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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

POLÍTICA - Quando dois "trairas" se reunem.

PSB, de Campos, e Rede, de Marina: uma convergência difícil

http://4.bp.blogspot.com/-SaYvlWk5IL8/UldT3M5TngI/AAAAAAAACuE/3rXBOUxlMC4/s400/NOBEL-~1.JPGPedro Coutto
A deputada Luiza Erundina (matéria publicada na edição de segunda-feira da Folha de São Paulo) assumiu praticamente a tarefa de articular um programa conjunto entre o PSB, seu atual partido e o de Eduardo Campos, e a Rede Sustentável, de Marina Silva, em torno da sucessão presidencial e das eleições de 2014 para os governos estaduais. Por uma coincidência do destino, a ex-prefeita da cidade de São Paulo e a ex-ministra do meio Ambiente pertenceram aos quadros do PT e dele, por motivos diversos, se tornaram dissidentes da legenda.
Ao participar de encontro entre os líderes das duas correntes, Erundina defendeu a tese da elaboração de um programa conjunto através do qual tanto o Partido Socialista Brasileiro quanto a Rede manterão suas identidades próprias. Trata-se de uma convergência difícil, já que as identidades e disposições, no fundo, são colidentes. A começar pela sucessão paulista: o grupo do governador de Pernambuco defende o apoio à reeleição de Geraldo Alckmin. O da ex-senadora prefere apoiar o deputado Fábio Feldman.
PROBLEMAS
Mas as contradições são maiores do que esta. Marina Silva, mal ingressou no PSB, vetou a aliança de seu novo partido com o DEM, de Ronaldo caiado, em torno do governo de Goiás. Os socialistas apoiariam Caiado para o governo goiano, a corrente do líder ruralista daria apoio a Eduardo Campos para presidente da República. Com a atitude de Marina, tal projeto de acordo logo se evaporou. Goiás e São Paulo tornam-se exemplos de um processo de colisão, que, a meu ver, vai culminar com a escolha da candidatura presidencial pela convenção do PSB – uma definição entre Marina e Campos. Nas pesquisas do Datafolha e do IBOPE, Marina Silva tem o dobro das intenções de votos de Eduardo Campos.

Um programa conjunto capaz de manter as identidades de um e de outro é algo extremamente problemático. Melhor seria a fixação de um denominador comum capaz de abrigar (e contentar) as duas correntes. Esta, inclusive, foi a ideia central do projeto do presidente de Gaulle, quando, em 1965, instituiu o segundo turno nas eleições diretas, sempre que no primeiro o mais votado não alcançasse maioria absoluta dos votos válidos. A França, inclusive, foi o primeiro país do mundo a implantar esse sistema, adotado no Brasil a partir das eleições presidenciais de 1989.
Achava De Gaulle que nenhum partido possuía força suficiente para impor um programa de governo sem o respaldo do Poder Legislativo. A falta de sintonia entre o Executivo e o Parlamento inevitavelmente acabaria obstruindo as propostas e programas governamentais. Para enfrentar tal realidade – confirmada pelos fatos – e viabilizar a colocação em prática dos projetos voltados para o desenvolvimento econômico e social era imprescindível o acordo entre as tendências dos partidos vitoriosos nas urnas, dispostos a assegurar a governabilidade do país. Aliás como acontece nos paias que adotam o regime parlamentarista. A formação dos gabinetes depende da aprovação das coligações.

Não se trata, portanto, de unir as identidades, pois cada qual tem a sua. Trata-se, isso sim, de reunir os propósitos em torno de um programa comum, como é próprio da política, dentro dos limites do possível. Não adianta buscar o ideal, porque como , em 1965, definiu o grande Alceu Amoroso Lima, o candidato ideal não existe. A frase dita a integrantes da Juventude Católica que foram procurá-lo por ter apoiado, através de artigo no Jornal do Br4asil, a candidatura de negrão de Lima contra Flexa Ribeiro, na sucessão de Carlos Lacerda no Estado da Guanabara. Os jovens estudantes disseram: professor, Negrão é um conservador. “O candidato ideal não existe” – respondeu o ilustre acadêmico. Repórter do Correio da Manhã, nunca esqueci a frase.
Tribuna da Imprensa.

ECONOMIA - Banco Central americano prorroga os estímulos monetários.

Nossos economistas neoliberais devem estar enlouquecidos com o FED

A decisão do FED (Federal Reserve) de prorrogar os estímulos monetários de US$ 85 bilhões mensais na economia norte-americana é uma excelente notícia. O anúncio foi feito ontem. O banco central dos EUA justificou a decisão pelo fraco crescimento econômico, afetado também pela disputa fiscal que paralisou o governo por 16 dias.
Vocês se lembram de que, há alguns meses, a aposta e a torcida do mercado e da imprensa era pela retirada dos estímulos. Previam a catástrofe para o Brasil. Nada disso aconteceu.
Nossos economistas neoliberais – aqueles que aconselham a dupla Marina Silva/Eduardo Campos – devem estar enlouquecidos. Afinal, o FED quer mais crescimento e mais empregos, tudo ao contrário do que pregam por aqui, com cortes de gastos, mais juros, restrição ao crédito público etc.
Como vemos, estamos vivendo uma fase kafkiana na qual vale tudo na política monetária, fiscal e cambial dos países desenvolvidos; e nos emergentes temos que produzir recessão, importar cada vez mais manufaturados, desvalorizar nossos salários e valorizar nosso câmbio. Tudo em nome da doutrina e da ortodoxia, que eles, os EUA, jogaram no lixo há muito tempo.
Incertezas
Após a reunião de ontem, o FED também anunciou que manterá os juros referenciais próximos de zero.
Para o banco central dos EUA, faltam dados para avaliar completamente o momento vivido na economia do país.

POLÍTICA - O que a "traíra" precisa compreender,

O que Marina precisa compreender, segundo Lula


“A Marina precisa só compreender o seguinte: ela entrou no governo junto comigo em 2003 e ela sabe que o Brasil tem hoje mais estabilidade em todos os níveis do que a gente tinha quando entramos. Herdamos do governo Fernando Henrique Cardoso um país muito inseguro, não tinha nenhuma estabilidade, não tínhamos dinheiro sequer para pagar suas exportações.”
O lembrete é do ex-presidente Lula, em entrevista concedida após a solenidade comemorativa de 10 anos do Bolsa Família, realizada no Museu da República. É uma resposta, quase um apelo, à ex-ministra Marina Silva (PSB/Rede), que desde que foi para a oposição faz campanha com a história de que os governos FHC (1995-2002) é que deram estabilidade econômica ao país.
O ex-presidente Lula criticou Marina Silva – que, como em 2010, estará na oposição na disputa pelo Palácio do Planalto no ano que vem – e aconselhou-a a parar de “aceitar com facilidade” lições que estaria tomando na área de economia desde que passou a repetir o discurso econômico conservador, ortodoxo, do pessoal da Casa das Garças (ninho de economistas tucanos no Rio).
Compreender o que era o Brasil herdado de FHC
“Tínhamos US$ 37 bi de reservas – prosseguiu o ex-presidente -, dos quais US$ 20 bi eram do FMI, e hoje a gente tem US$ 376 bi de reservas, mais US$ 14 bi emprestados ao FMI. Tínhamos uma inflação de 12% quando cheguei e tem uma inflação hoje de 5,8%. Então, eu penso que Marina precisa não aceitar com facilidade algumas lições que estão lhe dando. Ela precisa acompanhar com mais gente o que era o Brasil antes de a gente chegar”.
Para o ex-presidente Lula tudo indica que Marina “deve ter se esquecido” que “em 1998 a política cambial fez esse Brasil quebrar três vezes”, quando o então presidente FHC manteve o câmbio fixo para se reeleger e seu governo precisou FHC ir de pires na mão três vezes pedir socorro ao FMI.
Ao ser questionado sobre qual marca tem o governo de sua sucessora – Marina diz que é a do “retrocesso” -, o ex-presidente afirmou que é a da continuidade. “O governo Dilma tem uma marca muito forte e que foi a razão de sua eleição: dar continuidade ao programa de inclusão social e desenvolvimento que vínhamos fazendo”, afirmou. Ele observou que nesse momento o melhor que sua sucessora tem a fazer é governar direito o Brasil e não se preocupar com pré-campanha para a reeleição.
O ex-presidente reafirmou que seu objetivo principal agora é reeleger a presidenta Dilma e para isso, justificou, voltou a ter uma atividade política “um pouco mais intensa”. Intensificou-a também, conforme explicou, porque outro de seus objetivos é militar contra a negação da política e dos políticos observada em parte dos protestos de rua de junho e observada também na mídia.

POLÍTICA - Filha de Waldir Pires responde a Jorge Bastos Moreno.


Filha de Waldir Pires responde a Jorge Bastos Moreno


Ana Cristina Pires Duarte 
Que pena, Moreno, que você prefira insistir na sua versão de um lado.
Há muitos anos, um filme primoroso, Kramer versus Kramer, mostrou como é injusto tomar uma posição e mais injusto ainda  (porque aí pode-se manipular) quando se tem o poder do acesso à massa da população.
Meu pai, graças a Deus, está vivo, lúcido, ativo, e em perfeitas condições de contar a história para quem quiser ouvir. Se eu fosse jornalista é o que eu faria – ouviria. Como filha, fica-me o gosto amargo de ter que ler, num jornal que é praticamente o único no Rio de Janeiro, uma nota como essa sua de hoje. Ela é injusta e inverídica.
Diferentemente do Dr Ulysses que inicialmente apoiou o golpe militar em 64, meu pai, professor de Direito Constitucional e Consultor Geral da República ficou junto com Darcy, Chefe da Casa Civil, em Brasília tentando que o Congresso não fizesse a sabotagem que fez declarando vaga a presidência quando o presidente João Goulart estava no Rio Grande do Sul para fazer a resistência .
Se Jango não fosse um humanista e um pacifista, se ele fosse inflado pela vaidade que infelizmente corrói muitos políticos, certamente teria tido um derramamento de sangue numa revolução DE FATO  e não essa inventada pelos golpistas para parecerem democratas.
Com 11 anos eu viví intensamente a angústia daqueles dias, daquelas semanas, daqueles meses. Com 11 anos, eu não perdia uma só coluna do Cony. Era a forma de me sentir mais acalentada, de não me sentir tão sozinha e de acalmar a dor da incerteza do destino de meus pais. Eu tinha ficado em Brasília com uma tia porque já estava no exame de admissão e os boatos eram que meu pai e Darcy tinham sido mortos. Minha mãe e Berta Ribeiro (antes de conseguirem ir para o Uruguay) viviam escondidas, perseguidas e ameaçadas. A solidariedade era quase nenhuma porque o medo era enorme.  Poucos foram os deputados que honraram a Constituição e reagiram quando o presidente da Camara, manietado, deu o golpe declarando vaga a Presidência da República. Alguns deputados, como Ruibens Paiva, foram heróicos tentando salvar companheiros perseguidos já naqueles primeiros dias. Outros, infelizmente, omissos, entre eles Ulysses.
Só no dia 2 de julho, dia da independência da minha terra, foi que me juntei aos meus irmãos ( todos menores e que tinham sido levados para Salvador para serem preservados), e fomos enfim autorizados – esse grupo de 5 perigosos cidadãos entre 11 e 2 anos – a sair do nosso país para encontrar nossos pais e começar longos anos de exílio.
Será que sabem o que é isso? Não! Só quem viveu sabe. Quem não viveu até chega a pensar que foi “uma boa” aprender espanhol e depois viver em Paris, falando francês. Não passa pela cabeça das pessoas o que é você não poder fincar raízes porque não sabe o que vai acontecer amanhã; o que é você não poder ou não querer se apegar a um lugar porque sabe que terá que deixá-lo; o que é você chorar ao ouvir e a ter que cantar na escola o hino nacional dos outros e pensar no seu; o que é você se sentir sempre um estranho no ninho.
Conto tudo isso para lhe dizer que acho que merecemos respeito. Que seria digno ter um pouco de consideração e não distorcer os fatos muito menos quando eles envolvem pessoas que viveram o que nós vivemos. Meu pai não é um político qualquer; ele é exemplo de integridade, desprendimento, retidão, luta, solidariedade e sobretudo completamente desprovido da vaidade que você INVERTE na sua versão,
Entendo que, como assessor de imprensa de Ulysses, você tenha ouvido reiteradas vezes o que narra, mas creio que como jornalista, com uma coluna tão lida, no jornal que é praticamente o único do Rio, você poderia  ajudar a história fazendo um esforço de não ficar só com a sua versão mas tentar conversar com pessoas próximas aos 2 personagens citados, meu pai e  Ulysses. Muitos ainda estão aí como o senador Pedro Simon, a Maria da Glória Archer (tão amiga de Mora), o Mino Carta, Dalva Gasparian (viúva e companheira política constante de Fernando) etc, etc,etc.
Como homem da imprensa, procure na imprensa os mapas dos resultados eleitorais daquela época e veja o quanto é esdrúxulo você dizer que “Waldir devia a Ulysses”. A Bahia, terra de Waldir, foi o ÚNICO estado onde Ulysses venceu. Todos os outros, com todos os governadores ( inclusive o estado de Ulysses) tiveram um resultado desastroso.
Mas já era o esperado desde que aquela enxurrada de governadores e lideranças chegaram a Ondina para colocar para meu pai a necessidade do nome dele na composição da chapa majoritária. O partido precisava de fôlego já que Ulysses era irredutivelmente candidato. Waldir estava forte; tinha feito um admirável trabalho na Previdência e tinha tido a maior vitória entre todos os governadores do PMDB derrotando ACM  com mais de um milhão e meio de votos de frente. O gesto de Waldir, abrindo mão do grande sonho de governar o seu Estado só se vê em pouquíssimos e ferrenhos idealistas. Portanto, quem devia a quem? Quem foi inflado pela vaidade?
Eu, Cristina, me sinto com todo o direito e o DEVER de dizer que não aceito essa deturpação. E digo mais, assim como existe política e politicalha, existe História e estória. A escolha depende da responsabilidade de cada um.
Até acredito que seja uma falha meu pai não “perder tempo” colocando os pingos nos “is” – preferir usar esse tempo “conversando” com estudantes, fazendo palestras (sempre gratuitas, é bom que se diga), cumprindo com honra e trabalho o seu mandato de vereador – porque acho que poucas pessoas podem narrar, quase 70 anos de vida pública do país com o conhecimento de causa, tendo vivido diretamente e intensamente cada um dos episódios históricos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

POLÍTICA -


PT pensa em quatro palanques no Rio; mas como fica o tempo na TV?

