quarta-feira, 24 de novembro de 2010

IGREJA - A fé, a má fé e o fanatismo religioso.

Balaio do Kotscho

Política, futebol e religião são temas que sempre provocam polêmicas entre os leitores, eu sei, mas ainda não tinha visto nada parecido com o que aconteceu esta semana. Ao indagar no post “Quem ainda segue o que diz Bento 16?”, um texto sobre as suas mais recentes declarações a respeito do uso da camisinha, acabei despertando a ira de católicos mais ortodoxos, que invadiram o Balaio desde segunda-feira com uma enxurrada de comentários histéricos e ensandecidos de papistas em defesa de seu líder espiritual.

Parecia coisa de uma central de pronta-resposta, tão mal escritos eram os comentários, em estilo capenga e com palavras chulas, a exemplo do que vimos na recente campanha eleitoral, entre o primeiro e segundo turnos. Poucos se dignaram a responder à questão levantada pelo Balaio, limitando-se a ofender o autor. Nunca fui tão xingado na vida.

Além de pedir minha expulsão imediata da Igreja Católica e a censura ao blog, alguns igrejeiros mais xiitas chegaram perto de me mandar para a fogueira. Devem ser os mesmos que vivem pregando a favor da liberdade de imprensa e de expressão _ da imprensa deles e da expressão deles, é claro, não dos outros. Ou o infalível Bento 16 pode falar o que quiser e nós, os simples mortais, não? Em qual dos muitos livros bíblicos citados isto está escrito?

Até os termos usados foram semelhantes aos do catecismo empregado na campanha eleitoral: velho, idiota, comunista, gagá, ateu, evangélico, traidor, idiota, Judas Escariotes, cocho mental, excomungado e por aí afora. Ao contrário da limpeza que costumo fazer para manter o asseio do blog, deixei de propósito alguns comentários mais escatológicos para que os leitores possam constatar a que ponto chegam a estupidez e a irracionalidade de uma camada da população ainda mais radicalizada após as eleições.

Ao começar a escrever este post, já havia liberado mais de 550 comentários sobre o assunto, fora as centenas que eram absolutamente impublicáveis e tiveram que ser deletados. No país laico em que vivemos, graças a Deus, somos todos livres para professar a nossa fé, mas a intolerância e a má-fé demonstradas em muitas destas manifestações nos levam a refletir sobre os males que podem ser causados pela intolerância que leva ao fanatismo religioso. Só mesmo lendo estes comentários para entender o que estou querendo dizer.

Não sei se isto ainda é sequela das baixarias da última campanha eleitoral, quando a religião foi utilizada no submundo da internet e de alguns templos para salvar uma candidatura presidencial a qualquer custo, levando a cenas explícitas de preconceito e violência nas ruas e na internet, mas o fato é que em mais de dois anos de Balaio é a primeira vez que o debate descambou desse jeito, justamente quando o assunto era religião. Nem futebol nem política chegaram perto.

Misturaram política com religião e agora estão misturando religião com política. Será um sinal dos tempos? Estas confusões não costumam acabar bem.

Abaixo, reproduzo alguns comentários menos chulos, mantendo a grafia original para dar uma idéia do nível de intolerância a que chegamos:

Cícero, às 23h22, de terça-feira: “Se uma pessoa é católico tem que conceder em tudo que o papa prega”.

Roberto Petersen, às 10h36, de terça: “Lamento te informar, meu caro, que você não é mais um cristão. Talvez nunca foi!”.

Maurício, às 8h57, de terça: “Se você não está satisfeito, crie sua própria igreja e suas regras”.

Julio Cesar, às 8h34, de terça: “Cala a boca Ricardo… Vc não é católico, é ateu”.

Jorge Furlan, às 7h58, de terça: “Ricardo Kotscho: O TOSCO. VOÇE É UM GRANDE IDIOTA” (escrito assim mesmo, com cedilha, maiúsculas e sem acento).

Se não der para arejar um pouco as mentes, explicando que já chegamos ao século 21, estas centrais de pronta-resposta poderiam pelo menos oferecer um curso básico de língua portuguesa aos seus fiéis colaboradores.

Mas o que me deixou mais triste nesta história foi constatar, salvo engano meu, que nenhum dos quase mil leitores que enviaram comentários colocou em debate a questão do planejamento familiar, também ligado ao uso de preservativos _ assim como o combate à Aids _, entre outros anticoncepcionais cujo uso até hoje é considerado pecado pela Igreja Católica.

Neste caso, não estamos falando apenas de seguir ou não os mandamentos e as orientações do papa, seja ele qual for, mas de temas centrais da vida, como a miséria das milhares de mulheres com muitos filhos e sem nenhum marido, a saúde pública, a gravidez precoce, as mortes causadas por abortos feitos sem assistência médica, a falta de habitação decente para todos nas grandes metrópoles, a pedofilia, a violência crescente, a proliferação das drogas, a degradação dos costumes, a desestruturação familiar.

É disso que todas as igrejas deveriam tratar em vez de ressuscitar a Santa Inquisição

4 comentários:

Marcelo Delfino disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelo Delfino disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelo Delfino disse...

Eu acompanho o noticiário. O que o Papa admite aprovar é o uso de preservativos para evitar transmissão de doenças (Sida/Aids e outras), mas não como método anticonceptivo.

Mas não adianta. Os xiitas não aceitam nem uma coisa nem outra. Se o Papa começa a aprovar o uso de preservativos em alguns casos, os xiitas posam de "mais católicos" que o Papa.

Robson Freire disse...

"Alguém ainda ouve o que o Papa diz?"

Ele finge que manda e povo fingi que obedece. Tem até os xiitas que dizem obedecer, mas fazem isso até onde não os fira, até onde onde não os incomode. Hoje existe mais uma crise forte em nosos tempo o das lideranças...