quinta-feira, 4 de maio de 2017

POLÍTICA - Zé Dirceu.

O real motivo da perseguição a Dirceu. Por Paulo Nogueira



A vida é complicada para quem desafia a plutocracia
Originalmente publicado em março. Republicado agora por motivos óbvios.


Um jornalista americano escreveu uma coisa que me marcou profundamente.
Ele disse que num certo momento da carreira ele era convidado para programas de tevê, recebia convites seguidos para dar palestras e estava sempre no foco dos holofotes.
Num certo momento ele se deu conta de que tudo isso ocorria porque ele jamais escrevera algo que afrontasse os interesses dos realmente poderosos.
Foi quando ele acordou. Entendeu, por exemplo, as reflexões de Chomsky sobre as grandes empresas jornalísticas.
Para encurtar a história, ele decidiu então fazer jornalismo de verdade. Acabou assassinado.
Assange, Snowden, Falciani: não é fácil a vida de quem enfrenta o poder.
Tudo isso me ocorreu a propósito de José Dirceu. Tivesse ele defendido, ao longo da vida a plutocracia, ninguém o incomodaria.
Mas ele escolheu o outro lado.
E por isso é alvo de uma perseguição selvagem. É como se o poder estivesse dizendo para todo mundo: “Olhem o que acontece com quem ousa nos desafiar.”
É à luz de tudo isso que aparece uma nova rodada de agressões a Dirceu, partida – sempre ela – da Veja.
Quis entender.
Os dados expostos mostram, essencialmente, uma coisa: Dirceu não pode trabalhar. Não pode fazer nada.
O que é praxe em altos funcionários de uma administração fazerem ao deixá-la?
Virar consultor.
Não é só nos governos. Nas empresas também. Fabio Barbosa fatalmente virará consultor depois de ser demitido, dias atrás, da Abril.
Foi o que fez, também, David Zylbersztajn, o genro que FHC colocou na Agência Nacional do Petróleo. (Não, naturalmente, por nepotismo, mas por mérito, ainda que o mérito, e com ele o emprego, pareça ter acabado junto com o casamento com a filha de FHC.)
Zylbersztajn é, hoje, consultor na área de petróleo. Seus clientes são, essencialmente, empresas estrangeiras interessadas em fazer negócios no Brasil no campo da energia.
Algum problema? Não.
Quer dizer: não para Zylbersztajn. Mas para Dirceu a mesma posição de consultor é tratada como escândalo.
Zylbersztajn ajuda empresas estrangeiras a virem para o Brasil. Dirceu ajuda empresas brasileiras a fazerem negócios fora do Brasil, com as relações construídas em sua longa jornada.
O delator que o citou diz que Dirceu é muito bom para “abrir portas”. É o que se espera mesmo de um consultor como Dirceu.
Zylbersztajn, caso seja competente, saberá também “abrir portas”.
Vamos supor que a Globo, algum dia, queira entrar na China. Ela terá que contratar alguém que “abra portas”.
Abrir portas significa, simplesmente, colocar você em contato com pessoas que decidem. Conseguir fechar negócios com ela é problema seu, e não de quem abriu as portas.
Na manchete do site da Veja, está dito que o “mensaleiro” – a revista não economiza uma oportunidade de ser canalha – faturou 29 milhões entre 2006 e 2013.
São oito anos. Isso significa menos de 4 milhões por ano. Do jeito que a coisa é apresentada, parece que Dirceu meteu a mão em 29 milhões. Líquidos.
Não.
Sua empresa faturou isso. Não é pouco, mas está longe de ser muito num universo de grandes empresas interessadas em ganhar o mundo.
Quanto terá faturado a consultoria de Zylbersztajn entre 2006 e 2013? Seria uma boa comparação.
No meio das acusações, aparece, incriminadora, a palavra “lobby”. É um estratagema para explorar a boa fé do leitor ingênuo e louco por razões para detestar Dirceu.
Poucas coisas são mais banais, no mundo dos negócios, que o lobby.
Peguemos a Abril, por exemplo, que edita a Veja. Uma entidade chamada ANER faz lobby para a Abril e outras editoras de revistas. A ANER da Globo se chama ABERT.
Você pode ter uma ideia de quanto as empresas de jornalismo são competentes no lobby pelo fato de que ainda hoje elas gozam de reserva de mercado – uma mamata que desapareceu virtualmente de todos os outros setores da economia brasileira.
E assim, manobrando e manipulando informações, a mídia mais uma vez agride Dirceu.
As alegações sempre variam, mas o real motivo é que ele decidiu, desde jovem, não lamber as botas da plutocracia.

POLÍTICA - E a preferência pelo PT cresceu.

Governo Temer causa o primeiro crescimento significativo da preferência pelo PT em cinco anos


Da coluna de José Roberto Toledo no Estadão:

Não é só Lula da Silva que cresce com a crise e as reformas do governo Temer. Após sofrer a maior derrota eleitoral de sua história em 2016, o PT ensaia recuperar parte da popularidade perdida. Segundo o Datafolha, 15% dos brasileiros apontaram o PT como seu partido de preferência na pesquisa da semana passada. É o melhor resultado para os petistas desde setembro de 2014. Nos últimos dois anos e meio, o petismo oscilara entre 9% e 11%.
Os seis pontos percentuais de crescimento na preferência pelo PT desde dezembro de 2016 não parecem muito no total do eleitorado, mas viram um caminhão se comparados à simpatia pelos seus rivais. PSDB e PMDB estão estagnados há praticamente um ano: têm 4% de simpatizantes cada um. Mesmo somados, chegam apenas à metade do tamanho do petismo declarado ao Datafolha.
De onde veio o crescimento da simpatia pelo PT? Do eleitorado que até o segundo semestre do ano passado dizia não ter preferência por nenhum partido. Em dezembro de 2016, 3 em cada 4 brasileiros se diziam apartidários. Agora, são 2 em cada 3. A taxa dos sem partido voltou ao nível pré-impeachment.
A recuperação petista ocorreu em todas as regiões. De dezembro a abril, a preferência pelo partido de Lula aumentou de 9% para 14% no Sudeste, de 5% para 10% no Sul, de 14% a 22% no Nordeste, de 7% a 13% no Centro-Oeste e de 6% a 15% no Norte. Cresceu tanto entre os mais pobres (de 11% a 19%) quanto entre os de renda alta (de 5% a 10%); mais entre quem fez o Fundamental (de 10% para 18%) do que entre quem fez faculdade (de 7% para 10%).
Como isso pode ter acontecido se o PT não fez nada de notável nesse tempo além de perder muitas das prefeituras que tinha? Em períodos de crise, ganha quem não está na vitrine. Faz um ano que os petistas deixaram de ser vidraça na casa federal, e há quatro meses não respondem pelos problemas de cidades como São Paulo. E a herança negativa que deixaram? Quanto mais o tempo passa e o desemprego aumenta, menos o eleitor se lembra.
À crise econômica se soma a agenda impopular que Michel Temer tenta implantar com o apoio tucano. Os 87% contrários às novas regras para aposentadoria propostas pelo governo sobem a 94% entre petistas. Embora a contrariedade com o aumento da idade mínima para os aposentados alcance maioria também entre partidários de PSDB e PMDB, sua proporção é menor: 79%% e 88%. Quanto maior a reação às reformas de Temer, melhor para o PT.
Outro fator que ajuda a explicar o resgate parcial do petismo é que a expansão da Lava Jato e das denúncias de corrupção a políticos de quase todos os partidos nivelou o campo de jogo. Não há mais vantagem moral em se declarar simpatizante do partido A ou B. Todos carregam praticamente o mesmo desgaste.
Isso significa que o PT está voltando a ter a penetração que teve no passado? Não chegou nem perto disso. No seu auge, em abril de 2012, o petismo alcançou 31% dos brasileiros, segundo o Datafolha. Desde então, sua influência só caiu. É o primeiro crescimento significativo da preferência pelo PT em cinco ano

quarta-feira, 3 de maio de 2017

POLÍTICA - STF enfrentará outros abusos da Lava Jato?

Libertado Dirceu, o STF enfrentará outros abusos da Lava Jato?

