sexta-feira, 30 de abril de 2021

"E cairá de podre, como podre é".

 

O filho do porteiro e o serviçal da elite. Por Fernando Brito

 
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Paulo Guedes. Imagem: ABR

Publicado originalmente no Tijolaço:

Por Fernando Brito

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Mais um “vazamento” do pensamento sincero do sr. Paulo Guedes mostra nas mãos de que tipo de gente estamos.

Mais um trecho de seu ‘momento botequim” do ministro na reunião quer teve com representantes dos planos de saúde. desta vez dizendo que “o filho do porteiro” teve direito ao Fies – fundo de financiamento ao ensino universitário – mesmo ‘tirando zero no vestibular”, que foi transmitida sem o seu conhecimento e da qual ele se defende como sendo “um momento infeliz”.

Não foi. Guedes é isso, um escravocrata, um remanescente do Brasil censitário, onde o direito das pessoas vem do berço ou da esperteza.

Do Brasil das castas, aquele que desprezam os trabalhadores e que creem que seus filhos são inferiores e que só podem progredir por truques e falcatruas.

Talvez creiam nisso por identificá-lo em suas próprias trajetórias.

Não ocorreu a Guedes atacar o ensino universitário privado por baixa qualidade, por sua ênfase – já na fase pré pandêmica – à virtualização do ensino, pela falta de espaço à discussão acadêmica e a produção de conhecimento, e por sua absoluta adequação à reprodução dos sistemas empresariais de treinamento de mão de obra, traduzidos na expressão “empregabilidade” com que “qualificavam” a formação superior , ainda que este “superior” contenha um imenso grau de ironia.

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É preferível falar que isso acontecia apenas porque era para “o filho do porteiro”, aquele guri pobre que, enquanto é pequeno ainda recebe alguns doces, mas quando crece vira suspeito em potencial de tudo o que de mal ocorre no prédio.

O filho do porteiro segue sendo persona non grata no Brasil dos Guedes: é o que não se quer ver nos shoppings, no aeroporto, nas praias, na Universidade.

O Fies, em 2014, financiou a educação de 732 mil jovens. Em 2020, foram apenas 100 mil. Entre os 632 mil excluídos, quantos foram os filhos de porteiro?

E de tantas outras profissões do povão e de tantas famílias de classe média que não tinham como arcar com os preços do ensino superior.

A universidade pública também é maldita por ele que, devendo sua formação a uma delas , reproduz o discurso de Abraham Weintraub – hoje pendurado num cargo público milionário – de que ela é um antro de sexo e drogas: ” “Paulo Freire. Ensinando sexo para criança de 5 anos. Todo mundo… maconha, bebida, droga. Dentro da universidade.”

Paulo Guedes é um decrépito que torna decrépito um país. Habita, com toda os seus diplomas de Chicago, povoar a calçada de botequim que virou o governo brasileiro.

E cairá, de podre, como podre é.

Ditadura Nunca Mais!

 

Riocentro, 40 anos: Figueiredo quis apurar o caso, mas optou pelos companheiros de caserna, diz pesquisador

 
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Publicado na Rede Brasil Atual

Riocentro. Bomba matou sargento que era agente do DOI-Codi – Agência O Globo / Anibal Philot/30-4-1981

O então presidente João Figueiredo quis investigar o caso Riocentro, mas “optou por ficar com os companheiros de caserna”, diz o pesquisador Bernardo Pasqualette, autor de recente biografia sobre o último general no poder durante a ditadura. Ele participou ontem (27) à noite de debate que lembrou os 40 anos do atentado ocorrido na área externa do centro de exposições em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. Durante um show musical por ocasião do 1º de Maio, uma bomba explodiu antes do tempo em um Puma no estacionamento, matando um militar (sargento Guilherme Pereira do Rosário) e ferindo gravemente outro (capitão Wilson Machado). A intenção da chamada linha dura seria culpar grupos de esquerda e, com isso, sabotar o processo de “abertura” política em curso.

Até hoje, ninguém foi responsabilizado pelo episódio. Investigações de jornalistas e procuradores ao longo dos anos apontaram para uma ação de extremistas de dentro do governo. Outra bomba explodiu perto da casa de força e haveria mais uma atrás do palco onde os artistas se apresentavam, na noite de 30 de abril de 1981, diante de 20 mil pessoas. Um inquérito policial-militar (IPM) deu em nada. O atentado continua sendo o segredo mais guardado da ditadura.

