terça-feira, 2 de junho de 2009

MEIO AMBIENTE: O MINC ESTÁ REAGINDO, ENFRENTANDO A "BANCADA DA MOTOSERRA".

Parece que agora o Minc está querendo ser fiel à sua história, enfrentando a bancada ruralista, que como já disse aqui, é unida e supra-partidária.É formada por 76 deputados feserais e 16 senadores,grandes proprietários de terras, a grande maioria caloteiros, que vêm conseguindo, entra governo, sai governo, empurrar suas dívidas para frente.
Carlos Dória

O texto abaixo foi copiado do blog do Alê.

'Tempo político' da 319 não importa, diz Minc

A Crítica - O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, está disposto a bater de frente com o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento (PR), com relação ao licenciamento ambiental prévio das obras de reconstrução da BR-319, que liga Manaus à Porto Velho (RO). À Folha de São Paulo, Minc disse, no ultimo sábado, que Alfredo "quer que as exigências (ambientais) sejam cobradas apenas ao final da obra", por questão eleitoral, uma vez que é pré-candidato ao Governo do Estado. "Se perdeu o tempo da eleição, como diria meu filho, só lamento. Não importa o tempo político da obra", disse Minc à Folha.

As declarações do ministro do Meio Ambiente foram dadas depois de conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na qual fez reclamações sobre outros ministérios, que segundo ele, vem insistindo em passar por cima de questões ambientais. "Saio com uma visão de respaldo do presidente da República. Quem quiser brigar, vai discutir com o presidente", desafiou Minc. "Ele (Lula) meu deu força e eu a exercerei", completou.

O ministro Alfredo Nascimento, por telefone, disse a A CRÍTICA que não quer entrar em nenhuma polêmica com o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e afirmou que a pasta dos Transportes está respondendo a todas as exigências ambientais, e tem contado com o apoio do Governo do Estado.

"Para mim não interessa muito a polêmica. O que interessa é que estamos cumprindo todas as exigências que foram feitas. Não houve qualquer resistência para cumprir exigências do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do bom senso", disse Alfredo. O ministro disse ainda que não haverá resistências sobre as exigências do "bom senso".

Para Alfredo, qualquer que seja o interesse do Ministério do Meio Ambiente sobre a preservação da Amazônia "não é maior que a que nós amazonenses também temos, mais que qualquer outro organismo". "Hoje já existe uma consciência de que a nossa sobrevivência depende da floresta em pé, ou ocupada com projetos de exploração sustentável. Estou fazendo o que é a minha obrigação", afirmou. (Emerson Quaresma)

MP e Ibama processam 21 fazendas de gado por desmatamento - Vinte e uma fazendas de gado em áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia, além de dezenas de frigoríficos e curtumes - que abatem, processam e revendem subprodutos bovinos - estão sendo processados pelo Ministério Público Federal (MPF) no Pará e pelo Ibama. Se forem condenados, os acusados terão de pagar um total de R$ 2,1 bilhões em indenizações pelos danos ambientais. Para garantir o pagamento, os rebanhos serão confiscados. [...]

[...] A punição mais alta é para a Fazenda Rio Vermelho, em Sapucaia: R$ 375,7 milhões. Mas a carga mais pesada recai sobre a empresária Verônica Dantas Rodenburg, irmã do banqueiro Daniel Dantas: nove das 21 fazendas estão em seu nome, somando R$ 540 milhões em multas.


Minc estuda cortar recursos de frigoríficos - O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, reagiu ontem à divulgação do relatório do Greenpeace, que acusa o governo de financiar o desmatamento na Amazônia. Ele ressaltou que cortará benefícios da cadeia econômica dos criadores de gado para coibir o desmate ilegal. Minc apontou que os pecuaristas foram os únicos a não firmar um acordo com o ministério, ao contrário dos produtores de soja, madeira e minério. E que os que estiverem na ilegalidade não receberão recursos do BNDES. De acordo com o ministro, o BNDES não financiará frigoríficos que comprem carne de pecuaristas que estão desmatando. "Temos uma lista de 105 frigoríficos e dos fornecedores de cada um deles. Vamos ver um por um. O frigorífico é corresponsável por crimes cometidos por fornecedores. Quem comprar carne ilegal não receberá recursos do BNDES", apontou, durante lançamento do Fundo da Mata Atlântica, no Rio.

Tenho lido aqui e ali, que o ministro Carlos Minc estaria preparando sua saída do governo, com essas declarações expondo publicamente as contradições internas do governo Lula em relação ao meio ambiente.

A minha visão é outra. Acredito que ele está lançando uma cartada com dois objetivos muito claros, apesar de arriscada. Entendo que a ministra Marina Silva tentou essa mesma estratégia, mas num momento em que sua força política estava fragilizada. Lembrem que muito criticada no ministério, voltou a ser unanimidade fora dele.

Por um lado Minc tentar contrabalançar as pressões internas no núcleo do governo, expondo para a imprensa de onde elas vêm. Por outro, pede ajuda à sociedade, que da boca para fora adota a preservação ambiental como uma prioridade, mas que no fundo se divide e muitas vezes se omite, quando as tensões aparecem. Isso sem falar na histórica divisão dos ambientalistas, que reproduzem de alguma forma a fragmentação dos diversos movimentos de esquerda, enquanto que os ruralistas e desenvolvimentistas (desculpem o rótulo prá lá de simplista) são unidos como nada.

O ambientalismo, marcado pela luta ideológica, muitas vezes não têm visão política muito clara e muitas vezes não consegue identificar quem realmente são os adversários.

Essa matéria, de alguma forma mostra uma vitória de Minc. O ministro dos Transportes, pressionado, é quase que obrigado a afirmar que vai cumprir as condicionantes do licenciamento, o que parece óbvio para muitos, mas que na verdade é uma conquista diária. É, de certa forma, um jogo midiático e ele parece que joga bem.

Minc está no fundo aumentando o preço político a ser pago pelo governo, por sua eventual saída. E se o ministro está realmente pedindo apoio, aqui está o meu, pois com essa estratégia ele deve estar ganhando muitos inimigos.

MÍDIA- O PSDB que poderia ter sido.O aturdimento do PSDB.

Luis Nassif

O aturdimento do editorial do Estadão com o aturdimento do PSDB é curioso. O grande erro do PSDB foi ter embarcado na onda midiática da guerra sem quartel.

O Estadão.

A reportagem no Estado de domingo, "Para voltar ao poder, PSDB aposta até na neurociência", é um retrato desalentador da desorientação que os anos Lula infligiram à legenda oposicionista que em dias melhores se distinguia por reunir um patrimônio intelectual incomum para os padrões partidários nacionais. Com dois presidenciáveis de peso, o governador paulista José Serra e o seu colega mineiro Aécio Neves, mas desprovido de “discurso”, o sinônimo corrente de mensagem, os tucanos também tateiam em busca de um caminho para chegar ao eleitorado que decidirá a sorte da sucessão de 2010 - os 58 milhões de brasileiros, ou 45% do total de votantes potenciais, que podem escolher tanto um candidato do PT como do PSDB, segundo as pesquisas.

Em português claro, os tucanos não sabem nem o que dizer nem como dizê-lo. De tal modo Lula conseguiu assumir a paternidade da política econômica e dos projetos sociais implantados sobretudo no segundo mandato do presidente Fernando Henrique que 67% dos entrevistados numa sondagem para este jornal, em 2007, apontavam o seu sucessor como o maior responsável pela estabilidade da economia. E vá um tucano dizer a qualquer dos 45 milhões de beneficiários do Bolsa-Família que o programa descende em linha direta do Bolsa-Escola do governo FHC e a reação variará entre a incredulidade e o escárnio. Melhor faria, como Serra e Aécio já afirmaram que farão, se elogiasse a benesse e prometesse ampliá-la.

(…) Mas Lula não teria conseguido sequestrar a política nacional e ditar os termos das disputas eleitorais se, depois de desperdiçar a sua melhor oportunidade, no auge das denúncias do mensalão, quando ele cogitou seriamente de desistir da reeleição, os tucanos não tivessem sido acometidos de uma catatonia desmoralizante. Agora, diante de um prato feito - os vexames em série proporcionados pelos políticos no Congresso e respaldados pela complacência cínica do presidente da República -, o máximo que os tucanos fizeram foi ecoar burocraticamente, e olhe lá, as denúncias da imprensa. (…)

Comentário
Quanto terminaram as eleições de 2006, escrevi várias vezes sobre o tema. A campanha sistemática da mídia, tentando derrubar o governo Lula, cansara. O novo tempo seria o da política.

Acreditava que com José Serra em São Paulo, Aécio Neves, em Minas e Lula em Brasília, haveria a possibilidade dos negociadores se imporem sobre os guerreiros.

O que o leitor não queria ewra justamente a manutenção desse clima de guerra artificial, alimentado fundamentalmente pela grande mídia.

Quando escrevi a coluna abaixo, Serra me telefonou. No começo, acenou com a possibilidade de fundar um novo partido, desvencilhando-se da herança fernandista. Depois, disse que, em geral, concordava com minhas ideias, mas agora não: FHC era seu amigo e aliado.

Nos anos seguintes, pegou o que de pior a herança fernandista tinha. Deslumbrou-se como um neófito com o canto de sereia de certo colunismo de guerra, passou a se valer cada vez mais de blogueiros de esgoto para atingir adversários, passou a dedicar a maior parte do seu tempo a articular as Vejas, Globos, Jungmans, Itagibas da vida, e se esqueceu da política e da gestão, abandonou suas raízes para vestir o figurino da direita raivosa.

Como diz um amigo comum, Serra é inteligente para algumas coisas. Mas é politicamente burro.

Agora vem o Estadão questionar que o PSDB não sabe o que quer. Nâo sabe porque foi atrás, entre outros, do Estadão. E o que faltou ao PSDB, segundo o jornal? Ter aproveitado o momento certo para derrubar Lula. Incareditável!
Fonte:Luis Nassif online.

A GUERRA DO PETRÓLEO: A confissão.

Como se sabe, a invasão do Iraque teve como objetivo favorecer empresas petrolíferas, uma delas de interesse direto do ex-vice Dick Cheney.Algumas dessas estão de olho no pré-sal.
Carlos Dória

Por Daniel Davidsohn

Passou despercebida uma notícia de hoje do ex-vice-presidente americano Dick Cheney. Segundo ele, nunca houve de fato qualquer ligação entre o antigo ditador Saddam Hussein e os atentados de 11 de Setembro.

Assim, caiu por terra o segundo e ultimo argumento usado para a invasão do Iraque.

O primeiro argumento dizia respeito às supostas armas de destruição em massa, que também nunca foram encontradas.

No saldo, EUA e a Inglaterra, maiores forças militares invasoras, dividem os principais contratos para exploração de petróleo. Depois de 36 anos após terem perdido a concessão de exploração de petróleo naquela região, Exxon Mobil, Shell, Total e BP estão de volta.

Estimativas apontam para um genocídio de centenas de milhares de civis. Homens, mulheres e crianças massacrados como conseqüência da invasão de forças militares estrangeiras apoiadas por executivos dessas companhias.

O mundo perdeu a vergonha.
Fonte:Luis Nassif online.

MEIO AMBIENTE - A devastação do pantanal.

Por Luciano Martins Costa

A revista Época traz nesta semana uma reportagem sobre o tema meio ambiente, inserida na seção de ciência e tecnologia. Ali estão assinalados os nomes de três empresas do setor de mineração, que têm excelentes relações com a imprensa: Vale, Votorantim e Rio Tinto. Elas são citadas com cautela, mas não se pode escapar do que afirma a reportagem: as empresas do setor são as principais estimuladoras da produção irregular de carvão vegetal que vem destruindo o Pantanal Matogrossense.

Numa semana em que a chamada bancada ruralista, fortalecida pela banda podre do Congresso e estimulada pela omissão da imprensa (ver aqui), tenta fazer passar uma lei que pode enfraquecer ainda mais a luta pela preservação do patrimônio ambiental brasileiro, a reportagem de Época merece muita reflexão. Ela reproduz um estudo até então inédito revelando que o Pantanal já perdeu 40% de sua cobertura vegetal.

Retrato desolador

A devastação se concentra nas terras altas, mas afeta diretamente os alagados porque as cabeceiras dos rios que formam a região pantaneira estão nos planaltos. As empresas mineradoras são parte do problema.