Ao determinar a libertação do ex-ministro José Dirceu, o STF reafirmou o primado da Constituição e de sua própria jurisprudência: garantiu ao réu o direito de recorrer em liberdade e golpeou o mecanismo das prisões preventivas prolongadas, de que se tem valido a Lava Jato para arrancar delações premiadas. Resta saber se outras ilegalidades cometidas em Curitiba e por outras operações também serão enfrentadas pelo Supremo, a começar pela ofensa ao princípio do juiz natural.       
A concessão do Habeas Corpus que libertou Dirceu merece todos os aplausos porque representa a imposição do Estado Direito sobre uma situação que era anômala. Dirceu estava preso há 20 meses, embora “em estado de presunção da inocência”, como disse o ministro Gilmar Mendes, pois seu recurso à segunda instância ainda não fora julgado. É altamente provável que a condenação do juiz Moro seja mantida, ainda que seja reformada a dura pena de 32 anos de reclusão, o que levará Dirceu de novo à prisão. Mas a inflexão do Supremo, refletindo uma nova disposição para enfrentar abusos em nome do combate à corrupção, foi louvada pelo mundo jurídico. Para o advogado César Caputo, o tribunal recuperou “a lucidez e a clareza” na aplicação da Constituição.
Quem recupera é porque perdeu. É certo que faltaram ao STF, nos últimos tempos, ou a lucidez, ou a clareza, ou a coragem para enfrentar Moro e seus apoiadores nas ruas. Dê-se a isso qualquer nome, mas faltou disposição para enfrentar a mística da Lava Jato e impor o respeito às garantias. A esta complacência referiu-se o ex-presidente Lula, numa conversa reservada que foi gravada e divulgada ilegalmente por Moro, quando disse que tínhamos um “Supremo acovardado”.
Quando Moro divulgou grampos ilegais de Dilma e Lula, não foi repreendido pelo STF e pelo CNJ. Apesar Teori Zavascki o criticou. Quando Dilma nomeou Lula ministro, o mesmo Gilmar Mendes,  que agora deu de fato um “voto histórico”, como ele próprio gabou-se, sentou-se sobre o pedido de liminar até que o assunto perdeu o objeto, pois Dilma já havia sido derrubada. No caso do impeachment, esquivou-se o STF de examinar a questão do efetivo cometimento de crime de responsabilidade pela presidente deposta. E, no âmbito da Lava Jato, só recentemente alguns, e notadamente Gilmar, começaram a criticar as “alongadas prisões preventivas” de Moro. Na semana passada, os prisioneiros Genu e Bunlai foram liberados. Hoje, Dirceu. Mas, por longos meses, o STF não se moveu contra tais prisões, embora deva ter julgado outros pedidos de Habeas Corpus por presos de Curitiba ainda não condenados em segunda instância.
Gilmar, que não esconde seu antipetismo, afastou-se de seu garantismo enquanto a Lava Jato fustigou petistas e empresários que se aliaram ao PT. É razoável a suspeita de que tenha se reconvertido porque agora seus amigos do PSDB e do PMDB foram atingidos, e quem sabe poderão também sofrer prisões preventivas e temporárias “alongadas”. Por coerência na jurisprudência, outros réus da Lava Jato em situação análoga à de Dirceu serão liberados, mais dia, menos dia ou no futuro. Ainda assim, mais vale o Estado de Direito para todos do que as excepcionalidades que violaram garantias e direitos em nome do combate  à corrupção e abriram caminho para o grande desastre que se abate sobre o Brasil.
As “alongadas prisões preventivas”, entretanto, não foram nem são os únicos abusos da Lava Jato. Falando ao site Consultor Jurídico, o advogado Fernando Fernandes disse que o Supremo reafirmou sua jurisprudência histórica “contra a vulgarização da prisão preventiva” mas pontuou: “Certamente, outras ilegalidades cometidas nas operações deflagradas no país, como a ofensa ao juiz natural, também serão enfrentadas pela Suprema Corte". 
A concentração de todos os processos relacionados com as investigações sobre a Petrobrás nas mãos do juiz Sérgio Moro ofende, em muitos casos, o princípio do juiz natural. Moro valeu-se de uma antiga ação, originária do caso Banestado, envolvendo Alberto Youssef, e avocou para sua vara em Curitiba ações que deveriam ter transcorrido no Rio, onde a Petrobrás tem sede. A defesa de Lula insistiu na manutenção das investigações sobre o caso do tríplex do Guarujá no âmbito da justiça paulista invocando este principio. O mesmo deveria valer para o caso do sítio de Atibaia, mas os dois casos estão com Moro por conta de  supostas conexões com outros crimes da Lava Jato. A figura do “juiz temático”, sustentou a defesa de Lula, “fere a garantia constitucional do juiz natural”. Vamos ver se o Supremo enfrentará também esta distorção.
No mais, o estrilo dos procuradores e dos adoradores de Moro, por conta da soltura de Dirceu, alegando “desmonte da Lava Jato”, não passam de delírios persecutórios. As delações mais importantes foram feitas, outras estão a caminho e a força-tarefa continua dispondo de um poder imenso para conduzir as investigações. Só não valerá mais, espera-se, alongar prisões para obter delações. Ou, não havendo delação, castigar quem resistiu antecipando o cumprimento da pena antes do recurso ser julgado, como vinha acontecendo com Dirceu.

POLÍTICA - Pizza está no forno.


POLÍTICA - As vingâncinhas do Dr. Moro.

Contrariado, Moro solta Dirceu e impõe vingancinhas



Um dia após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), o juiz Sergio Moro decidiu nesta quarta-feira (3) que José Dirceu use tornozeleira eletrônica e não saia da cidade de seu domicílio, Vinhedo (SP).
Ontem, a Segunda Turma do Supremo decidiu, por 3 votos a 2, que Dirceu deveria deixar a prisão.
No despacho, Moro diz que, “considerando que José Dirceu já está condenado a penas totais de cerca de trinta e dois anos e um mês de reclusão, há um natural receio de que, colocado em liberdade, venha a furtar-se da aplicação da lei penal”.
Não se sabe de onde Moro tirou isso. Desde que foi preso pela primeira vez, em 2013, Dirceu jamais praticou um único ato que sugerisse que poderia dificultar a aplicação da lei.
Moro diz isso com a única e exclusiva intenção de justificar a manutenção de Dirceu na prisão por quase dois anos sem condenação definitiva e sem uma mísera prova de obstrução da Justiça
Sob essas  alegações, assim , o juiz diz que, “a prudência recomenda então a sua submissão à vigilância eletrônica e que tenha seus deslocamentos controlados”.
Confira as condições impostas por Moro:
monitoramento por tornozeleira eletrônica
proibição de deixar a cidade de seu domicílio, em princípio, Vinhedo (SP)
proibição de se comunicar, por qualquer meio ou por interpostas pessoas, com os coacusados ou testemunhas
comparecimento a todos os atos do processo e atendimento às intimações, por telefone, salvo se dispensado pelo Juízo
proibição de deixar o país
entrega em Juízo de seus passaportes brasileiros e estrangeiros
É assim, de mesquinhez em mesquinhez, de vingancinhas em vingancinhas, que essas pessoas que se convenceram da existência real de uma “República de  Curitiba” impõem leis nunca aprovadas e desafiam até a instância máxima da Justiça.
Que o STF  ponha um paradeiro na escalada arbitrária e alucinada desses “republicanos de curitiba” antes que afundem o Brasil em uma guerra civil e na maior depressão econômica da história.

POLÍTICA - Palocci assustou a Globo?

Ameaça de Palocci assustou a Globo?

Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo:

Anos 2000. Redação da TV Globo de São Paulo. Venho do posto de correspondente da TV Globo em Nova York. O chefe de reportagem Luiz Malavolta me procura com um e-mail. Malavolta é meu amigo desde a adolescência, em Bauru. Trabalhamos juntos no Jornal da Cidade e na TV Bauru.

Malavolta diz que gostaria que eu fizesse uma investigação a partir do conteúdo do e-mail. Já experiente, eu digo a ele: Malavolta, um e-mail sem origem? E se isso for grampo, tiver origem ilegal?

Ele pensa um pouco e responde: vamos confirmar o conteúdo do e-mail, assim a gente elimina qualquer dúvida sobre a origem e descarta o e-mail.

Mais tarde, fiquei sabendo que a origem da mensagem tinha sido um araponga ligado ao então deputado ACM Neto, conhecido nos bastidores por motivos óbvios como “grampinho”. A mensagem foi enviada diretamente à alta hierarquia da Globo (num futuro livro, prometo reproduzir o e-mail), que a repassou hierarquia abaixo.

Fomos investigar caixa dois do PT em Goiânia. Bingo. Todos os caminhos levavam a Adhemar Palocci, irmão de Antonio Palocci, mais tarde diretor da Eletronorte.

O caso foi parar em uma das três CPIs que investigavam o mensalão petista em Brasília. Tratava-se de caixa dois bancado por uma seguradora chamada Interbrazil, que faliu deixando um rombo na praça.

A CPI pretendia convocar Adhemar Palocci. Nos bastidores da Globo, veio a resposta: se Adhemar for convocado, o ministro da Fazenda pedirá demissão do cargo. Fomos à Eletronorte: Adhemar não quis dar entrevista.

Em votação, a convocação de Adhemar foi derrotada. Logo em seguida, a Globo me mandou retornar de Brasília e encerrou a cobertura do caso.

Foi logo depois de o dono da seguradora falida depor na CPI dizendo que havia contribuído não apenas com o PT, mas com o PSDB, PMDB, enfim, com todos os partidos, sempre em material e “por fora”.

Para mim, ficou claro: a emissora não queria denunciar Palocci, o ministro da Fazenda, nem deixar claro que o homem do caixa dois petista tinha feito absolutamente o mesmo de forma generalizada.

Como era uma das minhas primeiras investigações depois de quase duas décadas nos Estados Unidos, caiu a ficha: se for contra o PT, vale tudo.

Ficou a pergunta: houve algum acerto de bastidores com o Palocci?

Um detalhe do caso sempre nos chamou a atenção: eu e Malavolta queríamos aprofundar as investigações sobre o instituto de resseguros do Brasil, que nos parecia ter agido de forma relapsa ao permitir a falência de uma seguradora que deixou um grande rombo na praça.