Pedro do Coutto
Numa entrevista ao repórter Fernando Rodrigues, Folha de São Paulo de sexta-feira 25, o deputado Rui Falcão, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, afirmou que, no Rio de janeiro, na campanha pela sucessão, a presidente Dilma Rousseff pensa em convidar os quatro candidatos que disputam as eleições estaduais para os comícios que realizará no estado. Falcão incluiu Anthony Garotinho (PR) na lista dos que apoiam Dilma, ao lado de Lindbergh Farias (PT), Luiz Pezão (PMDB, candidato de Sérgio Cabral) e Marcelo Crivella (PRB). Só ficaram de fora Cesar Maia (DEM) e Miro Teixeira(PROS). O PSDB ainda não indicou nenhum pré-candidato.
Mas existem pelo menos duas dúvidas. Se os palanques dos comícios serão abertos a todos os que desejarem, ou se haverá um candidato estadual escolhido para cada palanque que for montado. A primeira alternativa é a mais lógica porque, dessa forma, aquele que não desejar compartilhar não precisa comparecer, basta adotar uma auto exclusão. Para Dilma tal solução é ótima, já que todos falarão a seu favor. Mas para os que buscam o Palácio Guanabara o palanque aberto impede que, ao lado da candidata principal, possam enfrentar-se entre si. Esta a primeira dúvida.
A segunda  é mais complicada. No caso das campanhas compartilhadas, como ficará a divisão, no RJ, do tempo nos horários políticos da TV e do rádio? Pois nada impede que os candidatos de cada partido usem as imagens de suas presenças nos comícios (e atos públicos) para preenchimento dos espaços que lhes cabem. Como se sabe, tais períodos são divididos de acordo com o número que cada bancada possui na Câmara Federal. Este aspecto não foi abordado por Rui Falcão. Tivesse sido, o jornalista Fernando Rodrigues, competente profissional, o aproveitaria.
DIFÍCIL DE CONCRETIZAR
A divisão dos comícios é uma ideia engenhosa, na teoria, mas de difícil êxito na prática. Vão surgir conflitos inevitáveis em torno da duração dos discursos e dos temas abordados. Ocorre-me um exemplo de tal tentativa que acabou em conflito na campanha de 1960. Disputavam a presidência da república o ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros, o ex-ministro da Guerra, general Teixeira Lott, e o ex-prefeito da cidade de São Paulo, Ademar de Barros. Eram candidatos ao governo do estado da Guanabara, que nascia junto com Brasília, o deputado Carlos Lacerda e os  deputados Sérgio Magalhães, Tenório Cavalcanti, Mendes de Moraes, também ex-prefeito em cujo período o Maracanã foi construído.
Como Sérgio Magalhães e Mendes de Morais apoiavam Lott, foi combinado um palanque duplo. Um domingo à noite, no Largo do Machado, primeiro de uma série de divisões que não houve, o primeiro e último desastre em matéria de compartilhamento. Explodiu um conflito entre adeptos de Sergio e de Mendes, com vaias a este acompanhadas de pedras arremessadas contra o palanque fracassado. Repórter do Correio da manhã, estava na cobertura. A meu lado, pelo Diário de Notícias, o então repórter Sérgio Cabral, pai do atual governador. Os fotógrafos também tiveram que se esquivar da violência. Uma das pedras o atingiu de raspão ferindo Sérgio Cabral.
Impossível a convivência. A tese do palanque duplo começou e acabou naquela noite. Não sei – em política não se deve prever nada – como vai acabar, na prática, a tese do palanque múltiplo na campanha eleitoral no Rio em 2014. Acentuo apenas sua difícil implantação.
Fonte: Tribuna da Imprensa online.

PETRÓLEO - EUA e o fim da era do petróleo.


EUA não vislumbram o fim da era do petróleo



por Heloisa Villela, de Nova York

Quarenta anos depois do primeiro choque do petróleo — o embargo que provocou o caos na distribuição de gasolina e na economia dos Estados Unidos nos anos 70 –, o país volta a discutir a dependência do combustível e, consequentemente, a relação com os grandes produtores.
Agora sob nova ótica: a possibilidade de autossuficiência graças ao aumento da produção propiciado pelo fraturamento hidráulico, conhecido como fracking, uma tecnologia de consequências no mínimo discutíveis.
Proibida na França, discutida na Grã-Bretanha e no Canadá, motivo de protestos no mundo inteiro, a tecnologia foi adotada rapidamente nos Estados Unidos.
A produção aumentou tanto que o país já ultrapassou a Rússia, este ano, e assumiu a liderança mundial na produção conjunta de petróleo e gás natural.
Segundo dados do governo, a produção doméstica de petróleo pode chegar a 8,4 milhões de barris por dia no ano que vem, quase o mesmo nível da Arábia Saudita.
Quatro décadas separam a possibilidade da autossuficiência dos tempos do embargo.
Nesse período, a política energética e a necessidade de garantir a oferta do combustível comandaram as ações externas do país. E ainda preocupam.
Empresários, representantes das Forças Armadas e ex-funcionários do governo norte-americano se reuniram, na semana passada, para discutir o tema no seminário “Embargo da OPEP + 40: Seminário Nacional sobre Segurança Energética”.
Pela composição das mesas se viu não só a importância do assunto para o país, mas ficou claro que o tema é política de Estado, não de partidos.
Entre os palestrantes estavam os presidentes da GE e do Fedex, os ex-secretários de estado Henry Kissinger e Madeleine Albright, os ex-secretários de defesa Leon Panetta e James Schlesinger, além do general James Conway e do almirante Dennis Blair.
Kissinger era secretário de Estado em 1973, durante o primeiro choque do petróleo, e disse que nos anos seguintes ao embargo “não se podia fazer planos no Oriente Médio sem levar em conta o mercado do petróleo”.
Naquela época, a produção americana estava em queda. Os poços do Texas estavam secando. O país passou a importar o dobro do que comprava do exterior, se tornando ainda mais dependente dos produtores do Oriente Médio.
Quando eles declararam o embargo, o preço do combustível quadruplicou nos Estados Unidos. Racionamento, fila nos postos de gasolina…
Este é o retrato dos anos Carter.
Segundo Henry Kissinger, essa dependência em relação ao Oriente Médio está mudando agora, por causa do aumento da produção de combustíveis nos Estados Unidos.
“A redução da distância entre oferta e demanda na América do Norte tem consequências estratégicas gigantescas”, afirmou.
O almirante Blair acredita que os Estados Unidos poderão se distanciar um pouco dos conflitos no Oriente Médio, mantendo tropas nas redondezas caso sejam necessárias em uma situação de crise.
Um relatório do Citigroup, divulgado no começo do ano, diz até que pode haver um pouco mais de tensão nas relações dos Estados Unidos com países como a Arábia Saudita, por conta de princípios democráticos, agora que o país depende menos do petróleo do Oriente Médio.
O grande sonho dos Estados Unidos é solapar o poder da Organização dos Produtores e Exportadores de Petróleo (OPEP). Mas, ao mesmo tempo, Washington precisa manter boas relações com a organização.
Os políticos norte-americanos tentaram comprar briga com a OPEP no passado. Aprovaram uma lei no Congresso para permitir que a organização fosse processada, nos Estados Unidos, por formação de cartel.
A lei, aprovada na Câmara e no Senado em 2007, dava ao Departamento de Justiça o direito de processar a OPEP, mas o então presidente George Bush avisou que vetaria qualquer medida nessa linha porque incitaria uma retaliação contra negócios norte-americanos no exterior e afetaria as relações dos Estados Unidos com os países produtores de petróleo.
O jogo é complicado e declarar independência política com relação ao Oriente Médio agora, com o aumento da produção interna, parece precipitado.
A dependência do petróleo externo é menor, mas não desapareceu. No longo prazo, o interesse estratégico e a garantia de fornecimento futuro exige a formação de reservas. A perspectiva de autossuficiência não é assim tão simples.
Enquanto o preço do barril de petróleo estiver na casa dos US$ 100, como está agora, compensa explorar óleo e gás de xisto com o fracking, uma técnica cara. Mas se o preço cair, o fracking se tornará economicamente inviável. Basta a Arábia Saudita abrir a torneira para mudar os preços no mercado internacional.
Em 2005, os Estados Unidos importaram 60% do petróleo consumido no país. Hoje, importam 40%.
Uma queda boa, mas falta um bocado para a autossuficiência. Por isso mesmo, o jogo de xadrez com o Oriente Médio vai continuar.
A maioria absoluta dos analistas e economistas norte-americanos descreve o choque do petróleo dos anos 70 como represália ao apoio dos Estados Unidos a Israel durante guerra do Yom Kippur.
O economista político nova-iorquino Rob Urie discorda, como deixou claro no site Counterpunch:
“Os choques do petróleo dos anos 70 foram vendidos como sendo de natureza geopolítica. O primeiro, em 1973, até foi chamado de ‘embargo do petróleo árabe’ apesar de o Irã, até aquele momento um estado cliente dos EUA, e a Venezuela, serem os principais membros da OPEP a favor do embargo e nenhum dos dois ter um grande problema com as relações Israel-EUA. As multinacionais do petróleo baseadas nos Estados Unidos foram os atores principais que mantiveram o petróleo fora do mercado para fazer com que os preços subissem. O que ficou demonstrado com os embargos foi o efeito que o acesso limitado ao óleo tinha nas economias industriais do Ocidente, que foram estruturadas para serem totalmente dependentes de ofertas plenas e de baixo custo”.
Urie diz que o problema, nos Estados Unidos, está na origem, no modelo de desenvolvimento.
“O capitalismo, até onde o termo faz uma descrição precisa, é uma política econômica que construiu este mundo no qual a ‘energia’ desempenha o papel econômico que tem. No começo do século XX um grupo de industriais fez lobby junto a governos locais para destruir o transporte coletivo que existia e assim poderem vender carros, pneus, gasolina e estradas. A última discussão séria a respeito da conservação de energia nos Estados Unidos aconteceu quando Jimmy Carter estava na Casa Branca. Em meio à guerra mais recente dos Estados Unidos no Iraque, a administração George W. Bush aprovou uma subsídio para incentivar as empresas a comprarem os carros que mais bebem gasolina no planeta – os Hummers. O aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis ameaça a existência da vida no planeta. Para falar de outra maneira, mais de um milhão de pessoas morreram no Iraque para que ‘nós’ no Ocidente pudéssemos dirigir nossos SUVs. E o Iraque foi apenas uma das guerras travadas pelos Estados Unidos por causa do petróleo”.

POLÍTICA - Indignação: escândalo se arrasta e há 15 anos tucanos emperram investigação




“Procurador manda apurar omissão em caso Alstom” e “Procurador manda investigar demora para investigar Alstom”. São dois títulos da Folha de S.Paulo hoje, na 1ª página e no caderno interno. Está tudo no jornal: o procurador-geral da República (PGR), Rodrigo Janot, instaurou uma apuração interna sobre o fato de o órgão que dirige não ter ajudado a Suíça a investigar o caso Alstom.
É aquele escândalo pelo qual a multinacional, dentre outras formas integrando o cartel montado nos transportes e denunciado pela Siemens, é acusada de pagar R$ 1,5 bi em propina e vantagens para integrantes de três governos tucanos de São Paulo, de Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin.
Vocês estão acompanhando o caso. A irritação do PGR ocorreu porque só agora se descobre que a Suíça pediu a colaboração das autoridades do Ministério Público para apurar o caso, esperou dois anos e como não recebeu nenhuma resposta, nenhuma palavra, arquivou parte do processo que corria por lá, na Europa.
Pedido foi arquivado em pasta errada e esquecido!!!
Depois da descoberta do arquivamento de parte do caso na Suíça, só aí o gabinete da Procuradoria da República em São Paulo informou que as providências não foram tomadas porque o pedido suíço foi arquivado numa pasta errada do gabinete do procurador responsável pelo caso Rodrigo de Grandis, e foi esquecido. Só dois anos depois e quando a Suíça o arquivou, lembraram-se do pedido.
É, o procurador Rodrigo de Grandis é o mesmo que há pouco tempo, depois de exaustivas investigações que levaram à conclusão de que o vereador paulistano Andrea Matarazzo (PSDB) precisava ser intimado para falar sobre o caso (ele foi secretário de Estado em áreas em que a Alstom/Siemens atuam), decidiu que não era o momento e que se fizessem mais e mais investigações.
Tem ou não tem razão o jornalista Ricardo Kotscho quando escreve essa pensata em seu blog Balaio, à qual dá o titulo de “Propinoduto tucano: 15 anos de mistério e impunidade“. Kotscho diz que, no escândalo, “há muitas perguntas a serem respondidas”. Põe perguntas nisso

EUA - Os Estados Unidos são assim.

Kennedy e o Brasil

Foto: http://glo.bo/Sfbfh
Há 50 anos, no dia 22 de novembro de 1963, uma sexta-feira, morria John Kennedy, presidente dos EUA, atingido por três tiros em Dallas. Lyndon Johnson assumiu a presidência, e, quatro meses depois, um golpe militar fez o Brasil mergulhar em 21 anos de ditadura. Como se sabe, o governo americano deflagrou na época a operação Brother Sam, revelada no Brasil, em 1976, por Marcos Sá Corrêa, então repórter do “Jornal do Brasil”. Tratava-se de uma força-tarefa americana para dar apoio logístico aos militares golpistas caso eles tivessem que enfrentar a resistência por parte de forças leais ao presidente João Goulart. Meio século depois, o historiador Carlos Fico, autor de O Grande Irmão: da operação Brother Sam aos anos de chumbo”, analisa a intervenção americana nos assuntos brasileiros, que continua até hoje.
A entrevista foi publicada na coluna de Ancelmo Gois, jornalista, pubicada no jornal O Globo, 27-10-2013.
Eis a entrevista.
Se Kennedy não tivesse sido assassinado, a Brother Sam teria acontecido?
Teria. Era uma política de Estado. Desde Eisenhower havia uma preocupação para que não surgissem novas Cubas na América Latina. Kennedy autorizou em 1962 preparativos para desestabilização e queda do governo João Goulart. Ele tinha uma ideia de que a América Latina era a região mais perigosa do mundo. Por influência do irmão Robert, ele ficou impactado pela estratégia de guerrilha, estudou muito o assunto. Em relação ao Brasil, isso implicava desestabilizar Goulart, inclusive mandando dinheiro para políticos de oposição. Kennedy passava uma imagem de renovação, mas a operação aconteceria mesmo se ele estivesse vivo.
A existência da operação influenciou Jango para que não houvesse reação armada ao golpe?
Foi decisiva. Ele foi avisado da operação por San Tiago Dantas (ex-ministro de João Goulart) com o golpe já em curso. Jango não resistiu porque tinha índole pacifista, mas também porque soube da decisão dos EUA de reconhecer o novo governo logo em seguida ao golpe.
A divulgação de que os EUA espionam e-mails até de presidentes mundo afora, inclusive no Brasil, é uma nova forma de intervenção?
Não mudou nada. Os EUA são um país bélico, vivem em estado de guerra. A reação da nossa presidente e da Angela Merkel à espionagem é retórica. As documentações de espionagem antes, durante e depois do golpe militar eram abundantes e sofisticadas. É lógico que a revelação de espionagem, como aconteceu agora, é sempre chocante. Mas os EUA são assim.

BLACK BLOCS E O INFERNO ANUNCIADO.

Black blocs, o assassinato do menino Douglas e o inferno anunciado…


"Os jovens de periferia não querem mais ver irmãos, parentes, amigos, colegas ou apenas conhecidos, serem enterrados porque cometeram o crime de terem nascido, em geral negros, e viverem nas periferias. Eles estão dizendo chega. E a nossa democracia, sim, democracia, não tem dado conta de resolver esse problema". O comentário é de Renato Rovai em artigo publicado pelo sítio Rede Brasil Atual - RBA, 29-10-2013.

Eis o artigo.

