O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) João Pedro Stedile voltou a criticar nesta quinta-feira, a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), a quem acusou de "fascismo" por, em sua visão, criar um "Estado policial", e fez uma distinção entre a tucana e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Para Stedile, Yeda não tem "base social", enquanto o governo Serra é "uma construção de classe, uma união da indústria paulista com o setor financeiro e as empresas transnacionais". Yeda foi "uma invenção de marketing", declarou, em entrevista após participar de seminário sobre os dez anos do Fórum Social Mundial.
A reportagem é de Sandra Hahn, Agência Estado, 28-01-2010.
Na segunda-feira, Stedile havia dito, no mesmo evento, que o MST e os movimentos sociais farão campanha contra Serra na disputa presidencial. Ele observou que os movimentos não deverão indicar voto em nenhum candidato, mas citou que os grupos sempre escolhem representantes da esquerda. "No Brasil, vamos torcer para que o Serra não ganhe as eleições porque Serra seria simbolicamente a volta do neoliberalismo clássico", afirmou, na ocasião.
Nesta quinta, ele rejeitou aplicar o mesmo adjetivo de "fascista" ao governo Serra e disse esperar que o governador de São Paulo tenha "juízo". "Eu espero que o governo Serra tenha juízo e perceba - ele que já teve um passado de esquerda -, que problema social não se resolve com polícia", afirmou, após criticar a Operação Laranja, da Polícia Civil, que esta semana prendeu nove pessoas ligadas ao MST.
Stedile também criticou o andamento da reforma agrária, disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva descumpriu compromissos com o MST e pediu que o governo faça a revisão dos índices de produtividade - que servem para avaliar as propriedades rurais para fins de reforma agrária.
O MST, disse, vê a ocupação de terras como a principal forma de luta em alguns Estados. Em outros, contudo, esta não é mais a principal forma de mobilização, mas as ocupações vão continuar, assegurou, negando mudanças de estratégia nas ações do movimento.
Carlos Augusto de Araujo Dória, 82 anos, economista, nacionalista, socialista, lulista, budista, gaitista, blogueiro, espírita, membro da Igreja Messiânica, tricolor, anistiado político, ex-empregado da Petrobras. Um defensor da justiça social, da preservação do meio ambiente, da Petrobras e das causas nacionalistas.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
POLÍTICA - Meireles, articulação difícil para vice.
Pedro do Coutto
Reportagem de Vera Rosa e Beatriz Abreu, O Estado de São Paulo de quarta-feira, focaliza uma inclinação revelada pelo presidente Lula, durante encontro com o senador José Sarney, no sentido de que Henrique Meireles, e não Michel Temer seja o candidato indicado pelo PMDB para vice de Dilma Roussef. O atual dirigente do Banco Central, cuja gestão inegavelmente é marcada pelo êxito, desempenharia o papel idêntico ao representado por José Alencar, vice-presidente eleito com Lula e que, em 2002, realizou a tarefa de praticamente anular uma possível reação das classes empresariais ao candidato do PT. Alencar tem proporcionado o equilíbrio buscado pelo presidente duas vezes vitorioso entre capital e trabalho.
Sem dúvida, diminuiu substancialmente as resistências a Lula que se verificaram em 89, 94 e 98. Lula era nessas três disputas visto com certa desconfiança quanto à política econômica que poderia colocar em prática. De repente, como num golpe de mágica, a maior figura do Partido dos Trabalhadores demonstrou que os temores não tinham razão alguma. Harmonizou as correntes e, com a participação importante de Alencar, revelou-se muito menos radical do que se supunha. Muito menos radical, por exemplo, do que Fernando Collor. Mas Fernando Henrique Cardoso conseguiu galvanizar a classe média e até mesmo uma parcela do proletariado, na verdade mais sensível a mudanças do que se possa supor à primeira vista. Na verdade, é necessário levar em conta, como uma pesquisa feita há tempo por Homero Icaza Sanches, que as perspectivas de uma classe social, seja ela qual for, estão sempre voltadas pelo menos para um degrau acima do patamar no qual se encontram. Mas esta é outra questão, embora importante para efeito de análise eleitoral. Engano pensar-se que as classes de menor renda desejam mudanças abruptas.
Mas voltando à indicação potencial de Henrique Meireles, não quer dizer que seja de fácil aceitação pelo PMDB. O partido fixou-se em torno de Michel Temer, indicação que parece não ser do agrado do Planalto, de modo geral ou de Lula em particular. Primeiro surgiu a questão de lista tríplice que o PMDB submeteria ao PT. Uma situação sem dúvida singular, pois se uma legenda forma coligação com outra, salvo um motivo muito forte, tem que estar disposto a firmar a aliança sem exclusão ou inclusão de nomes. Na legislação antiga, por exemplo, quando da vitória de Jânio Quadros, o candidato da coligação UDN-PDC-PTR, concorreu com três vices, todos somando votos para ele. Milton Campos, pela UDN, Fernando Ferrari pelo Partido Trabalhista Renovador, e até João Goulart pelo PTB, na famosa operação Jan-Jan, ou canguru, como foi chamada. Nenhuma das três agremiações, incluindo o PDC, primeiro a lançar Jânio Quadros, fez questão de exclusividade quanto à vice.
Um episodio aliás, pouco focalizado pelos historiadores, a manobra de João Goulart, afastando-se assim da candidatura do general Teixeira Lott, que encabeçava sua chapa. Articulada pelo senador Sousa Naves, a operação canguru proporcionou cerca de 800 mil votos a Goulart em São Paulo e também no Paraná. Lance decisivo para que ele se reelegesse vice-presidente da República, o que a lei da época permitia quanto aos vices, eleitos separadamente dos presidentes da República. Fosse outra a legislação, Milton Campos teria sido eleito junto com Jânio. Agora é diferente. E como não existe pluraridade de vices, Dilma Roussef só poderá contar com um nome do PMDB, cuja legenda muito acrescenta a ela em tempo na televisão. Difícil vir a ser Meireles. Mas pelo visto também difícil que venha a se confirmar Michel Temer. O Planalto preferiria um terceiro nome? É o que está parecendo.
Reportagem de Vera Rosa e Beatriz Abreu, O Estado de São Paulo de quarta-feira, focaliza uma inclinação revelada pelo presidente Lula, durante encontro com o senador José Sarney, no sentido de que Henrique Meireles, e não Michel Temer seja o candidato indicado pelo PMDB para vice de Dilma Roussef. O atual dirigente do Banco Central, cuja gestão inegavelmente é marcada pelo êxito, desempenharia o papel idêntico ao representado por José Alencar, vice-presidente eleito com Lula e que, em 2002, realizou a tarefa de praticamente anular uma possível reação das classes empresariais ao candidato do PT. Alencar tem proporcionado o equilíbrio buscado pelo presidente duas vezes vitorioso entre capital e trabalho.
Sem dúvida, diminuiu substancialmente as resistências a Lula que se verificaram em 89, 94 e 98. Lula era nessas três disputas visto com certa desconfiança quanto à política econômica que poderia colocar em prática. De repente, como num golpe de mágica, a maior figura do Partido dos Trabalhadores demonstrou que os temores não tinham razão alguma. Harmonizou as correntes e, com a participação importante de Alencar, revelou-se muito menos radical do que se supunha. Muito menos radical, por exemplo, do que Fernando Collor. Mas Fernando Henrique Cardoso conseguiu galvanizar a classe média e até mesmo uma parcela do proletariado, na verdade mais sensível a mudanças do que se possa supor à primeira vista. Na verdade, é necessário levar em conta, como uma pesquisa feita há tempo por Homero Icaza Sanches, que as perspectivas de uma classe social, seja ela qual for, estão sempre voltadas pelo menos para um degrau acima do patamar no qual se encontram. Mas esta é outra questão, embora importante para efeito de análise eleitoral. Engano pensar-se que as classes de menor renda desejam mudanças abruptas.
Mas voltando à indicação potencial de Henrique Meireles, não quer dizer que seja de fácil aceitação pelo PMDB. O partido fixou-se em torno de Michel Temer, indicação que parece não ser do agrado do Planalto, de modo geral ou de Lula em particular. Primeiro surgiu a questão de lista tríplice que o PMDB submeteria ao PT. Uma situação sem dúvida singular, pois se uma legenda forma coligação com outra, salvo um motivo muito forte, tem que estar disposto a firmar a aliança sem exclusão ou inclusão de nomes. Na legislação antiga, por exemplo, quando da vitória de Jânio Quadros, o candidato da coligação UDN-PDC-PTR, concorreu com três vices, todos somando votos para ele. Milton Campos, pela UDN, Fernando Ferrari pelo Partido Trabalhista Renovador, e até João Goulart pelo PTB, na famosa operação Jan-Jan, ou canguru, como foi chamada. Nenhuma das três agremiações, incluindo o PDC, primeiro a lançar Jânio Quadros, fez questão de exclusividade quanto à vice.
Um episodio aliás, pouco focalizado pelos historiadores, a manobra de João Goulart, afastando-se assim da candidatura do general Teixeira Lott, que encabeçava sua chapa. Articulada pelo senador Sousa Naves, a operação canguru proporcionou cerca de 800 mil votos a Goulart em São Paulo e também no Paraná. Lance decisivo para que ele se reelegesse vice-presidente da República, o que a lei da época permitia quanto aos vices, eleitos separadamente dos presidentes da República. Fosse outra a legislação, Milton Campos teria sido eleito junto com Jânio. Agora é diferente. E como não existe pluraridade de vices, Dilma Roussef só poderá contar com um nome do PMDB, cuja legenda muito acrescenta a ela em tempo na televisão. Difícil vir a ser Meireles. Mas pelo visto também difícil que venha a se confirmar Michel Temer. O Planalto preferiria um terceiro nome? É o que está parecendo.
VÁ EM FRENTE DILMA, SARAVÁ
Rui Martins
Berna (Suiça) - Quando estávamos terminando o curso de Direito, no Largo de São Francisco, em 1963, criou-se, como de praxe, uma Comissão da Formatura. Naquela época, eu já não era um presbiteriano ativo e me debatia com as dúvidas que me levariam à descrença, principalmente depois da IPB ter tomado o partido dos militares.
Era um ano politicamente quente com os grandes debates das reformas de base, e a passagem pelas Arcadas de Leonel Brizola com seu verbo inflamado respondendo às acusações levantadas contra Jango pelo líder udenista Carlos Lacerda.
O mais importante era talvez a crença, entre os jovens, de que se podia mudar o mundo, por isso cada um de nós (não sei se mantenho esse comportamento do passado) estava sempre pronto a entrar numa trincheira, mesmo sem armas, para defender idéias de igualdade social, de combate à miséria com todo o ardor da juventude.
Ora, vez ou outra, nos intervalos das aulas (eu fazia o curso noturno), apareciam os membros da Comissão de Formatura para contar como iam organizar nossa festa, quanto poderia custar, onde ia ser o baile e como deveríamos pagar nossa parte. E numa dessas noites, fomos informados sobre a missa da formatura. Eu, pessoalmente, nunca imaginara que, numa Faculdade de Direito pública da USP, pudesse haver missa numa festa de formatura.
Pedi informações, e me foram dadas: era praxe (meus colegas advogados têm uma atração por palavras desse tipo e mantenho o original) os formandos pedirem a celebração de uma missa. O arcebispo já havia sido contatado e a missa seria na prestigiosa Catedral da Sé. « Mas vejam, respondi, nós estudamos numa faculdade pública e isso me parece um tanto estranho ».
- Mas é a tradição, me responderam. Ora, como nas Arcadas de São Francisco a tradição imperava, parecia muito normal mantê-la, mesmo se ao arrepio do princípio da separação da Igreja do Estado.
Como tenho um espírito de provocador (meus leitores já devem ter notado), perguntei como se faria com os protestantes (naquela época não se falava evangélicos), com os ortodoxos e com os judeus (não havia muçulmanos naquele grupo).
- Faremos como vem sendo feito (era de novo a tradição): os cultos não católicos terão o convite em separado e os formandos não católicos entregarão o convite da formatura com a separata aos seus convidados. No convite oficial só constará a Missa.
Como tenho o pavio curto, me levantei do lugar em que estava, no grande anfiteatro, e despejei tudo quanto pensava sobre esse desrespeito aos colegas de outros cultos e essa visão distorcida do direito de livre culto justamente por estudantes de Direito. Virou um enorme bate-boca com a intervenção de outros que passaram a me apoiar, no meio da reação de católicos que se consideravam insultados com a petulância de se querer quebrar uma velha tradição arcadiana.
O professor apareceu na porta, era hora de começar a aula, a discussão parou ali, mas de volta à minha República redigi um texto para abaixo-assinado e, já na manhã seguinte, fui ao curso diurno, expliquei aos colegas o incidente e pedi assinaturas. Em alguns dias, as assinaturas encheram duas ou três páginas, porque mesmo católicos, futuros advogados preferiam o respeito à laicidade que o privilégio de um culto sobre os outros.
Para evitar uma perda do abaixo-assinado, pedi a um colega fotografar com flash a entrega do documento ao presidente da Comissão. Para encurtar, o responsável pela Catedral da Sé informou que só haveria missa naquela igreja, se a cerimônia constasse no convite oficial e sem a presença de outros cultos religiosos. E, finalmente, todos os cultos de ação de graças inclusive a missa acabaram em convites em separado, como manda a laicidade.
Conto esse episódio para enfatizar, como não religioso, que todos os cultos e religiões devem ser livres em termos iguais. Hoje no Brasil, segundo denúncias feitas ao Comissariado de Direitos Humanos em Genebra, estão se registrando casos de ataques e violências contra umbandistas por evangélicos. Li, no caso do terremoto do Haiti, ter havido absurdas declarações de líderes evangélicos nos EUA e talvez no Brasil de ter sido um castigo de Deus ao paganismo haitiano.
É fato notório que nem todas as religiões são adeptas do ecumenismo e que chegam mesmo a insuflar o ódio e a guerra, como acontece hoje em alguns países e como aconteceu no passado com as Cruzadas e Isabel da Espanha, sem se esquecer a Inquisição. Por isso, o nosso moderno Estado de direito precisa estar atento a fim de evitar privilégios religiosos, perseguições ou desigualdades.
Os terreiros de umbanda são uma realidade no Brasil e devem gozar de todo direito das outras religiões. No Senado Federal, havia, não sei se foi aprovado, um projeto de lei restabelecendo o ensino religioso católico nas escolas em lugar de um ensino opcional das religiões em geral, como ocorre aqui na Europa, tais preferências e deslizes devem ser evitados.
Arthur Clarke, o autor do livro 2001, Odisséia no Espaço, levado ao cinema por Kubrick, previu um mundo futuro sem religião, mas enquanto não chegamos lá, é preciso se respeitar todos os cultos. Se Dilma acha que, por questão eleitoral, não deve reconhecer agora o direito dos terreiros de umbanda, não pode esquecer de fazê-lo nos seus primeiros meses de governo.
Direto da Redação
Berna (Suiça) - Quando estávamos terminando o curso de Direito, no Largo de São Francisco, em 1963, criou-se, como de praxe, uma Comissão da Formatura. Naquela época, eu já não era um presbiteriano ativo e me debatia com as dúvidas que me levariam à descrença, principalmente depois da IPB ter tomado o partido dos militares.
Era um ano politicamente quente com os grandes debates das reformas de base, e a passagem pelas Arcadas de Leonel Brizola com seu verbo inflamado respondendo às acusações levantadas contra Jango pelo líder udenista Carlos Lacerda.
O mais importante era talvez a crença, entre os jovens, de que se podia mudar o mundo, por isso cada um de nós (não sei se mantenho esse comportamento do passado) estava sempre pronto a entrar numa trincheira, mesmo sem armas, para defender idéias de igualdade social, de combate à miséria com todo o ardor da juventude.
Ora, vez ou outra, nos intervalos das aulas (eu fazia o curso noturno), apareciam os membros da Comissão de Formatura para contar como iam organizar nossa festa, quanto poderia custar, onde ia ser o baile e como deveríamos pagar nossa parte. E numa dessas noites, fomos informados sobre a missa da formatura. Eu, pessoalmente, nunca imaginara que, numa Faculdade de Direito pública da USP, pudesse haver missa numa festa de formatura.
Pedi informações, e me foram dadas: era praxe (meus colegas advogados têm uma atração por palavras desse tipo e mantenho o original) os formandos pedirem a celebração de uma missa. O arcebispo já havia sido contatado e a missa seria na prestigiosa Catedral da Sé. « Mas vejam, respondi, nós estudamos numa faculdade pública e isso me parece um tanto estranho ».
- Mas é a tradição, me responderam. Ora, como nas Arcadas de São Francisco a tradição imperava, parecia muito normal mantê-la, mesmo se ao arrepio do princípio da separação da Igreja do Estado.
Como tenho um espírito de provocador (meus leitores já devem ter notado), perguntei como se faria com os protestantes (naquela época não se falava evangélicos), com os ortodoxos e com os judeus (não havia muçulmanos naquele grupo).
- Faremos como vem sendo feito (era de novo a tradição): os cultos não católicos terão o convite em separado e os formandos não católicos entregarão o convite da formatura com a separata aos seus convidados. No convite oficial só constará a Missa.
Como tenho o pavio curto, me levantei do lugar em que estava, no grande anfiteatro, e despejei tudo quanto pensava sobre esse desrespeito aos colegas de outros cultos e essa visão distorcida do direito de livre culto justamente por estudantes de Direito. Virou um enorme bate-boca com a intervenção de outros que passaram a me apoiar, no meio da reação de católicos que se consideravam insultados com a petulância de se querer quebrar uma velha tradição arcadiana.
O professor apareceu na porta, era hora de começar a aula, a discussão parou ali, mas de volta à minha República redigi um texto para abaixo-assinado e, já na manhã seguinte, fui ao curso diurno, expliquei aos colegas o incidente e pedi assinaturas. Em alguns dias, as assinaturas encheram duas ou três páginas, porque mesmo católicos, futuros advogados preferiam o respeito à laicidade que o privilégio de um culto sobre os outros.
Para evitar uma perda do abaixo-assinado, pedi a um colega fotografar com flash a entrega do documento ao presidente da Comissão. Para encurtar, o responsável pela Catedral da Sé informou que só haveria missa naquela igreja, se a cerimônia constasse no convite oficial e sem a presença de outros cultos religiosos. E, finalmente, todos os cultos de ação de graças inclusive a missa acabaram em convites em separado, como manda a laicidade.
Conto esse episódio para enfatizar, como não religioso, que todos os cultos e religiões devem ser livres em termos iguais. Hoje no Brasil, segundo denúncias feitas ao Comissariado de Direitos Humanos em Genebra, estão se registrando casos de ataques e violências contra umbandistas por evangélicos. Li, no caso do terremoto do Haiti, ter havido absurdas declarações de líderes evangélicos nos EUA e talvez no Brasil de ter sido um castigo de Deus ao paganismo haitiano.
É fato notório que nem todas as religiões são adeptas do ecumenismo e que chegam mesmo a insuflar o ódio e a guerra, como acontece hoje em alguns países e como aconteceu no passado com as Cruzadas e Isabel da Espanha, sem se esquecer a Inquisição. Por isso, o nosso moderno Estado de direito precisa estar atento a fim de evitar privilégios religiosos, perseguições ou desigualdades.
Os terreiros de umbanda são uma realidade no Brasil e devem gozar de todo direito das outras religiões. No Senado Federal, havia, não sei se foi aprovado, um projeto de lei restabelecendo o ensino religioso católico nas escolas em lugar de um ensino opcional das religiões em geral, como ocorre aqui na Europa, tais preferências e deslizes devem ser evitados.
Arthur Clarke, o autor do livro 2001, Odisséia no Espaço, levado ao cinema por Kubrick, previu um mundo futuro sem religião, mas enquanto não chegamos lá, é preciso se respeitar todos os cultos. Se Dilma acha que, por questão eleitoral, não deve reconhecer agora o direito dos terreiros de umbanda, não pode esquecer de fazê-lo nos seus primeiros meses de governo.
Direto da Redação
LULA - Prêmio "Estadista Global"
Copiado do blog "Democracia&Política"
Íntegra do discurso de Lula lido por Celso Amorim em Davos
Em repouso após passar por uma crise de hipertensão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, leu o discurso de Lula na cerimônia de entrega do prêmio "Estadista Global". O discurso descreve os avanços obtidos pelo Brasil nos últimos anos.
Leia abaixo a íntegra do discurso.
"Minhas senhoras e meus senhores,
Em primeiro lugar, agradeço o prêmio "Estadista Global" que vocês estão me concedendo.
Nos últimos meses, tenho recebido alguns dos prêmios e títulos mais importantes da minha vida.
Com toda sinceridade, sei que não é exatamente a mim que estão premiando - mas ao Brasil e ao esforço do povo brasileiro. Isso me deixa ainda mais feliz e honrado.
Recebo este prêmio, portanto, em nome do Brasil e do povo do meu país. Este prêmio nos alegra, mas, especialmente, nos alerta para a grande responsabilidade que temos.
Ele aumenta minha responsabilidade como governante, e a responsabilidade do meu país como ator cada vez mais ativo e presente no cenário mundial.
Tenho visto, em várias publicações internacionais, que o Brasil está na moda. Permitam-me dizer que se trata de um termo simpático, porém inapropriado.
O modismo é coisa fugaz, passageira. E o Brasil quer e será ator permanente no cenário do novo mundo.
O Brasil, porém, não quer ser um destaque novo em um mundo velho. A voz brasileira quer proclamar, em alto e bom som, que é possível construir um mundo novo.
O Brasil quer ajudar a construir este novo mundo, que todos nós sabemos, não apenas é possível, mas dramaticamente necessário, como ficou claro, na recente crise financeira internacional – mesmo para os que não gostam de mudanças.
Meus senhores e minhas senhoras,
O olhar do mundo hoje, para o Brasil, é muito diferente daquele, de sete anos atrás, quando estive pela primeira vez em Davos.
Naquela época, sentíamos que o mundo nos olhava mais com dúvida do que esperança. O mundo temia pelo futuro do Brasil, porque não sabia o rumo exato que nosso país tomaria sob a liderança de um operário, sem diploma universitário, nascido politicamente no seio da esquerda sindical.
Meu olhar para o mundo, na época, era o contrário do que o mundo tinha para o Brasil. Eu acreditava, que assim como o Brasil estava mudando, o mundo também pudesse mudar.
No meu discurso de 2003, eu disse, aqui em Davos, que o Brasil iria trabalhar para reduzir as disparidades econômicas e sociais, aprofundar a democracia política, garantir as liberdades públicas e promover, ativamente, os direitos humanos.
Iria, ao mesmo tempo, lutar para acabar sua dependência das instituições internacionais de crédito e buscar uma inserção mais ativa e soberana na comunidade das nações.
Frisei, entre outras coisas, a necessidade de construção de uma nova ordem econômica internacional, mais justa e democrática.
E comentei que a construção desta nova ordem não seria apenas um ato de generosidade, mas, principalmente, uma atitude de inteligência política.
Ponderei ainda que a paz não era só um objetivo moral, mas um imperativo de racionalidade. E que não bastava apenas proclamar os valores do humanismo. Era necessário fazer com que eles prevalecessem, verdadeiramente, nas relações entre os países e os povos.
Sete anos depois, eu posso olhar nos olhos de cada um de vocês – e, mais que isso, nos olhos do meu povo – e dizer que o Brasil, mesmo com todas as dificuldades, fez a sua parte. Fez o que prometeu.
Neste período, 31 milhões de brasileiros entraram na classe média e 20 milhões saíram do estágio de pobreza absoluta. Pagamos toda nossa dívida externa e hoje, em lugar de sermos devedores, somos credores do FMI.
Nossas reservas internacionais pularam de 38 bilhões para cerca de 240 bilhões de dólares. Temos fronteiras com 10 países e não nos envolvemos em um só conflito com nossos vizinhos. Diminuímos, consideravelmente, as agressões ao meio ambiente. Temos e estamos consolidando uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, e estamos caminhando para nos tornar a quinta economia mundial.
Posso dizer, com humildade e realismo, que ainda precisamos avançar muito. Mas ninguém pode negar que o Brasil melhorou.
O fato é que Brasil não apenas venceu o desafio de crescer economicamente e incluir socialmente, como provou, aos céticos, que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza.