A reportagem foi ouvir seus argumentos, e colheu apenas da Vale a promessa de que vai participar das discussões sobre como conter a destruição. A Rio Tinto alegou que vendeu sua mina para a Vale e a Votorantim não atendeu a reportagem até o prazo final de fechamento da edição. Ficam faltando os vilões de sempre, aqueles que se organizam para reduzir o rigor da legislação de proteção ambiental.

Segundo o estudo citado pela revista, a ampliação das pastagens é outra das principais causas do desmatamento no Pantanal, assim como acontece na Amazônia. Mas ocorre ali uma cadeia econômica destrutiva. O crescimento do cultivo da cana nas terras baixas, no período da seca, reduz o espaço para o gado, que já havia se integrado ao ambiente pantaneiro. Os pecuaristas migram para as terras altas e desmatam para ampliar suas pastagens. Os produtores de carvão vegetal completam o serviço.

O retrato é desolador e ameaça um dos mais apreciados patrimônios naturais do mundo. Até terça-feira (2/6), os chamados grandes jornais, sempre atentos para repercutir intrigas políticas das revistas semanais, ainda não haviam dado a menor atenção à denúncia publicada pela Época.

***

Carne ilegal

Para que não se diga que a questão ambiental passa sem registro, o Globo e a Folha de S.Paulo noticiam que o Ministério Público Federal entrou com ações contra 21 grandes pecuaristas e frigoríficos que comercializam carne de gado criado ilegalmente na Amazônia.

A Folha diz que 69 empresas comerciais, entre elas as redes Carrefour, Wal-Mart e Pão de Açúcar, foram alertadas pelo Ministério Público.

É pouco.

Para se mostrarem realmente comprometidos com a causa ambiental, os jornais deveriam agora estar informando o leitor sobre a necessidade de exigir de seu supermercado o fornecimento de um certificado de origem da carne que vende.

Só através do consumo consciente a Amazônia tem uma chance de ser salva. E essa tarefa necessita do engajamento da imprensa.
Fonte:Observatório da Imprensa.

REFLEXÕES DE FIDEL - Os aplausos e os silêncios.

ONTEM, 31 de maio, um telex da AFP informou: "Cuba aceitou reabrir as negociações com os Estados Unidos sobre migração e o envio direto de correio, um novo sinal do degelo que tem lugar na véspera de uma Cúpula da Organização dos Estados Americanos (OEA), na qual o caso cubano predominará nas conversações.

"O chefe da Repartição de Cuba em Washington, Jorge Bolaños, transmitiu no sábado que Cuba ‘espera reatar conversações sobre emigração e o serviço de correio direto’, disse no domingo um alto funcionário do Departamento de Estado que ficou no anonimato.

"De El Salvador, onde assiste a um encontro ministerial sobre comércio regional, a secretária de Estado, Hillary Clinton, disse que Washington estava satisfeito com o reinício das conversações com Havana sobre esses temas."

Logo a seguir, de súbito, um tom nada diplomático:

"‘Haverá um diálogo aberto assim que que haja mudanças sobre direitos humanos e movimentos rumo à democracia’ em Cuba", expressou a agência EFE.

Qual é a "democracia" e os "direitos humanos" que os Estados Unidos defendem? Era realmente necessário lançar essa humilhante e prepotente advertência?

Quando hoje eu assistia na televisão a posse de Mauricio Funes e ele falou de reatar relações com Cuba, um aplauso ensurdecedor e gritos de júbilo estouraram naquela sala, como não se escutaram em nenhum outro momento de seu discurso. Ali, entre os convidados, estava Hillary. Com antecedência, o orador, que muitas vezes se afastava dos papéis, tinha cometido o erro de cumprimentar a Clinton, que ocupa o cargo de secretária de Estado, inclusive, antes que a Lula da Silva, presidente do gigante sul-americano, ali presente entre um grupo de presidentes da nossa região.

O orador, sem ainda concluir o aplauso prolongado a Cuba ― que talvez magoaria a senhora Clinton―, tomou a palavra e mencionou de novo os Estados Unidos, com a melhor intenção do mundo. Contudo, muito poucos naquela grande sala aplaudiram esse país.

Um momento culminante e muito aplaudido do discurso de Mauricio foi antes, quando mencionou o ilustre arcebispo Oscar Arnulfo Romero, cujo túmulo visitara nessa manhã. Aquele defensor dos pobres tinha sido assassinado impunemente, quando oficiava uma missa, pela sangrenta tirania do partido Arena, imposta pelo imperialismo em El Salvador. Naquela sala também estavam presentes os legisladores e altos funcionários que representavam o partido que o assassinou; entre eles, vários dos poucos que aplaudiram os Estados Unidos.

Em certas circunstâncias, não só as palavras falam por si próprias, mas também os aplausos e os silêncios.
Fonte:Granma

CONFERÊNCIA DA COMUNICAÇÃO - Tarso, qual é a sua estratégia?

Renato Rovai

O ministro Tarso Genro (PT) indicou como representante do ministério da Justiça na Comissão que vai organizar a Conferência da Comunicação o delegado e ex-deputado estadual Romeu Tuma Jr (PMDB).
Antes de mais nada, preciso dizer que não tenho nada contra Tuma Jr. Aliás, só tive com ele uma vez. E por curioso que possa parecer foi no Quênia, mas precisamente em Nairóbi. Ele estava com Nivaldo Santana (PCdoB) e Renato Simões (PT) representando a Assembléia Legislativa de São Paulo naquela edição do Fórum Social Mundial.
A questão não é se tenho algo a favor ou contra ou muito pelo contrário em relação a Tuma Jr. A questão é saber que pito ele vai tocar na Comissão. Estará lá representando o PMDB e a banda de Hélio Costa ou vai representar os interesses de um ministério cujo titular é do PT, partido que tem histórico na defesa da democratização das comunicações?
A escolha de Genro soa estranha. Espero que não tenha nada a ver com as questões gaúchas e com seu interesse em não ter, por exemplo, uma RBS tão refratária à sua candidatura. Porque se for isso, torcerei muito para que os petistas gaúchos deem um troco nas prévias e escolham um candidato mais comprometido com os interesses populares.
Aliás, falando em interesses populares, o governo tem obrigação de devolver os recursos para a organização da Conferência. Eles eram de 8,2 milhões e sofreram um corte para 1,6 milhão.
É como que dizer que quando Lula anunciou a convocação do evento no Fórum Social Mundial de Belém ele estava só de brincadeirinha. Espero que não seja sério.
Fonte:Blog do Rovai

CIGARRO&MÍDIA: As relações perigosas.

Desculpem a desagradável imagem acima, alusiva à data de ontem, 31 de maio, declarada em 1987, pela Organização Mundial de Saúde (saiba mais sobre a ação dela AQUI), o Dia Mundial Sem Tabaco. A ilustração tem sua razão. Pesquisas mostraram que imagens como essa, já tornadas obrigatórias em alguns países nos próprios maços de cigarro, são eficazes para desencorajar o fumo e pressionar fumantes a abandonar o vício.

Há outras, menos agressivas, como a do cinzeiro com uma rosa vermelha (veja abaixo, à direita) mas sem a mesma força dissuasiva. Daí a indústria de cigarro, ao negociar acordos extra-judiciais (já firmados nos EUA com Procuradores Gerais de 46 estados), ter concordado com o pagamento de bilhões em indenização pelo custo das doenças causadas pelo fumo mas ir a extremos contra imagens nos maços que expoem o efeito letal de seu produto.

As imagens são a verdade que a indústria obstina-se em esconder. No passado – graças à cumplicidade das agências de propaganda e, em especial, da mídia – elas eram substituídas na tela da TV e nas páginas dos jornais e revistas pelos anúncios mentirosos segundo os quais cigarro é a receita do sucesso – e traz iates, mulheres, carros de luxo, etc.

A mídia não mudou mas agora parece cúmplice envergonhada. Nem por isso deu ao menos um mínimo de atenção à data mundial de alerta contra o cigarro – o que levou o New York Times, nos EUA, a publicar editorial vigoroso (leia AQUI) sobre como a indústria do fumo continua sua atividade fraudulenta, obcecada em contornar as proibições legais. A exceção no Brasil foi um texto do Valor Econômico dia 29 de abril, traduzido de Business Week, mostrando como a Philip Morris amplia a venda de cigarros em outros países, buscando compensar a perda nos EUA (leia AQUI).

Quando a saúde está em questão
Muita gente costuma recordar até a data em que decidiu abandonar o cigarro. Para uns, claro, é bem mais difícil do que para outros. Comigo aconteceu há 40 anos, quando era editor internacional da revista Fatos e Fotos, na editora Bloch. Éramos uma equipe pequena na cozinha da redação: Cláudio Mello e Souza (diretor), Leo Schlafman, Sérgio Augusto, Paulo Perdigão, Luis Lara Resende.

Na outra sala ficava a reportagem, chefiada por Ney Bianchi. Difícil lembrar todos os nomes, mas Carlos Castilho, Hedyl Valle Júnior, José Paulo Kupfer e Margarida Autran estavam entre eles. Na redação talvez todos fossem fumantes. A exceção podia ser Evaldo, contínuo com tamanha competência e tão elevado QI que Sérgio, cultor de Lee Falk e seu Fantasma, preferia chamá-lo de Lothar.

Parei de fumar depois de ver uma reportagem na TV Tupi. Entrevistado, um médico pesquisador tinha sido convincente sobre os efeitos do cigarro. Talvez não passasse de um “recado” da emissora, então em declínio, à indústria, na busca de cota maior de anúncios. “Hollywood, o sucesso” era uma das campanhas na mídia – TV, rádio, jornais, outdoors, contra-capas de revistas (como Fatos e Fotos), etc.

Como estudioso da mídia, sempre me indignou suas relações promíscuas com os anunciantes. Às vezes, como no episódio da vacina obrigatória no Brasil, a mídia é leviana também por motivação política (de baixo nível), indiferente à saúde das pessoas. Naquela cobertura aliara-se ao obscurantismo, insuflando uma revolta popular, quando devia no mínimo ser informativa, esclarecedora – e responsável.

A Nestlé e a ameaça aos bebês
No caso do cigarro as transnacionais do fumo devem largamente à mídia a façanha inacreditável de ocultar a verdade durante décadas – desde os anos 1940, quando já havia nos laboratórios da indústria provas conclusivas sobre os efeitos devastadores de seu produto. Assim, toda a culpa da indústria tem de ser estendida à mídia, sua cúmplice (com as agências de propaganda), por se vender a ela.

É semelhante, na história recente, o caso da cumplicidade da mídia com a Nestlé e outras corporações do mesmo ramo, empenhadas durante décadas – e para tanto, investindo fortunas incalculáveis – em campanhas enganosas de propaganda para forçar mães no mundo inteiro a trocar a amamentação dos filhos por seus produtos duvidosos e prejudiciais à saúde dos bebês, já que enfraqueciam as defesas deles.

A vitória da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para as Crianças) contra a Nestlé e o lobby mundial do leite em pó também foi dificultada por causa das relações promíscuas da mídia com as corporações afetadas – em troca de propaganda. Só a duras penas a Nestlé, alvo principal, recuou e admitiu mudar ao menos o caráter de seus anúncios nocivos.

Como as duas organizações do sistema da ONU são de governos (sensíveis a pressão), foi necessário ainda um grande esforço de grupos não governamentais, como “Save the Children” e “International Baby Food Action Network” (IBFAN – saiba mais AQUI), alertando para o risco da troca da amamentação pela infant formula da Nestlé, que prejudicava os bebês, ampliando a mortalidade infantil nos países mais pobres.

Do boicote à liberdade individual
A idéia de um boicote mundial contra produtos da Nestlé foi lançada primeiro em 1974, com um panfleto na Inglaterra (título: “The Baby Killer”, o assassino de bebês). A Nestlé ganhou, após dois anos, o processo de injúria e difamação contra os responsáveis. Mas a vitória moral foi dos réus: tanto pela pena, uma multa irrisória, como pela afirmação do juiz de que a Nestlé devia, sim, mudar sua propaganda.

Depois do processo veio um grande boicote, iniciado em cinco países. Em 1978 o Senado dos EUA abriu investigação e no ano seguinte Unicef e OMS iniciaram o debate de um código com restrições à comercialização e à propaganda do leite em pó. Suspenso em 1988, quando a Nestlé aceitou o código, o boicote foi reativado depois, devido a violações da empresa. Até hoje persiste em alguns países. (Saiba mais sobre o boicote AQUI)

Tanto em relação à Nestlé como ao cigarro, a cumplicidade da mídia é garantida pelas relações promíscuas da indústria com veículos. Além de embolsar milhões com a propaganda, os veículos ainda suprimem notícias contrárias aos interesses da indústria. E esta, ao se estender a outra área, de alimentos, não deixa de “premiar” com anúncios destes a mídia “compreensiva” com o cigarro, proibido de anunciar.

