quinta-feira, 4 de agosto de 2011

POLÍTICA - Tucanos querem apoio da Força Sindical.

Tucanos tentam conquistar apoio da Força Sindical para 2012 e 2014

Rompida com a CUT (Central Única dos Trabalhadores), entidade deflagra movimento de aproximação como PSDB em São Paulo e Minas Gerais, onde vários dirigentes devem se filiar ao partido no próximo dia20


A passeata realizada ontem jogou luz sobre um movimento que está ocorrendo nos bastidores do movimento sindical brasileiro. De olho nas eleições de 2012 e especialmente de 2014, partidos de oposição ao Governo Federal deflagraram uma ofensiva para se aproximar dos sindicatos. Além de uma presença cada vez maior e mais organizada nos fóruns das entidades, os tucanos estão abrindo espaços em suas máquinas e agendas públicas para os sindicalistas.


No ato de ontem, por exemplo, o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira, fez dois agradecimentos públicos ao governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) e ao prefeito Gilberto Kassab (sem partido). A aproximação entre Paulinho e Alckmin vêm se estreitando desde o começo do ano. Nas festividades de aniversário da Força Sindical, o governador foi um dos principais oradores.


Em Minas Gerais, base do senador Aécio Neves, que se articula para disputar à presidência em 2014, a Força deve anunciar no próximo dia 20 um ato de filiação em massa de dirigentes sindicais de diversas siglas, como PV, PDT e PSB, ao PSDB. A expectativa é que o evento conte com a participação do governador mineiro Antonio Anastasia (PSDB) e do senador Aécio Neves (PSDB-MG).


"Existe um movimento forte do governador Geraldo Alckmin e do senador Aécio Neves para a trazer a Força Sindical para o lado deles", pontua o cientista político mineiro Rudá Ricci, que foi assessor nacional da CUT.


"Esse movimento faz parte da estratégia do PSDB de rachar a base social não lulista", completa.


Ele explica que atualmente o poder de influência da Força é maior entre as entidades do setor privado, enquanto a CUT (Central Única dos Trabalhadores) e partidos de matrizes radicais, como o PSTU e Psol, são mais fortes entre as entidades do setor público. "O que está em jogo é a hegemonia do movimento sindical brasileiro, que é um nicho bilionário", conclui o cientista social.

"O que está em jogo é a hegemonia do movimento sindical brasileiro. Existe um movimento forte do Aécio Neves e do Geraldo Alckmin para atrair a Força" - Rudá Ricci Sociólogo e ex-assessor da CUT
Do Blog "Os Amigos do Presidente Lula".

POLÍTICA - Dilma e os sindicalistas.

As desculpas de Dilma aos sindicalistas.

Enviado por luisnassif, qui, 04/08/2011 - 15:10

De O Globo

Dilma aparece de surpresa em reunião para pedir desculpas a sindicalistas por não ter negociado a política industrial

Chico de Gois

BRASÍLIA - Depois de ter anunciado o plano de industrialização, chamado Brasil Maior, na terça-feira, enfrentando a resistência das centrais sindicais, que se recusaram a participar da cerimônia por se sentirem preteridos na discussão do projeto, a presidente Dilma Rousseff apareceu de surpresa, nesta quinta-feira, numa reunião das centrais na Secretaria Geral da Presidência e desculpou-se pela atitude do governo, segundo disseram os sindicalistas em entrevista coletiva. Ela fez um mea-culpa pelo que considerou um erro. As centrais aceitaram o pedido de desculpas, mas querem que o governo coloque em prática a sugestão apresentada por elas, de manter câmaras setoriais, com participação paritária, nas 25 cadeias de produção. Dilma prometeu atender o pedido.

- Foi uma surpresa o aparecimento da presidente na reunião - disse o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força Sindical.

- Ela desculpou-se da relação com as centrais e disse que o governo cometeu um erro de não ter discutido a proposta do plano com as centrais. A presidente também garantiu uma mudança no tratamento às centrais - complementou.

ilma participou do final da reunião, na qual estava presente também o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ela permaneceu cerca de 40 minutos no encontro e expôs, em linhas gerais, o plano Brasil Maior. Mantega também anunciou que o Supersimples, regime tributário simplificado para micro e pequenas empresas, será corrigido acima da inflação. No caso das microempresas, segundo Paulinho, a correção será "bem acima" da inflação. Dilma deverá enviar ao Congresso Nacional um Projeto de Lei Complementar sobre o tema na próxima semana.

De acordo com Wagner Freitas, tesoureiro da CUT, Dilma disse que o governo lutará pela industrialização do país. Os sindicalistas criticaram a medida do governo de taxar em 1% o IOF para capitais especulativos. Na opinião deles, esse percentual é pouco. Dilma não concordou.

Os sindicalistas também propuseram que, a exemplo da disposição do Palácio do Planalto de manter até 25% de conteúdo nacional nas compras governamentais, essa prática seja extensiva à cadeia produtiva como um todo. Dilma apenas anotou.

- Continuamos achando que o plano ainda não atende nossas expectativas, embora tenha pontos positivos - resumiu Paulinho.

Paulinho também afirmou que para facilitar a exportação de produtos nacionais, o governo pode adotar um sistema de especialização dos portos. Se isso for feito, o porto de Santos, por exemplo, ficaria responsável por atender determinados produtos, o do Rio, outros. Mas ainda não há nada definido nesse assunto.

ECONOMIA - A desoneração e os trabalhadores.

Mauro Santayana

A passeata convocada para hoje em São Paulo, por algumas das principais entidades sindicais do país, e o propósito, anunciado ontem pelo governo, de desonerar a folha de pagamento de alguns setores industriais não nos remetem a Marx e a seus discípulos, mas nos fazem retornar a Platão. No mais político de seus Diálogos, o de Górgias, ele reconstitui — ou cria — discussão entre Sócrates, Górgias, Querefonte, Polo e Calicles. Sócrates vence, e convence, ao afirmar que a melhor forma de viver é a de praticar a justiça, além de todas as outras virtudes, e arrasa seu oponente, ao completar que de nada vale a argumentação de Calicles de que o Estado existe, e deve existir, em favor dos poderosos — e contra os débeis.


O jovem e rico contendor do filósofo chega a citar Píndaro, em seu verso conhecido, segundo o qual a força faz o direito. A isso se opõe Sócrates, reclamando o papel do Estado como garantidor da justiça, mediante as leis. Enfim, o Estado só é legítimo quando protege os débeis.

É interessante a posição de certos empresários, ao reclamar contra os direitos trabalhistas. Quando a economia vai mal, eles se queixam, e argumentam que a flexibilização das leis do trabalho favorece o aumento do nível de emprego; quando a economia vai bem, o que ocorre agora, alegam que não conseguem competir com a importação de bens industriais, a não ser com o sacrifício dos trabalhadores.

Ora, para alguns patrões, nada melhor do que uma sociedade econômica sem salários, e é o que buscam, na automação, a cada dia maior, dos processos industriais. Ainda agora, uma empresa de Taiwan anuncia a produção de 1 milhão de robôs para a indústria da China. Bem argumentam os que consideram a sociedade industrial contemporânea a mais injusta de quantas houve na História.

Como não pode haver produção sem consumo, nem consumo sem salários, o aumento da desigualdade leva a crises econômicas profundas, como mostram os exemplos de 1929 aos nossos dias.

As medidas anunciadas ontem pelo governo em seu conjunto são necessárias. A preferência pela compra de produtos e serviços nacionais pelo Estado é boa providência, e melhor seria se, como produtos nacionais, só fossem considerados os procedentes de firmas realmente brasileiras, e não dentro da latitude imposta pelas emendas constitucionais do governo neoliberal de Fernando Henrique.

Hoje, qualquer empresa, de capital externo, constituída no Brasil, ou adquirida de brasileiros, é considerada nacional. É um bom começo, embora parcela importante do que economizarmos com a redução das importações venha a ser consumida na remessa de lucros ao exterior pelas multinacionais. Esse primeiro passo, ao que parece, será seguido de outros. Conforme disse Mantega, é preciso proteger os produtores brasileiros contra os aventureiros que vêm de fora.

Apesar de tudo isso, os reais produtores, que são os que trabalham no pátio das fábricas, buscam, como é de seu direito, e de justiça, negociar com ganho real os acordos anuais de salários. Lutam também pela redução da jornada de trabalho, pelo fim do fator previdenciário, e pela regulamentação da terceirização, esse instrumento impiedoso de compra e venda da força e inteligência do trabalho — com lucros espantosos. Daí, a passeata anunciada para hoje em São Paulo.

O mundo vive momento novo, dentro da velha injustiça que, pelo que vemos, já era objeto das especulações de Platão. Como a injustiça é o resultado da insensatez, os congressistas norte-americanos não foram assistidos da razão, ao debitar aos pobres a espantosa dívida do país. Não foram os pobres que gastaram as centenas de bilhões de dólares nas aventuras militares do Oriente Médio, que se somam às cifras inimagináveis consumidas em outras expedições de saqueio pelo mundo afora.

sobre a pouca percepção que os brasileiros têm da importância e necessidade de forças apropriadas para a defesa da soberania nacional. As Forças Armadas devem ser suficientemente poderosas a fim de dissuadir eventuais agressores à nossa soberania geográfica e política.E por falar em aventuras militares, convém ler com atenção o artigo do almirante Mário César Flores, ontem publicado.

Não asseguramos saúde de qualidade, e não cuidamos bem dos homens aos quais incumbe a defesa do país

Não temos cuidado de erguer e solidificar os pilares de nossa liberdade e segurança no mundo. A educação elementar é desdenhada. Proliferam, graças ao liberalismo oficial, universidades privadas sem qualidade autorizadas a explorar o sonho dos pobres. Não conseguimos assegurar saúde pública universal de qualidade, e não cuidamos bem dos homens aos quais incumbe a defesa do país.

E uma boa notícia. Ao assegurar a liberdade de trabalho para os músicos, contra a filiação compulsória à Ordem dos Músicos do Brasil, o STF dá mais um passo contra a praga do corporativismo, em favor da plena liberdade de trabalho e de expressão cultural dos cidadãos, conforme os princípios basilares da democracia republicana.

POLÍTICA - Aprovação de Dilma deve subir na nova pesquisa do Ibope.

Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

“Recebi agora à tarde o retorno da ligação que fiz pela manhã para Carlos Augusto Montenegro, o presidente do Ibope. A nova pesquisa CNI-Ibope sobre a avaliação do governo Dilma Rousseff foi a campo na semana passada e deve ser divulgada nos próximos dias, talvez ainda esta semana.

Sem citar números, Montenegro confirmou as previsões que fiz no post publicado na manhã desta terça-feira.

Apesar de todos os problemas políticos das últimas semanas, com a queda de dois ministros, a avaliação positiva de Dilma deve até subir um pouco, em função da "faxina geral" com as demissões promovidas pelo governo no Ministério dos Transportes, medida que conta com amplo apoio popular.

Para Montenegro, Dilma manterá bons números nas pesquisas enquanto a crise americana não chegar aqui e os resultados na economia continuarem positivos, com os índices de emprego e renda melhorando para a maioria dos trabalhadores.

A pesquisa trimestral CNI-Ibope desta vez será divulgada com 15 dias de atraso e não consegui informações sobre outros institutos."

POLÍTICA - Até quando temos que aturar o tucano Jobim?

Líder do PMDB: "Não sei se Dilma vai reconsiderar críticas de Jobim"Marina Dias


Um novo capítulo da polêmica que envolve o ministro da Defesa, Nelson Jobim, surgiu nesta quinta-feira (4). A revista Piauí, que chega às bancas neste primeiro fim de semana de agosto, trará um perfil do ministro, com críticas ácidas a duas importantes ministras do governo, escolhidas pessoalmente pela presidente Dilma Rousseff. Nas páginas da revista, Jobim diz que a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, é "muito fraquinha" e que a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, "nem sequer conhece Brasília". As novas declarações do ministro já provocam reações na base do governo.