Historicamente, quase todos governantes brasileiros governaram apenas para um terço da população. Para eles, o resto era peso, estorvo, carga.
Falavam em arrumar a casa. Mas como é possível arrumar um país deixando dois terços de sua população fora dos benefícios do progresso e da civilização?
Alguma casa fica de pé, se o pai e a mãe relegam ao abandono os filhos mais fracos, e concentram toda atenção nos filhos mais fortes e mais bem aquinhoados pela sorte?
É claro que não. Uma casa assim será uma casa frágil, dividida pelo ressentimento e pela insegurança, onde os irmãos se vêem como inimigos e não como membros da mesma família.
Nós concluímos o contrário: que só havia sentido em governar, se fosse governar para todos. E mostramos que aquilo que, tradicionalmente, era considerado estorvo, era, na verdade, força, reserva, energia para crescer.
Incorporar os mais fracos e os mais necessitados à economia e às políticas públicas não era apenas algo moralmente correto. Era, também, politicamente indispensável e economicamente acertado. Porque só arrumam a casa, o pai e a mãe que olham para todos, não deixam que os mais fortes esbulhem os mais fracos, nem aceitam que os mais fracos conformem-se com a submissão e com a injustiça. Uma casa só é forte quando é de todos – e nela todos encontram abrigo, oportunidades e esperanças.
Por isso, apostamos na ampliação do mercado interno e no aproveitamento de todas as nossas potencialidades. Hoje, há mais Brasil para mais brasileiros. Com isso, fortalecemos a economia, ampliamos a qualidade de vida do nosso povo, reforçamos a democracia, aumentamos nossa auto-estima e amplificamos nossa voz no mundo.
Minhas senhoras e meus senhores,
O que aconteceu com o mundo nos últimos sete anos? Podemos dizer que o mundo, igual ao Brasil, também melhorou?
Não faço esta pergunta com soberba. Nem para provocar comparações vantajosas em favor do Brasil.
Faço esta pergunta com humildade, como cidadão do mundo, que tem sua parcela de responsabilidade no que sucedeu – e no que possa vir a suceder com a humanidade e com o nosso planeta.
Pergunto: podemos dizer que, nos últimos sete anos, o mundo caminhou no rumo da diminuição das desigualdades, das guerras, dos conflitos, das tragédias e da pobreza?
Podemos dizer que caminhou, mais vigorosamente, em direção a um modelo de respeito ao ser humano e ao meio ambiente?
Podemos dizer que interrompeu a marcha da insensatez, que tantas vezes parece nos encaminhar para o abismo social, para o abismo ambiental, para o abismo político e para o abismo moral?
Posso imaginar a resposta sincera que sai do coração de cada um de vocês, porque sinto a mesma perplexidade e a mesma frustração com o mundo em que vivemos.
E nós todos, sem exceção, temos uma parcela de responsabilidade nisso tudo.
Nos últimos anos, continuamos sacudidos por guerras absurdas. Continuamos destruindo o meio-ambiente. Continuamos assistindo, com compaixão hipócrita, a miséria e a morte assumirem proporções dantescas na África. Continuamos vendo, passivamente, aumentar os campos de refugiados pelo mundo afora.
E vimos, com susto e medo, mas sem que a lição tenha sido corretamente aprendida, para onde a especulação financeira pode nos levar.
Sim, porque continuam muitos dos terríveis efeitos da crise financeira internacional, e não vemos nenhum sinal, mais concreto, de que esta crise tenha servido para que repensássemos a ordem econômica mundial, seus métodos, sua pobre ética e seus processos anacrônicos.
Pergunto: quantas crises serão necessárias para mudarmos de atitude? Quantas hecatombes financeiras teremos condições de suportar até que decidamos fazer o óbvio e o mais correto?
Quantos graus de aquecimento global, quanto degelo, quanto desmatamento e desequilíbrios ecológicos serão necessários para que tomemos a firme decisão de salvar o planeta?
Meus senhores e minhas senhoras,
Vendo os efeitos pavorosos da tragédia do Haiti, também pergunto: quantos Haitis serão necessários para que deixemos de buscar remédios tardios e soluções improvisadas, ao calor do remorso?
Todos nós sabemos que a tragédia do Haiti foi causada por dois tipos de terremotos: o que sacudiu Porto Príncipe, no início deste mês, com a força de 30 bombas atômicas, e o outro, lento e silencioso, que vem corroendo suas entranhas há alguns séculos.
Para este outro terremoto, o mundo fechou os olhos e os ouvidos. Como continua de olhos e ouvidos fechados para o terremoto silencioso que destrói comunidades inteiras na África, na Ásia, na Europa Oriental e nos países mais pobres das Américas.
Será necessário que o terremoto social traga seu epicentro para as grandes metrópoles européias e norte-americanas para que possamos tomar soluções mais definitivas?
Um antigo presidente brasileiro dizia, do alto de sua aristocrática arrogância, que a questão social era uma questão de polícia.
Será que não é isso que, de forma sutil e sofisticada, muitos países ricos dizem até hoje, quando perseguem, reprimem e discriminam os imigrantes, quando insistem num jogo em que tantos perdem e só poucos ganham?
Por que não fazermos um jogo em que todos possam ganhar, mesmo que em quantidades diversas, mas que ninguém perca no essencial?
O que existe de impossível nisso? Por que não caminharmos nessa direção, de forma consciente e deliberada e não empurrados por crises, por guerras e por tragédias? Será que a humanidade só pode aprender pelo caminho do sofrimento e do rugir de forças descontroladas?
Outro mundo e outro caminho são possíveis. Basta que queiramos. E precisamos fazer isso enquanto é tempo.
Meus senhores e minhas senhoras,
Gostaria de repetir que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. Esta também é uma das melhores receitas para a paz. E aprendemos, no ano passado, que é também um poderoso escudo contra crise.
Esta lição que o Brasil aprendeu, vale para qualquer parte do mundo, rica ou pobre.
Isso significa ampliar oportunidades, aumentar a produtividade, ampliar mercado e fortalecer a economia. Isso significa mudar as mentalidades e as relações. Isso significa criar fábricas de emprego e de cidadania.
Só fomos bem sucedidos nessas tarefas porque recuperamos o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e não nos deixamos aprisionar em armadilhas teóricas – ou políticas – equivocadas sobre o verdadeiro papel do estado.
Nos últimos sete anos, o Brasil criou quase 12 milhões de empregos formais. Em 2009, quando a maioria dos países viu diminuir os postos de trabalhos, tivemos um saldo positivo de cerca de um milhão de novos empregos.
O Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair. Por que? Porque tínhamos reorganizado a economia com fundamentos sólidos, com base no crescimento, na estabilidade, na produtividade, num sistema financeiro saudável, no acesso ao crédito e na inclusão social.
E quando os efeitos da crise começaram a nos alcançar, reforçamos, sem titubear, os fundamentos do nosso modelo e demos ênfase à ampliação do crédito, à redução de impostos e ao estímulo do consumo.
Na crise ficou provado, mais uma vez, que são os pequenos que estão construindo a economia de gigante do Brasil.
Este talvez seja o principal motivo do sucesso do Brasil: acreditar e apoiar o povo, os mais fracos e os pequenos. Na verdade, não estamos inventando a roda. Foi com esta força motriz que Roosevelt recuperou a economia americana depois da grande crise de 1929. E foi com ela que o Brasil venceu preventivamente a última crise internacional.
Mas, nos últimos sete anos, nunca agimos de forma improvisada. A gente sabia para onde queria caminhar. Organizamos a economia sem bravatas e sem sustos, mas com um foco muito claro: crescer com estabilidade e com inclusão.
Implantamos o maior programa de transferência de renda do mundo, o Bolsa Família, que hoje beneficia mais de 12 milhões de famílias. E lançamos, ao mesmo tempo, o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, maior conjunto de obras simultâneas nas áreas de infra-estrutura e logística da história do país, no qual já foram investidos 213 bilhões de dólares e que alcançará, no final do ano de 2010, um montante de 343 bilhões.
Volto ao ponto central: estivemos sempre atentos às politicas macro-econômicas, mas jamais nos limitamos às grandes linhas. Tivemos a obsessão de destravar a máquina da economia, sempre olhando para os mais necessitados, aumentando o poder de compra e o acesso ao crédito da maioria dos brasileiros.
Criamos, por exemplo, grandes programas de infra-estrutura social voltados exclusivamente para as camadas mais pobres. É o caso do programa Luz para Todos, que levou energia elétrica, no campo, para 12 milhões de pessoas e se mostrou um grande propulsor de bem estar e um forte ativador da economia.
Por exemplo: para levar energia elétrica a 2 milhões e 200 mil residências rurais, utilizamos 906 mil quilômetros de cabo, o suficiente para dar 21 voltas em torno do planeta Terra. Em contrapartida, estas famílias que passaram a ter energia elétrica em suas casas, compraram 1,5 milhão de televisores, 1,4 milhão de geladeiras e quantidades enormes de outros equipamentos.
As diversas linhas de microcrédito que criamos, seja para a produção, seja para o consumo, tiveram igualmente grande efeito multiplicador. E ensinaram aos capitalistas brasileiros que não existe capitalismo sem crédito.
Para que vocês tenham uma idéia, apenas com a modalidade de "crédito consignado", que tem como garantia o contracheque dos trabalhadores e aposentados, chegamos a fazer girar na economia mais 100 bilhões de reais por mês. As pessoas tomam empréstimos de 50 dólares, 80 dólares para comprar roupas, material escolar, etc, e isto ajuda ativar profundamente a economia.
Minhas senhoras e meus senhores,
Os desafios enfrentados, agora, pelo mundo são muito maiores do que os enfrentados pelo Brasil.
Com mudanças de prioridades e rearranjos de modelos, o governo brasileiro está conseguindo impor um novo ritmo de desenvolvimento ao nosso país.
O mundo, porém, necessita de mudanças mais profundas e mais complexas. E elas ficarão ainda mais difíceis quanto mais tempo deixarmos passar e quanto mais oportunidades jogarmos fora.
O encontro do clima, em Copenhague, é um exemplo disso. Ali a humanidade perdeu uma grande oportunidade de avançar, com rapidez, em defesa do meio-ambiente.
Por isso cobramos que cheguemos com o espírito desarmado, no próximo encontro, no México, e que encontremos saídas concretas para o grave problema do aquecimento global.
A crise financeira também mostrou que é preciso uma mudança profunda na ordem econômica, que privilegie a produção e não a especulação.
Um modelo, como todos sabem, onde o sistema financeiro esteja a serviço do setor produtivo e onde haja regulações claras para evitar riscos absurdos e excessivos.
Mas tudo isso são sintomas de uma crise mais profunda, e da necessidade de o mundo encontrar um novo caminho, livre dos velhos modelos e das velhas ideologias.
É hora de re-inventarmos o mundo e suas instituições. Por que ficarmos atrelados a modelos gestados em tempos e realidades tão diversas das que vivemos? O mundo tem que recuperar sua capacidade de criar e de sonhar.
Não podemos retardar soluções que apontam para uma melhor governança mundial, onde governos e nações trabalhem em favor de toda a humanidade.
Precisamos de um novo papel para os governos. E digo que, paradoxalmente, este novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar.
Nós fomos eleitos para governar e temos que governar. Mas temos que governar com criatividade e justiça. E fazer isso já, antes que seja tarde.
Não sou apocalíptico, nem estou anunciando o fim do mundo. Estou lançando um brado de otimismo. E dizendo que, mais que nunca, temos nossos destinos em nossas mãos.
E toda vez que mãos humanas misturam sonho, criatividade, amor, coragem e justiça elas conseguem realizar a tarefa divina de construir um novo mundo e uma nova humanidade.
Muito obrigado."
Íntegra do discurso de Lula lido por Celso Amorim em Davos
Em repouso após passar por uma crise de hipertensão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, leu o discurso de Lula na cerimônia de entrega do prêmio "Estadista Global". O discurso descreve os avanços obtidos pelo Brasil nos últimos anos.
Leia abaixo a íntegra do discurso.
"Minhas senhoras e meus senhores,
Em primeiro lugar, agradeço o prêmio "Estadista Global" que vocês estão me concedendo.
Nos últimos meses, tenho recebido alguns dos prêmios e títulos mais importantes da minha vida.
Com toda sinceridade, sei que não é exatamente a mim que estão premiando - mas ao Brasil e ao esforço do povo brasileiro. Isso me deixa ainda mais feliz e honrado.
Recebo este prêmio, portanto, em nome do Brasil e do povo do meu país. Este prêmio nos alegra, mas, especialmente, nos alerta para a grande responsabilidade que temos.
Ele aumenta minha responsabilidade como governante, e a responsabilidade do meu país como ator cada vez mais ativo e presente no cenário mundial.
Tenho visto, em várias publicações internacionais, que o Brasil está na moda. Permitam-me dizer que se trata de um termo simpático, porém inapropriado.
O modismo é coisa fugaz, passageira. E o Brasil quer e será ator permanente no cenário do novo mundo.
O Brasil, porém, não quer ser um destaque novo em um mundo velho. A voz brasileira quer proclamar, em alto e bom som, que é possível construir um mundo novo.
O Brasil quer ajudar a construir este novo mundo, que todos nós sabemos, não apenas é possível, mas dramaticamente necessário, como ficou claro, na recente crise financeira internacional – mesmo para os que não gostam de mudanças.
Meus senhores e minhas senhoras,
O olhar do mundo hoje, para o Brasil, é muito diferente daquele, de sete anos atrás, quando estive pela primeira vez em Davos.
Naquela época, sentíamos que o mundo nos olhava mais com dúvida do que esperança. O mundo temia pelo futuro do Brasil, porque não sabia o rumo exato que nosso país tomaria sob a liderança de um operário, sem diploma universitário, nascido politicamente no seio da esquerda sindical.
Meu olhar para o mundo, na época, era o contrário do que o mundo tinha para o Brasil. Eu acreditava, que assim como o Brasil estava mudando, o mundo também pudesse mudar.
No meu discurso de 2003, eu disse, aqui em Davos, que o Brasil iria trabalhar para reduzir as disparidades econômicas e sociais, aprofundar a democracia política, garantir as liberdades públicas e promover, ativamente, os direitos humanos.
Iria, ao mesmo tempo, lutar para acabar sua dependência das instituições internacionais de crédito e buscar uma inserção mais ativa e soberana na comunidade das nações.
Frisei, entre outras coisas, a necessidade de construção de uma nova ordem econômica internacional, mais justa e democrática.
E comentei que a construção desta nova ordem não seria apenas um ato de generosidade, mas, principalmente, uma atitude de inteligência política.
Ponderei ainda que a paz não era só um objetivo moral, mas um imperativo de racionalidade. E que não bastava apenas proclamar os valores do humanismo. Era necessário fazer com que eles prevalecessem, verdadeiramente, nas relações entre os países e os povos.
Sete anos depois, eu posso olhar nos olhos de cada um de vocês – e, mais que isso, nos olhos do meu povo – e dizer que o Brasil, mesmo com todas as dificuldades, fez a sua parte. Fez o que prometeu.
Neste período, 31 milhões de brasileiros entraram na classe média e 20 milhões saíram do estágio de pobreza absoluta. Pagamos toda nossa dívida externa e hoje, em lugar de sermos devedores, somos credores do FMI.
Nossas reservas internacionais pularam de 38 bilhões para cerca de 240 bilhões de dólares. Temos fronteiras com 10 países e não nos envolvemos em um só conflito com nossos vizinhos. Diminuímos, consideravelmente, as agressões ao meio ambiente. Temos e estamos consolidando uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, e estamos caminhando para nos tornar a quinta economia mundial.
Posso dizer, com humildade e realismo, que ainda precisamos avançar muito. Mas ninguém pode negar que o Brasil melhorou.
O fato é que Brasil não apenas venceu o desafio de crescer economicamente e incluir socialmente, como provou, aos céticos, que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza.
Historicamente, quase todos governantes brasileiros governaram apenas para um terço da população. Para eles, o resto era peso, estorvo, carga.
Falavam em arrumar a casa. Mas como é possível arrumar um país deixando dois terços de sua população fora dos benefícios do progresso e da civilização?
Alguma casa fica de pé, se o pai e a mãe relegam ao abandono os filhos mais fracos, e concentram toda atenção nos filhos mais fortes e mais bem aquinhoados pela sorte?
É claro que não. Uma casa assim será uma casa frágil, dividida pelo ressentimento e pela insegurança, onde os irmãos se vêem como inimigos e não como membros da mesma família.
Nós concluímos o contrário: que só havia sentido em governar, se fosse governar para todos. E mostramos que aquilo que, tradicionalmente, era considerado estorvo, era, na verdade, força, reserva, energia para crescer.
Incorporar os mais fracos e os mais necessitados à economia e às políticas públicas não era apenas algo moralmente correto. Era, também, politicamente indispensável e economicamente acertado. Porque só arrumam a casa, o pai e a mãe que olham para todos, não deixam que os mais fortes esbulhem os mais fracos, nem aceitam que os mais fracos conformem-se com a submissão e com a injustiça. Uma casa só é forte quando é de todos – e nela todos encontram abrigo, oportunidades e esperanças.
Por isso, apostamos na ampliação do mercado interno e no aproveitamento de todas as nossas potencialidades. Hoje, há mais Brasil para mais brasileiros. Com isso, fortalecemos a economia, ampliamos a qualidade de vida do nosso povo, reforçamos a democracia, aumentamos nossa auto-estima e amplificamos nossa voz no mundo.
Minhas senhoras e meus senhores,
O que aconteceu com o mundo nos últimos sete anos? Podemos dizer que o mundo, igual ao Brasil, também melhorou?
Não faço esta pergunta com soberba. Nem para provocar comparações vantajosas em favor do Brasil.
Faço esta pergunta com humildade, como cidadão do mundo, que tem sua parcela de responsabilidade no que sucedeu – e no que possa vir a suceder com a humanidade e com o nosso planeta.
Pergunto: podemos dizer que, nos últimos sete anos, o mundo caminhou no rumo da diminuição das desigualdades, das guerras, dos conflitos, das tragédias e da pobreza?
Podemos dizer que caminhou, mais vigorosamente, em direção a um modelo de respeito ao ser humano e ao meio ambiente?
Podemos dizer que interrompeu a marcha da insensatez, que tantas vezes parece nos encaminhar para o abismo social, para o abismo ambiental, para o abismo político e para o abismo moral?
Posso imaginar a resposta sincera que sai do coração de cada um de vocês, porque sinto a mesma perplexidade e a mesma frustração com o mundo em que vivemos.
E nós todos, sem exceção, temos uma parcela de responsabilidade nisso tudo.
Nos últimos anos, continuamos sacudidos por guerras absurdas. Continuamos destruindo o meio-ambiente. Continuamos assistindo, com compaixão hipócrita, a miséria e a morte assumirem proporções dantescas na África. Continuamos vendo, passivamente, aumentar os campos de refugiados pelo mundo afora.
E vimos, com susto e medo, mas sem que a lição tenha sido corretamente aprendida, para onde a especulação financeira pode nos levar.
Sim, porque continuam muitos dos terríveis efeitos da crise financeira internacional, e não vemos nenhum sinal, mais concreto, de que esta crise tenha servido para que repensássemos a ordem econômica mundial, seus métodos, sua pobre ética e seus processos anacrônicos.
Pergunto: quantas crises serão necessárias para mudarmos de atitude? Quantas hecatombes financeiras teremos condições de suportar até que decidamos fazer o óbvio e o mais correto?
Quantos graus de aquecimento global, quanto degelo, quanto desmatamento e desequilíbrios ecológicos serão necessários para que tomemos a firme decisão de salvar o planeta?
Meus senhores e minhas senhoras,
Vendo os efeitos pavorosos da tragédia do Haiti, também pergunto: quantos Haitis serão necessários para que deixemos de buscar remédios tardios e soluções improvisadas, ao calor do remorso?
Todos nós sabemos que a tragédia do Haiti foi causada por dois tipos de terremotos: o que sacudiu Porto Príncipe, no início deste mês, com a força de 30 bombas atômicas, e o outro, lento e silencioso, que vem corroendo suas entranhas há alguns séculos.
Para este outro terremoto, o mundo fechou os olhos e os ouvidos. Como continua de olhos e ouvidos fechados para o terremoto silencioso que destrói comunidades inteiras na África, na Ásia, na Europa Oriental e nos países mais pobres das Américas.
Será necessário que o terremoto social traga seu epicentro para as grandes metrópoles européias e norte-americanas para que possamos tomar soluções mais definitivas?
Um antigo presidente brasileiro dizia, do alto de sua aristocrática arrogância, que a questão social era uma questão de polícia.
Será que não é isso que, de forma sutil e sofisticada, muitos países ricos dizem até hoje, quando perseguem, reprimem e discriminam os imigrantes, quando insistem num jogo em que tantos perdem e só poucos ganham?
Por que não fazermos um jogo em que todos possam ganhar, mesmo que em quantidades diversas, mas que ninguém perca no essencial?
O que existe de impossível nisso? Por que não caminharmos nessa direção, de forma consciente e deliberada e não empurrados por crises, por guerras e por tragédias? Será que a humanidade só pode aprender pelo caminho do sofrimento e do rugir de forças descontroladas?
Outro mundo e outro caminho são possíveis. Basta que queiramos. E precisamos fazer isso enquanto é tempo.
Meus senhores e minhas senhoras,
Gostaria de repetir que a melhor política de desenvolvimento é o combate à pobreza. Esta também é uma das melhores receitas para a paz. E aprendemos, no ano passado, que é também um poderoso escudo contra crise.
Esta lição que o Brasil aprendeu, vale para qualquer parte do mundo, rica ou pobre.
Isso significa ampliar oportunidades, aumentar a produtividade, ampliar mercado e fortalecer a economia. Isso significa mudar as mentalidades e as relações. Isso significa criar fábricas de emprego e de cidadania.
Só fomos bem sucedidos nessas tarefas porque recuperamos o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e não nos deixamos aprisionar em armadilhas teóricas – ou políticas – equivocadas sobre o verdadeiro papel do estado.
Nos últimos sete anos, o Brasil criou quase 12 milhões de empregos formais. Em 2009, quando a maioria dos países viu diminuir os postos de trabalhos, tivemos um saldo positivo de cerca de um milhão de novos empregos.
O Brasil foi um dos últimos países a entrar na crise e um dos primeiros a sair. Por que? Porque tínhamos reorganizado a economia com fundamentos sólidos, com base no crescimento, na estabilidade, na produtividade, num sistema financeiro saudável, no acesso ao crédito e na inclusão social.
E quando os efeitos da crise começaram a nos alcançar, reforçamos, sem titubear, os fundamentos do nosso modelo e demos ênfase à ampliação do crédito, à redução de impostos e ao estímulo do consumo.
Na crise ficou provado, mais uma vez, que são os pequenos que estão construindo a economia de gigante do Brasil.
Este talvez seja o principal motivo do sucesso do Brasil: acreditar e apoiar o povo, os mais fracos e os pequenos. Na verdade, não estamos inventando a roda. Foi com esta força motriz que Roosevelt recuperou a economia americana depois da grande crise de 1929. E foi com ela que o Brasil venceu preventivamente a última crise internacional.
Mas, nos últimos sete anos, nunca agimos de forma improvisada. A gente sabia para onde queria caminhar. Organizamos a economia sem bravatas e sem sustos, mas com um foco muito claro: crescer com estabilidade e com inclusão.
Implantamos o maior programa de transferência de renda do mundo, o Bolsa Família, que hoje beneficia mais de 12 milhões de famílias. E lançamos, ao mesmo tempo, o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, maior conjunto de obras simultâneas nas áreas de infra-estrutura e logística da história do país, no qual já foram investidos 213 bilhões de dólares e que alcançará, no final do ano de 2010, um montante de 343 bilhões.
Volto ao ponto central: estivemos sempre atentos às politicas macro-econômicas, mas jamais nos limitamos às grandes linhas. Tivemos a obsessão de destravar a máquina da economia, sempre olhando para os mais necessitados, aumentando o poder de compra e o acesso ao crédito da maioria dos brasileiros.
Criamos, por exemplo, grandes programas de infra-estrutura social voltados exclusivamente para as camadas mais pobres. É o caso do programa Luz para Todos, que levou energia elétrica, no campo, para 12 milhões de pessoas e se mostrou um grande propulsor de bem estar e um forte ativador da economia.