Provado em definitivo que o cigarro causa doenças graves e às vezes leva à morte, advogados da indústria tiraram outro coelho da cartola. Criaram grupos de defesa da “liberdade individual”: nasceu assim a imagem do fumante como “libertário” (ei-lo no cruel cartum abaixo) em luta contra o Estado opressor que reprime seu direito de fumar, mesmo para morrer – sem se dar conta, claro, de estar servindo aos que faturam com seu vício, não à liberdade.

MÍDIA - FSP: a perplexidade com a autonomia da sociedade perante a mídia hegemônica.

Por Dennis de Oliveira

No dia 31 de maio, o jornalista Fernando Rodrigues publicou reportagem no jornal Folha de S. Paulo sobre a estratégia de propaganda do governo federal. Capciosamente, esta reportagem foi publicada na mesma edição em que a pesquisa DataFolha constatava o aumento da aprovação popular do presidente para 69%, o maior índice desde setembro, antes da eclosão da crise econômica. Para efeitos de comparação, no mesmo período de mandato, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tinha 19% de aprovação.


A reportagem indicava que o governo Lula aumentou o número de veículos de comunicação em que insere propaganda em 961% - eram 499 meios que recebiam propaganda oficial em 2003, hoje são 5.297 veículos. A estratégia de propaganda governamental, segundo a própria secretaria de comunicação do governo federal, foi a capilarização, isto é, reduzir a verba nos grandes veículos e direcioná-las a veículos menores e regionais. O montante de verba utilizado por Lula é quase idêntico ao do governo FHC, isto é, não houve aumento de verbas mas sim um redirecionamento das mesmas.


É evidente que os grandes meios, Folha à frente chiaram. Para não ficar claro que o problema é receber menos dinheiro do governo, criaram teses. O colunista Fernando Barros e Silva, ex-editor da Folha, chamou a política de comunicação governamental de “Bolsa-mídia”. Afirma o colunista: “... o governo promove um arrastão e vai comprando a mídia de segundo e terceiro escalões como nunca antes neste país. (...) Enquanto na superfície Lula trata de fazer a sua guerra retórica contra a 'imprensa burguesa' que lhe dá azia, no subsolo do poder a engrenagem montada pelo ministro Franklin Martins se encarrega de alimentar a rede de chapa branca na base de verbas publicitárias. (...) Esta mídia de cabresto que se consolidou no segundo mandato ajuda a entender e a difundir a popularidade do presidente.” (FSP de 01/06/09, pág A-2).


Menos raivoso, mas seguindo na mesma hipótese, Fernando Rodrigues comenta que o aumento da popularidade do presidente “é resultado de uma complexa estratégia de marketing. O governo brasileiro pré-PT sempre foi o maior anunciante do país. Agora, sob Lula, elevou essa condição ao paroxismo. Chega sozinho a 5.297 veículos de mídia impressa e eletrônica. O sabão em pó Omo ou políticos de oposição, por enquanto, não são páreo para Lula”. (FSP de 01/06/09, pág. A-2).


O editorial do jornal do dia 2 de junho volta a tocar no assunto quando afirma que “quanto menor o órgão de imprensa e mais afastado dos mercados competitivos, tanto mais vulnerável à dependência de anúncios estatais”. (FSP de 02/06/09, pág. A-2). O editorial, entretanto, diz que “pulverizar ou concentrar o gasto constitui só uma estratégia” e que “o absurdo está na existência desta verba para autopromoção”. Até porque o editorial traz uma informação interessante, que o governo federal pouco tem aumentando os gastos com propaganda, enquanto que o governo Serra aumentou 44% a verba publicitária este ano e o prefeito municipal Gilberto Kassab, impressionantes 134%!


A consternação dos jornalistas da Folha de S. Paulo tem razão de ser por vários motivos. Primeiro, a dificuldade de atingir Lula, apesar da saraivada de críticas que são publicadas nos grandes jornais. Apostou-se que a crise iria abalar o prestígio do presidente e isto não aconteceu. Segundo, que há uma evidente mudança no comportamento da opinião pública que não se organiza mais na base dos chamados “círculos concêntricos”, os chamados “formadores de opinião” estabelecem consensos que depois são reproduzidos automaticamente pelas massas. Há uma tendência de uma autonomização das chamadas camadas periféricas. Terceiro, que esta perda do monopólio da fala e do agendamento por parte destes grupos que avocaram para si a condição de formadores de opinião ou de “representantes da opinião pública” leva a posições que beira o preconceito mais explícito, sempre na ideia de que quem está fora do gueto dos formadores é corruptível ou de cabresto. A mídia regional é de cabresto porque está longe dos “mercados competitivos” (sic!). As populações destas regiões também são facilmente corrompidas e reproduzem automaticamente as opiniões da mídia regional corrompida. E os “puros” dos mercados competitivos (leiam-se a grande imprensa dos centros hegemônicos, em especial São Paulo) ficam a ver navios.


Mais: a possibilidade de amplos setores da sociedade também constituírem suas próprias mídias incomoda. Novamente o nervoso Fernando Barros e Silva: “Talvez explique (a mídia de cabresto) no novo mundo virtual o governismo subalterno de certos blogs que o lulismo pariu por aí”. O que pretendem o colunista e muitos outros “jornalistas” incomodados? Que o monopólio da fala, do agendamento e da emissão de opiniões pertençam a eles. O incômodo é semelhante quando Martinho Lutero traduziu a bíblia do latim para o alemão, tirando o monopólio da leitura e interpretação do clero da Igreja Católica. Os textos da Folha de S. Paulo parecem uma “Contra-reforma”.


Mas o mais grave de tudo isto é o primarismo das abordagens que limitam a análise da popularidade (ou não) de um político meramente pela propaganda, embora ela seja importante. Como se a sociedade fosse composta por cabeças ocas que reproduzem apenas aquelas mensagens que são veiculadas pela propaganda. Será que a popularidade do presidente não pode ser explicada porque efetivamente houve uma melhora no padrão de vida das classes mais subalternizadas? Os dados mostram a ascensão social das classes D e E, um aumento do consumo nestes segmentos sociais e o impacto de programas sociais nos lugares mais pobres. Propaganda pode vender imagens e sonhos mas não é suficiente para encher a barriga de quem tem fome.

Dennis de Oliveira é jornalista e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, coordenador do Celacc (Centro de Estudos Latino Americanos de Cultura e Comunicação), membro do Neinb (Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro) e vice-coordenador do Alterjor (Grupo de Pesquisa de Jornalismo Popular e Alternativo). E-mail: dennisoliveira@uol.com.br

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Fonte:Blog do Rovai

ANDAR PARA A FRENTE.

Marina Silva
De Brasília (DF)

Pode não parecer, mas estamos em plena Semana Nacional do Meio Ambiente. Criada por um decreto em 1981, ela acontece sempre no início deste mês e se soma às comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, no dia 5 de junho. A data foi instituída em 1972, pela Conferência de Estocolmo, na Suécia, que reuniu 115 países das Nações Unidas em torno das questões ambientais. Foi a partir daí que o movimento ambiental ganhou força no mundo.

Naquela época, o Brasil buscava o desenvolvimento a qualquer custo. Vivíamos em plena ditadura militar e a Amazônia era apenas uma terra a ser ocupada, um inimigo a ser domado. Ainda hoje a floresta guarda as feridas dos megaprojetos fracassados.

Com a democratização do país e a pressão dos movimentos sociais, dos ambientalistas, do mundo acadêmico e da própria população, lentamente uma série de leis e medidas foram sendo tomadas para evitar danos graves e muitas vezes irreparáveis ao meio ambiente.

Desde a Constituição de 1988, especificamente o artigo 225 - que afirma que todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, essencial à sadia qualidade de vida, cabendo a todos e ao Poder Público o dever de preservá-lo e defendê-lo para as presentes e futuras gerações -, o Brasil foi aprimorando seu arcabouço jurídico, a ponto de a sua legislação ambiental passar a ser considerada uma da mais avançadas do mundo.

Nos últimos anos, o panorama ambiental brasileiro passou por dois movimentos fortes. O primeiro, uma inflexão no rumo das premissas do Desenvolvimento Sustentável, envolveu uma série de mudanças metodológicas, legislativas e políticas.

Os resultados foram bons e animadores: redução de 59% da taxa de desmatamento na Amazônia em três anos e criação de 24 milhões de hectares de novas unidades de conservação. Além disso, foram alcançadas conquistas inéditas, a exemplo da resolução do Conselho Monetário Nacional, que vinculou o crédito agropecuário à comprovação da regularidade ambiental e fundiária.

Infelizmente, o segundo movimento, ora em curso, é totalmente contraditório com essa inflexão positiva. Em plena Semana Nacional do Meio Ambiente corremos o risco de ver o Senado Federal aprovar a Medida Provisória (MP) 458/09, que terá como efeito perverso a institucionalização da grilagem de terras na Amazônia. A proposta abre, literalmente, a porta para regularizar, titular e privatizar 67 milhões de hectares de terras públicas na Amazônia, um total equivalente aos estados de Minas Gerais e de Santa Catarina.

São sucessivos ataques que, partidos de setores do empresariado e do próprio governo, tentam desconstituir a legislação ambiental brasileira e a Política Nacional de Meio Ambiente.

Outro exemplo é a MP 452/08, que pode cair nesta semana, pelo impasse criado no Senado. Ela inclui o fim do licenciamento ambiental em obras de recuperação de estradas, o que é um golpe contra a floresta amazônica. A MP 450/08, que voltou à Câmara dos Deputados, guarda um grande potencial de problemas e agressões ambientais. Em seu artigo 17, cria uma nova categoria de usinas hidráulicas, entre 30MW e 50MW, que terão rito sumário de autorização e sem as características de pequenas centrais hidrelétricas, ou seja, sem limites para o tamanho do lago.

A sociedade brasileira demonstra amplo apoio às causas ambientais. Mas, no Congresso e mesmo no governo, volta a aparecer com força a idéia de que a legislação que protege o que nos restou das florestas e da nossa biodiversidade é a maior inimiga do desenvolvimento e da agricultura no Brasil. É a velha e ultrapassada concepção que contrapõe as atividades econômicas à proteção do meio ambiente. Em nome de um crescimento econômico imediatista e precário, sacrificam-se nossos maiores ativos, que são justamente os recursos ambientais. Nada mais antieconômico.

Por isso, esta Semana do Meio Ambiente é marcada pela preocupação e por um desafio inequívoco: o de defender nossas conquistas porque o mundo mudou, o Brasil mudou e não podemos retroceder em nossos passos. Não podemos retornar ao século XX, o século XXI nos exige andar para frente. E à frente está o cerne desse desafio, que é fazer a síntese entre justiça social, economia sustentável e uma relação respeitosa com o meio ambiente.

Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.
Fonte:Terra Magazine.

A ESQUERDA E A CRISE.

Luiz Carlos Bresser-Pereira (Folha de S. Paulo)

O DESASTRE econômico que estamos vivendo é consequência da hegemonia, nos últimos 30 anos, do neoliberalismo -uma ideologia de direita que desregulou os mercados financeiros. Entretanto, nas eleições para o Parlamento Europeu que se realizarão nesta semana, não se prevê que os partidos de esquerda avancem e logrem recuperar a maioria detida pela direita. Como explicar esse fato? Por que os eleitores europeus, que sempre se revelam mais conscientes politicamente -mais capazes de votar de acordo com princípios ideológicos e levando em consideração os resultados alcançados-, não estão dando agora uma guinada para a esquerda?

Meu diagnóstico é o de que a esquerda não está se beneficiando da crise porque nos momentos em que esteve no poder nestes últimos 30 anos ela fez tantas concessões ao fundamentalismo de mercado neoliberal que, afinal, sua política muitas vezes se aproximava daquelas propostas pela direita. No plano social, isso não aconteceu porque os partidos de esquerda se mantiveram fiéis à ideia de que cabe ao Estado aumentar a despesa social em educação, cuidados de saúde, previdência e assistência social e, dessa forma, diminuir a desigualdade.