Em entrevista a Terra Magazine, o líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves, afirma que Nelson Jobim tem o direito de se posicionar, mas não sabe se a presidente irá ou não reconsiderar a permanência do ministro no cargo a partir de agora. "Teremos que aguardar. Será um critério dela e teremos que respeitar".

Na última quarta-feira (3), a presidente Dilma teve uma conversa longa com Jobim. Foi a primeira vez em que os dois falaram a sós desde a repercussão da declaração de voto a José Serra (PSDB) pelo ministro à Folha de S. Paulo. Após pouco mais de uma hora de encontro no Palácio do Planalto, em que Dilma mostrou descontentamento com o episódio, mas não o afastou do cargo - pelo menos por enquanto -, Jobim seguiu para cumprir agenda ministerial no Amazonas, acompanhado do vice-presidente Michel Temer, seu companheiro de partido, e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

O líder do PMDB diz ainda que o PMDB respeita Jobim e suas posições. "Ele é um grande companheiro de partido, com muitas qualidades e grande liderança junto às Forças Armadas. Nós respeitamos todas as suas posições, inclusive o voto dele em José Serra (PSDB) nas últimas eleições presidenciais".
Fonte: Terra Magazine.

MÍDIA - Google e Facebook são os concorrentes dos jornais.

Os veículos tradicionais de imprensa devem passar a preocupar-se mais com a concorrência de sites como o Google e o Facebook do que com seus tradicionais rivais.

É assim que pensa o jornalista espanhol Juan Luis Cebrián, 66, fundador do "El País" e presidente do Grupo Prisa, que, além do jornal, é dono da Santillana, grupo editorial ao qual pertence a brasileira Moderna.

O espanhol esteve no Brasil na semana passada para participar de encontros sobre a atuação da Santillana no país, que já é o maior mercado da empresa no mundo. Negocia também a produção de conteúdo para a televisão, no Rio Grande do Sul.

A entrevista é de Raul Juste Lopes e Sylvia Colombo e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 11-07-2011.

Eis a entrevista.

Há uma discussão muito intensa nos grandes jornais do mundo sobre se é conveniente ou não cobrar pelo conteúdo das versões on-line dos mesmos. O "El País" está todo aberto na rede há alguns anos. Crê que essa é a postura mais correta?

A pergunta mais importante é "um jornal pode migrar para a rede?".

Até agora a resposta tem sido negativa. Não houve veículo que foi capaz de fazer essa migração.

O problema está no fato de que um jornal na internet não é um jornal, é uma outra coisa. Sou radical nesse sentido, inclusive quando falamos da credibilidade das marcas. Até agora nenhuma das marcas tradicionais da imprensa escrita foi capaz de migrar para as operações virtuais com sucesso.

Por quê?

A rede é algo que se constrói a partir da experiência dos usuários. O Twitter, por exemplo. Jack Dorsey nunca imaginou que ele se tornaria um sistema de transmissão de notícias ou para convocar grandes manifestações.
Dorsey inventou o Twitter porque gostava de fazer mapas e não sabia como colocar as pessoas nos mapas que fazia.

O Facebook não nasceu para ser uma rede social. Provavelmente Mark Zuckerberg não teorizou a ideia de uma rede social.

Enquanto o Google nasceu com a intenção de ser um buscador mais potente, nada mais. O que determinou a transformação desses sites foi o uso que as pessoas fizeram deles.

Não foi a decisão dos que desenharam os programas que determinou seu destino, mas sim a experiência dos usuários que construíram essa força na internet.

Como ficam os jornais diante dessa nova situação?

Os jornais nasceram no começo do século XIX, com a Revolução Industrial e a democracia representativa. Formam parte do establishment e das instituições da democracia moderna.

Se alguém leva a Folha ou o "Estado de S. Paulo" debaixo do braço, está se identificando com algo. Um jornal é uma bandeira, de certa maneira. E na internet não há bandeiras.

Jornal é uma concepção do mundo. Da primeira página à última está oferecendo uma visão sobre o que acontece. Está explicando a realidade aos usuários. Na rede não há intermediários.

Na internet, é comum que o protagonista de uma notícia seja aquele que a conte.

O relato das revoluções do norte da África foi feito por aqueles que as fizeram. O mesmo sistema para convocá-las foi usado para conta-las, por meio do Twitter.

O sr. crê que o leitor interessado em noticiário econômico está mais disposto a pagar pela informação?

Quem triunfou com o sistema de pagamento por conteúdo até o momento, foi o "Financial Times", e, em certa medida, o "Wall Street Journal" também, mas ambos são produtos muito específicos.

Sim, é preciso cobrar, mas por aquilo a que as pessoas estejam dispostas a pagar. E as pessoas, hoje, querem pagar aquilo que lhes interessa.

Pergunto a meus editores, por que publicamos as páginas de mercado de valores no "El País'? Seis páginas!

Quem está no mercado de valores consulta isso na internet.

Para que publicar a previsão do tempo? Se eu venho a São Paulo, abro a internet no dia anterior para saber como está o clima. Não me ocorre ler isso no El País, com 24 horas de atraso. Mas continuamos a fazer isso.

Atender completamente aos leitores não deforma um jornal?

Não se trata de atender aos pedidos de todos os leitores, mas as demandas de cada leitor. Há leitores a quem lhes interessa a crise financeira, mas este mesmo leitor também pode querer saber o que aconteceu com Amy Winehouse em seu último show.

O "El País" tinha uma seção de esportes muito pequena e mal cobria celebridades. Hoje começamos a dar mais espaço para ambos.

Os diários já não dão notícias. Todo mundo já sabe as notícias quando vai ler os jornais. Os jornais explicam, fazem análises, debatem.

O competidor da Folha não é o "Estado de S. Paulo", é o Google, o Facebook, estes são nossos competidores reais. E não queremos admitir porque não sabemos como competir com eles.

Como fazer que Google, Facebook e Apple dividam esses ganhos, usando noticiário alheio?

Essa é uma discussão, porque o Google pode dizer que não quer pagar, mas se o "New York Times" não quiser estar, eles o tiram dali. E ninguém quer ficar fora do Google, de jeito nenhum, preferem estar ali mesmo que eles não paguem.

Com a Apple já é diferente. O iPad é uma rede de distribuição mundial para jornais, livros, filmes que já está implantada. Se alguém quer colocar uma estação de televisão no ar, precisa levantar postes. No iPad está pronto.

Cobrar 30%, como faz a Apple, pelos ingressos na rede pode parecer muito alto, mas o custo de distribuição de um jornal tradicional é cerca de 40%, entre o que se gasta em bancas, caminhões e aviões para distribuição.

As notícias que nos chegam da Espanha e da Europa são muito pessimistas. É uma crise de liderança ou há uma crise também na sociedade?

Há tal confusão e cumplicidade entre poder financeiro e político que os políticos se sentem débeis.

Existe um problema de liderança política que tem a ver com as eleições e com o curto-prazismo dos agentes que decidem em política.

A China, sem eleições, faz como grandes empresas, com políticas de longo prazo.

A Europa manteve um modelo de vida, provavelmente o melhor modelo de vida existente nesse momento no mundo, e jornadas de trabalho curtas. Esse sistema simplesmente não se pode mais pagar, porque já perderam-se as colônias e a economia tradicional europeia.

Nos círculos ilustrados da Espanha, qual a imagem que o Brasil tem hoje?

Creio que uma imagem extraordinária, que a merece. O Brasil é hoje um um ímã que atrai todos os olhares. Acabou-se a piada sobre o país do futuro. Hoje se vê o Brasil como um dos motores importantes do século XXI, mesmo com a desigualdade.

E a imagem de Dilma?

Dilma é pouco conhecida na Europa, mas tem uma imagem boa. Estive com Dilma há um mês e me impressionaram muito suas ideias sobre economia.

Creio que vai triunfar, apesar de que opera em um entorno político complicado, em que a institucionalidade dos partidos não está bem resolvida. Mas creio que continua o "milagre brasileiro".

Só é bom lembrar que a felicidade não dura para sempre e é bom que os brasileiros também se preparem para momentos tristes.

IGREJA CATÓLICA - Um novo inimigo público: o especulador.

A Igreja tem, e sempre teve, uma relação complexa com a riqueza; às vezes, ela se manchou com essa relação. A mensagem que vem do Vaticano agora requer um senso de vigilância intensificado em toda a Igreja.

Publicamos aqui o editorial da revista católica britânica The Tablet, 09-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A Santa Sé identificou um novo inimigo público – o especulador. Em declarações aos delegados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e a Alimentação (FAO), com sede em Roma, o Papa Bento se referiu à forma como os alimentos se tornaram uma commodity que é agora negociada sem levar em conta as necessidades dos famintos do mundo.

"Como podemos ignorar o fato de que os alimentos se tornaram um objeto de especulação ou estão ligados a movimentos em um mercado financeiro que, sem regras claras e princípios morais, parece ancorado no único objetivo do lucro?", perguntou. O uso dos alimentos como uma mercadoria que pode ser comprada e vendida nos mercados internacionais é amplamente o culpado pela explosão dos preços dos alimentos mundiais e a rápida expansão do número de pessoas de todo o mundo sem o suficiente para comer. Os alimentos, às vezes, são acumulados apenas para forçar o aumento dos preços.

Mas uma acusação mais ampla contra a especulação financeira foi pronunciada pelo secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Tarcisio Bertone, em um encontro promovido pelo Pontifício Conselho "Justiça e Paz". O cardeal disse que um bom líder de negócios não é um especulador, mas sim um inovador. "O especulador assume como seu objetivo maximizar o lucro; para ele, os negócios são apenas um meio para um fim, e esse fim é o lucro. Para o especulador, construir estradas e estabelecer hospitais ou escolas não é o objetivo, mas meramente um meio para a meta do lucro máximo. Deve ficar imediatamente claro que o especulador não é o modelo de líder de negócios que a Igreja sustenta como um agente e um construtor do bem comum".

Tanto as declarações do cardeal quanto do papa estão entre os sinais recentes de que o Vaticano quer desempenhar um papel mais proativo na promoção da Doutrina Social da Igreja, ao invés de se confiar na publicação de novas encíclicas sociais a cada década ou duas, com longos períodos de silêncio entre elas.

No outono europeu passado, o Pontifício Conselho "Justiça e Paz" organizou um simpósio no Vaticano, juntamente com o projeto True Wealth of Nations, com sede nos EUA, sobre a aplicação da encíclica Caritas in Veritate, do Papa Bento XVI, nos Estados Unidos.

Na Inglaterra e no País de Gales, a Conferência dos Bispos embarcou em um programa prolongado de eventos para "aprofundar o engajamento social" da Igreja, que o Vaticano está claramente encorajando. O discurso do cardeal Bertone ofereceu pouco conforto para os homens de negócios que satisfazem suas consciências engajando-se em atos de filantropia, embora generosos, ou que simplesmente garantem que suas práticas de negócios são socialmente responsáveis. Ele os desafiou a mirar mais alto: a dirigir sua criatividade para "desafios acima e além da economia e do mercado".

Especificamente, ele mencionou medidas para trazer as pessoas marginalizadas para a atividade econômica, destacando que há "países inteiros com um grande número de jovens e com poucos empregos". E convocou os líderes de negócios com uma consciência social a "ver seu trabalho como parte de um novo contrato social com o público e com a sociedade civil".

A Igreja tem, e sempre teve, uma relação complexa com a riqueza; às vezes, ela se manchou com essa relação. A mensagem que vem do Vaticano agora requer um senso de vigilância intensificado em toda a Igreja. Ao aceitar ofertas de doações filantrópicas, ela não deve comprometer sua própria integridade. Os especuladores podem fazer pressão com o seu dinheiro. Eles devem saber que, assim, seus dons não inaceitáveis.

A LIÇÃO DOS MANIFESTANTES ANTIGLOBALIZAÇÃO.