Por exemplo: para levar energia elétrica a 2 milhões e 200 mil residências rurais, utilizamos 906 mil quilômetros de cabo, o suficiente para dar 21 voltas em torno do planeta Terra. Em contrapartida, estas famílias que passaram a ter energia elétrica em suas casas, compraram 1,5 milhão de televisores, 1,4 milhão de geladeiras e quantidades enormes de outros equipamentos.
As diversas linhas de microcrédito que criamos, seja para a produção, seja para o consumo, tiveram igualmente grande efeito multiplicador. E ensinaram aos capitalistas brasileiros que não existe capitalismo sem crédito.
Para que vocês tenham uma idéia, apenas com a modalidade de "crédito consignado", que tem como garantia o contracheque dos trabalhadores e aposentados, chegamos a fazer girar na economia mais 100 bilhões de reais por mês. As pessoas tomam empréstimos de 50 dólares, 80 dólares para comprar roupas, material escolar, etc, e isto ajuda ativar profundamente a economia.
Minhas senhoras e meus senhores,
Os desafios enfrentados, agora, pelo mundo são muito maiores do que os enfrentados pelo Brasil.
Com mudanças de prioridades e rearranjos de modelos, o governo brasileiro está conseguindo impor um novo ritmo de desenvolvimento ao nosso país.
O mundo, porém, necessita de mudanças mais profundas e mais complexas. E elas ficarão ainda mais difíceis quanto mais tempo deixarmos passar e quanto mais oportunidades jogarmos fora.
O encontro do clima, em Copenhague, é um exemplo disso. Ali a humanidade perdeu uma grande oportunidade de avançar, com rapidez, em defesa do meio-ambiente.
Por isso cobramos que cheguemos com o espírito desarmado, no próximo encontro, no México, e que encontremos saídas concretas para o grave problema do aquecimento global.
A crise financeira também mostrou que é preciso uma mudança profunda na ordem econômica, que privilegie a produção e não a especulação.
Um modelo, como todos sabem, onde o sistema financeiro esteja a serviço do setor produtivo e onde haja regulações claras para evitar riscos absurdos e excessivos.
Mas tudo isso são sintomas de uma crise mais profunda, e da necessidade de o mundo encontrar um novo caminho, livre dos velhos modelos e das velhas ideologias.
É hora de re-inventarmos o mundo e suas instituições. Por que ficarmos atrelados a modelos gestados em tempos e realidades tão diversas das que vivemos? O mundo tem que recuperar sua capacidade de criar e de sonhar.
Não podemos retardar soluções que apontam para uma melhor governança mundial, onde governos e nações trabalhem em favor de toda a humanidade.
Precisamos de um novo papel para os governos. E digo que, paradoxalmente, este novo papel é o mais antigo deles: é a recuperação do papel de governar.
Nós fomos eleitos para governar e temos que governar. Mas temos que governar com criatividade e justiça. E fazer isso já, antes que seja tarde.
Não sou apocalíptico, nem estou anunciando o fim do mundo. Estou lançando um brado de otimismo. E dizendo que, mais que nunca, temos nossos destinos em nossas mãos.
E toda vez que mãos humanas misturam sonho, criatividade, amor, coragem e justiça elas conseguem realizar a tarefa divina de construir um novo mundo e uma nova humanidade.
Muito obrigado."
HONDURAS - "Vamos por asas na resistência para contrapor o plano de normalização"
Giorgio Trucchi.
O dia 27 de janeiro de 2010, dia em que se instala o governo de Porfírio Lobo Sosa, será recordado de forma diferente segundo os matizes que se queira dar a esta data. Para os golpistas e seus aliados internacionais será a data da reconciliação e do regresso do país à normalidade. Enquanto que para a Resistência marcará a continuidade de um regime golpista e ditatorial, controlado por militares e grupos fáticos que tentam auto absolver-se dos delitos cometidos e aprofundar o modelo neoliberal.
Por um lado, a pantomima da posse em um Estádio Nacional guardado por milhares de militares e policiais, onde o novo presidente tentará vender ao mundo a imagem de um país normalizado e que os recursos econômicos da cooperação já poderão fluir. Por outro lado, uma gigantesca marcha da Resistência, que retomará suas mobilizações caminhando em direção ao aeroporto Toncontín, para mostrar a outra cara dessa Honduras ferida e que não se deixa abater, e despedir-se do presidente Manuel Zelaya Rosales, que, finalmente, poderá por fim ao seu encerro na embaixada do Brasil.
Para analisar o contexto hondurenho a poucas horas dessa data e como a Resistência está preparando-se para os desafios futuros, Sirel conversou com Carlos H. Reyes, membro da condução da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) e presidente do Sindicato de Trabalhadores da Indústria da Bebida e Similares (STIBYS).
Confira a entrevista:
- O que muda no país com a instalação de um novo governo?
- Não muda nada. Estamos diante de um plano bem orquestrado para dizer ao mundo que em Honduras tudo está solucionado e que com o novo presidente acabaram-se os problemas, pois já nos reconciliamos.
Os que têm esse tipo de discurso são os mesmos que planejaram e executaram o golpe e os meios que os apoiaram, e estão tentando convencer a comunidade internacional disso.
Em dias anteriores, nos reunimos com uma delegação do Parlamento Alemão e o que nos diziam era que em Honduras já havia reconciliação e que o fato de que dirigentes do Partido da Unificação Democrática (UD) estivessem conformando o governo recém eleito era um sinal de que a Resistência estava participando nesse esforço, o que é uma grande mentira.
Aqui, desde o golpe de Estado, estiveram contando mentiras; e continuam mentindo.
- Acreditas que a comunidade internacional tem interesses particulares e por isso querem acreditar que a situação está normalizada?
- Depende do que entendamos por "comunidade internacional". Se falamos dos Estados Unidos, não temos dúvidas de que dirigiu todo esse plano e que agora tenta encobrir uma das últimas etapas do golpe para que se acredite que tudo se normalizará.
Não foi um golpe contra os hondurenhos, nem contra o presidente Zelaya; foi um golpe contra um país e um continente que querem mudar, transformar-se e rumar pelos caminhos da mudança e da integração.
Portanto, os Estados Unidos são os mais interessados em criar esta imagem e, com certeza, a CNN será a primeira em apoiar esta estratégia, envolvendo os demais meios internacionais. A consigna é esquecer-se de Honduras e aproveitar o drama do Haiti para facilitar a situação.
- Um plano bem pensado e executado...
- Até tinham um cronograma que executaram fielmente; e não tenho a menor dúvida de que também a assinatura do compromisso de Porfirio Lobo com o presidente da República Dominicana permitindo que o presidente Zelaya saia do país é parte disso, tentando dar ao mundo esta imagem de reconciliação.
E o que o presidente Zelaya poderia fazer? Ou vai ao exílio ou é preso. Eu respeito sua decisão.
No entanto, a mensagem não escrita desse acordo é "apagar e começar do zero", e a Resistência não pode apoiar isso de nenhuma maneira.
- Já está tudo pronto para uma anistia geral e o Alto Comando do Exército foi ‘absolvido’ definitivamente pela Corte Suprema de Justiça...
- São os mesmos golpistas que falam de anistia e se autoabsolvem, e são eles que se estão reconciliando, porque não levaram a Resistência em consideração. Em Honduras somente poderá haver uma verdadeira reconciliação através de uma Assembleia Nacional Constituinte, que refunde este país.
- A Resistência reconhecerá o novo governo?
- Dissemos desde o início que queríamos a restauração da ordem constitucional através da restituição do presidente Zelaya e que se isso não acontecesse o que deveria acontecer era a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte.
Os golpistas realizaram eleições e não as reconhecemos, bem como também não reconhecemos seus resultados. Por isso, tampouco podemos reconhecer a um governo denominado "novo", pois para nós é a continuação do governo anterior.
Porém, o que acontece na prática? O STIBYS, por exemplo, acaba de perder cinco julgamentos trabalhistas, entre eles duas mediações por graves violações ao Convênio Coletivo por parte da Pepsi-Cola-CAB Corp e Coca-Cola-SABMiller. O novo ministro de fato anulou estas mediações.
Nos outros casos, o novo diretor do Seguro Social ratificou um acordo para um Sistema Médico de Empresa na Cervejaria Hondurenha, que era ilegal e que o antigo diretor não iria renovar.
Diante dessas situações, não vamos legitimar o novo governo; porém, tampouco vamos deixar de defender-nos e recorreremois nas instâncias pertinentes.
A Resistência se defenderá; porém, também agirá contra a pretensão de consolidação do modelo neoliberal.
- De que maneira atuarão?
- Não se trata de que nos converteremos em partido político porque seria um grave erro. O que temos que fazer é fortalecer a Resistência; devemos colocar cabeça, corpo, pés e asas; asas para voar no plano eleitoral quando tivermos forças.
Nos reunimos em Siguatepeque para dilucidar coisas e a essência é definir estratégias e táticas para ir-nos aproximando a questões bem concretas.
Nunca no passado tivemos uma conjuntura como a atual e nossa discussão foi muito rica; com análise profunda sobre o que acontece em âmbito nacional e internacional.
Este governo tão débil pode cair logo e vamos lutar contra tudo o que pretenda consolidar em relação ao neoliberalismo, levando adiante o projeto da Constituinte. Se isso acontecer, apesar da continuidade da repressão e dos assassinatos, estaremos prontos para o processo eleitoral de 2013.
* Rel-UITA (Unión Internacional de Trabajadores de la Alimentación, Agrícolas, Hoteles, Restaurantes, Tabaco y Afines)
O dia 27 de janeiro de 2010, dia em que se instala o governo de Porfírio Lobo Sosa, será recordado de forma diferente segundo os matizes que se queira dar a esta data. Para os golpistas e seus aliados internacionais será a data da reconciliação e do regresso do país à normalidade. Enquanto que para a Resistência marcará a continuidade de um regime golpista e ditatorial, controlado por militares e grupos fáticos que tentam auto absolver-se dos delitos cometidos e aprofundar o modelo neoliberal.
Por um lado, a pantomima da posse em um Estádio Nacional guardado por milhares de militares e policiais, onde o novo presidente tentará vender ao mundo a imagem de um país normalizado e que os recursos econômicos da cooperação já poderão fluir. Por outro lado, uma gigantesca marcha da Resistência, que retomará suas mobilizações caminhando em direção ao aeroporto Toncontín, para mostrar a outra cara dessa Honduras ferida e que não se deixa abater, e despedir-se do presidente Manuel Zelaya Rosales, que, finalmente, poderá por fim ao seu encerro na embaixada do Brasil.
Para analisar o contexto hondurenho a poucas horas dessa data e como a Resistência está preparando-se para os desafios futuros, Sirel conversou com Carlos H. Reyes, membro da condução da Frente Nacional de Resistência Popular (FNRP) e presidente do Sindicato de Trabalhadores da Indústria da Bebida e Similares (STIBYS).
Confira a entrevista:
- O que muda no país com a instalação de um novo governo?
- Não muda nada. Estamos diante de um plano bem orquestrado para dizer ao mundo que em Honduras tudo está solucionado e que com o novo presidente acabaram-se os problemas, pois já nos reconciliamos.
Os que têm esse tipo de discurso são os mesmos que planejaram e executaram o golpe e os meios que os apoiaram, e estão tentando convencer a comunidade internacional disso.
Em dias anteriores, nos reunimos com uma delegação do Parlamento Alemão e o que nos diziam era que em Honduras já havia reconciliação e que o fato de que dirigentes do Partido da Unificação Democrática (UD) estivessem conformando o governo recém eleito era um sinal de que a Resistência estava participando nesse esforço, o que é uma grande mentira.
Aqui, desde o golpe de Estado, estiveram contando mentiras; e continuam mentindo.
- Acreditas que a comunidade internacional tem interesses particulares e por isso querem acreditar que a situação está normalizada?
- Depende do que entendamos por "comunidade internacional". Se falamos dos Estados Unidos, não temos dúvidas de que dirigiu todo esse plano e que agora tenta encobrir uma das últimas etapas do golpe para que se acredite que tudo se normalizará.
Não foi um golpe contra os hondurenhos, nem contra o presidente Zelaya; foi um golpe contra um país e um continente que querem mudar, transformar-se e rumar pelos caminhos da mudança e da integração.
Portanto, os Estados Unidos são os mais interessados em criar esta imagem e, com certeza, a CNN será a primeira em apoiar esta estratégia, envolvendo os demais meios internacionais. A consigna é esquecer-se de Honduras e aproveitar o drama do Haiti para facilitar a situação.
- Um plano bem pensado e executado...
- Até tinham um cronograma que executaram fielmente; e não tenho a menor dúvida de que também a assinatura do compromisso de Porfirio Lobo com o presidente da República Dominicana permitindo que o presidente Zelaya saia do país é parte disso, tentando dar ao mundo esta imagem de reconciliação.
E o que o presidente Zelaya poderia fazer? Ou vai ao exílio ou é preso. Eu respeito sua decisão.
No entanto, a mensagem não escrita desse acordo é "apagar e começar do zero", e a Resistência não pode apoiar isso de nenhuma maneira.
- Já está tudo pronto para uma anistia geral e o Alto Comando do Exército foi ‘absolvido’ definitivamente pela Corte Suprema de Justiça...
- São os mesmos golpistas que falam de anistia e se autoabsolvem, e são eles que se estão reconciliando, porque não levaram a Resistência em consideração. Em Honduras somente poderá haver uma verdadeira reconciliação através de uma Assembleia Nacional Constituinte, que refunde este país.
- A Resistência reconhecerá o novo governo?
- Dissemos desde o início que queríamos a restauração da ordem constitucional através da restituição do presidente Zelaya e que se isso não acontecesse o que deveria acontecer era a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte.
Os golpistas realizaram eleições e não as reconhecemos, bem como também não reconhecemos seus resultados. Por isso, tampouco podemos reconhecer a um governo denominado "novo", pois para nós é a continuação do governo anterior.
Porém, o que acontece na prática? O STIBYS, por exemplo, acaba de perder cinco julgamentos trabalhistas, entre eles duas mediações por graves violações ao Convênio Coletivo por parte da Pepsi-Cola-CAB Corp e Coca-Cola-SABMiller. O novo ministro de fato anulou estas mediações.
Nos outros casos, o novo diretor do Seguro Social ratificou um acordo para um Sistema Médico de Empresa na Cervejaria Hondurenha, que era ilegal e que o antigo diretor não iria renovar.
Diante dessas situações, não vamos legitimar o novo governo; porém, tampouco vamos deixar de defender-nos e recorreremois nas instâncias pertinentes.
A Resistência se defenderá; porém, também agirá contra a pretensão de consolidação do modelo neoliberal.
- De que maneira atuarão?
- Não se trata de que nos converteremos em partido político porque seria um grave erro. O que temos que fazer é fortalecer a Resistência; devemos colocar cabeça, corpo, pés e asas; asas para voar no plano eleitoral quando tivermos forças.
Nos reunimos em Siguatepeque para dilucidar coisas e a essência é definir estratégias e táticas para ir-nos aproximando a questões bem concretas.
Nunca no passado tivemos uma conjuntura como a atual e nossa discussão foi muito rica; com análise profunda sobre o que acontece em âmbito nacional e internacional.
Este governo tão débil pode cair logo e vamos lutar contra tudo o que pretenda consolidar em relação ao neoliberalismo, levando adiante o projeto da Constituinte. Se isso acontecer, apesar da continuidade da repressão e dos assassinatos, estaremos prontos para o processo eleitoral de 2013.
* Rel-UITA (Unión Internacional de Trabajadores de la Alimentación, Agrícolas, Hoteles, Restaurantes, Tabaco y Afines)
HISTÓRIA - Do golpe militar às Diretas-Já.
Altamiro Borges
O golpe militar de 1964 serviu aos interesses – ideológicos, políticos e empresariais – dos barões da mídia. Com exceção da Última Hora, os principais jornais, revistas, emissoras de TV e rádio participaram da conspiração que derrubou João Goulart. O editorial da Folha de S.Paulo de 17 de fevereiro de 2009, que usou o neologismo “ditabranda” para qualificar a sanguinária ditadura, ajudou a reavivar esta história sinistra – além de resultar num manifesto de repúdio com 8 mil adesões de intelectuais e na perda de mais de 2 mil assinantes. Afinal, não foi apenas a Folha que clamou pelo golpe. Vários livros documentaram a participação ativa da mídia, inclusive listando veículos e jornalistas a serviço dos golpistas [9]. Os editoriais da época escancararam essa postura ilegal.
“Graças à decisão e heroísmo das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo a rumos contrários à sua vocação e tradições... Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares”, comemorou o jornal O Globo. “Desde ontem se instalou no país a verdadeira legalidade... A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”, afirmou, descaradamente, o Jornal do Brasil. “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comunos-carreiristas-negocistas-sindicalistas”, disparou o fascistóide Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa.
Na sequência, alguns veículos ingeriram seu próprio veneno e sentiram a fúria dos fascistas, que prenderam, mataram, cassaram mandatos e impuseram a censura. Lacerda, que ambicionava ser presidente, foi escorraçado pelos generais. Já o Estadão, com a sua linha liberal-conservadora, discordou do rumo estatizante do regime e teve várias edições censuradas. Este não foi o caso do grupo Frias, que tornou a Folha da Tarde “uma filial da Operação Bandeirantes”, a temida Oban, e no jornal de maior “tiragem” do país devido ao grande número de “tiras” (policiais) na sua redação [10]. Também não foi o caso da Rede Globo, que ergueu seu império graças ao irrestrito apoio à ditadura [11].
Até quando a ditadura já dava sinais de fraqueza, a TV Globo insistiu em salvá-la. Nas eleições de 1982, a corporação de Roberto Marinho montou um esquema, através da empresa Proconsult, para fraudar a apuração dos votos e evitar a vitória do recém-anistiado Leonel Brizola. A fraude foi denunciada por Homero Sanchez, ex-diretor de pesquisas da própria emissora. Ela também tentou desqualificar todos os principais líderes da oposição à ditadura. Numa entrevista ao jornal The New York Times, Roberto Marinho confessou: “Em um determinado momento, me convenci que o Sr. Leonel Brizola era um mau governador... Passei a considerar o Sr. Brizola daninho e perigoso e lutei contra ele. Realmente, usei todas as possibilidades para derrotá-lo”.
A manipulação mais grosseira, que popularizou o refrão “O povo não é bobo, fora Rede Globo”, ocorreu na campanha pelas Diretas-Já. Até duas semanas antes da votação da emenda Dante de Oliveira, que instituía a eleição direta para presidente, ela omitiu a mobilização que contagiava milhões de brasileiros. Ela recusou até matéria paga com chamadas para o comício em Curitiba (PR). Já o ato na capital paulista, que reuniu 300 mil de pessoas em 25 de janeiro de 1984, foi apresentado pelo âncora da emissora como “festa em São Paulo; a cidade comemora seus 430 anos”. “O Jornal Nacional sonegou ao público o fato – notório, na época – de que o ato fazia parte da campanha nacional por eleições diretas. Sonegou que essa campanha era liderada publicamente pelos principais expoentes da oposição” [12]. Um verdadeiro crime!
Das greves à histeria na Constituinte
Alguns veículos perceberam o naufrágio da ditadura militar e jogaram papel positivo na luta pela redemocratização. O caso mais curioso foi o da Folha, que até usou suas capas para convocar os comícios das Diretas-Já. O grupo Frias, que apoiara os generais “linha dura”, mudou de lado por oportunismo político e “mercadológico” [13]. Apesar destas nuances, nenhum barão da mídia abdicou de sua visão de classe. Jornalões e emissoras de TV e rádio nunca vacilaram diante das lutas dos trabalhadores, procurando criminalizar suas greves e satanizar suas lideranças. Numa das massivas assembléias em Vila Euclides, em maio de 1980, os metalúrgicos do ABC paulista destruíram câmeras e veículos da TV Globo, indignados com as suas recorrentes manipulações.
Esta opção de classe ficou visível durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, em 1987/1988. Meticulosa pesquisa de Francisco Fonseca, da Fundação Getúlio Vargas, prova que os quatro principais diários do país (Jornal do Brasil, O Globo, Estadão e Folha) uniformizaram os seus ataques aos direitos trabalhistas. “Através dos editoriais, que definem a linha editorial e ideológica de cada veículo, a grande imprensa operou nos debates constituintes, sobretudo nos temas que se referiam aos direitos sociais... Alguns dos direitos propostos, como a diminuição da jornada de trabalho, a ampliação da licença-maternidade, a licença-paternidade e o aumento do valor da hora extra, foram tratados como catastróficos à produção” [14].
“A Constituinte embarcou em um caminho de distribuição de benefícios sociais cujo produto só pode ser um e único: a redução da taxa de investimentos, com o conseqüente atraso econômico”, afirmou o editorial terrorista do JB (28/02/88). “Concessões feitas em total descompasso com os efeitos não prejudicarão apenas os trabalhadores, [mas também] a estabilidade institucional”, ameaçou o golpista O Globo (15/11/87). O Estadão, com sua linha liberal-conservadora, pregou a supremacia do deus-mercado, afirmando que tais direitos “acarretariam pernicioso desestímulo aos melhores” (18/06/87). Já a Folha atacou a “demagogia”, inclusive nas propostas do adicional de férias, aviso prévio aos demitidos e limite de seis horas nos turnos ininterruptos (08/07/88).
Além de rejeitar qualquer avanço trabalhista, a mídia bombardeou o direito de greve e procurou fragilizar o sindicalismo. “A liberdade de greve é um abuso conceitual”, atacou o JB (07/07/88). A Folha exagerou ao dizer que as propostas dos constituintes estimulariam o “direito irrestrito de greve... [com] artigos condenáveis” (15/07/88). Já O Globo, no editorial “A porta da anarquia”, afirmou que este direito “significa a porta aberta à desordem e ao caos” (17/08/88). E o Estadão explicitou sua aversão às greves, principalmente no setor público. “São exércitos de empregados que agem com todas as regalias e mordomias de funcionários públicos, promovendo greves que ganham, hoje, aspectos nitidamente políticos e ideológicos, que levam à violência” (19/11/88).
Diante da ascensão das forças democráticas nos anos de 1980 e das conquistas da “Constituição-cidadã”, segundo a célebre definição do deputado Ulisses Guimarães, a mídia percebeu os riscos na origem e deu seu grito de guerra. “A hora é dos liberais acordarem, porque depois será tarde... Os liberais brasileiros têm diante de si uma ingente tarefa; se não se organizarem para combater o populismo estatizante (...), o Brasil corre o risco de regredir”, alertou o Estadão. “Não há outro caminho senão o de todos nos unirmos pondo acima de superadas divergências ideológicas ou de futuras disputas eleitorais os supremos objetivos da nação”, clamou o golpista Roberto Marinho.
NOTAS
9- Renê Armand Dreifuss. 1964: A conquista do estado. Editora Vozes, RJ, 1981.
10- Beatriz Kushnir. Cães de guarda. Boitempo Editorial, SP, 2004.
11- Valério Brittos e César Bolaño. Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. Editora Paulus, SP, 2005.
12- Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl. Videologias. Boitempo Editorial, SP, 2004.
13- Armando Sartori. “Oportunismo mercadológico”. Revista Retrato do Brasil, setembro de 2006.
14- Francisco Fonseca. “O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira”. Dezembro de 2002.
O golpe militar de 1964 serviu aos interesses – ideológicos, políticos e empresariais – dos barões da mídia. Com exceção da Última Hora, os principais jornais, revistas, emissoras de TV e rádio participaram da conspiração que derrubou João Goulart. O editorial da Folha de S.Paulo de 17 de fevereiro de 2009, que usou o neologismo “ditabranda” para qualificar a sanguinária ditadura, ajudou a reavivar esta história sinistra – além de resultar num manifesto de repúdio com 8 mil adesões de intelectuais e na perda de mais de 2 mil assinantes. Afinal, não foi apenas a Folha que clamou pelo golpe. Vários livros documentaram a participação ativa da mídia, inclusive listando veículos e jornalistas a serviço dos golpistas [9]. Os editoriais da época escancararam essa postura ilegal.
“Graças à decisão e heroísmo das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo a rumos contrários à sua vocação e tradições... Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares”, comemorou o jornal O Globo. “Desde ontem se instalou no país a verdadeira legalidade... A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”, afirmou, descaradamente, o Jornal do Brasil. “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr. João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comunos-carreiristas-negocistas-sindicalistas”, disparou o fascistóide Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa.
