segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O RESGATE DO SONHO AMERICANO

No lançamento de programas que atenuem os efeitos devastadores da presente crise nos EUA (e no resto do mundo) os governos têm privilegiado os bancos em vez das vítimas. Mas «que incentivo têm os bancos para empreenderem um esforço dispendioso que exige deles a oferta de melhores condições ou o perdão de uma parte da dívida? Além disso, estatísticas recentes [nos EUA] mostram que mais de metade das pessoas cujos empréstimos ameaçados foram modificados com melhores condições na primeira metade de 2008 voltaram a falhar nos seis meses seguintes», por falta de condições de pagamento.

Carlton Meyer - 01.02.09

O recente exclusivo da SRA “Walking Away from the American Dream” (“Mais Longe do Sonho Americano”) explicou três factores que podem fazer entrar em colapso o mercado americano da habitação em 2009: não haver empréstimos de recurso, os empréstimos a juro ajustável baixo (“teaser” loans) e finalmente muitos dos donos, forçados a mudar-se devido às usuais transferências de emprego, não conseguirem vender a sua casa para comprarem outra. O governo americano lançou mais de um milhão de milhões de dólares na actual crise económica, mas pouco esforço foi dirigido contra a principal ameaça. Há mais 1,4 milhões de casas devolutas hoje nos EUA do que em 2004 e mais um milhão podem vir a ser abandonadas em 2009 à medida que os preços caem e os proprietários não conseguem escapar à servidão da dívida.

À medida que os bancos executam mais hipotecas e põem as casas à venda, mais ainda caem os preços, forçando ou acelerando mais execuções. Alguma coisa tem que ser feita para parar esta espiral descendente. Os reguladores federais de cúpula propuseram várias ideias para modificar ou refinanciar os empréstimos de hipotecas. Isto demonstra a sua falta de conhecimento do retalho bancário, conhecimento que é conseguido através do tradicional percurso de carreira em que os licenciados ficam vários meses no serviço de balcão, depois vários anos como funcionários ligados ao crédito local, depois muitos mais anos como gerentes de ramo. Aqueles que têm esta experiência sabem que não é possível em poucos meses renegociar um dossiê de empréstimo de hipoteca desenvolvido ao longo de 30 anos e que qualquer tentativa para o conseguir só redundará em caos.

Reajuste das Hipotecas

As várias propostas para refazer as hipotecas existentes poderiam ter algum efeito, mas os custos e o caos resultante ultrapassam os benefícios. O primeiro problema é que as hipotecas não são detidas por uma única entidade. Foram agrupadas com um conjunto de outras hipotecas sob a forma de títulos financeiros e vendidas a milhares de instituições em todo o mundo. Modificá-las exigiria que o detentor de cada parte concordasse com os novos termos. Como os detentores destes títulos desvalorizados já se sentem roubados pelos bancos que lhos venderam, têm pouca motivação para cooperarem.

O segundo problema é que a maior parte dos bancos está em apuros financeiros e a reduzir efectivos. A renegociação dos termos das hipotecas com milhões de proprietários exige milhares de funcionários e muitos anos. Que incentivo têm os bancos para empreenderem um esforço dispendioso que exige deles a oferta de melhores condições ou o perdão de uma parte da dívida? Além disso, estatísticas recentes mostram que mais de metade das pessoas cujos empréstimos ameaçados foram modificados com melhores condições na primeira metade de 2008 voltaram a falhar nos seis meses seguintes.[1]

Isto leva ao terceiro problema sobre quem pede a ajuda. A resposta imediata é que são os proprietários que falharam pagamentos e enfrentam a execução da hipoteca. A ideia é que os bancos e o país beneficiam se novas condições mais generosas impedirem a hipoteca de entrar em execução. Contudo, a maior parte dos proprietários ficaria furiosa se aqueles que compraram casas que não podiam pagar receberem milhares de dólares de benefícios. Foram esses “caloteiros” que causaram o problema nacional e que atiraram abaixo com o valor das casas de toda a gente. Os bancos assistiriam a um aumento repentino de casos de pré-execução à medida que os proprietários deixassem de fazer pagamentos para que os bancos os contactassem a oferecer melhores condições. Os bancos seriam invadidos por proprietários em fúria a querer alterar imediatamente a hipoteca. Os gabinetes do Congresso seriam inundados de quantidades nunca vistas de cartas raivosas.

Tudo isto parte do princípio que os bancos são donos das hipotecas e querem refazê-las. A maior parte do seu dossiê de hipotecas é sólida e lucrativa. Se um programa para refazer hipotecas tem início, então todos os proprietários quererão aproveitar a oportunidade. Ficarão danados se os banqueiros lhes disserem que tal não é possível porque a hipoteca foi vendida na China ou que não são elegíveis visto que não falharam qualquer pagamento da hipoteca. isso iria enfurecer milhões de proprietários honestos que resistiram à ideia de fugir legalmente ao contrato de hipoteca, contrato que os obriga a pagar um empréstimo agora superior ao valor desvalorizado da sua casa. Haveria milhões a protestar deixando de fazer os pagamentos da hipoteca. Se os bancos se recusassem a renegociar a hipoteca com espírito razoável, “punham-se a andar” enviando as chaves ao banco pelo correio.[2]

Socialismo de Livre Mercado

Actualmente, 2,8% das casas próprias e 10% das casas de aluguer estão desocupadas, num total de 17.890.000 que incluem 4.558.000 casas de férias temporárias. A média histórica de 1995 a 2004 era de apenas 1,7%, por isso mais cerca de 1,4 milhões de casas próprias estão hoje vazias relativamente a 2004.[3] As projecções das execuções indicam que mais um milhão de casas podem ser abandonadas em 2009. Mais casas devolutas para venda atiram com os preços ainda mais para baixo, desanimam novos compradores e provocam ainda mais execuções.

A solução simples para esta crise é o governo federal constituir uma agência para a aquisição de um milhão de casas americanas em 2009. Poderia emitir títulos avalizados pelo governo federal para constituir o capital necessário. O preço médio das casas nos EUA caíu para 183.000 dólares, portanto um milhão de casas custa cerca de 183 mil milhões de dólares. Trata-se de uma soma pequena comparada com os mais de um bilião cuja utilização o governo dos EUA autorizou na actual crise económica. Como a maior parte dos 700 mil milhões reservados para o salvamento dos bancos americanos continua por gastar, podia usar-se uma parte desse dinheiro.

Retirar um milhão de casas vagas para fora do mercado devia travar a espiral descendente dos preços das casas. A vantagem deste plano é que não ajuda ninguém directamente e no entanto indirectamente ajuda todos. Os maiores bancos americanos têm longas listas de casas tomadas que precisam de vender. O governo federal poderia fornecer a estes bancos liquidez instantânea comprando-as na totalidade. Isto proporcionaria aos contribuintes activos reais que podiam ser vendidos futuramente com lucro.

Quando um milhão de tabuletas “Vende-se” desaparecessem dos relvados em todos os EUA, o governo podia alugar essas casas, no caso ideal aos actuais ocupantes que falharam a hipoteca. Isto podia ser feito pela agência federal de habitação em cada cidade americana. Outra opção seria contratar com agências de propriedades locais, cujo negócio se afundou, porque elas tratam igualmente do aluguer de casas, retendo normalmente 10% da renda cobrada.

Este plano “socialista” pode levar a má gestão e a casos de corrupção. Contudo, é melhor do que o actual plano de “mercado livre” em que milhões de casas abandonadas continuam vazias. O governo federal já detém centenas de milhar de casas nas bases militares e no entanto ninguém critica esse empreendimento socialista. Seria difícil para uma agência federal de habitação perder dinheiro a longo prazo. Pode vender títulos próximo da taxa a 10 anos das notas do Tesouro dos EUA (2,65%) para comprar as casas e a renda cobriria facilmente os impostos locais, a manutenção e os gastos gerais. Essa agência devia ter vigência limitada, como a bem sucedida Resolution Trust Corporation (RTC) que dispôs de propriedades durante o último crash da habitação. Algures depois de 2014, a agência seria instruída para vender 100.000 casas por ano a proprietários privados, até à sua dissolução uma década mais tarde.

Comprar um milhão de casas parece ambicioso, contudo há mais de 130 milhões de casas nos EUA, pelo que seria menos de 1%. Parece insignificante, mas absorver este excesso de oferta deveria parar a espiral descendente dos preços da habitação. Se a compra de um milhão de casas não conseguir virar a maré em 2009, outro milhão poderia ser comprado em 2010. Comprar casas com dinheiro é bastante mais eficaz e financeiramente transparente do que dar dinheiro aos bancos por títulos financeiros de duvidoso valor. No final, os banqueiros podem não apoiar esta ideia. Contudo, devem concordar que parar a queda dos preços da habitação reduz rapidamente a carga relativa às execuções. Só o anúncio de tal plano já causará impacto imediato.

Suavizar os Ciclos de Alta e Baixa

Enquanto se dá grande atenção ao estudo dos problemas provocados pelas variações selvagens do preço das casas, pouco se tem escrito sobre como evitar futuros problemas. O mais óbvio é aplicar as leis e regulações existentes. Por exemplo, uma prática bancária segura é a entrada com o mínimo de 5% do preço de venda da casa. No entanto, muitas instituições como o agora extinto Countrywide anunciavam abertamente entrada zero. Os banqueiros utilizavam há anos a sua influência política para eliminarem os esforços de alguns reguladores federais no sentido da proibição de esquemas de empréstimo arriscados. Membros responsáveis do governo Bush ignoraram as recomendações das agências federais para se apertarem as exigências dos empréstimos.[4]

O sistema de empréstimos é obviamente defeituoso, mas, para além da exigência de uma entrada mais alta e de um historial de crédito mais sólido, não apareceram soluções realistas. Não seriam essas medidas que teriam evitado a maior parte dos problemas actuais, porque mesmo quem tivesse um registo de crédito impecável não podia permitir-se vender a casa depois do seu valor ter caído 30% ou mais. Há também o problema dos investidores que “desaparecem” sem consequências sérias. Uma solução parcial seria eliminar a cláusula exclusivamente americana do “não recurso” nos contratos de hipoteca. No entanto, isso significa que uma entrada pouco oportuna de um novo proprietário no mercado podia destruir o seu valor líquido e levá-lo à falência.

O problema geral com o mercado da habitação é o uso do “valor comparável” quando se determina o valor da propriedade. Os funcionários dos empréstimos comparam o valor de vendas recentes de casas semelhantes na mesma zona para determinarem o valor base para o empréstimo. Se o valor actual da casa duplicou em cinco anos, isso não os preocupa porque acham que isso reflecte as “forças do mercado.”

Os banqueiros e os agentes de propriedades dizem aos futuros proprietários que embora o preço das casas possa baixar, a experiência mostra que o seu valor aumenta ao longo do prazo do empréstimo, tipicamente a 15 ou 30 anos. Contudo, muito poucos empréstimos de casas são alguma vez liquidados. A maior parte das casas são logo vendidas apenas alguns anos depois, porque o proprietário se mudou ou porque não consegue pagar as prestações. Muitos proprietários têm que vender por uma contingência de desemprego, mudança de emprego, divórcio ou outro problema pessoal. Se o valor do empréstimo exceder o valor da casa, o resultado é muitas vezes a execução da hipoteca.

Avaliação Intrínseca a Longo Prazo

A solução é mudar do “valor comparável” para o “valor intrínseco a longo prazo.” As revistas financeiras trazem de vez em quando histórias sobre as “casas mais acessíveis” do país, onde comparam os preços das casas com os níveis de rendimento locais. Não é de admirar que as casas nas cidades classificadas como mais acessíveis tenham mantido a maior parte do seu valor durante a actual queda do imobiliário porque nunca subiram muito durante o último “boom” da habitação.

Outros factores, além dos níveis de rendimento, afectam o valor verdadeiro da habitação em cada região, como a inflação, o crescimento populacional, o crescimento económico e a construção de mais habitação. As entidades que concedem empréstimos devem ser levadas a usar modelos de “valor intrínseco a longo prazo” quando avaliam o valor das casas para os empréstimos. O valor comparável pode ser um factor no modelo, mas secundário. Os banqueiros devem basear os empréstimos a longo prazo no valor da casa a longo prazo.

Com tais modelos, tornava-se impossível o dinheiro rápido durante os “booms” de propriedades. Enquanto o valor das casas nalgumas zonas podia aumentar mais depressa do que noutras, os aumentos de preços seriam atenuados pela recusa das entidades de crédito em avaliarem as casas ao nível que os compradores e vendedores tinham acordado. Por exemplo, alguém pode querer comprar por 300.000 dólares uma casa que foi vendida há dois anos por 200.000– um aumento de 50%. Usando o seu modelo do valor intrínseco a longo prazo, as entidades do crédito podem avaliar a casa apenas a 240.000 dólares, ou seja, com um aumento de 20%. Isto forçaria normalmente as partes a chegar a acôrdo por um preço mais baixo.

Se o vendedor ficasse na mesma e o comprador quisesse continuar, precisava de completar a diferença de 60.000 dólares no fecho do contrato, além dos habituais 15.000 de sinal. Assim o banco ficava com uma grande almofada, caso o preço das casas baixasse. Além disso, o comprador não pode mais tarde reclamar que lhe deram mau conselho porque o banco avaliou a casa por muito menos. Finalmente, há muito menos incentivo para alguém “desaparecer” de uma casa que desvaloriza visto que o empréstimo da hipoteca é menor.