O telefonema de Vito, da Indymedia, chegou pouco antes da meia-noite de domingo. "Corra, porque aqui na escola Diaz estão fazendo um massacre". Ninguém queria acreditar nele. Estávamos jantando em Castelletto, a colina de Gênova onde, segundo uma esplêndida poesia de Caproni, se toma o elevador para o Paraíso. Um ressarcimento depois de quatro dias de inferno, violência, raiva e impotência. O ar doce e fresco da colina, o vinho branco frio para consolar a garganta queimada pelo gás lacrimogêneo. Mas fomos mesmo assim, tomamos o elevador de Castelletto ao inferno da escola Diaz, onde a história é ainda pior do que as palavras de Vito.

A análise é do escritor e jornalista italiano Curzio Maltese, publicada no jornal La Repubblica, 12-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A cena que se apresenta é a materialização dos piores pesadelos da nossa adolescência. Helicópteros que voam baixo, ensurdecedores, com os faróis contra os olhos, sem outro motivo que simular uma guerra. Cordões de policiais que empurram, pressionam, provocam, procuram todas as boas oportunidades para o confronto.

Tentamos entrar na Diaz agitando o crachá de jornalistas, mas diante dos nossos olhos chove um cassetete sobre o deputado Cento, do Partido Verde, que mostrava até o crachá de parlamentar. Eles tinham ordens de não deixar ninguém passar, a nenhum custo, e é uma ordem que lhes agrada muito. Ficamos fora, assistindo incrédulos à cena dos jovens levados em uma maca, cobertos de sangue, ofegantes, para as ambulâncias. Até tarde da noite, quando eles permitem a entrada para ver os restos do massacre naquelas salas de aula para crianças.

Quando se pensa novamente em Gênova 2001, as primeiras coisas que vêm à mente são a incredulidade, a vergonha, a indignação de ver depois de tantos anos um verdadeiro fascismo em ação, sob a marca do Estado democrático. Lembro-me da manhã da sexta-feira passada no terraço do hotel President, o mais alto de Gênova, observando a absurda estratégia da polícia. Os Black Bloc atacam do outro lado da ponte ferroviária, mas as forças da ordem os ignoram e preferem se jogar com ataques e gás lacrimogêneo contra a marcha autorizada da rua Tolemaide. Na investigação, dirão que haviam se equivocado, porque não conheciam a cidade: um álibi de impunes. À tarde, o assassinato de Carlo Giuliani e o delírio da praça Alimonda, a tentativa de atribuir a morte aos seus companheiros: "Foram vocês que o mataram, bastardos, com as suas pedras". Por um momento, até eu acreditei nisso.

À noite, os jovens presos com golpes de cassetete ou carregados nas caminhonetes só porque tinham um ar "de esquerda". Enfim, a vergonha do sábado, com a grande marcha pacífica esmagada pelas repartições da polícia, e eu me encontro novamente nas rochas abaixo de Boccadasse, na companhia do diretor Mario Martone, a me perguntar o que diabos aconteceu, enquanto os botes militares estão prontos para despejar os fuzileiros navais.

Dez anos depois, ainda nos lembramos dessa vergonha de dias que também foram gloriosos, importantes, ricos em ideias. Falar com as milhares de associações que chegaram em Gênova sobre água e globalização, mercados financeiros e agricultura, havia significado a redescoberta de uma política verdadeira, alta, clarividente.

A década após o 2001 se encarregou de dar razão ao movimento nascido entre Seattle e Gênova em todas as frentes. Os últimos G8 adotaram nos documentos finais as ideias pelas quais aqueles jovens da Diaz e das ruas de Gênova eram presos a golpes de cassetetes e levados para o quartel de Bolzaneto. Com um programa centrado na economia verde invocada pelo povo de Seattle no meio do gás lacrimogêneo, Obama obterá o maior mandato da história dos presidentes norte-americanos. Até os últimos referendos vencidos com um plebiscito sobre a água pública e a energia nuclear são filhos daquele movimento e daqueles dias, e é um paradoxo que quem os promoveu foi justamente Antonio Di Pietro, que, na época, assumiu em bloco a defesa da ação criminosa das forças da ordem, sem "se" e sem "mas", e impediu a criação de uma comissão parlamentar sobre os fatos do G8, votando com Berlusconi e a Liga. Nesse meio tempo, os bispos e Giulio Tremonti também se tornaram antiglobalização.

Raramente, na política, assistimos a um confronto em que o engano e a razão são claramente separados em dois campos. Gênova 2001 foi isso, mas se resolveu em uma longa vitória da má política sobre a boa. A criminalização dos manifestantes, na mídia controlada, pavimentou o caminho para a pior década da nossa vida, para o triunfo da política desonesta e de má-fé e do conflito de interesses, para o reinado do berlusconismo sem limites. Só agora, depois dos golpes da crise internacional, a um passo da falência do país, a boa política começa a levantar novamente a cabeça.

CRISE AMERICANA - EUA expõem fragilidades das reservas da China.

O acordo que elevou o teto de endividamento dos Estados Unidos reduziu a ansiedade chinesa em relação à possibilidade de um calote americano, mas o longo impasse entre republicanos e democratas evidenciou os riscos enfrentados por Pequim e aumentou a pressão para que o Partido Comunista reveja a política de acumulação de reservas internacionais, cujo valor já alcançou estratosféricos US$ 3,2 trilhões.

A reportagem é de Cláudia Trevisan e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 03-08-2011.

Cerca de 70% dessa montanha de dinheiro estão aplicados em ativos denominados em dólar, incluindo US$ 1,16 trilhão em títulos do Tesouro americano, o que põe a China na condição de maior credor de Washington. Isso significa que uma eventual desvalorização persistente da moeda americana provocará redução no valor dos recursos administrados pelo Banco do Povo da China (banco central).

O confronto político em Washington acendeu a luz amarela em Pequim, mas a acumulação de reservas criou uma armadilha difícil de ser desarmada. A China não pode se desfazer dos títulos do Tesouro e dos ativos em dólar sem arriscar derrubar seu valor, o que reduziria sua própria poupança.

Além disso, o modelo de intervenções no mercado para impedir a valorização do yuan torna inevitável o aumento das reservas, já que essa operação é feita por meio da compra de dólares pelo banco central.

Editorial publicado ontem pelo jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista, afirmou que as reservas internacionais "enormes, mas em desvalorização" são um peso para o povo chinês, ao mesmo tempo em que reconheceu que há poucas opções para aplicá-las. "Essa talvez seja a lição que a China aprendeu" com a crise em torno do teto de endividamento americano.

A manchete do jornal China Daily, editado pelo Conselho de Estado, foi "O dilema das reservas internacionais da China". O texto afirma que o acordo é um "alívio" para os credores de Washington, mas observa que Pequim enfrenta o desafio de diversificar suas reservas, "ameaçadas" pela possibilidade de desvalorização do dólar.

Mudança

Em artigo publicado no Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, o pesquisador Li Xiangyang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, defendeu o abandono do modelo atual. "É necessário mudar a atual concentração em ativos denominados em dólar, mas o que é mais importante é mudar no futuro a propensão para elevação dos ativos em dólar." Segundo Li, isso exige um "ajuste fundamental" no modelo de crescimento econômico adotado pela China.

Editorial veiculado no mesmo jornal ressaltou que os problemas da dívida soberana dos EUA continuam, apesar do acordo entre republicanos e democratas. "Eles foram apenas adiados e há uma tendência de que cresçam. Isso está lançando uma sombra sobre a recuperação da economia dos EUA e escondendo riscos e turbulências ainda maiores para a economia global."

O nacionalista Global Times adotou um tom irônico em seu editorial, no qual disse que a solução do impasse poderia render um filme hollywoodiano de efeito especiais "democráticos" com o título Acordo de Último Momento. Mas o desenlace não deve arrancar aplausos do restante do mundo, ressalta. "Ao usar nova dívida para pagar a velha, os EUA estão afundando ainda mais em areia movediça."
Fonte: IHU

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

POLÍTICA - O abandono da base política.

Do blog do Luis Nassif

Não estão claros, ainda, os movimentos políticos da presidenta Dilma Rousseff.

Em breve ela começará a enfrentar uma oposição inédita das centrais sindicais. O afastamento da Força Sindical é apenas um primeiro sinal. O sinal mais preocupante será da CUT e dos sindicatos filiados a ela. A continuar a dinâmica política atual, é questão de tempo.

Começou com estranhamento, em função da aproximação de Dilma de seus antigos adversários. Continuou com mágoas, pelo que consideram falta de atenção continuada. E está transbordando para raiva.

Um preço que o governo Dilma estará pagando de graça.

Movimentos iniciais

Ela foi eleita por uma base de apoio dos sindicatos, movimentos sociais, blogosfera, base criada por Lula e ampliada pela adesão de grandes grupos e da classe média satisfeita com os rumos da economia.

Teve por adversários, ferozes, o tea party de José Serra, a chamada opinião pública midiática, embalados pela velha mídia, manipulando preconceitos, espalhando boatos, recorrendo a um denuncismo inédito na moderna história política brasileira - similar ao modelo Rupert Murdoch.

Foi uma guerra épica, que deixou mortos e feridos de lado a lado.

Eleita, tendo a maior base de apoio parlamentar que um presidente já dispôs, tratou de se aproximar dos adversários e de reduzir a fervura política - no que agiu corretamente. Tem que investir em ser a presidente de todos os brasileiros.

Aí avançou o sinal.

Para mostrar que não era a "terrível" Dilma retratada pela mídia, afastou-se dos sindicatos. O Plano Brasil Maior, lançado ontem, conseguiu apresentar um pacto de competitividade do qual as centrais sindicais sequer participaram.

É um retrocesso inédito. Nem Fernando Collor foi tão longe. Com toda resistência que provocava nos trabalhadores, ensaiou o primeiro pacto produtivo da história brasileira, com as câmaras setoriais da indústria automobilística, conduzidas pela Ministra Dorothea Werneck, Lá, pela primeira vez - vindo de um governo ferozmente liberalizante - se concluía que a preservação da produção nacional era de interesse direto de empresários e trabalhadores.

A detente abriu espaço para programas de qualidade, para diversos pactos ao longo dos anos 90 que modernizaram as relações trabalhistas no país.

Denúncias e denuncismo

Dilma não apenas se distanciou dos sindicatos, mas passou a endossar denúncias da velha mídia.

É evidente que denúncias fundamentadas precisam ser apuradas e as distorções resolvidas. Mas há maneiras e maneiras. Há informações de investigações em curso na Polícia Federal que justificariam a razia ocorrida no Ministério dos Transportes. Em vez de uma ação objetiva, discreta e fulminante - que carcaterizaria uma vitória do governo - permitiu-se um show midiático que vai estimular a volta do denuncismo.

A lógica é simples. As denúncias fazem as primeiras vítimas - mas num alarido que pega gregos e troianos nas mesmas acusações. Depois, abre espaço para o festival de mágoas dos demitidos. O ápice de uma denúncia midiática é a demissão do acusado. O jornalismo brasiliense vive em função de dois sonhos: derrubar autoridades (primeiro secretários, depois ministros até o auge de presidentes) e pacotes econômicos.

Ontem o Jornal Nacional dedicou maior tempo ao desabafo do ex-Ministro Alfredo Nascimento do que ao Plano Brasil Maior. Na sua última edição, Veja abriu amplo espaço a um sujeito demitido da Conab por corrupção explícita, para que pudesse "denunciar" seus colegas que o demitiram, sem a necessidade de apresentar provas. Época enceta uma campanha contra a Agência Nacional de Petroleo em cima de informações que lhe foram passadas pela própria ANP dois anos atrás.

A comunicação do governo está restrita ao mundo das sucursais brasilienses; os contatos de Dilma com o mundo das associações empresariais - que tem e devem ser consultadas, mas não com exclusividade.

O que parecia um movimento tático - de se aproximar dos adversários e diminuir a fervura - a cada dia que passa ganha contorno de mudança estrutural do leque de alianças. Correta ou não, é essa a percepção cada vez mais forte em setores sindicais e do leque de aliados da campanha de 2010.

Lula costumava caçoar da ingenuidade do "Palocinho" (como o chamava), que sempre acreditava que ganharia o título de sócio remido do clube principal.

No final do ano passado, Palocci garantiu a Lula que Veja estaria preparando uma edição finalmente reconhecendo os méritos de seu governo. Na semana anunciada, a capa em todas as bancas: "O governo mais corrupto da história".

