terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A CONTRA-REVOLUÇÃO JURÍDICA.


Está em curso uma contra-revolução jurídica em vários países latino-americanos. É possível que o Brasil venha a ser um deles. Trata-se de uma forma de ativismo judiciário conservador que consiste em neutralizar, por via judicial, muito dos avanços democráticos que foram conquistados ao longo das duas últimas décadas.

Está em curso uma contra-revolução jurídica em vários países latino-americanos. É possível que o Brasil venha a ser um deles.

Entendo por contra-revolução jurídica uma forma de ativismo judiciário conservador que consiste em neutralizar, por via judicial, muito dos avanços democráticos que foram conquistados ao longo das duas últimas décadas pela via política, quase sempre a partir de novas Constituições.

Como o sistema judicial é reativo, é necessário que alguma entidade, individual ou coletiva, decida mobilizá-lo. E assim tem vindo a acontecer porque consideram, não sem razão, que o Poder Judiciário tende a ser conservador. Essa mobilização pressupõe a existência de um sistema judicial com perfil técnico-burocrático, capaz de zelar pela sua independência e aplicar a Justiça com alguma eficiência.

A contra-revolução jurídica não abrange todo o sistema judicial, sendo contrariada, quando possível, por setores progressistas.

Não é um movimento concertado, muito menos uma conspiração. É um entendimento tácito entre elites político-econômicas e judiciais, criado a partir de decisões judiciais concretas, em que as primeiras entendem ler sinais de que as segundas as encorajam a ser mais ativas, sinais que, por sua vez, colocam os setores judiciais progressistas em posição defensiva.

Cobre um vasto leque de temas que têm em comum referirem-se a conflitos individuais diretamente vinculados a conflitos coletivos sobre distribuição de poder e de recursos na sociedade, sobre concepções de democracia e visões de país e de identidade nacional.

Exige uma efetiva convergência entre elites, e não é claro que esteja plenamente consolidada no Brasil. Há apenas sinais, nalguns casos perturbadores, noutros que revelam que está tudo em aberto. Vejamos alguns.

Ações afirmativas no acesso à educação de negros e índios
Estão pendentes nos tribunais ações requerendo a anulação de políticas que visam garantir a educação superior a grupos sociais até agora dela excluídos.

Com o mesmo objetivo, está a ser pedida (nalguns casos, concedida) a anulação de turmas especiais para os filhos de assentados da reforma agrária (convênios entre universidades e Incra), de escolas itinerantes nos acampamentos do MST, de programas de educação indígena e de educação no campo.

Terras indígenas e quilombolas
A ratificação do território indígena da Raposa/Serra do Sol e a certificação dos territórios remanescentes de quilombos constituem atos políticos de justiça social e de justiça histórica de grande alcance. Inconformados, setores oligárquicos estão a conduzir, por meio dos seus braços políticos (DEM, bancada ruralista), uma vasta luta que inclui medidas legislativas e judiciais.

Quanto a estas últimas, podem ser citadas as "cautelas" para dificultar a ratificação de novas reservas e o pedido de súmula vinculante relativo aos "aldeamentos extintos", ambos a ferir de morte as pretensões dos índios guarani, e uma ação proposta no STF que busca restringir drasticamente o conceito de quilombo.

Criminalização do MST

Considerado um dos movimentos sociais mais importantes do continente, o MST tem vindo a ser alvo de tentativas judiciais no sentido de criminalizar as suas atividades e mesmo de dissolvê-lo, com o argumento de ser uma organização terrorista.

E, ao anúncio de alteração dos índices de produtividade para fins de reforma agrária, que ainda são baseados em censo de 1975, seguiu-se a criação de CPI específica para investigar as fontes de financiamento do movimento.

A anistia dos torturadores na ditadura
Está pendente no STF uma Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental proposta pela OAB requerendo que se interprete o artigo 1º da Lei da Anistia como inaplicável a crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de corpos praticados por agentes da repressão contra opositores políticos durante o regime militar.