Na sequência, alguns veículos ingeriram seu próprio veneno e sentiram a fúria dos fascistas, que prenderam, mataram, cassaram mandatos e impuseram a censura. Lacerda, que ambicionava ser presidente, foi escorraçado pelos generais. Já o Estadão, com a sua linha liberal-conservadora, discordou do rumo estatizante do regime e teve várias edições censuradas. Este não foi o caso do grupo Frias, que tornou a Folha da Tarde “uma filial da Operação Bandeirantes”, a temida Oban, e no jornal de maior “tiragem” do país devido ao grande número de “tiras” (policiais) na sua redação [10]. Também não foi o caso da Rede Globo, que ergueu seu império graças ao irrestrito apoio à ditadura [11].
Até quando a ditadura já dava sinais de fraqueza, a TV Globo insistiu em salvá-la. Nas eleições de 1982, a corporação de Roberto Marinho montou um esquema, através da empresa Proconsult, para fraudar a apuração dos votos e evitar a vitória do recém-anistiado Leonel Brizola. A fraude foi denunciada por Homero Sanchez, ex-diretor de pesquisas da própria emissora. Ela também tentou desqualificar todos os principais líderes da oposição à ditadura. Numa entrevista ao jornal The New York Times, Roberto Marinho confessou: “Em um determinado momento, me convenci que o Sr. Leonel Brizola era um mau governador... Passei a considerar o Sr. Brizola daninho e perigoso e lutei contra ele. Realmente, usei todas as possibilidades para derrotá-lo”.
A manipulação mais grosseira, que popularizou o refrão “O povo não é bobo, fora Rede Globo”, ocorreu na campanha pelas Diretas-Já. Até duas semanas antes da votação da emenda Dante de Oliveira, que instituía a eleição direta para presidente, ela omitiu a mobilização que contagiava milhões de brasileiros. Ela recusou até matéria paga com chamadas para o comício em Curitiba (PR). Já o ato na capital paulista, que reuniu 300 mil de pessoas em 25 de janeiro de 1984, foi apresentado pelo âncora da emissora como “festa em São Paulo; a cidade comemora seus 430 anos”. “O Jornal Nacional sonegou ao público o fato – notório, na época – de que o ato fazia parte da campanha nacional por eleições diretas. Sonegou que essa campanha era liderada publicamente pelos principais expoentes da oposição” [12]. Um verdadeiro crime!
Das greves à histeria na Constituinte
Alguns veículos perceberam o naufrágio da ditadura militar e jogaram papel positivo na luta pela redemocratização. O caso mais curioso foi o da Folha, que até usou suas capas para convocar os comícios das Diretas-Já. O grupo Frias, que apoiara os generais “linha dura”, mudou de lado por oportunismo político e “mercadológico” [13]. Apesar destas nuances, nenhum barão da mídia abdicou de sua visão de classe. Jornalões e emissoras de TV e rádio nunca vacilaram diante das lutas dos trabalhadores, procurando criminalizar suas greves e satanizar suas lideranças. Numa das massivas assembléias em Vila Euclides, em maio de 1980, os metalúrgicos do ABC paulista destruíram câmeras e veículos da TV Globo, indignados com as suas recorrentes manipulações.
Esta opção de classe ficou visível durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, em 1987/1988. Meticulosa pesquisa de Francisco Fonseca, da Fundação Getúlio Vargas, prova que os quatro principais diários do país (Jornal do Brasil, O Globo, Estadão e Folha) uniformizaram os seus ataques aos direitos trabalhistas. “Através dos editoriais, que definem a linha editorial e ideológica de cada veículo, a grande imprensa operou nos debates constituintes, sobretudo nos temas que se referiam aos direitos sociais... Alguns dos direitos propostos, como a diminuição da jornada de trabalho, a ampliação da licença-maternidade, a licença-paternidade e o aumento do valor da hora extra, foram tratados como catastróficos à produção” [14].
“A Constituinte embarcou em um caminho de distribuição de benefícios sociais cujo produto só pode ser um e único: a redução da taxa de investimentos, com o conseqüente atraso econômico”, afirmou o editorial terrorista do JB (28/02/88). “Concessões feitas em total descompasso com os efeitos não prejudicarão apenas os trabalhadores, [mas também] a estabilidade institucional”, ameaçou o golpista O Globo (15/11/87). O Estadão, com sua linha liberal-conservadora, pregou a supremacia do deus-mercado, afirmando que tais direitos “acarretariam pernicioso desestímulo aos melhores” (18/06/87). Já a Folha atacou a “demagogia”, inclusive nas propostas do adicional de férias, aviso prévio aos demitidos e limite de seis horas nos turnos ininterruptos (08/07/88).
Além de rejeitar qualquer avanço trabalhista, a mídia bombardeou o direito de greve e procurou fragilizar o sindicalismo. “A liberdade de greve é um abuso conceitual”, atacou o JB (07/07/88). A Folha exagerou ao dizer que as propostas dos constituintes estimulariam o “direito irrestrito de greve... [com] artigos condenáveis” (15/07/88). Já O Globo, no editorial “A porta da anarquia”, afirmou que este direito “significa a porta aberta à desordem e ao caos” (17/08/88). E o Estadão explicitou sua aversão às greves, principalmente no setor público. “São exércitos de empregados que agem com todas as regalias e mordomias de funcionários públicos, promovendo greves que ganham, hoje, aspectos nitidamente políticos e ideológicos, que levam à violência” (19/11/88).
Diante da ascensão das forças democráticas nos anos de 1980 e das conquistas da “Constituição-cidadã”, segundo a célebre definição do deputado Ulisses Guimarães, a mídia percebeu os riscos na origem e deu seu grito de guerra. “A hora é dos liberais acordarem, porque depois será tarde... Os liberais brasileiros têm diante de si uma ingente tarefa; se não se organizarem para combater o populismo estatizante (...), o Brasil corre o risco de regredir”, alertou o Estadão. “Não há outro caminho senão o de todos nos unirmos pondo acima de superadas divergências ideológicas ou de futuras disputas eleitorais os supremos objetivos da nação”, clamou o golpista Roberto Marinho.
NOTAS
9- Renê Armand Dreifuss. 1964: A conquista do estado. Editora Vozes, RJ, 1981.
10- Beatriz Kushnir. Cães de guarda. Boitempo Editorial, SP, 2004.
11- Valério Brittos e César Bolaño. Rede Globo: 40 anos de poder e hegemonia. Editora Paulus, SP, 2005.
12- Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl. Videologias. Boitempo Editorial, SP, 2004.
13- Armando Sartori. “Oportunismo mercadológico”. Revista Retrato do Brasil, setembro de 2006.
14- Francisco Fonseca. “O conservadorismo patronal da grande imprensa brasileira”. Dezembro de 2002.
VENEZUELA - Cercando a Venezuela.
Ignacio Ramonet
A chegada ao poder do presidente Hugo Chávez na Venezuela no dia 2 de fevereiro de 1999 coincidiu com um acontecimento militar traumático para os Estados Unidos: o fechamento de sua principal instalação militar na região, a base Howard, situada no Panamá, e fechada em virtude dos Tratados Torrijos-Carter (1977).
Em substituição, o Pentágono elegeu quatro localidades para controlar a região: Manta, no Equador; Comalapa, em El Salvador; e nas ilhas de Aruba e Curaçao (de soberania holandesa).
A suas -por assim dizer- “tradicionais” missões de espionagem adicionou novos cometidos oficiais a estas bases (vigiar o narcotráfico e combater a imigração clandestina para os Estados Unidos); além de outras tarefas encobertas, tais como lutar contra os insurgentes colombianos; controlar os fluxos de petróleo e minerais, os recursos de água doce e a biodiversidade.
Porém, desde o início, seus principais objetivos foram: vigiar a Venezuela e desestabilizar a Revolução Bolivariana. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o Secretário norteamericano de Defesa, Donald Rumsfeld, definiu uma nova doutrina militar para enfrentar o “terrorismo internacional”.
Modificou a estratégia de deslocamento exterior, fundada na existência de enormes bases dotadas de numeroso pessoal. E decidiu substituir essas megabases por um número muito mais elevado de Foreing Operating Location (FOL, Lugar Operacional Preposicionado) e de Cooperative Security Locations (CSL, Lugar de Segurança Compartilhado), com pouco pessoal militar, porém equipado com tecnologias ultramodernas de detecção.
Resultado: em pouco tempo, a quantidade de instalações militares estadunidenses no exterior se multiplicou, alcançando a insólita soma de 865 bases de tipo FOL ou CSL localizadas em 46 países. Jamais na história, uma potência multiplicou de tal modo seus postos militares de controle para implantar-se através do planeta.
Na América Latina, o redesdobramento de bases permitiu que a de Manta (Equador) colaborasse no falido golpe de Estado de 11 de abril de 2002 contra o presidente Chávez. A partir de então, uma campanha midiática dirigida por Washington começa a difundir falsas informações sobre a pretendida presença nesse país de células de organizações como Hamás, Hezbolá e até Al Qaeda.
Com o pretexto de vigiar tais movimentos e em represália contra o governo de Caracas, que pôs fim, em maio de 2004, a meio século de presença militar estadunidense na Venezuela, o Pentágono amplia o uso de suas bases militares nas ilhas de Aruba e Curaçao, situadas muito próximas das costas venezuelanas, onde, ultimamente, têm sido incrementadas as visitas de navios de guerra dos Estados Unidos.
Isso tem sido denunciado recentemente pelo presidente Chávez: “É bom que a Europa saiba que o império norteamericano está armado até os dentes; enchendo as ilhas de Aruba e Curaçao com aviões e navios de guerra. (…) Estou acusando o Reino dos Países Baixos de estar preparando, junto com o império yanqui, uma agressão contra a Venezuela” (1).
Em 2006, em Caracas se começa a falar em “socialismo do século XXI”; nasce a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) e Hugo Chávez é reeleito presidente. Washington reage impondo um embargo sobre a venda de armas para a Venezuela sob o pretexto de que Caracas “não colabora suficientemente na guerra contra o terrorismo”. Os aviões F-16 das Forças Aéreas venezuelanas ficam sem peças de reposição.
Diante dessa situação, as autoridades venezuelanas estabelecem um acordo com a Rússia para dotar sua força aérea de aviões Sukhoi. Washington denuncia um suposto “rearmamento massivo” da Venezuela, omitindo recordar que os maiores orçamentos militares da América Latina são os do Brasil, da Colômbia e do Chile. E que, a cada ano, a Colômbia recebe uma ajuda militar estadunidense de 630 milhões de dólares (uns 420 milhões de euros). A partir daí, as coisas se aceleram.
No dia 1º de março de 2008, ajudadas pela base de Manta, as forças colombianas atacam um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), situado no interior do território do Equador.
Quito, em represália, decide não renovar o acordo sobre a base de Manta que venceu em novembro de 2009. Washington responde, no mês seguinte, com a reativação da IV Frota (desativada em 1948, há 60 anos…), cuja missão é vigiar a costa atlântica da América do Sul. Um mês mais tarde, os Estados sulamericanos, reunidos em Brasília, respondem criando a União das Nações Sulamericanas (Unasul); e, em março de 2009, criaram o Conselho de Defesa Sulamericano.
Umas semanas depois, o embaixador dos Estados Unidos em Bogotá anuncia que a base de Manta será relocalizada em Palanquero, na Colômbia. Em junho, com o apoio da base estadunidense de Soto Cano acontece o golpe de Estado em Honduras contra o presidente Manuel Zelaya, que havia conseguido integrar seu país a Alba.
Em agosto, o Pentágono anuncia que estabeleceria 7 novas bases militares na Colômbia. E, em outubro, o presidente conservador do Panamá, Ricardo Matinelli, admite que cedeu aos Estados Unidos o uso de quatro novas bases militares.
Desse modo, a Venezuela e a Revolução Bolivariana se veem rodeadas por nada menos que 13 bases estadunidenses, situadas na Colômbia, no Panamá, em Aruba e em Curaçao. Bem como pelos porta-aviões e navios de guerra da IV Frota.
O presidente Obama parece ter deixado mãos livres ao Pentágono. Tudo anuncia uma agressão iminente. Os povos consentirão que um novo crime contra a democracia seja cometido na América Latina?
Nota:
(1) Discurso no Encontro da ALBA com os Movimentos Sociais, Dinamarca, Copenhague, 17 de dizembro de 2009.
[Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique em espanhol nº 171 Janeiro de 2010 Publicação mensal. http://www.monde-diplomatique.es
* Le Monde Diplomatique/ADITAL
A chegada ao poder do presidente Hugo Chávez na Venezuela no dia 2 de fevereiro de 1999 coincidiu com um acontecimento militar traumático para os Estados Unidos: o fechamento de sua principal instalação militar na região, a base Howard, situada no Panamá, e fechada em virtude dos Tratados Torrijos-Carter (1977).
Em substituição, o Pentágono elegeu quatro localidades para controlar a região: Manta, no Equador; Comalapa, em El Salvador; e nas ilhas de Aruba e Curaçao (de soberania holandesa).
A suas -por assim dizer- “tradicionais” missões de espionagem adicionou novos cometidos oficiais a estas bases (vigiar o narcotráfico e combater a imigração clandestina para os Estados Unidos); além de outras tarefas encobertas, tais como lutar contra os insurgentes colombianos; controlar os fluxos de petróleo e minerais, os recursos de água doce e a biodiversidade.
Porém, desde o início, seus principais objetivos foram: vigiar a Venezuela e desestabilizar a Revolução Bolivariana. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, o Secretário norteamericano de Defesa, Donald Rumsfeld, definiu uma nova doutrina militar para enfrentar o “terrorismo internacional”.
Modificou a estratégia de deslocamento exterior, fundada na existência de enormes bases dotadas de numeroso pessoal. E decidiu substituir essas megabases por um número muito mais elevado de Foreing Operating Location (FOL, Lugar Operacional Preposicionado) e de Cooperative Security Locations (CSL, Lugar de Segurança Compartilhado), com pouco pessoal militar, porém equipado com tecnologias ultramodernas de detecção.
Resultado: em pouco tempo, a quantidade de instalações militares estadunidenses no exterior se multiplicou, alcançando a insólita soma de 865 bases de tipo FOL ou CSL localizadas em 46 países. Jamais na história, uma potência multiplicou de tal modo seus postos militares de controle para implantar-se através do planeta.
Na América Latina, o redesdobramento de bases permitiu que a de Manta (Equador) colaborasse no falido golpe de Estado de 11 de abril de 2002 contra o presidente Chávez. A partir de então, uma campanha midiática dirigida por Washington começa a difundir falsas informações sobre a pretendida presença nesse país de células de organizações como Hamás, Hezbolá e até Al Qaeda.
Com o pretexto de vigiar tais movimentos e em represália contra o governo de Caracas, que pôs fim, em maio de 2004, a meio século de presença militar estadunidense na Venezuela, o Pentágono amplia o uso de suas bases militares nas ilhas de Aruba e Curaçao, situadas muito próximas das costas venezuelanas, onde, ultimamente, têm sido incrementadas as visitas de navios de guerra dos Estados Unidos.
Isso tem sido denunciado recentemente pelo presidente Chávez: “É bom que a Europa saiba que o império norteamericano está armado até os dentes; enchendo as ilhas de Aruba e Curaçao com aviões e navios de guerra. (…) Estou acusando o Reino dos Países Baixos de estar preparando, junto com o império yanqui, uma agressão contra a Venezuela” (1).
Em 2006, em Caracas se começa a falar em “socialismo do século XXI”; nasce a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) e Hugo Chávez é reeleito presidente. Washington reage impondo um embargo sobre a venda de armas para a Venezuela sob o pretexto de que Caracas “não colabora suficientemente na guerra contra o terrorismo”. Os aviões F-16 das Forças Aéreas venezuelanas ficam sem peças de reposição.
Diante dessa situação, as autoridades venezuelanas estabelecem um acordo com a Rússia para dotar sua força aérea de aviões Sukhoi. Washington denuncia um suposto “rearmamento massivo” da Venezuela, omitindo recordar que os maiores orçamentos militares da América Latina são os do Brasil, da Colômbia e do Chile. E que, a cada ano, a Colômbia recebe uma ajuda militar estadunidense de 630 milhões de dólares (uns 420 milhões de euros). A partir daí, as coisas se aceleram.
No dia 1º de março de 2008, ajudadas pela base de Manta, as forças colombianas atacam um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), situado no interior do território do Equador.
Quito, em represália, decide não renovar o acordo sobre a base de Manta que venceu em novembro de 2009. Washington responde, no mês seguinte, com a reativação da IV Frota (desativada em 1948, há 60 anos…), cuja missão é vigiar a costa atlântica da América do Sul. Um mês mais tarde, os Estados sulamericanos, reunidos em Brasília, respondem criando a União das Nações Sulamericanas (Unasul); e, em março de 2009, criaram o Conselho de Defesa Sulamericano.
Umas semanas depois, o embaixador dos Estados Unidos em Bogotá anuncia que a base de Manta será relocalizada em Palanquero, na Colômbia. Em junho, com o apoio da base estadunidense de Soto Cano acontece o golpe de Estado em Honduras contra o presidente Manuel Zelaya, que havia conseguido integrar seu país a Alba.
Em agosto, o Pentágono anuncia que estabeleceria 7 novas bases militares na Colômbia. E, em outubro, o presidente conservador do Panamá, Ricardo Matinelli, admite que cedeu aos Estados Unidos o uso de quatro novas bases militares.
Desse modo, a Venezuela e a Revolução Bolivariana se veem rodeadas por nada menos que 13 bases estadunidenses, situadas na Colômbia, no Panamá, em Aruba e em Curaçao. Bem como pelos porta-aviões e navios de guerra da IV Frota.
O presidente Obama parece ter deixado mãos livres ao Pentágono. Tudo anuncia uma agressão iminente. Os povos consentirão que um novo crime contra a democracia seja cometido na América Latina?
Nota:
(1) Discurso no Encontro da ALBA com os Movimentos Sociais, Dinamarca, Copenhague, 17 de dizembro de 2009.
[Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique em espanhol nº 171 Janeiro de 2010 Publicação mensal. http://www.monde-diplomatique.es
* Le Monde Diplomatique/ADITAL
ESPIRITISMO - Operação espiritual à distância.
OPERAÇÃO ESPIRITUAL
GRUPO ESPÍRITA DIAS DA CRUZ
Rua Moacir de Matos, 247
Tel. (33) 33212090
CARATINGA - MG
Cep - 35300-047
Se quiser pode escrever solicitando uma operação à distância, dandos os dados do paciente e de sua doença.
Nome, idade, sexo, endereço completo, telefone e um resumo da doença.
Como peguei a entrevista na metade, acredito que seria bom colocar dentro da correspondência enviada ao Grupo Espírita Dias da Cruz, um outro envelope para resposta com o seu nome e devidamente selado.
GRUPO ESPÍRITA DIAS DA CRUZ
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CARATINGA - MG
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Se quiser pode escrever solicitando uma operação à distância, dandos os dados do paciente e de sua doença.
Nome, idade, sexo, endereço completo, telefone e um resumo da doença.
Como peguei a entrevista na metade, acredito que seria bom colocar dentro da correspondência enviada ao Grupo Espírita Dias da Cruz, um outro envelope para resposta com o seu nome e devidamente selado.
MÍDIA - Histórias da manipulação da mídia.
Altamiro Borges
“O Sr. Getúlio Vargas, Senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Carlos Lacerda, dono do jornal golpista Tribuna da Imprensa (01/05/1950).
“Sim, eu uso o poder [da Rede Globo], mas eu sempre faço isso patrioticamente”.
Roberto Marinho, proprietário do maior conglomerado midiático do Brasil.
Desde a sua origem, a chamada grande imprensa se aliou às forças mais reacionárias da política brasileira. Ela nunca escondeu o seu ódio aos movimentos sociais, seja aos camponeses em luta por um pedaço de terra ou aos operários em greve por melhores salários e condições de trabalho. Diante dos governos progressistas, mesmo os mais tímidos, ela conspirou e pregou golpes. Com raras exceções, ela deu apoio às ditaduras mais arbitrárias e sanguinárias. Através de expedientes sujos, como o denuncismo vazio, chantageou o poder público para obter concessões e subsídios. O discurso da “liberdade de imprensa” sempre serviu aos propósitos ilícitos dos barões da mídia.
Como sintetiza o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, um dos primeiros a alertar para o perigo do golpe militar de 1964, a mídia hegemônica protagonizou todas as iniciativas de desestabilização política dos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. “A grande imprensa levou Getúlio ao suicídio, com base em nada; quase impediu Juscelino de tomar posse, com base em nada; levou Jânio Quadros à renúncia, aproveitando-se da maluquice dele, com base em nada; tentou impedir a posse de Goulart, com base em nada. A grande imprensa, em países em desenvolvimento, é a grande porca das instituições” [1].
Elitista e golpista já na origem
Os poucos jornais burgueses que se consolidaram, tornando-se porta-vozes da elite nativa, nunca esconderam sua opção de classe. O Jornal do Brasil, fundado em abril de 1891, dois meses após a promulgação da primeira Constituição republicana, publicou vários artigos pregando o retorno à monarquia. Devido ao seu conservadorismo, a sede do jornal foi atacada por grupos armados e os redatores abandonaram seus postos. Já O Estado de S.Paulo, criado em 1875, até defendeu algumas idéias progressistas na sua origem, como a abolição da escravatura, com a “indenização aos proprietários”. Desde o início, porém, o jornal foi um ardoroso inimigo das lutas sociais.
Na revolta de Canudos (1893-1897), o Estadão publicou artigo de Olavo Bilac saudando o cruel massacre dos camponeses. “Enfim, arrasada a cidadela maldita! Enfim, dominado o antro negro, cavado no centro do adusto sertão, onde o profeta das longas barbas sujas concentrava sua força diabólica” [2]. Não poupou papel no ataque às primeiras greves operárias, satanizando os líderes anarquistas. Em 1932, ele insuflou a oligarquia cafeeira paulista num fracassado levante militar. Sob o comando de Júlio Mesquita, o jornal foi participante ativo das conspirações que levaram ao suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e ao golpe militar que derrubou João Goulart em 1964.
A Folha de S.Paulo nasceu em 1962 da fusão de três jornais – as Folhas da Manhã, da Tarde e da Noite. A Folha da Manhã, fundada em 1921, fez oposição cerrada à chamada revolução de 1930. Tanto que em 24 de outubro daquele ano, a multidão que festejava a deposição de Washington Luís destruiu as máquinas de escrever e os móveis da redação deste jornal. O grupo, dominado pela oligarquia paulista, não deu tréguas para Getúlio Vargas e, já como Folha de S.Paulo, sob o comando de Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira, clamou pelo golpe. Na sequência, deu apoio à “linha dura” dos generais e cedeu suas peruas para levar presos políticos à tortura [3].
A trajetória do primeiro império midiático do Brasil, os Diários Associados, foi mais pragmática. Assis Chateaubriand apoiou “a revolução de 1930, mas apenas no que ela tinha de conservadora – um nacionalismo com cores fascistas... Logo depois da rápida aproximação, ele aderiu ao bloco conservador. Primeiro, ligou-se aos interesses britânicos; depois, aos norte-americanos. Fez campanha contra a criação da Petrobras. Dizia que ‘a exploração dos recursos naturais do país por estatais brasileiras era coisa de comunista’ e que o lema ‘O petróleo é nosso’ era um ‘chavão soviético’” [4]. Chatô apoiou o golpe de 1964 e lançou a campanha “ouro para o bem do Brasil” para legitimar a ditadura e, de forma oportunista, para salvar seu império que afundava na crise.
Os Diários Associados, através de dezenas de jornais e rádios e da primeira emissora de televisão do país, a TV Tupi, criada em 1950, adotaram o estilo do “jornalismo marrom”, criado nos EUA no final do século 19 por Handolph Hearst e Joseph Pulitzer. Através de artigos sensacionalistas, Chatô pressionou governos e empresários, arrancando benesses públicas e anúncios publicitários [5]. Seu império midiático foi erguido com base na corrupção ativa. “Chatô fez tudo isso usando estritamente o dinheiro dos outros e os favores do Estado. Ele foi amigo de todos os presidentes: sentia-se dono do Brasil, ou o ‘rei’, como prefere Fernando Morais em sua biografia de Chatô, talvez para enfatizar as arbitrariedades e o absolutismo desse barão da imprensa tupiniquim” [6].