Avaliações intrínsecas a longo prazo eliminariam os esquemas de dinheiro rápido nas propriedades, esquemas nos quais os especuladores compram em mercado quente planeando desfazer-se da casa semanas mais tarde revendendo-a por preço mais alto. Os preços ficariam condicionados pelo empréstimo bancário que tem como base o valor a longo prazo e não o modelo do valor comparativo que ajuda a encher bolhas especulativas.

Proteger o Sonho Americano

Ter casa é o sonho da maioria dos americanos. A maior parte não tem conhecimentos económicos para perceber as bolhas especulativas, especialmente quando apoiados em agentes de propriedades interessados na comissão de venda. O governo federal deve tomar medidas para parar a espiral descendente do preço das casas comprando as casas excedentárias no mercado. Depois, deve aplicar reformas bancárias em que a avaliação das casas seja determinada por modelos de valor intrínseco a longo prazo.

Fontes:
“Walking Away from the American Dream,” Carlton Meyer, SRA Commentary, 6 de Janeiro de 2009.
“U.S. Census Bureau News,” Dep. do Comércio dos EUA, 28 Out. 2008.

Notas:
[1] “Statistics show loan modification not a panacea,” Marketwatch, 8 Dez. 2008.
[2] "More in foreclosure choose to walk away,” SF Gate, 16 Março 2008.
[3] “U.S. Census Bureau News,” Dep. do Comércio dos EUA, 28 Out. 2008.
[4] “Bush administration ignored clear warnings,” AP, 1 Dez 2008.

Este texto foi publicado em SANDERS RESEARCH ASSOCIATES
Fonte: O Diário.info.

O BURACO PERFEITO

Leonardo Boff *

Ignace Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique e um dos agudos analistas da situação mundial, chamou a atual crise econômico-financeira de "a crise perfeita". Putin, em Davos, a chamou de "a tempestade pefeita’. Eu, de minha parte, a chamaria de "o buraco perfeito". O grupo que compõe a Iniciativa Carta da Terra (M. Gorbachev, S. Rockfeller, M.Strong e eu mesmo, entre outros) há anos advertia: "não podemos continuar pelo caminho já andado, por mais plano que se apresente, pois lá na frente ele encontra um buraco abissal". Como um ritornello o repetia também o Fórum Social Mundial, desde a sua primeira edição em Porto Alegre em 2001. Pois chegou o momento em que o buraco apareceu. Lá para dentro caíram grandes bancos, tradicionais fábricas, imensas corporações transnacionais e US$50 trilhões de fortunas pessoais se uniram ao pó do fundo do buraco. Stephen Roach, do banco Morgan Stanley, também afetado, confessou: "Errou Wall Street. Erraram os reguladores. Erraram as Agências de Avaliação de risco. Erramos todos nós". Mas não teve a humildade de reconhecer:" Acertou o Fórum Social Mundial. Acertaram os ambientalistas. Acertaram grandes nomes do pensamento ecológico como J. Lovelock, E. Wilson e E. Morin".


Em outras palavras, os que se imaginavam senhores do mundo a ponto de alguns deles decretarem o fim da história, que sustentavam a impossibilidade de qualquer alternativa e que em seus concílios ecumênicos-econômicos promulgaram dogmas da perfeita autoregulação dos mercados e da única via, aquela do capitalismo globalizado, agora perderam todo o seu latim. Andam confusos e perplexos como um bêbado em beco escuro. O Fórum Social Mundial, sem orgulho, mas sinceramente pode dizer: "nosso diagnóstico estava correto. Não temos a alternativa ainda mas uma certeza se impõe: este tipo de mundo não tem mais condiçãoes de continuar e de projetar um futuro de inclusão e de esperança para a humanidade e para toda a comunidade de vida". Se prosseguir, ele pode pôr fim a vida humana e ferir gravemente a Pacha Mama, a Mãe Terra.

Seus ideólogos talvez não creiam mais em dogmas e se contentem ainda com o catecismo neoliberal. Mas procuram um bode expiatório. Dizem: "Não é o capitalismo em si que está em crise. É o capitalismo de viés norteamericano que gasta um dinheiro que não tem em coisas que o povo não precisa". Um de seus sacerdotes, Ken Rosen, da Universidade de Berkeley, pelo menos, reconheceu:"O modelo dos Estados Unidos está errado. Se o mundo todo utilizasse o mesmo modelo, nós não existiríamos mais".

Há aqui palmar engano. A razão da crise não está apenas no capitalismo norte-americano como se outro capitalismo fosse o correto e humano. A razão está na lógica mesma do capitalismo. Já foi reconhecido por políticos como J. Chirac e por uma gama consideravel de cientistas que se os paises opulentos, situados no Norte, quisessem generalizar seu bem estar para toda a humanidade, precisaríamos pelo menos de três Terras iguais a atual. O capitalismo em sua natureza é voraz, acumulador, depredador da natureza, criador de desigualdades e sem sentido de solidariedade para com as gerações atuais e muito menos para com as futuras. Não se tira a ferocidade do lobo fazendo-lhe alguns afagos ou limando-lhes os dentes. Ele é feroz por natureza. Assim o capitalismo, pouco importa o lugar de sua realização, se nos EUA, na Europa, no Japão ou mesmo no Brasil, coisifica todas as coisas, a Terra, a natureza, os seres vivos e também os humanos. Tudo está no mercado e de tudo se pode fazer negócio. Esse modo de habitar o mundo regido apenas pela razão utilitarista e egocêntrica cavou o buraco perfeito. E nele caiu.

A questão não é econômica. É moral e espiritual. Só sairemos a partir de uma outra relação para com a natureza, sentindo-nos parte dela e vivendo a inteligência do coração que nos faz amar e respeitar a vida e a cada ser. Caso contrário continuaremos no buraco a que o capitalismo nos jogou.
Fonte:ADITAL.

CUBA - 50 anos da Agência Prensa Latina.

OPERAÇÃO VERDADE HÁ MEIO SÉCULO

Primeira grande batalha contra a desinformação

Juan Marrero

QUANDO ainda era um bebê, quase ao nascer, a Revolução Cubana teve que travar sua primeira grande batalha contra a desinformação e a calúnia.

O pretexto utilizado foram os julgamentos e condenações dos tribunais revolucionários dos mais notórios criminosos de guerra da ditadura de Batista, derrubada em 1º de janeiro de 1959. Mal haviam começado a ser cumpridas as decisões dos tribunais, levantou-se no exterior o fantasma de que os barbudos da Serra Maestra estavam fazendo um "banho de sangue" no país, pois faziam "execuções em massa".

De Washington, saíram as primeiras vozes de condenação à nascente Revolução. Wayne Hays, deputado democrata, disse: "Vou perguntar ao Departamento de Estado que vai fazer para acalmar Fidel Castro antes que Cuba se despovoe..." e em seguida propunha algumas medidas, entre as quais, a de bloquear os créditos a Cuba e suspender as importações de açúcar. Stanley Bridges, deputado republicano, declarou: "As notícias de Havana são pouco tranquilizadoras". Homer E. Capehart, senador por Indiana, era muito mais áspero em suas declarações: "A onda de mortes pelos rebeldes enlouquecidos pela vingança provoca náuseas aos cidadãos decentes".

Jornais dos EUA, da Grã-Bretanha e de outros países seguiam essa instrução saída do Capitólio de Washington. E, em seus editoriais, qualificavam de "desconsoladoras as notícias procedentes de Cuba", como o fez o Herald Tribune, e o Daily Sketch, de Londres, qualificou os acontecimentos de "espantoso capítulo".

Os assassinatos e torturas de Batista e de seus mais fiéis servidores foram muito bem conhecidos depois do triunfo da Revolução. A censura impediu que antes fossem tornados públicos. Do terror estabelecido se escreveram dezenas de milhares de páginas no último meio século.

A imprensa tradicional cubana, não tocada nos albores da Revolução, reproduzia as insidiosas notícias da AP e da UPI e as reportagens da Life, do Time e de outras publicações. Também contribuía a aumentar o fogo da campanha da mídia quando publicavam dramáticas fotos ou transmitiam nos noticiários da TV o desenvolvimento dos julgamentos e dos fuzilamentos dos criminosos de guerra, como nos casos de Olayón e de Cornelio Rojas. A imprensa internacional utilizava essas imagens para tentar enfraquecer a Revolução e apresentá-la como incivilizada, e um país governado por uma tribo de selvagens.

Chegou um momento em que as notícias publicadas não mencionavam que os julgamentos eram contra notórios criminosos de guerra, mas contra "batistianos" ou contra "partidários de Batista".

O certo é que nenhum funcionário administrativo da ditadura foi processado por crimes de guerra. Apenas foram julgados e condenados alguns dos mais notórios criminosos de guerra que puderam ser presos. Porque outros, como Ventura, Carratalá, Masferrer, Ugalde Carrillo e Pilar García escaparam e se refugiaram nos EUA, onde foram protegidos.

NASCE A "PRENSA LATINA"

A Revolução, dispondo ainda de escassos meios, não ficou na defensiva. Aceitou o desafio. Fidel falou em 15 de janeiro no Rotary Clube de Havana, denunciando a campanha da mídia e os perigos que ameaçavam Cuba. "Defender-nos-emos da calúnia... não temos nada que ocultar... Vamos chamar a imprensa internacional para que saiba a verdade..."

Três dias depois, o Movimento 26 de Julho, com um grupo de honestos e prestigiosos jornalistas, começou a despachar convites para realizar em Havana a Operação Verdade. Em menos de 48 horas, organizou-se tudo. As embaixadas de Cuba e a linha aérea Cubana de Aviação fizeram o possível para que quase 400 jornalistas do continente aceitassem vir a Havana.

Hospedaram-se, na maioria, nos 240 apartamentos do hotel Riviera, na rua Paseo e Malecón (beira-mar), onde também se criaram facilidades para a transmissão das informações e o transporte dos jornalistas. Entregava-se a cada jornalista, quando chegava a Havana uma pasta com materiais e fotos sobre alguns dos assassinatos e torturas da ditadura. Jornalistas de 20 importantes cidades dos EUA assistiram à reunião, entre os quais Jules Dubois, do Chicago Tribune e executivo da SIP, e quem, algum tempo depois, soube-se que era coronel da CIA.

A convite do governo revolucionário, participaram também os legisladores norte-americanos Adam Clayton Powel, um negro do Harlem, que tinha pedido a destituição do embaixador de seu país Earl T. Smith, por ter sido "um homem pró-Batista" e de Charles O. Porter, destacado líder do movimento de direitos civis que exigia respeito para Cuba.

Representando uma revista de Caracas, onde então residia, esteve presente o futuro Pêmio Nobel de Literatura: o colombiano Gabriel García Máquez.

Nesses dias, alguns jornalistas e escritores cubanos comentaram o tema dos fuzilamentos em seus jornais, entre os quais Guillermo Cabrera Infante, do diário Revolución, que deu um valioso testemunho antes de tornar-se intolerante, a ponto de negar que sua obra literária fosse publicada em Cuba. Em 6 de janeiro de 1959, escreveu: "Como é possível que tenha que dar explicações do justiçamento de uma figura tão desprezível como Cornelio Rojas? Sobram as explicações, porque não é isso que se busca. Quando toda a população de Cuba vivia sob o terror, quando crianças de 15 anos amanheciam feridas de balas nas ruas; quando se castrava, tiravam os olhos, torturava-se e se açoitava, nenhuma destas vozes se levantou para condenar esses fatos, nem sequer apareceram esses novos humanitários..."

E mais adiante, este escritor, que morreu em 2005 em Londres, expôs: "Os fuzilados são criminosos conhecidos, seus crimes foram divulgados por eles mesmos; um povo de sentimentos não moveu um dedo para impedir que continuem os justiçamentos; até os familiares dos justiçados sabem que se atua com espírito de honradez. A preocupação de certos obscuros senadores americanos, a dor do péssimo coração de Eisenhower, os editoriais da imprensa marrom do espectro jornalístico estão muito bem dirigidos. Não são as execuções o que tratam de deter, mas a marcha segura e infalível da Revolução Cubana...".

A Operação Verdade teve dois momentos-chave: uma concentração popular em 21 de janeiro na Avenida de las Misiones, em frente do antigo Palácio Presidencial, composta por um milhão de pessoas, e no dia seguinte, Fidel manteve um longo encontro com os jornalistas estrangeiros e cubanos no salão Copa Room do hotel Havana Riviera, onde o líder da Revolução respondeu às perguntas dos jornalistas sobre os julgamentos e sobre a realidade de Cuba. Em suas palavras iniciais dirigidas aos jornalistas, Fidel assinalou que nossos povos estavam desinformados porque as agências de informação não eram latino-americanas. "Eu lhes digo que a imprensa da América Latina deveria estar na posse dos meios de difusão que lhe permitam saber a verdade e não ser vítimas da mentira", e como resultado concreto da Operação Verdade, poucos meses depois, nasceu em Havana a agência informativa latino-americana Prensa Latina, organizada e dirigida por Jorge Ricardo Massetti. Outro jornalista presente na Operação Verdade, Gabriel García Márquez, também seria um dos fundadores dessa agência que, neste ano, completa também 50 anos de vida.

Fonte:Granma Internacional.