Essa questão tem diretamente a ver com o tipo de democracia que se pretende construir no Brasil: a decisão do STF pode dar a segurança de que a democracia é para defender a todo custo ou, pelo contrário, trivializar a tortura e execuções extrajudiciais que continuam a ser exercidas contra as populações pobres e também a atingir advogados populares e de movimentos sociais.

Há bons argumentos de direito ordinário, constitucional e internacional para bloquear a contra-revolução jurídica. Mas os democratas brasileiros e os movimentos sociais também sabem que o cemitério judicial está juncado de bons argumentos.


Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

Fonte: Agência Carta Maior.

1 comentários:

Clovis Campos disse...

É a minha primeira participação no seu blog.
Vou adicionar dois comentários: que fiz nos primeiros dias do golpe em Honduras e outro sobre o STF. Os fatos vistos algum tempo depois comprovaram, infelizmente, a essencia das analises.

Novo Modelo de Golpe

Uma semana após o golpe em Honduras, opinei aqui , no blog de Azenha, minha visão. Por oportuna, manifesto-a novamente com as correções que o tempo exigiu. Perdoem-me por ser repetitivo, mas, infelizmente, os fatos confirmaram a leitura que fiz.

Comungo com o seu ceticismo sobre os rumo do golpe em Honduras. Somente se as forças armadas cindissem, o processo seria revertido. Não creio.

A comunidade internacional poderia pressionar implantando um bloqueio econômico. Por comunidade internacional, leia-se EEUU, que representam apenas 85% dos negócios hondurenhos. Também não creio.

Em Honduras, testa-se nesse momento o novo padrão de golpes que será implantado na América Latina. Gilmar Mendes, cassações pelo TSE ( mesmo que merecidas, mas também criando a necessária jurisprudência), crises continuadas no legislativo, manifestações espúrias de generais, tudo isso caminha para que, se necessário, tenhamos o terceiro turno...


Teoria da Conspiração? Sobre os conluios das ditaduras Sul-Americanas a partir dos anos 60 também se dizia serem frutos de teorias da conspiração, até que, passados 30 anos, os papeis foram revelados. O imperialismo não dá ponto sem nó. A IV frota já está ai...”

Passados mais de 20 dias e: adicionadas informações sobre a atuação do embaixador americano, a postura do depto de estado - Hillary Clinton-, e a tibieza de Obama, o último parágrafo deve perder o ponto de interrogação, pois o que era teoria tornou-se fato demonstrado. Como se diz em matemática: QED ou CQD.Agora, passados mais de 100 dias...



STF e o golpe institucional

O STF é a última trincheira do conservadorismo brasileiro. Dele, esperem tudo. Vamos reagir, mas não fiquemos surpresos com tanta desfaçatez. Quanto mais próximos das eleições, pior será.

A direita perdeu o Executivo Federal; teve reduzido o número de governadores e prefeitos municipais; reduziram-se suas bancadas no Congresso Nacional e no Senado.

Os Demos caminham celeremente para a extinção nas próximas eleições. O PSDB será reduzido à sua própria expressão: o partido da elite e da "intelectualidade globalizada".

A mídia já cumpre seu papel de organização política há bastante tempo, sem com isso ter conseguido impedir a crescente queda da hegemonia da direita.

O poder Judiciário, cujos membros são de extração da classe privilegiada, está cumprindo seu papel de resistir à mudança.

Esse fenômeno não ocorre só aqui. Vejam os golpes de caráter institucional que estão sendo perpretados em toda a América Latina, desde que governos de esquerda chegaram ao poder pelo voto.

Felizmente para nós, foram mal sucedidos até o momento. Por isso Honduras nos é tão importante. Lá se joga o sucesso do golpismo travestido de legalidade que os STFs latino-americanos querem nos impingir.

O maior risco político é que esse conjunto de direitistas, mídia e judiciário, consiga cooptar as Forças Armadas, que até o momento, com exceção de Honduras, mantiveram-se na legalidade.