Enquanto o neoliberalismo defendia um individualismo competitivo extremo baseado em princípios meritocráticos, a centro-esquerda rejeitava o pressuposto do caráter inerentemente egoísta do ser humano e, a partir do pressuposto alternativo de que o comportamento humano é fruto de uma dialética entre dois instintos fundamentais -o da sobrevivência e o da convivência-, afirmava a possibilidade e a necessidade da solidariedade ou das virtudes cívicas e defendia um papel ativo para o Estado na redução das desigualdades. Essa foi sua força.

No campo econômico, porém, o histórico da esquerda não é tão favorável. Ela teve uma enorme dificuldade em 1) resistir à proposta de desregulação neoliberal; e 2) em ver uma alternativa econômica à teoria econômica neoclássica e às políticas econômicas convencionais. Não resistiu à desregulação porque se deixou convencer do argumento dos mercados eficientes e autorregulados. E não foi capaz de praticar política econômica alternativa -ainda que uma alternativa keynesiana e desenvolvimentista exista- não apenas porque a hegemonia ideológica era muito forte mas também porque economistas keynesianos e desenvolvimentistas medíocres interpretavam mal Keynes e pregavam algo que os políticos sabem ser desastroso: a irresponsabilidade fiscal.

O episódio mais triste de rendição da esquerda perante o neoliberalismo foi, em 1983, o da virada para a direita do governo de esquerda de François Mitterrand. A política incompetente adotada pelo governo nos dois anos anteriores levou o país a uma crise econômica, e, em consequência, esse mesmo governo se viu, de uma hora para outra, sem alternativa senão adotar a ortodoxia reclamada pelo establishment conservador.

Uma política econômica de esquerda exige a capacidade de seus formuladores de reduzir as desigualdades sem prejudicar as oportunidades de investimento dos empresários. Para isso, precisa, de um lado, promover o aumento dos salários com a produtividade e estimular a produção de bens de consumo básico, e não de luxo; e, de outro, distinguir empresários, cujos lucros devem ser satisfatórios, dos juros e aluguéis dos rentistas, que devem ser moderados. Se a esquerda houvesse sido capaz de orientar sua política econômica nessa direção, certamente estaria sendo hoje beneficiada pela crise.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de `Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994`.

Publicado originalmente: Folha de S. Paulo – 01/06/2009./AEPET

A MARCA REGISTRADA DA ELITE BRASILEIRA.

Márcia Denser*

No último 20 de maio, li um texto memorável do Emir Sader: ele diz tudo o que eu pretendia a respeito da CPI da Petrobras. Na verdade, o primeiro pensamento que me ocorreu foi dito pelo presidente Lula, dias antes, ao embarcar para a China. Ele comentou algo como “CPI da Petrobras? Esses caras não têm mais o que fazer?”. Pois é, que merda. Esses caras não desistem: intermediar a entrega da Petrobras, como se fosse deles, para o Capital Internacional só pra ficar com um troco pela operação e a eterna gratidão do Big Brother pelos bons serviços de sempre. Só que o Big Brother já não agradece como antigamente, vide coluna Os Que Não Foram, onde comento que uma reles medalha foi tudo o que Tony Blair ganhou de Bush por ter apoiado as guerras de Washington.

Mas, esta é a marca registrada do nosso subcapitalismo desigual e combinado – que combina a iniqüidade do atraso com a truculência do progresso. Sempre buscando representar o irrepresentável: a burguesia nacional que já não manda; o capital financeiro, que é o obstáculo ao desenvolvimento pois já se desligou de qualquer representação de classe, e cujos interesses promovem a exclusão – eis a contribuição genuinamente brasileira à práxis política global. A união ideal do Inútil ao Desagradável: estamos exportando entreguismo de ponta! O eterno gigante bobo adormecido com seu chocalho multinacional. Nosso sub-horizonte eleitoral “avança” em “marcha a ré para trás”, sinalizando, em 2010, com o que nos espera se ocorrer o retorno ao poder “desses caras que não têm mais o que fazer”. Mas vamos ao texto do Emir, do qual reproduzo alguns trechos:

“Dia 26 de dezembro de 2000, um dia depois do Natal, o povo brasileiro foi surpreendido por mais uma medida antinacional do governo FHC. O presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul, anunciou que a empresa estava mudando seu nome comercial para PetroBrax. Segundo ele, o objetivo seria “unificar a marca e facilitar seu processo de internacionalização” (sic) (FSP, 27/12/2000). Afirmou ele que “a medida ganhou na semana passada o aval do presidente Fernando Henrique Cardoso”.

Segundo Alexandre Machado, consultor da presidência da Petrobras, a operação custaria à empresa 50 milhões de dólares, para realizar um projeto da agência paulista de design Und SC Litda, “contratada sem licitação”, segundo o presidente da Petrobras. “Um dos argumentos favoráveis – relata a FSP – foi que o sufixo “bras” estaria, internamente, associado à ineficiência estatal. No front externo, um dos argumentos para a mudança da marca é de tirar a associação excessiva que o nome Petrobras tem com o Brasil. Segundo Norberto Chamma, diretor da Und, que apresentou a nova marca ontem para jornalistas, a desvinculação é importante para que a empresa não seja obrigada a arcar com os ônus dessa ligação.” (sic)

Ligação com quem, cara pálida? Com o Brasil? Com os brasileiros? Ou com nossa elite política?

“A direita subestimou a capacidade de resistência do povo brasileiro. Mas a operação durou apenas algumas horas. Apesar da tentativa de pegar o povo distraído entre Natal e Ano Novo, em dois dias o governo teve que retroceder da sua vergonhosa tentativa de preparar a maior empresa brasileira para “facilitar seu processo de internacionalização” – não há melhor confissão da intenção de privatizá-la do que a venda de ações na Bolsa de Nova York. O país estava submetido à nova Carta de Intenções do FMI, depois que o governo tucano de FMC e de Serra ter quebrado nossa economia pela terceira vez, havia indícios claros que a privatização da Petrobras, da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil faziam parte das contrapartidas dos novos empréstimos que o FMI concedia ao governo de FHC. 26 de dezembro foi um dia da vergonha nacional, com essa tentativa fracassada de tirar o nome do Brasil da Petrobras, para tirar a Petrobras do Brasil. Sabemos que FHC estava totalmente de acordo.

Seria bom saber onde andavam e que atitude tomaram os que agora dizem se preocupar com a Petrobrás. Que posição teve, por exemplo, José Serra diante dessa ignominiosa atitude do governo a que ele pertenceu? E as empresas da mídia e seus funcionários colunistas? E que atitude tomaram os senadores, agora tão interessados nos destinos da Petrobras, ao subscrever o pedido da CPI, quando a existência mesma da empresa estava em jogo?

O certo é que estavam centralmente ocupados em apoiar o governo que tentou privatizar a Petrobrás, - que fez um balão de ensaio no dia 26 de dezembro de 2000 - mas teve que recuar, e agora tenta voltar à carga, no momento em que se discute a nova regulamentação da exploração do petróleo e todo o processo do pré-sal. Une suas atuações um profundo sentimento de desprezo pelo que é brasileiro, pela que a Petrobrás representou e representa para o país.” (in www.cartamaior.com.br)

E não me venham com acusações idiotas de “nacionalismo” ou “populismo” porque estas só se aplicam às populações do Brasil ou América do Sul ou Terceiro Mundo, jamais às populações dos Estados Unidos ou Europa ou Primeiro Mundo, cujo patriotismo e protecionismo, quando não omitidos, são efusivamente elogiados.

O fato é que, entre eles, “patriotismo” associa-se a “protecionismo”, mas entre nós - para as nossas elites tão originais – “patriotismo” só é bom quando associado a “entreguismo”.

Portanto: seja patriota, entregue logo a Petrobras.

*A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango Fantasma (1977), O Animal dos Motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), Toda Prosa (2002) e Caim (2006). Participou de várias antologias importantes no Brasil e no exterior. Organizou três delas - uma das quais, Contos eróticos femininos, editada na Alemanha. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura brasileira contemporânea, jornalista e publicitária.
Fonte:Brasil, Brasil.

Ditadura, Nunca Mais.

PETROBRÁS EMITE NOTA DE ESCLARECIMENTO PÚBLICO.

Rio de Janeiro, 01 de Junho de 2009

PETROBRÁS EMITE NOTA DE ESCLARECIMENTO PÚBLICO - 01/06/09

Em nota de esclarecimento público, publicada nesta segunda-feira (01/06), no jornal “O Globo”, a Petrobrás rebate o referido jornal carioca quanto à matéria deste domingo (31/05) intitulada “Muita política e pouca transparência”, que a seguir segue, com grifo da Empresa: “Em face dos esclarecimentos públicos reiteradamente prestados, que vêm sendo suprimidos de maneira condenável por alguns meios de comunicação, de forma a distorcer fatos e levar aos leitores informações incompletas e que induzem ao erro sobre as atividades da Empresa, a Petrobrás afirma: (1) Matéria publicada pelo Jornal O Globo deste domingo, intitulada “Muita política e pouca transparência”, omite do leitor que os dados utilizados para sua confecção são de domínio público e estavam a disposição no próprio sítio da Companhia, o que, por si só, contradiz o enunciado de falta de transparência. (2) A interpretação dada a eles, porém, vem travestida de nova roupagem. A matéria afirma que a Petrobrás “faz 80% das compras sem licitação”, o que leva o leitor a entender que o número se refere ao total de contratos. Trata-se, na verdade, de uma “AMOSTRA” de 4.885 contratos, cerca de 2% do total real de contratações da Empresa, que totalizaram cerca de 240 mil em 2008. (3) Deste total contratado, cerca de 30% foram por dispensa ou inexigibilidade de licitação e 70% por licitações em modalidades previstas no Decreto 2.745. Portanto, os dados contidos são inverídicos. As contratações realizadas pela Companhia seguem estritamente o que a Lei determina. (4) Mais grave ainda é a associação dos dados a suposto levantamento do Senado Federal. Trata-se, evidentemente, de um extrato de informações de livre interpretação de interessados em macular a imagem da Companhia e distorcer dados por ela disponibilizados, é importante frisar, com objetivo de travar uma disputa ideológica e ou política partidária que não se coaduna com os interesses da Empresa, seus acionistas privados e da maioria da população brasileira, representada pelo governo acionista majoritário da Empresa. (5) As falsas associações contidas no texto induzem o leitor a acreditar que a Petrobrás realiza procedimentos sem licitação. É preciso esclarecer que as contratações realizadas pela Companhia se amparam no decreto-lei 2.745, de 1998, conforme determina a Lei Federal nº 9.478/97, instituído no governo anterior, para dar maior agilidade para contratação de bens e serviços, em um ambiente de livre competição de mercado. Ainda que contestado pelo Tribunal de Contas da União, este decreto-lei vem sendo referendado pelo Supremo Tribunal Federal, que já concedeu dez liminares favoráveis à Companhia. (6) Uma das maiores companhias petrolíferas do mundo, e a quarta maior em reputação entre todas as empresas de qualquer segmento de negócio do planeta, a Petrobrás tem suas contas analisadas de forma permanente e contínua, por auditorias internas e externas, através da Controladoria Geral da União (CGU) e do Tribunal de Contas da União (TCU), além de cumprir todas exigências da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da lei Sarbannes-Oxley e da Securities and Exchange Commision (SEC), tendo seu balanços auditados e aprovados em todas as instâncias. (7) Em relação aos investimentos da Companhia em projetos de responsabilidade social, mais uma vez, cabe esclarecer que se tratam de política de conhecimento público. A Petrobrás investiu, em 2008, 225 milhões de reais em projetos de cidadania e desenvolvimento social, 206 milhões em projetos culturais e 61 milhões de reais em incentivos ao esporte. Trata-se de diretriz do Planejamento Estratégico da Companhia, aprovada por seu Conselho de Administração, em cumprimento da função social das empresas definida pela Constituição Federal e também na Lei das Sociedades Anônimas. (8) A Petrobrás não abrirá mão de seu compromisso com a sustentabilidade e, por isso, aprovou em seu Plano de Negócios, alinhado ao Planejamento Estratégia, o investimento de 1,2 bilhão em responsabilidade social até 2012, informação já divulgada aos seus públicos de interesse. (9) No que diz respeito aos recursos direcionados para o Fundo de Infância e Adolescência (FIA), ao contrário do que divulga o jornal O Globo, a Petrobrás não “escolhe num banco de projetos” os municípios que receberão os recursos do Fundo. O processo de repasse de recursos aos FIA se dá a partir da deliberação dos Conselhos de Direitos das Crianças e Adolescentes, sem qualquer ingerência da Companhia neste processo. (10) Como já veio a público esclarecer inúmeras vezes, a Petrobrás reafirma que a escolha dos eventos e projetos patrocinados pela Companhia não seguem critérios políticos. Manifestações culturais são típicas de determinadas regiões do País e as escolhas da Companhia obedecem a critérios de valorização da cultura regional e buscam propiciar visibilidade a sua marca. (11) Quanto às obras de terraplanagem da refinaria de Pernambuco (Abreu e Lima), há uma divergência entre os parâmetros de fiscalização adotados pelo TCU e pela Petrobrás, que serão dirimidos no decorrer do processo de apuração e coleta de dados. Vale reforçar que, a despeito das divergências de critérios apontados pelo Tribunal Legislativo, os custos da obra de terraplanagem estão dentro dos parâmetros aceitos internacionalmente e no entendimento da Companhia não há por que se falar em superfaturamento”.