Silêncio até hoje

Em 2014, nos 50 anos do golpe, o caso voltou à tona, incluindo depoimentos de envolvidos à Comissão Nacional da Verdade (CNV). Ou supostos depoimentos, porque eles mantiveram o silêncio mesmo convocados. Reportagem à época do jornalista José Casado, de O Globo, cravou que tanto Figueiredo como o general Danilo Venturini, chefe do Gabinete Militar, foram informados com um mês de antecedência sobre os preparativos de um atentado que ocorreria no Riocentro.

“Acho que a gente nunca vai poder ter certeza se ele (Figueiredo) sabia ou não, e as versões sobreviveram ao fato. E eu acho, sinceramente, que não é o cerne da questão”, afirma o pesquisador, que foi entrevistado por um grupo de estudiosos, em live promovida pelo site História da Ditadura. “O que eu acho mais importante são as consequências da atuação dele.”

Crise de consciência

No caso, talvez, da falta de atuação. O presidente, que chegou a empregar a expressão “prendo e arrebento” para se referir ao enfrentamento contra quem se opusesse à abertura, não fez uma coisa nem outra no episódio do Riocentro. “Por um lado, queria apurar. Mas, por outro, ele deve ter tido uma crise de consciência muito grande”, diz Pasqualette. “Optou por ficar com os companheiros de caserna, escolheu o lado que queria ficar. No momento crucial, ficou com o Exército.”

Uma das consequências foi a saída do governo, meses depois, do general Golberi do Couto e Silva, chefe do Gabinete Civil, estrategista do regime, por discordar da falta de investigação efetiva. Por outro lado, oficiais blindaram os dois diretamente envolvidos no atentado no Riocentro. Militares de alta patente compareceram ao enterro do sargento, em cujo colo a bomba explodiu, e garantiram o silêncio, provavelmente eterno, de Wilson Machado. Em esparsas declarações, ele negou ter carregado explosivos.

Rastro de impunidade

O caso ocorreu depois de episódios que buscavam conturbar o processo político, como explosões em bancas de jornal e o que ocorreu em agosto de 1980 na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio de Janeiro, onde uma bomba matou a secretária Lyda Monteiro da Silva. Depois do Riocentro, os atentados cessaram. Mas a falta de apuração “deixa um rastro de impunidade, de anarquia, de indisciplina”, constata o pesquisador. “São 40 anos e a gente não sabe quem são os culpados. Continua essa interrogação na história do Brasil.”

Em 2014, o Ministério Público Federal no Rio (MPF-RJ) denunciou seis pessoas por envolvimento no atentado. Foi o resultado de dois anos de investigação, com análise de 38 volumes de documentos e 42 depoimentos, entre testemunhas e investigados. Além dos seis denunciados, havia outros nove envolvidos, que já tinham morrido. A denúncia incluiu, além de Wilson Machado, o ex-delegado Claudio Antonio Guerra, os generais reformados Nilton Cerqueira, Newton Cruz e Edson Sá Rocha e o major reformado Divany Carvalho Barros.

Envolvidos: nada a declarar

A ação do MPF chegou à terceira instância. Na primeira, a Justiça aceitou a denúncia, mas o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) “trancou” o processo. O Ministério Público recorreu, então, ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em setembro de 2019, por 5 a 2, a Terceira Seção do STJ negou provimento ao recurso. O o ministro relator, Rogerio Schietti Cruz, aceitou a argumentação de que o atentado configurou crime contra a humanidade. Seria, assim, imprescritível. Isso permitiria a retomada da ação penal contra os denunciados. Mas foi voto vencido.

Em julho de 2014, aos 66 anos, o já coronel reformado Wilson Luiz Chaves Machado compareceu diante da Comissão da Verdade para prestar depoimento. Mas se manteve em silêncio. O mesmo aconteceu com Nilton Cerqueira. Integrantes do colegiado fizeram perguntas, mas o militar, que já havia vetado a presença de jornalistas, disse que nada tinha a declarar.

Esse grosso do Paulo Guedes, podia passar sem essa.