FÓRUM DE DAVOS - Protecionismo em Davos:o duplo discurso das potências.

As posições de algumas potências ocidentais sobre protecionismo, assumidas no Fórum Econômico Mundial reunido em Davos, confirma, mais uma vez, sua tradicional dupla moral em eventos assim. Estados Unidos, União Europeia (UE) e de outras nações industrializadas criticam em público o protecionismo, mas em privado defendem-no com unhas e dentes.

É o que ocorre agora nos debates em Davos, assistidos por chefes de Estado e mais de 2 mil empresários, financiadores, empresários e executivos. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, pronunciou-se neste sábado (31) contra o que ele chamou de uma nova forma de protecionismo, um recuo da globalização, do comércio e da atividade transfronteiras.

Os EUA, que em todas as cúpulas da Organização Mundial do Comércio (OMC), se comprometeram a reduzir subsídios para os produtos agrícolas, e outros, na verdade os fortalecem. Esse é precisamente um dos principais desafios para que a Rodada Doha chegue a uma conclusão exitosa.

Assim, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, advogou em Davos o chamado ''Buy american'' (Compre produtos americanos) na aquisição de aço, o que provocou indignação entre os parceiros de Washington.

No seu pacote de salvamento, a nação de Biden inclui uma medida claramente protecionista, que proíbe a compra de ferro ou aço estrangeiros para uso em projetos de infraestrutura financiados pelo novo plano de estímulo.

Na reunião do G-20, recém-concluída em Washington, em novembro, esse país e outros Estados ricos criticaram a prática, que afeta mais as nações do Sul. Porém na realidade eles continuam a apoia-la.

Uma análise das posições das potências comerciais sobre este assunto, ao longo de mais de três décadas, revela sua hipocrisia: esta política continua e tende a aumentar em várias esferas.

A declaração de uma cúpula em 1975 afirma: ''Os países que usam o protecionismo comercial estão expostos a uma deterioração da sua posição competitiva, o vigor das suas economias pode ser afetado''.

Mais tarde, em outra reunião semelhante, de 1997, proclamaram: ''Rejeitamos esta prática porque pode fomentar o desemprego, aumentar a inflação e minar o bem-estar de nossos povos''.

Washington e Bruxelas [sede administrativa da UE] têm usado retóricas muito semelhantes sobre a questão em todas as reuniões mundiais, inclusive a que está em curso em Davos.

Em contrapartida, o primeiro ministro russo, Vladimir Putin, afirmou que seu país não irá recorrer ao isolacionismo e egoísmo. Ele recordou os compromissos antiprotecionistas assumidos pelas grandes economias mundiais na reunião de novembro do G20 em Washington (as sete economias mais ricas, mais as emergentes).

Tamém o titular de Comércio indiano, Kamal Nath, usou palavras duras na estação de esqui dos Alpes suíços, onde se reúne a cúpula, contra as atitudes individualistas de recuo.

Os especialistas concordam que o protecionismo historicamente tem sido contraproducente e nada bom para a economia mundial.

Fonte: Madrid Digital/Site O Vermelho.

TRABALHO ESCRAVO - Problema exige esforço persistente e institucionalizado.

BRASÍLIA (Notícias da OIT) – A Diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, Laís Abramo, participou do lançamento do II Plano Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, em cerimônia ocorrida no Ministério da Justiça no dia 10 de setembro. “Estamos frente a um problema que exige um esforço persistente e institucionalizado para a sua resolução, afirmou Laís Abramo.

O II Plano foi anunciado pelo ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi. Produzido pela Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (CONATRAE), o documento estabelece ações para o enfrentamento, repressão e prevenção do problema, além de iniciativas para garantir a reinserção e capacitação dos trabalhadores libertados.

Das 66 ações previstas no plano, 15 têm abrangência geral e tratam de tópicos como a manutenção do combate ao trabalho escravo como prioridade do Estado e a criação de um órgão responsável por articular ações conjuntas das equipes de diversos organismos que combatem este crime.

O plano prevê ainda outras 15 ações de enfrentamento e repressão ao problema, 15 de reinserção e prevenção, nove iniciativas de informação e capacitação e dez ações específicas de repressão econômica.

A Diretora Laís Abramo observou que 68% das metas estipuladas no 1º Plano Nacional, lançado em 2003, foram atingidas, total ou parcialmente. Segundo dados da OIT, entre 1995 e 2002 foram libertadas 5893 pessoas. Já entre 2003 e 2007, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho resgatou 19.927 trabalhadores encontrados em condições análogas à escravidão.

"A gente não pode dizer que a situação é boa porque o problema existe", afirmou Lais. "Por outro lado, o país se destaca positivamente e está em uma situação bastante especial por ter reconhecida oficialmente a existência de trabalho em condições análogas à escravidão e por ter desenvolvido nos últimos anos uma série de mecanismos de combate ao trabalho escravo”, disse Laís, referindo-se à criação do Grupo Móvel de Fiscalização, do cadastro de empresas flagradas empregando trabalho escravo e da própria criação da Conatrae.

“Falta aprimorar os mecanismos de prevenção, que é um dos pontos fundamentais desse segundo plano. Também falta melhorar as políticas de reinserção dos trabalhadores resgatados e também aprimorar o combate à impunidade”, defendeu Lais Abramo.

Fonte:OIT

GAZA - Uma enorme derrota para Israel.

por Jean Bricmont
Entrevistado por Leila Lallali [*]

Penso que é importante constatar que, além dos horrores cometidos e dos sofrimentos suportados, trata-se de uma enorme derrota para Israel. Não podemos avaliar quem ganha ou quem perde se não levarmos em conta as relações de força aí envolvidas. É quando Moscou ou Leningrado resistem aos alemães que estes perdem, bem antes de Stalingrado. Ora, no caso de Gaza, as relações de força são ainda mais desequilibradas do que no Líbano em 2006, e, entretanto, Israel não ganha, então sua derrota é ainda maior. Com efeito, é preciso compreender o que seria para Israel ganhar (o que se passou mais ou menos em 1967): soldados que se rendem ou fogem, dirigentes do Hamas presos e levados a Israel para serem julgados como "terroristas". Ora, nada disso se passa em Gaza. Ademais, é preciso ter em conta o efeito ideológico ligado à monstruosidade dos crimes, à revolta que eles inspiram, não somente no mundo árabe, mas em todo o "terceiro mundo", e também, em parte, na Europa. É preciso reconhecer o valor da emissora de televisão Al Jazeerah, e também da Internet, que permitiram que as pessoas realmente se informassem.

O senhor pensa que a agressão israelense a Gaza foi causada pelos foguetes do Hamas, ou existem outros objetivos?

Israel não me mantém informado de seus planos secretos, e, enquanto cientista, não gosto de especular muito. Então, não sei nada sobre isso. Há talvez objetivos eleitorais. O que é evidente é que os tiros de foguete, situados em um contexto global, não podem justificar a agressão. É evidente que teria sido necessário abandonar o bloqueio e negociar com o Hamas. Também evidente, e inquietante, é o fato de que nós mal podemos ver que objetivo os israelenses perseguem e podem racionalmente esperar atingir. Qualquer observador objetivo se dá conta de que este ataque não pode senão reforçar o Hamas, assim como a hostilidade com relação a Israel. Há qualquer coisa de profundamente irracional nesta atitude israelense, e, de certo modo, é isso o que há de mais inquietante.

Israel desafia o mundo e a Organização das Nações Unidas não é capaz de impedir que isso ocorra; como fazer face a este Estado?

Primeiramente, é preciso compreender que a impotência das Nações Unidas deve-se inteiramente ao bloqueio dos Estados Unidos. A Assembléia Geral e mesmo o Conselho de Segurança podem ter boas posições (mas é preciso lembrar que há o direito de veto). Logicamente, visto a força militar de Israel, não é evidente que se pudesse agir neste plano. Entretanto, podemos utilizar a arma BDS – Boicote, desinvestimento, sanções . As sanções dependem de estados e é pouco provável que a Europa e os Estados Unidos as adotem. Por outro lado, podemos admirar a atitude da Bolívia e da Venezuela que, embora situadas longe do conflito, adotam posições de princípio notáveis, e das quais poderíamos esperar que inspirem estados que são geográfica e culturalmente mais próximos da Palestina.

O boicote é uma arma cidadã, que se desenvolve muito fortemente na Grã-Bretanha. Ela foi utilizada com sucesso contra a África do Sul e eu não vejo por que, por fim, ela não poderia ser eficaz contra Israel.

Como se situa a Europa quanto ao que se passa na Faixa de Gaza?

De que Europa falamos? A senhora sabe, assim como eu, que a Europa não está unida (não mais que a Liga Árabe aliás) e que os governos não refletem suas opiniões públicas. Ademais, é preciso dar-se conta de que o problema central reside nos Estados Unidos, particularmente no Congresso e no Senado. A Europa tem muita dificuldade em tomar uma posição independente dos Estados Unidos e, mesmo se ela o fizesse, isso não mudaria grande coisa enquanto os Estados Unidos apoiam cegamente Israel. O que não quer dizer que a Europa não devesse fazer nada – se ela se distanciasse dos Estados Unidos quanto a esta questão, isso reforçaria aqueles que, nos Estados Unidos, pensam que o apoio a Israel custa caro demais para algo que não lhe diz respeito tanto assim.

Qual é o interesse da Europa em sustentar a agressão israelense a Gaza?

Quem lhe disse que ela age por interesse? Penso que, se refletirmos bem, ela não tem interesse algum a longo prazo em sustentar Israel (e em se alienar de tantas pessoas no mundo). Mas quem, entre os homens ou mulheres políticos europeus, ou homens ou mulheres de negócios, vai fazer esta análise? E quem, a supor que ele ou ela o faça, vai ousar dizê-lo? Não se pode compreender nada do que se passa na Europa e nos Estados Unidos enquanto não se leva em conta o fator do medo – medo das organizações sionistas, de suas campanhas de difamação e intimidação. É por isso que eu penso que as organizações de solidariedade deveriam antes de tudo combater este sentimento de medo, sustentando todos aqueles que dão passos, mesmo pequenos e mesmo imperfeitos, na boa direção, isto é, de mais independência com relação a Israel.

O senhor pensa que Barack Obama vai mudar a política americana, ou ele vai seguir os rastros de Bush?

Novamente, não gosto de fazer previsões – nós veremos; mas todos os sinais que Obama deu durante sua campanha mostram um apoio sem falha a Israel. Mesmo se nós supomos que era uma tática (pois ele sabia que não seria eleito se fosse abertamente contrário às organizações sionistas), é preciso não esquecer que um presidente não é um ditador e que ele deverá levar em conta essas mesmas relações de força às quais se submeteu completamente durante sua campanha. Além disso, o Congresso e o Senado acabam de votar uma resolução totalmente pró-israelense sobre o conflito em curso; se Obama tinha a menor intenção de mudar alguma coisa, ele está avisado de que tem duas câmaras contra si.

Como o senhor vê o futuro das relações internacionais sob a administração Obama?

Haverá sem dúvida mais "diplomacia", mas, como observa Chomsky, Condoleeza Rice falava também de diplomacia. Sobretudo a primeira administração Bush foi todo o tempo partidária da guerra, mesmo se sozinha contra o resto do mundo. Posteriormente, o discurso mudou, e mudará ainda mais com Obama. Mas, no fundo, o que realmente ocorrerá? Meu temor é de que o entusiasmo, em parte legítimo, provocado pela eleição de um negro faça calar os críticos da política americana ou, pior, que as vozes críticas sejam acusadas de racismo. O problema é que Obama terá muito mais "legitimidade" que Bush, ao menos se tomarmos este no fim de seu governo. Ora, o que limita a nocividade dos Estados Unidos não são as intenções de seus dirigentes, mas sobretudo a oposição popular à sua política, o que será muito mais difícil com Obama do que com Bush.

Para o povo palestino, a única esperança é de que a crise econômica leve a uma tomada de consciência, nos Estados Unidos, de que muitas coisas não vão bem em sua política e, na verdade, lhes causam danos; e uma das mais importantes destas é o apoio cego a Israel.

[*] Jornalista, argelina.

O original encontra-se em Ech-chourouk, edição de 21/janeiro/2009.

A versão em francês encontra-se em http://www.legrandsoir.info/spip.php?article7934
Tradução: Fernanda Correia de Oliveira

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ .

FSM - Correa, Lugo, Morales e Cháves no FSM.

João Romão

Mesmo sem a presença do anfitrião Lula, quatro presidentes de Repúblicas da América Latina juntaram-se num comício em Belém do Pará, à margem do Fórum Social Europeu, em que valorizaram os contributos do FSM para as lutas pelo socialismo e procuraram o apoio dos movimentos sociais de todo o mundo.

Sobre o local e horário do evento, realizado sob forte protecção policial e militar, foram circulando sucessivos rumores que evitaram a afluência de um público massificado e apenas algumas centenas das cem mil pessoas que assistem ao Fórum estavam na assistência.

Rafael Correa foi o primeiro a discursar e em vinte minutos definiu todo um programa revolucionário. O presidente do Equador começou por criticar a «arrogância do consenso de Washington», partilhado por uma minoria de líderes e salientou o «momento mágico» que vive a política latino-americana, com a eleição de novos governos, de esquerda, que ninguém esperava há dez anos atrás, e que são a expressão da vontade dos povos e o resultado dos movimentos sociais. Economista formado em Chicago, a principal referência teórica do neoliberalismo nas últimas décadas, o «Chicago-Boy que reescreveu a lição», como Chavez viria a dizer, defendeu a redefinição do papel do Estado e a renovação da ideia de planeamento, lembrando que, actualmente, «os que mais planificam são os países ricos e as grandes multinacionais».

