sexta-feira, 1 de março de 2013

POLÍTICA - Caiu na Rede, ´bobo.


Sul 21

Marcelo Carneiro da Cunha


E o país assiste ao nascimento de mais um partido que veio justamente para mudar tudo isso que está aí. Até agora, ao que se vê, por meio do uso intensivo do gogó da Missionária Marina Silva, e mais nada.

O que a Missionária Marina está fazendo, como tantos outros antes dela, é simplesmente embolar um pouco mais o meio de campo, para ver se numa dessas a bola sobra e ela sai jogando.

O problema, estimados leitores, é que existem muitas formas de se chutar a bola para todo lado, e apenas umas poucas formas de transformar esse exercício de futilidade em plano de jogo e resultados que sirvam para algo complexo como um país ir em frente.

Uma pelada, por mais divertida que possa ser, jamais vai resultar em coisa alguma que não uma correria agora e uma cerveja gelada depois, com uma pancadariazinha no meio, apenas para manter as aparências de que aquilo tem algum sentido ou seriedade.

O jogo, pra valer, no Brasil de verdade, foi desenhado lá atrás, por Lula, quando apresentou a Carta ao Povo Brasileiro. Ali, ele deixou claro que o PT que iria mandar na bola não seria o dos aloprados, e que os partidos que fizessem parte do time iriam estar lá por figuração, com esse PT no comando, em uma grande coalizão de retalhos organizados por um só pensamento hegemônico e pra lá de pragmático.

Pelo outro lado, o PSDB, emparedado, fez sua aliança com o então PFL e virou, por convicção ou falta de escolha, um partido comandando uma aliança de centro-direita pelo lado de lá, contra a aliança de centro-esquerda pelo lado de cá, e assim foi resolvida a questão do nosso grande samba do crioulo doido, aka Brasil contemporâneo.

O resto, estimados leitores, é o resto e não faz, realmente, a menor diferença.

E, agora, montada na eleição de 2010, surge a tal Rede, um partido sem ao menos nome de partido, e com uma plataforma que reúne a densidade ideológica e o sabor programático de um pedaço de tofu. Promissor, estimados leitores, promissor.

Marina Silva é um enigma para mim. Começou com uma líder legitimada por uma história de vida comovente, de onde passou por um ministério importante, com uma atuação que parece ter sido opaca, e hoje é definida de maneira central pela sua inacreditável filiação a uma seita pentecostal.

Uma coisa é um jogador de futebol ser da Assembleia de Deus, que costuma render um dízimo razoável para a seita, alguns momentos de exaltação cristã em campo, e mais nada.

Outra coisa é alguém que pretende liderar um país contemporâneo, complexo por natureza, utilizando como referência para o que serve ou não serve um conjunto de crenças atolado no mundo primitivo.

Eu, tadinho de mim, simplesmente não consigo imaginar como funcione uma flexibilidade intelectual e ética dessa natureza. Como posso governar com igualdade para todos, quando minha convicção me ordena que discrimine um universo de cidadãos por não se enquadrarem nas normas da minha seita, nas quais eu acredito absolutamente, ou não acredito?

Como posso sustentar um discurso que dói de tão bonitinho e confuso, quando não posso nem ao menos garantir que nenhuma escola, jamais, irá ensinar estupidezes como o criacionismo, que a minha seita defende e eu também?

Como posso tentar propor algo sólido e com chances de dar certo, cercada de quadros disfuncionais de partidos que nunca, jamais, funcionaram?

Tudo que a Marina tem para oferecer ao eleitor é ser evangélica pra valer, e diferente de tudo isso que está aí. Evangélica para valer já a torna incompatível com o cargo, que exige que ninguém seja religioso para valer, ao governar uma sociedade múltipla. Diferente do que está aí pode ser bom ou mau, e não significa nada, mesmo que sirva para colher um voto de protesto, que raramente representa uma afirmação de qualquer coisa.

As seitas pentecostais, no seu apoio, a chamam de Missionária Marina. Deve ser. E ser apoiada pela vanguarda da barbárie não é exatamente um bom começo para quem pretenda melhorar o que existe, mudar o que precisa ser mudado.

Marina e a sua Rede servirão, no máximo, para uma porção do eleitorado demonstrar que não está com o PT, nem com o PSDB, o que é natural. Isso costuma servir para alertar aos partidos viáveis que eles precisam evoluir, e os melhores evoluem.

Acreditar na tal Rede, ou na Marina, aqui em casa é considerado coisa para bobos – que certamente existem, embora não saibamos quantos sejam.

2014, assim, vai servir como um tipo de censo, o que não deixa de ser interessante, mesmo que dificilmente possa ser útil a mim e a todos nós comprometidos com a difícil missão de fazer funcionar o que pode funcionar, de um jeito que funcione.

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