No dia 3 janeiro à noite, bem antes das Jornadas de Junho, uma chacina chocou São Paulo. Laércio de Souza Grimas, o DJ Lah, de 33 anos, do grupo Conexão do Morro, foi assassinado com outras seis pessoas num bar do Campo Limpo, zona Sul de São Paulo. Bar que ficava em frente ao local onde tinha sido assassinado o pedreiro Paulo Batista do Nascimento, numa execução que, filmada, acabou no Fantástico da Rede Globo.
No dia 7 de janeiro, ainda em férias, escrevi um post sobre o assunto. Um dos trechos: “Segue um relato-reportagem, a meu pedido, feito pelo repórter Igor Carvalho sobre o caso do massacre de Campo Limpo e seu contexto. Igor esteve ontem no local da chacina e conversou com uma série de pessoas que pediram anonimato. O clima em Campo Limpo e em outros bairros da periferia é terrível. Misto de revolta e medo. Perfeito para produzir reações extremadas. Quem acha que a situação atual é ruim, vai ter saudades do hoje. São Paulo pode virar um inferno. Eu, acima assinante, responsabilizo Alckmin por isso. Foi ele quem disse que quem não reagiu está vivo. E que de certa forma autorizou a barbárie.”
Este texto não foi premonitório. Era simples análise jornalística com base em informações apuradas pelo repórter Igor Carvalho e por mim. Uns sessenta dias após escrevê-lo, encontrei-me com um personagem importante no contexto da periferia paulistana. No meio da conversa-entrevista ele me pediu para desligar o gravador e disse algo mais ou menos assim: “O povo vai reagir, a molecada tá se mexendo e vai para cima… A coisa vai ficar feia”.
Lembrei disso no dia 6 de junho, quando por acaso me encontrei no meio da conflito do primeiro ato do Movimento Passe Livre no centro de São Paulo. Fiquei impressionado com o olhar de raiva daqueles garotos e garotas que escondiam seus rostos sob camisetas e pedaços de pano. E registrei aqui no blogue um post do qual extraio o trecho abaixo:
“Eram garotos pobres, com muita raiva. Garotos e garotas indignados e revoltados. E que pareciam não estar ali só por conta do aumento da passagem, mas porque precisam gritar que existem (…) A periferia brasileira está em movimento e em disputa. E se a cidade não passar a ser pensada para esses milhões de jovens, em breve algo muito maior do que aconteceu na quinta vai estourar.”
No domingo, Douglas Rodrigues, de 17 anos, foi baleado de forma covarde por um Policial Militar. E antes de morrer, segundo seu irmão de 12 anos, perguntou: “Senhor, por que o senhor atirou em mim?”
Ainda no domingo, as ruas da Vila Medeiros foram tomadas por pessoas revoltadas com este fato. Ontem à noite, foi a rodovia Fernão Dias que literalmente pegou fogo. Atacaram carros, caminhões, imóveis… Uma revolta generalizada escrita em sangue pelas últimas palavras de um garoto de 17 anos: “Senhor, por que o senhor atirou em mim?”
É a partir de histórias como essa que as cenas de agressão ao coronel Reynaldo Rossi, que geraram comoção midiática, precisam ser entendidas. Vejam bem, não estou dizendo que precisam ser justificadas.
É a partir de histórias como a do assassinato de Douglas que muitas ações dos blacks blocs nas ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo devem ser entendidas. Vejam bem, não estou dizendo que devem ser justificadas.
Os jovens de periferia não querem mais ver irmãos, parentes, amigos, colegas ou apenas conhecidos, serem enterrados porque cometeram o crime de terem nascido, em geral negros, e viverem nas periferias. Eles estão dizendo chega. E a nossa democracia, sim, democracia, não tem dado conta de resolver esse problema. E eles perderam o medo de perder a vida se necessário for para mostrar que não irão bovinamente para covas rasas de cemitérios. Assassinados por polícias que deveriam preservar suas vidas. E vitimados por um Estado que não lhes garante futuro e nem paz.
A ação black block no Brasil (e ela é diferente de outros países), se alguém ainda tinha dúvida, é fruto, sim, também disso. E principalmente disso. Da violência policial. Os black blocs nunca lutaram por vinte centavos, por transporte melhor ou por melhores salários dos professores. Esses meninos têm ódio da polícia. Eles pulam de ódio da polícia. Eles querem derrotar a polícia. Não são só garotos e garotas de periferia. Mas os que não são também não aceitam como legítima a ação das forças policiais. E querem derrotar a polícia.
Se acho isso bom? Se acho isso ruim? Não acho nada. Quero que a democracia que construímos seja capaz de se relacionar com essa questão sem tentar eliminar fisicamente esses meninos e meninas. E sem criminalizar suas ações e reações.
E que a nossa inteligência seja capaz de ir além de simplismos como a de chamá-los de vândalos e fascistas.
Até porque a preguiça intelectual também é uma forma de violência dos que têm o poder de pautar o debate na sociedade. Os black blocs não precisam da minha defesa. Até porque não me associo às suas práticas. Mas entendo perfeitamente os garotos e garotas que têm ódio da polícia. Se Douglas, fosse seu filho, irmão, primo, amigo, será que você não entenderia?
– Senhor, por que o senhor atirou em mim?

ECONOMIA - O escândalo que Gesner de Oliveira protagonizou no CADE.

Economia


O escândalo que Gesner de Oliveira protagonizou no CADE

Talvez tenha sido o primeiro jornalista brasileiro a entender a importância da defesa da concorrência em um ambiente de desregulação econômica. Havia enormes riscos na substituição de monopólios públicos por privados.
Quando se anunciou a reestruturação do CADE (Conselho Administrativo de Direito Econômico) passei a defendê-lo. E fui convidado pelo presidente Gesner de Oliveira a prefaciar o livro de Heloisa Salgado sobre o novo CADE.
O encantamento durou até o caso da compra da Antárctica pela AMBEV.
O que Gesner (no texto abaixo) apresenta como "fato consumado" foi um escândalo protagonizado especialmente por ele.
Todos os estudos indicavam a impossibilidade da fusão, devido à concentração em diversas estruturas de venda - supermercados, bares e restaurantes etc.
O CADE se valia de um software norte-americano que permitia identificar os pontos de concentração. No caso da Ambev, no voto de uma das conselheiras os resultados do software foram substituídos por consultas ao Guia Quatro Rodas.
O voto de Gesner foi um vexame. Sabendo antecipadamente que votaria a favor da fusão, advogados interessados no tema foram até ele dispondo-se a fornecer subsídios para seu voto, para ter um mínimo de consistência. A arrogancia do poder foi tamanha que Gesner abriu mão do auxílio e redigiu um voto ralo, desmoralizador, endossando a operação.
A desmoralização culminou com Grandino Rosa. Indicado presidente do CADE, coordenando a votaçào da operação de compra da Garoto pela Nestlé. O CADE opinou pela não aprovação. A reaçao de Grandino foi uma explosão de indignação e o brado paa que a Nestlé contestasse a decisão na Justiça. O próprio presidente do CADE desmoralizando a decisão do colegiado.
O direito econômico brasileiro tem bons nomes para festejar. Mas o seminário da FGV convidou para a parte central dois nomes que desmoralizaram o direito econômico no Brasil.
SEMINÁRIO DISCUTE NOVO CADE E LANÇA PORTAL DA CONCORRÊNCIA
 
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) ganhou novas funções com a entrada em vigor, no ano passado, da lei que reformulou a defesa da concorrência no Brasil. Essas mudanças, porém,  que dão ao Cade novos mecanismos no combate a cartéis e no exame prévio de fusões e aquisições, ainda estão longe de serem totalmente compreendidas pelos especialistas e a sociedade em geral.
 
Para discutir essas questões, os ex-presidentes do Cade, Gesner Oliveira, sócio da GO Associados, e João Grandino Rodas, atual reitor da USP e presidente do Centro de Estudos de Direito Econômico e Social (Cedes), promovem seminário hoje, na Fundação Getúlio Vargas, com o tema “A Nova lei da Concorrência e a Economia Brasileira”. Além do seminário, será lançado o “Portal da Concorrência, Regulação e Infraestrutura”, com o objetivo de gerar conteúdo em torno do tema, funcionar como um observatório e também como um canal de aprendizado colaborativo. Para isso, contará com a participação de especialistas do Brasil e do exterior, disponibilizará um banco de dados bastante diverso – pelo qual será possível por exemplo acompanhar o andamento de PPPs e concessões no Brasil –, e promoverá vídeo aulas e palestras gratuitas.
 
Após o seminário, será lançado, também na FGV, o livro “Direito e Economia da Concorrência”, em sua segunda edição, escrito por Gesner Oliveira e Grandino Rodas.  “Até 2012, as operações chegavam ao Cade como fatos consumados para então serem analisadas pela autarquia. Foi assim com a criação da Ambev, a partir da fusão entre Brahma e Antarctica, ou com a junção de Sadia e Perdigão. Com a nova lei, as negociações passaram a ser submetidas ao Cade antes da transação acontecer”, afirma Gesner Oliveira.
 
“A obra constitui importante contribuição para uma obra mais ampla, de toda a sociedade, de construção institucional da defesa da concorrência no país”, afirma José Eduardo Cardozo, atual ministro da Justiça do Brasil, que assina o prefácio do livro.

POLÍTICA - Passe Livre, IPTU, Black Blocs e PCC: é a geleia geral.



jose Passe Livre, IPTU, Black Blocs e PCC: é a geleia geral
Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo: até que enfim...

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, costumava dizer meu colega Juarez Soares, filósofo popular e comentarista esportivo, para separar os assuntos em pauta.
Os fatos dos últimos dias, porém, como mostram as manchetes desta quarta-feira, desmentem a máxima do velho amigo e nos mostram como uma coisa tem a ver com outra coisa, somando-se a mais outras coisas e, assim, vamos chegando à grande geleia geral, que mistura tudo num rolo só, deixando no ar um sentimento de descontrole e mal estar difícil de ser mensurado e explicado.
O que tem a ver o Movimento Passe Livre, com o aumento do IPTU, os atos de banditismo dos Black Blocs e o crime organizado do famigerado bando do PCC (Primeiro Comando da Capital), que, ao que tudo indica, voltou a botar a cabeça de fora?
Vou começar do começo para ver se consigo me fazer entender.
Em plenas férias de janeiro, com a posse do prefeito eleito Fernando Haddad e a massa curtindo férias na praia, estava previsto o aumento das passagens de ônibus, um ritual já marcado todos os anos no calendário, que costuma passar batido como as chuvas de verão.
A presidente Dilma Rousseff, às voltas com o controle da inflação que voltava a subir e a preocupar o governo federal naquela altura do campeonato, pediu a Haddad e aos outros prefeitos de capitais que adiassem o aumento para uma data mais conveniente.
O aumento de 20 centavos nas passagens, calculado abaixo dos índices de inflação, veio no começo de junho, sem aviso prévio nem maiores explicações à população. Junto com ele começaram os protestos do Movimento Passe Livre, de quem eu nunca havia ouvido falar, mas logo ganharia as ruas e generoso espaço na grande imprensa.
A princípio limitado a algumas centenas de estudantes que protestaram na avenida Paulista, o movimento cresceu e se espalhou por todo o país, a partir do momento em que a Polícia Militar de São Paulo resolveu partir para a porradaria generalizada, após os primeiros atos de vandalismo em São Paulo.
O aumento das passagens logo seria cancelado, por sugestão da própria presidente Dilma, mas a massa não saiu mais das ruas e foi multiplicando seus protestos e reivindicações pelo país afora, pedindo a melhoria dos serviços públicos em geral, a punição dos corruptos e a felicidade geral gratuita. Os índices de aprovação e popularidade da presidente Dilma e de governantes em geral despencaram.
Ninguém conseguia explicar direito o que movia as multidões sem líderes nem bandeiras unificadas, mas assim como surgiram do nada elas voltaram para suas casas no começo das férias de julho, deixando, porém, um rastro de atos de violência comandados por grupos de mascarados, os chamados "black blocs", que apareciam ao final das manifestações para quebrar tudo, a cada dia mais ousados, desafiando os policiais.
Os protestos, agora cada vez menores, promovidos em geral por categorias profissionais em luta por melhores salários, serviam como pretexto para os vândalos barbarizarem dia sim e outro também, fechando as principais vias de grandes capitais, depredando, botando fogo e enfrentando a polícia com coquetéis molotov, bombas, pedras, barras de ferro e outras armas improvisadas. Na sexta-feira, espancaram e quase lincharam um coronel da PM no centro de São Paulo. Virou rotina.
Por lei, eu sei, cabe às polícias estaduais zelarem pela ordem pública, mas logo ficou claro que elas estavam perdendo a batalha, despreparadas para enfrentar esta nova criminalidade, que evoluiu para o banditismo puro e simples, com saques e roubos a lojas.
No começo de outubro, já se tratava de um problema nacional. No último dia 8, escrevi aqui mesmo no Balaio um texto em que perguntava: "Que espera o governo federal para agir contra a onda de vandalismo?". Fui criticado por muitos leitores, para quem o governo federal não tinha nada a ver com isso e os governadores que se virassem para garantir a segurança dos seus cidadãos.
Voltei ao assunto ontem, cobrando novamente uma posição do governo central, e desta vez a resposta foi imediata: "Governo federal propõe ação conjunta com SP e Rio para controlar protestos", informa manchete da página A18 do Estadão de hoje.
Diz o jornal: "Um dia após os atos de vandalismo na Fernão Dias, o Ministério da Justiça propôs uma frente de contenção conjunta da violência e discutirá com autoridades de Segurança de São Paulo e Rio procedimentos para investigar protestos, podendo até federalizar parte das ações".
Quatro meses e um dia depois, a ficha, enfim, caiu. "Vamos discutir uma estratégia comum para enfrentar o vandalismo. A troca de informações e de dados pressupõe uma ação comum", anunciou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que se reunirá amanhã com os secretários de Segurança do Rio e de São Paulo.
No mesmo momento em que Cardozo anunciava a entrada do governo federal na história, eu comentava com o Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News:
"Quem está por trás destes black blocs? A quem interessa criar este clima de violência e insegurança no país? A bandidagem está mais organizada do que a polícia. E quem tem força para organizar estes atos e decretar toque de recolher, como aconteceu hoje na zona norte de São Paulo? Só pode ser o PCC, que comanda os presídios paulistas e o crime organizado".

Até aquele momento, ninguém havia levantado esta hipótese. Era mera conclusão minha, por eliminação: se a violência não interessava nem aos partidos do governo nem aos da oposição, se não há nenhum golpe militar em marcha, quem mais poderia ser?
Manchete de hoje da Folha responde: "Facção criminosa é suspeita de atuar em protesto em SP _ Polícia investiga ação de crime organizado no ato que fechou a Fernão Dias".
Ainda na mesma noite de terça, dois outros fatos interligados fecharam o círculo: a Câmara Municipal de São Paulo aprovou aumentos do IPTU (Imposto Territorial Urbano) entre 20% e 35%, exatamente para não ter que aumentar as passagens de ônibus e continuar subsidiando as empresas, ao mesmo tempo em que o presidente do Senado, Renan Calheiros, para fazer uma média com a moçada, prometia votar ainda este ano seu projeto para conceder passe livre aos estudantes de todo o país.
Como a gente sabe que não existe almoço grátis, alguém vai ter que pagar estas contas, enquanto as autoridades de segurança pública federais e estaduais, agora unidas, tentam descobrir quem são esses tais black blocs e qual sua ligação com o PCC. Segundo os cálculos do próprio Renan, o passe livre vai custar ao orçamento da União a bagatela de R$ 7 bilhões por ano, que obviamente vão sair do dinheiro dos nossos impostos para os bolsos dos donos das companhias de ônibus.
Para completar, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, meu velho amigo Gilberto Carvalho, defendeu um "diálogo" com os bandidos mascarados para "compreender este fenômeno". Segundo ele, a "simples criminalização imediata dos black blocs não vai resolver". Como assim? Banditismo agora é fenômeno, não é mais crime? Vai dialogar com quem, com quais argumentos, se o governo nem sabe com quem está lidando? Vai dizer o que? "Por favor, meninos, não façam mais isso, que é muito feio...".
Depois do passe livre, vamos esperar que venha também o táxi livre, a passagem aérea com tarifa zero, a cesta básica grátis, o show do Roberto Carlos com entrada franca e, por que não?, perucas na faixa para todos os carecas. Caso contrário, nunca se sabe, novos protestos podem acontecer...
E o caro leitor o que pensa de tudo isso? Tem jeito?