Anarquistas, comunistas e Última Hora
No conturbado período histórico que antecedeu o golpe de 1964, a imprensa ainda não havia se consolidado como poderosa indústria monopolista. Na tardia formação do capitalismo nacional, o jovem movimento operário e sindical investiu na luta de idéias e construiu veículos próprios. Os anarquistas, hegemônicos nesta fase, editaram jornais com expressiva tiragem, concorrendo com os veículos burgueses. Estudos apontam a existência de mais de 500 jornais operários desde o surgimento das primeiras oficinas até a revolução de 1930. O primeiro deles foi o Jornal dos Tipógrafos, criado no Rio de Janeiro, em 1858, como decorrência da primeira greve no país.
Com a crise do anarquismo e a fundação do Partido Comunista, em 1922, “a imprensa anarquista perde espaço e o seu lugar é assumido pela imprensa comunista. Esta será a principal ferramenta de disputa ideológica e política com a nova burguesia industrial e as velhas oligarquias”, explica Vito Giannotti. “Em 1946, os comunistas tinham, em quase todos os estados, vários jornais. Oito eram diários: Tribuna Popular (RJ), Jornal do Povo (PE), Hoje (SP), Momento (BA), Democrata (CE), Folha do Povo (PE), Tribuna Gaúcha e Folha Capixaba... Nos subúrbios da capital, no Rio de Janeiro, era comum encontrar brigadas de comunistas vendendo a Tribuna Popular. Entre eles estavam comunistas ilustres, como Oscar Niemeyer, Gregório Bezerra e Graciliano Ramos” [7]. Foi a segunda maior rede de jornais diários do país, superada apenas pelos Diários Associados.
A imprensa anarquista e comunista, porém, foi sempre barbaramente perseguida. Jornalistas e gráficos de esquerda foram presos e assassinados e seus jornais foram empastelados. Para conter o avanço das idéias socialistas, o governo autoritário do general Eurico Gaspar Dutra cassou, em 7 de maio de 1947, o registro legal do Partido Comunista do Brasil – que teve curtos suspiros de vida legal neste período da história. Em 10 de maio de 1948, também cassou o mandato de todos os parlamentares comunistas – um senador, 14 deputados federais e 46 deputados estaduais. Seus jornais foram fechados e 15% dos sindicatos reconhecidos oficialmente sofreram intervenção.
Além destes veículos anticapitalistas, um jornal disputou a hegemonia neste período com as suas idéias nacionalistas – a Última Hora. Criado em 1951 por Samuel Wainer, um judeu nascido na Bessarábia (região situada entre a Romênia e a Ucrânia), o jornal inovou com reportagens vivas, diagramação criativa e um time qualificado de jornalistas. Ele cresceu rapidamente e montou sua rede nacional, com edições em várias capitais. Getúlio Vargas, acossado pela imprensa golpista, investiu pesado neste veículo, reunindo o apoio de empresários nacionalistas, como o banqueiro Walter Moreira Sales e os industriais Francisco Matarazzo e Ricardo Jafet. Instituições estatais, como o Banco do Brasil, também participaram do consórcio que financiou a Última Hora.
A “oligarquia da grande imprensa”, como atacava Wainer, não deu trégua ao concorrente. Chatô, Roberto Marinho e Carlos Lacerda, dono da golpista Tribuna de Imprensa, usaram o artigo 160 da Constituição, que proibia estrangeiros de serem donos de jornais, para exigir o fechamento da Última Hora. Em 1953, eles arrancaram a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a origem e o financiamento do jornal. Wainer se defendeu num documento intitulado “O livro branco da imprensa amarela”, mas chegou a ser preso. O suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, levou multidões às ruas e fez a Última Hora vender 700 mil exemplares. Na seqüência, o jornal deu irrestrito apoio a João Goulart até sua deposição em 1964.
Uma das primeiras ações dos generais golpistas foi cassar os direitos políticos de Samuel Wainer, que se exilou na Europa. Outros veículos nacionalistas e de esquerda, como A Classe Operária, fundado em 1925, também foram fechados. O regime militar uniformizou a imprensa brasileira. Somente a mídia conservadora, de direita, pôde prosperar. Nos primeiros anos da brutal ditadura, prevaleceu o clima da “paz dos cemitérios”. A liberdade de expressão, e não a falsa “liberdade de imprensa” dos empresários do setor, foi suprimida com truculência. Aos poucos, organizações e jornalistas progressistas reuniram força e coragem para erguer a heróica imprensa alternativa, com jornais como O Pasquim, Opinião e Movimento [8].
NOTAS
1- “Wanderley Guilherme dos Santos analisa a crise”. Entrevista para Maurício Dias. Revista Carta Capital, 17/06/05.
2- Maria de Lourdes Eleutério. “A imprensa a serviço do progresso”. História da imprensa no Brasil. Editora Contexto, SP, 2008.
3- Ler o artigo “A morte do ‘democrata’ Octavio Frias”, na página ??? deste livro.
4- “Meias verdades”. Retrato do Brasil. Editora Manifesto, MG, 2006.
5- Ana Maria de Abreu Laurenza. “Batalhas em letra de fôrma: Chatô, Wainer e Lacerda. História da imprensa no Brasil. Editora Contexto, SP, 2008.
6- Bernardo Kucinski. “Chatô: o poder da chantagem”. Revista Teoria&Debate, março/abril de 1995.
7- Vito Giannotti. História das lutas dos trabalhadores no Brasil. Editora Mauad, RJ, 2007.
8- José Carlos Ruy. “Alternativos: imprensa de resistência”. Revista Princípios, agosto de 2007.
Fonte:Blog do Miro.
“O Sr. Getúlio Vargas, Senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Carlos Lacerda, dono do jornal golpista Tribuna da Imprensa (01/05/1950).
“Sim, eu uso o poder [da Rede Globo], mas eu sempre faço isso patrioticamente”.
Roberto Marinho, proprietário do maior conglomerado midiático do Brasil.
Desde a sua origem, a chamada grande imprensa se aliou às forças mais reacionárias da política brasileira. Ela nunca escondeu o seu ódio aos movimentos sociais, seja aos camponeses em luta por um pedaço de terra ou aos operários em greve por melhores salários e condições de trabalho. Diante dos governos progressistas, mesmo os mais tímidos, ela conspirou e pregou golpes. Com raras exceções, ela deu apoio às ditaduras mais arbitrárias e sanguinárias. Através de expedientes sujos, como o denuncismo vazio, chantageou o poder público para obter concessões e subsídios. O discurso da “liberdade de imprensa” sempre serviu aos propósitos ilícitos dos barões da mídia.
Como sintetiza o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, um dos primeiros a alertar para o perigo do golpe militar de 1964, a mídia hegemônica protagonizou todas as iniciativas de desestabilização política dos governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. “A grande imprensa levou Getúlio ao suicídio, com base em nada; quase impediu Juscelino de tomar posse, com base em nada; levou Jânio Quadros à renúncia, aproveitando-se da maluquice dele, com base em nada; tentou impedir a posse de Goulart, com base em nada. A grande imprensa, em países em desenvolvimento, é a grande porca das instituições” [1].
Elitista e golpista já na origem
Os poucos jornais burgueses que se consolidaram, tornando-se porta-vozes da elite nativa, nunca esconderam sua opção de classe. O Jornal do Brasil, fundado em abril de 1891, dois meses após a promulgação da primeira Constituição republicana, publicou vários artigos pregando o retorno à monarquia. Devido ao seu conservadorismo, a sede do jornal foi atacada por grupos armados e os redatores abandonaram seus postos. Já O Estado de S.Paulo, criado em 1875, até defendeu algumas idéias progressistas na sua origem, como a abolição da escravatura, com a “indenização aos proprietários”. Desde o início, porém, o jornal foi um ardoroso inimigo das lutas sociais.
Na revolta de Canudos (1893-1897), o Estadão publicou artigo de Olavo Bilac saudando o cruel massacre dos camponeses. “Enfim, arrasada a cidadela maldita! Enfim, dominado o antro negro, cavado no centro do adusto sertão, onde o profeta das longas barbas sujas concentrava sua força diabólica” [2]. Não poupou papel no ataque às primeiras greves operárias, satanizando os líderes anarquistas. Em 1932, ele insuflou a oligarquia cafeeira paulista num fracassado levante militar. Sob o comando de Júlio Mesquita, o jornal foi participante ativo das conspirações que levaram ao suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e ao golpe militar que derrubou João Goulart em 1964.
A Folha de S.Paulo nasceu em 1962 da fusão de três jornais – as Folhas da Manhã, da Tarde e da Noite. A Folha da Manhã, fundada em 1921, fez oposição cerrada à chamada revolução de 1930. Tanto que em 24 de outubro daquele ano, a multidão que festejava a deposição de Washington Luís destruiu as máquinas de escrever e os móveis da redação deste jornal. O grupo, dominado pela oligarquia paulista, não deu tréguas para Getúlio Vargas e, já como Folha de S.Paulo, sob o comando de Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira, clamou pelo golpe. Na sequência, deu apoio à “linha dura” dos generais e cedeu suas peruas para levar presos políticos à tortura [3].
A trajetória do primeiro império midiático do Brasil, os Diários Associados, foi mais pragmática. Assis Chateaubriand apoiou “a revolução de 1930, mas apenas no que ela tinha de conservadora – um nacionalismo com cores fascistas... Logo depois da rápida aproximação, ele aderiu ao bloco conservador. Primeiro, ligou-se aos interesses britânicos; depois, aos norte-americanos. Fez campanha contra a criação da Petrobras. Dizia que ‘a exploração dos recursos naturais do país por estatais brasileiras era coisa de comunista’ e que o lema ‘O petróleo é nosso’ era um ‘chavão soviético’” [4]. Chatô apoiou o golpe de 1964 e lançou a campanha “ouro para o bem do Brasil” para legitimar a ditadura e, de forma oportunista, para salvar seu império que afundava na crise.
Os Diários Associados, através de dezenas de jornais e rádios e da primeira emissora de televisão do país, a TV Tupi, criada em 1950, adotaram o estilo do “jornalismo marrom”, criado nos EUA no final do século 19 por Handolph Hearst e Joseph Pulitzer. Através de artigos sensacionalistas, Chatô pressionou governos e empresários, arrancando benesses públicas e anúncios publicitários [5]. Seu império midiático foi erguido com base na corrupção ativa. “Chatô fez tudo isso usando estritamente o dinheiro dos outros e os favores do Estado. Ele foi amigo de todos os presidentes: sentia-se dono do Brasil, ou o ‘rei’, como prefere Fernando Morais em sua biografia de Chatô, talvez para enfatizar as arbitrariedades e o absolutismo desse barão da imprensa tupiniquim” [6].
Anarquistas, comunistas e Última Hora
No conturbado período histórico que antecedeu o golpe de 1964, a imprensa ainda não havia se consolidado como poderosa indústria monopolista. Na tardia formação do capitalismo nacional, o jovem movimento operário e sindical investiu na luta de idéias e construiu veículos próprios. Os anarquistas, hegemônicos nesta fase, editaram jornais com expressiva tiragem, concorrendo com os veículos burgueses. Estudos apontam a existência de mais de 500 jornais operários desde o surgimento das primeiras oficinas até a revolução de 1930. O primeiro deles foi o Jornal dos Tipógrafos, criado no Rio de Janeiro, em 1858, como decorrência da primeira greve no país.
Com a crise do anarquismo e a fundação do Partido Comunista, em 1922, “a imprensa anarquista perde espaço e o seu lugar é assumido pela imprensa comunista. Esta será a principal ferramenta de disputa ideológica e política com a nova burguesia industrial e as velhas oligarquias”, explica Vito Giannotti. “Em 1946, os comunistas tinham, em quase todos os estados, vários jornais. Oito eram diários: Tribuna Popular (RJ), Jornal do Povo (PE), Hoje (SP), Momento (BA), Democrata (CE), Folha do Povo (PE), Tribuna Gaúcha e Folha Capixaba... Nos subúrbios da capital, no Rio de Janeiro, era comum encontrar brigadas de comunistas vendendo a Tribuna Popular. Entre eles estavam comunistas ilustres, como Oscar Niemeyer, Gregório Bezerra e Graciliano Ramos” [7]. Foi a segunda maior rede de jornais diários do país, superada apenas pelos Diários Associados.
A imprensa anarquista e comunista, porém, foi sempre barbaramente perseguida. Jornalistas e gráficos de esquerda foram presos e assassinados e seus jornais foram empastelados. Para conter o avanço das idéias socialistas, o governo autoritário do general Eurico Gaspar Dutra cassou, em 7 de maio de 1947, o registro legal do Partido Comunista do Brasil – que teve curtos suspiros de vida legal neste período da história. Em 10 de maio de 1948, também cassou o mandato de todos os parlamentares comunistas – um senador, 14 deputados federais e 46 deputados estaduais. Seus jornais foram fechados e 15% dos sindicatos reconhecidos oficialmente sofreram intervenção.
Além destes veículos anticapitalistas, um jornal disputou a hegemonia neste período com as suas idéias nacionalistas – a Última Hora. Criado em 1951 por Samuel Wainer, um judeu nascido na Bessarábia (região situada entre a Romênia e a Ucrânia), o jornal inovou com reportagens vivas, diagramação criativa e um time qualificado de jornalistas. Ele cresceu rapidamente e montou sua rede nacional, com edições em várias capitais. Getúlio Vargas, acossado pela imprensa golpista, investiu pesado neste veículo, reunindo o apoio de empresários nacionalistas, como o banqueiro Walter Moreira Sales e os industriais Francisco Matarazzo e Ricardo Jafet. Instituições estatais, como o Banco do Brasil, também participaram do consórcio que financiou a Última Hora.
A “oligarquia da grande imprensa”, como atacava Wainer, não deu trégua ao concorrente. Chatô, Roberto Marinho e Carlos Lacerda, dono da golpista Tribuna de Imprensa, usaram o artigo 160 da Constituição, que proibia estrangeiros de serem donos de jornais, para exigir o fechamento da Última Hora. Em 1953, eles arrancaram a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a origem e o financiamento do jornal. Wainer se defendeu num documento intitulado “O livro branco da imprensa amarela”, mas chegou a ser preso. O suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, levou multidões às ruas e fez a Última Hora vender 700 mil exemplares. Na seqüência, o jornal deu irrestrito apoio a João Goulart até sua deposição em 1964.
Uma das primeiras ações dos generais golpistas foi cassar os direitos políticos de Samuel Wainer, que se exilou na Europa. Outros veículos nacionalistas e de esquerda, como A Classe Operária, fundado em 1925, também foram fechados. O regime militar uniformizou a imprensa brasileira. Somente a mídia conservadora, de direita, pôde prosperar. Nos primeiros anos da brutal ditadura, prevaleceu o clima da “paz dos cemitérios”. A liberdade de expressão, e não a falsa “liberdade de imprensa” dos empresários do setor, foi suprimida com truculência. Aos poucos, organizações e jornalistas progressistas reuniram força e coragem para erguer a heróica imprensa alternativa, com jornais como O Pasquim, Opinião e Movimento [8].
NOTAS
1- “Wanderley Guilherme dos Santos analisa a crise”. Entrevista para Maurício Dias. Revista Carta Capital, 17/06/05.
2- Maria de Lourdes Eleutério. “A imprensa a serviço do progresso”. História da imprensa no Brasil. Editora Contexto, SP, 2008.
3- Ler o artigo “A morte do ‘democrata’ Octavio Frias”, na página ??? deste livro.
4- “Meias verdades”. Retrato do Brasil. Editora Manifesto, MG, 2006.
5- Ana Maria de Abreu Laurenza. “Batalhas em letra de fôrma: Chatô, Wainer e Lacerda. História da imprensa no Brasil. Editora Contexto, SP, 2008.
6- Bernardo Kucinski. “Chatô: o poder da chantagem”. Revista Teoria&Debate, março/abril de 1995.
7- Vito Giannotti. História das lutas dos trabalhadores no Brasil. Editora Mauad, RJ, 2007.
8- José Carlos Ruy. “Alternativos: imprensa de resistência”. Revista Princípios, agosto de 2007.
Fonte:Blog do Miro.
ANOS DE CHUMBO - As marcas das ditaduras e a revelação dos sobreviventes.
O Projeto Direito à Memória e à Verdade organizou, em Porto Alegre, o Seminário "Sobreviventes: Marcas das Ditaduras nos Direitos Humanos”, como atividade paralela ao FSM. Os sobreviventes convidados foram o jornalista Bernardo Kucinski e a atual secretária de Direitos Humanos da cidade do Recife e fundadora do Movimento Tortura Nunca Mais, Amparo Araújo. Não se trata propriamente de saber quem são os torturadores; o sobrevivente e os sobreviventes o sabem. Trata-se de responsabilizar, apoderar-se do sentido, desvelar o que está, ainda, nas trevas.
Katarina Peixoto
"Só assim brilha a Revelação
Numa época que Te rejeitou
Teu nada é a única experiência
Que de Ti é permitida”
Gershom Scholem, em “Com um exemplar do Processo de Kafka”
“Uma sociedade com futuro é uma sociedade com memória. Não por conta do nunca mais, não, que eu não acredito nisso. Mas para que a vida em comunidade faça sentido”, disse Lilian Celiberti, na terça-feira (26), em Porto Alegre, pouco antes de Lula pegar o microfone. Lilian Celiberti, militante feminista uruguaia e uma das poucas sobreviventes da Operação Condor, sabe o que essas palavras significam.
Mas o que elas querem dizer? O que organiza a exigência da memória na vida política de um povo? Por que essas palavras fazem sentido e como se pode traduzir a clareza na face de Lilian Celiberti, quando as pronunciou, para milhares de participantes do FSM?
O Projeto Direito à Memória e à Verdade – Aos que morreram a luta por um Brasil livre – organizou o Seminário “Sobreviventes: Marcas das Ditaduras nos Direitos Humanos”, na tarde do dia 27, como atividade paralela ao FSM. Os sobreviventes convidados foram o jornalista Bernardo Kucinski e a atual secretária de Direitos Humanos da da cidade do Recife e fundadora do Movimento Tortura Nunca Mais, Amparo Araújo.
Quando Bernardo começou a ler o texto que preparou para a ocasião ficou dolorosamente evidente o quanto essas interrogações acima não são triviais. E exatamente por isso resplandeceram duas exigências, de natureza irredutivelmente moral, anti-jornalísticas: não usar um gravador e não tecer anotações num caderno. A melancolia do sobrevivente é, observou Bernardo, incontornavelmente individual e em certa medida irredutível à linguagem.
Agostinho de Hipona disse que “a morte era um embaraço para a linguagem”. E o desaparecimento, o extermínio, a tortura, a transmissão perversa da culpa e a perpetuação da suspensão do luto são embaraços para o quê ou para quem? Do que se faz essa impossibilidade de consumar o luto e qual a relação desse luto em suspenso com o silêncio que não se pode traduzir? Qual, enfim, é e qual deve ser o destino da culpa?
Bernardo Kucinski é um dos sobreviventes da ditadura militar brasileira que contabiliza, dentre os seus desaparecidos, sua irmã Ana Rosa Kucinski e seu cunhado, Vilson Silva. Ambos, desaparecidos desde abril de 1974, compõem parte do “nada” de Bernardo de que o poema de Gershom Scholem nos fala, a respeito do texto de Kafka. Compõem uma parte que talvez se pudesse chamar de continuidade, de um luto sem termo inicial claro. Ele falou do silêncio de seu pai, o imigrante judeu polonês Majer Kucinski, a respeito de irmãos mortos, um, num campo de extermínio e outra, pelas forças de ocupação nazista na França. Desta tia descobriu o nome há pouco, disse, sem saber se era casada e como vivia.
A sobrevivência parece se confundir, nas palavras que Bernardo vai lendo no microfone, com uma posição histórica. A sua mãe, Ester, também silenciara aos filhos que tinha tido toda a família exterminada pelas tropas nazistas na invasão da Polônia. E que seu tio era, junto a ela, o único sobrevivente daquele núcleo familiar desfeito para sempre. Bernardo conta que Ester morreu aos 50, de câncer, mas que tinha morrido mesmo naquele dia em que todos foram exterminados. Aquele dia em que o embaraço da linguagem se tornou um silêncio de décadas. Sobre essas coisas não se falava na sua casa.
O desaparecimento de sua irmã e de seu cunhado foi um episódio inimaginavelmente doloroso para a sua família. E parece ter sido por ocasião deste evento que Bernardo tenha explicitado o fio condutor da memória silenciada, que não aleatoriamente é o mesmo que liga as ditaduras. A culpa que guarda a pretensão da função de um predicado atemporal e intransitivo do sobrevivente foi exemplarmente apresentada, lembrou Berrnardo, em A Escolha de Sofia (William Styron, 1979). Por que o soldado alemão não matou as duas crianças, em vez de pedir à mãe que ela escolhesse, entre o filho e a filha, qual iria morrer? A despeito de quem seja esse sujeito, há um dispositivo que o ultrapassa e que opera, nessa ordem macabra, a perversidade da transmissão da culpa. A transferência da culpa para a vítima e, assim, a perpetuação do sofrimento. O destino da culpa de Sofia é o suicídio, como se sabe. O livro de Styron é obra de ficção; seu argumento, não.
O que está moralmente em jogo na exigência da verdade a respeito dos desaparecidos é o destino que essa culpa deve ter. Porque a exigência da verdade, da punição e da reparação, ao contrário da melancolia, habitam uma dimensão pública, política jurídica, estatal e histórica.
Amparo Araújo é irmã do militante, desaparecido em 1971, Luiz Araújo. Ela demonstrou como se passa da melancolia confinada e irremediavelmente confinada, ao seu contrário: a ação pública, inegociável, juridicamente consistente, politicamente honrosa, de lembrar e exigir a reparação do Estado. Amparo poderia falar durante horas e dias sobre a sua trajetória e talvez não demonstrasse com a mesma clareza como se dá essa passagem, como quando disse que tinha voltado a ter pesadelos, por ocasião da reação lacaia à criação da Comissão da Verdade. Amparo pôs a mão no peito e disse mais ou menos: “Eu sempre tive uma dor só minha, aqui no meu colo, sabe?”, disse, com a mão repousando sobre o colo. “Pois agora voltou a doer, assim, fisicamente, de novo”. Essa dor deve ser retribuída, como justiça.
Uma das lições mais elementares do direito penal é a de que a conduta criminosa é singularmente imputável. O fundamento dessa exigência de imputabilidade é o pressuposto de que todo criminoso é, antecedentemente, uma pessoa de direitos. Toda punição no âmbito estritamente penal repousa na imputação legítima de uma culpa, feita pela lei e executada pelo Estado de direito. Essa estrutura da operação punitiva não se estende aos crimes do estado, e menos ainda aos crimes contra a humanidade. A humanidade, diferentemente da vítima a, b, c, não deixa de sê-lo, não desaparece enquanto tal da mesma maneira que os indivíduos, não é singularizável. Essas considerações rudimentares de direito talvez possam ser traduzidas com a afirmação já aceita no nosso STJ, por exemplo, de que direitos inalienáveis não prescrevem, a título de combate à indigente tese de aparência jurídica de que os crimes da ditadura teriam prescrito.
Bernardo deixou claro que sabe quem são os torturadores, e é muito provável que também Amparo e demais vítimas das atrocidades da ditadura brasileira o saibam. A inversão do destino da culpa e a reparação não se situam no âmbito de uma relação comutativa, trivialmente retributiva, entre torturador e torturado, entre carrasco e cadáver desconhecido. O que faz com que, até hoje, pessoas procurem a família de Bernardo para dar pistas falsas da sua irmã, dizendo que ela está viva, morando no Canadá, por exemplo? Por que há o cuidado de reiterar a dor da perda, de cristalizar a angústia, de insistir em semear a hipótese da fraqueza, da frustração, da derrota? Se é a perversidade que explica essa conduta, e certamente o é, ela não é um traço singular, psicológico, qualquer, mas uma ação política. E histórica.