De repente, o executivo-alvo apareceu todo sorridente passeando pela sede da Globo em São Paulo, ao lado do diretor regional de jornalismo da emissora. A especulação que nunca pudemos comprovar era de que o executivo sabia muito sobre o Banco Roma, que havia sido o braço financeiro da família Marinho. O assunto morreu ali.

Corte para Antonio Palocci, preso em Curitiba, depondo diante do juiz Sergio Moro.

“Tenho certeza disso”, respondeu o ex-ministro, sobre se a Odebrecht contribuiu com José Serra e Aécio Neves tanto quanto em favor de candidatos do PT.

Segundo Palocci, na campanha de 2014, “a Odebrecht fez chegar ao presidente Lula […] que havia uma provisão em torno de R$ 200 milhões. O presidente Lula me procurou surpreso, estranhando e disse que nunca tive ‘conversa desse tipo'”.

Palocci questionou Marcelo Odebrecht, que informou que era comum a empresa fazer “provisões”.

“Fui ao presidente Lula e disse que foi um mal entendido”, explicou.

Mais tarde, Palocci disse que recebeu a estranha visita de uma pessoa — “uma grande personalidade do meio financeiro” — que falava em nome de um banco e que afirmava ser o responsável por “financiamento de campanha”. O ex-ministro se dispôs a informar Moro, em sigilo, mais tarde, sobre o nome do representante do banco.

“O senhor também mencionou uma das grandes empresas de comunicação”, perguntou um dos advogados presentes em seguida.

“Olhando o cenário de hoje parece que todos os governos só trabalham em função da empresa Odebrecht e o que eu procurei demonstrar é que o primeiro problema que tive quando sentei na cadeira de ministro da Fazenda foi o setor da construção civil”, afirmou Palocci, antes de a audiência ser interrompida.

Mais tarde, ele afirmou: “Empresas de comunicação tiveram sérios problemas neste período [quando ele era ministro da Fazenda], inclusive com algumas empresas declarando default nos seus compromissos externos”. A essa altura, Moro interrompe bruscamente Palocci: “Quando o sr. se encontrava com o sr. Marcelo Odebrecht, onde é que se davam esses encontros?”.

Ficou claro que o juiz de Curitiba não pretendia tratar do assunto.

Pela época da qual tratava Palocci pode se deduzir que ele falava da TV Globo, que enfrentou profunda crise quando o Brasil “quebrou” sob FHC, na passagem para o governo Lula. A Globo tinha imensa dívida em dólar e sofreu com a repentina desvalorização do real.

Foi um dos motivos pelos quais a emissora fez uma armação nas ilhas Virgens Britânicas para não pagar impostos na compra dos direitos de transmissão da Copa do Mundo, esquema denunciado pela blogosfera que resultou em cobrança superior a R$ 615 milhões da Receita Federal à emissora (ver documentos).

Um dos vazadores oficiais da Lava Jato “informou” há pouco que Antonio Palocci teria “repensado” a ideia de fechar acordo de delação premiada, diante da soltura de seu ex-colega de ministério José Dirceu.

Se receber o mesmo benefício, ele pode simplesmente ficar calado.

A ver.

Palocci disse, em seu depoimento diante de Moro: “Acredito que posso dar um caminho, que talvez vá dar um ano de trabalho, mas é um trabalho que faz bem ao Brasil”.

Globo? Banqueiros? A quem interessa calar Palocci?

Talvez trazendo de volta a gravação da conversa entre o senador Romero Jucá e o ex-presidente da Transpetro, Sergio Machado, a gente entenda:

MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].

JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.

MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.

JUCÁ – É. delimitava onde está, pronto.


PS do Viomundo: Não se esqueçam que, na busca e apreensão feita no escritório paulistano da fabricante de empresas-laranja, a Mossack & Fonseca, do Panamá, a Polícia Federal encontrou anotações referentes a Paula Marinho, neta de Roberto Marinho.

São indícios de que ela pagava as taxas de manutenção de três empresas offshore, a Vaincre LLC, a Juste e a A Aplus, sediadas respectivamente nos Estados Unidos, ilhas Seychelles e Panamá.

Nas planilhas também há menção à Glen, de Alexandre Chiapetta de Azevedo, hoje ex-marido de Paula.

A Vaincre LLC é uma das donas da mansão de concreto em Paraty atribuída aos Marinho.

A A Plus e a Glen participam da concessão ilegal, sem concorrência pública, dada pelo governo do Rio ao casal há mais de 20 anos.

O estádio de Remo da Lagoa Rodrigo de Freitas, espaço público, foi transformado num luxuoso centro de consumo em local estratégico do Rio de Janeiro, gerando lucros privados.

Há duas ações do Ministério Público do Rio a respeito: uma questionando a concessão, outra pedindo de volta todo o dinheiro público investido no estádio em diferentes ocasiões, sem que o concessionário tirasse um tostão do bolso.

Pergunta sem resposta: quem precisa de três offshore, pelo menos uma delas com dupla blindagem — ou seja, você não sabe quem é o dono verdadeiro, nem quem atua em nome do dono — para gerir os valores relativamente pequenos envolvidos numa concessão que envolve cinemas e restaurantes? Haveria algo além disso?

Infelizmente, até agora, parece que o caso foi entregue ao Geraldo Brindeiro, o engavetador-geral da República em priscas eras.

A família Marinho diz que Paula nunca teve absolutamente nada com os negócios do ex-marido, mas é uma defesa inverossímil, já que numa das anotações apreendidas na Mossack, ao lado do nome da neta de Roberto Marinho, aparece o número de uma conta bancária de onde aparentemente se originava o dinheiro utilizado para pagar as taxas de manutenção das offshore. Além disso, ela assinou como fiadora numa das ocasiões em que a concessão foi renovada, sempre sem concorrência pública.

POLÍTICA - Vitória da Justiça.

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O Estadão diz que com a decisão do STF de conceder habeas corpus a  José Dirceu, teve-se a 4ª derrota da Lava Jato em uma semana.
Como a lei e a jurisprudência brasileiras determinam que não se antecipe o cumprimento de pena e, mesmo com as “flexibilizações” jurídicas criadas com a histeria que a Lava Jato provocou, continua valendo a regra que prisão só pode ocorrer depois de, pelo menos, confirmação de sentença em segunda instância, o que se deveria noticiar é que foi restabelecida a Justiça.
A história de que Dirceu poderia usar de “sua influência” para prosseguir em “continuidade delitiva” daquilo que o acusam – recebimento de vantagens – é uma fantasia que não se podia mais sustentar. Primeiro, porque Dirceu está completamente queimado e não há um empresário que, com ele, queira fazer negócios nem de troca de figurinhas de álbum.
Em nada se teria “derrotado” a Lava Jato se os membros do Ministério Público que integram a tal “Força Tarefa”  e o juiz Sérgio Moro tivessem cumprido a lei e respeitado, em relação a Dirceu e a outros, o princípio legal de permitir que respondesse em liberdade até a confirmação da sentença.
Mas não o fizeram por duas razões que se misturam.
A primeira, conservar o troféu de caça que representa o ex-ministro.
A segunda, fazer das prisões preventivas “sem fim” o instrumento de forçar delações e – verdadeiras ou falsas – obter suporte para as teses que carregam desde o início da operação.
Dirceu – mais remotamente, pela resistência demonstrada às pressões – e Antonio Palocci são, para eles, as portas ainda fechadas para alcançar Lula, o que sabem que não farão – ou farão e não se sustentará – com delações que beiram o ridículo, como a do triplex do Guarujá , por completa imaterialidade e evidente não enriquecimento pessoal do ex-presidente.
Mas não se pense que o Supremo fique fora destas jogadas. Foi cúmplice desta estratégia medieval, retardando o quanto pôde as decisões de soltura, para que a troca da liberdade pela delação tivesse grandes sucessos.
Não há motivo para achar que a Justiça despolitizou-se mas, é certo, que os movimentos principais, agora, ficam por conta de Gilmar Mendes e Rodrigo Janot.

terça-feira, 2 de maio de 2017

POLÍTICA - Delações estão direcionadas a explodir o sistema político.