ECONOMIA - Ricos da AL vão muito bem, obrigado.

Ricos da AL vão muito bem, obrigado


As famílias brasileiras e da América Latina, em geral, atravessaram bem o período da crise financeira de 2008. É o que mostra a quarta edição de um relatório sobre a riqueza global do grupo financeiro e segurador Allianz, com dados sobre 52 países. No fim de 2012, os ativos financeiros brutos totais da região atingiram o recorde de € 2,7 trilhões, um avanço de 13% sobre o ano anterior - e acima dos 8,1% de crescimento registrado pelos ativos financeiros no mundo no ano passado, que somaram € 111,2 trilhões. Em ritmo de expansão maior que a média global, a América Latina ampliou sua fatia no bolo dos ativos globais, de menos de 1% no início dos anos 2000 para 2,4% no ano passado.
A reportagem é de Alessandra Bellotto e publicada pelo jornal Valor, 30-10-2013.
Do total dos ativos da América Latina, a fatia de Brasil equivale a € 1,3 trilhão e a do México, a € 867 bilhões - juntos, os dois países concentram 80% da riqueza da região, e 70% da população da região, de 315 milhões pessoas. Se levado em consideração o endividamento das famílias brasileiras, que alcançou € 732 bilhões no ano passado, o Brasil fica atrás do México em termos de riqueza na região, com € 540 bilhões em ativos financeiros líquidos.
A dívida do brasileiro vem crescendo a uma taxa anual de 18,2% ao ano desde 2000, em ritmo maior que os 16,6% de aumento médio verificado na América Latina no mesmo intervalo. E acima também da expansão dos ativos totais de sua população. A partir de 2007, segundo a pesquisa, o Brasil registrou uma desaceleração no crescimento dos ativos brutos das famílias, que passou de 16% no período de 2003 a 2007 para quase 12% entre 2008 e 2012.
Apesar de o Brasil figurar como o segundo país mais "rico" da América Latina pelo indicador ativos financeiros líquidos de dívida, quando analisados em termos per capita, os valores revelam uma grande desigualdade: a riqueza líquida de um brasileiro médio é de € 2.730, bem abaixo dos € 6.110 do México e dos € 10.970 do Chile. Na América Latina, a média é de € 3.640, com a Argentina na mínima, de € 1.200, e o Chile, no topo da região. Na escala global, em que a média é de € 16.240, o Brasil figura na 41ª posição. Abaixo de € 4.900 per capita, o país é considerado de "baixa riqueza".
O relatório da Allianz destaca que as taxas de pobreza na região da América Latina ainda são altas, há muita desigualdade, apesar do sucesso das políticas adotadas. No Brasil, por exemplo, a taxa de pobreza caiu de 37,5% em 2000 para 20,9% em 2011.
Como mostram os dados da pesquisa, tanto o Brasil quanto a região da América Latina vêm em uma tendência de aumento da dívida pessoal acima do crescimento dos ativos. E isso deve ser observado de perto, segundo o economista-chefe da Allianz, Michael Heise, para que a região não cometa os mesmos erros de europeus e americanos, marcados por um crescimento alimentado com dívida. "O nível de endividamento hoje no Brasil não é alarmante, mas é preciso monitorar de perto", disse Heise, que esteve no país na semana passada. A dívida per capita no país é de € 3.670. Isso significa que para cada euro emprestado, o brasileiro conta com € 1,7 em ativo. Para Heise, as políticas públicas deveriam incentivar a população a poupar e não a se endividar, já que as pessoas terão de ter recursos para a fase de aposentadoria, para gastos com saúde e outras necessidades que o governo possivelmente não terá como garantir.
Com um endividamento na casa de € 1,063 trilhão, a América Latina também bateu o recorde em termos de ativos financeiros líquidos, ao registrar crescimento de 11,7% no ano passado, para € 1,7 trilhão. "Isso significa um aumento de mais de 40% se comparado ao ápice de 2007", afirma Heise. Ele lembra ainda que as regiões ricas, como a América do Norte e Europa, superaram no ano passado o nível anterior à crise, mas por uma pequena margem.
Em termos globais, os ativos financeiros líquidos, se descontados os passivos, tiveram crescimento de dois dígitos no ano passado: de 10,4%, para € 78,8 trilhões. Uma taxa bem acima da média anual registrada desde 2000, de 4,2%. Na América Latina, desde 2000, o aumento médio anual é de 11,6%, o que coloca a região atrás apenas da Ásia (excluindo Japão), com taxa de 14%. Nos últimos 12 anos, os ativos financeiros líquidos do Leste Europeu avançaram a uma taxa média anual de 11%.
Levando em conta o indicador bruto, conforme a pesquisa da Allianz, todas as regiões experimentaram ainda um crescimento forte dos ativos financeiros totais no ano passado. O maior avanço, de cerca de 16%, foi registrado pela Ásia (com exceção de Japão), seguida por Oceania (14,4%). A América Latina (13%) aparece logo depois, seguida pelo Leste Europeu (10,2%). América do Norte, Europa Ocidental e Japão registraram expansão de um dígito.
Do lado dos passivos, a pesquisa da Allianz mostrou que a dívida, em termos globais, permaneceu controlada pelo quarto ano consecutivo após a quebra do Lehman Brothers, ao avançar 2,9% em 2012, para € 32,4 trilhões. O índice da dívida global (passivo expresso como porcentagem do PIB) caiu mais um ponto percentual, para 65,9% - o recorde, de 71,6%, foi alcançado em 2009. A média, contudo, mostra pouco a realidade.
Em regiões mais ricas, como a América do Norte, o ritmo de crescimento da dívida caiu substancialmente. Nos anos anteriores à crise, os passivos cresciam a uma taxa média anual de 10,2%. Desde o fim de 2007, contudo, a taxa média caiu para 0,4% ao ano. No ano passado, foi registrado um aumento no ritmo de crescimento da dívida, mas para apenas 0,7%.
O Leste Europeu seguiu na liderança, com a dívida crescendo 25,4% ao ano, desde 2000. A alta, contudo, já foi maior, de 36% anuais, entre 2003 e 2007. Não há sinais, conforme a pesquisa, de que fenômeno similar esteja acontecendo em outras regiões emergentes como América Latina e Ásia (excluindo Japão), uma vez que não foram tão atingidas pela crise, como o Leste Europeu. Na América Latina, mostrou a Allianz, o crescimento médio anual da dívida tem se mantido em torno de 17%, antes e depois da crise.
Na Ásia, excluindo o Japão, a taxa média de expansão anual da dívida pessoal passou de 12,3% no período anterior à crise (de 2003 a 2007) para 15,8% de 2008 até o ano passado. Em compensação, a taxa média per capita de dívida na região - de € 1.290 - é a menor na comparação global, seguida do Leste Europeu (€ 1.880) e América Latina (€ 2.330).

terça-feira, 29 de outubro de 2013

LEILÃO DE LIBRA - Simulações e comentários sobre alternativas para Libra e Pré-sal.


Simulações e comentários sobre alternativas para Libra e Pré-Sal

Como São Tomé, procurei fazer algumas simulações sobre Libra e Pre-Sal, com base no fartamente publicado, incluindo a lei. Contribuindo pelo menos para o meu melhor entendimento, salvo equívocos, os resultados (postados originalmente em 28/10/2013 as 17:11h) encontram-se a seguir:

ASPECTOS E QUESTÕES SOBRE LIBRA
MODELO DE PARTILHA CONCESSÃO E MONOPÓLIO

Fiz na planilha anexa uma simulação comparativa entre o modelo de partilha e de concessão, combinando vários cenários de volume de produção, preço e participação da Petrobrás.
Considerei 2 resultados alvo principais: o que fica para a União e o que fica no País x o que vai para fora.
Os cenários:
  1. Produção e preços abaixo do mínimo esperado (<4000 b/d e < $60)
  2. Produção esperada para Libra, combinadas com faixas de preço abaixo de $60, de $60-$80, $80-$100 e >$100.
As combinações de negócio:
  1. Sem Petrobrás (0%)
  2. Petrobrás com 30% (mínimo da Partilha contra 0% da Concessão)
  3. Petrobrás com 40% (Libra).
  4. Petrobrás com 100% (“monopólio”, lance único ou contratação direta).
Dá também para verificar aspectos de custos, receita, impostos, lucros e participações das empresas (separando a Petrobrás), da União e do País como um todo.
Os resultados, salvo erro ou informação equivocada, mostram que, na comparação do modelo de Partilha com o de Concessão, a Partilha vence em praticamente todas as simulações, mesmo nos piores casos de produção e preço:
Exceto no caso “monopólio”, O PAÍS nunca perde no modelo de partilha.
No caso específico de monopólio, considerado o pior cenário de preço e volume, curiosamente, o País só perde na Partilha (pequena diferença contra de 1,8% em 89%, neste único caso) porque a Petrobrás teve parte do seu capital bem aumentado para estrangeiros no governo FHC.
Nos piores cenários de preço e produção, a União (Estado) pode perder um pouco  comparativamente (máximo de 3,9%), mas o País sempre ganha.
No caso esperado para preço e volume em Libra, a Partilha ganha em qualquer caso.
Notar que pela participação estrangeira promovida no governo FHC, mesmo com monopólio e melhores cenários, uma parcela dos ganhos sempre irá para fora do país (entre ~9 a ~13% óleo equivalentes).
Ressalte-se que além se buscar uma visão geral (e não cálculos precisos, mas não muito diferentes), o foco é “quanto da sua riqueza o País resgata” e não lucros empresariais ou similares menos sócio-econômicos.
Premissas e Parâmetros utilizados:
Tabela ANP de Partilha (9,93 a ~45%)
Tabelas contidas na lei de Concessão de 1998 (PE de 0 a 40%), embora haja uma menção de um certo “congelamento” decretado por FHC em 1998 que não consegui levantar o que seja. Considerei o limite legal cheio de PE 0~40% na Concessão (vi também menção de que o governo (qual?...) pode “abrir mão” ou reduzir a PE (participação especial) na Concessão.
Royalties de 15% fixos na Partilha e o máximo da Concessão (10%), que varia entre 0%, 5% ou 10%)
Conversão de M3/Trimestre/Campo “fiscalizado” para B/D poço, considerando uma qtde. de 130 poços em Libra (dividindo a produção de pico estimada do campo (1,4 M/d) pela estimada na oferta 10-12, ~11m/d).
Participação estrangeira na casa de ~40% (menos União, BNDEs(Par), Fundos e outros acionistas publico-privados nacionais).
Custo-óleo de 30%, conforme difundido.
COMENTÁRIOS E ASPECTOS COMPARATIVOS GERAIS:
  1. O modelo de Concessão não aproveita ganhos em preço, só em volume (ate 40%). O de Partilha beneficia-se também com o aumento de preços.
  2. O modelo de partilha permite um controle muito melhor da produção e aspectos relacionados (sem riscos de “fiscalização”, invertida), por colocar a Petrobrás como operadora única (gerando e podendo resguardar algum know-how).
  3. Além da União, o país sempre ganha mais no modelo de Partilha por exigir conteúdo nacional (crescente) a partir de ~37% e também da parte mínima de 30% do custo-óleo que fica no país (podendo crescer até 100%).
  4. A pretensão (previsível e esperada) da oposição de tirar os 30% mínimos da Petrobrás só piora os resultados porque além de perder a participação de 30% nos resultados, alavancada pelo custo-óleo e pela participação nacional não existente no modelo de concessão, perde a participação em custo-óleo que ficaria aqui.
  5. No modelo de Partilha, a participação é sempre alavancada em termos de custos/investimentos x participações finais nos resultados (Petrobrás, União e País).
  6. Embora os opositores do modelo de partilha digam que estamos “partilhando uma riqueza “sem riscos”, eles mesmos usam o risco de volume e preço (este o mais imprevisível) para depreciá-lo, embora só nos muito piores cenários de volume e preço haja uma pequena diferença desfavorável.
  7. Devemos lembrar que nestes piores cenários de preço (<$60), o break-even da operação (e quiçá amortização de investimentos) estará se aproximando do inviável em QUALQUER CASO (a menos que os custos de produção se reduzam com o tempo).
  8. Os opositores do modelo de partilha mencionam que a Petrobrás “poderia endividar-se” para assumir sozinha (fato), esquecendo-se do risco acima (preço), que exige dezenas de bilhões em investimentos e um custo operacional altíssimo podendo até quebrar a empresa na eventualidade dos piores cenários de preço (ou mesmo um erro crasso de previsão de volume, bastante improvável).
  9. A partilha com outras empresas dilui riscos e, como já vimos, embora reduza as receitas, elas serão alavancadas (proporcionalmente maiores) em relação tanto aos investimentos quanto aos custos operacionais e aos riscos (além de financiamento “sem juros”, em óleo, não financeiro).
  10. O modelo partilhado (que não proíbe a Petrobrás de entrar 100% em nenhum campo) é mais saudável e seguro também nos aspectos de defesa de interesses, que passam a ter maior multilateralidade (no caso, Inglaterra, Holanda, França e China). Isto sem considerar conspirações militares (aí...). Estamos falando de estratégias de produção e preço.
  11. É considerável a diferença de preocupação social entre os modelos, onde um se preocupa basicamente com as empresas e o outro as respeita, mas dá um enfoque muito maior na União (Estado), País (indústria nacional, empregos) e royalties maiores, além de (pouco prováveis) ganhos em preço.
  12. Por considerar eminentemente volume, o modelo de concessão deixa de ganhar nos aumentos de preço (que serão aproveitados só pelas empresas).
  13. A participação obrigatória, além de assegurar sempre receitas maiores e diluição de custos e riscos alavancados nas receitas, garante controle operacional melhor e receitas fiscais menos sonegáveis ou discutíveis (ex. da Vale privada).
Questões:
1) Entendendo-se que a tabela de partilha dá proteção à proximidade do break-even para as exploradoras, pode-se melhorá-la nos seus piores índices (a primeira coluna, abaixo de $80 ou $60) para os próximos leilões?
2) É seguro considerar-se produção por poço ou há salvaguardas implícitas de custo e controle da Petrobrás para que não haja “trapaças”, para que eles tenham uma produção nominal rentável? (ex ingênuo: múltiplos poços na mesma pequena área).
3) Há (ou quais as) expectativas tecnológico-operacionais de redução de custos (fixos e variáveis) na produção ultra-profunda (pré-sal)?
4) Entendendo que cada plataforma opera diversos poços, qual o valor estimado de investimentos e custos operacionais fixos e variáveis em cada uma das cerca de 17 plataformas e cada um dos seus poços?
5) Pergunta para os opositores (ex: Sauer): Qual a alternativa sugerida ao que está sendo feito, considerando-se viabilidade política nacional e internacional, economia atual (idem) e riscos de mercado (tecnologia e usos energéticos)? Sem “sonhática”!
Algumas críticas infundadas, falaciosas ou equivocadas dos opositores da Partilha
Não há risco: há o enorme risco de preço que pode inviabilizar e quebra o investidor. Por isso, não é uma questão de se a Petrobrás “pode se endividar”, mas se DEVE fazê-lo sozinha. Mesmo sem considerar outros riscos militares e conspiratórios, a diluição dos custos e investimentos é saudável (preço, produção e aliança estratégica), pelo menos neste ponto inicial, aguardando outras consolidações da empresa e do País.
Com o monopólio o lucro fica todo aqui: Não, cerca de 40% de participação estrangeira na Petrobrás, promovida por FHC sabe-se lá por que razões, sempre irá para fora, e existirá em qualquer modelo.
Estão doando o patrimônio nacional: Não, estamos (também) partilhando, em proporção vantajosa, os enormes investimentos e custos operacionais.
FHC está se sentindo pequeno” (Ildo Sauer): forçou a barríssima e só nesta frase  “descuidada” jogou fora (boa parte de) sua credibilidade política: Só a Vale!... Além do mais quem quebrou o monopólio da Petrobrás, reduziu o controle da União e aumentou bastante a participação estrangeira foi o mesmo príncipe “sentindo-se pequeno”. Comassim?!
Ao Brasil não interessa uma produção acelerada (idem Sauer): ora, só vamos ter produção “acelerada” daqui a muito anos, numa janela de 35 anos! Lembrando que Libra, embora a maior, é apenas uma fração do Pré-Sal, cujos 80% ou 90% restantes poderão demorar mais ainda! “Quequeisso” cara-pálida? Vamos ficar discutindo com as ongs, sindicatos e associações de bairro enquanto a Lusitana roda?! Ainda que fosse um erro, temos mais 80% ou 90% pra aprimorar e décadas pela frente!
Temos que ter o “monopólio” da exploração: (ou “entregar” só para a Petrobrás). Ora, como brasileiro que sou, também gosto muito da idéia, desde que possamos assumir o investimento E O RISCO sozinhos (O Ildo mesmo diz que nenhuma petroleira do mundo tem esta munição). O fato é que esta lambança é do FHC “pequeninho”. Alguém em sã consciência acha que o Congresso aprovaria mesmo uma “volta” ao monopólio?! Ora, o que se fez foi “despiorar”a lei de Concessão, aprovando-se uma outra bem melhor (não ideal!) de Partilha, resgatando maiores benefícios da riqueza para a União (Estado), o País e a Petrobrás. O resto é mimimi que deve ser cobrado dos neoliberais fernandistas e corretores do país.
Tínhamos que dar 100% à Petrobrás: além da Petrobrás, por obra e graça do “FHC pequeno-sentido” (o fundamental causador de toda esta discussão agora), ter uns 40% de participação estrangeira, mesmo com “monopólio”, há o respeito à (nova e viável) lei. Foi um leilão, nada impede legalmente a Petrobrás de ser contratada ou fazer lance sozinha. Há também o alívio na dose cavalar de investimento e a dita diluição de riscos.
O preço pode (ou “vai”!...) cair: Ora se o preço cair aos níveis que os opositores sugerem (ou desejam?), INVIABILIZA-SE a exploração do Pré-sal (pelo menos aos custos de águas ultra-profundas de hoje, que dominamos). Além disso, imagine-se a Petrobrás investir dezenas de bilhões e antes mesmo de começar a produzir, parar! Querem uma armadilha para quebrar a Petrobrás?! Ou é melhor ter esse risco diluído com a Shell, Total CNPC e CNOOP? Partilhando uma parte proporcionalmente vantajosa das receitas em relação aos custos/investimentos?
Não houve leilão: Houve dezenas de interessados (40?), 11 inscritos (pagaram para inscrever-se) e um lance (de 5 empresas). Qualquer leilão no mundo (partindo de um mínimo) se encerra com o lance mais alto. Único ou múltiplo. Perfeitamente normal.
Foi pelo mínimo: Se a União perde, a Petrobrás (uma empresa) também respirou um pouco mais, pois em qualquer caso ela também pagará para a União. Um tanto de leas por elas (40/60).
As outras são despachantes de luxo no endividamento: Até onde entendo, o endividamento de cada sócio para entrar num negócio é de si próprio (sua parte) e não “do negócio”. Cada um traga a sua parte como puder e arque com seu custo financeiro. Se bem entendi, a Petrobrás ainda será parcialmente financiada (partida) sem custos financeiros diretos, pagando em óleo.
Bônus é mero truque para cobertura fiscal:  Ora, além de 6 bilhões deste pretenso “truque” serem da Petrobrás (que entendi poderá ser financiado em óleo pelas demais), qual o problema de um controlador de empresa alocar parte de sua participação em cobertura de outros compromissos seus? Gostaria eu de dispor de um negócio em que além da minha participação societária, + royalties adicionais, + participação especial na produção, + obrigação dos sócios em comprar boa parte com a minha “família”, eu também pudesse cobrar um “bônus”de entrada (“luvas”).
Blábláblá e etc: é muita opinião emocional (também gostaria que fosse melhor), um gasto em energia ruim e ineficaz. O ótimo é inimigo do bom e a perfeição é uma meta. Críticas para melhorar serão bem vindas e boas para nós todos.