Correa apelou à articulação de forças nacionais e acções colectivas contra o capitalismo contemporâneo, onde o trabalho é um instrumento do capital e a competição assenta na precarização das relações laborais, defendendo uma nova ênfase no valor de uso em detrimento do valor de troca e dando como exemplo a selva amazónica, «o mais precioso bem da Humanidade» e novos conceitos de desenvolvimento, assentes em novas arquitecturas regionais e novos processos de colaboração entre regiões. Segundo Correa, «o socialismo não questionou os grandes objectivos do capitalismo – massificar o consumo e produzir mais riqueza – e apenas os tentou atingir mais depressa», pelo que o socialismo do século XXI deve ser «evolutivo, adaptado às condições de cada sociedade, não-dogmático e eficaz».

Fernando Lugo, eleito há um ano presidente do Paraguai, também salientou que «a História dos nove Fóruns Sociais Mundiais corresponde a uma mudança profunda na situação política da América Latina: as lutas dos movimentos sociais têm sido o suporte da mudança, construída nas ruas, debaixo das árvores, nas lutas, nas eleições, com vitórias e derrotas». «O que conseguimos» – afirmou – «foi suficiente para derrotar o neoliberalismo, mas ainda não chega para construir a sociedade que a América Latina merece: para navegar na Amazónia é preciso paciência, mas na América Latina precisamos de impaciência para construir um novo continente. Um novo mundo, não só é possível, como se está a tornar real», concluiu.

Evo Morales não chegou a utilizar os vinte minutos previstos para cada orador para evocar «a defesa da terra», com o exemplo da Amazónia e dos povos amazónicos. «Não quero que me convidem, quero que me convoquem», esclareceu o presidente boliviano, que exigiu «justiça e humanidade em vez de ambição» e pediu aos movimentos sociais que não o esqueçam.

Hugo Chávez foi o último dos presidentes a falar, salientando que havia vinte minutos para um discursar e que é assim o socialismo. No entanto, ao contrário dos restantes, falaria durante quase cinquenta minutos, grande parte dos quais a evocar o legado de Fidel Castro e os encontros que foi mantendo nos últimos vinte anos com o líder cubano. Saudou os companheiros de mesa e evocou Tupac Amaru, o chefe índio que, nos momentos antes de ser esquartejado por quatro cavalos a mando dos colonizadores espanhóis, declarou com dignidade: «Vou, mas um dia voltarei, feito milhões».

Chávez foi o único a referir-se ao «genocida» que ocupou a Casa Branca nos últimos dez anos e que «saiu pela porta de trás, para o caixote de lixo da História», para desafiar Barack Obama a marcar uma efectiva mudança, libertando o território de Guantánamo para a tutela de Cuba ou retirando o seu exército do Equador. No entanto, esclareceu que «não temos grandes expectativas» e apenas exigiu «respeito pela soberania venezuelana».

O presidente da Venezuela lembrou que 300 anos de capitalismo provocaram fome, desigualdades, trabalho infantil, destruição da natureza e contaminação, salientando que estes problemas só se agravaram com o aprofundamento do capitalismo global, para defender a construção, com os movimentos sociais, de um novo socialismo: «não há terceira via – ou capitalismo ou socialismo». Tal como os outros presidentes, Chavez defendeu a importância dos movimentos sociais, porque «um novo mundo é possível, um novo mundo é necessário, um novo mundo está a nascer. O longo discurso – que fez alguns assistentes abandonarem o recinto antes do final - acabou com um grito de esperança: «Pátria, Socialismo ou Morte. Venceremos!»

A organização do encontro foi apoiada pelo PSOL e promovida pelo Movimento dos Sem Terra (MST), que não convidou Lula da Silva. No entanto, o presidente do Brasil havia de se juntar aos outros quatro presidentes num comício nocturno, centrado na problemática da crise mundial, encarada como uma oportunidade para a construção de um novo modelo de desenvolvimento e uma nova sociedade. Nesse comício foram apresentadas medidas anti-crise em curso na América Latina, que incluem um significativo reforço dos investimentos públicos, nomeadamente nas áreas da habitação e energia, e a criação de um banco regional de investimento para apoio ao desenvolvimento.

Fonte: Esquerda/Informação Alternativa.

MEIO AMBIENTE - Mais de mil anos de aquecimento global.

Foi publicado esta semana nos Proceedings of the National Academy of Sciences (publicação prestigiada a par da Science, da Nature e da Geophysical Research Letters) um trabalho da autoria de Susan Solomon onde se conclui que serão necessários mais de mil anos para recuperar do aquecimento do planeta gerado pelas emissões de gases de efeito de estufa.

Artigo de Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra.

Anteriormente, estimava-se este período de recuperação em apenas cerca de 200 anos. O artigo intitulado "Alterações Climáticas Irreversíveis Provocadas pelas Emissões de Dióxido de Carbono" centra a sua tese no lento arrefecimento dos oceanos.

Segundo Solomon estes continuarão a aquecer a atmosfera durante mais de 1000 anos mesmo que se reduzam drasticamente as emissões de dióxido de carbono. Salomon dá alguns exemplos ilustrativos do impacto da irreversibilidade do clima durante mais de 1000 anos. Se a concentração de CO2 atmosférico se elevar a 600 partes por milhão em volume (ppmv) são de esperar longos períodos de secas em mais regiões do planeta e a subida do nível da água do mar provocada pela expansão térmica dos oceanos entre 40 cm a 1 metro, numa estimativa mais conservadora. O nível do mar poderá subir mais, entre 60 cm e 1,90 m, se a concentração de CO2 exceder 1000 ppmv. Deverá ainda adicionar-se a contribuição dos glaciares para a subida do nível da água do mar, que poderá ser da mesma ordem ou superior em vários metros durante este milénio.

Este trabalho de Solomon vem vincar a necessidade urgente de agir para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa sob pena de prolongarmos durante mais 1000 anos, a dezenas de próximas gerações de seres humanos, consequências nefastas e perenes para o clima do planeta.

Fonte:Esquerda.net

CRISE AMERICANA - Banqueiros sem-vergonhas

Eliakim Araujo


Certamente ninguém esperava que Barack Obama tivesse uma varinha de condão e com um toque mágico consertasse os erros da administração anterior, sobretudo a grave crise em que está mergulhada a economia americana. Mas muita gente esperava que a simples entrada dele na Casa Branca seria capaz de criar um efeito psicológico estimulador de negócios nos mercados financeiros e de injetar algum fôlego nas grandes corporações à beira do colapso.

Mas isso não aconteceu. Pelo contrário, passada a euforia dos primeiros dias de governo, quando Obama tomou decisões corajosas, desfazendo o entulho autoritário e beligerante da administração Bush, os norte-americanos estão convivendo com a tragédia do desemprego. Diariamente, a mídia divulga o doloroso placar das demissões e as previsões negativas para 2009. Vale lembrar que só chegam ao conhecimento da mídia os números divulgados pelas grandes empresas, multinacionais inclusive. Na última semana, 65 mil pessoas perderam seus empregos na Ford, Toshiba, Kodak, Time Warner, Caterpillar, AOL, Pfizer, Sprint-Nextel, Boeing e Starbucks.

Não há, todavia, estatística do que acontece com milhares de pequenos negócios que estão fechando as portas e os postos de trabalho nas cidades do interior do país.

A população está assustada. Nesses doze dias do governo Obama, pelo menos três casos de "murder-suicide" foram registrados, com pais de família desesperados, sem emprego e sem dinheiro para pagar a prestação da casa, que optaram pela solução radical: exterminar mulher e filhos e matar-se, em seguida.

No meio dessa crise, descobriu-se que dirigentes de bancos e de empresas de investimento, que receberam bilhões de dólares daqueles 700 bi aprovados no final do governo Bush, distribuíram bonus para si mesmos, ou seja se apropriaram, de 18.4 bilhões de dólares. Executivos com salário anual de 600 mil dólares, embolsaram 50 milhões de bônus em 2008. Um verdadeiro escárnio.

Bonus, qualquer neófito sabe, é uma gratificação que as empresas conferem a seus empregados e executivos sobre os lucros, ou pelo cumprimento de determinada meta. O que é não absolutamente o caso dos bancos, financeiras, seguradoras, companhias hipotecárias, etc, que receberam dinheiro do contribuinte para taparem os buracos de sua desonestidade e/ou incompetência, e não o colocaram no mercado para gerar negócios.

Mas seus dirigentes souberam usá-lo em benefício próprio. Como no caso do Citigroup, que só não comprou um novo jatinho para seus dirigentes, por 45 milhões de dólares, porque o Secretário do Tesouro, Tim Geithner interveio e conseguiu abortar o negócio. Ou do ex-chefão da Merril Lynch que gastou um milhão e duzentos mil dólares na reforma de seu gabinete. Bem, esse pelo menos foi demitido e está sendo intimado pelo advogado-geral do estado de Nova Iorque, Andrew Cuomo, para explicar porque a Merril distribuiu 4 bilhões de dólares a seus empregados antes de se declarar insolvente e ser adquirida pelo Bank of America.

São centenas de casos como os acima narrados. E eles não podem ficar apenas nas declarações do presidente Obama que chamou esses executivos de “irresponsáveis” e os bonus de uma ”vergonha”. Se o presidente pretende restaurar o império do respeito, da honra e da credibilidade, deve exigir, como sócio que injetou capital, que essa gente devolva o dinheiro que embolsou desonestamente.

Afinal, foram esss banqueiros e executivos que destruíram a economia e aniquilaram a vida de milhões de pessoas. Irresponsáveis e sem-vergonhas é pouco, muito pouco para eles. Eles são os verdadeiros "serial killers" da economia norte-americana e devem ser punidos por seus crimes.

Fonte:Direto da Redação.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

INTERNET - Maior participação de pessoas mais velhas.

De acordo com pesquisa do Pew Internet & American Life Project, 93% dos adolescentes dos EUA utilizam a Internet e por este fato se firmam como os principais usuários do serviço.

No entanto, a população idosa do país - faixa dos 70 aos 75 anos - chama a atenção pelo crescimento de sua presença na rede. Em 2005, apenas 26% dos americanos dessa faixa etária usavam a web. Em 2008, o percentual subiu para 45%.

De acordo com informações do site Blue Bus, para os usuários mais velhos, o e-mail é a atividade mais popular. Já para os mais jovens vem perdendo a importância. Em 2004, 89% dos adolescentes usavam o e-mail. O índice caiu para 73% no ano passado
Fonte:FNDC

FSM - Lula e o Conselho Internacional do FSM

Como ocorreu nos dois últimos fóruns, Lula teve uma reunião com membros do Conselho Internacional do FSM. A reunião anterior havia sido marcada por profundas discordâncias. Desta vez, a reunião refletiu as mudanças que o governo sofreu desde então e suas expressões no próprio discurso de Lula.

Emir Sader

Da mesma forma que nos dois últimos FSM, realizados no Brasil, em Porto Alegre, Lula teve uma reunião com membros do Conselho Internacional. Lula veio com ministros – Dilma, Tarso, Patrus, Guillerme Cassel, Edson Santos, Dulci, Samuel Pinheiro Guimarães, Nilcéia -, ouviu dois grupos de perguntas, respondeu e numa delas passou a palavra para Dilma.

A reunião anterior havia sido marcada por profundas discordâncias. Teve três intervenções duramente criticas, em um momento em que o governo Lula tinha grandes fragilidades, produto da orientação geral imposta por Palocci sobre o conjunto da atuação do governo, que se refletia no próprio discurso de Lula, além do fato de que saía de Porto Alegre e ía a Davos. François Houtart havia aberto a reunião, afirmando que não se poderia acender uma vela a deus e outra ao diabo e que Lula teria que escolher entre os dois. Uma representante da Via Campesina, do Chile, acusou o governo brasileiro de estar estrangulando a economia familiar, pelo apoio aos grandes agronegócios, enquanto que uma representante de um movimento social africano, agregou a acusação de que a posição na OMC estaria estrangulando os pequenos países.

Desta vez a reunião refletiu as mudanças que o governo sofreu desde então e suas expressões no próprio discurso de Lula. O próprio conjunto de perguntas abordou apenas lateralmente temas conflitivos para o governo. Os membros do Conselho, por sua vez, encontraram um Lula muito mais aberto e confiante em si mesmo.

A solidariedade sul-sul
A primeira questão, do primeiro bloco, foi colocada por uma queniana, sobre a solidariedade sul-sul. A segunda, por um economista francês, sobre como as respostas à crise deveriam fortalecer a solidariedade sul-sul. Um chileno perguntou sobre as condições das rádios comunitárias. Um líder sindical da Índia perguntou sobre a situação dos sindicatos e a necessidade de uma agenda de desenvolvimento com igualdade. Um cubano perguntou sobre o papel da integração regional nas respostas de combate à crise.

Lula tomou a palavra para dizer, inicialmente, que a integração sul-sul é mais difícil do que se imagina, apesar de sermos todos favoráveis, no discurso. Até a pouco tempo, a América do Sul não conversava com a América do Sul. Viajava-se mais para os EUA do que para a América Latina. Disse ele que nunca havia estado, como dirigente sindical, em algum outro país da América Latina, mas foi muitas vezes aos EUA, assim como para a Europa.