247 - Com cerca de 20 clientes na Lava -Jato e duas décadas de experiência em colaborações premiadas, o criminalista paranaense Antonio Figueiredo Basto afirma que as negociações dos acordos estão direcionadas a "explodir o sistema político" e que delações como as dos executivos da Odebrecht acabam por "privilegiar o tubarão grande e punir o pequeno", o que, segundo ele, causaria desequilíbrio jurídico.
As informações são de reportagem do Valor.
"'Se há alguns anos o criminoso com poder econômico contratava um grande escritório para buscar, nos tribunais, uma nulidade processual, hoje ele paga uma multa alta e sai da cadeia", avalia.
Responsável por atuar em delações emblemáticas da Lava-Jato, como as do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e do doleiro Alberto Youssef, Figueiredo Basto tenta, há um ano, fechar o acordo do ex-diretor de Serviços da petrolífera, Renato Duque, com o Ministério Público Federal (MPF). Seu escritório também foi recentemente contratado pelo ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil, Antonio Palocci, que busca deixar o regime de prisão preventiva que lhe foi imposto pelo juiz federal Sergio Moro em setembro de 2016, sob suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro. 
'A minha crítica à delação da Odebrecht é que essa empresa era a cabeça de um sistema de corrupção. Está provado que ela criou esse sistema, que ela foi a primeira, e que arrastou as demais empresas - e não estou dizendo que as outras são boazinhas - mas o sistema que ela criou praticamente obrigou as outras a seguir as regras do jogo. A lei é clara ao dizer que deve haver um tratamento diferenciado entre a cabeça do sistema de corrupção e os demais. Então, a prática que está sendo criada hoje, pelo Ministério Público, está privilegiando o tubarão grande e está punindo o pequeno. E isso vai gerar uma desproporção muito grande no sistema. Porque você vai começar a punir pequenos funcionários públicos, pessoas que tiveram menor participação em ilícitos em detrimento de grandes corruptos e corruptores. Ou seja, hoje as colaborações estão direcionadas a uma finalidade só, que é explodir o sistema político. Acho que é o grande defeito em questão, o fato de as delações estarem direcionadas a destruir o sistema político, isso ficou extremamente claro para mim.
Nitidamente, essa colaboração da Odebrecht foi direcionada ao sistema político. E eu nem acho que esteja errado. O problema é que hoje essas colaborações estão se orientando por um prisma de que vai haver uma desproporcionalidade de tratamento jurídico-penal em relação aos grandes corruptores, os grandes criminosos e os menores. Ou seja, quando eu não permito que um sujeito menor tenha direito a uma colaboração, ou a uma barganha de pena, o sistema ficou falho. Como é que um grande corruptor vai ter um privilégio, vai sair da cadeia, e o outro vai receber uma pena muito mais dura enquanto a participação global dele no esquema foi menor? Não é para isso que a lei foi criada. O comando da organização criminosa tem de ser punido. Já os que estão mais abaixo na escala dos delitos devem receber uma punição proporcional às suas participações. Se eu posso pagar uma multa alta eu tenho colaboração. Se eu não posso pagar uma multa alta eu não tenho colaboração? Se for assim, aí continua a acontecer exatamente o que se fazia antes, privilegiando as pessoas que têm grande poder econômico', afirmou. "

POLÍTICA - A campanha de Lula não é anti, é pró.

O roteiro de Lula nada tem a ver com o Datafolha

roteiro
Com ares de novidade, o Painel da Folha diz que “dois dados da última pesquisa Datafolha vão nortear a estratégia do PT para projetar a candidatura de Lula à Presidência: a alta insatisfação com o governo Michel Temer e o índice de 85% de apoio à convocação de eleições diretas”.
Francamente, o que há de novo nisto para que não seja algo além do óbvio.
Temer tem um rejeição estratosférica desde que chegou ao governo.
A maioria dos brasileiros, desde então, querem eleições diretas, no Datafolha fez questão de omitir quando escondeu os 62% que queriam novas eleições presidenciais,
Só mais adiante a nota sobre os “estrategistas” toca no essencial.
O fato de que o fundamento da campanha – e do favoritismo – de Lula é a referência de estabilidade e prosperidade que ele representa.
Só um tolo não vê que a campanha de Lula não será o “anti”.
“Anti”, e “anti-Lula”,  é o que a direita pretende usar, seja com Bolsonaro, Dória e o Aécio “Descanse em Paz” Neves.
Campanhas negativas, para que quem acompanha eleições há 40 anos, são, na maioria das vezes, fadadas à derrota.
A campanha de Lula não é anti, é pró.
É ele quem tem a capacidade de buscar na memória o tempo que  foi positivo aos brasileiros.
Quem, por egoísmo analítico, prevê uma campanha de radicalismo exacerbado  de Lula, se engana.
Até porque esta não é a praia de Lula.
Claro que Lula terá contra si os 30, 35% da direita hidrófoba. Nunca deixou de tê-los e terá de novo.
Aí talvez esteja a diferença essencial entre o “Lula 1” e “2”  em relação ao “Lula 3”.
Menos ilusões, mas não menos pragmatismo.

Doria dedica “flores do mal” a Lula e Dilma

POLÍTICA - A canoa vai virar....

Merval e Miriam já agasalham a derrota

Por Paulo Henrique Amorim, no blog Conversa Afiada:

Os notáveis colonistas Ataulpho Merval de Paiva e a Cegonhóloga da Globo Overseas Investment BV já viram que a canoa virou: como diz o Renan, essa reforma não passa no Senado nem...

"Essa reforma" tanto pode ser a trabalhista quanto a da Previdência - porque, em 2018, haverá eleição para DUAS cadeiras do Senado e o ansioso blogueiro quer ver quem vai votar com o MT, da lista de alcunhas da Odebrecht, esse que tem 4% de aprovação popular.

Como se sabe, desses 4%, 3,99999% são a Globo Overseas.

E, depois da Greve Histórica, do Lula Volto Já! no Datafalha, os dois piguentos começaram a agasalhar a derrota:

- "A avaliação feita entre defensores (ou seja, ela com o Ataulpho - PHA) da reforma (da Previdência) é que o Governo (sic) errou na comunicação (quem mandou depender do Gilberto Freire com “i”...) e apresentou um projeto duro (sic) demais, que aumentou a rejeição" - diz a sábia Cegonhologa, a do é um colosso!

Diz o Ataulpho, esse jênio:

- "Mais do que as manifestações sindicais (é a Greve, estúpido!, diria o James Carville - PHA) e ontem, 1o. de maio, a pesquisa do Datafolha que mostra o ex-presidente à frente da corrida presidencial ("Volto Já" ! - PHA) tem capacidade (jura? - PHA) de influir na decisão de deputados e senadores sobre as reformas trabalhista e da Previdência... Ganha reforço o argumento do Senador Renan Calheiros (aquele do "isso não passa no Senado nem..." - PHA)..., que diz que Lula vai dar 'um passeio' em 2018 e, especialmente, no Nordeste, onde tem uma popularidade em torno de 50% (muito mais que isso, Ataulpho... - PHA).

Os canalhas, canalhas, canalhas, na acepção do Requião e do Lindbergh, são canalhas, mas não são burros.

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segunda-feira, 1 de maio de 2017

POLÍTICA - O que o filme The Fly tem a ensinar a lava jato......

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

É cediço que a Lava Jato conseguiu ultrapassar todos os limites da legalidade http://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/como-as-delacoes-seletivas-seriam-julgadas-em-atenas-por-fabio-de-oliveira-ribeiro. De maneira geral, os abusos cometidos por Sérgio Moro vinham sendo confirmados pelas instâncias superiores. O ponto de inflexão, creio, ocorreu esta semana no momento em que, ao revogar algumas prisões abusivas determinadas no ambito da Lava Jato, o STF admoestou severamente o juiz de primeira instância http://www.conjur.com.br/2017-abr-26/stf-deixou-claro-moro-passou-limites-afirma-gilmar-mendes.
A controvérsia jurídica se torna uma peça de ficção. De um lado temos o juiz que assassinou o Direito mandando prender suspeitos para obter delações mediante coação e selecionando quais delatados seriam protegidos e quais seriam triturados inclusive mediante vazamentos à imprensa. Do outro o STF, que também tinha assassinado o Direito para permitir que a inocente Dilma Rousseff fosse deposta por uma quadrilha de ladrões liderada pelo vice-presidente mafioso que, além de ter assinado decretos semelhantes àqueles que foram chamados de pedaladas fiscais (desculpa dada para a cassação do mandato da presidenta), recebeu um cheque de propina nominal em sua conta-corrente.
No filme The Fly (1958) a personagem Helene Delambre admite que acionou a prensa que esmagou a cabeça do marido. Enganada pelo cunhado, ela revela o motivo do crime: Andre Delambre havia sofrido um acidente no laboratório e se transformado num monstro (um homem com cabeça de mosca). O policial não acredita na história, mas quando tenta cumprir o mandado de prisão ele vê a mosca com a cabeça de André gritando por socorro quando está prestes a ser devorada por uma aranha. Horrorizado, ele mata a mosca e desiste de prender a protagonista, pois ele mesmo teria cometido um crime semelhante ao de Helene. A morte do cientista é considerada um suicídio e a história da mosca é convenientemente esquecida.
A ficção proporciona a flexibilização do Direito Penal. Os dois homicídios são justificados pelo fato de que matar algo que deixou de ser inteiramente humano (ou que é parcialmente inseto) não pode ser considerado crime.
No caso brasileiro estamos diante de dois juízos que assassinaram o Direito por razões distintas. O resultado, contudo, é o mesmo: a absoluta insegurança jurídica. Assim como Sérgio Moro considera irrelevante cumprir e fazer cumprir as regras legais que o impedem de fazer o que quer, o STF resolveu considerar irrelevante apenas uma parte das irregularidades cometidas pela Lava Jato apesar de toda a operação ter fornecido o contexto histórico e o verdadeiro fundamento político para o impedimento de Dilma Rousseff.
Portanto, no Brasil uma ficção também proporcionou a flexibilização do Direito Penal. Inocente, Dilma foi condenada pelo Senado com ajuda do STF (que se recusou a afastar o bandido Eduardo Cunha antes dele mandar processar o Impedimento mediante fraude) para que o culpado Michel Temer pudesse chegar ao poder com a ajuda da operação que desde o início chegaria nele. Não por acaso, os delatores afirmam agora ter pago propina ao usurpador.
O mal produzido pela flexibilização do Direito Penal em The Fly, contudo, é apenas potencial. Afinal, desde que o filme foi lançado em 1958 nenhum avanço científico produziu monstros cuja vida e morte acarretasse um debate jurídico semelhante àquele que foi ficticiamente proposto.
A mesma coisa não pode ser dita de Sérgio Moro e do STF. O mal que ambos produziram ao país já pode ser economicamente quantificado  (recessão, aumento do desemprego, queda de arrecadação). A credibilidade do sistema político e jurídico do Brasil foi completamente destruída e levará décadas para que os brasileiros e os estrangeiros possam se sentir seguros num país em que o Direito Penal é maltratado pelas autoridades encarregadas de protegê-lo contra os arroubos de autoritarismo, populismo, voluntarismo, amadorismo e perversidade partidarizada.
Tudo bem pesado, The Fly (1958) tem uma grande lição a ensinar à Lava Jato e ao STF: a flexibilização do Direito Penal só é plausível e desejável no cinema. Na vida real ela deve ser evitada porque produz distorções duradouras e desastrosas.