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Quem escolhe ser cego, fica

Quem escolhe ser cego, fica fora da luta28 de outubro de 2013 | 08:28
Tenho lido artigos de pessoas absolutamente obturadas dizendo algumas barbaridades sobre o leilão de Libra.
Hoje, saiu um deles, nas páginas “muy amigas” de O Globo, assinado pelo ex-deputado Vivaldo Barbosa.
Creio que é natural em todos, inclusive neste blogueiro, certa tristeza por não termos todo o petróleo – em Libra e fora dele – sendo exclusivamente explorado pela Petrobras. Isso seria o ótimo que, como se sabe, é o pior inimigo do bom.
Daí, porém, a partir para uma manipulação vergonhosa dos números vai imensa distância. Não é possível defender bons propósitos com mentiras. Pior: acaba-se, como a Terra é redonda, indo somar ao lado dos inimigos do Brasil.
Diz Vivaldo:
Por outro lado, os grandes países produtores como Arábia Saudita, Noruega e Venezuela, ficam com 80% do petróleo na partilha. Os 20,8% dados pelo consórcio para a União (41,65% sobre o óleo lucro) ficaram muito baixos (a União tinha 100% antes do leilão). Os 79,2% do petróleo ficam com o consórcio, sem parâmetro no mundo.
Ora, nem José Serra, com suas reconhecidas habilidades matemáticas, chega a tanto, senhores.
Como tenho infinita paciência, de novo explico, para que esse tipo de patranha não prospere.
E, agora, quase desenhando.
Suponhamos que você tenha uma nota de 100 reais, lá em Manhu-Mirim e pergunte quem quer ir buscar lá, para você.
Você diz que, para fazer isso, ele terá de pagar uma taxa a você, um bônus, de perto de 1 real.
O seu melhor amigo diz que fará isso e pega um ônibus para lá, a R$ 15 a passagem: R$ 30, ida e volta.
De onde sai esse dinheiro? Do bolso dele?  É obvio que não. Ele é seu amigo, não a Irmã Paula.Sai destes 100.
Sobraram 70.
Como Manhu-Mirim cobra um imposto para alguém sair de lá com dinheiro – um tal de royalty, de 15% – o seu amigo já largou 15 reais na saída da rodoviária. Porque esse tal royalty é do valor bruto, não importa quanto custe o ônibus. E é dinheiro que, evidente, vai sair daquela pelega de 100 reais.
Ficaram 55, se a Escola Isabel Mendes, da velha Guanabara, me ensinou direito.
Estes 55 vão ser rateados entre você e seu amigo: 41,65% para você, o resto para ele.
Portanto,  R$ 22,91 para você e R$ 32,09 para ele.
Mas, como você ainda cobra um “imposto de amizade” ao seu amigo, de 34% de tudo o que ele ganhar, ele tem de repassar a você 34% destes R$32,09, ou R$ 10,91.
Ficam, para ele, portanto, R$ 21,18, do qual ele tem de tirar aquele um real que te pagou de “bônus”. Sobram, portanto, R$ 20,18
Como você é o prefeito de Manhu-Mirim, ficou com os 15% daquele valor cobrado lá: R$ 15.
15 mais 22,91 e mais 10,91 dá  48,82. Mais aquele realzinho, 49,82 reais
Se você ficou com R$ 49,82 e seu amigo com R$ 20,18, quanto dinheiro têm vocês dois juntos, perguntar-me-ia a Dona Vilma, minha professora lá na Isabel Mendes.
- Ah, tia, é só somar 49,82 com 20,18, isso dá R$ 70, é moleza.
Aí, no ano seguinte, a Dona Vilma ia me ensinar a calcular percentagem e perguntaria quantos por cento 49,82 são daqueles 70 reais do total.
E eu iria fazer uma regra de três simples: se 70 reais são 100 por cento, 49,82 reais são “X”. Multiplicando em cruz, dá 4982 divididos por 70, ou 71,17%.
Mas isso não é tudo: como o seu amigo tem uma esposa chamada Petrobras, que fica com 40% de tudo o que ele ganha, a Dona Petrobras fica com 40% daqueles R$ 20,98: ou seja, com  R$ 8,39.
Dona Vilma vai me perguntar de novo: quanto você (49,82) e Dona Petrobras (8,39) ficaram, juntos?
Fácil, tia: 49,82 mais 8,39 dá 58,21.
-E quantos por cento isso é daqueles 70 reais?
- 5821 divididos por 70 dá 83,16%.
Desculpem o primarismo, mas só assim para desobturar mentes cegadas pela ideologia, que deve ser luz para ver e não treva para esconder.
Dito isso, vamos cuidar dos argumentos que usam os inimigos da Petrobras,da política de exigência de conteúdo nacional, daqueles que querem, estes sim, transferir para o estrangeiro a riqueza do pré-sal de Libra e de outros mais.
PS. O argumento de que a Petrobras tem acionistas estrangeiros, mais uma “dívida” que temos com a nefasta memória de Fernando Henrique, vale tanto para a partilha como está  como se o campo fosse totalmente entregue à Petrobras, certo?
Por: Fernando Brito

http://tijolaco.com.br/index.php/quem-escolhe-ser-cego-fica-fora-da-luta/
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sergior

Gestão de reservas de Libra

Gestão de reservas de Libra deveria ser exclusiva do Estado, diz

Gestão de reservas de Libra deveria ser exclusiva do Estado, diz 'pai do pré-sal'