POLÍTICA - O câmbio e os urubus que têm penas no bico.

A oposição e o PIG não cansam de ficar prevendo o fim do mundo ali na esquina. É uma coisa de doido.

Desde que Lula assumiu a presidência em 2003, uma assombração nova desponta no horizonte de seis em seis meses.

E ela sempre tem relação com a inépcia dessa “gentalha” ligada ao PT e ao atual governo, que só sabe fazer barulho. Mas administrar que é bom, necas.

Agora, nossos iluminados comentaristas econômicos e seus analistas amestrados do mercado decidiram que o problema não é mais a inflação.


Neste segundo semestre de 2011, o demônio da vez é o câmbio.

Esse maldito câmbio que está colocando em risco a atividade industrial e que só está do jeito que está porque os imbecis do governo não sabem o que fazer.

Mas se o governo vier a fazer algo, se vier a colocar uma trava nesse danado do dólar, esses geniais comentaristas vão comemorar, certo?

Claro que não. Errado.

Eles vão reclamar de intervencionismo. Vão dizer que o governo está estatizando o mercado.

O ministro Guido Mantega falou em guerra cambial e tem toda a razão.

O fato é que a crise na Europa e nos EUA transformou o mundo num grande brasilzão da época dos tucanos.

A lógica que prevalecia naquele Brasil tucanado era: “em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”.

Muito parecida com a lógica do mundo de hoje.

Só que a “guerra” daqui era entre estados e tributária.

Para atrair empreendimentos, os governadores ofereciam de tudo.

O caso simbólico daqueles anos foi o da Ford, que chegou a anunciar sua ida para o Rio Grande do Sul, mas acabou na Bahia, atraída pelos “acarajés” de ACM.

Os ditos países de primeiro mundo vão fazer de tudo para conseguir vender fora de seu território aquilo que o mercado interno não conseguir consumir. Eles vão querer exportar o máximo.

E para isso precisam de câmbio baixo.

Isso é um problema para o Brasil?

Evidente.

O anúncio de desoneração de hoje vai resolver nosso drama?

Não. Mas é um sinal de que o governo está atento ao que está acontecendo.

Como estava em 2009, quando Lula falava que o efeito da Tsunami do lado de lá, iria produzir uma marolinha pelas bandas de cá.

E mesmo tendo crescimento zero naquele ano, o país embicou 7,5% em 2010.

É líquido e certo que o governo vai ter de tomar medidas para que a economia brasileira não seja tragada pela sacanagem do primeiro mundo.

Mas essa queda do dólar não é culpa do Mantega, nem da Dilma e muito menos dessa massa pouco cheirosa filiada ao PT e que anda por aí fazendo estrago na máquina pública.

De qualquer forma, amigo leitor, prepare o fígado.

Porque esse tal de câmbio ainda vai ser usado algumas centenas de vezes neste semestre como artifício para desancar o governo.

Esse povo adora urubuzar o país.

Talvez seja por isso que outro dia ouvi um repentista dizendo: “urubu tem pena no pé, porque no bico, tucano não quer.”
Fonte: Blog do Rovai

POLÍTICA - O boicote ao governo Erundina.

Enviado por luisnassif

Por Humberto Borges

As dificuldades para governar São Paulo

Erundina foi punida pela cúpula do PT porque, totalmente boicotada dentro de seu próprio partido, para sobreviver politicamente, aceitou o convite do “honesto” Itamar para ser ministra da administração federal e moralizar o serviço público herança de 21 anos de ditadura militar, 6 anos de José Sarney e 2 anos de Fernando Collor. Assumiu em 28 de janeiro de 1993 e não durou 4 meses, sendo demitida em 20 de Maio, por pressionar Itamar a tomar atitudes contra a corrupção e por impedir violência policial contra servidores grevistas.

A Erundina fez ótimo governo priorizando a saúde (entregou 6 novos hospitais ao município, além dos postos de saúde) a educação (revolucionou com Paulo Freire secretário, merenda e valorização dos alunos e dos professores) e os transportes (os ônibus recebiam por kilometragem e então estavam sempre passando pelos pontos, diminuindo o tempo de espera e a lotação do veículo), além da construção de moradias (com grande incentivo ao sistema de mutirão).

Como o dinheiro era pouco, pois o governo do estado (Quércia) e o federal (Sarney) não lhe faziam os repasses devidos (por dívida) para lhe boicotar a administração e impedir sua ascensão política, não conseguiu fazer muitas outras coisas, como o asfaltamento das ruas, tão caro, na época (pois hoje o Kassab não faz e ninguém reclama), aos proprietários das "carroças motorizadas" da época, inclusive os taxistas, sempre direitistas de carteirinha e que tinham um grande poder de divulgação de infâmias e desinformações, parecido com certos emails de hoje em dia.

Enfim, Erundina "fez milagres" com o dinheiro disponível, tendo ainda que gastar com prioridades que não eram suas, como terminar o carí$$imo (mas útil e bonito) projeto de repaginação do Anhangabaú, herança do governo Jânio Quadros.

Erundina foi tremendamente massacrada pelo PIG (pesquisando no acervo da Folha dá pra sentir o tratamento) articulado com organizações civis malufistas de empresários e juízes politizados de direita que perseguiam descaradamente seu governo.

Também foi muito criticada (e boicotada) por várias alas do PT, inicialmente pelas "à direita" e depois também pelas "à esquerda". Ela havia conquistado a prefeitura inicialmente pela pressão e mobilização das bases mais populares e à esquerda no PT, vencendo nas eleições da prévia partidária o candidato da cúpula que era o Plinio de Arruda Sampaio, hoje no "esquerdista" PSOL. Posteriormente, "mais centrada" como prefeita de toda a cidade, sem o radicalismo ideológico de governante neófita, para conseguir governar naquele momento histórico, (e não de algumas tendências ideológicas) passou a ser criticada pelas alas petistas à esquerda.

De rara integridade de caráter ético-moral e ideológico no mundo político brasileiro, nunca aceitou mau uso do dinheiro público, nem mesmo para caixa de campanha eleitoral, sentindo-se traída pelo seu vice-prefeito Luiz Eduardo Greenhalgh, acusado de arrecadar fundos para a campanha presidencial de 1990 num nebuloso "caso Lubeca" denunciado por Ronaldo Caiado.

Eu tenho cá pra mim que Erundina sempre foi boicotada pela cúpula do PT porque sua imagem é muito parecida com a de Lula. Nascida numa cidadezinha do interior da Paraiba, de família numerosa e pobre, lutou bastante para vencer. Só que tinha uma diferença muito importante para o povo, que era um "handcap" para Erundina, e que a duras penas Lula conseguiu superar perante o preconceito (não sem razão) popular: Erundina apesar de todas as dificuldades, estudou e se formou. Virou professora universitária.

Entretanto não digo que mesmo com todos os seus predicados Erundina teria sido uma liderança tão carismática e transformadora de nosso país como foi e é o nosso grande Lula, exemplo único no mundo, capaz de fazer tudo isso nesse imenso ninho de cobras que são as instituições da política nacional e seus meios de comunicação de massa.

Mas penso que Erundina, assim como Marta Suplicy, são ótimas opções para a prefeitura de São Paulo. Foram as que melhor governaram nossa cidade nos últimos 40 anos.

POLÍTICA - China e Rússia criticam políticos americanos.

Do Jornal de Negócios (Portugal)

China junta-se à Rússia nas críticas aos políticos norte-americanos

A China, o maior credor externo da dívida pública dos EUA, juntou-se à Rússia ao criticar os governantes norte-americanos por não anunciarem mais medidas de controlo da despesa ao mesmo tempo que ergueram o limite de endividamento.

O governador do Banco Popular da China, Zhou Xiaochuan, adiantou que o banco central vai monitorizar os esforços dos EUA na redução do défice.

Também esta manhã, a agência noticiosa estatal Xinhua News descreveu o impasse até à última hora como “uma loucura”.

A China detinha em Maio 1,16 biliões de dólares em títulos do Tesouro americano, e receia agora que a política nos EUA não evite uma descida do “rating” desses títulos que tem em carteira.

As declarações vêm na sequência da intervenção do primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, ter dito que “os EUA estão a parasitar a economia mundial”.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

POLÍTICA - Eleições de 1982: A manipulação da Rêde Globo.

Ontem, como hoje, todos sabemos como atua a Rêde Globo. Só que hoje tem outros coajuvantes bastante conhecidos que lutam pelo terceiro turno.

Procópio Mineiro e Paulo Henrique Amorim derrotaram a Proconsult.

Pedro do Coutto

Procópio Mineiro, que na sexta-feira morreu antes do tempo, foi noticiado de forma simples e singela na seção de obituários de O Globo de sábado. Jornalista profissional, dirigia a Radio JB em 82, quando foi tentada no Rio a fraude colossal da Proconsult. Com o apoio de Armando Nogueira, na Rede Globo, e, pelo menos, o silêncio de Evandro Carlos de Andrade, no Globo, tentava transformar a vitória de Leonel Brizola nas urnas em vitória de Moreira Franco. Escândalo que ressoa até hoje.

Mas o Jornal do Brasil, com Paulo Henrique Amorim à frente da redação e a Rádio, com Procópio Mineiro, impediram o alucinado golpe contra a decisão popular. Naquela ocasião fiz parte da equipe de Paulo Henrique, formada também em primeiro plano por Hedil Rodrigues do Vale Junior, Ronald de Carvalho, Ricardo Noblat. Na Rádio Jornal do Brasil, a segunda pessoa era o Jornalista Pery Cotta, hoje presidente do Conselho Deliberativo da ABI.

A tempestade foi intensa, relâmpagos e trovões de orquestra (frase de Nelson Rodrigues), pode-se calcular face aos interesses envolvidos. Mas Paulo Henrique tivera aprovado por M.F. Nascimento Brito um projeto extraordinário de acompanhamento da apuração de votos. O cérebro eletrônico da organização foi mobilizado e preparado para computar as eleições urna por urna, voto a voto. Estabelecido tal controle, o trabalho não poderia apresentar falhas: era uma simples questão de matemática.

Paulo Henrique me escalou para fazer as projeções, já que a apuração demandava uma semana e era fácil identificar o desempenho dos candidatos por região. Este o meu trabalho.

Hoje em dia a computação é muito mais veloz, o resultado final sai em doze horas. Fazer projeções, agora, só tem valor se a disputa estiver duríssima. Mas estamos falando de ontem. O Globo, de Evandro, claro, não contestava os números da Rede Globo. Não eram falsos, a forma de sua utilização sim. Brizola vencia no Rio e na Baixada Fluminense. Moreira Franco na região serrana e no interior do estado. Na Zona Sul carioca também. O jornalismo comandado por Armando Nogueira dava preferência à computação parcial das áreas em que Moreira vencia. Um absurdo.

O ritmo da apuração transcorria por igual. Portanto, de plano, desencadeou-se a divergência entre o Jornal do Brasil e a Radio JB, de um lado, e a Rede Globo de outro. Paulo Henrique, inclusive, lançou um livro sobre o acontecimento. Um duelo vencido pelo JB. Mas com esforço. Surgiram obstáculos, não por parte de Nascimento Brito ou de sua filha Teresa, que também participava do comando geral.

Mas por parte de dirigentes do cérebro eletrônico. O Jornal todos os dias apontava Brizola absoluto na frente. A Rádio todas as horas. A cidade do Rio pesava 47% do eleitorado. Brizola, aqui, alcançava – lembro-me bem – 41 a 26 pontos. A Baixada Fluminense pesava 25%. Nela, a vantagem de Brizola era ainda maior. A região serrana e o norte fluminense tinham expressão de 28% do eleitorado. A disputa incluía Miro Teixeira, Sandra Cavalcanti, Lisâneas Maciel. O quadro final estava definido computados 10% dos votos. Era só fazer as projeções. Cabia a mim. Procópio Mineiro e Pery Cotta seguiam na mesma direção, a única legítima.