POLÍTICA - "Rejeição a Temer faz Lula subir"

Rejeição a Temer faz Lula subir nas pesquisas e pesa contra PSDB, por José Roberto Toledo

Foto: Lula Marques/Agência PT

Jornal GGN - Quanto pior a avaliação do governo Temer, melhor é para Lula, que cresce nas pesquisas de opinião a despeito das denúncias da operação Lava Jato. Na visão de José Roberto Toledo, colunista do Estadão, é a rejeição a Temer que explica o crescimento de Lula nas sondagens com vistas a 2018. Por outro lado, o PSDB terá cada vez mais problemas, porque é associado a Temer pelo público. O jornalista também considerou uma hipótese menos provável uma eventual prisão de Lula virar uma barreira para sua tentativa de ser candidato a presidente, agora que o Supremo Tribunal Federal vem cortando as asas de Sergio Moro.
Por José Roberto Toledo
No Estadão
Enquanto o governo e seus aliados pintavam a greve como um protesto contra o fim do imposto sindical, boa parte da sociedade fazia um debate muito mais amplo sobre seu significado. Como há tempos não ocorria, a igreja católica fomentou uma discussão socioeconômica. A conversa extrapolou as bolhas do Facebook e embrenhou-se por homilias e salas de aula. Alunos, pais e professores debateram as causas da greve.
A discussão sobre regras trabalhistas e idade para aposentadoria se estendeu muito além dos microfones do Congresso. O efeito pode ser efêmero, mas talvez os parlamentares tenham que ouvir seus eleitores antes de votarem as reformas. Se isso implicar atraso na tramitação, será outra derrota do governo.
A pressa faz parte da estratégia de Temer. Com apenas 9% de ótimo e bom (no Ibope e agora também no Datafolha), a única esperança de o presidente sair do patamar de impopularidade que empurrou Dilma ao cadafalso político é a votação sumária das reformas no Congresso - em tempo de melhorar o humor dos mercados, incentivar investimentos e a retomada econômica.
Até lá, o desemprego bate recordes. São 14 milhões de , três milhões a mais do que quando Temer assumiu a Presidência. Perderam-se nesse período 1,2 milhão de vagas com carteira assinada, o que significa menos contribuintes para a combalida Previdência. Ainda no campo dos recordes, as contas do governo central tiveram o pior março desde 1997. No meio disso tudo, os ministros do Supremo decidiram que, na prática, seu teto salarial não é mais de R$ 33 mil, mas o dobro.
Só quem mora no Plano Piloto pode achar que nada disso tem consequências políticas. Fazia anos que os promotores da greve de sexta haviam perdido as ruas - para os jovens de junho de 2013 com sua pauta difusa e, depois, para os manifestantes pró-impeachment. Não reconquistaram o protagonismo que tinham antes de o PT chegar ao poder, mas, com a ajuda da recessão, os sindicalistas recuperaram parte da capacidade de mobilização.
Não é coincidência que isso tenha ocorrido ao mesmo tempo em que  Lula cresce nas pesquisas eleitorais. Grevistas e ex-presidente se alimentam da crise. Quanto piores os índices oficiais, mais cai a intenção de voto nos caciques tucanos. Para bem e para o mal, o eleitor associa o atual governo federal ao PSDB. Assim, Lula cresce por osmose: absorve o que os adversários perdem.
Por ora, o único tucano com potencial para estacar o processo é Doria. Projetando a imagem de quem chegou ontem e não tem nada a ver com Lava Jato nem com Temer, ele já supera os outros tucanos nas simulações de primeiro e segundo turno - no Datafolha. Disputa com Jair Bolsonaro (PSC) o papel de anti-Lula.
O cenário muda se Lula não puder ser candidato por causa de uma eventual prisão pela Lava Jato. Essa hipótese, porém, ficou um pouquinho menos provável, graças a uma decisão do Supremo. Sob a liderança de Gilmar Mendes, a Segunda Turma do tribunal soltou Eike Batista e dois outros detidos pela Polícia Federal: José Carlos Bumlai, o amigo de Lula, e João Carlos Genu, o ex-tesoureiro do PP. Foi uma poda no juiz Moro. Pode-se não acreditar em bruxarias de bastidores, pero que las hay, las hay.

POLÍTICA - Xadrez do dia seguinte da greve.


Peça 1 – a fluidez dos movimentos políticos

O quadro politico evoluiu substancialmente nos últimos dias. De um lado, a greve geral, com a maior abrangência em décadas. De outro, os últimos movimentos em torno da Lava Jato, com o STF (Supremo Tribunal Federal) finalmente deliberando sobre a libertação de pessoas detidas com o objetivo de serem pressionadas a delatar. Finalmente, a Lava Jato entrando nas horas decisivas sem conseguir cumprir com seu objetivo maior, de levantar provas para sustentar as delações contra Lula.
Leve em conta que os movimentos políticos são fundamentalmente fluidos.
Em momentos de catarse, há um curto-circuito geral não apenas nas informações, mas no rumo dos ventos políticos.
Em relação a esses movimentos tectônicos, há duas espécies de personagens públicos: os radares e as birutas.
Radares são que se movem em torno de valores e, por isso mesmo, são as figuras referenciais que orientam o país, percebem os movimentos das ondas e permitem ao barco não perder o rumo, mesmo em meio à tempestade.
Birutas (de birutas de aeroporto) são os que seguem as ondas. Em momentos de vento brando, assumem uma determinada personalidade pública; em momentos de catarse, outra totalmente distinta, seguindo o que consideram os movimentos pontuais das marés.
Na história do país, mesmo no campo conservador estão consolidadas personalidades-radares como Sobral Pinto, Ulisses Guimarães, Paulo Brossard e o saudoso Mário Covas.
No grupo dos birutas de aeroportos, caminham para se transformar em personagens simbólicos os Ministros Luís Roberto Barroso e Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), e grupos de deputados e senadores.
Não se deve buscar previsibilidade em suas atuações, isto é, avaliar o que serão com base no que já foram. A análise deverá levar em conta a maneira como julgam que a situação política será, para, só aí, então, definirem o que serão.
Tudo isso torna extremamente complexo o desenho de cenários futuros.
Não é mais A + B + C = X, porque a mudança de A irá provocar alterações em B afetando o resultado em X.
Mas permite, por outro lado, conferir a devida relevância aos movimentos maiores de opinião pública, dos quais a greve geral da última sexta-feira foi um ponto de corte, atrapalhando o controle total do processo pelos donos do poder.
Antes, um pequeno diagnóstico do momento atual, à luz dos ensinamentos de Raymundo Faoro, o notável autor de “Os Donos do Poder”.