ELEONORA DE LUCENA
DE SÃO PAULO

As reservas de Libra são estratégicas e o Estado deveria ter contratado a Petrobras (que as descobriu) para operá-las em 100%. A opinião é de Guilherme Estrella, 71, considerado o "pai do Pré-Sal" (ele não gosta dessa denominação, pois diz que o mérito é de uma equipe).
Ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras, o geólogo que mapeou a megareserva faz críticas ao leilão realizado há uma semana e alerta para problemas no interior do consórcio que vai extrair o petróleo (Petrobras, a anglo-holandesa Shell, a francesa Total e duas estatais chinesas).
 Daniel Marenco/Folhapress O ex-diretor da Petrobras, Guilherme Estrella, chamado de 'pai do pré-sal'O ex-diretor da Petrobras, Guilherme Estrella, chamado de 'pai do pré-sal'
Para ele, as grandes empresas petrolíferas mundiais, inclusive a Petrobras, representam e defendem os interesses de seus países. "Energia é fator crítico da soberania e do desenvolvimento de qualquer país. Há, portanto, um potencial conflito de interesses geopolíticos absolutamente inerente à presença de estrangeiros numa gigantesca reserva petrolífera como é Libra. Se vai eclodir, não sei. Mas que está lá, está.", afirma.
Nessa entrevista, concedida por e-mail, ele fala da descoberta do Pré-Sal, de desafios tecnológicos e expõe suas dúvidas sobre a exploração do xisto nos EUA.
Folha - Por que o sr. foi contrário ao leilão de Libra?
Guilherme Estrella - As minhas críticas concentraram-se no aspecto estratégico para o Brasil. Trata-se de gigantesco volume de petróleo, agora compartilhado com sócios que representam interesses estrangeiros --de potências estrangeiras--, sobre cujo alinhamento com o posicionamento geopolítico de um país emergente da importância do Brasil não temos a menor garantia.
A Petrobras, que mapeou a estrutura de Libra e perfurou o poço descobridor, como empresa controlada pelo Estado brasileiro, deveria ter sido contratada diretamente, como permite o marco do Pré-Sal. Aliás, a inclusão desta alternativa teve como causa a eventualidade de se tratar com reservas cujas dimensões tivessem valor estratégico para o Brasil, e este é inquestionavelmente o caso de Libra.
O leilão foi um erro estratégico? Foi lesivo ao país?
Não afirmo que tenha sido um erro estratégico, tampouco que tenha lesado os interesses do país. O que defendo é que a decisão do governo em fazer o leilão de Libra, em vez de contratar diretamente a Petrobrás, como prevê o marco justamente para situações excepcionais --como é Libra--, deveria ter sido discutida com a sociedade e também com a base de apoio do governo no Congresso Nacional.
Nesta discussão, todos os motivos que suportam a decisão do governo seriam conhecidos e a discussão poderia levar a um consenso ou não, caso em que o governo tomaria sua decisão, conforme lhe garante a lei.
Como isto não aconteceu, com os dados e informações que estão disponíveis, construo minha opinião, que é a mesma de muitos outros cidadãos brasileiros: de que, concretamente, a contratação direta da Petrobrás para desenvolver e produzir Libra seria a melhor estratégia brasileira, diante do papel destinado ao Brasil no cenário geopolítico e energético mundial ao longo, no mínimo, desta primeira metade do século 21.
A Petrobras poderia operar sozinha?
A própria presidente da companhia afirmou que a Petrobras tinha o maior interesse em operar Libra sozinha, mas que só poderia iniciar os trabalhos em 2015. 2015 é amanhã. Não subsiste, portanto, o argumento de que leiloar Libra agora seria para antecipar a produção.Não aflora qualquer razão para que esta não tenha sido a decisão do governo, pelo menos que tenha sido explicada publicamente ao povo brasileiro.
Sobre o percentual mínimo estabelecido no edital para a parte do Estado brasileiro --menos que 42%-- não posso me pronunciar, pois o governo, também aqui, não deu qualquer informação sobre a racionalidade econômica que existiu por trás deste número.
Acusar de xenofobia aqueles que defendem esta opinião é injusto, equivocado e apequenador da dimensão estratégica do assunto em debate. Seria equivalente a acusar este governo de centralizador e arrogante, disposto a exercer um direito político --ainda que legal-- de decidir questões desta magnitude de forma monocrática, sem ouvir, no mínimo, suas bases de apoio organizadas na sociedade. O que, certamente, não é o caso do atual governo, como todos sabemos.
Por que o governo tirou da Petrobras a possibilidade de operar sozinha no Pré-Sal? Só a questão do superávit primário explica esse movimento?
Será que podemos priorizar exigências financeiras momentâneas com aspectos econômicos e políticos da estratégia geopolítica brasileira ao longo deste século 21? Esse é o ponto e acho que deveria ter sido discutido com a sociedade.
A revista alemã "Der Spiegel" disse que o Brasil leiloou um tesouro por uma pechincha. O sr. concorda?
Não conheço a racionalidade econômico-financeira que levou aos 41,65%. Fantástico. Como geólogo não consigo entender como chegaram a esta precisão! Não posso opinar. Como disse, não tenho informações sobre a racionalidade econômica que desaguou neste super preciso percentual de 41,65%. Não é 41,64 nem 41,66, é 41,65 cravados!
O sr. considera inapropriado ter sócios estrangeiros na exploração do Pré-Sal?
Em momento algum sugeri que ter sócios estrangeiros no Pré-Sal é "inapropriado". O que argumento é que, em se tratando de uma imensa riqueza estratégica concentrada (em Libra) de um produto de tal forma fundamental e sensível para o mundo --e principalmente para as nações hegemônicas mundiais dele dependentes-- a sociedade brasileira tem o dever de discutir a conveniência de tê-las como sócios.
Ninguém desconhece que as grandes empresas petrolíferas mundiais, inclusive a Petrobras, representam e defendem os interesses de seus países-sedes, nos países onde atuam. E neste ponto não se diferenciam empresas estatais ou privadas.
O sr. acha que essa decisão sobre libra é danosa à soberania brasileira?
Não acho que a soberania brasileira tenha sido afetada.
Apenas levanto a possibilidade de enfrentarmos dificuldades, no futuro, caso haja qualquer divergência --ou até mesmo conflito-- entre interesses geopolíticos brasileiros e aqueles dos países representados no consórcio de Libra --todos protagonistas importantes no cenário mundial hoje e ao longo deste século 21-- por suas respectivas empresas.
Estas dificuldades --ainda que no campo das possibilidades-- estariam inteiramente evitadas, não ocorreriam de maneira alguma se Libra estivesse sob gestão exclusiva --100% do petróleo produzido-- do Estado brasileiro através da contratação direta da Petrobras para desenvolver e produzir Libra.
Por que Libra é estratégico?
O caráter estratégico das reservas petrolíferas é inquestionável, como todos sabem. Não se invadem e ocupam militarmente países soberanos para apropriação de refinarias. É possível construir uma refinaria em qualquer lugar do planeta, mas as grandes reservas de óleo e gás estão onde as condições geológicas assim o determinaram. O pessoal da Argélia, do Iraque, da Nigéria, da Líbia, do Egito sabe disto na pele.
O Sudão do Sul foi "fundado" por causa disto. As monarquias medievais, absolutistas e repressoras da Península Arábica são mantidas pelo mesmo motivo: assegurar reservas de petróleo e gás natural às grandes potências hegemônicas ocidentais. Não se está a ver fantasmas! Esta é a realidade fática da geopolítica mundial, escancarada e desavergonhadamente exibida nas últimas três décadas por meio de ações políticas e militares por parte dos países centrais ocidentais. Não há como desconhecer esses fatos.
Seu alerta está relacionado aos interesses divergentes entre produtores e consumidores de petróleo presentes no consórcio? Produzir mais rápido e deprimir preços ou produzir de acordo com visão estratégica, sem derrubar preços? O que seria melhor para o Brasil?
A turma de topo da Opep controla o preço, mas não tem soberania, autonomia, independência para sustar o suprimento. Simplesmente porque interesses divergentes entre grandes produtores e grandes consumidores não conflitam por causa do preço do barril, mas pelo compromisso dos produtores em suprir incondicionalmente os volumes exigidos pelas economias hegemônicas representadas pelos grandes consumidores.
Gente que estudou o assunto afirma que o barril de petróleo do Oriente Médio sai a mais de US$ 300 para a UE e para os EUA, na condição "all in" dos custos de manutenção militar do status quo daquela região para barrar, pelas armas, qualquer iniciativa que tenda a mudar o quadro atual.
O Brasil é um país diferenciado. De dimensões continentais, privilegiado em riquezas naturais, único em integridade nacional (uma só língua, cultura diversa, mas coesa etc.). Temos reservado um papel de protagonista geopolítico mundial igualmente diferenciado e socialmente muito positivo neste século 21.
De uma hora para outra, este país aparece como uma potência energética, cujas reservas potenciais, em processo acelerado de comprovação, de petróleo e gás natural impactam o quadro energético mundial. Tudo indica que irão contrabalançar, junto com a costa oeste africana o peso do Oriente Médio, a médio e longo prazos, para suprir EUA e UE.
Isso nos obriga, como país soberano, a nos prepararmos para assumir esse papel _de não mais coadjuvante, mas de protagonismo mundial diante desta muitíssimo sensível realidade. A quarta frota [dos EUA] está aí, ressuscitada não por outro motivo.
Este é o quadro já presente, materializado. E se tornará mais agudo ao longo deste século 21.
Dentro deste contexto, não seria mais conveniente que um imensa acumulação de petróleo, como Libra, ficasse 100% nas mãos do Estado brasileiro, com o poder de gerenciar tudo o que lhe concerne sem qualquer ingerência de interesses estrangeiros, quaisquer que os sejam? Isso é permitido no marco do Pré-Sal, quando abre a possibilidade de contratação direta da Petrobras, cláusula aprovada exatamente para situações, como essa de Libra, absolutamente diferenciadas sob o ponto de vista geopolítico mundial. Ainda mais a 300 quilômetros da costa, nas proximidades dos limites territoriais marítimos nacionais, ainda em processo de aceitação pela ONU.
Quando o sr. fala dos custos reais para os EUA e UE do petróleo saudita, de quanto seria o custo no pré-sal comparativamente?
Os custos totais de produção do pré-sal --que chamamos de CTPP-- estão muito abaixo dos atuais valores internacionais do barril, mas trabalhamos duro e ininterruptamente para reduzí-los. Não só por melhoria contínua nos processos de produção, mas fazendo esforço de desenvolver inovações tecnológicas que visem este objetivo.
O que cada um dos sócios da Petrobras busca nessa associação?
Os sócios se interessam, essencialmente, por assegurar suas respectivas partes em óleo produzido. No caso dos chineses para suprir prioritariamente seu mercado nacional, ávido de energia para sustentar o crescimento extraordinário da economia chinesa ao longo da primeira metade deste século, pelo menos. Shell e Total também, mas são já globalizadas e com mercados muito distribuídos além do europeu.
Sobre esses possíveis conflitos de interesses dentro do consórcio, o sr. diria que o Brasil (e a Petrobras) caíram em uma espécie de armadilha?
A participação da PPSA nos consórcios, com poder de veto, consta do texto do marco justamente para que todo o processo, desde a construção do Acordo de Operação Conjunta até as atividades operacionais propriamente ditas, seja controlado pelo governo brasileiro.
Portanto, não há "armadilhas" no modelo de partilha adotado pelo Brasil. O governo brasileiro tem total controle de tudo.
Como seriam essas divisões internas? França e China do lado de consumidores, querendo acelerar a produção? Que mais? Como elas se podem contrapor à Petrobras e ao interesse brasileiro?
A simples presença de interesses estrangeiros --por meio da participação de suas empresas petrolíferas no consórcio de Libra-- pode, em tese, gerar conflitos. Se estivéssemos tratando de um processo industrial de uma commodity comum, periférica, qualquer problema poderia ser facilmente resolvido.
Esse é o ponto central de minha opinião. Energia, especialmente petróleo e gás natural, é fator crítico da soberania e do desenvolvimento econômico, social, científico e tecnológico de qualquer país. Mormente daqueles que são protagonistas hegemônicos da cena mundial e daqueles outros que, por sua magnitude e seu potencial de riquezas naturais, de todos os tipos, como o Brasil, se candidatam para igualmente atuar como protagonistas mundiais e não mais como simples coadjuvantes, periféricos. Só esta realidade, em sua essência geopolítica, já é conflituosa. Lembremo-nos do [Henry] Kissinger, que disse mais ou menos isso : "Os EUA têm que se preocupar é com aquele gigante lá no Sul que, quando se levantar, vai dar um trabalhão danado para ser controlado".
Há, portanto, um potencial conflito de interesses geopolíticos absolutamente inerente à presença de estrangeiros numa gigantesca reserva petrolífera como é Libra. Se vai eclodir, não sei. Mas que está lá, está. Esse é o ponto!
A China quer aprender a operar em águas profundas?
Pode ser que aja interesse na obtenção de conhecimento de engenharia de projeto e operacional para produzir em águas ultraprofundas. É muito importante, mas não é o essencial.
O Brasil não deveria proteger essa tecnologia?
Proteger tecnologia no mundo atual não é o foco das grandes empresas petrolíferas. O esforço maior, concretamente falando, é assegurar a condução das operações --serem operadoras. Porque é na operação, no dia-a-dia, na vivência com as broncas e dificuldades que ocorrem na frente operacional que consiste o real valor do aprendizado contínuo-- de engenharia e pragmático (isto é que é, no final das contas, tecnologia) --que vai permitir a permanente e contínua inovação, advinda de novos conhecimentos e, em decorrência, de novos projetos e novos processos. Operar, principalmente numa ambiência de certa forma nova, onde o conhecimento científico e de engenharia e a competência operacional concentram-se em muito poucas empresas--como no Pré-Sal brasileiro --materializa-se numa inexcedível vantagem competitiva para as empresas petrolíferas. E não foi por outro motivo que a exclusividade da operação pela Petrobras, estabelecida no texto do marco do Pré-Sal, foi --e é!-- tão combatida por aqueles que, de certa forma, refletem os interesses das empresas estrangeiras, contrariados em aspecto essencialmente estratégico sob o ponto de vista da indústria.
No caso específico do Pré-Sal, este trabalho ininterrupto de obtenção/geração de novos conhecimentos e de inovação permanente foca, principalmente em dois pontos centrais: diminuição de custos e contínuo atendimento aos pressupostos da segurança operacional. Quer dizer, no geral, não há qualquer salto tecnológico necessário para produzir o Pré-Sal, como aliás é comprovado pela já significativa produção da Petrobras.
Por que as norte-americanas saltaram fora?
Com meus quase 50 anos "sujando" as mãos de óleo, fico desconcertado quando não consigo construir uma convicção sobre qualquer assunto relacionado ao setor petrolífero, tão rico em suas características, as mais variadas possíveis --políticas, econômicas, científicas, tecnológicas, sociais, militares e outras mais. Pois bem, sinto-me desconcertado com a ausência da Exxon e da Chevron. O que penso são ainda especulações. Por exemplo. Correu há algum tempo, por volta de 2010, 2011, no setor petrolífero mundial, que a Exxon conseguiu do governo angolano mais do que a Petrobras com o novo marco, com respeito à exclusividade das operações.
Obteve um acordo de "preferência" com os angolanos, tendo o direito de decidir se vai ou não operar qualquer descoberta no pré-sal daquele país, independentemente de que empresa que a tenha realizado. Sua ausência no leilão de Libra poderia ter algo a ver com isto? Ou não seria ao contrário, fazer parte da produção no Brasil não poderia ser um grande aprendizado para ajudar no exercício do privilégio de aceitar ou não a operação em certas descobertas em Angola?
Acho que a Chevron está na base do "gato escaldado tem medo de água fria". A pancada que tomaram em Frade [vazamento de 3,7 mil barris de óleo em 2011] repercutiu com extrema dramaticidade na companhia, que é muito séria e competente _sou testemunha pessoal disso. Talvez tenham erroneamente superestimado os riscos operacionais, todos inteiramente mapeados e neutralizados pela Petrobras com a participação, naturalmente, dos parceiros que com ela produzem do Pré-Sal há mais de dois anos. E isto é, a cada dia que passa, mais concreto e consistente.
Alguns ligam a ausência das norte-americanas aos investimentos no xisto. Qual sua visão sobre o xisto? É uma revolução energética?
Coloco "xisto" entre aspas. A tradução de "shale" é folhelho, termo geológico que é até difícil de falar já que encadeia dois fonemas "lh". Folhelho é uma rocha composta por grãos infinitamente pequenos de argila e, por isso, com permeabilidade quase zero. No caso, o gás está nos microporos, entre os grãos de argila e não sai de lá. Para sair tem que quebrar o pacote rochoso de folhelho, fraturar em gigantescas operações de injeção de água, utilizada como fluído de fraturamento.
Este assunto dá um livro. Mas há fatos inquestionáveis.
1. As reservas potenciais são, realmente, muito grandes. 2. Os poços exaurem-se muito rapidamente, não duram meses. 3. Perfuram-se milhares de poços, em áreas rurais e nas cercanias de cidades do meio-oeste americano. Como os poços duram muito pouco, a atividade de perfuração é frenética, descontrolada. Exige infraestrutura de suprimento de grandes dimensões, com grandes impactos sociais nas comunidades antes bucólicas e ultraconservadoras do interior americano. 4. O uso de água é gigantesco; já há casos de esgotamento de lençóis freáticos e falta de água nas cidades. Alguns Estados já proibiram as atividades.
5. O fluído de fraturamento contém produtos químicos altamente agressivos e tem sido comum a poluição de aquíferos potáveis por estes agentes químicos, interrompendo sua utilização para o homem e para a pecuária. 6. As reservas de gás, como sempre acontece, esgotam-se rapidamente e existem, também como sempre, as incertezas geológicas coladas às atividades de exploração e produção. Especialmente quanto às reservas de gás não provadas, como é o caso, os níveis de imprevisibilidade são elevados e surpresas negativas são prováveis de acontecer. É preciso ter cuidado nas extrapolações. 7. Em razão do baixo preço do gás, e do colapso causado pela enorme oferta em pouquíssimo tempo, milhares de sondas já se mobilizam para perfurar para óleo, cujo preço, ainda nos US$ 100 por barril, garante lucros muito mais significativos.
O governo norte-americano, com a prudência necessária, mantém a proibição de exportação de petróleo por empresas que supriam mercados com líquidos que agora foram inteiramente substituídos pelo gás. Micaram com o óleo e apelaram ao governo para que suspendesse a proibição. Sem sucesso.
Resumo da ópera do "shale gas": tem que dar tempo ao tempo.
A presidente nega que tenha havido uma "privatização". Houve? Por quê?
Privatização. Não houve, no sentido estrito do termo. Mas, de qualquer maneira, seria muito menor se a Petrobras fosse contratada diretamente para desenvolver o campo.
A Petrobras precisa de um reajuste logo no combustível para viabilizar os seus investimentos? O que de exato existe nessa discussão sobre preços?
A Presidente da Companhia afirma e reafirma que não haverá a necessidade de reajuste de preços para enfrentar os gastos com o bônus de Libra. Esse assunto de reajuste de combustíveis é hilário.
A Petrobras fez 60 anos. Desde então, a Petrobras é além de uma empresa "do" governo, uma empresa "de" governo de qualquer governo e não poderia ser diferente tal a importância econômica que a empresa exerce no ambiente brasileiro. E isso parece um verdadeiro "tabu". Todo mundo sabe o que acontece na vida real e faz tremendo esforço em afirmar que "não! A diretoria da Petrobras é independente, tem total autonomia para definir os preços dos combustíveis... E a turma da oposição qualquer oposição, a todos os governos fica a acusar incansavelmente o governo de "utilizar a gestão da Petrobrás na condução de sua política econômica".
Também se fala que a Petrobras deveria reduzir a exigência de nacionalização. Isso não seria ruim para o país?
Conteúdo nacional. Aqui você toca num tema decididamente crítico para o desenvolvimento científico, tecnológico e econômico do Brasil.
Começo com uma história.
Descia eu pela Rua Aperana, aqui no Leblon, onde morava quando exerci a maior parte do período de diretor da Petrobras, quando encontrei um antigo colega de superintendência da companhia, quando eu era o superintendente do Cenpes. Era o engenheiro Carlos Aguiar, então superintendente da Área de Materiais da Petrobrás, homem ligado ao desenvolvimento de fornecedores brasileiros para substituir material importado.
O tempo era o da construção no Brasil das plataformas de produção, extraordinário programa do governo Lula para não só abrir milhares de empregos no país como para ressuscitar a indústria naval brasileira apoiada nos projetos de produção da Petrobras.
O Aguiar me disse uma frase que me acompanhou por todo o longo --9 anos-- tempo em que exerci a diretoria de Exploração e Produção da companhia: "Estrella, vamos construir no Brasil, tudo bem. Mas não podemos deixar que o "conteúdo nacional" seja acéfalo!".
Esta foi uma luta que o grupo de profissionais e gerentes da Petrobras, com o qual tive a honra de trabalhar, empreendeu no sentido de criar condições para que empresas genuinamente brasileiras se incorporassem ao esforço nacional de "construir no Brasil tudo o que puder ser construído no Brasil".
O processo de desenvolvimento tecnológico começa com saber operar as máquinas importadas. Meu pai contava que o Roberto Marinho, na década de 1930, importou rotativas alemãs para modernizar o parque impressor de "O Globo". Instalou as máquinas e chamou o Getúlio [Vargas] para o momento solene de acioná-las pela primeira vez. O Getúlio "pam" empurrou a alavanca e... nada aconteceu. Estabeleceu-se um clima de desconforto com o presidente da República, que foi solicitado a repetir o gesto, objeto das inúmeras lâmpadas de "flash" dos repórteres presentes. "Pam" novamente e... nada novamente. Mui polidamente, Roberto Marinho pediu desculpas e transferiu a solenidade. Após isso, reuniu-se com a equipe técnica de "O Globo" para saber o que ocorrera. Ninguém sabia. Disseram apenas que tinham montado a engenhoca "by the book", como dizem os engenheiros, de acordo com o manual. Não houve jeito. Chamaram um alemão, que veio de Zeppelin, numa milionária viagem de uma semana, pois de navio demoraria três meses. O alemão chegou, olhou, pensou não mais que um minuto e disse algo naquela língua centro-européia bárbara, de fora das longínquas fronteiras do Império Romano, que o intérprete balbuciou : "Uma chave-de-fenda, por favor".
Rapidamente atendido, colocou a chave num pequeno parafuso, girou meia volta e ordenou, segundo o intérprete : "Liguem a rotativa". Um engenheiro brasileiro pegou a alavanca antes inservível e "pam": a rotativa ronronou e começou a trabalhar, sem qualquer problema. Lição: não sabíamos sequer operar uma máquina de primeira geração tecnológica.
O final do ciclo é saber projetar as máquinas que operam no sistema industrial em que se atua. No meio, está a etapa da construção dessas máquinas. Se ainda não construímos no Brasil, temos que fazê-lo. Mas --isso é indispensável-- gerenciar o processo de modo que, no mais curto prazo de tempo, adquiramos a competência em engenharia, nas empresas e na academia brasileiras para projetar máquinas ainda mais avançadas, inovações em relação ao que hoje se considera o limite da tecnologia. Se esta etapa não acontecer, muito pouco foi conseguido em termos de autonomia de decisão quanto à escolha e aplicação da tecnologia que melhor nos servirá para resolvermos nossos próprios problemas.
Continuaremos a ser o "chão de fábrica" _muitíssimo importante, mas não suficiente para um Brasil efetivamente soberano e autônomo no concerto mundial das nações desenvolvidas. A verdadeira inteligência, a competência técnico-científica continuará a vir de fora. Não precisamos chamar o "alemão" para botar a máquina em funcionamento ou até repará-la em caso de pane. Mas se quisermos substituí-la por uma mais moderna, será o "alemão" quem a projetará e nos venderá o projeto se assim o governo de seu país autorizar a empresa da máquina a fazê-lo.
A traduzir este desafio, temos a definição do século 21 como o século da "economia do conhecimento" e a imagem de desenvolvimento tecnológico: " É como subir uma escada rolante pela faixa de descida : se parar, desce".
Esse foi o recado do Aguiar. Tenho a plena consciência de que a equipe em que trabalhei fez o possível para avançarmos neste sentido. É importante que se registre a grande ajuda que tivemos do BNDES, da Finep, da Coppe no trabalho que desenvolvemos na Exploração e Produção e na Petrobrás como um todo. Criamos exigências contratuais para que as empresas estrangeiras que se instalassem no Brasil para construir máquinas e equipamentos, até então importados, a serem utilizados pela Petrobras, montassem equipes de engenharia de projetos na filial brasileira, para não ficarem na dependência de seus centros de tecnologia no exterior.
Para as empresas genuinamente brasileiras, trabalhamos para criar condições de financiamento e de assistência técnico-científica para que, não só adquirissem condições de competitividade, como consolidassem suas respectivas competências para a inovação e melhoria contínuas de seus processos produtivos, de modo a atender especificamente as exigências e necessidades das atividades operacionais da Petrobras.
Chegamos a iniciar um trabalho de tentar quebrar oligopólios tecnológicos mundiais para fabricar itens de tecnologias "sensíveis"--como turbinas-- no Brasil.
Ainda com respeito à construção das plataformas no Brasil, fomos sempre muito criticados pelo fato de o custo brasileiro ser maior do que os de Cingapura, do Golfo Arábico e da China. E têm que ser. Sou pessoalmente testemunha das diferenças qualitativas entre as condições de trabalho oferecidas, por lei, aos trabalhadores. Não há comparação. Aqui no Brasil praticamos uma relação capital X trabalho muito mais avançada, muito mais ética e justa que em muitos lugares no exterior, onde é comum se construir em condições absolutamente inaceitáveis para o trabalhador brasileiro.
Se há exigência, muito saudável, de competitividade, vamos enfrentá-las. Mas em condições de igualdade de patamar na qualidade das relações capital X trabalho. E não competir com mão de obra quase escrava.
O que o sr. achou da criação da empresa que vai administrar o Pré-Sal?
A PPSA entra como uma parte imprescindível nos consórcios para contribuir na definição dos Acordos de Operações Conjuntas (sigla "JOA" em inglês), que é o documento básico que vai orientar as operações do consórcio e aprovar e auditar tecnicamente os custos destas operações para efeito de definir o que se chama de "óleo custo", parcela de que os consórcios serão reembolsados.
Como fica a Petrobras depois desse leilão?
A Petrobras se desempenhará em patamares de excelência de sua função de operadora da cumulação de Libra. Foram as equipes de exploracionistas da Petrobras que mapearam a estrutura da gigantesca acumulação. Foi a Petrobras que construiu o primeiro poço descobridor de Libra. É a Petrobrás que detém, no mundo, as mais extensas competência e experiência para operar em águas ultraprofundas. É a Petrobrás, dentre todas as empresas petrolíferas mundiais que tratam do assunto, que possui o mais avançado conhecimento geocientífico das rochas-reservatórios do pré-sal (aspecto tecnicamente crítico e economicamente decisivo para o desenvolvimento da acumulação).
Enfim, como é reconhecido por todo o setor petrolífero mundial, é a empresa que detém as melhores condições para ser a operadora de Libra e do restante das acumulações que ainda serão descobertas na chamada "picanha azul" --designação que, pessoalmente, não gostei, mas isso é "ranzinzice" de minha parte.
O que é a "picanha azul"?
O mapa de contorno da área em que os exploracionistas da Petrobras circunscreveram a provável ocorrência dos reservatórios produtores do pré-sal, que vai de Vitória (ES) até Florianópolis (SC), no mar territorial brasileiro, tem grosseiramente o formato de uma picanha, peça de carne bovina por nós tão apreciada.
Coloriram o interior deste perímetro com a cor azul.
Daí surgiu o nome de "picanha azul". Não foi escolha minha. Considero de gosto discutível esta analogia. Mas "pegou", já estava consagrado e assim ficou.
A presidente traiu seu compromisso de campanha ao leiloar Libra, conforme muitos têm afirmado?
Não acho que a presidente Dilma esteja descumprindo seus compromissos de campanha. Os grandes e mais importantes itens sociais e econômicos das políticas inauguradas pelo presidente Lula em 2003, a ter como principais beneficiários as camadas mais carentes do povo brasileiro, têm sido perseguidos, com sucesso pelo governo Dilma e as pesquisas de opinião estão ai para não me desmentir.
Como petista, o sr. está frustrado?
Não estou frustrado como petista. Tenho consciência, vejo isto no dia-a-dia da vida dos brasileiros, de que os governos do Partido dos Trabalhadores desde 2003 transformaram o Brasil, tiraram da pobreza e da miséria dezenas de milhões de irmãos nossos e mudaram diametralmente a lógica de governar o país, tendo o povo como objeto central das ações de governo. E ninguém pode negar isto.
Isto não quer dizer que, como cidadão, tenha que concordar e defender todas as medidas e decisões que o governo do partido ao qual sou filiado venha a tomar.
Por que o sr. é tido como o "pai do Pré-Sal"?
Foi coisa da imprensa. Eu sempre rejeitei esta "alcunha", que na verdade, para os que conhecem a atividade exploratória, é mesmo depreciativo, na medida em que exploração de petróleo e gás natural é trabalho de equipe, não tem essa de "eu descobri".
A descoberta do pré-sal brasileiro resulta da competência das equipes de exploracionistas da Petrobras. São geólogos, geofísicos e outros profissionais que, desde a fundação da companhia e por ela intensamente treinados, tanto internamente quanto nas melhores universidades brasileiras e no exterior, trabalham na interpretação geológica das bacias sedimentares brasileiras.
Explorar petróleo e gás natural é, essencialmente, uma atividade de pesquisa científica que envolve custos altíssimos, mas que, tendo sucesso, garante um retorno ainda mais significativo.
Mas houve também um fator de política energética, igualmente importante.
Em 2003, por determinação do governo Lula, a Petrobras retomou os esforços para avançar pesadamente nas atividades de exploração e produção, de certa forma contidas no governo anterior, quando o monopólio foi quebrado. A companhia concentrava estas atividades na Bacia de Campos, grande produtora, já que outras bacias deveriam ser objeto de leilões de concessão.
A Petrobras detinha blocos em outras bacias, alguns na vizinha e gigantesca Bacia de Santos, de onde se produzia menos de 1 milhão de m3 de gás por dia no Campo de Merluza, antigo dos contratos de risco, descoberto pela Shell e operado pela Petrobras.
Atendendo à determinação do governo de expandir nossas atividades, deslocamos sondas da Bacia de Campos para a de Santos e as descobertas se sucederam: Mexilhão (descoberta importantíssima de gás natural na medida que enfrentávamos a dependência da importação da Bolívia) e os campos de óleo de Uruguá e Tambaú. Estas descobertas exibiram logo a grande potencialidade da Bacia de Santos, até então não materializada. Mas que existia, teoricamente, nas interpretações dos exploracionistas da companhia. Continuaram os investimentos exploratórios e, em 2006, descobrimos o pré-sal.
Resumo da ópera. Não há essa de "pai do pré-sal", tampouco de pai de descoberta alguma nas atividades exploratórias de qualquer empresa petrolífera, resultante sempre do trabalho e da competência desta que costumo chamar de "estranha e complicada tribo dos geólogos".
Aproveito para reforçar minha opinião sobre a decisão de leiloar Libra e não contratar diretamente a Petrobrás.
São fatos: a) Local: Bagdá, Iraque; b) Data: segundo semestre de 1977; c) Ocorrência: o gerente-geral e o gerente de exploração da Braspetro Iraque são convocados à sede da INOC (companhia estatal iraquiana de petróleo). Somos recebidos pelo diretor da INOC responsável pelos contratos de Exploração e Produção que o Iraque tinha com a Petrobras e com a Elf francesa.
O homem nos comunica, com certa solenidade: "O governo do Iraque determinou que lhes fosse comunicado que o contrato que temos com a Petrobras deverá ser cancelado. As negociações sobre isto devem iniciar-se tão logo quanto possível. Os senhores devem comunicar imediatamente essa decisão do governo do Iraque aos seus superiores no Brasil e solicitar que um representante do mais alto escalão de sua empresa, com poderes de negociar em nome dela, compareça a Bagdá para que se iniciem os trabalhos".
Estupefatos, perguntamos a razão desta decisão, já que cumpríamos integralmente o contrato, sempre com as melhores relações com a INOC e com o governo iraquiano.
E o homem nos respondeu : "Senhores, a Petrobras descobriu um campo gigantesco (Majnoon), com dezenas de bilhões de barris de reserva, e que vai produzir mais de 1 milhão de barris por dia, a metade que o Iraque produz hoje. No momento, o Brasil e a Petrobras têm interesses estratégicos no setor petrolífero internacional que não conflitam com os interesses nacionais da república do Iraque. Mas isto é 'no momento'. O cenário internacional, principalmente o da energia, se transforma constantemente. Não há como assegurar que no futuro, mesmo não tão distante, os interesses de Iraque e Brasil não venham a se distanciar. Em vista disso, e o governo de meu país adianta que é com certo desconforto, pelo que nos desculpamos, considera que a manutenção desse contrato fere a estratégia nacional quanto à gestão de seus recursos petrolíferos. Por isso devemos nos sentar à mesa para negociar a extinção do contrato e garantir à Petrobras e ao Brasil que seus investimentos sejam devidamente ressarcidos, sem qualquer prejuízo para vocês".
Anos depois, por causa inclusive de Majnoon, o Iraque foi invadido e ocupado por tropas estrangeiras. Perdeu sua soberania como nação e atravessa décadas de terrorismo total com o genocídio que todos conhecemos.
Claro que não podemos comparar o Brasil com o Iraque, e aqui não vai qualquer desmerecimento àquele país e ao seu povo, do qual conheço alguma coisa. Mas estes fatos são uma inegável lição que temos sempre que levar em consideração.