“Nossa relação como movimentos sociais estava suboridnada aos países que tinham interesses econômicos no Brasil. E o movimento social estava subordinado ao países que podiam financiar atividades. Os partidos políticos também eram subordinados a orientações européias. Era um outro tipo de colonização, pelo poder de financiamento.”

“Uma vez eu liguei para o presidente de um país, para que ele votasse contra a intervenção dos EUA no Iraque. Um país membro do CS da ONU, e para minha surpresa, esse presidente disse que não poderia votar contra os EUA, porque tinha recebido 50 milhões de dólares para programas sociais.

O processo de integração
O Brasil estava de costas para a América Latina. Hoje a integração é um fato concreto. Temos um Mercosul fortalecido, criamos a Unasul, o Conselho Sulamericano de Defesa, o Banco do Sul, o BNDES tem mas de 5 bilhões de financiamneto em infraestrutura na América do Sul.”

“Não olhávamos para a África. Em 6 anos, eu visitei 21 paises africanos.” Montamos centros da Embrapa em vários países, com estudos de campo em mais de 30 países. Já começamos a fazer experimentos de agricultura tropical na África.”

“Se acontecer o que eu penso, uma parte da África - a savana, que tem as mesmas características do centro-oeste brasileiro, de que há 40 anos se dizia que não prestava para nada, e que hoje é o mais centro de soja do Brasil, de algodão, de milho -, se isso acontecer lá, podemos ter uma revolução na agricultura em uma parte da África. Montamos centros da Fiocruz em Moçambique, para produzir antiretrovirais e outros medicamentos.”

“É um processo para anos, mas que depende dos governos eleitos, da visão de mundo que tenha o eleito. Da relação que as elites tenham com a sociedade. Conheço dezenas de presidentes que nunca se reuniram com os sindicatos, com a sociedade civil, com ONGs. Se se continua a eleger gente que não tem nenhuma relação com a sociedade civil, tudo fica mais dificil.”

“De 2006 a 2008 foram assentadas 519 mil famílias, 59% do que foi assentado em toda a história do Brasil, correspondente a 43 milhões de hectares de terra. Para uma comparação com o que significa em extensão de terra, a Inglaterra inteira tem 24,4 milhões de hectares de terra, a Itália, 30 milhões, a Alemanha, 35.”

“Passamos do financiamento de 2 bilhões de reais para a agricultura familiar para 6 bilhões. Criamos os Territórios da Cidadania. Realizamos a compra de alimentos em grande quantidade pelo governo federal, o programa Luz para todos, o Bolsa Família.”

“Tenho 63 anos e muita esperança que esta crise, apesar de nos trazer muito prejuízo, traga também oportunidades. Não devemos só ficar chorando com a crise, mas devemos fazer o novo.”

“Na OMC, o Brasil passou todo o ano passado lutando por um acordo. Minha tese é a de que o Brasill não precisa ganhar nada porque o Brasil é competitivo na agricultura, mas os ricos teriam que ceder para que os pobres ganhassem um pouco. Uma divergência entre a Índia e os EUA não permitiu que um acordo fosse feito. Eu falei com o Obama na segunda e vamos retomar a negociação da OMC. O mundo desenvolvido precisa ceder, sobretudo na questão agrícola, para que os pobres possam ganhar. Continuo confiante que podemos chegar a um acordo.”

“Avançamos porque a democracia se consolida na África, na América Latina. O G8 não tem a importância que tinha há 10 anos. Eles sabem que não podem fazer nada sério sem os países do Brics, sem o México. O que precisamos hoje é consolidar nossos avanços. Estamos há 15 anos tentando renovar o Conselho de Segurança da ONU. Para incluir representantes da America Latina, da Africa, para acabar com o poder de veto dos 5 países que tem hoje esse poder. Não é possível que os 5 países que tem poder de veto sejam os maiores produtores de armas no mundo.”

Sobre a crise econômica mundial
“Sobre a crise, quero dizer 2 coisas: a crise do anos 90, a asiática, foi muito menor que esta, infinitamnente menor. E o meu pais quebrou duas vezes, Esta não tem precedentes, não sabemos ainda o tamanho dela e os nossos países não quebram. O Brasil tem 207 bilhões de reservas, a dívida pública é de apenas 35% do PIB. Diferentemente do mundo desenvolvido, vários países em desenvolvimento estão em retração, mas não em recessão.”

“Não acho que o G-20 coopte os emergentes. É a primeira vez, numa crise dessa magnitude, que o FMI não tem soluções a propor, que o BM não tem, que os países ricos não tem solução, quando antes todos davam palpite sobre a América Latina. Parlamentes, senadores, ministros, yuppies dos bancos. Chegava-se em Londres, encontrava-se com um jovem de 30 anos, que não sabia onde ficava o Brasil, muito menos a Bolívia, mas dada palpite sobre o que deveriamos fazer.”

“Ficavam sempre avaliando os nossos riscos, mas o mais absurdo é que os EUA quebraram e os EUA não têm risco. O risco é nosso. Esta crise tem uma diferença muito grande da outra. Na outra a solução era o ajuste fiscal, mandar servidor público embora, cortar salários, cortar investimentos.”

“Eu fui ao Congo, estavam paralisando a construção de uma estrada, porque significava não fazer o superávit primário. Esta crise agora exige de nós muita ousadia, mais investimentos, o Estado é que vai fazer os investimentos. Aqui no Brasil, temos o compromisso de não diminuir os investimentos.”

“O Obama disse ontem que, no programa de investimentos de infraestrutura, todo o material de aço usado, será de aço de indústrias americanas. Quando a situação era boa, eles pregavam o livre comércio, agora que a situação deles está ruim, prevalece o protecionismo. Eles vão ter muitos problemas com os nossos países, precisamos defender nossa indústria. Temos consciência de que o mundo está interligado, se cada país resolver construir um muro em volta de si mesmo, a situação econômica tende a se agravar.”

“A hora é da ousadia e os países ricos têm compromissos com a periferia. Democracia e paz significa que as pessoas tem que comer, tem que almoçar, que jantar, sem isso não há democracia e não haverá paz. E é isso que estamos fazendo no G-20. Vamos ter que regular o sistema financeiro, regular o mercado futuro e o sistema financeiro tem que se comprometer com o setor produtivo. Não pensem que será fácil, mas hoje é muito mais difícil para os países ricos decidirem sozinhos que há 5 anos. Vamos continuar fortalecendo relação sul-sul.”

Em seguida o Lula passou a palavra para que Dilma Roussef esclarecesse o caráter da lei que regulamenta e descriminaliza as rádios comunitárias.

A crise e as oportunidades para o Brasil
Depois da intervenção da Dilma, Lula retomou sua exposição:

“Vivemos uma extraordinária oportunidade na crise. Fui na Itália há 3 meses e me reuni com dirigentes sindicais. Eu disse para eles que o que estamos vivendo não será resolvido com uma greve. Será resolvido com muita ação política do movimento social e sindical. É necessário pressionar os governos para se reunirem com os movimentos. É a hora das alternativas. O modelo econômico está equivocado, o modelo de consumo está equivocado e se não mudar, tudo sera mais difícil.”

Aquecimento global
“Sobre as questões do clima, os países que mais poluem, são os que não assinam os protocolos de Kyoto, e ficam querendo dar lições aos países em desenvolvimento. Se vocês não participarem e não fizerem pressão junto aos governos dos seus países, e permitirem que saída da crise seja uma saída resultante de um debate eminentemente acadêmico financeiro, vamos sair desta crise mais pobres do que entramos nela. O Estado tem que assumir o papel de regular a economia, de regular o sistema financeiro, sobretudo nos países mais pobres, criar políticas de transferencia de renda, fortalecer o mercado de massas. Se fizermos isso, a chance de sairmos mais fortalecidos da crise, é infinitamente maior.”

“Tenho consciência das dificuldades, do tamanho do problema, mas tenho muita expectativa e esperança de que vamos sair melhor da crise. E vamos sair diferentes, porque nos últimos 20 anos eu ouvi discursos todos os dias contra o Estado, hoje os que acreditavam que o Estado era o problema, agora apelam ao Estado para para salvar a economia. O que é grave é que os que trilhões de dólares que usam é para salvar os bancos e não para a produção, para promover investimentos no setor produtivo. Acompanhem o que vai acontecer no Brasil, vamos manter e acelerar os investimentos, daí o meu otimismo.

Dilma intervém para dizer que:

“Convocamos a primeira Conferencia Nacional de Comunicações, para definir uma regulação institucional das comunicações no Brasil".

Oriente Médio: Israel e Palestina
Em seguida se passa a uma segunda ronda de perguntas. Um francês mencionou o massacre de Gaza e perguntou o que o Brasil pode fazer na Assembléia Geral da ONU para condenar Israel por crimes de guerra. Um representante palestino pediu que o governo brasileiro não homologue o Tratado de Livre Comercio do Mercosul com Israel.

Um representante da Áustria recordou que a produção de soja, de etanol, de biodiesel atentam contra o equilíbrio ambiental. Perguntou porque ele não havia se referido aos indígenas, presentes em grande número ao encontro dos 5 presidentes. Um representante da Suécia cobrou a questão do incentivo aos transgênicos.

Lula retomou a palavra, dizendo que “se pergunta se as pessoas querem a guerra ou a paz no Oriente Médio”. Que “se os que negociam a paz são os mesmos que promoveram a discórdia, a paz será muito difícil. O Brasil esteve em Anápolis. A idéia era que os que negociavam a paz, os EUA, não seguissem negociando a paz. O Brasil vai seguir participando dessas negociações.”

“Eu recebi a Autoridade Palestina e perguntei se, indo à Palestina, deveria conversar com o Hamas, eles responderam que não. Eu acho que não é possível ter paz entre Israel e Palestina, se se negocia a paz, mas se o Hamas não segue o acordo. Celso Amorim viajou a Israel, à Palestina, à Jordânia, ao Egito, à Siria, para tentar estabelecer uma discussão sobre quem representa quem, quais os grupos que devem se sentar na mesa de negociações. O Brasil tem uma decisão de governo e da sociedade: reconhecemos o Estado de Israel e o Estado palestino, isso é definitivo. Não podem os EUA serem os interlocutores da paz. É preciso colocar outros países. O Brasil quer participar, porque aqui temos 10 milhões de descendentes de árabes e centenas de milhares de judeus. Vivemos em harmonia, queremos criar um novo clima para estabelecer negociações de paz.”

“O Brasil quer propor à ONU uma outra postura sobre o Oriente Médio. Não há problema do Brasil pedir que se crie um Tribunal específico para julgar os problemas do Oriente Médio, apesar de já haver um Tribunal Internacional da ONU.”

“O problema é que a ONU foi criada em um clima, em 1945, o mundo mudou e a ONU continua a mesma. Por isso queremos a reforma do Conselho de Segurança da ONU, para dar-lhe maior legitimidade e garantir a paz.”

“Podem me criticar, não tenham receio, vão encontrar em mim a pessoa mais disposta a ouvir críticas. Eu aprendi a fazer política convivendo com a diversidade de opiniões. Se vocês soubessem da quantidade de tendências que tem no meu partido, no movimento sindical, no movimento social brasileiro, vocês iriam ver porque temos que ser maleáveis.”

Modelo agrícola
“Sobre a agricultura: se cada país tiver a responsabilidade de fazer o que o Brasil está fazendo – o zoneamento agrícola, para definir o que vai ocorrer em cada região do país – podemos plantar muitas coisas sem causar nenhum dano ao meio ambiente. Fizemos para a cana de açúcar, que não vai entrar na Amazônia, não pode entrar no Pantanal. Estamos fazendo o zoneamento agroecológico do dendê. Vamos usar a possibilidade de plantar em quase 600 milhões de hectares de terras degradadas, vamos trabalhar na Amazônia a possibilidade de extrair o potencial de emprego para o povo da Amazônia, com uma boa política de manejo da floresta.”

“Os povos africanos têm o direito de comer três vezes ao dia e precisam produzir alimentos – soja, feijão, arroz -, não podem seguir vivendo dos turistas que vão matar elefantes. É preciso que os países africanos se desenvolvam, eles tem um grande potencial agrícola não explorado. Se a tecnologia da Embrapa, que é a mais importante tecnologia agrícola tropical do mundo, fizer o que acontece no Brasil, a Africa dará um salto de qualidade.”

“Porque os países europeus, que colonizaram a Africa por 400 anos, não fizeram nada, senão disseminar a miséria e o atraso. O Brasil não é colonizador, quer ser parceiro.”

A urgência das decisões na crise
Sobre a crise econômica: eu sou muito pragmático. Tenho muitos companheiros acadêmicos, que produzem teorias e teses, mas para a longa e média duração. O governo é para todo dia, é para toda hora, e o mandato de um presidente é de 4 anos. Antes de se formular uma tese ou uma teoria, acabou o mandato. Quando ele é eleito, ou faz ou não faz. É preciso regulamentar o sistema financeiro internacional e o mercado futuro – porque o mercado futuro fez o petróleo sair de 28 para 150 dólares e cair para 40 em apenas dois meses. O preço dos alimentos no ano passado, de forma simplista, foi atribuído ao biodiesel. Quando na verdade os investimentos do subprime tinha caído, junto com a especulação habitacional nos EUA e aí se dirigiu para o mercado futuro dos alimentos.”