 

Carta aberta a Paulo Guedes (da filha do porteiro)

 
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Paulo Guedes
Foto: Alan Santos/PR

Posto Ipiranga,

Costumo me arrepender sempre que clico em manchetes com seu nome. Já tive que ler que funcionários públicos são parasitas, que “todo mundo agora quer viver até 100 anos”, que “as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer” (alô, agronegócio, já almoçou?) – a única certeza do brasileiro, neste momento, é que o senhor e o seu presidente jamais perderão a oportunidade de ficarem calados.

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Aliás, de todos os absurdos que o senhor – surpreendentemente ou não, um dos nomes mais importantes do desgoverno Bolsonaro  – já bostejou, o mais recente é também o que mais fala sobre o Brasil, o que melhor desenha o ódio de classes que deu base ao bolsonarismo com o qual o senhor contribui e do qual se beneficia. “FIES bancou universidade até pro filho do porteiro que zerou o vestibular”.

Uma primeira consideração a ser feita neste ponto é que o FIES não “banca” universidade pra ninguém. É um sistema de financiamento. Com juros e parcelas a perder de vista. Após a formatura, o estudante leva um diploma e uma dívida imensa com o Estado.

Em um país decente, com educação pública de qualidade e políticas públicas sérias para a juventude, o FIES seria obsoleto, senhor Ministro.

Já no Brasil das desigualdades, é, pra muita gente, o único caminho para a universidade. No Brasil da educação básica defasada e do ensino médio boicotado – em que o filho do porteiro tem que se esforçar dez vezes mais do que o filho do ministro pra entrar na universidade pública – é necessário que estudantes se endividem se quiserem um diploma (que de forma alguma, como o senhor deve saber, garante um emprego ou uma sobrevivência digna no Brasil de Bolsonaro).

Eu era a filha do porteiro. Do moto-taxista (no nordeste não tem motoboy, tem moto-taxista), para ser mais específica. Lá em 2011, quando passei no vestibular com bolsa 50% pelo ProUni, eu trabalhava pra pagar a metade do meu cursinho pré-vestibular. A outra metade o meu pai pagava, com o dinheiro que ganhava nas corridas – de dois em dois reais.

Quando fui aprovada, não tínhamos dinheiro pra pagar a outra metade da mensalidade, que não era coberta pela bolsa. Se não existisse o FIES, senhor Ministro, eu não estaria no doutorado aos 26 anos.

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Na época, fizemos o financiamento para o primeiro semestre, e eu estudei ainda mais pra conseguir uma bolsa integral pelo ProUni no semestre seguinte. Graças a ele, a partir do segundo período eu já não precisava me endividar pra estudar. Tive meu curso completamente patrocinado pelo governo responsável por colocar os filhos do porteiro na universidade, um governo que investe em seus jovens. Depois disso, pude enfim ter condições de entrar em uma universidade pública para o mestrado.

É isso que te preocupa – não só a você, mas a toda a classe média que odeia pobre: nós, os pobres, estamos na universidade, muitas vezes fazendo pesquisas contra seu governo. O problema de vocês com o PT nunca foi a corrupção. A gente sabe: sempre foi ódio de classes.

Nós já sabíamos quando vocês comiam picanha em frente à FIESP. Quando lançou o premiado “Que Horas Ela Volta?”, Ana Muylaert também sabia. E adivinha? Não foi Jéssica que zerou o vestibular. Foi Fabinho, o filho dos ricaços. Poderia facilmente ser filho do ministro: esses meninos brancos que tiveram tudo e nunca precisaram desenvolver as próprias habilidades – e, em razão disso, ficaram burros. Acontece.

Também não me surpreende, do mesmo modo, que o senhor não conheça o cinema nacional, ou que ele nada lhe diga, e é por isso que o senhor não vai pegar a referência, mas eu lanço mesmo assim: problema dos Fabinhos, a gente sempre soube, são as Jéssicas – que entram na universidade apesar dos pesares, sem estrutura pra estudar, enfrentando a pobreza todo dia, e depois pegam o mesmo avião que eles para a Disney (na verdade, os que estudam bastante escolhem  destinos menos fúteis, mas ainda cruzam com os ricos no aeroporto).

Essa realidade, aliás, parece parte de um passado distante – bons tempos em que tínhamos um presidente. Hoje, graças ao senhor e seu amo, ninguém mais vai à Disney. Ou a lugar nenhum: nenhum país abre fronteiras pra brasileiro sob o desgoverno Bolsonaro.

