domingo, 16 de maio de 2010

ANOS DE CHUMBO - " A ditadura brasileira foi a mais difícil de desfazer".

Do blog NÁUFRAGO DA UTOPIA.

"A DITADURA BRASILEIRA FOI A MAIS DIFÍCIL DE DESFAZER", DIZ BRASILIANISTA

Hoje é um daqueles domingos sem novidade marcante no noticiário.

Parafraseando o Gilberto Gil, "O jornal de manhã chega cedo/ Mas não traz o que eu quero saber/ As notícias que leio conheço/ Já sabia antes mesmo de ler" ("Domingou").


Então, vale registrar aqui alguns trechos da entrevista que o schoolar estadunidense Anthony W. Pereira, professor/diretor do Brazil Institute do King's College em Londres, concedeu à CartaCapital, sobre seu Ditadura e Repressão (Paz e Terra, 2010) -- livro que acaba de ser lançado aqui com cinco anos de atraso, tanto que os leitores brasileiros já haviam tomado conhecimento de suas teses pelo capítulo de Pereira na obra conjunta Desarquivando a Ditadura (Editora Hucitec, 2009).
O que Pereira declarou à repórter Cynara Menezes em nada difere, substancialmente, do que outros têm dito, inclusive eu. Mas, depois da sentença panos quentes do STF sobre torturadores e do recuo do Governo Federal no PNDH-3, é sempre bom repisarmos certas obviedades:
"Eu diria que sim [indagado sobre se a ditadura brasileira foi menos cruel que a chilena e a argentina], mas também diria que depois que terminou foi a mais difícil de desfazer. Este é o paradoxo perverso aqui. Quando a democracia volta no Chile e na Argentina, há uma contra-reação fortíssima ao modo como a ditadura se comportou. Queriam reformar, mudar as leis. No Brasil, não. Como se pensava que as cortes militares do Brasil não tinham sido tão ruins, não houve urgência de mudar nada. O fato de o STF ter se recusado a rever a Lei da Anistia evidencia as diferenças. Aqui não houve punições. O senso de impunidade no Brasil é muito maior...
"No caso brasileiro, havia nos tribunais um juiz civil e quatro militares. Havia essa cooperação, essa atividade conjunta. Não achei isso no Chile, lá era tudo militar. A primeira vez que uma condenação foi revista por causa de tortura do réu aconteceu em 1979, já na abertura. Antes disso, condenavam baseados em confissões forçadas pela tortura. Os juízes foram coniventes com essa prática.

"...como parecia mais flexível, era mais difícil de mudar. Para cada prisioneiro que era posto em julgamento, calava um monte de gente. Era eficiente neste sentido. Na Argentina, o regime durou menos e foi mais violento. No Brasil, durou 21 anos, se estabeleceu, se consolidou. As táticas deles funcionaram, foram mais bem-sucedidos. Tanto que há um telegrama enviado pela embaixada dos Estados Unidos na Argentina em 1978 sugerindo que os argentinos deviam seguir o exemplo brasileiro. Dizia abertamente: copiem os brasileiros.

"A conotação que a palavra 'ditabranda' [neologismo cunhado pela Folha de S. Paulo para suavizar a imagem de uma ditadura com a qual colaborou] tem para mim é de uma meia-ditadura. Mas a ditadura brasileira é, em muitos aspectos, comparável às ditaduras argentina e chilena. O próprio golpe, a repressão. Os desaparecidos foram uma parcela menor da população, claro, mas foi criado um aparato para fazer este tipo de coisa. Acho um pouco ingênuo este argumento de ditabranda. Não vejo uma diferença fundamental entre o que houve aqui e no Chile ou Argentina.

"Os números sugerem (...) que os torturados tenham sido uma parcela relativamente grande no Brasil. As estimativas são falhas, o [Tortura] Nunca Mais achou 2 mil, mas há estimativas de que este número pode chegar a 20 mil. Não é uma coisa pequena. Muitas vezes, a punição realmente era a tortura. A sentença, depois, no tribunal militar, era para dar o exemplo, o lado público. Um espetáculo... era um ato público para humilhar. É muito interessante ler a cobertura dos jornais na época destes processos, a palavra terrorista era muito usada. Uma tentativa de marginalizar estas pessoas".

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