Que apareçam muitos mais Estrellas

(cópia de comentário feito no post sobre a posição de Estrella)
Conheço (o respeitado) Guilherme Estrella de reputação e é gente como ele que dá motivos de orgulho ao país e pela Petrobras, desmascarando a incapacidade ou falta de seriedade de brasileiros e empresas brasileiras, estatais ou não.
A Petrobrás, mais nova que quaisquer das antigas "7 irmãs" e criada num país então de menor importância geopolitica (ainda) e imensas deficiências, dá-se ao luxo de estar a frente de praticamente todas elas em perfuração de águas ultraprofundas, descobrindo óleo onde ninguem mais, inclusive as estrangeiras que receberam do governo de FHC concessão de parte de Libra pela merreca de $ 250 mil e nada acharam., devolvendo-a.
E os medíocres oligarco-partidario-piguentos da oposição sequer conseguem (na verdade nem querem) reconhecer este simples fato.
Mas o respeito e admiração pelo Estrella não me impede de discordar dele em alguns pontos, embora esteja em concordância nos demais.
1) Também gostaria que pudéssemos ter 100% de Libra (o que é impossível graças a FHC e a promoção de mais de 40% de capital estrangeiro na Petrobrás). Mas há opções que trocam não tão menos receitas (em óleo ou $) por outros benefícios, como menor risco e maior proteção estratégica de interesses. Os (muitos) argumentos e números estão no post. Sabemos que gostar, desejar, querer, nem sempre é poder. Ainda que parcialmente.
2) O argumento de que as alianças com as estrangeiras pode nos expor a conflitos me parece equivocado. O que pode mais despertar a gula alheia é exatamente não "partilhar". Se partirmos para a hipótese extrema de conflito militar, aí mesmo é que a vaca vai pro brejo, pois sozinhos (nunca 100%) ou associados, não temos (que não me ouçam) mínimas condiçõs de nos defender. Lembrem que o Iraque era considerado uma força armada formidável e até "equiparável" às americanas da região... Perderam o país em 3 semanas. Nós nem precisamos de tanto, pois eles tomariam apenas plataformas em mar aberto... O melhor que poderíamos fazer é afundá-las...terra (mar) arrasada(o)...
De resto, lamento que percamos, pela natural aposentadoria, gente como ele, e torço para que consigamos criar muios Estrellas em nosso país, apesar do esforços contrários da medíocre PPM (plutocracia partidário midiática) que infesta este país.