Parabéns aos envolvidos.

O senhor não se contentou em escrever seu nome na história como inimigo do Brasil e um dos mentores do período mais nefasto do século: faz questão de se consagrar também como aquele que compete com o presidente e seus filhos pelo Oscar na categoria “falar bosta”.

Fique à vontade para compor seu mural de absurdos, mas, na próxima vez que o senhor pensar em dizer que o filho do pobre zera o vestibular, veja o filme de Ana Muylaert ou simplesmente consulte o currículo lattes dos seus companheiros de governo, com informações falsas, plágios e pesquisas irrelevantes.

Por ora, não podemos fazer muita coisa contra o governo genocida que o senhor integra. Mas ainda podemos dizer – ou escrever – em alto e bom som: burrice não é coisa de pobre. É a especialidade principal do bolsonarismo.

Revoltosamente,

Nathalí.

Bom dia 247: 400 mil mortos e sem vacina (30.4.21)

"O mais importante é o que nós não publicamos".

 

Rede Globo volta a censurar, enquanto a mídia prepara novos Moros e Bolsonaros

Por Mario Vitor Santos

Desde o final da sessão plenária de quinta-feira passada, que confirmou a suspeição do juiz Sérgio Moro, o país assiste a um fenômeno jornalístico da maior importância: a volta das edições censuradas do Jornal Nacional, bem ao feitio do que a mesma Globo já fizera na edição manipulada do debate entre Collor e Lula na véspera das eleições presidenciais de 1989, beneficiando Collor, e em 1984 no noticiário sobre o comício da Praça da Sé pelas Diretas Já, noticiado como “festa de aniversário de São Paulo”.

Enquanto ministros reunidos no plenário virtual do Supremo Tribunal Federal (STF) se apressavam para emitir os votos que deram a maioria suficiente para definir a parcialidade de Moro ainda naquele dia, e ao votar assim rápida e sumariamente contornar as manobras ociosas e protelatórias do contrariado presidente do STF Luis Fux que desejava interromper a sessão, os ânimos se acirraram.

O Jornal Nacional simplesmente omitiu o bate-boca entre o ministro Luís Roberto Barroso, àquela altura frustrado pela derrota de seu amigo Moro e da Lava-Jato, e o juiz garantista Gilmar Mendes, sobre se o pleno do Supremo era ou não instância de recurso da turma, que semanas antes já havia decretado a suspeição do juiz de Curitiba.

Como não poderia deixar de ser, a discussão, encerrada pela expressão “Vossa excelência perdeu”, dita por Mendes a Barroso, repercutiu em vastas áreas dos meios de comunicação. Menos na Globo, onde ela simplesmente não existiu.

Na verdade, a censura em curso no Jornal Nacional é ainda mais ampla: ela põe em evidência uma conduta mais geral do grupo a que a emissora pertence frente à Vaza-Jato, como são chamadas as impressionantes mensagens acessadas e vazadas pelo hacker Walter Delgatti Neto.

Aquele imenso vazamento de conversas entre membros da força-tarefa da Lava-Jato mostra uma trama inédita de manipulação, com objetivos políticos e eleitorais. É uma exposição das entranhas dos tramoias policiais e judiciais na operação Lava-Jato, que não tinha limites em sua atuação: valia qualquer abuso contra os direitos constitucionais garantidos aos acusados, especialmente em relação a Lula, o alvo máximo da trama.

Desde 2019, quando foi trazida a público pelo jornalista Glenn Greenwald, em seu site de então, o The Intercept, a Vaza-Jato vem sendo ignorada pela Globo.

Isto quer dizer que dezenas de reportagens trazidas a público pelo The Intercept e outros veículos, como a Folha, o UOL e a Veja, simplesmente não existiram para a Globo, sendo que foram elas que tiveram imenso peso e definiram a reviravolta favorável a Lula e contrária a Moro hnas instâncias do Supremo.

Numa fase mais recente, a defesa de Lula obteve do ministro Ricardo Lewandowski autorização para acessar o arquivo completo das mensagens hackeadas, gerando volumosas iniciativas legais noticiadas pela mídia, mas não pelo Jornal Nacional.

