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quarta-feira, 24 de maio de 2017

POLÍTICA - O objetivo é calar o Tio Rei.

Por Luiz Carlos Azenha, no Viomundo
Não tenho motivo para defender Reinaldo Azevedo — e não apenas por diferenças ideológicas. Ele e seu então “parceiro” Diogo Mainardi me acusaram — na Veja impressa e digital — de ter um contrato milionário com o governo federal que nunca tive: fui assalariado de uma empresa que ganhou uma concorrência pública! O Globo fez o mesmo, na primeira página, por ordem de Brasília dada a uma jornalista que fez a informação chegar a mim.
Mais que isso, Reinaldo mentiu publicamente a meu respeito em uma polêmica: fantasiou que eu teria pedido a ele um freelancer na revista Primeira Leitura quando eu era correspondente em Nova York. Freelancer negado. O problema com esta versão é que nunca falei com Reinaldo Azevedo: nem por telefone, nem por e-mail, nem pessoalmente. Eu não o conheço.
Portanto, sei bem o que é este “jornalismo” de destruir reputações.
Dito isso, é um absurdo que uma conversa telefônica dele com Andrea Neves, a irmã do senador Aécio Neves, tenha sido vazada. Segundo a Procuradoria Geral da República, pela Polícia Federal. É mais um sintoma do avanço do estado policial. É “culpa” por associação. É exatamente o que fizeram com a conversa entre a ex-primeira dama Marisa Letícia e um dos filhos dela.
Reinaldo Azevedo tornou-se crítico tardio dos métodos da Lava Jato. Diz-se que fez isso por conveniência política, quando a operação começou a avançar sobre os tucanos. Pouco importa: quem vazou tinha a clara intenção de retaliar. De demitir. De intimidar.
Eu sei muito bem o que é isso: cresci numa cidade pequena do interior paulista, durante a ditadura militar, filho de um militante comunista, e tive de me acostumar à ideia de incorrer no “crime por associação” — crime inexistente mesmo pelos parâmetros do regime, já que meu pai era, nos dizeres da época, “etapista” e defensor de frente ampla.
É assim no fascismo: Reinaldo a partir de agora será desqualificado pelos adversários como o jornalista que telefonou ou recebeu telefonema da mulher presa por corrupção, quando a conversa entre os dois não tinha absolutamente nenhuma relação com o inquérito.
Assim como aconteceu com o blogueiro Eduardo Guimarães, é pura tentativa de intimidação. Ainda que o blogueiro da Veja tenha, no passado, defendido os métodos que agora se voltaram contra ele, trata-se de mais uma tentativa de calar os críticos da Lava Jato.
Do Sul21:
Em 2016, Reinaldo Azevedo defendeu grampo e quebra de sigilo contra Dilma
A Procuradoria Geral da República anexou, em inquérito da Operação Lava Jato, o conteúdo de conversas gravadas por interceptação telefônica entre o jornalista Reinaldo Azevedo, que mantem um blog na revista Veja, e Andrea Neves, irmã do senador Aécio Neves.
Nestas conversas, Reinaldo Azevedo critica uma reportagem da Veja e a atuação do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot. Após a divulgação do fato, pelo site Buzzfeed, Reinaldo Azevedo anunciou que estava pedindo demissão da Veja e divulgou uma nota criticando a violação da garantia constitucional do sigilo de fonte e alertando para a instauração de um estado policial no país.
Já no dia 18 de março de 2016, em um episódio similar, o mesmo Reinaldo Azevedo defendeu a divulgação do conteúdo do grampo que atingiu a então presidenta da República, Dilma Rousseff (PT). Naquela ocasião, em um post intitulado “Dilma Rousseff quer prender Sérgio Moro, e eu quero prender Dilma Rousseff”, o jornalista escreveu em seu blog na Veja:
“Dilma não foi grampeada. Grampeados foram outros entes e pessoas que estão sob investigação. O problema é que eles todos estavam em linha direta com a presidente da República. (…) Não se tratou de escuta ilegal, mas legalmente determinada. A quebra do sigilo dessas mensagens, dado o contexto, é plenamente justificada. A única área de debate será o uso das gravações feitas quando já suspensa a quebra do sigilo. Muito provavelmente, não poderão ser empregadas como prova.”