Peça 2 – o patrimonialismo, de Collor a Barroso

Desde que apresentou seu trabalho no evento da Universidade de Harvard – qualificando como ensaio uma leitura tosca de Raymundo Faoro – o Ministro Barroso tornou-se um bom exemplo de como a superficialidade analítica impede o autor de se enxergar no próprio desenho que ele está delineando em seu trabalho.
O trabalho de Barroso mencionou o “patrimonialismo”, de acordo com as definições de Raymundo Faoro.
É o mesmo Barroso que se tornou um defensor intransigente da nova ordem, da restauração que será comandada pelo Poder Judiciário, um modelo claramente englobado por Faoro no conceito de patrimonialismo.
Diz o inacreditável Barroso, o advogado das Organizações Globo, com seu peculiar entendimento do conceito de corrupção, e sua invejável capacidade de relacionar temas históricos:
Acho que estamos refundando o País. Assim como em 1808 [quando a família real portuguesa se mudou para o Rio de Janeiro] o Brasil começou, acho que estamos tentando refundar um País, ensinando as novas gerações que ser honesto é melhor do que ser desonesto. E que, se for desonesto, vai ter consequências negativas.
Barroso não tem a menor noção sobre os pontos em comum entre a vinda da família real portuguesa e o momento atual. O principal ponto em comum é a criação/fortalecimento de um estamento público que desenvolve e passa a controlar o Estado,  implantando definitivamente o predomínio da plutocracia sobre a Nação. Da mesma maneira que o Congresso definindo o desenho dos gastos públicos para os próximos 20 anos, independentemente do que decidirem as eleições.
O que diz Barroso, o patrimonialista, sobre a PEC 35, enfiada goela abaixo da sociedade por um governo provisório, empossado no bojo de um golpe parlamentar.
Desrespeitá-la significa predeterminar o futuro com déficits, inflação, juros altos, desemprego e todas as consequências negativas que dessas disfunções advêm. A democracia, a separação de Poderes e a proteção dos direitos fundamentais decorrem de escolhas orçamentárias transparentes e adequadamente justificadas, e não da realização de gastos superiores às possibilidades do Erário, que comprometem o futuro e cujos ônus recaem sobre as novas gerações
Vamos ver como Faoro analisaria o momento, baseado no trabalho “As reflexões de Raymundo Faoro sobre a transição política brasileira nos anos 1989 e 1990”, de Maria José de Rezende.
Não há definição melhor desse tipo de comportamento, do que a de Faoro sobre o início do governo Collor:
 “[...] a eternidade tem muitas encarnações, a do século passado e a de hoje” (FAORO, 1989f, p. 23). A do presente, ou seja, a da Nova República, reproduzia o estilo burocrático emoldurado na “[...] insensibilidade, dissimulada em termos técnicos, incompreensíveis [...]. O jogo não é inocente. Os interesses favorecidos [...] nada perdem e alguma coisa ganham.
Essa idéia de que podem tudo já expressa, certamente, uma mentalidade patrimonialista, para a qual não há limites políticos, éticos ou jurídicos para as suas ações. O despotismo impera. “E se a Constituição não permitir? Lixe-se a Constituição [...]
É o mesmo modelo de hoje:
Todas as ações daqueles agentes que se empenhavam em destruir o jogo democrático se mostravam completamente voltadas a esvaziar qualquer potencialidade da sociedade civil ao exaltarem medidas irracionais, magias e milagres. (...)
As mudanças políticas controladas pelos setores preponderantes, as quais se iam processando na denominada transição democrática, eram sempre de cima para baixo, reafirmando o seu caráter estamental; estavam sempre postas a serviço dos mesmos interesses.
Políticos e países subdesenvolvidos são faces de uma mesma moeda, já que se reafirmavam através de mudanças negociadas e conciliadas. A chamada Nova República (1985–1990) era o exemplo mais acabado disso.
Barroso não aprendeu uma lição magistral, que Faoro recebeu de Neemias Gueiros:
 Então, apareceu um velho advogado, um homem curtido em lutas políticas, que era o Neemias Gueiros, a quem transmiti minha insegurança. Ele me respondeu que haveria uma coisa em que eu sempre haveria de ganhar dos políticos: se eu me mantivesse sincero sempre.
Falou a Barroso a coerência para se firmar como referência. Como declarou o advogado e cientista político Victor Pimenta, “a decisão de Barroso em PEC 241 nos faz sentir saudades dos tempos em que ele era constitucionalista, ante a diferença abissal entre o “Barroso Professor de Direito Constitucional” e o “Barroso Ministro”.

Collor e o momento atual

O que está em andamento, hoje em dia, é um processo em tudo similar à aliança que gerou Fernando Collor. A descrição de Faoro sobre o governo Collor se aplica integralmente ao momento atual, mas passou desapercebido do nosso brasilianista de boutique.
Primeiro, a falsa visão de conferir desimportância ao Estado, ao mesmo tempo em que se apropriava dele:
Ações como as de Fernando Collor de Mello não sufocavam o patrimonialismo ao tentar agir como se o Estado não tivesse qualquer importância. O governo daquele último, num processo de rechaçamento do Estado, acabou por potencializar as ilusões de que um ente iluminado poderia tudo resolver mesmo passando por cima de qualquer compromisso com os ideais republicanos e democráticos. De fato, a exclusão social e política, a qual é a seiva que nutre a política patrimonial, continuava a correr nas veias da sociedade.
As apostas sucessivas do Poder em Marina, Dória, Bolsonaro repete, à perfeição, as apostas sucessivas em Quércia, Covas até bater em Collor, e as tentativas atuais de Aécio e Alckmin, até bater em Dória:
A transição procurou, (...) um caminho que convencesse mais em termos de centro. Abriu todas as oportunidades para Orestes Quércia, pois era ele o homem. De certa maneira, acenou também para que o nome fosse o de Mário Covas, mas não se chegou nem a um e nem a outro. Chegou-se a um que é inesperado, porém não indesejado dentro do projeto.
Assim como as semelhanças entre 1964, e o 1964 modernizado que se tenta hoje em dia:
Politicamente, 89 moderniza 64, com um instrumento tirado dentro do sistema, disciplinado pelo sistema, apoiado pelos financiadores que se fizeram dentro do sistema e apoiado pelos agentes que manipulam a opinião.
Em ambos os casos, há a necessidade da criação de um populista de direita:
E por que um sistema que se encontrava esgotado continuava ainda fazendo valer suas estratégias? O extenuamento do sistema podia ser detectado na necessidade de um candidato de direita, como Fernando Collor de Mello, apresentar-se como que ligado diretamente às massas. (...)  O sistema se renovava tanto com aquele que foi eleito diretamente em 1989 quanto com aquele que foi indiretamente eleito em 1984. O sistema se inovava, o que não significava que ele havia entrado em colapso.
Faoro tirava lições definitivas sobre as instituições brasileiras, sob a pressão dos fatos:
A lição que o momento ensina tem o mérito de desvendar o miolo das instituições brasileiras, antes e depois da Carta de 1988. Elas podem ser resumidas em duas palavras: constitucionalismo de fachada e democracia falsificada e falsificadora.
A defesa do Estado de Exceção em nome do combate à corrupção, por Barroso, também foi claramente explicada por Faoro:
Estabelecia-se, no início de 1990, uma espécie de ditadura hipócrita. A hipocrisia estava no fato de ela negar a sua própria identidade, tentando mascarar um exercício obstinadamente abusivo da autoridade.
Faoro fez essa discussão em vista da prisão da família Temporal (empresários) por dívidas com o Fisco. Naquela ocasião, o governo Collor apresentava-se como aquele que jogaria duro com o empresariado. Restaurava-se, assim, a inconstitucional prisão administrativa.
Também se deu conta – ao contrário de seu débil intérprete – a sucessão de ilegalidades, que se segue à ilegalidade maior:
Desarticulou-se, de um golpe, toda a estrutura jurídica, para que medrasse, à sua ilharga, uma economia com regras próprias. A ilegalidade maior gerou, como necessariamente acontece, as ilegalidades menores, decorrentes daquela, existentes porque aquela existe.
A criação de figuras midiáticas para o jogo político é nítida no modelo Collor e no atual. Sempre se sonhou com os Collors, Dorias, Hulks e similares fabricados pela mídia:
Entre as diversas formas de precarização cotidiana da democracia e da cidadania, estava, por exemplo, o veto à “[...] Lei das Inelegibilidades que prolongou a desincompatibilização do pessoal da mídia. E por que era esse um ato que tinha um significado importante? Bastava ater-se ao fato de que o presidente Collor estava agindo para garantir que um número significativo de indivíduos chegasse ao Congresso Nacional em razão de suas imagens mediáticas. Em relação a ele próprio, a mídia havia tido um papel central na construção de uma imagem de vitorioso, de vencedor, de arrojado e de decididamente capaz de mudar o Brasil em favor dos “descamisados”, isto é, dos mais pobres.
Finalmente, aborda a importância do nascimento de uma nova direita, como condição fundamental para uma esquerda renovada:
O florescimento de uma nova direita era condição fundamental para que ocorresse, no Brasil, a constituição de uma esquerda que deveria renovar continuamente os procedimentos na vida pública brasileira. Se esta última continuasse tendo como adversária a velha direita, haveria uma tendência de petrificação de ações políticas que ficariam essencialmente no registro do modo de agir que se havia processado ao longo da história do país.
A contínua e íntima relação – através de alianças e de conciliações – da esquerda com a velha direita se constituía num fator de emperramento da democracia no Brasil. Reafirmavam-se, assim, de diversas maneiras, práticas e hábitos fundados na não transparência de atitudes e de ações. Uma vez no poder, através dessas alianças, se teria a continuidade e a manutenção do mesmo padrão de domínio baseado em privilégios estamentais.

Peça 3 – os efeitos políticos da greve

A extensão da greve joga novos fatos no jogo político. E explicita de vez o jogo entre a nova direita – um arco em que entra o BMF, a Procuradoria Geral da República, a camarilha de Temer e o PSDB – e a nova esquerda, que ainda não nasceu.
Uma greve ampla fez a reação contra Michel Temer e o Congresso transbordar dos movimentos sociais e sindicatos para outros setores, com adesão de 83 bispos da Igreja Católica, dezenas de colégios particulares de São Paulo, inúmeras igrejas evangélicas, artistas, intelectuais, praticamente toda a Justiça do Trabalho, funcionários e parte dos procuradores do Ministério Público e funcionários da Polícia Federal.
A greve expôs o racha nacional se alastrando por setores até agora à margem da disputa, e cravou na testa das reformas o estigma de antissocial. Coloca em curto-circuito todo o jogo de contrainformação da mídia. Somem-se as pesquisas de opinião divulgadas nos últimos dias, dando um placar massacrante contra as reformas, contra Michel Temer e a favor das eleições diretas, para se perceber o fracasso do golpe: a política se despiu do manto diáfano da fantasia.
No curto prazo, haverá uma ampliação das pressões sobre os políticos, judiciário e mídia, às vésperas de um ano eleitoral.
No médio prazo, a consolidação de uma frente ampla contra o modelo de país que o golpe tenta enfiar goela abaixo dos cidadãos e que agora está desnudado.
O castelo retórico criado pela mídia se esboroou, incluindo as ameaças terroristas, do suposto fim do país sem as reformas.