Em 1984, até pelo envolvimento dos jornalistas, a Globo acabou cedendo e suspendendo a censura. Agora, não. E o resultado, quando a Globo notícia sobre a Vaza-Jato hoje, é a repetição da realidade alternativa de Barroso e Moro, de que as mensagens do “Russo” (Moro) não significam nada, foram roubadas etc.

Ou seja, a Globo segue, como uma caricatura do teatro do absurdo, tapando o sol com a peneira, negando a realidade a seu público. Trata-se de uma esdrúxula disjunção cognitiva, submissa a uma lógica míope: a emissora age talvez supondo que suprimindo noticiário negativo à Lava-Jato evitaria que esta operação se enfraquecesse. Passa então à censura sistemática, o que é uma vergonha jornalística digna de uma peruca. 

A razão de fundo é simples: o lavajatismo e mesmo o bolsonarismo estão vivos e no comando das redações dos veículos de direita. Passaram então à censura, mesmo sabendo que ao omitir o noticiário da Vaza-Jato fica difícil entender a queda em desgraça de Moro, Dallagnol e da própria Lava-Jato. Fica impossível mais ainda interpretar o que conduz os processos transcendentes em curso no STF na cobertura esquizofrênica da Globo.

O que se oculta não é banal, pois faz toda a diferença entre um jornalismo completo e um outro cindido, falho, esquizofrênico, que deixa de comunicar importante metamorfose em curso nas instituições: o que está ocorrendo na suprema corte brasileira é a tentativa de prender o monstro do fascismo de volta na caixa.

Com o impulso decisivo da Vaza-Jato, ministros do Supremo, sob a liderança de Mendes e Lewandowski, vêm conduzindo uma tentativa reconstitucionalização do Judiciário em meio a intensa luta jurídico-política. 

Assiste-se na verdade a uma espécie de mini-Constituinte, ou uma re-Constituinte, que vai se desenrolando a cada sessão dp Supremo, cumulativamente, no sentido de reafirmar os direitos e garantias individuais que foram sabotados pelo punitivismo que vigiu no período da Lava-Jato em associação com a mídia reacionária. Não é pouco o que está em jogo.

Do lado de lá, a Globo não está sozinha, ao menos em um importante sentido: ninguém na mídia de direita noticia a maneira como o Jornal Nacional censura a Vaza-Jato. Há uma tácita ordem unida na forma do silêncio solidário ao veículo irmão.

Em movimento paralelo à censura da Globo, e na sequência da primeira decisão anulando a competência de Moro, editorial do Estadão, o jornal da “escolha muito difícil” entre Haddad e Bolsonaro, voltou suas baterias contra quem? Lula e Lewandowski.

Mesmo a Folha, que às vezes abre dissensão na mídia de direita, omite-se agora em relação à censura global. Ao contrário, diante de críticas do colunista de TV do UOL Maurício Stycer ao destempero verbal do apresentador Pedro Bial sobre Lula (o caso do polígrafo), a Folha voluntariamente tomou a iniciativa de pedir a Bial um artigo de resposta. Ofereceu seu espaço ao global para a resposta à opinião de um colunista de um outro veículo sobre Lula, veiculada em outro local. 

O destempero de Barroso na sessão do STF expressa um descontrole mais geral que também assola jornalistas e veículos. Diogo Mainardi acaba de mandar o advogado Kakay “tomar no c...” no programa Manhattan Connection, em plena TV Cultura de São Paulo. Um artigo do diretor de redação da Folha atacou nas páginas do jornal o decano dos colunistas políticos e símbolo do jornal Jânio de Freitas, crítico da Lava-Jato. Augusto Nunes agrediu fisicamente o jornalista Glenn Greenwald durante programa da rádio Jovem Pan. São marcas de uma histeria com o fracasso de suas carreiras provocado pelo envolvimento com a Lava-Jato e a constatação de que nada vai apagar, o que dá um sentido mais amplo ao “Vossa Excelência perdeu”.

A mídia na Lava Jato abriu mão voluntariamente dos princípios técnicos básicos e tradicionais do bom jornalismo: independência editorial, busca da verdade, distanciamento, apartidarismo. A operação surgiu de suas ideias e métodos vigentes na imprensa reacionária, do lacerdismo da mídia, fermentado nas décadas, catalisado nos anos Lula em paralelo às distorções por que passou o Ministério Público após os anos 90. Se disputaram entre si, os jornalistas brasileiros bateram-se pelo privilégio de melhor servir ao funcionamento da rede de mentiras. Moro acha que é pai da atração da mídia para dentro da Lava Jato. Foi o contrário. Juiz e promotores foram os capturados.