Mas eis que na madrugada de sexta para sábado, as eleições tinham sido na terça ou quarta, dirigentes do sistema de computação dormiram na sede da avenida Brasil. A Proconsult atacava antes do alvorecer. Minhas projeções foram colocadas em dúvida. A Proconsult chegou aqui, me disse Paulo Henrique. Mas não se preocupe, você está certo. E sustentou meu trabalho. Nascimento Brito também. Esta é a história que conto e que teve a participação ativa de Procópio Mineiro. Com este registro, dou adeus a ele. Ele viveu um momento alto do jornalismo brasileiro.
Fonte: Tribuna da Internet.

ECONOMIA - O paradoxo do supeermercado.

"A despesa de alimentação em casa por brasileiro não caiu, agora, a gente não quer só comida". O comentário é do economista Marcelo Neri e publicado pelo jornal Folha de S.Paulo, 31-07-2011.

Eis o artigo.

Se a China é a fábrica do mundo, o Brasil é a fazenda. A agricultura brasileira floresce e dá frutos. No social, vai de Josué de Castro, com o seu Geografia da Fome, nos anos 40, a José Graziano, recém-eleito à presidência da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).

A bandeira inicial levantada por Lula no seu discurso da vitória foi "Fome Zero", e não o "Tolerância Zero" aplicado à violência em Nova York, por exemplo.

Em 2007, na alta global do preço dos alimentos, que, a rigor, beneficia macroeconomicamente o Brasil, mas prejudica pobres de todas as partes, o governo reajustou o Bolsa Família de forma a compensar a perda de renda na base. Dilma repete a receita ao eleger como meta principal a erradicação da miséria (tecnicamente, o miserável é aquele que não consegue suprir suas necessidades calóricas básicas). O lema geral de governo é "Um país rico é um país sem pobreza", e o Brasil sem Miséria, a sua principal inovação.

A recente tentativa de compra do Carrefour veio adicionar um tempero global ao comércio local de alimentos. Se o Cristo Redentor decolando na capa da "The Economist" como uma espécie de super-homem virou ícone do momento brasileiro, Abilio Diniz tentou fazer o mesmo com o Pão de Açúcar.

Agora, pelos dados de compras mostrados pela POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), do IBGE, fica difícil entender todo esse interesse pelo setor varejista de alimentos do país, uma vez que a despesa em alimentação por família caiu 0,34% em termos reais no boom entre 2003 e 2009, quando 36 milhões de pessoas foram incorporadas às classes A, B e C tupiniquins.

Isso significa mais dinheiro no bolso e menos alimento na boca?

O paradoxo aumenta se levarmos em conta a diferença entre a alimentação feita fora do lar, que cresce 29%, e aquela feita em casa, esta vendida pelos supermercados, que cai ainda mais: 9,7%. Os próprios dados qualitativos da POF contradizem essa ideia: a parcela da população para quem a quantidade não é suficiente cai 34,3%, enquanto a parcela daqueles aos quais a qualidade do alimento é sempre do tipo que querem sobe 33,1%.

Se pensarmos a POF como uma suculenta iguaria, entre o garfo e a boca existem vários percalços. A queda da despesa com comida por família não implica que a despesa por brasileiro também caiu, pois as famílias estão ficando menores à luz da transição demográfica em curso. Em 1992, cada domicílio tinha cinco pessoas e, agora, menos de quatro --esse é o segredo da receita. O problema afeta os desavisados, que usam as tabulações do IBGE como se fossem "junk food".

Na verdade, a despesa de alimentação em casa por brasileiro não caiu. Agora, a gente não quer só comida, se forem incluídas as despesas com bebida, material de limpeza, produtos de higiene pessoal e outros agregados. Quando sobem de classe, as pessoas mudam tanto os produtos que compram como os locais de compra. Esse é o pomo da discórdia franco-brasileira. Alguém da classe E faz 28% dessas despesas em supermercados, enquanto as classes A e B fazem 63%.

Se medirmos onde o custo da sola de sapato de Milton Friedman é gasto, as classes A e B, que crescem mais que todas as demais, compram em supermercados quatro vezes o que a classe E compra e fazem 30% menos compras em outros estabelecimentos.

À medida que a sociedade fica mais rica, especialmente se sai da base da pirâmide - como aqui, mas não alhures-, gasta mais tempo nesses locais com ar condicionado, tanto pelo leque de escolhas e praticidade, incluindo estacionamento e, agora, as vias da internet, como pela segurança. Se aplicarmos a projeção de composição de classes do CPS (Centro de Políticas Sociais) para 2014, fruto do efeito renda, as despesas em supermercado crescerão de 47% para 52% como parcela do agregado de despesas.

Alfred Marshall dedicou atenção a lições do mercado de peixes. Os leitores da Folha talvez achem que, se estivesse vivo, Marshall usaria agora como inspiração o mercado financeiro. Discordo: o super, ou melhor, o hipermercado de agora é o próprio. Nenhum outro descreve melhor o nosso dia a dia.

Fonte: IHU

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

FUTEBOL - Os atritos entre Dilma e a FIFA.

Por wilson yoshio.blogspot

Do Blog do Perrone

Fifa irritou Dilma ao negar credencial para concorrentes da Globo

Um dos principais motivos de irritação de Dilma Rousseff com o COL (Comitê Organizador Local) e a Fifa foi um pedido negado de credencias para jornalistas que fazem a cobertura diária do Palácio do Planalto.

Às vésperas do sorteio das eliminatórias da Copa de 2014, a equipe da presidente pediu cerca de 80 credenciais. Conseguiu algumas, mas a Fifa não quis dar autorização para Record e SBT acompanharem Dilma no evento.

O COL informou ao estafe presidencial que a federação internacional não poderia ferir o contrato com a Globo, que tinha exclusividade na solenidade, organizada pela Geo Eventos, da qual a emissora é uma das sócias.



Dilma se irritou. Ela e seu estafe interpretaram como uma retaliação de Ricardo Teixeira à Record, que tem exibido reportagens com denúncias contra o dirigente. A equipe da presidente alegou que o COL e a Fifa podem escolher seus parceiros. Mas o Governo Federal tem que garantir os mesmos direitos a todos. E é praxe os jornalistas de Brasília seguirem a comitiva presidencial.

Como resposta, o governo marcou uma entrevista de Pelé, na véspera do sorteio, no Museu de Arte Moderna do Rio, fora da jurisdição da Fifa e do COL. Lá todas as emissoras de TV tinham passe livre.

Para o governo, a Fifa foi arrogante. O COL argumentou que além do problema contratual havia uma limitação de espaço, sem contar que o prazo para credenciamento já tinha terminado. Defendeu-se também dizendo que concorrentes da Globo tiveram liberdade para trabalhar nas entrevistas após o evento.

A tendência é que mais atritos como esse aconteçam, pois os parceiros na organização da Copa tem interesses diferentes e conflitantes.

POLÍTICA - O exemplo de Dilma Rousseff

Por Marcos RTI

Da Rádio ONU

Presidente de Comitê da ONU elogia estilo de governar de Dilma Rousseff

Mônica Villela Grayley, da Rádio ONU em Nova York. 29/07/2011

Para acadêmica e feminista, Sílvia Pimentel, líder brasileira está impondo ‘marca própria’ e deve inspirar mais mulheres a fazer política partidária.

A presidente da Comissão das Nações Unidas de Eliminação da Discriminação a Mulheres, Cedaw, Sílvia Pimentel, afirmou que a eleição de Dilma Rousseff deve levar a um aumento da participação feminina na política brasileira.

Sílvia Pimentel encerrou, nesta sexta-feira, em Nova York os trabalhos da 49ª. sessão da Cedaw, onde foi analisada a situação das mulheres em vários países incluindo Nepal, Costa Rica e Itália.

Maneira Competente

Ao falar à Rádio ONU sobre os progressos das mulheres no Brasil, a professora Sílvia Pimentel, elogiou o estilo de gerenciamento da presidente Dilma Rousseff.



“Eu acho que essa mulher tem uma história extraordinária. Mas não tem só uma história e um passado extraordinário. Ela tem um presente e um passado muito próximo, que é de todo o trabalho que ela desenvolveu no governo anterior. E ela hoje, nesse governo enquanto presidente, está mostrando com que força e vontade ela está tentando desempanhar da maneira competente. Ela é uma grande mulher, gerente e administradora.”

Recomendações

Acadêmica e feminista, Sílvia Pimentel participa da Cedaw há vários anos como especialista na causa das mulheres. Em janeiro, ela foi eleita para presidir o comitê que conta com feministas de todo o mundo.

O objetivo do grupo é acompanhar os progressos e desafios sobre a discriminação a mulher, analisar a situação das mulheres em vários países que se comprotem em combater o problema, e fazer recomendações para o fim da discriminação e desvantagens baseadas em gênero.

As sessões da Cedaw são realizadas, alternadamente, em Genebra e Nova York.

http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/2011/07/presidente-de-comit...

FUTEBOL - O colonialismo explícito da FIFA.

Carlos Chagas

Não é preciso diploma universitário. Qualquer estudante de Historia, no ensino médio, saberá discorrer sobre os tempos do colonialismo, da época da Companhia das Índias Ocidentais, da França Antártica, da dominação da Índia e da Indochina, da África, Ásia e América por Portugal, Espanha, Inglaterra, Itália, França, Alemanha e adjacências.

Felizmente, já passou o período em que os povos colonizados eram tidos como animais, indivíduos até sem alma. Já passou? Coisa nenhuma. E não estamos falando do imperialismo ainda vigente. É de colonialismo, mesmo, como esse praticado pela FIFA, cuja evidência mais gritante nós e mais 500 milhões de telespectadores assistimos no último sábado, ironicamente à margem das águas da baía da Guanabara, de onde os franceses foram expulsos, 500 anos atrás.

Não se fala, hoje, pois já falamos há pouco, da impertinência de Joseph Blatter e sua quadrilha, exigindo o fechamento do aeroporto Santos Dumont durante quatro horas, por conta da cerimônia do sorteio. Ou de suas imposições a respeito da lotação e da arquitetura dos estádios onde se realizarão os jogos da Copa do Mundo, em 2014. Muito menos da indicação das empreiteiras encarregadas das obras, ou dos contratos de publicidade, comissões e propinas que escorrem desse covil de malandrões envoltos pela soberba.

Nem será preciso alertar, também, para o fato de que pretendem influir até no relógio: exigem que a maioria das partidas venha a se iniciar às 13 ou 14 horas, debaixo de um sol que o inverno brasileiro permite apresentar-se sufocante. Para que? Para que na Europa as transmissões televisivas cheguem em horário aprazível, sem obrigá-los a dormir mais tarde.

O tema hoje, porém, é mais profundo. Trata-se de colonialismo mesmo, explícito, puro e insofismável. Europeu, como não poderia deixar de ser. Por que 13 vagas na competição são destinadas a 53 países do Velho Mundo, quando 4, mais o Brasil, país-sede, destinam-se à América do Sul? Apenas 3 para a América do Norte, América Central e Caribe? Para a África, 5. Para a Ásia, 4. Mas para eles, 13.

Será vigarice argumentar que no resto do mundo existem países incluídos na disputa sem a menor tradição no futebol, como Serra Leoa, Burquina Faso, Benin, Botsuana e Ilhas Maurício, na África. Ou Ilhas Cayman, Bermudas, Cuaraçau e Belise, no Concacaf. Muito menos Cingapura, Oman e Bahrein, na Ásia.

E por razão muito simples: entre os 53 europeus incluem-se Malta, Ilhas Faroe, Luxemburgo, Andorra, Liecheinstein, San Marino e quantos outros onde a bola, chutada para cima, é tida como objeto não identificado? Sem falar em outras maracutaias como dividir aquele pequeno arquipélago por quatro, abrindo vaga para Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, na verdade governados por um só primeiro-ministro e representados por uma só rainha.

Com a implosão da União Soviética e da Iugoslávia, sem esquecer a divisão da Tchecoslováquia, surgiram dezenas de novos candidatos, ainda toleráveis, mas não deixa de ser cômico verificar estarem na disputa européia Armênia, Geórgia, Azerbaijão, Bielorússia e Moldávia, entre outros que até hoje confundem futebol com basquete. É mais ou menos como se a Federação viesse a ser extinta entre nós, e passássemos a exigir 27 vagas, inclusive para Rondônia, Roraima, Acre, Amapá e Piauí.