“Quando digo que não temos muito tempo, é porque embora tenhamos tido um milhão e meio de novos empregos este ano no Brasil, em dezembro 600 mil pessoas perderam o emprego. E a minha resposta é fazer com que essa gente volte ao mercado de trabalho amanhã. Porque eles não vão poder esperar a maturação da minha tese. Por isso eu sou pragmático, por isso tomo decisões rápidas. Nenhum pais foi mais rápido que o Brasil e nenhuma medida para salvar bancos, todas para resgatar o setor produtivo. Foram 50 milhões para o BNDES, que é maior que o BID e o Banco Mundial juntos. Decidimos que vamos fazer 500 mil casas a mais em 2009 e 2010, casas para os pobres.”

“A lógica econômica da Petrobras faria com que ela retardasse seus investimentos, fosse prudente. Mas pela lógica da crise e dos interesses do país, ela tem que antecipar seus investimentos agora, investir mais agora, porque eu acredito que precisamos de mais empregos. Porque eu acredito que, se fizermos mais investimentos, o país vai sair da crise fortalecido. Se paramos os investimentos, por conta da crise, quando ela acabar, estaremos do mesmo tamanho. Se fizermos agora mais investimentos, quando ela acabar, estaremos preparados para dar um salto de qualidade. Eu tenho mais dois anos de mandato, preciso consolidar as coisas neste país.”

Direitos dos povos indígenas e transgênicos
“Estou fazendo muitas coisas para a Amazônia, para garantir os direitos dos indígenas. Quanto mais fizermos, mais vamos ter que fazer. Essa é a dinâmica da natureza do ser humano. A cada conquista, saber que pode fazer mais. É assim que avança a sociedade.”

“Estamos convencidos de que as decisões que tomamos para fazer a regularização das terras da Amazônia – que vai ser feita até 2010 - vai diminuir a violência na região. Temos uma Secretaria Especial do Incra, que trabalha com os governos estaduais para resolver os problemas cruciais da Amazônia.”

“A guerra dos transgênicos vai continuar por muito tempo. Temos gente contra e a favor. Criamos uma agencia nacional para discutir com representantes da sociedade e cientistas, que tem tomado decisões, com muitos debates. Esse debate vai continuar no mundo e é bom que continue, porque enquanto houver divergências, significa que ainda não atingimos um patamar de certezas que precisamos ter. Sem preconceitos, para tomar as decisões mais acertadas.”

“Ontem eu não falei dos índios, porque eu tinha proposto aos presidentes que falássemos da crise, porque o Forum Social Mundial são vários dias e a questão indígenas seria discutida durante 4 dias. O que eu queria na verdade era que cada presidente pudesse dizer como está seu país e o que é possível fazer. O que o Forum Social Mundial quer saber é como saímos da crise, para que precisamos da unidade política e do movimento social”.

Finalmente Lula perguntou onde será o próximo Forum e quando será realizado. Informado de que será em janeiro de 2011, ele disse que então já não estará ele como presidente, mas a Dilma.
Fonte: Agência Carta Maior.

FSM - Boaventura diz que a realidade prova que o FSM tinha razão.

No fim da edição do FSM na Amazónia, Boaventura Sousa Santos diz que foram os Fóruns Sociais que "anteciparam a crise" que hoje vivemos e não o Fórum de Davos que reúne a elite financeira. O fundador do FSM quer ver o mundo a discutir as ideias e soluções propostas em Belém do Pará e diz que é urgente "reinventar o Estado", orientando-o no rumo da democracia participativa.

“Se o Estado vai ter um controlo maior sobre a democracia tem de haver uma democracia económica”, defendeu o sociólogo da Universidade de Coimbra que faz parte do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial desde a sua primeira edição. Boaventura lembra que "o FSM foi uma resposta ao Fórum Económico Mundial não só para produzir um diagnóstico alternativo porque nos antecipamos às nossas crises que hoje temos no mundo, mas também para propor uma terapêutica alternativa”. E para mostrar a qual dos dois encontros o tempo veio dar razão, lembra que o Fórum de Davos, “ao contrário do que defendeu antes, hoje defende que o papel do Estado é muito importante”. “Mas para nós tem de ser um Estado totalmente reinventado", defende Boaventura.

A prioridade deve ser dada às energias renováveis e à agricultura familiar, “a única agricultura que mata a fome", por oposição ao agronegócio e a monocultura que no seu entender “não resolvem o problema, pelo contrário, produzem fome”, aumentando a desertificação e o êxodo para as grandes cidades que se estão a tornar “invivíveis, inabitáveis”.

Deste ponto de vista, a questão indígena tem para Boaventura, uma importância singular. “É preciso uma outra visão da natureza como recurso humano e não como recurso natural”, diz o sociólogo, opondo-a à visão da alta finança reunida em Davos. "A questão indígena e ambiental vão ser fundamentais como questões globais para um novo modelo, e é isso que o Fórum Económico se recusa a ver. Ele continua a pensar que os indígenas são atraso, obstáculos ao desenvolvimento”.

Boaventura diz que a solução deve centrar-se na forma de “viver bem dos quéchuas e não na China. Se os chineses consumissem no mesmo padrão que os europeus e que a América do Norte, precisaremos de três planetas para garantir a sustentabilidade de um único”.

Ainda acerca do debate do papel do Estado, Boaventura Sousa Santos criticou a orientação do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social do Brasil, o segundo maior banco de investimentos do mundo, ao destacar que funciona numa lógica direcionada ao agronegócio e ao neoliberalismo.

Fonte:Esquerda.net

FÓRUM DE DAVOS: Globalização 2.0

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Nenhuma das edições mais recentes do Fórum Econômico Mundial (WEF, segundo a sigla em inglês) permitia prever o tema de Davos 2009 e seu caráter imperativo e intervencionista. De “O Imperativo Criativo” (2006) a “O Poder da Inovação Colaborativa” (2008), os temas eram tão banais e otimistas quanto títulos de livros de autoajuda para executivos. Palestras estendiam-se sobre temas como “a necessidade de renovação constante dos negócios como elemento-chave de um alto desempenho” e questionamentos tão pouco polêmicos como “a União Europeia enfrenta desafios-chave como a Constituição e o crescimento econômico sustentado”.

Agora, o clima é de seriedade e urgência. Klaus Schwab, fundador e presidente do WEF, fez seu discurso em tom de mea-culpa: “Somos todos responsáveis por não reconhecer os riscos de um mundo totalmente desequilibrado. Deveríamos ter prestado mais atenção naquelas pessoas que conseguiram prever os sinais e falaram desses riscos aqui nesta sala. A negação de uma verdade politicamente inconveniente ou desagradável, em conjunto com o instinto de manada, nos levou a depender de sistemas irreais e insustentáveis, enfraquecidos ou abusados de maneira antiética ou fraudulenta”.

Os encontros precedentes haviam sido abertos por alguns dos líderes ocidentais mais confiantes na livre empresa, como Angela Merkel (2006 e 2007) e Condoleezza Rice (2008). Desta vez, o discurso de abertura foi proferido em 28 de janeiro pelo primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, como “principal interventor sobre esse tema (moldar o mundo pós-crise)”, segundo seu chefe de gabinete, Yuri Ushakov. Se a intenção foi sublinhar que é o momento de deixar de lado a fé na mão invisível do livre mercado e ponderar a necessidade da mão visível do Estado, a escolha não podia ser mais apropriada, inclusive para lembrar os riscos de abusos na direção oposta. Putin resgatou a Rússia do caos provocado pelas reformas neoliberais, mas cobrou um preço muito alto, na forma de excessos autoritários mais que notórios.

Muitos dos astros do setor financeiro e empresarial que lá brilharam nos anos anteriores não foram ouvir o líder russo. Alguns faliram (como Richard Fuld, do Lehman Brothers), outros foram demitidos (como John Thain, do Merrill Lynch), vários têm problemas com a Justiça (como Ramalinga Raju, presidente da indiana Satyam Computer Services, detido por fraude) e outros estão simplesmente embaraçados ou ocupados demais para aparecer, inclusive os presidentes do Citibank e do Bank of America, dependentes de socorro estatal para manter à tona aqueles que ainda em 2007 eram os dois maiores e mais poderosos grupos bancários do mundo. Hoje, o alto do pódio está ocupado pelo ICBC, o equivalente chinês do BNDES.

O novo governo dos EUA, em cujas mãos estão as decisões mais importantes para realmente moldar o mundo pós-crise – ou, se falhar, para levar a crise a se estender por anos e anos –, também está ocupado demais com fazer aprovar suas propostas pelo Congresso para dar maior peso político ao evento. Seu representante foi Larry Summers, presidente do Conselho Nacional de Economia. Um assessor de peso, mas sem responsabilidade executiva que no governo Obama, dedicado à intervenção estatal, terá de contradizer o que fez em nome da desregulamentação de Clinton.

Fonte:Carta Capital.

HERDEIRA DA TERNURA

Para encerrar o encontro dos quatro presidentes latino-americanos que na quinta-feira 29 falaram a um ginásio repleto de militantes de movimentos sociais os músicos do cerimonial entoaram o grande hit da esquerda latinoamericana. A música, composta em 1965 por Carlos Puebla, é um verdadeiro hino para quem idolatra Che. Aqui, no Fórum Social Mundial, são milhares. Lá, no ginásio cheio de militantes, eram todos. A começar dos chefes de estado.

A música começa assim: "Aprendimos a quererte / desde la histórica altura / donde el sol de tu bravura / le puso un cerco a la muerte" e, na segunda estrofe vem o refrão, que emociona fácil: "Aquí se queda la
clara / la entrañable transparencia / de tu querida presencia / Comandante Che Guevara", e por aí segue.

Assim que a música começou, chamaram ao palco uma senhora um pouco gorduchinha, de cabelos ruivos, pele rosada e rosto redondo: é Aleida Guevara, a filha de Che. Amiga de João Pedro Stedile, ela está presente no FSM e participou da agenda de comemorações dos 25 anos do MST. Ovacionada, cantou junto com o ginásio e os presidentes, contribuindo para tornar aquele momento especial. "Sangue do sangue de Che", às vezes, é assim que a apresentam para as platéias. Piegas, mas quase inevitável.

Por onde anda, a toda hora alguém pede para tirar fotos com Aleida. Mesmo cansada, ou mesmo exausta, ela não nega as fotos, nem um sorriso pequenino em seu rosto arredondado. Aleida tem o canto de fora das sobrancelhas caidinho para baixo, o que a faz parecer o tempo todo complacente e carinhosa. Na foto mais reproduzida do século XX (ou entre as mais, vá lá), pode-se ver as mesmas sobrancelhas caidinhas no rosto seu pai, Che. Mas, no semblante do "Comandante", há muito mais dureza, aspereza, secura.

Além de posar para inúmeras fotos, sem reclamar, Aleida é generosa também com jornalistas, às dezenas, que lhe pedem uma palavrinha. Foi o que fiz. Ao que ela respondeu com um sorriso.

CartaCapital: Como você lida com todo esse assédio?
Aleida Guevara: Em Cuba, o povo me quis desde o meu primeiro momento de vida. E eu cresci com o compromisso de devolver esse amor. Para mim, é muito tranquilo. Aqui, no Brasil, o povo é humilde, são gente quase sempre muito humilde, nisso se parecem com o povo cubano. Me sinto igual a eles.

CC: Mas você não parece muito afeita a fazer grandes discursos, nem a incitar palavras de ordem.
AG: Eu falo o que quero. Sei que algumas pessoas vão escutar, outras não. Simplesmente tento aproveitar as oportunidades para dizer o que me toca.

CC: O que mais mudou nesses 25 anos do MST?
AG: A cada ano que passa, as consequências da política neo-liberal se tornam mais perversas. A situação de miséria e pobreza que vi no Pará, na região de Marabá, é um exemplo claro de como a política neo-liberal faz vítimas. Nesse contexto, o MST é importantíssimo porque alcança essas pessoas, traz consciência social e isso é fundamental para qualquer mudança.

CC: O que você espera de novo em Cuba, a partir da eleição de Barack Obama?
AG: Nada de mais.

CC: Que te pareceu ele ordenar o fechamento da prisão de Guantánamo?
AG: Ele deveria é nos devolver Guantánamo, isso sim. O mais importante seria devolver a base, que é parte do território cubano. Fechou a prisão, fez bem, mas isso não é o mais importante.

Fonte:Carta Capital.

A CRISE E A VOLTA AO PROTECIONISMO.

Mauro Santayana

A crise não uniu os europeus: conforme constatou Le Monde, cada um dos 27 membros da União Européia tem seu próprio plano de salvação. Em muitos deles está prevista a nacionalização dos bancos. A crise poderia ter contribuído para reforçar a unidade continental, mas parece mais fácil distribuir os resultados da prosperidade do que os sacrifícios da recessão. Como sempre, os países mais fortes cuidam de se defender, e deixou de prevalecer o princípio da solidariedade, que orientou os esforços de Robert Schumann e Jean Monnet para estabelecer, com a Comunidade Européia do Carvão e do Aço, as bases da união econômica e política do continente.