DIÁLOGOS SOBRE A CAPA
Do Buzzfeed (reprodução parcial)
Andrea Neves — Agora, que está acontecendo na Veja, o que o pessoal fez…
Reinaldo Azevedo — Ah, eu vi. É nojento, nojento. Eu vi.
Andrea Neves — Assinaram todos os jornalistas e vão pegar a loucura desse cara para esquentar a maluquice contra mim.
Reinaldo Azevedo — Tanto é que logo no primeiro parágrafo, a Veja publicou no começo de abril que não sei o que, na conta de Andrea Neves. Como se o depoimento do cara endossasse isso. E ele não fala isso.
Andrea Neves — Como se agora tivesse uma coleção de contas lá fora e a minha é uma delas.
Reinaldo Azevedo — Eu vou ter de entrar nessa história porque já haviam me enchido o saco. Vou entrar evidentemente com o meu texto e não com o deles. Pergunto: essas questões que você levantou para mim, posso colocar como se fosse resposta do Aécio?
Andrea Neves — Nós mandamos agora para a Veja uma nota para botar nessa matéria.
Reinaldo Azevedo — Não quer mandar para mim também?
Andrea Neves — Mando.
A irmã do senador e Reinaldo Azevedo começam então a criticar a Lava Jato. Ela afirma que a Procuradoria-Geral da República separou investigações contra Aécio para que ele fosse considerado o campeão de inquéritos.
Andrea Neves — Você tem vários casos, todos juntados. Como eles queriam que o Aécio aparecessem como campeão de inquéritos…
Reinaldo Azevedo — Sim, esse era o objetivo.
Andrea Neves — […] É inacreditável, é uma covardia.
Reinaldo Azevedo — […] É incrível, a Odeberecht agora virou a grande selecionadora de quem sobrevive e morre na política. A Odebrecht nunca teve tanto poder. É asqueroso. Me manda esse levantamento, me interessa, sim.
O levantamento citado no diálogo é uma compilação dos inquéritos que, segundo Andrea Neves, mostraria que Janot adotou um critério de caixa dois para os citados e outros para Aécio.
Entre os dias 13 e 14 de abril, foram dois textos publicados pelo jornalista sobre o tucano. O primeiro relata as acusações da Odebrecht e a posição da defesa. Já o segundo texto é em tom similar à conversa com Andrea Neves: “Janot aplica a Aécio critério de exceção, e inquéritos procriam!”
No final do diálogo gravado, há ainda uma crítica a Janot.
Reinaldo Azevedo — A gente precisa ter elementos objetivos de um certo senhor mineiro aí, cuidando da candidatura dele ou à presidência ou ao governo do Estado.
Andrea Neves — Como assim?
Reinaldo Azevedo — O nosso procurador-geral.
Andrea Neves — Você está achando?
Reinaldo Azevedo — Ôxi.. fiquei sabendo que está tendo conversas. Eu só preciso ter gente que endosse isso de algum jeito. Ter um pouco mais de elementos concretos. Que ele está, está. Presidência talvez não, mas o governo de Minas, sim.
Andrea Neves cita, em tom de chacota, a presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia. Ela é mineira.
Andrea Neves — Vai disputar com a Carminha (risos).
Reinaldo Azevedo — Ah, deve ser né. Sua prima (risos).
Nota de esclarecimento da PGR
A Procuradoria-Geral da República esclarece que a informação veiculada na matéria do Buzzfeed “PGR anexa grampos de Reinaldo Azevedo com Andrea Neves em inquérito (…)” está errada.
A PGR não anexou, não divulgou, não transcreveu, não utilizou como fundamento de nenhum pedido, nem juntou o referido diálogo aos autos da Ação Cautelar 4316, na qual Andrea Neves figura como investigada.
Todas as conversas utilizadas pela PGR em suas petições constam tão somente dos relatórios produzidos pela Polícia Federal, que destaca os diálogos que podem ser relevantes para o fato investigado. Neste caso específico, não foi apontada a referida conversa.
A ação cautelar contém quatro mídias. As duas primeiras referem-se aos termos de confidencialidade firmados com os colaboradores (folhas 55 e 57), anexados com a inicial da cautelar.
As outras duas, diretamente juntadas pela PF, referem-se aos relatórios (autos circunstanciados) parciais de análise das interceptações telefônicas autorizadas pelo ministro-relator (folha 249, anexada dia 24/04, e folha 386, anexada dia 19/05).
A Ação Cautelar 4316 ainda não deu a primeira entrada na PGR, tendo sido aberta vista pelo ministro Edson Fachin apenas nesta terça-feira, 23 de maio, com chegada prevista para quarta-feira, 24 de maio.
Assessoria de Comunicação Estratégica do PGR com informações do STF
PS do Viomundo: Na campanha de 2010, algum tucano deve ter imaginado que os “blogueiros sujos” se reuniam num aparelho para receber ordens do lulopetismo, talvez no mesmo tom da conversa reproduzida acima. Uma ideia absurda. Terminada a campanha e empossados os eleitos, recebo uma ligação no meu celular de um assessor: “quem está falando aí?”. Dei meu nome. Por coincidência, era um jornalista com o qual eu já havia trabalhado na Globo. Ele agora servia ao novo governo, de outro tucano. Aparentemente, estava checando a quem pertenciam números que haviam sido grampeados. Devem ter gravado muitas conversas sobre a saúde dos gatos da Conceição Lemes.

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