Convenhamos, nada conseguirá ofuscar o futebol sul-americano ou, muito menos, a festa que ofereceremos ao mundo daqui a três anos. Seria bom que a FIFA atentasse para o tempo do verbo: ofereceremos, quer dizer, nós, não a entidade colonialista que apenas atrapalha
Fonte: Tribuna da Internet.

POLÍTICA - Dilma, a nova fase.

Cláudio Lembo

De São Paulo


Para Lembo, a presidente "tem componentes diferentes dos operadores políticos de todos os tempos"

Em todos os ambientes, quando se fala em política, coloca-se uma pergunta: como vai o governo Dilma? É natural a indagação. No presidencialismo, mais que no parlamentarismo, a figura do supremo mandatário tem importância expressiva.

O Parlamento, por mais que mostre vocação cívica, jamais consegue atingir o espaço de expressão do Executivo. O Judiciário, apesar do atual ativismo, ainda é poder que exige provocação para agir.

O Executivo, ao contrário dos demais poderes, está sempre presente na vida do cotidiano das pessoas. A cidadania acompanha com acuidade todos os atos do mandatário. Eles repercutem no dia-a-dia de cada cidadão, mesmo que não incidam diretamente sobre os seus interesses imediatos.

Dilma Rousseff atingiu a Presidência da República como reflexo de uma personalidade carismática e bem sucedida. Mais ainda. Respeitada por todas as classes sociais, salvo poucas exceções.

Suceder a Luiz Inácio Lula da Silva seria tarefa difícil para o mais experiente político, mais dificuldade encontra um quadro técnico acostumado à direção direta de seus subordinados e definição precisa dos objetivos.

A política é caleidoscópio. Jamais é possível aquilatar a próxima imagem. Tudo é mutável e a volubilidade das vontades humanas se apresenta no cenário político com enervante constância.

Compreensível, pois, a idas e vindas dos primeiros meses do atual governo. Só encontrou situações complexas. Lula, o líder sindical, é homem de conflitos e acordos transitórios.

Uma técnica, que sempre ocupou cargos administrativos, não pode utilizar o mesmo meio de convicção. Não possui tradição política e nem sequer atrativo para falar sem atingir conclusões.

Daí as pequenas crises, particularmente no trato dos assuntos ministeriais. Agiu mal, cai. Esta forma de atuar não era habito no período presidencial anterior e nem sequer faz parte dos hábitos políticos brasileiros.

O costume - diga-se de passagem, secular - é transigir e conciliar. Tudo acontece mediante conciliação. Nunca se vai às últimas conseqüências. Dilma rompeu a maldição.

É claro que determinados segmentos se encontram incomodados. No entanto, é possível que a presidenta esteja inaugurando um novo ciclo na política nacional.

Colocar as coisas no devido lugar. Fazer com que os fatos se tornem claros, as falcatruas expostas e seus autores exonerados é novidade que deixa perplexa muita gente.

O erro dos políticos tradicionais é nítido. Esqueceram de examinar a trajetória da presidenta Dilma. Ela sempre mostrou liderança e lutou, de maneira inequívoca, pela democracia e moralidade administrativa.

Ofereceu, em seu passado, em holocausto a dignidade humana o seu próprio sacrifício pessoal. Sofreu em sua a integridade física e perdeu a liberdade. Permaneceu com seus princípios.

Erram, pois, os políticos, inclusive os mais experientes que, em governos passados, ocuparam cargos relevantes nos poderes da República, em procurar agredi-la - e a seu governo - com palavras ou bravatas.

Dilma tem componentes diferentes dos operadores políticos de todos os tempos. Possui coragem e destemor. Não é carreirista. Quer exercer com dignidade seu mandato.

Se tudo isto não fosse suficiente, a democracia plena em que se vive não permite a presença da imoralidade administrativa e nem das velhas técnicas de desestabilização dos governantes.

A opinião pública sabe diferenciar com precisão os bons e os maus atos dos administradores. As boas e as más condutas dos políticos. Terminou a fase do quem pode leva.

Hoje, é preciso respeitabilidade para o exercício das funções públicas. A sociedade é implacável e acompanha cada movimento dos detentores de cargos nos três poderes da República.

Dilma age como quer a maioria da cidadania: preserva a dignidade do cargo e afasta firmemente os de conduta frágil. Tudo isto é novidade. Dai alguma perplexidade de seus adversários e dos analistas deformados pela paixão ou interesses.

Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.
Fonte: Terra Magazine.

POLÍTICA - Governo vai "prá cima dos corruptos".

Em encontro com petistas, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, disse que não há "clima de caça às bruxas" no governo, "mas um clima de ir pra cima, de cobrar sempre que houver algum tipo de erro".

A reportagem é de Fernando Gallo e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 01-08-2011.

A declaração foi feita após o surgimento, no fim de semana, de novas denúncias de irregularidades envolvendo os ministérios das Cidades e da Agricultura. Reportagens das revistas Isto É e Veja relataram supostos pagamentos irregulares nas pastas em troca de propinas. Os casos serão avaliados hoje pela presidente Dilma Rousseff na reunião de coordenação política do governo.

Carvalho participou do encontro das correntes que detêm a maioria dos cargos no Diretório Nacional do PT, em São Paulo, que terminou sem acordo sobre a proposta de restrição da realização de prévias internas para a escolha dos candidatos do partido em futuras eleições.

As prévias eram um dos principais temas da reunião da chapa que engloba as correntes Construindo um Novo Brasil (CNB) - a maior do partido, conhecida como Campo Majoritário até o escândalo do mensalão -, Novos Rumos e PT de Luta e de Massas.

O ministro, que nesta semana afirmou ao Estado que a realização de prévias seria um "desastre", recomendou cautela ao PT nas eleições. "Não podemos pôr os projetos pessoais acima dos coletivos", insistiu ele. "Há muitas disputas artificiais, que só nos causam desgaste e dão munição aos adversários."

Carvalho se referia a petistas que colocam seus nomes como pré-candidatos apenas para negociar espaços de poder. A mesma crítica foi feita pelo ex-ministro José Dirceu, que se disse favorável a "disciplinar as prévias" para "evitar abusos".

O ministro contou ter discutido a imagem da presidente Dilma entre os petistas. "Tentei dissolver algumas imagens que vão se formando, de uma presidenta que não dialoga com o partido ou que tem mais dificuldade do que o Lula de dialogar com os movimentos sociais", disse. "O Rui Falcão (presidente do PT) tem conversado com ela mais do que outros presidentes do partido conversavam com o Lula."

Carvalho criticou ainda a postura do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que na semana passada declarou ao jornal Folha de S. Paulo ter votado em José Serra (PSDB) para presidente. "No contexto em que se deu foi uma declaração que eu chamaria de desnecessária. Não sei quais as razões que o levaram a dizer isso nesse momento."

Na falta de acordo sobre prévias, nenhum documento foi elaborado pelos petistas para ser levado ao congresso nacional do partido, em setembro. Entre as propostas restritivas pensadas pelo grupo encabeçado pelo deputado federal Ricardo Berzoini (PT-SP) está a necessidade de que o pré-candidato tenha apoio de 30% dos delegados ou 20% dos filiados, o dobro do exigido hoje. É a proposição que encontra maior resistência no partido.

"A proposta, do jeito que está, acaba com as prévias", disse o deputado Carlos Zarattini (PT-SP), pré-candidato a prefeito nas eleições de 2012 em São Paulo. Para ele, na capital paulista essa exigência equivaleria a 24 mil assinaturas e, no Estado, a 50 mil. "O PSDB quer discutir como fazer prévia e nós, como acabar com elas?", provocou.

Fonte: IHU

EUA - "Tea Party" criou dificuldades para Obama.

As idas e vindas nas negociações sobre a crise da dívida dos Estados Unidos deixaram claro como o Congresso americano se tornou refém do Tea Party, a facção mais à direita do Partido Republicano. Por extensão, também o governo de Barack Obama acabou caindo na armadilha do grupo criado em 2009 para se opor ao aumento de impostos e exigir a redução do rombo fiscal do país.

A reportagem é de Denise Chrispim Marin e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 01-08-2011.

Segundo Thomas Mann, sócio sênior do Brookings Institution, a crise tem sido orientada pelos princípios e demandas não negociáveis dos simpatizantes do Tea Party. "Eles estão perfeitamente dispostos a empurrar o país para a suspensão de pagamentos se suas propostas de corte de gastos públicos e de redução de tributos não forem aceitas, mesmo que suas ambições nas eleições de 2012 sejam prejudicadas", afirmou Mann ao Estado.

A própria polêmica em torno do limite para o endividamento federal dos Estados Unidos surgiu por pressão de deputados e senadores eleitos em 2010 pelo Tea Party e de simpatizantes da causa.

Desde a criação desse teto, em 1917, o aumento da cifra (hoje em US$ 14,3 trilhões) havia sido resultado de simples processos de tramitação no Congresso. Desde 1940, houve 90 elevações automáticas. Em boa medida, porque a elevação desse limite não significa a autorização para gastos adicionais do governo federal, mas despesas previstas no orçamento, aprovado pelo Congresso.

Grupo de terça-feira. Desta vez, a mudança significativa se deu no Congresso, com as eleições de novembro de 2010. Primeiro, com o domínio republicano da Câmara. Segundo, com a eleição de 17 autênticos representantes do Tea Party. Terceiro, com a maioria dos republicanos sensibilizada pelo discurso da direita radical.

Os 45 republicanos moderados, neste momento, estão acantonados no chamado "grupo de terça-feira", uma referência ao prazo máximo para o acordo sobre o limite da dívida federal. Um dos primeiros caciques políticos a perceber o poder da nova facção foi o presidente da Câmara dos Deputados, John Boehner. Sua proposta de aumento do limite de endividamento - aprovada na Câmara e rejeitada pelo Senado na sexta-feira passada - refletiu em grande medida as convicções do Tea Party.

Concessões

Nos últimos dois dias, o senador Harry Reid, líder da maioria democrata na Casa, retirou de sua proposta todos os elementos rejeitados pelos republicanos, sobretudo os do Tea Party, no esforço de angariar os 60 votos necessários para a sua aprovação.

Reid limou o aumento de tributos e até mesmo o fim de reduções fiscais para os americanos mais abastados e as grandes empresas - questão medular para os democratas e para o presidente Barack Obama. Ele não negociou sozinho com a oposição. Reid teve a seu lado o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, e o aval do próprio Obama para todas as concessões presentes no seu texto. Nesse sentido, pode incorporar uma ideia semelhante à da proposta de Boehner, antes rechaçada pela Casa Branca, para o aumento do teto da dívida pública federal.

Trata-se da elevação em duas etapas, medida que não ofereceria a Obama a segurança de atravessar o ano eleitoral de 2012 sem a ameaça de mais uma suspensão de pagamentos federais. O presidente concorre à reeleição no ano que vem.

Como ficou

O acordo entre os líderes do Senado e da Câmara dos Deputados dos EUA foi o resultado de quase 24 horas de negociação. Teve como base a proposta do senador democrata Harry Reid, mas foi alterado drasticamente por pressão dos republicanos.

Teto da dívida: O texto prevê o aumento de US$ 2,4 trilhões no limite de endividamento do governo federal americano, hoje de US$ 14,3 trilhões. Porém, em duas etapas, como a Casa Branca resistia a aceitar.

Cortes de despesas: O governo já se comprometeria com cortes de US$ 927 bilhões, nos próximos dez anos, nos gastos de agências federais, como as de saúde para idosos e carentes e a Previdência Social, e do Pentágono.
Aumento de impostos: Não ocorreria em um primeiro momento.

Comitê bipartidário: O grupo de 12 congressistas, dos dois partidos, será criado em novembro para avaliar a aplicação do ajuste fiscal e fazer novas recomendações. Seu objetivo inicial será reduzir o déficit primário a 3% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2010, foi de 8,92% do PIB.
Fonte:IHU

EUA - A emboscada de Obama contra os direitos sociais.