Peça 4 – o novo posicionamento do Supremo

Durante o processo do impeachment, o Supremo jamais foi desafiado a analisar o mérito, graças à não-estratégia jurídica do advogado José Eduardo Cardozo. Só recentemente, após o fato novo – da entrevista de Temer à Band admitindo o jogo político de Eduardo Cunha - resolveu representar junto ao Supremo com uma solicitação de liminar de mais de 400 páginas.
Na semana passada, no entanto, a 2ª Turma do STF ordenou o fim da prisão provisória de João Carlos Genu (ex-tesoureiro do PP) e de Eike Baptista. Votaram a favor da libertação os Ministro Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski; contra, Celso de Mello e Luiz Edson Fachin.
Antes disso, por razões humanitárias a 2a Turma ordenou a libertação do pecuarista José Carlos Bumlai. Votaram a favor Celso de Mello, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Edson Fachin e Ricardo Lewandowski votaram a favor da manutenção da prisão domiciliar –uma condição mais humana do que as prisões temporárias perenes.
Na 4a feira será o julgamento do habeas corpus de José Dirceu, preso há meses sem julgamento de 2a instância. Quase certamente será ordenada a sua libertação, embora Dirceu continue respondendo à condenação da AP 470.
O que importa é que, finalmente, o STF ganhará coragem para revogar o mais absurdo instrumento de arbítrio desses tempos nebulosos: o uso da prisão preventiva como forma de pressão para obter a delação nos termos que o juiz e os procuradores querem.
De fato, há uma maioria sólida e não circunstancial na 2a Turma contra esse instrumento de arbítrio: Gilmar, por agora estar atingindo os seus; Toffolli por seguir Gilmar e Lewandowski por convicção garantista. Celso de Mello é um garantista com uma excepcionalidade: o PT. E Fachin é um neo-linha dura.
Agora, toda a pressão da Lava Jato sobre os delatores se concentrará no fator Lula.

Cena 5 – o adiamento do depoimento de Lula

Para adiar o depoimento de Lula do dia 3 para 10 de maio, o juiz Sérgio Moro alegou pedidos da Polícia Federal e da Secretaria de Segurança do Paraná. Mas o motivo central foi a falta de provas contra Lula.
Tanto assim, que a Lava Jato convocou reunião dos advogados da OAS para os dias 2 e 3 de maio, para discutir as delações da empresa. No dia 4, mais dois executivos, Roberto Moreira e Agenor Medeiros, ainda vão depor na ação que apura o tal "Tríplex do Guarujá".
Também se reuniu com advogados especializados em delação, como Antônio Figueiredo Basto, advogado de Alberto Youssef e Adriano Bretas. Os rumores é que estaria propenso a aceitar a delação de Renato Duque, ex-diretor da Petrobras, que há mais de um ano tenta a delação. E também a de Antônio Palocci. Desde que versassem sobre Lula.
A última encenação, com o ex-presidente da OAS Léo Pinheiro, foi um tiro pela culatra. Léo entregou a encomenda pedida – a afirmação de que Lula seria o dono do tríplex, mas sem apresentar provas. A Força Tarefa reforçou com provas ridículas, comprovantes de que, durante um ano, um carro do Instituto Lula passou por duas vezes no pedágio de Guarujá. O que motivou gozações nas redes sociais: passe pelo pedágio e ganhe um apartamento.
Ocorre que o ciclo de acusações a Lula já entrou na fase correspondente à curva de Lafer na economia – conforme boa imagem da senadora Gleise Hofmann. A curva de Lafer mostra que, a partir de determinado nível de tributação, o efeito é negativo.
A Lava Jato entrou em uma enrascada onde, cada tentativa adicional de criminalizar Lula sem provas concretas, provoca um efeito inverso na sua popularidade.

Cena 6 – o imprevisível cenário futuro

Há nítidos sinais de que o monstro saiu do controle dos donos do poder.
A tentativa de fabricar um novo Collor, com João Dória, esbarra no amplo amadorismo do candidato. Na ânsia de explorar a radicalização contra Lula, vai gerando um personagem complicado, dono de uma retórica pobre, repetitiva e agressiva. É corredor de 50 metros.
Para falar para os MBLs da vida, assume uma retórica vagabunda (termo que faz parte do repertório dessa direita pedestre), incompatível com um homem de estado. A sucessão de grosserias, vai moldando – por baixo do macho alfa grosseiro – uma personalidade antipática, uma espécie de Aécio Neves com uma jovialidade de plástico – Dorian Gray? -, playboy mal-educado que choca a elite pela falta de modos e os populares, pelo excesso de arrogância.
No período Collor, o tempo político corria mais devagar e permitia uma construção lenta – e sob controle – da Globo. Nesses tempos de redes sociais, não existe mais esse controle.
Além disso, a mídia já havia sentido o desgaste de anos de jornalismo militante, de pós-verdade, de manipulação das informações. Nos últimos tempos, com dez anos de atraso, caiu a ficha que a única maneira de se diferenciar da miscelânea das redes sociais seria voltar a praticar um simulacro de jornalismo.
A recaída com a greve, porém, mostra que a síndrome do escorpião é invencível.
Entram em uma cilada complicada.
Se continuam a apostar no jogo da desinformação, aprofundarão o buraco em que se meteram. Se vacilam, há o fator Lula. E foi tão forte a radicalização política da mídia na última década, que a bandeira central da campanha de Lula certamente será o da regulação da mídia e do combate implacável à rede Globo.
Manter o jogo atual, portanto, é questão de sobrevivência para a Globo. O que significa que apostará todas suas fichas em Dória, ou em um pacto de ditadura com Bolsonaro ou abolindo as diretas. De qualquer modo, jogará todas suas fichas na condenação de Lula e sua inabilitação para 2018.

POLÍTICA - "Somente preso Lula não ganha em 2018.