“Articular o passado historicamente não significa conhecê-lo 'tal como ele propriamente foi'. Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela lampeja num instante de perigo. (...)...também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. (1)
Não se trata de saber; o sobrevivente e os sobreviventes o sabem. Trata-se de responsabilizar, apoderar-se do sentido, desvelar o que está, ainda, nas trevas. Para que a tortura e a corrupção deixem de ser condição ordinária nos procedimentos investigatórios e no interior das penitenciárias. Para que a vida em sociedade faça sentido. Não é, como disse Lilian, para que nunca mais aconteça, exatamente; mas porque as repetições de tragédias e da barbárie nunca careceram de fiadores entusiasmados e eles seguem insistindo na transmissão e perpetuação do sofrimento.
É para que aquilo que aconteceu faça sentido hoje, na nossa democracia, na nossa memória, no nosso cotidiano irrefletido. O paradoxo de dissolver a culpa e a responsabilidade no pântano das defesas delirantes “anti-revanchistas” se torna: ninguém tem culpa, porque todos são culpados, como lembrou Bernardo, no fim de seu depoimento. Os que tombaram na luta pela democracia só estarão seguros, enquanto mortos, se a democracia for uma experiência permitida.
(1) Trechos da Tese VI, das Teses sobre o Conceito de História, de Walter Benjamin. In: Aviso de Incêndio – Uma leitura das Teses “Sobre o Conceito de História”, Michel Löwy. Tradução das Teses: Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller, São Paulo, SP, Boitempo Editorial, 2005.
Fonte: Agência Carta Maior.
Katarina Peixoto
"Só assim brilha a Revelação
Numa época que Te rejeitou
Teu nada é a única experiência
Que de Ti é permitida”
Gershom Scholem, em “Com um exemplar do Processo de Kafka”
“Uma sociedade com futuro é uma sociedade com memória. Não por conta do nunca mais, não, que eu não acredito nisso. Mas para que a vida em comunidade faça sentido”, disse Lilian Celiberti, na terça-feira (26), em Porto Alegre, pouco antes de Lula pegar o microfone. Lilian Celiberti, militante feminista uruguaia e uma das poucas sobreviventes da Operação Condor, sabe o que essas palavras significam.
Mas o que elas querem dizer? O que organiza a exigência da memória na vida política de um povo? Por que essas palavras fazem sentido e como se pode traduzir a clareza na face de Lilian Celiberti, quando as pronunciou, para milhares de participantes do FSM?
O Projeto Direito à Memória e à Verdade – Aos que morreram a luta por um Brasil livre – organizou o Seminário “Sobreviventes: Marcas das Ditaduras nos Direitos Humanos”, na tarde do dia 27, como atividade paralela ao FSM. Os sobreviventes convidados foram o jornalista Bernardo Kucinski e a atual secretária de Direitos Humanos da da cidade do Recife e fundadora do Movimento Tortura Nunca Mais, Amparo Araújo.
Quando Bernardo começou a ler o texto que preparou para a ocasião ficou dolorosamente evidente o quanto essas interrogações acima não são triviais. E exatamente por isso resplandeceram duas exigências, de natureza irredutivelmente moral, anti-jornalísticas: não usar um gravador e não tecer anotações num caderno. A melancolia do sobrevivente é, observou Bernardo, incontornavelmente individual e em certa medida irredutível à linguagem.
Agostinho de Hipona disse que “a morte era um embaraço para a linguagem”. E o desaparecimento, o extermínio, a tortura, a transmissão perversa da culpa e a perpetuação da suspensão do luto são embaraços para o quê ou para quem? Do que se faz essa impossibilidade de consumar o luto e qual a relação desse luto em suspenso com o silêncio que não se pode traduzir? Qual, enfim, é e qual deve ser o destino da culpa?
Bernardo Kucinski é um dos sobreviventes da ditadura militar brasileira que contabiliza, dentre os seus desaparecidos, sua irmã Ana Rosa Kucinski e seu cunhado, Vilson Silva. Ambos, desaparecidos desde abril de 1974, compõem parte do “nada” de Bernardo de que o poema de Gershom Scholem nos fala, a respeito do texto de Kafka. Compõem uma parte que talvez se pudesse chamar de continuidade, de um luto sem termo inicial claro. Ele falou do silêncio de seu pai, o imigrante judeu polonês Majer Kucinski, a respeito de irmãos mortos, um, num campo de extermínio e outra, pelas forças de ocupação nazista na França. Desta tia descobriu o nome há pouco, disse, sem saber se era casada e como vivia.
A sobrevivência parece se confundir, nas palavras que Bernardo vai lendo no microfone, com uma posição histórica. A sua mãe, Ester, também silenciara aos filhos que tinha tido toda a família exterminada pelas tropas nazistas na invasão da Polônia. E que seu tio era, junto a ela, o único sobrevivente daquele núcleo familiar desfeito para sempre. Bernardo conta que Ester morreu aos 50, de câncer, mas que tinha morrido mesmo naquele dia em que todos foram exterminados. Aquele dia em que o embaraço da linguagem se tornou um silêncio de décadas. Sobre essas coisas não se falava na sua casa.
O desaparecimento de sua irmã e de seu cunhado foi um episódio inimaginavelmente doloroso para a sua família. E parece ter sido por ocasião deste evento que Bernardo tenha explicitado o fio condutor da memória silenciada, que não aleatoriamente é o mesmo que liga as ditaduras. A culpa que guarda a pretensão da função de um predicado atemporal e intransitivo do sobrevivente foi exemplarmente apresentada, lembrou Berrnardo, em A Escolha de Sofia (William Styron, 1979). Por que o soldado alemão não matou as duas crianças, em vez de pedir à mãe que ela escolhesse, entre o filho e a filha, qual iria morrer? A despeito de quem seja esse sujeito, há um dispositivo que o ultrapassa e que opera, nessa ordem macabra, a perversidade da transmissão da culpa. A transferência da culpa para a vítima e, assim, a perpetuação do sofrimento. O destino da culpa de Sofia é o suicídio, como se sabe. O livro de Styron é obra de ficção; seu argumento, não.
O que está moralmente em jogo na exigência da verdade a respeito dos desaparecidos é o destino que essa culpa deve ter. Porque a exigência da verdade, da punição e da reparação, ao contrário da melancolia, habitam uma dimensão pública, política jurídica, estatal e histórica.
Amparo Araújo é irmã do militante, desaparecido em 1971, Luiz Araújo. Ela demonstrou como se passa da melancolia confinada e irremediavelmente confinada, ao seu contrário: a ação pública, inegociável, juridicamente consistente, politicamente honrosa, de lembrar e exigir a reparação do Estado. Amparo poderia falar durante horas e dias sobre a sua trajetória e talvez não demonstrasse com a mesma clareza como se dá essa passagem, como quando disse que tinha voltado a ter pesadelos, por ocasião da reação lacaia à criação da Comissão da Verdade. Amparo pôs a mão no peito e disse mais ou menos: “Eu sempre tive uma dor só minha, aqui no meu colo, sabe?”, disse, com a mão repousando sobre o colo. “Pois agora voltou a doer, assim, fisicamente, de novo”. Essa dor deve ser retribuída, como justiça.
Uma das lições mais elementares do direito penal é a de que a conduta criminosa é singularmente imputável. O fundamento dessa exigência de imputabilidade é o pressuposto de que todo criminoso é, antecedentemente, uma pessoa de direitos. Toda punição no âmbito estritamente penal repousa na imputação legítima de uma culpa, feita pela lei e executada pelo Estado de direito. Essa estrutura da operação punitiva não se estende aos crimes do estado, e menos ainda aos crimes contra a humanidade. A humanidade, diferentemente da vítima a, b, c, não deixa de sê-lo, não desaparece enquanto tal da mesma maneira que os indivíduos, não é singularizável. Essas considerações rudimentares de direito talvez possam ser traduzidas com a afirmação já aceita no nosso STJ, por exemplo, de que direitos inalienáveis não prescrevem, a título de combate à indigente tese de aparência jurídica de que os crimes da ditadura teriam prescrito.
Bernardo deixou claro que sabe quem são os torturadores, e é muito provável que também Amparo e demais vítimas das atrocidades da ditadura brasileira o saibam. A inversão do destino da culpa e a reparação não se situam no âmbito de uma relação comutativa, trivialmente retributiva, entre torturador e torturado, entre carrasco e cadáver desconhecido. O que faz com que, até hoje, pessoas procurem a família de Bernardo para dar pistas falsas da sua irmã, dizendo que ela está viva, morando no Canadá, por exemplo? Por que há o cuidado de reiterar a dor da perda, de cristalizar a angústia, de insistir em semear a hipótese da fraqueza, da frustração, da derrota? Se é a perversidade que explica essa conduta, e certamente o é, ela não é um traço singular, psicológico, qualquer, mas uma ação política. E histórica.
“Articular o passado historicamente não significa conhecê-lo 'tal como ele propriamente foi'. Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela lampeja num instante de perigo. (...)...também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. (1)
Não se trata de saber; o sobrevivente e os sobreviventes o sabem. Trata-se de responsabilizar, apoderar-se do sentido, desvelar o que está, ainda, nas trevas. Para que a tortura e a corrupção deixem de ser condição ordinária nos procedimentos investigatórios e no interior das penitenciárias. Para que a vida em sociedade faça sentido. Não é, como disse Lilian, para que nunca mais aconteça, exatamente; mas porque as repetições de tragédias e da barbárie nunca careceram de fiadores entusiasmados e eles seguem insistindo na transmissão e perpetuação do sofrimento.
É para que aquilo que aconteceu faça sentido hoje, na nossa democracia, na nossa memória, no nosso cotidiano irrefletido. O paradoxo de dissolver a culpa e a responsabilidade no pântano das defesas delirantes “anti-revanchistas” se torna: ninguém tem culpa, porque todos são culpados, como lembrou Bernardo, no fim de seu depoimento. Os que tombaram na luta pela democracia só estarão seguros, enquanto mortos, se a democracia for uma experiência permitida.
(1) Trechos da Tese VI, das Teses sobre o Conceito de História, de Walter Benjamin. In: Aviso de Incêndio – Uma leitura das Teses “Sobre o Conceito de História”, Michel Löwy. Tradução das Teses: Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller, São Paulo, SP, Boitempo Editorial, 2005.
Fonte: Agência Carta Maior.
INTERNET - Os caras querem o "Bolsa Internet"
Copiado do blog "Tijolaço", do Brizola Neto
Olha só os espertinhos que querem o “Bolsa-Internet”…
Poucas horas atrás postei as declarações do “cara-de-pau” da Associação das Teles que disse que a recriação da Telebras para levar banda larga aos brasileiros é “loucura e desperdício”. É um certo senhor José Fernandes Pauletti, que já nos brindou com seu talento e capacidade presidindo a Telemar, este “modelo” de ineficiência e abuso sobre os usuários, que teve o desplante de sugerir que o governo, em lugar de prover um serviço razoável para todos e estimular a concorrência na distrubuição final, com a participação de pequenas empresas, desse “uma quantia mensal e o cidadão escolheria a operadora onde quisesse gastar aqueles créditos para acessar a internet”, naturalmente enchendo as burras das teles com o dinheiro do “Bolsa Internet”.
Bom, você quer ver como estas teles são “boazinhas” e eficientes? Voltando de Brasilia, abri o Valor Econômico e estava lá: “Tarifas de celular no Brasil estão entre as mais caras do mundo”. Nenhuma novidade, não é? A telefonia celular no Brasil é uma arapuca, onde o mesmo serviço pode custar um centavo ou um real, dependendo do interesse comercial da empresa. É um espetáculo selvagem de preço alto, compensado com promoção disso, promoção daquilo, que faz muita gente, especialmente de menor poder aquisitivo, ficar trocando de chip para poder falar a um preço acessível.O ótimo site IDG diz, sobre a mesma pesquisa, que nossa tarifa é a segundam ais cara do mundo.
Diz a matéria que estudo da consultoria europeia Bernstein Research sobre as telecomunicações aponta o Brasil como um dos três países com as mais altas tarifas de telefonia celular do mundo, junto com a África do Sul e a Nigéria. Aqui se paga US$ 0,24 (ou R$ 0,40) em média por minuto (média, porque o pobre paga é mais de um real por minuto, no pré-pago), quando na Índia este valor é de um centavo de dólar e na Indonésia, China, Rússia, Egito, México e EUA o valor varia de três a cinco centavos de dólar.
A defesa das teles é dizer que aqui a maior parte dos telefones é pré-pago, que geram receita média mensal só de R$ 8 por aparelho. Mentira! O pobre tem pré-pago porque não pode pagar contas de, no mínimo, R$40 num celular pós-pago. E se gasta só R$ 8 por mês, há duas coisas. primeiro, ele está gerando receita na outra ponta, isto é, de quem telefona para seu pré-pago. Segundo, não está gerando tráfego nas redes, ao ligar. E quando liga paga mais de um real por minuto, uma extorsão!
Essa gente das teles não tem capacidade para fazer nada que seja verdadeiramente democrático e aberto. Choramingam, mas não largam o osso, porque têm lucros fabulosos. Não tem sentidoo entregar a banda larga para quem faz isso.
Aliás, não tem sentido nem entregar a telefonia celular, que é uma das indústrias mais rentáveis e baratas do mundo, para esta gente. Não querem a banda larga popular, porque sabem que a comunicação por voz via internet só depende de boas conexões. Que se agarrem ao que FHC já lhes deu e que prestem atenção ao calendário, porque suas concessões têm prazo. Depois que vencerem, se o Brasil tiver um governo decente que não as renove, não venham dizer que isso é “chavismo”.
Olha só os espertinhos que querem o “Bolsa-Internet”…
Poucas horas atrás postei as declarações do “cara-de-pau” da Associação das Teles que disse que a recriação da Telebras para levar banda larga aos brasileiros é “loucura e desperdício”. É um certo senhor José Fernandes Pauletti, que já nos brindou com seu talento e capacidade presidindo a Telemar, este “modelo” de ineficiência e abuso sobre os usuários, que teve o desplante de sugerir que o governo, em lugar de prover um serviço razoável para todos e estimular a concorrência na distrubuição final, com a participação de pequenas empresas, desse “uma quantia mensal e o cidadão escolheria a operadora onde quisesse gastar aqueles créditos para acessar a internet”, naturalmente enchendo as burras das teles com o dinheiro do “Bolsa Internet”.
Bom, você quer ver como estas teles são “boazinhas” e eficientes? Voltando de Brasilia, abri o Valor Econômico e estava lá: “Tarifas de celular no Brasil estão entre as mais caras do mundo”. Nenhuma novidade, não é? A telefonia celular no Brasil é uma arapuca, onde o mesmo serviço pode custar um centavo ou um real, dependendo do interesse comercial da empresa. É um espetáculo selvagem de preço alto, compensado com promoção disso, promoção daquilo, que faz muita gente, especialmente de menor poder aquisitivo, ficar trocando de chip para poder falar a um preço acessível.O ótimo site IDG diz, sobre a mesma pesquisa, que nossa tarifa é a segundam ais cara do mundo.
Diz a matéria que estudo da consultoria europeia Bernstein Research sobre as telecomunicações aponta o Brasil como um dos três países com as mais altas tarifas de telefonia celular do mundo, junto com a África do Sul e a Nigéria. Aqui se paga US$ 0,24 (ou R$ 0,40) em média por minuto (média, porque o pobre paga é mais de um real por minuto, no pré-pago), quando na Índia este valor é de um centavo de dólar e na Indonésia, China, Rússia, Egito, México e EUA o valor varia de três a cinco centavos de dólar.
A defesa das teles é dizer que aqui a maior parte dos telefones é pré-pago, que geram receita média mensal só de R$ 8 por aparelho. Mentira! O pobre tem pré-pago porque não pode pagar contas de, no mínimo, R$40 num celular pós-pago. E se gasta só R$ 8 por mês, há duas coisas. primeiro, ele está gerando receita na outra ponta, isto é, de quem telefona para seu pré-pago. Segundo, não está gerando tráfego nas redes, ao ligar. E quando liga paga mais de um real por minuto, uma extorsão!
Essa gente das teles não tem capacidade para fazer nada que seja verdadeiramente democrático e aberto. Choramingam, mas não largam o osso, porque têm lucros fabulosos. Não tem sentidoo entregar a banda larga para quem faz isso.
Aliás, não tem sentido nem entregar a telefonia celular, que é uma das indústrias mais rentáveis e baratas do mundo, para esta gente. Não querem a banda larga popular, porque sabem que a comunicação por voz via internet só depende de boas conexões. Que se agarrem ao que FHC já lhes deu e que prestem atenção ao calendário, porque suas concessões têm prazo. Depois que vencerem, se o Brasil tiver um governo decente que não as renove, não venham dizer que isso é “chavismo”.
POLÍTICA - As noites indormidas.
Por Mauro Santayana
No discurso de posse como governador de Minas, quando afirmou o compromisso de seu estado com a recuperação do poder civil no país, Tancredo Neves falou nas “noites indormidas”. Ao lembrar o carinho com que o povo o recebera, na campanha que o levara ao Palácio da Liberdade, disse que a peregrinação cívica compensava-o das noites passadas em claro, na busca dos entendimentos políticos, nos diversos postos que ocupara, entre eles o de ministro da Justiça de Vargas, quando do acosso contra o grande presidente, e de primeiro-ministro de João Goulart.
É fácil desprezar a atividade pública como um todo. É certo que há políticos que só retiram de sua condição o sumo do hedonismo, o prazer doentio do mando, sem falar nos espessos sucos da corrupção. Mas há aqueles que, à esquerda e à direita do espectro político, são dedicados servidores do Estado. São homens que passam “noites indormidas”, no esforço de conciliar os adversários, de encontrar o caminho para a superação das dificuldades, e no estudo das questões administrativas.
São pesadas as tensões a que se submetem os homens públicos. Tancredo passara, ao lado de Ulysses Guimarães, mais de 24 horas em vigília na Câmara, quando da discussão da reforma judiciária, de iniciativa do presidente Geisel. Como se recorda, o Congresso rejeitou a proposta do governo, e foi fechado por Geisel, que, com base no AI-5, não só impôs a reforma como criou os chamados “senadores biônicos”, e adiou as eleições diretas para os governadores de Estado. Tancredo achava que não valia a pena enfrentar o governo no episódio. Sua opinião era a de que a lei poderia ser revista ou revogada em futuro próximo, mas a rejeição daria pretexto para que os militares da linha dura impusessem a Geisel o recuo no processo de distensão. Mas seguiu a orientação do MDB.
O drama final do grande mineiro revela as fortes pressões que enfrentou nos últimos meses de 1984 e naquelas horas que precederam a frustrada cerimônia de posse. Ao mesmo tempo em que ia às ruas, em busca do apoio popular, negociava exaustivamente a saída política para o impasse histórico. A composição do ministério, na cuidadosa atenção à realidade federativa, exigiu-lhe, além da lógica, extrema paciência. Qualquer que tenha sido a causa objetiva da enfermidade e do processo que o levou à morte, as tensões daqueles meses, semanas e horas – a cada momento mais pesadas – contribuíram para a grande tragédia.
É natural e humano que o presidente Lula se comova diante das homenagens que vem recebendo, como chefe de Estado do Brasil, e que se esforce em mostrar suas realizações nestes últimos meses de governo. Como advertia Spinoza, quando tratamos das coisas humanas, não devemos delas rir, nem lamentá-las, menos ainda detestá-las, mas, sim, entendê-las. Lula tem viajado muito, dentro do Brasil e no exterior, e, graças a isso, o país vem recuperando sua estima interna e conquistou forte presença internacional . Ele iria a Davos, a fim de receber a homenagem de um forum dos ricos, antes de participar do Forum Sindical Mundial, de Porto Alegre, que representa outra visão de mundo. O convescote suíço parece deixar a arrogância antiga, com seu discurso amável, e isso se deve à emergência de países como o Brasil, sob o governo atual. É mesmo provável que a crise de hipertensão se deva à indecisão de sua alma em receber uma homenagem dos grandes do mundo.
A isso se acrescem as suas naturais preocupações com o processo sucessório. Ele pode prever a radicalização da campanha, nos próximos meses, se – e esse é um desejo dos insensatos – houver um confronto maniqueísta entre governo e oposição. O momento é incerto, até mesmo com relação às candidaturas. As próximas semanas, que nos separam das exigidas convenções partidárias, serão, em cada dia e em cada hora, mais difíceis. O temperamento e a história de Lula não lhe permitem ausentar-se do processo, como chefe de Estado imparcial. Seus compromissos de classe não lhe permitem essa ausência. Esse alheamento tampouco é da tradição do presidencialismo brasileiro. Por tudo isso, médicos como Adib Jatene e o ministro Temporão aconselham-no a reduzir o ritmo de trabalho, a poupar-se de tantas emoções.
No discurso de posse como governador de Minas, quando afirmou o compromisso de seu estado com a recuperação do poder civil no país, Tancredo Neves falou nas “noites indormidas”. Ao lembrar o carinho com que o povo o recebera, na campanha que o levara ao Palácio da Liberdade, disse que a peregrinação cívica compensava-o das noites passadas em claro, na busca dos entendimentos políticos, nos diversos postos que ocupara, entre eles o de ministro da Justiça de Vargas, quando do acosso contra o grande presidente, e de primeiro-ministro de João Goulart.
É fácil desprezar a atividade pública como um todo. É certo que há políticos que só retiram de sua condição o sumo do hedonismo, o prazer doentio do mando, sem falar nos espessos sucos da corrupção. Mas há aqueles que, à esquerda e à direita do espectro político, são dedicados servidores do Estado. São homens que passam “noites indormidas”, no esforço de conciliar os adversários, de encontrar o caminho para a superação das dificuldades, e no estudo das questões administrativas.
São pesadas as tensões a que se submetem os homens públicos. Tancredo passara, ao lado de Ulysses Guimarães, mais de 24 horas em vigília na Câmara, quando da discussão da reforma judiciária, de iniciativa do presidente Geisel. Como se recorda, o Congresso rejeitou a proposta do governo, e foi fechado por Geisel, que, com base no AI-5, não só impôs a reforma como criou os chamados “senadores biônicos”, e adiou as eleições diretas para os governadores de Estado. Tancredo achava que não valia a pena enfrentar o governo no episódio. Sua opinião era a de que a lei poderia ser revista ou revogada em futuro próximo, mas a rejeição daria pretexto para que os militares da linha dura impusessem a Geisel o recuo no processo de distensão. Mas seguiu a orientação do MDB.
O drama final do grande mineiro revela as fortes pressões que enfrentou nos últimos meses de 1984 e naquelas horas que precederam a frustrada cerimônia de posse. Ao mesmo tempo em que ia às ruas, em busca do apoio popular, negociava exaustivamente a saída política para o impasse histórico. A composição do ministério, na cuidadosa atenção à realidade federativa, exigiu-lhe, além da lógica, extrema paciência. Qualquer que tenha sido a causa objetiva da enfermidade e do processo que o levou à morte, as tensões daqueles meses, semanas e horas – a cada momento mais pesadas – contribuíram para a grande tragédia.
É natural e humano que o presidente Lula se comova diante das homenagens que vem recebendo, como chefe de Estado do Brasil, e que se esforce em mostrar suas realizações nestes últimos meses de governo. Como advertia Spinoza, quando tratamos das coisas humanas, não devemos delas rir, nem lamentá-las, menos ainda detestá-las, mas, sim, entendê-las. Lula tem viajado muito, dentro do Brasil e no exterior, e, graças a isso, o país vem recuperando sua estima interna e conquistou forte presença internacional . Ele iria a Davos, a fim de receber a homenagem de um forum dos ricos, antes de participar do Forum Sindical Mundial, de Porto Alegre, que representa outra visão de mundo. O convescote suíço parece deixar a arrogância antiga, com seu discurso amável, e isso se deve à emergência de países como o Brasil, sob o governo atual. É mesmo provável que a crise de hipertensão se deva à indecisão de sua alma em receber uma homenagem dos grandes do mundo.
A isso se acrescem as suas naturais preocupações com o processo sucessório. Ele pode prever a radicalização da campanha, nos próximos meses, se – e esse é um desejo dos insensatos – houver um confronto maniqueísta entre governo e oposição. O momento é incerto, até mesmo com relação às candidaturas. As próximas semanas, que nos separam das exigidas convenções partidárias, serão, em cada dia e em cada hora, mais difíceis. O temperamento e a história de Lula não lhe permitem ausentar-se do processo, como chefe de Estado imparcial. Seus compromissos de classe não lhe permitem essa ausência. Esse alheamento tampouco é da tradição do presidencialismo brasileiro. Por tudo isso, médicos como Adib Jatene e o ministro Temporão aconselham-no a reduzir o ritmo de trabalho, a poupar-se de tantas emoções.