(Nota da Petrobrás, publicada no jornal O Globo – 01/06/2009)
Fonte:AEPET

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A PETROBRÁS EM TEMPOS DE FHC.

Texto abaixo copiado do blog Democracia&Política.

OBJETIVO DO PSDB ERA QUEBRAR O MONOPÓLIO DA PETROBRAS, DIVIDI-LA E PRIVATIZAR UMA PARTE, REVELA SUELI CALDAS
Li hoje no blog do Favre:

“A jornalista Suely Caldas, insuspeita de petismo, revela nesta nota a tentativa de desmembrar a Petrobras, de debilitá-la e quais eram os planos da privatização na época de FHC.

A ideia, antes como agora, era quebrar o monopólio estatal. Entregar uma parte dele aos grupos privados.

Como privatizar não é um palavrão e pode frequentar jornais e até livro didático, vale a pena distinguir entre fazer uma concessão de estradas à iniciativa privada (nisto também o jeito Lula e o dos tucanos mostra grande diferença) e alienar os principais instrumentos da ação do poder público como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal etc.

A crise global e a capacidade do Brasil resistir ao tsunami econômico financeiro, está estreitamente relacionado a preservação da Petrobras, o BB e a Caixa em mão do Estado. A maioria dos economistas coincide hoje nesta avaliação.

Debilitar a Petrobras, desmembrá-la e privatizar uma parte pode voltar a agenda se os demotucanos conseguirem voltar ao governo. Hipótese que pode ser mais difícil do que supunham, visto o apóio crescente à Lula e à candidata Dilma Rousseff constatado nas últimas pesquisas. LF”

A PETROBRÁS EM TEMPOS DE FHC
Suely Caldas*

Com o propósito político de derrubar a CPI da Petrobrás, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, e outros integrantes do governo Lula têm declarado que a verdadeira intenção do PSDB é enfraquecer a maior empresa do País para, em seguida, realizar antigo projeto do governo FHC de privatizá-la. As declarações chegam em tom emocional e condenatório, como se a privatização em si fosse um demônio que precisa ser exorcizado, extirpado da alma humana. Esquecem que o governo Lula tem privatizado rodovias, usinas elétricas, linhas de transmissão, empresas e outros tantos projetos de investimento que implicam concessão pública. Ou seja, condenam verbalmente o que praticam na vida real.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso logo veio a público negar, em nota oficial, ter sido sua intenção vender a Petrobrás ao capital privado, mas não esclareceu o projeto de seu governo, que não era uma privatização clássica, mas tinha por objetivo quebrar o monopólio e provocar concorrência. E nem foi adiante.

Mas existia, era real. O PSDB mais calou do que esclareceu.

A primeira parte do projeto foi revelada ao País no final de outubro de 1997 pelo então presidente do BNDES, Luiz Carlos Mendonça de Barros, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. A segunda parte é tornada pública agora, neste texto, por meio do mesmo Mendonça de Barros, em conversa que mantivemos na quinta-feira. “O modelo não era privatizar, mas criar uma segunda empresa com um pedaço da Petrobrás, com a finalidade de romper o monopólio, criar competição e avaliar eficiência em gestão”, explicou o ex-presidente do BNDES na conversa. Na época a estatal ainda não era uma empresa pública com 500 mil acionistas como é hoje e seu presidente era Joel Rennó, de quem eram cobradas eficiência e transparência na gestão.

Com o título Governo vai iniciar gestão privada na Petrobrás, a entrevista de Mendonça de Barros anunciava o plano para a estatal: numa primeira etapa seriam vendidos 30% do capital votante (que excediam os 51% do controle estatal) a grandes grupos nacionais privados. “Pensávamos em Grupo Ultra, Odebrecht, Votorantim, grupos fortes de capital nacional, capazes de competir com empresas estrangeiras”, conta hoje Mendonça de Barros. Em 1997 ele afirmava: “A Petrobrás é diferente da Vale, é uma empresa estratégica para o País e precisa ficar em poder do capital nacional.

Quando for considerada a privatização, ela precisa ser olhada com cuidado especial.”

Só agora revelado pelo ex-presidente do BNDES, numa segunda etapa a Petrobrás seria dividida em duas empresas: a primeira, estatal, sob controle da União e detentora de 70% de todos os ativos (as reservas petrolíferas, as refinarias, os oleodutos, gasodutos, etc.). A segunda, controlada pelos grandes grupos nacionais que haviam adquirido 30% do controle na primeira etapa, começaria a operar com 30% dos ativos da antiga Petrobrás.

Segundo Mendonça de Barros, o verdadeiro objetivo não era vender a Petrobrás, muito menos desnacionalizá-la, mas resolver o dilema da falta de competição, por entender que todo monopólio, seja estatal ou privado, é nocivo aos interesses da população.

Naquele outubro de 1997 a entrevista de Mendonça de Barros caiu como uma bomba no Congresso. O senador gaúcho Pedro Simon exigiu do presidente Fernando Henrique um desmentido público às declarações. Pressionado, FHC enviou carta ao então presidente do Senado, José Sarney, garantindo que a Petrobrás não seria privatizada “em hipótese alguma”. A pressão política sobre FHC e a transferência de Mendonça de Barros para o Ministério das Comunicações para substituir Sergio Motta, que faleceu logo depois, acabaram por enterrar o projeto.

Em março de 1999 FHC substituiu Joel Rennó por Henri Philippe Reichstul na presidência da Petrobrás e iniciou uma nova estratégia, que consistia em fortalecer a estatal e prepará-la para competir com as grandes petrolíferas estrangeiras - no Brasil e no exterior. O choque de gestão valorizou as ações, multiplicou o valor de mercado da Petrobrás e deu a partida para o modelo de empresa pública que é hoje, com capital pulverizado e mais de 500 mil acionistas privados, mas sob controle estatal.

O curioso é que nessa entrevista de 1997 Mendonça de Barros defendia a ideia de formar grandes grupos nacionais por meio de fusões e incorporações, argumentando ser “essa a tendência do capitalismo moderno”. Argumento defendido pela ministra Dilma Rousseff, 11 anos depois.”

*Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-Rio E-mail: sucaldas@terra.com.br”
Fonte:Blog Democracia&Política

MEIO AMBIENTE - Minc joga última cartada para defender leis ambientais

O grande problema para o Minc é que a bancada ruralista, além de ser unida é supra-partidária e não tem consciência ambiental.Com isso, vem conseguindo se impor a todos os governos.A Marina Silva percebeu isso e pulou fora. O Minc, se não quiser se desmoralizar, vai acabar fazendo isso.
Carlos Dória

Com seu espaço no governo reduzido a cada dia graças à ofensiva ruralista sobre a legislação ambiental no Congresso e à atuação de colegas de ministério, ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) reafirma aliança política com os movimentos sociais e pede ajuda diretamente ao presidente Lula. Novo projeto na Câmara quer retirar do Ibama a prerrogativa da fiscalização ambiental.

Maurício Thuswohl

RIO DE JANEIRO - Enquanto o mundo comemora a Semana do Meio Ambiente, o governo brasileiro entra em uma fase decisiva para a definição dos rumos de sua política ambiental. Realizada de forma permanente no Congresso, a ofensiva parlamentar contra a atual legislação traz como última novidade a apresentação de um projeto de lei que acaba com os atuais Código Florestal, Lei de Crimes Ambientais e Política Nacional de Meio Ambiente e reúne tudo em um único conjunto de normas, que se chamaria Código Ambiental.

De autoria do deputado Valdir Colatto (PMDB-SC), o projeto busca consolidar alguns avanços sobre as leis ambientais conquistados recentemente pelos ruralistas, como as Medidas Provisórias 452 (que acaba com a obrigatoriedade de concessão de licença ambiental para obras realizadas em rodovias federais já existentes) e 458 (que facilita a legalização de terras griladas na Amazônia). O texto de Colatto também prevê que a prerrogativa de fiscalizar o cumprimento das normas e resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) em projetos com impacto ambiental seja retirada do Ibama e transferida aos estados e municípios, o que enfraqueceria o órgão federal.

A ofensiva parlamentar conta com o apoio declarado de alguns ministros, a franca oposição do ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) e o, até aqui, ensurdecedor silêncio do Palácio do Planalto. Há um ano no cargo e percebendo que seu espaço de manobra política se reduz a cada dia, Minc decidiu partir ele também para a ofensiva e fez uma visita pública ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual cobrou ajuda no Congresso e reclamou da atuação de outros ministros, como Reinhold Stephanes (Agricultura), Alfredo Nascimento (Transportes) e Mangabeira Unger (Secretaria de Assuntos Estratégicos).

Segundo o próprio Minc relatou à imprensa após o encontro com Lula, a bronca com Mangabeira se explica porque este último teria enviado ao Congresso, sem o conhecimento do Ministério do Meio Ambiente (MMA), uma proposta de alteração das regras para o licenciamento ambiental no país. No caso de Stephanes, Minc reclamou do empenho do colega em apoiar projetos que buscam desfigurar o Código Florestal.

A disputa com Alfredo Nascimento se dá em torno da MP 452, pois sua aprovação interessa ao ministro dos Transportes. Nascimento é candidato ao governo do Amazonas em 2010 e tem como bandeira a conclusão das obras da BR-139 (Manaus-Porto Velho), que corta o coração da Amazônia: “O ministro Nascimento está com pressa e quer primeiro fazer a obra e só depois cumprir as exigências ambientais. Eu disse ao presidente Lula que estou moralmente impedido de concordar com isso. Seria a morte em vida”, disse Minc.

Machadinha
O ministro do Meio Ambiente teria reclamado muito com Lula sobre a aliança entre os parlamentares ruralistas e setores do governo: “Disse ao presidente que vários ministros combinavam uma coisa aqui e depois iam ao Congresso, cada um com sua machadinha, patrocinar emendas que esquartejavam e desfiguravam a legislação ambiental. O presidente me disse que isso não é aceitável”, contou Minc.

A firmeza do compromisso supostamente assumido entre Lula e Minc poderá ser verificada em breve. A MP 452, já aprovada na Câmara, não foi apreciada pelo Senado até a data limite desta segunda-feira (01), o que significa que terá de ser reeditada pelo governo. A intensa disputa travada em torno da CPI da Petrobras durante toda a semana passada fez com que os senadores da bancada ruralista não conseguissem emplacar a discussão sobre a MP, e agora a expectativa é de que o Planalto se posicione claramente contra a emenda que flexibiliza o licenciamento de obras em rodovias: “Queriam um licenciamento aprovado por decurso de prazo. Ainda bem que o que caiu por decurso de prazo foi a MP 452”, comemorou a senadora Marina Silva (PT-AC).

Aliança com agricultores
Em busca de sustentação política, Carlos Minc quer consolidar o apoio dos agricultores familiares às políticas desenvolvidas pelo MMA nestes últimos seis anos. Falando para quatro mil agricultores que participavam do Grito da Terra e marchavam na Esplanada dos Ministérios na última quarta-feira (27), o ministro afirmou que a lógica do agronegócio é a destruição do meio ambiente e acusou seus líderes de chantagear o governo: “Não podemos cair no canto da sereia. Eles encolheram os dentes de vampiro e o rabinho de capeta, mas não enganam o povo”.