Lula - somente preso não ganha em 2018, por Sergio Saraiva

Por Sergio Saraiva

Lula é hoje o maior risco e a única esperança para a retomada da normalidade democrática no Brasil. A resolução desse paradoxo está nas ruas.
Datafolha3 30 abr 2017
A manchete da Folha de 30 de abril de 2017, sobre a pesquisa de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2018 no Brasil traz dois erros. Um jornalístico e outro de análise estatística.
Bolsonaro sobe e disputa 2º lugar; Lula amplia a liderança
O erro jornalístico e patente, dá destaque ao secundário – o crescimento de Bolsonaro – em detrimento do principal: Lula não é afetado pelas delações da Odebrecht e, além disso, amplia sua vantagem em relação aos adversários. Alguns deles foram destroçados por tais delações, Lula passou incólume em relação a elas.
O erro de análise estatística é cometido também em relação a Bolsonaro. Pelo menos neste instante, seu crescimento nas pesquisas é um dado curioso, embora previsível, mas não altera o resultado previsto na para das eleições presidenciais de 2018. Por ora, ainda a principal adversária de Lula é Marina Silva.
Porém, independente da má vontade do secretário de redação que elaborou a matéria – tipo conhecido do antipetismo – a pesquisa Datafolha permite analisarmos as possibilidades atuais de vários candidatos para as próximas eleições presidenciais.
Datafolha2 30 abr 2017
Bolsonaro – comecemos por ele.
Bolsonaro é o representante da extrema-direita e seu crescimento - 15% de intenção de voto no primeiro turno - deve ser acompanhado. Porém, não é relevante para o resultado final das eleições, neste instante.
Perde para Lula no segundo turno de 43% a 31%, respectivamente. Esse cenário deixa 26% do eleitorado sem candidato definido – ou seja, que não votariam em nenhum dos dois. Lula teria de conquistar 7 pontos percentuais nesse total para se eleger – menos de 3 em cada 10 indecisos. Bolsonaro teria de conquistar 19 pontos percentuais – mais de 7 em cada 10. Façam suas apostas, senhores - vermelho 13.
Marina Silva -  é ainda a principal adversária de Lula. Está em segundo lugar no primeiro turno com 14% - empatada com Bolsonaro – e vence Lula, na margem de erro, em um segundo turno por 41% a 38%, respectivamente.
Por que então a Folha não lhe deu destaque? Simples, Marina está em queda livre no seu recall de votos da eleição de 2014. Era de 52% na pesquisa de novembro de 2015 e está agora com 41% - perdeu 11 pontos percentuais. Lula está em crescimento contínuo – cresceu 7 pontos percentuais debaixo da tempestade e poderá ultrapassar Marina já na próxima pesquisa.
Datafolha5 30 abr 2017
Informação relevante, os votos de Marina aparentemente migram para Lula, já que a porcentagem de indecisos não aumenta com a queda de Marina – 23% em média e, inclusive, vem diminuindo a cada pesquisa.
João Doria – aparentemente sofre da mesma fraqueza de Alckmin, é um fenômeno puramente paulista. Está em forte e ininterrupta campanha midiática desde que se elegeu para a prefeitura de São Paulo, mas obteve apenas 9% dos votos. É aparentemente um produto que não pegou junto ao público geral, apesar da forte campanha midiática no lançamento. Provavelmente um produto para um nicho de mercado.
No segundo turno, perderia para Lula igualmente a Bolsonaro – 43% a 32%, respectivamente.
Luciano Huck - Doria e Bolsonaro disputam públicos diferentes, mas no mesmo espectro político – o radical de direita. A Folha não liberou os dos brutos da pesquisa, mas não é difícil traçar o perfil dos seus eleitores através do que se constata nas suas campanhas nas redes sociais – homem branco, classe média, desrespeitoso e grosseirão – Bolsonaro emociona os mais jovens e os mais velhos - viúvas da ditadura; Doria é dos adultos e jovens adultos. Mas ambos com o mesmo perfil. Públicos muito restritos e específicos com baixo poder de crescimento.
Dória essencialmente paulista e Bolsonaro com alcance nacional. As chances de crescimento de Doria, portanto, são maiores que as de Bolsonaro – mas se é para apostar no outsider – o político não político – melhor apostar em Luciano Huck.
Muito mais palatável que o milico de pijama ou o dândi empedernido. Luciano Huck tem 3% dos votos, mas isso é enganoso já que não foi testado em um cenário em que não dividisse seus votos com outros candidatos - do PSDB, por exemplo.
Ciro Gomes -  Ciro não decola pois é o eterno Plano B das esquerdas. Só tem chances se Lula não concorrer – 12% de intenções de voto.
Não é pouco, nos cenários em que Lula não participa, isso o embola no segundo lugar com outros candidatos. Mas Marina vence com uma margem mais de 10 pontos percentuais, no mínimo.
Datafolha4 30 abr 2017
PSDB – não existe eleitoralmente, tornou-se um partido nanico com menos de 10% das intenções de voto não importa quem seja o candidato – Aécio (8%), Alckmin (6%) ou Doria (9%). Sugestivamente, o nome de José Serra sequer participou da pesquisa.
Sergio Moro – é o antípoda de Lula. Mas os dados da pesquisa não são bons para ele.
Sergio Moro e Lula travam, por iniciativa do primeiro ou com seu consentimento, pelo menos, uma batalha entre o santo guerreiro e o demônio da maldade. E o demônio da maldade empatou o jogo. Sergio Moro 42% e Lula 40%.
Mas uma disputa como essa é somente alegórica. Para que ocorresse no mundo real, Sergio Moro teria de se despir do poder da toga. Ocorre que Sergio Moro não seria tolo para tanto. Sem poder decretar prisões preventivas ou mandatos de conduções coercitivas e tendo de dar explicações sobre seus atos, que chance tem Moro? Apanharia até dos desafetos que possui dentro do próprio Judiciário.
Temer – literalmente não existe. Com dois pontos percentuais de inteção de voto, nos cenários em que seu nome foi pesquisado, conseguiu empatar com a própria margem de erro da pesquisa. E um candidato que não ganha nem da margem de erro não existe – zero.
Lula – não há o que analisar sobre Lula, além de que é o virtual presidente do Brasil eleito em 2018, isso se puder disputar e se, sem em função disso, houver eleições.
Datafolha1 30 abr 2017
Somente para termos uma ilustração, na pesquisa Datafolha não há cenários de segundo turno sem Lula, mas, nos do primeiro turno, quando Lula não está presente, o percentual de votos indefinidos (brancos, nulos, nenhum e não sabe) sobe 10 pontos percentuais – de em torno de 20%, com Lula, para algo como 30% do eleitorado, sem Lula. Ou seja, hoje, ninguém fica com os votos de Lula.
Essa é a manchete que a Folha não deu: Lula – somente preso não ganha em 2018.
Numa análise final: o cenário político nascido do golpe parlamentar de 2016 e seus desdobramentos tornaram Lula, hoje, o maior risco e a única esperança para a retomada da normalidade democrática no Brasil.
A resolução desse paradoxo está nas ruas.
PS: A Oficina de Concertos Gerais e Poesia não nega méritos a quem os tem, neste caso, a ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa, por sua análise da postura adotada pela imprensa mainstream na cobertura da Greve Geral de 28 de abril de 2017: "na sexta-feira, o bom jornalismo aderiu à greve geral. Não compareceu para trabalhar". Tampouco no domingo ao analisar os resultados da pesquisa para eleições de 2018.

MÍDIA - Dessa vez a Globo fez pior.

Globo fez pior agora do que nas Diretas-Já

Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo:
Em 1983 eu era repórter da TV Bauru, afiliada da Globo no interior paulista. Porém, vivia “cedido” à emissora em São Paulo, cobrindo férias de colegas. Morava no Hotel Eldorado da rua Marquês de Itu, no Higienópolis, na capital paulista, como repórter do chão de fábrica.

Fui, como pessoa física, à primeira manifestação pelas Diretas Já em São Paulo, diante do estádio do Pacaembu, à qual compareceram cerca de 15 mil pessoas. Foi em 27 de novembro de 1983, poucos dias depois de meu aniversário.

Outros protestos já tinham acontecido antes, pedindo que a ditadura estabelecida em 1964 tivesse fim com eleições presidenciais diretas. Outras aconteceriam depois, com destaque para Curitiba, onde se reuniram cerca de 40 mil pessoas.

Portanto, posso dizer que eu estava lá vivendo a realidade paralela pela primeira vez: enquanto as notícias fundamentais para o futuro do Brasil aconteciam do lado de fora, a TV Globo desconhecia as notícias do lado de dentro - especificamente, na sede da emissora em São Paulo, na praça Marechal Deodoro.
Era uma sensação bizarra. As ordens vinham do Rio: na Globo, nada de Diretas Já.

Portanto, não houve exatamente surpresa quando, no aniversário de São Paulo, em 25 de janeiro de 1984, o repórter Ernesto Paglia falou sobre a manifestação de cerca de 300 mil pessoas na praça da Sé, que reivindicava outra vez Diretas Já, como se fosse a comemoração da efeméride. Sim, é fato que a reportagem tratou dos discursos e da manifestação em si, mas foi embalada pelos editores, a mando da direção da Globo no Rio, como se fosse a cobertura de uma festa.

A maneira como a TV Globo tratou a histórica Greve Geral do 28 de abril de 2017 é, na minha avaliação, muito pior do que aconteceu com a cobertura das Diretas Já em 1983/1984.

Àquela época, a emissora poderia alegar - como alguns globais chegaram a alegar - que vivíamos os estertores de uma ditadura militar e que desafiar o regime poderia ter consequências para a própria abertura “lenta, gradual e segura” prometida pelo ditador João Figueiredo.

Agora, não. Graças às redes sociais - facebook, twitter, whatsapp - qualquer pessoa pode avaliar o grau de descontentamento com as medidas de impacto social tomadas por um governo que tem o presidente da República e nove de seus ministros sob suspeita e/ou investigação, medidas que por sua vez são submetidas a um Congresso igualmente sob suspeita.

Mesmo os mais devotos apoiadores do impeachment de Dilma Rousseff e antipetistas vários sabem que Michel Temer não foi eleito vice-presidente para tomar o rumo que tomou, nem tem legitimidade para golpear os direitos sociais da forma como pretende fazê-lo.

Age em nome do 1% do topo, com 4% de ótimo/bom na pesquisa de opinião pública mais recente e desemprego na casa dos 14%, quando a promessa era de que a derrubada de Dilma provocaria um cavalo-de-pau imediato na economia.

Portanto, desta feita a TV Globo e seus satélites não tem onde se esconder: o apoio dado às medidas do governo Temer expressa acima de tudo o interesse político e econômico dos próprios donos da mídia e dos usurpadores do poder no Planalto e no Congresso que os representam.

No caso da emissora, é absolutamente impossível do ponto-de-vista jornalístico que uma organização com tantos tentáculos espalhados por todo o Brasil tenha sido incapaz de registrar o descontentamento popular ANTES da greve geral, de forma a expressá-lo em seu noticiário.

Será que só nós, internautas, vimos por exemplo as manifestações da CNBB e de um terço dos 100 bispos da Igreja Católica, os quais certamente não podemos acusar de agirem a mando do anarco-sindicalismo?

A Globo, para ficar apenas na nave mãe, simplesmente fez mau jornalismo. Não foi pela primeira, nem será pela última vez.

Agora, porém, não tem como se esconder atrás da ditadura, da qual foi a principal beneficiária, como fez em 1984.

Agora, fez mau jornalismo - distorcido, omisso, descontextualizado - porque coloca seus interesses empresariais, representados pelo governo Temer, acima do interesse da maioria dos brasileiros.

PS: Que fique registrado. Quando Lula se elegeu presidente e foi à Globo do Rio dar entrevista ao Jornal Nacional - estava em minha segunda passagem pela emissora - eu fui um dos poucos jornalistas presentes que não o aplaudiram na entrada. Não acho que o papel de jornalista seja bater palma para autoridade, tampouco negar a realidade que o cerca.

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