AFEGANISTÃO - Como sair do Afeganistão.
Por Mauro Santayana
Os Estados Unidos estão dispostos a negociar com os talibãs, e o presidente do Afeganistão – cuja legitimidade é nenhuma, por ter sido imposto por Washington em uma fraude eleitoral – propõe uma série de condições para as conversações. Depois de mais de 1.600 baixas norte-americanas, sem contar com as das demais tropas invasoras, e de muito mais mortos entre os afegãos, os generais americanos Petraeus e McChrystal concluem pela impossibilidade de vitória pelas armas. Os aliados já pensavam assim, e se reúnem em Londres, a partir de hoje, para discutir o assunto. O presidente Obama, que concordara antes com o Pentágono, de que a vitória só seria obtida com mais soldados, enfraqueceu-se no episódio. A sua ideia era a de que, a fim de se retirar do Iraque, seria necessário aumentar a pressão no Afeganistão. Ele não poderia ter atuado de forma diferente, já que recebera o conflito dos três presidentes que o precederam.
A guerra contra Saddam foi o grande erro estratégico do primeiro Bush. Admita-se que Washington, para garantir o suprimento de petróleo barato do Kuweit, tenha agido em defesa do emirado. Frustrada a tentativa de anexação, a diplomacia deveria ter procurado um modus vivendi com Saddam, o que não seria difícil. Bush continuou castigando o Iraque com seus bombardeios, mantidos pelo democrata Clinton, até que o outro Bush, o filho – ao acusar falsamente Saddam de envolvimento nos atentados de 11 de Setembro e de dispor de armas de destruição em massa – invadiu e ocupou o país.
O presidente Hamid Karzai – cuja iniciativa foi claramente ditada por Washington – apresentou um plano de conciliação política nacional, que começa com o gesto de boa vontade das Nações Unidas em retirar, de sua lista de terroristas, alguns líderes talibãs. Eles poderão movimentar suas contas bancárias, até agora congeladas, e influir sobre seus companheiros. Em outro movimento, pretendem atrair combatentes do Talibã, com dinheiro vivo, a fim de enfraquecer o inimigo e forçá-lo às negociações. Parece mais difícil conseguir que os talibãs rompam com a Al Qaeda. Os chefes podem até prometer a ruptura, como estratagema político, mas há laços muito fortes entre Bin Laden e os líderes radicais.
O porta-voz dos talibãs, Zabiulah Mohammed, já declarou que, enquanto houver tropas estrangeiras no território muçulmano, não haverá conversações de paz. Que haja uma ou outra defecção, é provável, mas que elas signifiquem algum acordo é difícil. Seja como for, os Estados Unidos se encontram diante de outra derrota militar – e política. Seus generais entendem agora que, por mais tropas sejam enviadas para o território, não conseguirão dominar os radicais muçulmanos. A ação política poderia ter trazido resultados no passado. O sangue derramado e o dinheiro gasto ali para nada serviram.
Quando os norte-americanos deixarem o país – e o deixarão tão logo consigam – o episódio irá somar-se ao passivo da história da grande república, com seus crimes contra a humanidade, junto às derrotas, na Coreia, em Cuba e no Vietnã, entre outras. Foram guerras inúteis. Até lá, os afegãos e os invasores continuarão a morrer. Apesar das declarações em favor das soluções políticas, os americanos continuam defendendo o aumento das tropas estrangeiras, como meio de pressão para que os guerrilheiros talibãs desertem por dinheiro. Quanto mais tropas houver, mais resistência haverá. Vamos assistir ao que vimos, há 35 anos, no Vietnã: as demoradas conversações entre os dois lados, até o momento do desespero que foi a retirada das tropas agressoras, em Saigon.
Os descendentes dos que perderam seus filhos, e dos que perderam seus pais, nas duas grandes guerras mundiais do século passado, têm por que se orgulhar de seu heroísmo. Eles morreram por uma grande causa. Os que os perderam no Vietnã, e os estão perdendo no Iraque e no Afeganistão, devem sentir-se aflitos em seu desconsolo. Seus filhos e pais morreram para que as grandes corporações, continuassem obtendo imensos lucros, distribuídos entre os executivos e as grandes famílias de bilionários ociosos.
Fonte:JB online
Os Estados Unidos estão dispostos a negociar com os talibãs, e o presidente do Afeganistão – cuja legitimidade é nenhuma, por ter sido imposto por Washington em uma fraude eleitoral – propõe uma série de condições para as conversações. Depois de mais de 1.600 baixas norte-americanas, sem contar com as das demais tropas invasoras, e de muito mais mortos entre os afegãos, os generais americanos Petraeus e McChrystal concluem pela impossibilidade de vitória pelas armas. Os aliados já pensavam assim, e se reúnem em Londres, a partir de hoje, para discutir o assunto. O presidente Obama, que concordara antes com o Pentágono, de que a vitória só seria obtida com mais soldados, enfraqueceu-se no episódio. A sua ideia era a de que, a fim de se retirar do Iraque, seria necessário aumentar a pressão no Afeganistão. Ele não poderia ter atuado de forma diferente, já que recebera o conflito dos três presidentes que o precederam.
A guerra contra Saddam foi o grande erro estratégico do primeiro Bush. Admita-se que Washington, para garantir o suprimento de petróleo barato do Kuweit, tenha agido em defesa do emirado. Frustrada a tentativa de anexação, a diplomacia deveria ter procurado um modus vivendi com Saddam, o que não seria difícil. Bush continuou castigando o Iraque com seus bombardeios, mantidos pelo democrata Clinton, até que o outro Bush, o filho – ao acusar falsamente Saddam de envolvimento nos atentados de 11 de Setembro e de dispor de armas de destruição em massa – invadiu e ocupou o país.
O presidente Hamid Karzai – cuja iniciativa foi claramente ditada por Washington – apresentou um plano de conciliação política nacional, que começa com o gesto de boa vontade das Nações Unidas em retirar, de sua lista de terroristas, alguns líderes talibãs. Eles poderão movimentar suas contas bancárias, até agora congeladas, e influir sobre seus companheiros. Em outro movimento, pretendem atrair combatentes do Talibã, com dinheiro vivo, a fim de enfraquecer o inimigo e forçá-lo às negociações. Parece mais difícil conseguir que os talibãs rompam com a Al Qaeda. Os chefes podem até prometer a ruptura, como estratagema político, mas há laços muito fortes entre Bin Laden e os líderes radicais.
O porta-voz dos talibãs, Zabiulah Mohammed, já declarou que, enquanto houver tropas estrangeiras no território muçulmano, não haverá conversações de paz. Que haja uma ou outra defecção, é provável, mas que elas signifiquem algum acordo é difícil. Seja como for, os Estados Unidos se encontram diante de outra derrota militar – e política. Seus generais entendem agora que, por mais tropas sejam enviadas para o território, não conseguirão dominar os radicais muçulmanos. A ação política poderia ter trazido resultados no passado. O sangue derramado e o dinheiro gasto ali para nada serviram.
Quando os norte-americanos deixarem o país – e o deixarão tão logo consigam – o episódio irá somar-se ao passivo da história da grande república, com seus crimes contra a humanidade, junto às derrotas, na Coreia, em Cuba e no Vietnã, entre outras. Foram guerras inúteis. Até lá, os afegãos e os invasores continuarão a morrer. Apesar das declarações em favor das soluções políticas, os americanos continuam defendendo o aumento das tropas estrangeiras, como meio de pressão para que os guerrilheiros talibãs desertem por dinheiro. Quanto mais tropas houver, mais resistência haverá. Vamos assistir ao que vimos, há 35 anos, no Vietnã: as demoradas conversações entre os dois lados, até o momento do desespero que foi a retirada das tropas agressoras, em Saigon.
Os descendentes dos que perderam seus filhos, e dos que perderam seus pais, nas duas grandes guerras mundiais do século passado, têm por que se orgulhar de seu heroísmo. Eles morreram por uma grande causa. Os que os perderam no Vietnã, e os estão perdendo no Iraque e no Afeganistão, devem sentir-se aflitos em seu desconsolo. Seus filhos e pais morreram para que as grandes corporações, continuassem obtendo imensos lucros, distribuídos entre os executivos e as grandes famílias de bilionários ociosos.
Fonte:JB online
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
" É HERESIA REPARTIR LUCROS? E OS BÔNUS DOS EXECUTIVOS?
Copiado do blog " Tijolaço ", do Brizola Neto.
É assombroso que tenha despertado tantas reações a proposta anunciada no Forum Social Mundial pelo Ministro Carlos Lupi e pelo secretário de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, Rogerio Favreto. Trata-se da idéia de propor uma lei faça com que as empresas – exceto as pequenas e as estatais – tenham de partilhar com seus trabalhadores cinco por cento do seu lucro líquido, isto é, o lucro real, depois do pagamento de todos os compromissos e impostos.
O que tem de tão estranho assim nisso? Parece que se falou uma heresia. É uma questão tão antiga que reproduzo aí ao lado um recorte de jornal de 1963, onde o grande advogado Evaristo de Moraes Filho já incluía a questão no seu projeto de reforma do Código do Trabalho, no Governo João Goulart.
O Estadão de hoje traz declarações furibundas do presidente da Confederação Nacional das Indústrias, Armando Monteiro: “É algo de caráter intervencionista, equivocado, inoportuno e aparentemente focado no calendário eleitoral, o que por si só já é criticável”.
E não é só ele. A presidente da Associação de Advogados Trabalhistas, Ana Amélia Camargos, classificou como “autoritária” a proposta do governo e diz que ela é “populista, bem ao estilo do Ministro Carlos Lupi”. Até as centrais sindicais ficaram mudas, porque, até agora, participação nos lucros é apenas negociável pelos sindicatos.
Ora, a proposta nada mais é do que a regulamentação do que está escrito, há 21 anos, na Constituição Brasileira:
Art. 7º- São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
(…)
XI – participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei;
A primeira regulamentação desta disposição constitucional veio em 2000, por medida provisória, no Governo FHC. Mas, como era padrão nos tempos do pensamento neoliberal, tudo seria decidido apenas por “livre negociação”.
Ou seja, dava a empresa que queria ou aquela que tinha um movimento sindical suficientemente forte para exigir esta participação. Os demais trabalhadores ficam “chupando dedo”.
Muitas empresas, justamente as mais modernas e competitivas, dão hoje esta modalidade de remuneração a seus trabalhadores. É uma forma de torná-los parceiros na redução de custos, no aprimoramento dos processos produtivos e comerciais. Cinco por cento do lucro líquido, depois de tudo pago, não vai abalar empresa alguma. Uma empresa que lucra R$ 1 milhão por ano não pode destinar R$ 50 mil para seus empregados? E a regra ainda permite que este dinheiro seja distribuido igualmente entre todos os empregados (no caso, R$ 20 mil) e o restante siga critérios negociados (produtividade, faltas, proporcionalidade aos salários, etc).
Se o movimento sindical for forte, nada o impede de conseguir participação maior. Mas os trabalhadores que não têm esta organização e poder passam a contar com o mesmo benefício. Não há burocracia e nem isso gera encargos trabalhistas. Ganhou, participou. Não ganhou, não participou.
É engraçado que tem gente que ainda acha que o Estado tem de ser “neutro” e deixar que as relações de trabalho não sejam protegidas.
Porque o trabalhador não pode ter participação em lucros, se ele as têm nos prejuízos, sendo despedido sumariamente? Todos os lucros gigantescos, por anos a fio, da Embraer e da Vale serviram para que, para os milhares de trabalhadores que elas demitiram no início do ano passado com a perspectiva de que iam vender menos?
Participação boa, mesmo, para esta gente, são os bônus dos executivos, que vêm com lucro e até com prejuízo, como mostrou a crise dos bancos, ano passado. Bancos quebrados, salvos pero dinheiro público, tiveram de desembolsar centenas de milhões de dólares para pagar os bônus contratuais de seus dirigentes, os mesmo que os levaram à bancarrota.
Para os trabalhadores, é “populismo”, não é? Trabalho é lixo, para essa gente.
É assombroso que tenha despertado tantas reações a proposta anunciada no Forum Social Mundial pelo Ministro Carlos Lupi e pelo secretário de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, Rogerio Favreto. Trata-se da idéia de propor uma lei faça com que as empresas – exceto as pequenas e as estatais – tenham de partilhar com seus trabalhadores cinco por cento do seu lucro líquido, isto é, o lucro real, depois do pagamento de todos os compromissos e impostos.
O que tem de tão estranho assim nisso? Parece que se falou uma heresia. É uma questão tão antiga que reproduzo aí ao lado um recorte de jornal de 1963, onde o grande advogado Evaristo de Moraes Filho já incluía a questão no seu projeto de reforma do Código do Trabalho, no Governo João Goulart.
O Estadão de hoje traz declarações furibundas do presidente da Confederação Nacional das Indústrias, Armando Monteiro: “É algo de caráter intervencionista, equivocado, inoportuno e aparentemente focado no calendário eleitoral, o que por si só já é criticável”.
E não é só ele. A presidente da Associação de Advogados Trabalhistas, Ana Amélia Camargos, classificou como “autoritária” a proposta do governo e diz que ela é “populista, bem ao estilo do Ministro Carlos Lupi”. Até as centrais sindicais ficaram mudas, porque, até agora, participação nos lucros é apenas negociável pelos sindicatos.
Ora, a proposta nada mais é do que a regulamentação do que está escrito, há 21 anos, na Constituição Brasileira:
Art. 7º- São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
(…)
XI – participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei;
A primeira regulamentação desta disposição constitucional veio em 2000, por medida provisória, no Governo FHC. Mas, como era padrão nos tempos do pensamento neoliberal, tudo seria decidido apenas por “livre negociação”.
Ou seja, dava a empresa que queria ou aquela que tinha um movimento sindical suficientemente forte para exigir esta participação. Os demais trabalhadores ficam “chupando dedo”.
Muitas empresas, justamente as mais modernas e competitivas, dão hoje esta modalidade de remuneração a seus trabalhadores. É uma forma de torná-los parceiros na redução de custos, no aprimoramento dos processos produtivos e comerciais. Cinco por cento do lucro líquido, depois de tudo pago, não vai abalar empresa alguma. Uma empresa que lucra R$ 1 milhão por ano não pode destinar R$ 50 mil para seus empregados? E a regra ainda permite que este dinheiro seja distribuido igualmente entre todos os empregados (no caso, R$ 20 mil) e o restante siga critérios negociados (produtividade, faltas, proporcionalidade aos salários, etc).
Se o movimento sindical for forte, nada o impede de conseguir participação maior. Mas os trabalhadores que não têm esta organização e poder passam a contar com o mesmo benefício. Não há burocracia e nem isso gera encargos trabalhistas. Ganhou, participou. Não ganhou, não participou.
É engraçado que tem gente que ainda acha que o Estado tem de ser “neutro” e deixar que as relações de trabalho não sejam protegidas.
Porque o trabalhador não pode ter participação em lucros, se ele as têm nos prejuízos, sendo despedido sumariamente? Todos os lucros gigantescos, por anos a fio, da Embraer e da Vale serviram para que, para os milhares de trabalhadores que elas demitiram no início do ano passado com a perspectiva de que iam vender menos?
Participação boa, mesmo, para esta gente, são os bônus dos executivos, que vêm com lucro e até com prejuízo, como mostrou a crise dos bancos, ano passado. Bancos quebrados, salvos pero dinheiro público, tiveram de desembolsar centenas de milhões de dólares para pagar os bônus contratuais de seus dirigentes, os mesmo que os levaram à bancarrota.
Para os trabalhadores, é “populismo”, não é? Trabalho é lixo, para essa gente.
FSM - A crise pode dar à luz o outro mundo possível.
Nas sociedades futuras, os jovens não trabalharão antes dos 25 anos de idade e terão educação plena com a graduação universitária como piso, e não como meta final, enquanto as jornadas de trabalho para todos poderão ser reduzidas para 12 horas semanais. A construção dessa “sociedade superior” imaginada por Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), seria financiada com fundos públicos provenientes do imposto sobre os lucros financeiros mundiais, que hoje correspondem a dez vezes a riqueza da economia real.
A reportagem é de Mario Osava, da IPS e publicada pela Agência Envolverde, 28-01-2010.
É que o adiamento da entrada dos jovens no mercado de trabalho, para permitir que estudem, já é uma prática comum nas famílias ricas e agora deve ser generalizada, reduzindo a oferta de mão-de-obra e o desemprego, disse este especialista em Economia do Trabalho. Essa reorganização social nascerá de lutas e pressões que exigem novas formas de associação além da sindical, acrescentou Pochmann, ao falar no seminário “Progresso para quê e para quem”, no Fórum Social Mundial Grande Porto Alegre, que começou segunda-feira e terminará amanhã em vários locais da região metropolitana da capital do Rio Grande do Sul.
De todo modo, a nova civilização será necessária porque o atual modelo de consumo é insustentável, disse, e deu como exemplo as novas moradias, maiores, mas onde vive um terço das pessoas que abrigavam há um século. “Em Barcelona, em um terço das casas vive uma única pessoa”, acrescentou Pochmann. Mas é esse consumo que se tenta manter com as medidas adotadas, liberando bilhões de dólares para salvar grandes corporações e bancos para evitar o aprofundamento da crise financeira internacional, que "é sistêmica mas não tão intensa como previsto" e será prolongada como a recessão japonesa dos anos 90, previu.
As variadas problemáticas, como a climática, a financeira e a hídrica, estão convergindo para uma crise global da civilização, que abre oportunidades e exigem mudanças, disse, por sua vez Ladislau Dowbor, professor de Economia da Universidade Católica de São Paulo. Dowbor assumiu as 12 propostas do estudo “Crises e oportunidades”, que escreveu em conjunto com o “ecossocioeconomista” franco-polonês Ignacy Sachs e o diretor-executivo do Instituto das Nações Unidas para a Formação Profissional e Pesquisas, Carlos Lopes, originário da Guiné-Bissau.
Entre as primeiras sugestões destes especialistas, que buscam alternativas “viáveis” à irracionalidade do atual sistema, estão o resgate da dimensão pública do Estado – mudando o sistema de eleição de governantes com dinheiro das grandes empresas –, bem como a possibilidade de revisar as contas do produto interno bruto, que cresce com o desmatamento e aumento da mortalidade infantil, já que madeira, remédios e serviços médicos são produtos de mercado. Também assegurar o direito à vida, com uma renda básica e fontes de renda para todos, mudar o estilo de vida, tomar o controle público das finanças taxando as operações especulativas, revisar a lógica tributária e orçamentária, facilitar o acesso a tecnologias sustentáveis.
Dowbor, autor do livro “Democracia econômica”, está ligado a um grupo de economistas de diferentes países que pensam o “pós-desenvolvimentismo”. A economia social, que no Brasil tem uma vertente mais limitada, chamada “solidária”, está crescendo e pode se fazer predominante logo, sucedendo a baseada na produção material, disse Dowbor à IPS. Saúde, educação e serviços variados, “intangíveis ou imateriais”, já representam grande parte da economia em muitos países, afirmou.
Por isso, entende que deixar o estilo de vida consumista é possível. Na França, foram desenvolvidos edifícios que consomem um décimo da energia de que necessitam os convencionais, disse como exemplo. Em Utah, Estados Unidos, o tempo semanal de trabalho diminuiu quatro dias, uma tendência que pode crescer sem que isso implique diminuir a economia, mas fazendo emigrar atividades para outras áreas, como a cultural, destacou.
Por sua vez, o indiano Prabir Purkayastha defendeu o “conhecimento livre”, abolindo a propriedade intelectual, porque deve “pertencer a todos e é infinito”, já que não se gasta com o uso. A reorganização da economia exige novas tecnologias adequadas, inclusive na pequena produção que deve ser fortalecida, no que China e Índia acumulam numerosas experiências, afirmou. Ao falar no debate “Progresso para quê e para quem”, este economista e ativista pela paz enfatizou o “consumo e desenvolvimento excessivos” de alguns países.
Destacou que a brutal desigualdade persistente no mundo também é insustentável. Na Índia, metade das casas não tem ligação elétrica e a pobreza absoluta afeta uma proporção semelhante da população, alertou. O desafio, então, é combater a pobreza sem promover o mesmo tipo de consumo adotado nos países industrializados.
Na Bolívia, o governo de Evo Morales, aproveitando o acúmulo de forças da sociedade, obteve avanços impressionantes, com a inclusão na Constituição do conceito de “bem viver”, originado na cultura indígena aymara, bem como dar poder aos povos com os princípios ambientalistas fundamentais. Mas suas políticas econômicas se baseiam na Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), do velho espírito “desenvolvimentista”, em frontal contradição com as conquistas constitucionais, questionou Gustavo Soto, do Centro de Estudos Aplicados em Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da Bolívia.
Fonte:IHU
A reportagem é de Mario Osava, da IPS e publicada pela Agência Envolverde, 28-01-2010.
É que o adiamento da entrada dos jovens no mercado de trabalho, para permitir que estudem, já é uma prática comum nas famílias ricas e agora deve ser generalizada, reduzindo a oferta de mão-de-obra e o desemprego, disse este especialista em Economia do Trabalho. Essa reorganização social nascerá de lutas e pressões que exigem novas formas de associação além da sindical, acrescentou Pochmann, ao falar no seminário “Progresso para quê e para quem”, no Fórum Social Mundial Grande Porto Alegre, que começou segunda-feira e terminará amanhã em vários locais da região metropolitana da capital do Rio Grande do Sul.
De todo modo, a nova civilização será necessária porque o atual modelo de consumo é insustentável, disse, e deu como exemplo as novas moradias, maiores, mas onde vive um terço das pessoas que abrigavam há um século. “Em Barcelona, em um terço das casas vive uma única pessoa”, acrescentou Pochmann. Mas é esse consumo que se tenta manter com as medidas adotadas, liberando bilhões de dólares para salvar grandes corporações e bancos para evitar o aprofundamento da crise financeira internacional, que "é sistêmica mas não tão intensa como previsto" e será prolongada como a recessão japonesa dos anos 90, previu.
As variadas problemáticas, como a climática, a financeira e a hídrica, estão convergindo para uma crise global da civilização, que abre oportunidades e exigem mudanças, disse, por sua vez Ladislau Dowbor, professor de Economia da Universidade Católica de São Paulo. Dowbor assumiu as 12 propostas do estudo “Crises e oportunidades”, que escreveu em conjunto com o “ecossocioeconomista” franco-polonês Ignacy Sachs e o diretor-executivo do Instituto das Nações Unidas para a Formação Profissional e Pesquisas, Carlos Lopes, originário da Guiné-Bissau.
Entre as primeiras sugestões destes especialistas, que buscam alternativas “viáveis” à irracionalidade do atual sistema, estão o resgate da dimensão pública do Estado – mudando o sistema de eleição de governantes com dinheiro das grandes empresas –, bem como a possibilidade de revisar as contas do produto interno bruto, que cresce com o desmatamento e aumento da mortalidade infantil, já que madeira, remédios e serviços médicos são produtos de mercado. Também assegurar o direito à vida, com uma renda básica e fontes de renda para todos, mudar o estilo de vida, tomar o controle público das finanças taxando as operações especulativas, revisar a lógica tributária e orçamentária, facilitar o acesso a tecnologias sustentáveis.
Dowbor, autor do livro “Democracia econômica”, está ligado a um grupo de economistas de diferentes países que pensam o “pós-desenvolvimentismo”. A economia social, que no Brasil tem uma vertente mais limitada, chamada “solidária”, está crescendo e pode se fazer predominante logo, sucedendo a baseada na produção material, disse Dowbor à IPS. Saúde, educação e serviços variados, “intangíveis ou imateriais”, já representam grande parte da economia em muitos países, afirmou.
Por isso, entende que deixar o estilo de vida consumista é possível. Na França, foram desenvolvidos edifícios que consomem um décimo da energia de que necessitam os convencionais, disse como exemplo. Em Utah, Estados Unidos, o tempo semanal de trabalho diminuiu quatro dias, uma tendência que pode crescer sem que isso implique diminuir a economia, mas fazendo emigrar atividades para outras áreas, como a cultural, destacou.
