked. And the chemist asks for the 1000th of a grain of arsenic to be carried through the sides of a glass tube in which pure water is hermetically sealed.
The spiritualist tells of manifestations of power, which would be equivalente to many thousands of ‘foot-pounds’, taking place without known agency. The man of science, believing firmly in the conversation of force, and that it is never produced without a corresponding exhaustion of something to replace it, asks for some exhibitions of power to be manifested in his laboratory, where he can weigh, measure, and submit it to proper tests” (Researches in the Phenomena of Spiritualism, p. 6-7).
Em tradução livre:
“O espiritualista pseudocientífico professa saber de tudo: nenhum cálculo perturba sua serenidade, nenhum experimento difícil, sem longas leituras laboriosas; sem cansativas tentativas de deixar claro em palavras que regozijem o coração e elevem a mente.
[...] Os espiritualistas falam de flores com o orvalho fresco sobre eles, de frutas e objetos vivos sendo carregados por janelas fechadas e até por paredes sólidas. O investigador científico naturalmente pede que um peso adicional (mesmo que seja a milésima parte de um grão) seja depositado num prato da sua balança quando a caixa estiver fechada. E o químico pede que o milésimo grão de arsênico seja carregado pelos lados de um tubo de vidro no qual água pura está hermeticamente selada.
Os espiritualistas falam de manifestações de poder que seriam equivalentes a muitos milhares de “libras” acontecendo sem agência conhecida. O homem da ciência, acreditando firmemente na conservação da força, e que ela nunca é produzida sem uma correspondente exaustão de algo para substituí-la, pede que algumas exibições de poder sejam manifestadas em seu laboratório, onde ele pode pesar, medir e submetê-la a testes próprios” (Pesquisas nos Fenômenos do Espiritualismo, p. 6-7).    
Crookes revelou uma postura de cético, crítico e iniciante na matéria. Colocava no seu pensamento a sua experiência de cientista natural, provavelmente não conhecia a fundo as pesquisas de Kardec e claramente não considerava científico outro método, senão o materialista, ou seja, o de pesar, medir e movimentar objetos dentro de um laboratório físico-químico.
Como Kardec, apesar de ter se graduado em Ciências e Letras, e feito doutorado em Medicina, tinha uma perspectiva mais pautada em Letras, Educação, Pedagogia, Metodologia e Filosofia, seus métodos não agradavam, em regra, os físicos e químicos da época, que apenas consideravam ciência aquilo que saía de dentro dos laboratórios com tubos de ensaio e balanças.
Essa visão materialista, para a época, era ainda perfeitamente compreensível; no entanto, nos dias atuais, mostra profunda ignorância científica, pois a diversificação das ciências e o avanço nos estudos de Metodologia e Epistemologia mostraram que há muitos variados métodos científicos e formas de conhecimento aceitas pela ciência.
Neste texto, não haverá espaço para aprofundar na incrível evolução das investigações de Crookes, que mereciam ser retratadas em um filme, mas, no próximo, trataremos delas com detalhes. De um dos cientistas mais respeitados do mundo à época, de um gênio descobridor, ele passou a ser motivo de chacota simplesmente porque expôs fenômenos reais, físicos, porém desconhecidos e temidos pela maioria dos cientistas.
O seu livro conta pequenos detalhes dos múltiplos experimentos que realizou, trazendo, dentre outras informações, desenhos e relatos de testemunhas. Chegaremos lá. Por enquanto, fiquemos com o seguinte relato:
“Among the remarkable phenomena which occur under Mr. Home’s influence, the most striking, as well as the most easily tested with scientific accuracy, are - (1) the alteration in the weight of bodies, and (2) the playing of tunes upon musical instruments (generally an accordion, for convenience of portability) without direct human intervention, under conditions rendering contact or connection with the keys impossible. Not until I had witnessed these facts some half-dozen times, and scrutinized them with all the critical acumen I possess, did I become convinced of their objective reality. Still, desiring to place the matter beyond the shaddow of doubt, I invited Mr. Home on several ocasions to come to my own house, where, in the presence of a few scientific enquirers, these phenomena could be submitted to crucial experiments.      
[...] I confess I am surprised and pained at the timidity or apathy shown by scientific men in reference to this subject [...], but I soon found that to obtain a scientific committe for the investigation of this class of facts was out of question, and that I must be content to rely on my own endeavours, aided by the co-operation from time to time of a few scientific and learned friends who were willing to join in the inquiry.
Em tradução livre:
“Dentre os fenômenos marcantes que ocorrem sob a influência do Sr. Home, os mais arrebatadores, como também os mais facilmente testados cientificamente com precisão, são: (1) a alteração no peso de corpos e (2) tocar notas em instrumentos musicais (geralmente um acordeon, por conveniência de portabilidade) sem intervenção humana direta, sob condições que tornam impossível o contato ou a conexão com as notas. Não antes de testemunhar esses fatos ao menos meia dúzia de vezes e de os ter escrutinizado com toda a perspicácia que eu possuo, eu fiquei convencido da sua realidade objetiva. Ainda, desejando colocar o assunto fora de dúvida, eu convidei o Sr. Home em várias ocasiões para vir a minha casa, onde, na presença de alguns investigadores científicos, esses fenômenos poderiam ser submetidos a experimentos cruciais.
[...] Eu confesso que estou surpreso e dolorido pela timidez e apatia mostrada pelos homens científicos em referência ao assunto [...], mas eu logo descobri que obter um comitê científico para a investigação dessa classe de fatos estava fora de questão e que eu devo estar contente de contar com os meus próprios esforços, adicionados pela cooperação, de tempo em tempo, de alguns amigos científicos e preparados que estavam dispostos a se juntar à pesquisa”.
A leitura dos artigos de Crookes revelam um cientista crítico, cético, perspicaz, que envidou seus esforços para realizar experimentos repetidos sobre os fenômenos e que, somente a partir daí, passou a acreditar neles.
Alguns leitores do blog perguntavam porque os Espíritos apenas levantavam mesas, e não tocavam instrumentos, por exemplo. Bom, está aí a resposta: eles tocam instrumentos e podem fazer mais uma porção de coisas, que ficaram comprovadas na investigação de Crookes.
Se não houve larga repetição dos experimentos, apesar de que, como visto e como veremos, testes semelhantes foram feitos por Flammarion, Richet, Delanne e outros, é porque muitos cientistas não se interessam pelo tema. Alguns têm medo; outros acham preconcebidamente tudo fantasioso demais, mesmo antes de investigarem; muitos têm receio de “sujar” sua carreira científica e apenas estão preocupados com pesquisas que lhes darão retorno financeiro em curto a médio prazo; etc.
Como temos dito aqui, a existência de Espíritos está cientificamente comprovada há mais de 100 anos, porém, certamente, com o enorme avanço tecnológico das últimas décadas, ficará ainda mais fácil realizar essa comprovação nos próximos anos.  

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