Mas não são somente os europeus que buscam voltar-se para dentro de suas casas, a fim de salvar-se da tormenta. Não obstante a proposta de novo trato com o mundo, feita pelo presidente Obama, durante a campanha, o pacote de ajuda financeira aprovado pelo Congresso conta uma cláusula, perdida nas centenas de páginas do documento, que está sendo chamada de buy american. As indústrias que usarem insumos estrangeiros, como o aço – e isso nos prejudica – não poderão contar com a ajuda do Tesouro. Essa cláusula atinge diretamente a indústria automobilística.

A biópsia do sistema financeiro internacional vem confirmando que a erosão da economia globalizada é consequência direta da dissolução da palavra, como expressão da boa-fé dos contratos. Ainda que a violação dos contratos fosse norma comum entre os trapaceiros que sempre houve no mundo dos negócios, os grandes banqueiros os respeitavam, entre eles mesmos, a fim de que pudessem explorar, com mais eficiência e segurança, os seus negócios. Os contratos, sem embargo, quase sempre prejudicavam os trabalhadores, o que obrigou o Estado a criar leis que os protegessem.

O presidente Barack Obama desprezou as conveniências do léxico moderado, e considerou vergonhoso – shameful – o comportamento dos grandes executivos de Wall Street, que se atribuíram bônus no valor de 18,4 bilhões de dólares em 2008, mesmo depois da ajuda ao sistema promovida pelo governo Bush. A resposta dos banqueiros ouvidos pela imprensa é de inédito cinismo: não lhes consta que os bônus tenham sido pagos com o dinheiro federal. Ora, qualquer pessoa, por mais ignorante seja, sabe que o dinheiro não é carimbado: a ajuda federal se fez exatamente para cobrir os prejuízos provocados pelas falcatruas dos bancos, entre elas a exagerada remuneração dos executivos.

Um dos caminhos inevitáveis para o reendereçamento do mundo é a descentralização do poder. Obama, conforme matéria do New York Times de sexta-feira, parece inclinado a promover o fortalecimento do poder dos estados. Nas últimas administrações, sobretudo a partir de Reagan, a federação norte-americana (como também ocorreu entre nós) passou a ser solapada pela centralização do poder. Lá, como aqui, atuaram os grandes lobistas do poder financeiro. Ao velho e novo liberalismo sempre interessou a concentração do poder. Mediante governos fortes, que são de seu agrado, os donos do dinheiro estabelecem as leis que lhes interessam, e controlam a sociedade nacional como um todo. Nós vimos isso, com clareza, durante o governo neoliberal de Fernando Henrique. Nele não só os empresários nacionais impuseram legislação de seu interesse mas, sobretudo, os executores do Consenso de Washington. Entre outras regras, impingiram aos países emergentes a privatização de empresas públicas, a descabida proteção de patentes, a lei de responsabilidade fiscal. Entre nós, o arrocho financeiro dos estados se completou com a proibição do endividamento e a privatização, a fórceps, dos bancos estatais. Com isso, os neoliberais ainda tiveram o benefício marginal de facilitar a corrupção das autoridades públicas, porque a concentração do poder a torna mais barata e mais cômoda.

Entende o novo presidente dos Estados Unidos que a unidade das nações não se consegue mediante o arbítrio do governo central, mas, sim, no entendimento com todas as esferas do poder político e administrativo. Esse deve ser também o nosso entendimento, quando nos encontramos a menos de dois anos das eleições gerais. O presidente Lula sabe que não poderá promover a candidatura de seu interesse à sucessão, mediante o método tradicional do "rolo compressor" da União sobre o parlamento e os estados.

A circunstância histórica adverte-o de que, se o fizer, poderá perder, ao mesmo tempo, as eleições e o respeito dos cidadãos.

Fonte: JB

CASO BATTISTI -Soberania brasileira em perigo

Rui Martins

Berna (Suiça) - O caso Cesare Battisti pode ter um fim inesperado para todos quantos são contra sua extradição.

O governo italiano com suas pressões e ofensas, como a última, proferida por um deputado neofascista italiano de que o Brasil é mais conhecido por suas putas (dançarinas) que por seus juristas, parece ter conseguido seu intento, para grande alegria da imprensa entreguista e de muitos jornalistas sem brio do nosso país.

Articula-se um jeitinho, um arranjo, enfim uma pizza para o caso Battisti. O premiê italiano Silvio Berlusconi, que joga nossos emigrantes para fora, esquecendo-se dos milhões de emigrantes italianos que o Brasil acolheu e que ajudaram a construir nosso Brasil, vem utilizando da amizade dos nossos dois povos, para ofender e tentar diminuir a imagem do Brasil no Exterior. A última foi a de recorrer ao Conselho de Ministros da União Européia alegando incapacidade de julgar do nosso judiciário, denúncia rejeitada pelos europeus.

É hora do governo brasileiro, de nós brasileiros dizermos um Basta, antes que o Brasil, de rabo entre as pernas, entregue Cesare Battisti e perca toda credibilidade internacional.

Agora não deve mais interessar o que você acha sobre a extradição ou não de Cesare Battisti, é uma questão de honra, de brio, de dignidade nacional. Não haja como parte da nossa imprensa entreguista, diga Basta aos insultos do governo italiano.

Faz alguns anos, a Europa viu o desespero da Banda Baader, o grupo terrorista alemão que, logo seria imitado pela Brigada Vermelha italiana. Há, mesmo um filme passando aqui na Europa, O Complexo Baader Meinhof, rememorando aqueles anos em que uma parte da juventude alemã, entre o desespero de viver num país que jogara o mundo numa guerra racista e imperialista, e a de um país ocupado, partia para o terrorismo.

A Alemanha de hoje já enterrou esse assunto, uma das últimas participantes do grupo Andreas Baader foi libertada recentemente. Já lá se vão mais de trinta anos. Mas a Itália, ao contrário, sopra as cinzas do passado para querer recuperar um fugitivo, já integrado na sociedade, como fez, no passado, o imperador romano ao mandar empalar, na Via Ápia, todos os seguidores da revolta de Spartacus.

E, ontem, um deputado da Liga do Norte ousou mesmo dizer que o Brasil é mais conhecido por suas dançarinas que por seus juristas. Em outras palavras, o Brasil é mais conhecido por suas putas que por seus juristas.

Sabem o que é a Liga do Norte ? É um movimento neofascista que luta pela separação do norte italiano da Itália, mais ou menos com o mesmo argumento de certos separatistas sulistas neonazistas que, felizmente minoritários, querem a separação do sul do Brasil.

Faz duas semanas, depois da decisão do ministro Tarso Genro de não extraditar Battisti, que o governo italiano trata o ministro brasileiro, a justiça brasileira, o governo brasileiro de tudo quanto é ofensa.

Ora se fosse só em Roma, onde o Papa reabilita negacionistas, nada grave. Dentro de casa, cada país faz o que quer. Mas o governo Berlusconi, autor de uma lei que o protege dos processos por corrupção e detentor do total controle da televisão italiana, decidiu meter sua colher dentro de nossa casa. Foi até pedir apoio para o Conselho da Europa contra uma decisão soberana do Brasil e, nosso presidente do Supremo Tribunal Federal, em lugar de como Floriano Peixoto defender nosso brio e nossa honra, cede, deixa mesmo ter acesso ao processo, e provavelmente, depois de acuado, votará pela extradição de Battisti.

Battisti deixou de ser um fugitivo para ser um símbolo. De todos nós que na juventude lutamos contra o Sistema. As acusações e os temores dos anos 60, mesmo em países pretensamente democráticos, mas governados como a Itália por uma coligação da qual fazia parte a Máfia, se confirmam hoje.

Contra quem lutava o grupo Baader Meinhof e a BrigadaVermelha ? Contra o capitalismo e sua degenerescência. E o que aconteceu 40 anos depois ? A crise que assola hoje toda Europa e que chega, embora em menor escala ao Brasil. Esse jovens foram extremados, cometeram erros graves, mas viram longe e muitos deles pagaram com seu próprio sangue a visão profética.

Há em nós todos, que fomos contra a ditadura brasileira, um pouco do jovem Battisti que lutou contra o governo italiano, onde máfia e ex-fascistas conviviam.

Na questão de Cesare Battisti nenhum de nós pode lavar as mãos. De um lado Mino Carta, Carta Capital, que querem vê-lo apodrecer na prisão e tantos outros que o acusam de criminoso mas que alegremente se unem como cúmplices do projeto e desejo de matá-lo devagar numa prisão italiana, baseados apenas em acusações de neofascistas e de corruptos políticos italianos, que ousam mesmo ofender nosso país, nosso ministro e nossos juristas.

O caso Battisti não é só uma questão jurídica. É um questão de direito, de humanidade, de compaisão, enfim, uma questão política. E também uma questão de honra nacional.
Fonte:Direto da Redação.

O SER HUMANO INVISÍVEL

Antonio Tozzi

Miami (EUA) - Que o ser humano valoriza posição social não é novidade para ninguém, mas recentemente três fatos me chamaram a atenção por terem exacerbado este sentimento: um provavelmente ocorrido em São Paulo os outros em New York.

O uso do advérbio provavelmente no caso brasileiro justifica-se porque o comentário é feito em cima de um dos milhares de e-mails recebidos dos mais diversos contatos que mantemos através da Internet.

Mas, admitamos que o fato seja verdadeiro. Um material que está sendo divulgado na Internet revela que um professor de Psicologia de uma tradicional universidade de São Paulo decidiu redigir uma tese sobre o comportamento humano de pessoas que ocupam cargos, digamos, mais respeitados em relação àqueles que estão na base social e/ou profissional.

Para comprovar sua teoria, o tal professor resolveu travestir-se de gari durante oito anos, período em que coletou todo o material de pesquisa, fez amizade com vários varredores de rua e com suas famílias e, sobretudo, constatou como os demais julgam estas pessoas “invisíveis”. Ou seja, sequer se dignam a dar um bom dia ou lhes dirigir um sorriso.

Disfarçado em roupas de trabalho, ele chegou a circular pela biblioteca da instituição de ensino onde dá aulas e ninguém sequer o reconheceu, nem mesmo seus colegas de magistério. Lá, pôde tirar cópias e pesquisar livros sem ser importunado ou cumprimentado, justamente por integrar a legião dos “invisíveis”.

Evidentemente, a divulgação de sua tese deve estar provocando crises de arrependimento e justificativas, mas, na verdade, ela serviu somente para demonstrar como o ser humano age, ou seja, é movido por fama, poder e dinheiro – fatores que normalmente andam juntos.

Outro caso significativo ocorreu em New York. O indigitado Bernard Madoff, ex-presidente da Nasdaq – a bolsa de valores de empresas de tecnologia – e autor do maior golpe financeiro da história, perdeu a aura que antes possuía. Este cidadão tungou, através de um esquema de pirâmide, uma quantia avaliada em US$ 50 bilhões dos investidores (o valor é US$ 50 bilhões mesmo!) e agora está enfrentando uma batalha judicial para ressarcir, na medida do possível, as vítimas de sua falcatrua.

Na semana passada, quando tentava andar pelas ruas da Big Apple, ele foi cercado por um batalhão de jornalistas que queriam filmar, fotografar e colher declarações do homem que se transformou no bandido de colarinho branco mais odiado dos Estados Unidos.

Irritado com a presença dos repórteres, ele empurrou um fotógrafo que se interpôs em seu caminho para tirar uma foto. O fotógrafo, no entanto, não se fez de rogado e empurrou Madoff com força, mostrando que ele não atemoriza mais ninguém.

Ao ver aquela cena, fiquei imaginando como poderia ter sido um encontro entre Madoff e aquele fotógrafo um ano atrás. Possivelmente, ele teria ido ao luxuoso escritório do então cidadão acima de qualquer suspeita e seria recebido com deferência. Ele trataria Madoff com mesuras porque a foto poderia ilustrar alguma matéria sobre os gênios dos investimentos – e ele certamente integraria esta lista.

Agora, porém, ele caiu em desgraça e arrastou consigo sua imagem e seu aplomb. Não é o único, porém. Os outrora badalados CEOs das antes valorizadas corretoras de valores também tentam se desvencilhar dos repórteres.

O outro caso ocorreu no final do ano. A esposa de Richard Fuld, ex-CEO da Lehman Brothers, comprou alguns artigos na famosa loja Hermés, mas antes de sair fez um pedido singelo. “Por favor, vocês poderiam colocar os itens em uma sacola branca em vez de uma com o logotipo da loja?”.

O pedido foi atendido, é claro, mas esta é apenas mais uma prova de que o ser humano está sempre interpretando um papel social. O que antes seria um símbolo de prestígio passou a ser uma acusação de desperdício diante da debacle financeira. Então ela tentou, em vão, burlar os vigilantes e irritados acionistas e o povo – que, no final das contas, estavam pagando por suas compras na Hermés.
Fonte:Direto da Redação.