Wall Street sabe que para ter votos suficientes no Congresso para destruir o New Deal, o Social Security, o Medicare e o Medicaid, é preciso ter um presidente democrata no comando. Um congresso democrata bloquearia qualquer tentativa republicana de fazer o tipo de corte que Obama está propondo. Mas a oposição democrática fica paralisada quando o próprio presidente Obama – o presidente liberal por excelência, o Tony Blair americano – age como o chefe de torcida para cortar direitos e outros gastos sociais. O comentário é de Michael Hudson em artigo publicado no New Economic Perspectives, traduzido e reproduzido pela CartaMaior, 31-07-2011.

Eis o artigo.

Você sabe que a outra face da dívida está tão melodramaticamente encenada como uma exibição da Federação Mundial de Luta-Livre quando Obama faz a sua flagrantemente vazia ameaça ao Congresso, de que se não “atacar os desafios mais difíceis dos direitos sociais e da reforma tributária” não haverá dinheiro para pagar o Social Security no próximo mês. Nessa fala sobre o déficit, na noite de 25 de julho, ele ameaçou que “se nos declararmos inadimplentes, não teremos dinheiro suficiente para pagar todas as nossas contas – as quais incluem os pagamentos mensais do Social Security, as pensões dos veteranos de guerra e os contratos do governo que assinamos com milhares de empresas”.

Isso não é verdade nem de longe. Mas se tornou o tema mais assustador há mais de uma semana, desde que o presidente usou quase as mesmas palavras nas suas entrevistas ao âncora do jornal da noite da CBS, Scott Pelley.

É claro que o governo terá dinheiro suficiente para pagar o Social Security mensalmente. A administração do Social Security tem seus próprios fundos – nas contas do Tesouro. Eu entendo que advogados (como Obama e na verdade a maior parte dos presidentes americanos) raramente entendem de economia. Mas esta é uma questão legal. Obama certamente deve saber que o Social Security é solvente, com ativos líquidos para pagá-lo por muitas décadas vindouras. Ainda assim, Obama pôs o Social Security lá no topo da lista.

A explicação mais razoável para essa ameaça vazia é que ele está tentando causar pânico nos idosos, na expectativa de que de alguma maneira a negociação do orçamento pareça ser sacada de sua manga para salvá-los. A realidade, claro, é que eles estão sendo levados para o abate. (E nem uma palavra corretiva lembrando ao presidente a realidade financeira, por parte do secretário da rubineconomia [n.1], secretário do Tesouro Geithner, do neoliberal presidente do Federal Reserve, Bernanke, ou qualquer outro na administração democrata de Wall Street, conhecida como Conselho de Lideranças Democrata).

É um engodo. Obama chegou a enterrar o Social Security, o Medicare e o Medicaid, não para salvá-los, mas para matá-los. Isso estava claro desde o começo dessa administração, quando ele designou sua Comissão para Redução do Déficit, liderada pelos inimigos confessos do Social Security, como o senador do Wisconsin, Alan Simpson e Erskin Bowles, outro nome da rubineconomia, da administração Clinton. As mais recentes escolhas de Obama, de republicanos e de democratas conservadores para serem delegados no Congresso a fim de reescreverem o código tributário num jogo bipartidário – para evitar sua rejeição – não passa de uma manobra para aprovar uma "reforma" fiscal impossível de aprovar por representantes democraticamente eleitos.

O diabo sempre está nos detalhes. E os lobistas de Wall Street sempre têm esses detalhes bem dobrados em suas pastas para pô-los à disposição dos seus representantes no Congresso e dos senadores dedicados. E neste caso eles têm o presidente, que tem aceitado seus conselhos ao ponto de convidar para fazerem parte de seu gabinete e agirem com factoides para capturar o governo em seu benefício e assim criarem o “socialismo para os ricos”.

Não há tal coisa, é claro. Quando os governos são dos ricos, a isso se chama oligarquia. Os diálogos de Platão deixam claro que, em vez de se tomar as sociedades como democracias ou oligarquias, era melhor observá-las em movimento. As democracias tendem a polarizarem economicamente (sobretudo entre credores e devedores) até se tornarem oligarquias. Estas, por sua vez, tendem a se tornarem aristocracias hereditárias. No tempo, famílias dominantes vão lutar entre si, e um grupo (como os Kleisthenes em Atenas em 507 a.C.) levaria “o povo para dentro da festa” e criaria uma democracia. E assim o triângulo eterno da política seguiria adiante.

É isso o que está se passando hoje. Em vez de aproveitar o que a Era Progressista antecipou – uma evolução na direção do socialismo, com o governo fornecendo a infraestrutura básica e outras necessidades com subsídio -, estamos vendo um lapso temporal de volta ao neofeudalismo. A diferença, claro, é que esse tempo para a sociedade não é controlado por garras militares no território. Hoje a finança obtém o que a força militar fazia em tempos passados. Em vez de amarrados à terra sob o feudalismo, hoje as famílias podem viver onde quer que queiram – contanto que levem uma vida inteira para pagar a hipoteca ou qualquer casa que venham a comprar.

E em vez da sociedade pagar tributos pelo uso da terra a conquistadores, paga aos banqueiros. Assim como o acesso à terra era precondição para as famílias se sustentarem durante o feudalismo, precisa-se ter crédito, para água, assistência médica, pensões ou Social Security e outras necessidades básicas, hoje em dia – e deve-se pagar juros, recompensar e monopolizar a renda para a oligarquia neofeudal que agora fazendo das suas, dos EUA a Irlanda e Grécia.

O governo dos EUA gastou 13 trilhões de dólares em resgates financeiros, desde a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Mas Obama alerta que, de trinta anos para cá, o fundo de ativos que financia o Social Security gerou um déficit de 1 trilhão de dólares. É para evitar isso que ele pede com urgência o desmantelo dos programas sociais para arcar com aqueles pagamentos, agora.

Parece que os 13 trilhões usados eram todo o dinheiro que o governo verdadeiramente tem. Os bancos e as empresas de Wall Street pegaram o dinheiro e se foram. Não há o suficiente para pagar o Social Security, o Medicare ou outro gasto social que os democratas conservadores e os republicanos planejam cortar, agora.

Não tão rápido. O plano será “mascarar” a crise atual, reduzindo os planos à “Comissão para a Redução do Déficit #2”, nomeada pelos membros do Congresso. Finalmente, temos a “mudança em que podemos acreditar”. A mudança real é sempre surpreendente, afinal.

A falsa crise

Muitas vezes é necessário uma crise para criar um vácuo que alimenta esses detalhes tóxicos. Está claro que Wall Street não gosta de crises reais – exceto aquelas que fazem os computadores gerarem rápidos ganhos especulativos na fibrilação atual do ziguezague dos mercados. Mas quando o assunto é dinheiro vivo, a ilusão de uma crise tem preferência, elevada melodramaticamente ao estágio que mobilize emocionalmente ao máximo a audiência, tanto como um bom editor edita um plano sequência. O trem acelerado passará por cima da garota amarrada aos trilhos? Ela escapará a tempo?

O trem é o débito; a garota é para ser tomada como a economia estadunidense. Mas ela se mostra nada mais que Wall Street disfarçada. O exercício vira uma comédia nem tão divina. Obama oferece um plano que parece bastante republicano. Mas os republicanos dizem não. Há uma ilusão de que uma luta real se passa. Eles acusam Obama de socialista.

Os democratas expressam choque com o desconforto de serem ameaçados. Muitos dizem “onde está o real Obama?”. Mas parece que o Obama real se tornou um republicano de Wall Street disfarçado, vestido com roupas democratas. É isso o que o Comitê de Líderes Republicanos é, basicamente: Democratas de Wall Street.

Isso não é tanto um oximoro como pode parecer. Há uma razão por que os democratas pós-Clinton de hoje são partidários do desfazimento do que Franklin Delano Roosevelt e democratas de antanho defenderam. Um Senado democrata nunca deveria ceder aos constrangimentos impostos por Wall Street e trair sua constituição urbana, caso um presidente republicano propusesse o que Obama está lhes oferecendo.

Eis o que o próximo candidato republicano pode dizer: “Você sabe que o que quer que nós, republicanos, quisermos, Obama irá nos apoiar. Se você não quer uma política republicana, então vote em mim para presidente. Porque um Congresso democrata irá se opor a uma política republicana caso proponhamos essas medidas. Mas se Obama as propõe, o Congresso envelhecerá e não resistirá”.

É a mesma história na Inglaterra, onde o Partido Trabalhista é convocado para terminar o trabalho que os conservadores começaram, mas precisam agora do Novo Trabalhismo para acalmar a oposição popular à privatização de rodovias e parcerias público-privadas na administração das linhas do metrô de Londres. E é a mesma história na França, onde um governo socialista está dando apoio a programas de privatização ditados pelo Banco Central Europeu.

Revisitando as falácias de sempre

Quando se encontra representantes dos governos e a mídia repetindo erros econômicos como um mantra incessante, sempre há um interesse especial em operação. O setor financeiro tem interesse específicos em desviar os passos dos eleitores, fazendo-os crer que a economia afundará numa crise se Wall Street não tiver o que pretende – frequentemente por meio da isenção de tributos e da sua desregulação.

A primeira falácia de Obama é a de que o orçamento do governo é como o da família. Famílias não emitem títulos da dívida e obrigam o resto do mundo a lidar com isso como dinheiro fosse. Só governos podem fazê-lo. É um privilégio que os bancos agora gostariam de ter – a capacidade de criar créditos livremente nos teclados de seus computadores e cobrar juros sobre o que é quase de graça e que os governos podem na verdade criar gratuitamente.

“Hoje, todas as famílias sabem que uma pequena dívida de cartão de crédito é gerenciável. Mas se mantemos esse mesmo padrão, o crescimento de nossa dívida poderá nos custar empregos e causar um sério prejuízo à economia”. Mas economias necessitam do dinheiro do governo para crescer – e esse dinheiro é fornecido pela rolagem dos déficits orçamentários federais. Essa tem sido a essência do gasto anticíclico keynesiano por mais de meio século. Até hoje, essa era uma política do partido democrata.

É verdade que o presidente Clinton operou um superávit orçamentário. A economia sobreviveu por conta do sistema bancário comercial, que supriu o crédito necessário para a economia crescer – à base de juros. Para forçar a economia a se fiar Wall Street em vez de no governo, o governo precisa parar de gerar déficits orçamentários. A economia então terá uma escolha: encolher rapidamente ou se transferir quase todo o superávit orçamentário aos bancos, enquanto a economia rende com base no privilégio da criação de crédito.

Obama também finge que as agências de classificação de crédito estão prontas para agirem como mascotes de seus clientes, a maior parte dos seguradores financeiros, ao fazerem toda a economia pagar taxas de juros cada vez mais altas em seus cartões de crédito e bancos. “Pela primeira vez na história”, dissimula Obama, “nossa classificação com um triplo A estaria em queda, deixando os investidores ao redor do mundo a se perguntarem se os EUA ainda é uma boa aposta. As taxas de juros iriam disparar nos cartões de crédito, hipotecas e aluguéis de carros, o que implicaria uma grande alta de impostos sobre o povo americano”.

A verdade é que gerar um superávit orçamentário aumentaria as taxas de juros, porque forçaria a economia a ficar cativa do sistema bancário. A administração Obama agora está profundamente envolvida numa fase retórica orwelliana.

Durante a fala de Obama, não pude deixar de sentir que tinha escutado aquilo antes. E então me lembrei quando. Em 2008, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, disse, para contrapor o argumento de Sheila Blair, de que todos os clientes do sistema estadunidense de seguros dos depósitos bancários (FDIC) poderiam frear a crise de setembro, com só os jogadores temerários perdendo ganhos que só poderiam esperar obter no seu sistema de crédito livre. “Se o sistema financeiro for autorizado a colapsar”, ele alertou, no seu discurso na Biblioteca Reagan, “é o povo americano que pagará o preço. Isso nunca se tratou de bancos, mas sempre de oportunidade e prosperidade continuada para todos os americanos”.