O Desenho do Tijolaço

Esta neste link http://tijolaco.com.br/index.php/repensar-libra-com-as-mesmas-ideias-do-...
Repensar Libra com as mesmas ideias do passado?28 de outubro de 2013 | 09:25
Depois de tentar, pela enésima vez, no post anterior, desmanchar a tolice de certos setores – com boas intenções e péssimos métodos e aritmética – vamos cuidar de quem, como disse a Presidenta Dilma, critica as regras da partilha por defender o capital estrangeiro e não quer mostrar a cara.
No mesmo O Globo, Rogério Furquim Werneck, simpatizante tucano de longa trajetória, publica artigo dizendo que é “hora de repensar o pré-sal”.
O título, provavelmente, é obra de um redator piedoso, porque Werneck nem usa sequer essa palavra no texto: o máximo que diz é que, se fosse “num país sério, deveria dar lugar a uma reavaliação criteriosa das restrições que o governo decidiu impor ao leilão”.
Como Werneck não acha o Brasil um país sério, seu artigo dedica-se a lamentar que “a Petrobras não se tenha contentado com a já esdrúxula participação legal mínima de 30%”.
Como nem o Dr. Werneck nem eu somos novos neste combate, republico aqui o que escrevi sobre suas ideias – de resto, as mesmas – há quase dois anos. Ponto por ponto, procuro revelar o que está por trás de seus argumentos.
A lógica do caixeiro
O professor Rogério Furquim Werneck, um dos decanos do ninho neoliberal instalado na PUC do Rio de Janeiro,  volta à carga hoje, na sua coluna, contra a Petrobras.
O seu artigo anterior, prevendo uma Petrobras imobilizada, levou, no mesmo dia, uma tunda do pessoal que não confunde a profissão de economista com a de caixeiro, aqueles mascates tão simpáticos do passado, que se preocupavam em vender tudo, bem rápido,  como melhor preço possível e voltar logo para encher de novo o baú de mercadorias, para repetir a dose, enquanto as costas aguentassem o fardo.
Levou uma tunda porque, no mesmo dia, a Petrobras vendia títulos em volume recorde – US$ 7 bilhões – e pagando os menores juros já obtidos em toda a sua história.
Porque, ao contrário dos caixeiros, o mercado heavy-metal está olhando a empresa no médio e longo prazo e sabe que suas perspectivas não são boas, são ótimas.
Porque a Petrobras tem as três coisas que são necessárias para fazer uma grande petroleira.
A primeira, é óbvio, é petróleo. E as jazidas brasileiras, no cálculo mais modesto, vão chegar a 40-50 bilhões de barris. Com otimismo, talvez ao dobro.
E a reserva estabelecida pelo regime de partilha estabelecido no lugar das concessões que vigiam garantem a ela o acesso a este mar de petróleo.
A segunda, é capacidade técnico operacional e tecnológica para explorar este petróleo de águas ultra profundas, bem diferente de furar no deserto de monarquias e regimes “domados”.  Nem o mais sectário adorador das multinacionais é capaz de negar a liderança absoluta de empresa neste segmento exploratório.
E a terceira, e é aí que a coisa começa a pegar com o nosso mascate intelectualizado, é capital. Porque ela tem um sócio controlador que não apenas pode capitalizá-la como, neste processo ampliar sua fatia na propriedade da empresa e, portanto, na absorção dos lucros que todos sabem – inclusive o professor Furquim – que ela vai gerar.
Curioso que o professor se escandalize com o fato de que o Governo Federal colocou nela – e não foi grátis, pois a cessão das jazidas já mapeadas de Franco e Libra é, como diz seu nome, onerosa, isto é, a União será remunerada por elas – “R$ 75 bilhões de preciosos recursos do Tesouro”.
Desculpe, professor, mas é da lógica do mercado que o sócio majoritário de uma empresa com perspectivas brilhantes coloque nela capital, porque está colocando onde terá retorno.
A alegação que estes recursos poderiam ser alocados em outras áreas é que se constitui, para usar suas próprias palavras, num “primitivismo estarrecedor”.
E não é preciso uma construção teórica para o provar. Basta perguntar -  ao Dr. Furquim Werneck, inclusive – se ele pode apontar os benefícios que o povo brasileiro, dono da Petrobras, auferiu com a venda de parte de seu capital na Bolsa de Nova York, na forma de ADRs, no período FHC. Nem mesmo abateu-se na dívida pública ou se acumularam reservas.
Trocamos um naco da Petrobras – só em parte recuperado com a capitalização – por um nada. Ou por despesas que – mesmo admitindo que não houvesse uns espertalhões de outro tipo de PAC, um “Plano de Acumulação no Caribe” – não deixaram nenhum benefício perene para o Brasil.
Como o tolo da história da galinha dos ovos de ouro, ele reclama que tudo está devagar demais. Que o ouro poderia vir mais depressa se a Petrobras não teimasse em usar o plano de investimentos que terá, obrigatoriamente, de realizar para explorar estas reservas num processo de compras nacionais que gere novas plantas industriais, emprego, riqueza e conhecimento dentro do Brasil.
No “primitivismo estarrecedor” do professor Furquim, por exemplo, teria sido um erro a Petrobras encomendar os navios que levantaram a indústria naval brasileira. Na lógica do mascate, se tem navio para vender lá fora, para entregar mais rápido e custando um pouco menos, é lá que temos de comprar.
Foi assim que o mascate mais festejado do Brasil, o sr. Roger Agnelli, comprou a “Frota do Mico”, os supergraneleiros que, quando não racham, não podem aportar na China.
Ao professor Furquim, com a lógica do caixeiro, pouco se lhe dá, por exemplo, que a encomenda bilionária de três dezenas de sondas de águas ultraprofundas tivesse sido feita aqui. Ao contrário, ele é capaz de provar, e com razão, que se poderia comprá-las na Escandinávia ou na Coreia talvez até uns 10% mais baratas e com entrega mais rápida.
Ele se agarra na entrevista (ótima, por sinal) do ex-diretor de Exploração da empresa, Guilherme Estrella, de que há um ônus imediato na contratação de equipamentos aqui, que faz uma vinculação entre a velocidade de exploração e a  capacidade nacional de prover, em boa parte, os equipamentos industriais que ela irá demandar para rebater uma  resposta de empresa de que as compras nacionais não guardariam essa relação.
Ora, se algum texto de assessoria afirmou isso, desta maneira, está mais que claro, nos discursos que fizeram a nova presidente da Petrobras, Graça Foster, e a própria  presidenta Dilma Rousseff, que essa é uma orientação estratégica.
Aqui não se cometerá a tolice da história da galinha dos ovos de ouro, de correr loucamente para arrancar todo o petróleo, seja como for, para vender seja como for.
Porque nem mesmo o caixeiro, que pratica essa lógica na venda de quinquilharias, age assim quando se trata dos bens próprios, ao que pertence à sua família. Ou aos “batricios”.
Quando se trata de uma riqueza imensa, não-renovável, estratégica, só pode praticá-la quem é outro tipo de vendedor.
Que geralmente são, ao contrário dos cansados caixeiros que viajavam pelo país, encantando as nossas cidadezinhas remotas, homens “cultos”, bem-vestidos e de modos sofisticados.
Mas, na sua alma de desamor a este povo e seu futuro, pensam com um lápis preso na orelha e oferecem-se como os mascates do Brasil.
Por: Fernando Brito

Excelente trabalho

Seria bom termos um resumo da planilha, que é bem extensa. Gostei bastante dos comentários finais, principalmente sobre a questão do risco associado a eventuais oscilações dos preços do petróleo (a idéia do risco zero é uma falácia que vinha sendo sutilmente empurrada).
imagem de sergior
sergior

Fernando Safatle: O custo do

Fernando Safatle: O custo do incentivo à indústria automobilística

publicado em 28 de outubro de 2013 às 0:16

O PETROLEO É NOSSO?
por Fernando Safatle*
enviado pela Sec Geral do MST, publicado no Diário da Manhã de Goiás
No governo da Dilma o leilão do pré-sal não é privatização, mas, sim, partilha.
A transferência para a iniciativa privada da gestão das estradas, aeroportos e portos não é privatização, mas, sim, concessão.
As várias modalidades de transferência e uso da propriedade estatal se transformaram na realidade em uma batalha semântica.
O governo insiste na sua versão de que nada disso é privatização e, evidentemente, tem motivos de sobra para isso.
Não quer de forma nenhuma dar o braço a torcer na recaída ideológico que se submeteu dando, assim, argumentos aos tucanos de que se renderam finalmente as suas teses, pois, afinal, suas duas ultimas vitorias eleitorais foram obtidas no ringue da estatização versus privatização.
Em plena campanha eleitoral em 2010, a candidata Dilma disse com todas as letras: “É um crime privatizar o pré-sal”.
Afinal, quem está certo? Em essência, apesar de constituírem em modelos distintos, ambos, tanto o dos tucanos como o dos petistas são privatizações, pois, transferem a propriedade para a iniciativa privada.
Só que enquanto o dos tucanos transfere a propriedade ad aeternum para o capital privado, as PPPs, dos governos Lula e Dilma, transferem provisoriamente a propriedade, podendo teoricamente voltar durante um determinado tempo ao Estado.
Envolto na mais terrível contradição de seu governo, a Dilma foi logo aos meios de comunicação tentar explicar que o leilão do pré-sal não privatizou, pois a renda a ser produzida no campo de Libra ficaria 85% com o Estado e a Petrobras.
Isso, evidentemente, não anula a natureza da operação: a transferência de 60% da reserva de petróleo para quatro empresas estrangeiras, duas privadas e duas estatais chinesas.
Por que partilhar com o capital estrangeiro uma reserva de petróleo de cerca de 15 bilhões de barris?
Por que a Petrobras não bancou sozinha a sua exploração? Essa é a pergunta que todos querem fazer.
Na realidade, a privatização do pré-sal foi o resultado de uma sucessão interminável de equívocos que o governo vem cometendo na condução do seu modelo econômico.
Primeiro deles foi reproduzir a mesma política econômica do milagre econômico da época do regime militar que sustentava suas altas taxas de crescimento econômico no incentivo ao crescimento da indústria automobilística.
Os governos Lula e Dilma também jogaram pesado nos incentivos para que a industria automobilística pudesse exercer o seu papel dinâmico na economia, puxando e irradiando seu crescimento para os outros segmentos econômicos.
Retirou IPI, afrouxou o credito, cortou a CIDE, ou seja, fez de tudo para que a indústria automobilística pudesse segurar as taxas de crescimento econômico.
Só que, na medida em que crescia o consumo de carros, pressionava a demanda por combustíveis.
Para que não impactasse o preço da gasolina na inflação o governo não só cortou a CIDE, ou seja, renunciou a recursos que estavam destinados ao investimento na mobilidade urbana, como congelou os preços da gasolina, fazendo a Petrobras bancar um prejuízo monumental.
Com isso, erodiu as finanças da Petrobras.
Alguns anos atrás, segundo Carlos Lessa, a Petrobras tinha reservas no montante de 70 bilhões de reais, hoje, reduziu se a 7 bilhões de reais.
Com esse desmonte da Petrobras, claro, tem dificuldades de levantar os 15 bilhões do bônus de assinatura estabelecido no contrato do leilão do campo de Libra.
Ora, mesmo assim, se houvesse o interesse político da Petrobras bancar sozinha a exploração do pré-sal não precisaria o governo estabelecer um bônus de assinatura tão alto a ponto de impedir sua exploração sozinha.
Com isso, a União vai deixar de ganhar de acordo com Sauer e Comparato 176 bilhões de reais, alem da perda da soberania.
Mas não é tudo. Também têm que entrar na conta dos enormes prejuízos causados a nação os estragos produzidos na mobilidade urbana pela opção que o governo fez de induzir o crescimento da frota de automóveis e o desmonte no setor sucroalcooleiro.
O congelamento dos preços da gasolina fez o Brasil perder o bonde da historia na corrida para se transformar na grande potencia na produção de energia limpa e renovável.
Se não tivesse abdicado do programa do etanol, modificando inclusive seu modelo de exploração em direção a sua democratização, introduzindo mudanças que incorporasse o pequeno e médio produtor rural na sua exploração o etanol estaria abastecendo o mercado e a Petrobras, hoje, ao invés de ser importadora de gasolina, ao contrario, estaria exportando gasolina.
A sucessão de equívocos na política economia do país levou ao descalabro da perda da soberania de um bem estratégico, o petróleo, da perda de liderança mundial na produção do etanol e dos profundos estragos na mobilidade urbana. Depois a culpa é dos vândalos e dos Black Bloc.
*Economista — Fernando.safatle@gmail.com

Fazer Amor ou Estuprar? "Ora", é tudo sexo ...

Não desgosto do safatle, mas todos nós "stepamos nos tomatoes" de vez em quando. Dentre outras, ele diz:
"As várias modalidades de transferência e uso da propriedade estatal se transformaram na realidade em uma batalha semântica"
Pois é...
É como sexo!

O melhor é não aprofundar o debate

O nível do debate anda tão baixo que essa colaboração parece não interessar.
Dá-se mais importância as baboseiras do Adriano Pires, por exemplo.
 Marina Silva não consegue  alcançar  a proplemática do tema e Aecinho  certamente acha que pré-sal  é tempero de tira-gosto.
Campos émais profundo, acha que é preciso melhorar, mas não pergunte o quê.

Daqui há 35 anos...

Putz! Somente daqui há 35 anos vão chegar a retirar o petróleo de Libra, o povo brasileiro vai colher os resultados somente depois de 30 anos da retirada do petróleo.
Daqui há 75 anos, vamos estar todos juntos de São Pedro quando isto acontecer.
As revervas do pré-sal é de 100 anos de produção.
Isto aí se um filho de Deus não inventar o moto-perpétuo.