A aliança do MMA com organizações representativas dos agricultores familiares, como a Contag, entre outras, já rendeu a elaboração conjunta de um documento que foi enviado a Lula e pede que o presidente impeça as tentativas em andamento de mudança na legislação ambiental. Segundo Minc, Lula teria concordado em receber, durante a Semana do Meio Ambiente, uma comissão formada por ambientalistas e agricultores familiares para discutir essa questão. A expectativa do ministro é que um aceno presidencial possa reverter a balança política que, até o momento, pende claramente para os ruralistas e os setores do governo que defendem o agronegócio
Fonte:Agência Carta Maior.

A VOZ DAS VÍTIMAS, QUEM A ESCUTARÁ?

Leonardo Boff *

Adital

Os 192 chefes de Estado ou de governo deverão se reunir nos dias 1, 2 e 3(*) de junho em Nova York convocados pela ONU para discutirem a crise econômico-financeira e seus impactos sobre os diferentes países, especialmente sobre os pobres. Para prepará-la, o Presidente da Assembleia Miguel D’Escoto Brockmann, ex-chanceler da Nicarágua, criou uma Comissão para a Reforma do Sistema Financeiro e Monetário Internacional constituída por 20 celebridades da economia e da política sob a coordenação do prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz.

Os resultados já foram entregues e sabe-se mais ou menos os conteúdos principais. Como marco teórico, ético e humanístico que deve inspirar as novas medidas concretas, é sugerida uma Declaração Universal do Bem Comum da Humanidade e da Terra, tarefa difícil de ser realizada por falta de tradição jurídica e social nesta área. Em seguida, se recomenda a criação de um Conselho Mundial de Coordenação Econômica, paralelo ao Conselho de Segurança, desdobrado em duas autoridades mundiais, uma que cuida da regulação financeira e a outra da concorrência na economia. Sugere-se uma reforma das instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial) e uma regionalização das instituições financeiras que apóiam os processos de desenvolvimento. Pede-se ainda que, uma vez ao ano, os chefes de estado ou de governo de todo o mundo se encontrem para discutir o estado da Terra e da Humanidade e tomar medidas coletivas.

O grande temor é que esta reunião mundial seja esvaziada pelas pressões dos principais membros do G-20, enviando apenas representantes diplomáticos ou ministros. Por detrás destas pressões estão duas maneiras diferentes de enfrentar a crise atual.

Uma é a do G-20 que se reuniu em Londres em abril. Fundamentalmente se propõe salvar o sistema econômico-financeiro imperante para que, no fundo, tudo funcione como antes, com certos controles mas com níveis razoáveis de crescimento, mesmo sacrificando o equilíbrio da Terra e perpetuando o escandaloso fosso entre ricos e pobres. O propósito é o mesmo: como ganhar mais com o mínimo de investimento, competindo no mercado e considerando o estresse da natureza e a pobreza como externalidades.

A outra é dos grupos altermundistas, presentes em todos os estratos sociais do mundo e, em parte, assumida pela Comissão da ONU. Trata-se de situar a crise econômica no conjunto das demais crises: a energética, a alimentária, a do aquecimento global, a da insustentabilidade do planeta (passamos em 40% a capacidade de reposição dos recursos naturais) e a social e humanitária (quase um bilhão de pessoas abaixo da linha da pobreza). Mais que salvar o sistema trata-se de salvar a humanidade, a vida ameaçada e o planeta em estado caótico. O propósito é como garantir o bem viver em harmonia com os outros e com a natureza, produzindo conforme os seus ciclos, com equidade social e com solidariedade generacional.

Sendo o problema global, as soluções devem ser também globais. O único órgão glabal que existe é a ONU e é ela que deveria coordenar os esforços coletivos de enfrentamento da crise e não o G-20. Este não possui delegação para representar os demais 172 países, vítimas da crise global, cujas vozes não são escutadas.

As crises não surgem em vão. Elas emergem daquela Energia de fundo, carregada de propósito, que comanda o universo, a Terra e cada um de nós e que está exigindo um novo patamar de civilização, capaz de desenhar um outro futuro de esperança. Face a esta gravíssima situação notam-se duas limitações: a primeira, é dos economistas que, por ofício, tratam de economia mas possuem parca acumulação em ecologia; por isso, como se vê em todas as partes, não incluem a natureza em suas ponderações como se a Terra fosse inesgotável e estivesse em ordem, como não está. A segunda é dos chefes de estado: depois de séculos de racionalismo e de materialismo ficaram todos embotados. Não percebem as mensagens que o universo e a Terra, como superorganismo vivo, lhes estão enviando no sentido de uma transformação. Por sua falta de escuta, acontece o que dizia Gramcsi: "o velho resiste em morrer e o novo não consegue nascer". E assim perdemos a chance, das últimas, para um novo começo. E nos atolamos em nossas próprias crises.

[Autor de Ecologia, Mundialização e Espiritualidade, Record 2009].

(*) Nota de Adital:
Conferência das Nações Unidas acerca da Crise Econômica e Financeira e seus Efeitos sobre o Desenvolvimento foi transferida para o período de 24 a 26 de junho de 2009, em Nova York.

CADA UM PARA A SUA BURGUESIA.

Estamos então no melhor dos mundos, e todos europeus: o BCE reagiu bem, o euro protegeu-nos e a Europa falou a uma só voz no G-20. Na realidade, a crise põe em evidência o processo de fraccionamento que Jacques Sapir designa, com razão, por "eurodivergência". Desde Maastricht que a distância entre países se aprofunda. Por um lado, temos os ganhadores (Espanha, Finlândia, Grécia, Irlanda, Luxemburgo, Reino Unido e Suécia) que constituem um terço da economia europeia e cuja taxa de crescimento entre 1992 e 2006 se aproxima da dos EUA; por outro lado, temos os perdedores (Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Itália, Países Baixos e Portugal) cujo crescimento foi substancialmente inferior à média europeia.

Artigo de Michel Husson

A crise agrava este fenómeno: todos os países europeus foram atingidos mas não da mesma forma. A Espanha cuja economia tinha sido arrastada pelo crescente sector imobiliário retrocede brutalmente e a sua taxa de desemprego dispara. O Reino Unido paga agora a sua dependência das finanças e a sua moeda afunda-se. A Alemanha, que tinha dado prioridade absoluta às exportações, sofre do enorme retrocesso do mercado mundial. O modelo irlandês, fundado na mudança internacional, foi derrotado. A França ocupa, como de costume, uma posição média que se explica por ter uma menor exposição aos riscos dos sistemas financeiros e de imobiliário e, paradoxalmente, pelos seus modestos resultados na exportação.

O euro evitou efectivamente que uma especulação sobre as moedas venha a redobrar os efeitos da crise. É por esta razão que uma saída do euro é pouco provável. Assim, a Espanha beneficiou do euro permitindo-se um défice de 6 a 7% do PIB (tanto como os EUA) que não teria conseguido aguentar com a peseta pois teria sido atacada desde logo. Sair do euro para poder desvalorizar a moeda seria um remédio pior que o mal. Por razões simétricas, compreende-se que os novos Estados-Membros queiram acelerar a sua entrada no euro.

Contudo, esta vantagem do euro paga-se muito cara. O BCE não se interessa por mais nada a não ser a inflação e tanto pior se a subida do euro pesa sobre as exportações pois permite reduzir o preço das importações. Não existe, portanto, uma política cambial a nível europeu. Mas os diferentes países são desigualmente sensíveis à taxa de câmbio do euro: a Alemanha é-o muito pouco, muito menos do que a França. Seria preciso que o dólar descesse ainda mais para se esboçar uma posição comum.

Com a crise, os princípios fundadores da Europa neoliberal rebentaram, começando pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento. A independência do BCE foi, de facto, posta em causa pela pressão de baixar (aos tropeções) as taxas de juro; a Comissão, e também o Parlamento, foram postos fora de jogo e as regras da concorrência foram esquecidas perante a urgência dos diversos planos de emergência.

A crise demonstrou também até que ponto as instituições europeias actuais eram inadequadas. Mas, ainda mais, vem sublinhar o fracasso de um modo de construção que se tinha baseado sempre na recusa em dotar-se de ferramentas como uma política cambial adequada ou, também, um verdadeiro governo económico. Não haverá, tão pouco, financiamento repartido dos défices públicos ou programas de investimento, posto que o BCE foi constitucionalmente privado da possibilidade de emitir empréstimos ou de comprar obrigações do tesouro, como a FED começou a fazer nos EUA. A Hungria, com efeito membro da União, teve de recorrer ao FMI que lhe impôs condições dignas da sua melhor época: supressão de pensões para os reformados e congelamento de salários da função pública.

Os dirigentes europeus tencionam salvaguardar as aparências mas os seus interesses divergem face à crise. As retomas são sub avaliadas e não comportam nenhum plano global de investimentos públicos, nenhum aumento salarial ou redução concertada do tempo de trabalho. Os peritos preparam o golpe posterior, por outras palavras, o ajuste sobre as despesas sociais. O que está em jogo nas próximas eleições é então considerável: trata-se nada mais nada menos que refundar um projecto de Europa solidária, baseada no princípio de harmonização e não de concorrência. Perante o colapso, está lançada a corrida com as variantes nacionalistas e autoritárias do neoliberalismo.

Publicado em Regards, Maio de 2009, http://hussonet.free.fr/eurogar.pdf/Esquerda.net

CRISE ECONÔMICA - Reagan conseguiu.

Paul Krugman
Do The New York Times

"Esta é a legislação mais importante para as instituições financeiras dos últimos 50 anos. Ela oferece uma solução de longo prazo para as instituições de empréstimos com problemas... De certa forma, acho que acertamos em cheio".

Foi o que declarou Ronald Reagan em 1982, quando assinou o decreto-lei Garn-St. Germain para Instituições Depositárias.

Ele estava, como ficou claro, equivocado na sua solução dos problemas das instituições de empréstimos. Bem ao contrário, a lei transformou os problemas então modestos daquelas instituições financeiras em uma verdadeira catástrofe. Mas ele estava certo no que diz respeito ao impacto daquela lei. O que se acertou em cheio, no entanto, foi a pior crise econômica desde a Grande Depressão, 25 anos mais tarde.

Quanto mais procuramos as origens deste desastre econômico atual, mais claro fica que o equívoco que tornou esta crise inevitável aconteceu no início da década de 1980, durante a era Reagan.

Os ataques à economia Reagan normalmente focam na disparidade crescente e na irresponsabilidade fiscal. Sem dúvidas, Reagan chegou numa era em que uma pequena minoria ficou muito rica, enquanto famílias nas classes trabalhadoras passavam por dificuldades. Ele também quebrou as regras estabelecidas de prudência fiscal.

Sobre isso: Tradicionalmente, o governo dos Estados Unidos apenas chegou a déficits significativos de orçamento em tempos de guerra e emergência econômica. A dívida federal como porcentagem do PIB caiu vertiginosamente desde o final da Segunda Guerra Mundial até os anos 1980. Mas o endividamento começou a crescer novamente na era Reagan; caiu novamente no governo Clinton, mas voltou a se elevar na administração Bush, o que nos deixou despreparados para enfrentar uma emergência como essa que nos assola.

O aumento da dívida pública, no entanto, controlado pelo aumento das dívidas privadas, só foi possível através da desregulamentação financeira. A mudança das regras que regulam o sistema financeiro norte-americano é o maior legado de Reagan. É o verdadeiro presente de grego.

O efeito imediato da lei Garn-St. Germain, como eu disse, foi a transformação de um problema em catástrofe. A crise das instituições de empréstimos foi apagada do currículo de Reagan, mas o fato é que a desregulamentação acabou dando à indústria - cujos depósitos eram assegurados pelo governo - uma licença para apostar com o dinheiro do contribuinte, na melhor das hipóteses, ou simplesmente tomá-lo descaradamente, na pior delas. Quando o governo terminou de fazer as contas, o contribuinte já tinha perdido 130 bilhões de dólares, numa época em que isso era uma quantia assombrosa.

Mas houve também um efeito de longo prazo. As mudanças legislativas da era Reagan basicamente terminaram com as restrições do chamado New Deal aos empréstimos para hipotecas - restrições essas que, em especial, impediam que famílias comprassem imóveis sem uma entrada substancial em dinheiro.

Essas restrições foram estabelecidas na década de 1930 por líderes políticos que haviam acabado de testemunhar uma crise financeira terrível e tentavam prevenir outra. Mas em 1980 a lembrança da Depressão já havia se diluído. O governo, declarava Reagan, é o problema e não a solução; a magia do mercado deve ser libertada. As medidas de prevenção foram eliminadas. Juntamente com as normas fracassadas de empréstimos para outros tipos de crédito ao consumidor, tudo levou a uma mudança radical no comportamento dos Estados Unidos.