AUTOESTIMA - Repetir frases positivas sobre você mesmo melhora sua autoestima

por Carolina Arêas Marcadores

Através dos pensamentos criamos nossa realidade. Então, se você insiste em pensar mal de você mesmo, fazer afirmações positivas é uma maneira de aumentar a autoestima, pois cada palavra que expressamos exerce uma ação sobre nós. “O objetivo das afirmações é a mudança do padrão de pensamento que mantém uma situação de autoestima baixa”, explica Lizete de Paula, a terapeuta floral e fundadora da empresa Florescentia, que usa afirmações no tratamento de seus pacientes e na vida pessoal com muito sucesso.
Foi nos anos 80 que ela descobriu a força desta prática, ao conhecer o livro Você Pode Curar Sua Vida, de Louise L. Hay. A leitura provocou em Lizete um desejo enorme de alterar alguns padrões negativos em sua vida. “Este foi o começo de uma grande mudança, que continua, pois sempre temos mais e mais para crescer e evoluir”, conta ela. Foi a mesma escritora quem despertou a administradora de Porto Alegre, Semadar Marques, para o poder das afirmações, quando comprou um CD de Louise L. Hay durante um curso de autoconhecimento. “Foi muito bom, pois peguei o hábito de levantar pela manhã escutando as afirmações e de ir dormir ouvindo também”, explica.

Quando não dá tempo de ouvir o CD antes de sair de casa, Semadar vai fazendo as afirmações no correr do dia. “Fico repetindo mentalmente em todos os momentos. Digo que sou linda, que vou vencer, que sou próspera, interessante, que todos me amam, que amo a todos, que sou muito feliz, transbordo felicidade, que minha vida é iluminada, que a tranqüilidade e a serenidade habitam em mim... e muitas outras coisas. É bom demais”, conta ela.

Entretanto, as afirmações não podem ser mera repetição mecânica de palavras pois, neste caso, explica Lizete, não têm muita força de transformação. A terapeuta ensina que devem ser usadas como um mantra ou uma oração, em que a consciência do que se diz está presente e cada palavra ressoa no centro do nosso ser.

Persistência também é importante. “No início, eu fazia mas, não sentia diferença alguma. Quando percebi, tinha conquistado uma força e uma felicidade fora do comum”, lembra Semadar, que hoje avalia terem sido as transformações interiores as mais importantes. “Minha auto-estima está a mil, me sinto forte e segura, capaz de atravessar qualquer situação difícil”, conclui ela.

Lizete também perseverou. Começou as afirmações num momento de baixa autoestima, dizendo para o espelho que se amava e se aprovava. “Quando dizia isso, minha mente crítica retrucava: ‘como posso me aprovar se não tenho valor, sou feia, magra, sem nenhum atrativo?’. Até que, de repente, percebeu que havia, finalmente, internalizado o exercício: “Um dia me surpreendi ao me olhar no espelho e dizer: ‘como você está bonita hoje!”

A terapeuta cita a sabedoria indígena de “pôr-as-palavras-para-andar”, em que a pessoa diz claramente o que se pensa pois, se guardar estas reflexões, ficará bloqueado. “É preciso falar, mas usando as palavras e pensamentos certos. Afinal, se somos o que pensamos, precisamos ter muita atenção com o nosso pensamento”, ensina ela.

Se o que pensamos sobre nós torna-se nossa verdade, é mesmo importante cuidar destes pensamentos. As afirmações, se feitas de coração, ajudam na mudança de padrões, na criação de um futuro mais positivo. Afinal,o que acontece dentro de nós é o que acontecerá fora também. É apenas uma questão de praticar para que se torne parte de sua vida.
Fonte:blog Terapia Floral - Carolina Arêas

LULA X OBAMA: isso não vai dar certo.

Raul Longo.

Meus correspondentes tucanos protestam com razão. Também acho que não tem nada a ver isso de alguns correspondentes lulistas, mais afoitos, quererem estabelecer paralelos e semelhanças entre as situações e históricos dos presidentes do Brasil e dos Estados Unidos.

Nada a ver!

Pra começar, por pior que estivesse a situação do Brasil em 2002, nos Estados Unidos deste início de 2009 a coisa está bem mais feia. Muito mais feia! Sejamos justos: FHC não chega nem aos pés de GWB!

Mas se entre os 'ex' dos dois países há de suas diferenças, com os atuais é que as semelhanças são quase nenhuma! E não apenas porque o de lá, apesar de negro, fale fluentemente o inglês e não tenha cabeça chata, como destacam alguns desses meus correspondentes contrários às comparações.

No entanto, me é ainda mais difícil concordar com os que querendo enaltecer a um, enumeram efêmeras e discutíveis qualidades do outro.

As diferenças entre Lula e Obama são gritantes! Para que se tenha noção de quanto, cabe-me relatar ter assistido, ainda outro dia, com estes olhos que a terra há de comer algum dia, o Lucas Mendes, decano correspondente da Rede Globo nos Estados Unidos, afirmar nas 4 letras que a solução para os Estados Unidos está na C.P.M.F.

Ele falou! Eu juro que o Lucas falou! Na frente do Merval Pereira e do Jorge Pontual! E ninguém reclamou! Ninguém acusou a C.P.M.F. de extorsão em 0,30% da classe média norte-americana. Coisa alguma! Juro que vi e ouvi!

Tão duvidando? Liguem pra Globo News e peçam cópia do programa em que os repórteres da Globo discutem soluções para o governo Obama resolver a crise nos Estados Unidos. Chega a comover o esforço e a dedicação destes ícones da mídia brasileira em tentar contribuir e colaborar com aquele país, apresentando idéias e sugestões que eles mesmos tanto criticam e exprobram quando adotadas ou criadas pelo governo brasileiro.

Pimenta nos olhos do povo dos Estados Unidos é refresco? Ou os presidentes é que são diferentes?

O preconceito ao nordestino, ou ao trabalhador operário, superará o da Klu Klux Klan aos afro-estadunidenses?

Imperceptivelmente terá se desenvolvido entre a mídia brasileira um fundamentalismo iniciático cuja progressão virá a se transformar nessas seitas que pregam extermínio-ético, tão em moda? Haveremos de assistir o Zé Nêumane Pinto evocando um Jihad contra Garanhuns? Logo ele que é de Uiraúna, ali pertinho, um pouco mais acima: no sertão da Paraíba!

Ou se passará algo freudiano? Será que não rola aí um edipozinho no ego da moçada, contra o pai brasileiro do Cidadão Kane? Uma subconsciente transferência ao Lula da somatização traumática contra o arquétipo coletivo da imprensa pátria? O conterrâneo do Nêumane que, em Pernambuco, iniciou a carreira de patrão impiedoso, dos tempos em que para ser comentarista, analista, crítico ou repórter político, não bastava ser apenas manipulador de fatos, chantagista e inventor de factóides, pois, além disso, o severo e intransigente Assis Chateaubriand ainda exigia profissionalismo, talento e capacidade!

Duros tempos aqueles dos pioneiros da Revista Cruzeiro, dos Diários Associados, da TV e Rádio Tupi! Não será essa a razão do ódio espumante dedicado ao Lula? Uma nova versão shakespeariana onde o fantasma do pai é o alvo da vingança e o tio devasso o herói de Hameletes estróinas que, na falta de um rei vivo, querem devorar um operário morto?

Brrruuuu...! Tão tétrico que pra explicar esses Mainardis da vida, só o Fernando Morais!

De qualquer forma, se a leitura de Chatô – O Rei do Brasil não esclarecer com tanta precisão a aversão ao Presidente brasileiro, sem dúvida auxiliará muito na compreensão dessa eterna sabujice a todo e qualquer presidente norte-americano. Faz tempo que li o Chatô, mas ainda lembro que para explicar a histórica personalidade do precursor do Roberto Marinho, o Morais teve de discorrer por alguns parágrafos sobre a subserviência ao poder do Coronelismo que tão profundamente interveio no forjar da alma de brasileiros de algumas classes: militares, burocratas, profissionais ou pretensos profissionais de comunicação, classe média em geral, e outros tipos e estereótipos da covardia nacional.

O que muito se denota e evidencia na lembrança de que ainda há bem poucos meses atrás, Bush era o dodói da imprensa brasileira. Lembram-se dos reproches ao Chávez e as ironias ao Evo por ousarem afrontar o magnânimo? Dos pitis e apocalípticas previsões da Miriam Leitão, do Sardemberg, do William Waack e de todas as sibilas dos oráculos midiáticos brasileiros, indignados com a política econômica do presidente Lula por não seguir o modelo neo-liberal promulgado pelo príncipe do Texas?

Não é a toa que nos imaginam muito mais feridos pela crise mundial, do quanto realmente estamos. E, de fato estamos. Claro! Afinal, a América do Sul também é no planeta Terra!

Feridos, sim, mas muito menos do que estaríamos se o governo Lula aceitasse os conselhos dos cientistas políticos e analistas econômicos à La Leitão e congêneres, pois aqueles que eles apontaram como luz e caminho a ser seguido: “sifus” todos! E até mesmo reconheceram publicamente a incontestável realidade.

Claro que sem nenhuma razão para manter o mesmo humor do Lula, nenhum deles virou pro povo de seu país e admitiu: "- Nosfus!" -, mas, em síntese e com menor solenidade foi o que disseram, reconhecendo seus erros e enganos. Todos!

Menos os leitõzinhos da Miriam, evidente!

Esses, ainda que o senso comum internacional os obrigue a desdizer o que diziam ainda ontem, e a afinar o discurso à modulação dos que vaiam Bush pelo mundo, continuam mantendo o ritmo de bate-estaca para encobrir o xote, xaxado e forró pé-de-serra de Luís Ignácio Lula da Silva, sempre apresentado como grande culpado dessa situação. É a tecno-music contra outro Luís, o Rei do Baião!

Se hoje ridicularizam a dança do Bush, agora que virou o Judas da vez nas bolsas Asiáticas e Européias, não dá pra esquecer que há menos de dois meses ainda macaqueavam suas gingas e trejeitos. Até que tudo aconteceu...

Mas eles já têm uma explicação muito clara, transparente e detalhada do por que e como aconteceu. Não há dúvida! Pois tudo o que acontece, aconteceu e acontecerá daqui pra frente, define-se pelo fato de Lula ter subestimado o tsunami por marola. Óbvio!

Ou seja: salve-se quem puder que chegamos aos últimos dias da Brasiléia!

Infelizmente, para meus correspondentes tucanos, nem mesmo o grosso da classe média brasileira tem feito mais do que arregaçar a barra das calças pra cima das canelas, e dar 7 pulinhos na onda pra não pegar a zica da crise.

A mídia se esgoelando: "- Ó o maremoto!" E esses irresponsáveis na maior imprevidência de vir pra praia, ir pros restaurantes, tirar passaporte, carteira de motorista, freqüentar comércio, como se a desgraça não estivesse comendo solta lá pelos Estados Unidos e outros mercados atrelados aos modelos econômicos predicados pelo sagaz jornalismo político/econômico brasileiro.

Chamei um desses às falas: - Venha cá! Você não lê a Folha de São Paulo? A Veja? The State of Saint Paul? The Globe? Nunca ouviu falar em Miriam Leitão? Não sabe que estamos numa crise econômica internacional sem precedentes, muito pior do que a do Crack em 29?

A resposta foi desconcertante: - Ó só meu: esse negócio do crack continua ‘maus’ mesmo, mas crise foi a de 94, tá ligado? Um El Niño que atravessou o Golfo do México e jogou o Brasil nas portas do FMI! A gente nem tinha começado a pagar os juros, quando em 97, lá da Ásia, veio a mó tsunami varrendo o Pacífico. Atravessou os Andes e nos esborrachou outra vez às portas do FMI. Se a gente já estava com os salários congelados e o país estagnado desde a crise mexicana, a coisa ficou pior ainda em 98 quando fomos atingidos pela frente fria siberiana! Aí o bicho pegou e nós ‘sifu’ de vez com o chapéu na mão, se enforcando no cachecol do FMI. De forma que cê dá licença que agora quero pegar jacaré na onda da crise mundial, sacou?

Assim não há Miriam Leitão que agüente! Não foi o Ali Kamel quem disse algo sobre a impraticabilidade de se fazer imprensa para um público como esse? Ou foi o Reginaldo (talvez Reinaldo, mas tem mais cara de Reginaldo) de Azevedo?

Quê importa?

Importa é termos paciência. É só aguardar que em breve Obama lançará um programa social muito bem planejado, extremamente estratégico, uma solução brilhante e totalmente inusitada: o Bolsa Família!

Que o Obama lançará o Bolsa Família não é novidade pra ninguém, pois sua atual secretária de estado, enquanto ainda adversária na campanha pela convenção do Partido Democrata (não confundir com o DEMo do Bornhausen e uns outros daqui, pois UDN, ARENA, PFL, essas origens DEMoniocratas, melhor se coadunam ao Partido Republicano de lá), a Hillary Clinton, já reivindicava a aplicação do programa que entusiasticamente anunciava como uma solução social, de resultados comprovados pelos brasileiros.

Dessa vez passaram na frente do Lucas Mendes, mas nem por isso esperem a novidade de reconhecimento da nossa mídia à eficiência do Bolsa Família. Como é de se esperar, muito o elogiarão quando aplicado aos miseráveis estadunidenses, mas nada muda quanto ao fato de que o que é bom pro Lula jamais será bom pro Brasil!

O Bolsa Família da Hillary ou do Obama será anunciado como brilhante idéia pros pobres norte-americanos, mas seja o que for feito pra pobre brasileiro, boliviano, paraguaio, equatoriano ou venezuelano, é mera demagogia, populismo, jogada eleitoral, projeto de perpetuação de poder, e outras quimeras e dragões!

Assim sendo, chego à conclusão de que meus correspondentes tucanos são sábios e estão absolutamente certos. Isso de querer comparar Lula com Obama nunca vai dar certo. Por infinitas razões! A iniciar, por estas.

Raul Longo
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