Mas é claro que se trata de bancos. Wall Street sabe que para ter votos suficientes no Congresso para destruir o New Deal, o Social Security, o Medicare e o Medicaid, é preciso ter um presidente democrata no comando. Um congresso democrata bloquearia qualquer tentativa republicana de fazer o tipo de corte que Obama está propondo. Mas a oposição democrática fica paralisada quando o próprio presidente Obama – o presidente liberal por excelência, o Tony Blair americano – age como o chefe de torcida para cortar direitos e outros gastos sociais.

Dessa maneira, assim como a City de London deu sustentação ao Partido Trabalhista inglês nas suas diretrizes, quando o Partido Conservador não poderia dar esses passos radicais, como privatizar as autoestradas e o metrô de Londres, e só os social democratas da Islândia puderam afundar a economia na vassalagem da dívida em relação a Inglaterra, a Holanda, e o Partido Socialista Grego está à frente da luta pela privatização e pelos resgates bancários, assim nos EUA o Partido Democrata está entregando sua base eleitoral – trabalho urbano, especialmente as minorias radicais e os pobres que são os mais injuriados pelo plano de austeridade de Obama – a Wall Street.

Portanto, Obama está fazendo o que qualquer bom demagogo faz: entregando seu eleitorado ao seus financiadores de campanha de Wall Street. Yves Smith chamou a isso de “a ida de Nixon a China ao contrário”.

Os republicanos retribuem sem pôr uma alternativa confiável na candidatura à sucessão presidencial. O efeito consiste em dar a Obama espaço para ele se mover à vontade para a direita do espectro político. Longe o suficiente dos seus democratas, que estão mais interessados em resgatar o Social Security, não dos republicanos.

Isso se faz mais facilmente sob a pressão do pânico próximo. Isso funcionou depois de setembro de 2008 com o programa de resgate bancário (TARP), afinal de contas. O melodrama do resgate de Wall Street deveria ser visto como um ensaio geral para a atual não crise do teto da dívida.

Nota:

[1] Um neologismo corrente hoje nos EUA, derivado do todopoderoso Rubin, Secretário do Tesouro no governo Clinton, ex-executivo do ban co Goldman Sachs e homem chave na implementação das contra-reformas neoliberais nos EUA dos anos 90.

ECONOMIA - Agências de risco americanas.

Agências de risco de novo entram na linha de tiro

Os EUA perderam sua classificação de crédito AAA dez dias atrás. Provocado pela elevação enorme no nível da dívida, o rebaixamento foi noticiado, mas não fez manchetes nas primeiras páginas.

A reportagem é do Financial Times reproduzido pelo jornal Folha de S.Paulo, 01-08-2011.

A agência que fez o rebaixamento foi a pequena Egan-Jones. Sean Egan, que a fundou em 1995, não está preocupado com a ausência de publicidade. Sua empresa emprega cinco analistas, contra mil no caso da Fitch, Moody's e Standard & Poor's.

A confiabilidade das classificações de crédito e a influência das grandes agências estão novamente suscitando debates em todo o mundo. A reação vem sendo mais áspera na Europa, onde os recentes rebaixamentos de governos da zona do euro suscitaram críticas fortes.

Na realidade, as agências estão na linha de fogo desde a crise financeira - depois de dívidas de trilhões de dólares garantidas por hipotecas americanas de alto risco terem sido classificadas AAA. Os chamados por reformas ganharam novo ímpeto de ambos os lados do Atlântico.

Se a Fitch, a Moody's e a S&P rebaixassem a dívida americana, provavelmente haveria rebaixamentos nas classificações de hipotecas, câmaras de compensação, bancos e seguradoras.

A posição europeia vem sendo criticada por investidores e analistas, alguns dos quais estão satisfeitos pelo fato de as agências grandes terem atitude pró-ativa. Qualquer mudança grande nas regras de classificação teria um impacto enorme sobre os títulos de crédito.

Estão sendo tomadas medidas para modificar o sistema. Mas isso é algo que é mais fácil falar do que fazer. Não existem alternativas simples. As opções incluem permitir que as instituições utilizem seus próprios modelos internos e empreguem uma fórmula de risco criada por reguladores.

POLÍTICA - Campo majoritário do PT quer mudar regras de filiação.

O Campo Majoritário do PT, grupo que agrega as três tendências hegemônicas do partido, pretende propor o endurecimento nas regras para filiação à sigla, hoje, após o segundo dia de seminário na capital paulista.

A reportagem é do jornal Folha de S.Paulo, 31-08-2011.

A mudança consta no relatório do deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), que preside a comissão de revisão do estatuto do partido. A proposta é exigir um número mínimo de participações em reuniões da legenda, além do pagamento anual de uma taxa de contribuição -hoje cobrada de três em três anos.

Ontem, após a primeira reunião, arrefeceu a teoria de que o Campo Majoritário irá defender formalmente uma mudança na regra das prévias para escolha de candidatos do PT.

O tema está na pauta do seminário. A tendência é que o grupo reafirme as prévias como "último instrumento de disputa na sigla", mas não formalize uma proposta que dificulte a consulta.

A pressão é uma tentativa de evitar desgaste pela disputa entre a senadora Marta Suplicy e o ministro Fernando Haddad (Educação) pela candidatura à Prefeitura de SP.

ECONOMIA - Os porquês da fome.

A crise alimentar na África e, em particular, a fome na Somália são resultado de uma globalização ao serviço de interesses privados. Comida há, o problema não é de produção mas de acesso. O comentário é de Esther Vivas, membro do Centro de Estudos sobre Movimentos Sociais – CEMS da Universidade Pompeu Fabra – UPF, em Barcelona, Espanha, em artigo publicado pelo sítio esquerda.net, 31-07-2011.

Eis o artigo.

Vivemos num mundo de abundância. Hoje produz-se comida para 12 bilhões de pessoas, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), quando no planeta habitam 7 bilhões. Comida, existe. Então, porque uma em cada sete pessoas no mundo passa fome?

A emergência alimentar que afeta mais de 10 milhões de pessoas no Corno de África voltou a colocar na atualidade a fatalidade de uma catástrofe que não tem nada de natural. Secas, inundações, conflitos bélicos… contribuem para agudizar uma situação de extrema vulnerabilidade alimentar, mas não são os únicos fatores que a explicam.

A situação de fome no Corno de África não é novidade. A Somália vive uma situação de insegurança alimentar há 20 anos. E, periodicamente, os meios de comunicação removem os nossos confortáveis sofás e recordam-nos o impacto dramático da fome no mundo. Em 1984, quase um milhão de pessoas mortas na Etiópia; em 1992, 300 mil somalis faleceram por causa da fome; em 2005, quase cinco milhões de pessoas à beira da morte no Malaui, só para citar alguns casos.

A fome não é uma fatalidade inevitável que afeta determinados países. As causas da fome são políticas. Quem controla os recursos naturais (terra, água, sementes) que permitem a produção de comida? A quem beneficiam as políticas agrícolas e alimentares? Hoje, os alimentos converteram-se numa mercadoria e a sua função principal, alimentar-nos, ficou em segundo plano.

Aponta-se a seca, com a consequente perda de colheitas e gado, como um dos principais desencadeadores da fome no Corno de África, mas como se explica que países como Estados Unidos ou Austrália, que sofrem periodicamente secas severas, não sofram fomes extremas? Evidentemente, os fenomenos meteorológicos podem agravar os problemas alimentares, mas não bastam para explicar as causas da fome. No que diz respeito a produção de alimentos, o controle dos recursos naturais é chave para entender quem e para quê se produz.

Em muitos países do Corno de África, o acesso à terra é um bem escasso. A compra massiva de solo fértil por parte de investidores estrangeiros (agro-indústria, Governos, fundos especulativos…) têm provocado a expulsão de milhares de camponeses das suas terras, diminuindo a capacidade destes países para se auto-abastecerem. Assim, enquanto o Programa Mundial de Alimentos tenta dar de comer a milhões de refugiados no Sudão, dá-se o paradoxo de que governos estrangeiros (Kuwait, Emiratos Árabes Unidos, Coreia…) compram-lhes terras para produzir e exportar alimentos para as suas populações.

Assim mesmo, há que recordar que a Somália, apesar das secas recorrentes, foi um país auto-suficiente na produção de alimentos até ao final dos anos setenta. A sua soberania alimentar foi arrebatada em décadas posteriores. A partir dos anos oitenta, as políticas impostas pelo Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial para que o país pagasse a sua dívida com o Clube de Paris, forçaram a aplicação de um conjunto de medidas de ajustamento.

No que se refere à agricultura, estas implicaram uma política de liberalização comercial e abertura dos seus mercados, permitindo a entrada massiva de produtos subvencionados, como o arroz e o trigo, de multinacionais agro-industriais norte-americanas e europeias, que começaram a vender os seus produtos abaixo do seu preço de custo e fazendo a competição desleal com os produtores autóctones. As desvalorizações periódicas da moeda somali geraram também a alta do preço dos investimentos e o fomento de uma política de monoculturas para a exportação forçou, paulatinamente, o abandono do campo. Histórias parecidas deram-se não só nos países da África, mas também na América Latina e Ásia.

A subida do preço de cereais básicos é outro dos elementos assinalados como detonador da fome no Corno de África. na Somália, o preço do milho e do sorgo vermelho aumentou 106% e 180% respectivamente em apenas um ano. Na Etiópia, o custo do trigo subiu 85% em relação ao ano anterior. E no Quénia, o milho alcançou um valor 55% superior ao de 2010. Uma alta que converteu estes alimentos em inacessíveis. Mas, quais são as razões da escalada dos preços? Vários indícios apontam a especulação financeira com as matérias primas alimentares como uma das causas principais.

O preço dos alimentos determina-se nas Bolsas de valores, a mais importante das quais, a nível mundial, é a de Chicago, enquanto que na Europa os alimentos comercializam-se nas Bolsas de futuros de Londres, Paris, Amsterdam e Frankfurt. Mas, hoje em dia, a maior parte da compra e venda destas mercadorias não corresponde a trocas comerciais reais.

Calcula-se que, nas palavras de Mike Masters, do hedge fund Masters Capital Management, 75% do investimento financeiro no sector agrícola é de caráter especulativo. Compram-se e vendem-se matérias-primas com o objectivo de especular e fazer negócio, repercutindo finalmente num aumento do preço da comida para o consumidor final. Os mesmos bancos, fundos de alto risco, companhias de seguros, que causaram a crise das hipotecas subprime, são quem hoje especula com a comida, aproveitando-se dos mercados globais profundamente desregulamentados e altamente rentáveis.

A crise alimentar à escala global e a fome no Corno de África em particular são resultado da globalização alimentar ao serviço dos interesses privados. A cadeia de produção, distribuição e consumo de alimentos está nas mãos de umas poucas multinacionais que antepõem os seus interesses particulares às necessidades coletivas e que ao largo das últimas décadas têm corroído, com o apoio das instituições financeiras internacionais, a capacidade dos Estados do sul para decidir sobre as suas políticas agrícolas e alimentares.

Voltando ao princípio, porque existe fome num mundo de abundância? A produção de alimentos multiplicou-se por três desde os anos sessenta, enquanto que a população mundial tão só duplicou desde então. Não estamos a enfrentar um problema de produção de comida, mas sim um problema de acesso. Como assinalou o relator da ONU para o direito a alimentação, Olivier de Schutter, numa entrevista ao “El Pais”: “A fome é um problema político. E uma questão de justiça social e políticas de redistribuição”.

Se queremos acabar com a fome no mundo é urgente apostar noutras políticas agrícolas e alimentares que coloquem no seu centro as pessoas, as suas necessidades, aqueles que trabalham a terra e o eco-sistema. Apostar pelo que o movimento internacional da Vía Campesina chama a “soberania alimentar”, e recuperar a capacidade de decidir sobre aquilo que comemos. Tomando emprestado um dos lemas mais conhecidos do Movimento 15-M, é necessário uma “democracia real, já” na agricultura e na alimentação.

Fonte:IHU