Por sua vez, o indiano Prabir Purkayastha defendeu o “conhecimento livre”, abolindo a propriedade intelectual, porque deve “pertencer a todos e é infinito”, já que não se gasta com o uso. A reorganização da economia exige novas tecnologias adequadas, inclusive na pequena produção que deve ser fortalecida, no que China e Índia acumulam numerosas experiências, afirmou. Ao falar no debate “Progresso para quê e para quem”, este economista e ativista pela paz enfatizou o “consumo e desenvolvimento excessivos” de alguns países.
Destacou que a brutal desigualdade persistente no mundo também é insustentável. Na Índia, metade das casas não tem ligação elétrica e a pobreza absoluta afeta uma proporção semelhante da população, alertou. O desafio, então, é combater a pobreza sem promover o mesmo tipo de consumo adotado nos países industrializados.
Na Bolívia, o governo de Evo Morales, aproveitando o acúmulo de forças da sociedade, obteve avanços impressionantes, com a inclusão na Constituição do conceito de “bem viver”, originado na cultura indígena aymara, bem como dar poder aos povos com os princípios ambientalistas fundamentais. Mas suas políticas econômicas se baseiam na Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), do velho espírito “desenvolvimentista”, em frontal contradição com as conquistas constitucionais, questionou Gustavo Soto, do Centro de Estudos Aplicados em Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da Bolívia.
Fonte:IHU
ECONOMIA - Tributação e fundo público mundial contra a pobreza.
"As transações financeiras mundiais que foram multiplicadas por 100 durante as últimas três décadas, equivalem nos dias de hoje a US$ 777,5 trilhões", informa Marcio Pochmann, presidente do Ipea, em artigo publicado no jornal Valor, 28-01-2010. Segundo ele, "a introdução de uma alíquota de apenas e tão somente 0,005% sobre os fluxos financeiros internacionais permitiria gerar anualmente a soma de algo próximo de US$ 35 bilhões. Com esses recursos adicionais, o combate à pobreza se faria mais efetivo e sistêmico, sobretudo em regiões africanas e no sul da Ásia, onde a falta de recursos nacionais impedira, inclusive, o cumprimento da meta do milênio definido por praticamente todos os países no âmbito das Nações Unidas".
Eis o artigo.
Nas duas últimas décadas, o maior impulso no poder do setor privado foi uma das principais evidências do processo de globalização. A brutal concentração e centralização do capital pelas grandes corporações financeiras e não financeiras permitiu que suas operações se dessem globalmente, frente a sistemas de regulações públicas quase que exclusivamente locais, em conformidade com as normatizações originárias do contexto do pós-Segunda Guerra Mundial.
Gradualmente observou-se o alargamento no descompasso entre o diminuto papel de cada Estado nacional e o crescente poder da grande corporação transnacional, bem como as insuficiências do padrão de governança mundial pública expresso por agências multilaterais como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, entre outras. A crise internacional de 2008 recolocou em questão as exigências de um novo sistema de regulação mundial pois, do contrário, os riscos de novas crises permanecem ativos, assim como os diferenciais entre avanços econômico-financeiros e sociais tendem a aumentar ainda mais no mundo. Um bom exemplo disso é a problemática da pobreza mundial, que segue descolada de uma intervenção pública sistêmica e eficiente em todos os países. Naqueles onde mais proliferaram as políticas neoliberais houve os piores desempenhos em termos de indicadores sociais no mundo, como nos casos da América Latina e África nos países não desenvolvidos; dos Estados Unidos e Inglaterra nas nações desenvolvidas; e, ainda, da Rússia e Polônia nas economias em transição para o capitalismo.
Por outro lado, os países asiáticos que não tomaram conhecimento do ideário proveniente do Consenso de Washington conquistaram resultados extremamente positivos em termos de crescimento econômico e redução da pobreza, ainda que sem muitos avanços na diminuição da desigualdade de repartição da renda e riqueza. Entre 1981 e 2005, por exemplo, o mundo libertou 520 milhões de pessoas da condição de extrema pobreza (rendimento mensal individual de até US$ 37,50), ainda que tenham sido poucas regiões responsáveis por esse acontecimento. A queda de 27,4% na quantidade de pessoas extremamente pobres no mundo ocorreu com a ascensão econômica de 755,3 milhões de indivíduos no Leste Asiático e Pacífico e de 2,7 milhões no Oriente Médio e África do Norte (-2,7 milhões de pessoas).
Noutras palavras, percebe-se a força da emergência da China no combate à pobreza mundial - somente ela retirou da pobreza extrema 627,4 milhões de pessoas entre 1981 e 2005. No mesmo período, o resto do mundo ampliou o número de pobres, como nos casos da África Subsaariana (176,9 milhões de pessoas), do sul da Ásia (47,3 milhões), do Leste Europeu e Ásia Central (10,2 milhões) e da América Latina e Caribe (4,1 milhões).
Na projeção para o ano de 2015, a se manter o movimento anterior, serão 216 milhões de pessoas resgatadas da pobreza extrema. Mas isso dependerá fundamentalmente das ações do governo chinês, uma vez que a cada grupo de três pessoas a emergirem da condição da miséria, duas tenderão a ser chinesas. No ano de 1981, por exemplo, o mundo tinha a cada dois pobres, um residindo na China. Em 2015, poderá haver somente um chinês a cada grupo de 13 pobres no mundo. Em compensação, a agregação dos países do sul da Ásia e Índia com os da África Subsaariana, que em 1981 respondiam por 40% da miséria mundial, passarão a concentrar mais de 80% da pobreza extrema.
A alteração dessa tendência social é possível, porém, dependerá fundamentalmente tanto da reestruturação da governança mundial como do reposicionamento dos países em torno de um novo padrão de regulação do poder das grandes corporações globais. Um bom começo para isso seria a introdução da taxação sobre os fluxos financeiros globais. Isso porque, segundo o Banco para Compensações Internacionais (BIS), as transações financeiras mundiais que foram multiplicadas por 100 durante as últimas três décadas, equivalem nos dias de hoje a US$ 777,5 trilhões.
Essa impressionante transformação nas fontes de riqueza decorrentes da globalização desregulada possibilitaria constituir em inovadora base o fundo público mundial de combate à pobreza e à desigualdade social. A introdução de uma alíquota de apenas e tão somente 0,005% sobre os fluxos financeiros internacionais permitiria gerar anualmente a soma de algo próximo de US$ 35 bilhões. Com esses recursos adicionais, o combate à pobreza se faria mais efetivo e sistêmico, sobretudo em regiões africanas e no sul da Ásia, onde a falta de recursos nacionais impedira, inclusive, o cumprimento da meta do milênio definido por praticamente todos os países no âmbito das Nações Unidas.
Sobre isso, aliás, a iniciativa Ação Global Contra a Fome e a Pobreza, lançada pela própria Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2004, tentava impedir que o déficit anual de US$ 50 bilhões pudesse impedir o cumprimento das metas do milênio, por intermédio dos impostos sobre passagens aéreas para viabilizar a compra pública de remédios para o combate ao HIV, malária e tuberculose. O resultado foi o surgimento da Unitaid, que tem feito o combate a essas doenças em países extremamente pobres.
A crise internacional de 2008 gerou mais sofrimento humano com a destruição de cerca de 20 milhões de postos de trabalho e o ingresso de quase 90 milhões de pessoas na condição de pobreza. Para evitar maiores prejuízos a bancos e grandes empresas não financeiras, mais de US$ 11 trilhões foram disponibilizados pelos governos em 2009. A luta contra a pobreza e a fome não pode parar, tendo na taxação dos fluxos internacionais uma contribuição imprescindível.
Fonte:IHU
Eis o artigo.
Nas duas últimas décadas, o maior impulso no poder do setor privado foi uma das principais evidências do processo de globalização. A brutal concentração e centralização do capital pelas grandes corporações financeiras e não financeiras permitiu que suas operações se dessem globalmente, frente a sistemas de regulações públicas quase que exclusivamente locais, em conformidade com as normatizações originárias do contexto do pós-Segunda Guerra Mundial.
Gradualmente observou-se o alargamento no descompasso entre o diminuto papel de cada Estado nacional e o crescente poder da grande corporação transnacional, bem como as insuficiências do padrão de governança mundial pública expresso por agências multilaterais como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, entre outras. A crise internacional de 2008 recolocou em questão as exigências de um novo sistema de regulação mundial pois, do contrário, os riscos de novas crises permanecem ativos, assim como os diferenciais entre avanços econômico-financeiros e sociais tendem a aumentar ainda mais no mundo. Um bom exemplo disso é a problemática da pobreza mundial, que segue descolada de uma intervenção pública sistêmica e eficiente em todos os países. Naqueles onde mais proliferaram as políticas neoliberais houve os piores desempenhos em termos de indicadores sociais no mundo, como nos casos da América Latina e África nos países não desenvolvidos; dos Estados Unidos e Inglaterra nas nações desenvolvidas; e, ainda, da Rússia e Polônia nas economias em transição para o capitalismo.
Por outro lado, os países asiáticos que não tomaram conhecimento do ideário proveniente do Consenso de Washington conquistaram resultados extremamente positivos em termos de crescimento econômico e redução da pobreza, ainda que sem muitos avanços na diminuição da desigualdade de repartição da renda e riqueza. Entre 1981 e 2005, por exemplo, o mundo libertou 520 milhões de pessoas da condição de extrema pobreza (rendimento mensal individual de até US$ 37,50), ainda que tenham sido poucas regiões responsáveis por esse acontecimento. A queda de 27,4% na quantidade de pessoas extremamente pobres no mundo ocorreu com a ascensão econômica de 755,3 milhões de indivíduos no Leste Asiático e Pacífico e de 2,7 milhões no Oriente Médio e África do Norte (-2,7 milhões de pessoas).
Noutras palavras, percebe-se a força da emergência da China no combate à pobreza mundial - somente ela retirou da pobreza extrema 627,4 milhões de pessoas entre 1981 e 2005. No mesmo período, o resto do mundo ampliou o número de pobres, como nos casos da África Subsaariana (176,9 milhões de pessoas), do sul da Ásia (47,3 milhões), do Leste Europeu e Ásia Central (10,2 milhões) e da América Latina e Caribe (4,1 milhões).
Na projeção para o ano de 2015, a se manter o movimento anterior, serão 216 milhões de pessoas resgatadas da pobreza extrema. Mas isso dependerá fundamentalmente das ações do governo chinês, uma vez que a cada grupo de três pessoas a emergirem da condição da miséria, duas tenderão a ser chinesas. No ano de 1981, por exemplo, o mundo tinha a cada dois pobres, um residindo na China. Em 2015, poderá haver somente um chinês a cada grupo de 13 pobres no mundo. Em compensação, a agregação dos países do sul da Ásia e Índia com os da África Subsaariana, que em 1981 respondiam por 40% da miséria mundial, passarão a concentrar mais de 80% da pobreza extrema.
A alteração dessa tendência social é possível, porém, dependerá fundamentalmente tanto da reestruturação da governança mundial como do reposicionamento dos países em torno de um novo padrão de regulação do poder das grandes corporações globais. Um bom começo para isso seria a introdução da taxação sobre os fluxos financeiros globais. Isso porque, segundo o Banco para Compensações Internacionais (BIS), as transações financeiras mundiais que foram multiplicadas por 100 durante as últimas três décadas, equivalem nos dias de hoje a US$ 777,5 trilhões.
Essa impressionante transformação nas fontes de riqueza decorrentes da globalização desregulada possibilitaria constituir em inovadora base o fundo público mundial de combate à pobreza e à desigualdade social. A introdução de uma alíquota de apenas e tão somente 0,005% sobre os fluxos financeiros internacionais permitiria gerar anualmente a soma de algo próximo de US$ 35 bilhões. Com esses recursos adicionais, o combate à pobreza se faria mais efetivo e sistêmico, sobretudo em regiões africanas e no sul da Ásia, onde a falta de recursos nacionais impedira, inclusive, o cumprimento da meta do milênio definido por praticamente todos os países no âmbito das Nações Unidas.
Sobre isso, aliás, a iniciativa Ação Global Contra a Fome e a Pobreza, lançada pela própria Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2004, tentava impedir que o déficit anual de US$ 50 bilhões pudesse impedir o cumprimento das metas do milênio, por intermédio dos impostos sobre passagens aéreas para viabilizar a compra pública de remédios para o combate ao HIV, malária e tuberculose. O resultado foi o surgimento da Unitaid, que tem feito o combate a essas doenças em países extremamente pobres.
A crise internacional de 2008 gerou mais sofrimento humano com a destruição de cerca de 20 milhões de postos de trabalho e o ingresso de quase 90 milhões de pessoas na condição de pobreza. Para evitar maiores prejuízos a bancos e grandes empresas não financeiras, mais de US$ 11 trilhões foram disponibilizados pelos governos em 2009. A luta contra a pobreza e a fome não pode parar, tendo na taxação dos fluxos internacionais uma contribuição imprescindível.
Fonte:IHU
POLÍTICA EXTERNA - Os progressistas.
O debate da política externa: os progressistas
Por José Luís Fiori - Carta Maior
Mas, afinal de contas, professor, o que é ser conservador em matéria de política externa? E o que viria a ser uma política externa não conservadora?”
J.S.: Leitor do Valor Econômico
As grandes utopias do século XIX revolucionaram as idéias e os objetivos da política internacional, logo no início do século XX. Mas, nas décadas seguintes, seu impacto sobre a política externa das grandes potências, foi bem menor do que as expectativas criadas, num primeiro momento, pelas propostas do presidente americano, Woodrow Wilson, na Conferência de Paz de Paris, depois da 1º Guerra Mundial: cosmopolitas, anti-colonialistas e favoráveis a um sistema mundial de segurança, liderado pela Liga das Nações. E pelas idéias e propostas, quase simultâneas, de Vladimir Lênin, já na condição de chefe do estado russo: internacionalistas, anti-imperialistas e favoráveis à paz e à auto-determinação dos povos.
Um programa convergente, em muitos pontos, e absolutamente inovador, que se transformou na bandeira de luta das duas grandes potências, contra o velho sistema europeu de equilíbrio de poder, e contra o liberalismo colonialista, liderado pela Inglaterra e pela França. Mas depois da morte de Wilson e de Lênin, já nos governos de Warren Harding e Joseph Stalin, os Estados Unidos e a União Soviética adotaram políticas externas orientadas por seus interesses nacionais e pelos seus objetivos internos imediatos, na contramão do discurso de seus antigos governantes.
E depois da 2º Guerra Mundial, e da constituição do “duopólio” que geriu o status quo internacional durante a Guerra Fria, entre 1946 e 1991, as idéias libertárias e internacionalistas do início do século, se transformaram num instrumento ideológico esclerosado, na competição entre as duas grandes potências. Mas apesar disto, estas idéias se difundiram pelo mundo junto com a expansão progressiva do poder americano e soviético, e acabaram se transformando no senso comum pouco inovador, do discurso oficial de todas as lideranças políticas mundiais, e de todos os organismos multilaterais criados depois da guerra.
Por fim, depois da vitória americana, e do fim da Guerra Fria e da União Soviética, em 1991, a velha utopia liberal-democrática se transformou na linguagem imperial do poder vitorioso, válida urbe et orbi. Como se tivesse se estabelecido – por um passe de mágica - uma coincidência absoluta entre os interesses dos Estados Unidos e os interesses do resto da humanidade, e entre as posições dos países que desejam manter, e dos que desejam mudar o atual status quo mundial.
Esta história do século XX, também diz respeito à América Latina, e deixa uma lição importante, para o debate atual, sobre o futuro da política externa brasileira. Os Estados Unidos e a União Soviética sempre tiveram sua própria teoria e sua própria história das relações internacionais, e foram inovadores enquanto lutaram contra a ordem internacional liderada pelo Poder Britânico. E é isto, em última instância, que define a fronteira entre uma política externa conservadora, e uma política progressista. O ponto de partida é simples: um estado e um governo que se proponham expandir o seu poder internacional, inevitavelmente terão que questionar e lutar contra a distribuição prévia do poder, dentro do próprio sistema.
Como condição preliminar, eles terão que ter sua própria teoria e sua própria leitura dos fatos, dos conflitos, e das assimetrias e disputas globais, e de cada um dos “tabuleiros” geopolíticos regionais ao redor do mundo. Para poder estabelecer de forma sustentada e autônoma, os seus próprios objetivos estratégicos, diferentes das potências dominantes, e conseqüentes com sua intenção de mudar a distribuição do poder e da hierarquia mundial. Por isso, não é possível conceber uma política externa progressista e inovadora que não questione e enfrente os consensos éticos e estratégicos das potências que controlam o núcleo central do poder mundial.
Neste campo, não estão excluídas as convergências e as alianças táticas, e temporárias, com uma ou várias das antigas potências dominantes. Mas toda política externa progressista e inovadora, sabe que está e estará em permanente competição com estas potências, e que terá que assumir as suas divergências, com a visão de mundo, com os diagnósticos e com as estratégias defendidas por elas, seja no espaço regional, seja a escala global. Isto não é uma veleidade irrelevante, nem é o fruto de uma animosidade ideológica, é uma conseqüência de uma “lei” essencial do sistema inter-estatal, e de uma determinação que é em grande medida geográfica, porque o objetivo do “estado questionador”, é ampliar sempre e cada vez mais, a sua capacidade de decisão e iniciativa estratégica autônoma, no campo político, econômico e militar, para poder difundir melhor e aumentar a eficácia de suas idéias e propostas de mudança do sistema mundial.
Do lado oposto, fica mais fácil de definir e identificar as características essenciais de uma política externa conservadora. Em primeiro lugar, os conservadores não se propõem mudar a distribuição do poder internacional, nem questionam a hierarquia do sistema mundial. Sua reação frente aos desafios colocados pela agenda internacional, é quase sempre empírica, isolada, e moralista. Os conservadores não têm uma teoria nem uma visão histórica própria do sistema internacional e dos seus acontecimentos conjunturais, e são partidários, em geral, de uma política externa de baixo teor, sem grandes iniciativas estratégicas nacionais, e com uma alta taxa de submissão aos valores, juízos, e decisões estratégicas das potencias dominantes. Por isto, consciente ou inconscientemente, os conservadores delegam a terceiros, uma parte da soberania decisória de sua política externa, e acabam assumindo, invariavelmente, uma posição subalterna dentro da política internacional.
Como foi o caso, na década de 1990, da política externa do Brasil, e dos demais países da América do Sul. Uma década que passou para a história, sob o signo neoliberal da “diplomacia descalça”, do governo brasileiro da época, e da proposta argentina de estabelecer “relações carnais”, com os Estados Unidos.
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Fonte:Agência Carta Maior.
Por José Luís Fiori - Carta Maior
Mas, afinal de contas, professor, o que é ser conservador em matéria de política externa? E o que viria a ser uma política externa não conservadora?”
J.S.: Leitor do Valor Econômico
As grandes utopias do século XIX revolucionaram as idéias e os objetivos da política internacional, logo no início do século XX. Mas, nas décadas seguintes, seu impacto sobre a política externa das grandes potências, foi bem menor do que as expectativas criadas, num primeiro momento, pelas propostas do presidente americano, Woodrow Wilson, na Conferência de Paz de Paris, depois da 1º Guerra Mundial: cosmopolitas, anti-colonialistas e favoráveis a um sistema mundial de segurança, liderado pela Liga das Nações. E pelas idéias e propostas, quase simultâneas, de Vladimir Lênin, já na condição de chefe do estado russo: internacionalistas, anti-imperialistas e favoráveis à paz e à auto-determinação dos povos.
Um programa convergente, em muitos pontos, e absolutamente inovador, que se transformou na bandeira de luta das duas grandes potências, contra o velho sistema europeu de equilíbrio de poder, e contra o liberalismo colonialista, liderado pela Inglaterra e pela França. Mas depois da morte de Wilson e de Lênin, já nos governos de Warren Harding e Joseph Stalin, os Estados Unidos e a União Soviética adotaram políticas externas orientadas por seus interesses nacionais e pelos seus objetivos internos imediatos, na contramão do discurso de seus antigos governantes.
E depois da 2º Guerra Mundial, e da constituição do “duopólio” que geriu o status quo internacional durante a Guerra Fria, entre 1946 e 1991, as idéias libertárias e internacionalistas do início do século, se transformaram num instrumento ideológico esclerosado, na competição entre as duas grandes potências. Mas apesar disto, estas idéias se difundiram pelo mundo junto com a expansão progressiva do poder americano e soviético, e acabaram se transformando no senso comum pouco inovador, do discurso oficial de todas as lideranças políticas mundiais, e de todos os organismos multilaterais criados depois da guerra.
Por fim, depois da vitória americana, e do fim da Guerra Fria e da União Soviética, em 1991, a velha utopia liberal-democrática se transformou na linguagem imperial do poder vitorioso, válida urbe et orbi. Como se tivesse se estabelecido – por um passe de mágica - uma coincidência absoluta entre os interesses dos Estados Unidos e os interesses do resto da humanidade, e entre as posições dos países que desejam manter, e dos que desejam mudar o atual status quo mundial.
Esta história do século XX, também diz respeito à América Latina, e deixa uma lição importante, para o debate atual, sobre o futuro da política externa brasileira. Os Estados Unidos e a União Soviética sempre tiveram sua própria teoria e sua própria história das relações internacionais, e foram inovadores enquanto lutaram contra a ordem internacional liderada pelo Poder Britânico. E é isto, em última instância, que define a fronteira entre uma política externa conservadora, e uma política progressista. O ponto de partida é simples: um estado e um governo que se proponham expandir o seu poder internacional, inevitavelmente terão que questionar e lutar contra a distribuição prévia do poder, dentro do próprio sistema.
Como condição preliminar, eles terão que ter sua própria teoria e sua própria leitura dos fatos, dos conflitos, e das assimetrias e disputas globais, e de cada um dos “tabuleiros” geopolíticos regionais ao redor do mundo. Para poder estabelecer de forma sustentada e autônoma, os seus próprios objetivos estratégicos, diferentes das potências dominantes, e conseqüentes com sua intenção de mudar a distribuição do poder e da hierarquia mundial. Por isso, não é possível conceber uma política externa progressista e inovadora que não questione e enfrente os consensos éticos e estratégicos das potências que controlam o núcleo central do poder mundial.
Neste campo, não estão excluídas as convergências e as alianças táticas, e temporárias, com uma ou várias das antigas potências dominantes. Mas toda política externa progressista e inovadora, sabe que está e estará em permanente competição com estas potências, e que terá que assumir as suas divergências, com a visão de mundo, com os diagnósticos e com as estratégias defendidas por elas, seja no espaço regional, seja a escala global. Isto não é uma veleidade irrelevante, nem é o fruto de uma animosidade ideológica, é uma conseqüência de uma “lei” essencial do sistema inter-estatal, e de uma determinação que é em grande medida geográfica, porque o objetivo do “estado questionador”, é ampliar sempre e cada vez mais, a sua capacidade de decisão e iniciativa estratégica autônoma, no campo político, econômico e militar, para poder difundir melhor e aumentar a eficácia de suas idéias e propostas de mudança do sistema mundial.
Do lado oposto, fica mais fácil de definir e identificar as características essenciais de uma política externa conservadora. Em primeiro lugar, os conservadores não se propõem mudar a distribuição do poder internacional, nem questionam a hierarquia do sistema mundial. Sua reação frente aos desafios colocados pela agenda internacional, é quase sempre empírica, isolada, e moralista. Os conservadores não têm uma teoria nem uma visão histórica própria do sistema internacional e dos seus acontecimentos conjunturais, e são partidários, em geral, de uma política externa de baixo teor, sem grandes iniciativas estratégicas nacionais, e com uma alta taxa de submissão aos valores, juízos, e decisões estratégicas das potencias dominantes. Por isto, consciente ou inconscientemente, os conservadores delegam a terceiros, uma parte da soberania decisória de sua política externa, e acabam assumindo, invariavelmente, uma posição subalterna dentro da política internacional.
Como foi o caso, na década de 1990, da política externa do Brasil, e dos demais países da América do Sul. Uma década que passou para a história, sob o signo neoliberal da “diplomacia descalça”, do governo brasileiro da época, e da proposta argentina de estabelecer “relações carnais”, com os Estados Unidos.
José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Fonte:Agência Carta Maior.
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