Nem sempre fomos uma nação de dívidas enormes e pouca poupança: nos anos 1970, os norte-americanos guardavam quase 10 por cento de sua renda, um pouco mais do que na década anterior. Foi só depois da desregulamentação Reagan que a instituição de empréstimos desapareceu gradualmente do modo de vida americano, culminando no nível quase zerado de poupança a que chegamos na entrada da grande crise. A dívida privada era de apenas 60 por cento da renda quando Reagan assumiu, praticamente o mesmo nível da administração Kennedy. Em 2007 este número chegou a 119 por cento.

Tudo isso, achávamos, era uma coisa boa: claro, os americanos estavam acumulando dívidas e não guardavam um centavo do seu salário, mas sua economia parecia estar bem, se observássemos os valores galopantes de suas propriedades e do seu portfólio de ações. Oops.

Agora, as causas aproximadas da crise econômica atual são atribuídas a eventos que ocorreram muito depois de Reagan deixar o cargo - no acúmulo global de poupança criado pelo superávit da China e de outros países, e na bolha imobiliária gigante que aquele acúmulo de poupança ajudou a criar.

Mas foi a explosão das dívidas nos últimos 25 anos que tornaram a economia dos Estados Unidos tão vulnerável. Os mutuários pressionados iriam tornar-se inadimplentes em massa quando a bolha imobiliária estourasse e o desemprego começasse a subir.

Essa inadimplência causaria o caos do sistema financeiro que - muito graças à desregulamentação da era Reagan - assumiu riscos demais com pouco capital.

Há muitos a quem culpar ultimamente. Mas os maiores vilões por trás desta confusão foram Reagan e seus assessores - homens que esqueceram as lições aprendidas na Grande Depressão e nos condenaram a repeti-la agora.


Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

TORTURA EM TRANSE.

Não punir torturadores é usar o esquecimento como princípio organizador da ação jurídico-política. É tomar o torturado como um corpo sobre o qual se pode agir perpetuamente, já que simbolicamente continua detido.

Gilson Caroni Filho

Há pouco tempo, Eric Hobsbawm, em entrevista publicada no jornal argentino Página 12, disse que o presidente Lula "é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil", pois "lá existem muitos pobres e ninguém jamais fez tanta coisa por eles". Análise precisa ou arroubo produzido por afinidade ideológica? Nem uma coisa, nem outra. A história em movimento não comporta conclusões apressadas. Os avanços são inegáveis, mas ainda temos um bom pedaço de chão pela frente.
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Se o que queremos é consolidar a democracia política como valor permanente, como conjunto de relações sociais a ser permanentemente aperfeiçoado até a afirmação plena da cidadania, um enfrentamento, sempre protelado se faz necessário: julgar e processar os violadores dos direitos humanos durante o regime militar.
Como a história é entendida a partir de recortes da memória, os embates travados, em 2008, entre a Advocacia-Geral da União (AGU), que produziu parecer favorável a torturadores, e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, que considera o crime de tortura imprescritível, deixam evidente que, ao contrário de países vizinhos, ainda não há no governo brasileiro uma leitura atualizada da Lei da Anistia, sancionada em plena ditadura.
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Falta, como destaca Glenda Mezarobba, professora da Unicamp, "uma interpretação sob a ótica dos direitos humanos e do direito internacional que afirma que não há anistia para crimes como a tortura".
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Afirmar que o expediente legal dos militares "propicia um clima de reconciliação e paz nacional" é desconhecer seus objetivos de origem: impedir que a sociedade tivesse direito à verdade, com a revelação dos crimes cometidos e suas circunstâncias, e evitar a punição dos responsáveis por atos repressivos e ilegais. Ademais, é sempre bom lembrar que a versão original da Lei 6.883 já foi bem alterada, o que não autoriza ações procrastinadoras ou leituras canhestras tão ao gosto do presidente do STF.
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Não punir torturadores é usar o esquecimento como princípio organizador da ação jurídico-política. É tomar o torturado como um corpo sobre o qual se pode agir perpetuamente, já que simbolicamente continua detido. Sob o manto da impunidade dos seus algozes, permanece suspenso em um pau de arara, enevoado pela cortina de uma ideologia autoritária que impossibilita a plenitude democrática. Não lhe é negada apenas a restituição da dignidade, mas a história do seu tempo, aquilo que dá sentido à vida e às lutas nela travadas. É chaga que não fecha. Personifica, perigosamente, o princípio da impunidade para o torturador que, pela sua natureza e magnitude, agravou a consciência ética da humanidade.
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A ditadura nasceu e se afirmou como contrarrevolução. Expressou, como definiu Otávio Ianni, a reação de um novo bloco de poder às reivindicações, lutas e conquistas de operários, camponeses e militares de baixa patente. "Em geral, os golpistas estavam combatendo propostas e realizações de movimentos e governos reformistas". Para tanto, o poder estatal alargou sua ação por todos os círculos da vida nacional, anulando o espaço do privado. O terror e a barbárie espalharam-se pelo tecido da sociedade civil até os mais distantes recantos e poros. Esgotado seu ciclo, por não ter sido enfrentado pelo Estado democrático, sobre ele paira como espectro.
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Como noticiou o Jornal do Brasil, "no salão nobre do Clube Militar, generais, brigadeiros e almirantes comemoram o aniversário da chamada por eles Revolução Democrática de 31 de março de 1964". O general Gilberto Figueiredo disse que via as manifestações de protesto dos estudantes "como direito de se manifestar e de interpretarem como querem, é o direito à liberdade".
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É uma observação incompleta. Como afirmou Herbert Marcuse, "esquecer é também perdoar o que não seria perdoado se a justiça e a liberdade prevalecessem. Esse perdão reproduz as condições que reproduzem injustiça e escravidão: esquecer o sofrimento passado é perdoar as forças que o causaram – sem derrotar essas forças".
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Até quando o general festejará as luzes que permanecem acesas nos porões?
Fonte:O Velho Comunista.

ESQUERDA TOMA POSSE EM EL SALVADOR.

Funes e a Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional conseguiram quebrar o forte aparato governamental e a sistemática campanha anticomunista, depois de várias tentativas e abrem um período novo na história do país.

Por Emir Sader, no Blog do Emir

As solenidades, a que assistirão 17 mandatários, se faz com o nome: Um encontro com a história, para marcar o momento histórico que vive o país. Grande quantidade de gente do povo passou o domingo inteiro concentrados nos principais eixos da cidade, recepcionando com as bandeiras vermelhas da FMLN as delegações estrangeiras.

De manhã (nesta segunda-feira, 01), Funes tomará posse formal e, à tarde, a FMLN faz grande comício e festa popular no estádio de futebol da cidade, com capacidade normal de 45 mil pessoas, mais os espaços do gramado, que serão ocupados pelas delegações convidadas.

O governo foi formado com participação do FMLN em postos essenciais - entre eles o Ministério de Governação, um espécie de ministério da Justiça, o de Educação, ocupado por Salvador Sanchez, o ex-comandante Leonel, eleito vice-presidente, assim como dois ex-prefeitos de São Salvador e o importante Ministério da Defesa.

Funes terá minoria no Parlamento, onde a oposição reelegeu o presidente da Câmara, mas poderá contar com imenso apoio popular para desbloquear temas importantes. Por agora o Congresso já aprovou o projeto de lei de estabelecimento da gratuidade no ensino, que não existia anteriormente.

Com o governo da FMLN se alastra um clima de diversidade ideológica e política na América Central, à qual se somam os governos de Honduras e da Nicarágua, ambos aderidos à Alba, situação que a região nunca tinha conhecido. Aguardam-se os discursos da manhã e da tarde de Funes, para saber que tom dará a seu governo.

Por ser o menor pais do continente, El Salvador é chamado de pequeno polegar. Foi, durante muito tempo, a economia mais dinâmica da região, uma das poucas - junto com Costa Rica - que tinha conseguido um certo nível de desenvolvimento industrial, mesmo se seu comércio exterior - como o de todos os países centroamericanos - se centra na exportação de produtos primários, em geral agrícolas, de pouco valor no mercado internacional, uma das principais razões do atraso relativo desses paises no conjunto da América Latina.

A passagem ao ciclo longo recessivo da economia internacional afetou duramente a El Salvador e a toda a América Central, contraindo suas exportações e fazendo mergulhar a região na sua pior crise econômica e social, comparável àquela dos anos 30.

Nessa década surgiram os dois mais importantes lideres populares da Ameríca Central - Sandino, na Nicaragua, e Farabundo Marti, em El Salvador, ambos liderando setores camponeses e lutando contra as reiteradas intervenções militares norte-americanas. A luta dos sandinistas foi retomada nos anos 50 e desembocou, em 1979, na vitoria da insurreição que derrubou a longa ditadura dos Somoza.

O triunfo teve conseqüências imediatas nos países vizinhos. A Guatemela, que havia tido um ciclo de guerrilhas rurais nos anos 60, retomou com força essa luta, assentada dessa vez na unificação das várias frentes guerrilheiras, à que se somou o Partido Comunista.

El Salvador tinha alguns grupos clandestinos e o PC, mas foi com a vitória sandinista que se iniciou a luta armada, igualmente unificando os núcleos que se organizavam separadamente para a luta armada, à que também se somou o PC.
Fonte:Site O Vermelho

CUBA - Jornalistas cubanos lançam plataforma de blogs alternativos.

Os jornalistas cubanos comprometidos com a revolução puseram em marcha uma plataforma cubana para hospedar seus blogs. Segundo eles, a iniciativa pode ser vista como uma “íntima trincheira virtual dessa ciber-batalha ideológica” que acontece em Cuba.

“Com a crise da mídia impressa, a interatividade que propicia a célebre Web 2.0 é, hoje em dia, o principal cenário de debate ideológico global. Todos sabem que na internet se trava uma grande disputa de critérios”, afirma Charly Morales, no portal Cubahora,

"Para combater em igualdade de condições — ou pelo menos reduzir a desvantagem —, era urgente que os bloggers cubanos pudessem se defender ‘de dentro’, tirando assim a dependência de plataformas estrangeiras, auspiciadas por sabe Deus quem”, agrega Morales.

O chamado Blogs Periodistas Cubanos (BPC) é gestado no Centro de Informação para a Imprensa (CIP) — cuja equipe especial de programadores esteve trabalhando no projeto durante dois meses. Segundo suas palavras de apresentação, o portal tenta ser uma alternativa contra toda a informação tergiversada ou errônea sobre Cuba — uma guerra particularmente constante na blogosfera.

Na concepção estrutural do BPC, foi crucial a experiência da Rede de Blogueros y Corresponsales de la Revolución , criada pela jornalista Norelys Morales. Mais adiante, se somaria Manuel Henrique Lagarde, convertendo-se, ambos, em pioneiros de uma empresa voluntária que pretende envolver a todos os jornalistas de Cuba.

Com um esboço sóbrio, o BPC inclui uma ciber-campanha pela liberação dos Cinco Heróis e um “nuvem de tags” sobre seus principais campos temáticos. Os programadores estimam que o projeto passará primeiro por um período de testes de 15 dias on-line, para avaliar seu comportamento e realizar os ajustes necessários.

Da Redação, com informações do Rebelión/Site O Vermelho.

BOLÍVIA - A história de um país que quer existir.

Eduardo Galeano

A tragédia se repete, girando como um peão: há cinco séculos, a fabulosa riqueza da Bolívia amaldiçoa os bolivianos, que são os pobres mais pobres da América do Sul. “A Bolívia não existe”: não existe para seus filhos. A análise é do escritor uruguaio Eduardo Galeano.
Uma imensa explosão de gás: esse foi o desfecho popular que sacudiu toda a Bolívia e culminou com a renúncia do presidente Sánchez de Lozada, que fugiu deixando atrás de si um rastro de mortos.

O gás iria ser enviado para a Califórnia, a preço ruim e a troco de mesquinhas regalias, através de terras chilenas que em outros tempos haviam sido bolivianas. A saída do gás por um porto do Chile colocou sal na ferida, em um país que há mais de um século vem exigindo, em vão, a recuperação do caminho para o mar que perdeu em 1883, na guerra vencida pelo Chile.

A rota do gás, no entanto, não foi o motivo mais importante da fúria que ardeu por todas as partes. Outra fonte essencial foi a indignação popular, que o governo respondeu a balas, como de costume, regando de mortos ruas e caminhos. As pessoas se indignaram porque se negaram a aceitar que ocorra com o gás o que antes ocorreu com a prata, o salitre, o estanho e todo o resto.

A memória dói, mas ensina: os recursos naturais não renováveis se vão sem dizer adeus, e jamais regressam...

Por volta de 1870, um diplomata inglês sofreu, na Bolívia, um desagradável incidente. O ditador Mariano Melgarejo lhe ofereceu uma taça de chicha, uma bebida nacional feita de raiz fermentada; o diplomata agradeceu, mas disse que preferia chocolate. Melgarejo, com sua habitual delicadeza, obrigou-o a beber uma enorme tigela quente de chocolate e depois o fez passear em um burro, montado ao contrário, pelas ruas de La Paz. Quando a rainha Victória, em Londres, tomou conhecimento do assunto, mandou trazer um mapa, colocou uma cruz de tinta sobre o país e sentenciou: “A Bolívia não existe!”.

Várias vezes ouvi esta história. Ocorreu assim? Pode ser que sim, pode ser que não.

Mas a frase, atribuída à arrogância imperial, se pode ler também como uma involuntária síntese da atormentada história do povo boliviano. A tragédia se repete, girando como um peão: há cinco séculos, a fabulosa riqueza da Bolívia amaldiçoa os bolivianos, que são os pobres mais pobres da América do Sul. “A Bolívia não existe”: não existe para seus filhos.

Na época colônia, a prata de Potosi foi, durante mais de dois séculos, o principal alimento do desenvolvimento capitalista da Europa. “Vale um Potosi” se dizia para elogiar algo que não tinha preço.

Em meados do século 16, a cidade mais populosa, mais cara e mais decadente do mundo brotou e cresceu aos pés da montanha da qual provinha a prata. Essa montanha, a chamada Cerro Rico, tragava os índios.

“Estavam os caminhos cobertos, que parecia que se mudava o reino” escreveu um rico mineiro de Potosi: as comunidades se esvaziavam de homens, que de todas as partes marchavam, prisioneiros, rumo à boca que conduzia às escavações. Do lado de fora, temperatura de inverno. Dentro, o inferno. De cada dez homens que entravam, somente três saíam vivos. Mas os condenados à mina, que pouco duravam, geravam a fortuna dos banqueiros flamencos, genoveses e alemães, credores da coroa espanhola, e eram esses índios que possibilitaram a acumulação de capitais que converteu a Europa no que a Europa é.

O que obteve a Bolívia com tudo isso? Uma montanha oca, uma incontável quantidade de índios assassinados pelo cansaço, e uns tantos palácios habitados por fantasmas.

No século 19, quando a Bolívia foi derrotada na chamada Guerra do Pacífico, não só perdeu sua saída para o mar e ficou encurralada no coração da América do Sul. Perdeu, também, seu salitre.

A história oficial, que é a história militar, conta que o Chile ganhou essa guerra. Mas a história real comprova que o vencedor foi o empresário britânico John Thomas North. Sem disparar um tiro ou gastar um centavo, North conquistou territórios que haviam sido da Bolívia e do Peru e se converteu no rei do salitre, que era à época o fertilizante imprescindível para alimentar as cansadas terras da Europa.

No século 20, a Bolívia foi o principal abastecedor de estanho do mercado internacional.

As latas de sopa, que deram fama a Andy Warhol, provinham das minas que produziam estanho e viúvas. Nas profundidades das escavações, o implacável pó de silício matava por asfixia. Os operários apodreciam seus pulmões para que o mundo pudesse consumir estanho barato.

Durante a segunda Guerra Mundial, a Bolívia contribuiu para a causa aliada vendendo seu mineral a um preço dez vezes mais baixo do que o baixo preço de sempre. Os salários dos operários se reduziram a nada, houve greve, as metralhadoras cuspiram fogo. Simon Patiño, dono do negócio e senhor do país, não teve que pagar indenizações porque a matança por metralhadas não é acidente de trabalho.

À época, o senhor Simon pagava 50 dólares de imposto de renda, mas pagava muito mais para o presidente da nação e a todo seu gabinete. Ele havia sido um morto de fome tocado pela varinha mágica da fortuna. Suas netas e netos ingressaram na nobreza européia; casaram-se com condes, marqueses e parentes de reis.

Quando a revolução de 1952 destronou Patiño e nacionalizou o estanho, restava pouco mineral, não mais que restos de meio século de desaforada exploração a serviço do mercado mundial.

Há mais de 100 anos, o historiador Gabriel René Moreno descobriu que o povo boliviano era “cerebralmente incapaz”. Ele havia posto na balança um cérebro indígena e outro mestiço e havia comprovado que pesavam entre cinco e dez onças a menos que o cérebro da raça branca.

Com o passar do tempo, o país que não existe segue enfermo de racismo. Mas o país que quer existir, onde a maioria indígena não tem vergonha de ser o que é, não culpa o espelho.

Essa Bolívia, farta de viver em função do progresso alheio, é o país de verdade. Sua história, ignorada, abunda em derrotas e traições, mas também em milagres dos quais são capazes de fazer os desapreciados, quando deixam de desapreciar a si mesmos e quando deixam de brigar entre si.

No ano 2000 ocorreu um caso único no mundo: uma população desprivatizou a água. A chamada “guerra da água” ocorreu em Cochabamba. Os camponeses marcharam desde os vales e bloquearam a cidade. A população apoiou. Foram atacados com balas e gases, o governo decretou estado de sítio. No entanto, a rebelião coletiva continuou, sem recuar, até que na investida final a água foi arrancada das mãos da empresa Bechtel. (A empresa, com sede na Califórnia, recebe agora um consolo do presidente Bush, que a premia com contratos milionários no Iraque.).

Faz alguns meses, outra explosão popular em toda Bolívia venceu nada menos que o Fundo Monetário Internacional. No entanto, o FMI vendeu caro sua derrota, cobrou mais de 30 vidas assassinadas pelas chamadas forças da ordem, mas o povo cumpriu sua façanha. O governo não teve outro remédio a não ser anular o imposto aos salários, que o FMI havia mandado aplicar.

Agora, é a guerra do gás. A Bolívia dispõe de enormes reservas de gás natural. Sanches de Lozada havia chamado de “capitalização” à sua privatização mal dissimulada, mas o país que quer existir acaba de demonstrar que não tem memória fraca. Outra vez a velha história de riqueza que se evapora em mãos alheias? “O gás é nosso direito” proclamam os panfletos e as manifestações. O povo exigia e seguirá exigindo, uma vez mais, que o gás seja posto a serviço da Bolívia, em lugar de a Bolívia se submeter, novamente, à ditadura de seu subsolo. O direito à autodeterminação, que tanto se invoca e tão pouco se respeita, começa por aí.

A desobediência popular fez a corporação Pacific LNG, integrada pela Repsol, British Gás e Panamericana Gas (que se supõe ser sócia da empresa Enron, famosa por seus virtuosos costumes) perder um valioso negócio. Tudo indica que a corporação viera com intenção de ganhar US$ 10 para cada dólar investido.

Por sua parte, o fugitivo Sánchez de Lozada perdeu a presidência. Seguramente, não perdeu o sono. Sobre sua consciência pesa o crime de mais de 80 manifestantes, mas essa não foi sua primeira carnificina e este porta-voz da modernização não se atormenta por nada que não seja rentável. Afinal, ele pensa e fala em inglês, mas não é o inglês de Shakespeare: é o de Bush.__________________

O artigo "El país que quiere existir", de Eduardo Galeano, foi publicado originalmente nos jornais Pagina 12 (Argentina), El Mundo (Espanha), e Bolpress (Bolivia).

EUA NÃO TEMEM MAIS A ESQUERDA LATINO-AMERICANA.

Bruno Garcez

Da BBC Brasil em Washington

Maurício Funes pertence ao antigo grupo guerrilheiro FMLN, hoje partido
O Estados Unidos não veem mais com com desconfiança a chamada maré rosada que vem conduzindo governantes de esquerda ao poder em diferentes países da América Latina. Essa é a opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil em Washington.

A bola da vez é El Salvador, onde toma posse nesta segunda-feira Maurício Funes, um jornalista pertencente ao ex-grupo guerrilheiro Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), que se converteu em partido político.

''Os Estados Unidos veem com mais preocupação a instabilidade gerada por um retorno ao autoritarismo do que a maré rosada'', opina Riordan Roett, diretor do programa das Américas da Universidade Johns Hopkins.

O governo americano estará, inclusive, representado na posse de Funes, na próxima segunda-feira, pela secretária de Estado, Hillary Clinton. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um dos líderes internacionais que comparecerão à posse.

Nos anos 80, durante a gestão do presidente Ronald Reagan, Washington financiou o governo de direita de El Salvador e organizações paramilitares que combatiam representantes da guerrilha que atualmente integram o governo salvadorenho.

''O consenso em Washington é que a eleição de Maurício Funes é parte de um processo político longo e complicado, mas democrático. A FMLN, após anos sendo derrotada como uma força guerrilheira, se transferiu para o ambiente urbano, tornando-se o segundo partido do país. A Arena (partido governista, de direita, que governou até a posse de Funes) nem sempre foi uma organização democrática. Mas temos duas agremiações, uma de esquerda, uma de direita, que se moveram para o centro'', afirma Roett.

Distinções

O analista acredita que os Estados Unidos percebem as diferentes matizes ideológicas entre os governantes de esquerda da região.

''Se tivéssemos uma tendência de ver governos como os do Brasil e Chile adotando estratégias similares aos da Venezuela, de Hugo Chávez, e da Nicarágua, de Daniel Ortega, isso seria motivo de preocupação. Mas a tendência esquerdista, populista e anti-Washington, da Venezuela, só foi adotada por enquanto em três ou quatro países, todos eles são nações pequenas'', afirma.

Moisés Naím, editor-chefe da revista Foreign Policy e ex-ministro do Comércio na Venezuela na década de 90, afirma que a crise econômica levou, inclusive, a um paradoxo no qual governos de esquerda incorporaram práticas neo-liberais e os Estados Unidos é que passaram a seguir modelos normalmente identificados com a esquerda.

''Atualmente, o presidente Lula adota políticas econômicas que estão mais à direita do que as que estão sendo seguidas pelo presidente Barack Obama'', afirma.

Naím julga até que é difícil dizer que exista uma tendência rumo à esquerda na América Latina.

''Cada país tem circunstâncias distintas. Ao lado de El Salvador temos o Panamá, onde a vitória foi da direita. A vitória do presidente Funes se deu após o partido direitista Arena ter permanecido no poder por décadas. Os eleitores buscavam mudanças, e Funes oferecia estas mudanças'', diz Naím.

Eixo Lula x Eixo Chávez

Para o analista, o novo líder de El Salvador é seguidor do que ele chama de um ''eixo de Lula'', que se contrapõe ''ao eixo de Chávez''.

Os países ligados ao Brasil, opina Naím, ''estão aliados a um dos mais importantes líderes mundiais, que agora conta com um lugar na mesa em todas as principais rodadas de negociações, em temas como meio ambiente, comércio ou energia''.

O eixo chavista, como escreveu o editor em um recente artigo ao jornal espanhol El País seria marcado por uma ''aliança anti-ianque'' e pela adoção de políticas ligadas ao chamado socialismo do século 21, do presidente Hugo Chávez.

Naím identifica esse eixo como liderado pela Venezuela e seguido por Bolívia, Equador e Nicarágua. Segundo ele, Paraguai e Honduras também integram essa aliança, mas contam com movimentos internos de oposição que impedem uma adesão mais profunda.

''A ascenção da esquerda nestes países certamente contou com forte auxílio do presidente Chávez'', afirma o analista, mas ele acrescenta que muitos dos fatores que permitiram ao venezuelano criar a sua ''aliança bolivariana'' não estão mais presentes.

''O presidente Chávez tinha como mentor Fidel Castro, que não está mais atuante, o petróleo não está mais a US$ 100 por barril, logo, ele não pode mais sair por aí distribuindo dinheiro, e com a ausência de um presidente dos Estados Unidos profundamente impopular, e com Barack Obama em alta na América Latina, não é mais tão fácil receber aplausos ao se criticar os Estados Unidos'', comenta.

Naím afirma que o governo de Maurício Funes procurou se espelhar em Lula, não em Chávez. ''Mas seu partido conta com uma facção expressiva alinhada com Hugo Chávez, que, por sinal, teve papel importante em obter financiamento para sua campanha. Mas Funes conta com apoio suficiente para se mover na direção de Lula e não na de Chávez''.