Os verdadeiros fatos que se desenrolavam no porão da Lava Jato vieram à tona à revelia da mídia de direita, a princípio pelo mesmo grande repórter Greenwald, que estava então ainda no site jornalístico Intercept. Interessado em ampliar a repercussão, o Intercept ofereceu o material ao UOL e outros veículos. Estes não aprofundaram a investigação, que reemergiu depois por obra dos advogados de Lula, reforçando a atuação de Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, principalmente. 

Tudo isso a partir e por um outro detalhe absolutamente surpreendente desse caso universalmente único: o verdadeiro milagre de um hacker ter vazado um conjunto imenso de mensagens, guardadas no celular de Dellagnol, entre os procuradores conspiradores da Lava Jato e o juiz Moro.

Veículos de comunicação e profissionais sérios deveriam parar para um momento de reflexão sobre os caminhos que percorreram e suas repercussões históricas. 

Não se vê sinal disso. Está na hora de chamar a atenção para um problema jornalístico de fundo que tem a ver com a maneira como a decisão sobre a decretação da histórica suspeição de Moro foi e ainda está sendo generalizadamente minimizada pelos meios de comunicação. 

Um exército de veículos, que reúnem milhares dos mais bem pagos e alguns dos mais bem formados profissionais do país, assistiu sem questionar às ilegalidades perpetradas pela Lava Jato contra Lula. 

Agora, quando a Lava-Jato naufragou, repórteres valiosos para o funcionamento da operação são demitidos. Um dia depois da decisão sobre suspeição de Moro, Ricardo Brandt, membro fiel da equipe de Fausto Macedo no Estadão, foi demitido sem mais. Não é caso isolado.

O jornalismo brasileiro, por interesse político antipetista, e por vocação estrutural, dobrou-se sem questionar, ao peso da autoridade estatal. Justo o jornalismo de direita brasileiro que sempre fez profissão de fé antiestatismo.

A mídia corporativa fez a fama dos heróis da operação, chancelou sua rotina de espetáculos, apoiou seus amigos, atacou seus inimigos. Rendeu-se aos vazamentos, acertou estratégias com as fontes anônimas dentro da Lava Jato sem questionar. Veículos de elite ou populares, “quality papers” , uniram-se a programas policiais de tv e radio, todos irmanados numa mesma corrente de sensacionalismo lacerdista.

Não houve competição. Derrubaram-se as paredes que separam os órgãos de jornalismo. Acabou a disputa entre veículos não apenas em busca dos fatos mas também pelo sentido da narrativa. Ao contrário, foi constituído um pool. Em Curitiba, havia leilões de vazamentos.

Convergindo para o pool jornalístico, mobilizaram-se recursos infinitos na forma de tempo de TV, equipes, edições especiais, espaço de mídia, tudo concentrado num mesmo objetivo de dar publicidade e credibilidade à operação, em arranjo harmônico ao longo de toda a cadeia informativa, sem disputa de vozes e versões, num aparato em uníssono sem paralelo na história brasileira.

Na caçada conjunta a Lula, a mídia fundiu-se ao Estado. Foi esmagado quem estava no caminho, com ou sem justificativa. Dezenas de vidas e reputações foram arruinadas, inocentes foram carregados na enxurrada junto com criminosos e suspeitos.

A despeito disso tudo, a Vaza-Jato e o STF recolocaram em definitivo o ex-presidente Lula na corrida eleitoral de 2022, em posição de disputar um lugar no segundo turno a partir de uma posição moral privilegiada, com ficha até agora duplamente limpa.

Por tudo isso, o país não observa um processo qualquer sobre pessoas comuns em momento histórico banal. Jamais antes desenrolaram-se tão prolongadas catástrofes e hecatombes de aparentes mocinhos e bandidos seguidas de metamorfoses e renascimento em inversões dramáticas, épicas.

Houve revelações agudas dos vícios das instituições do Estado, mas também se levantaram acusações graves às entranhas do funcionamento da mídia. Muito ainda está para ser exposto. Antes disso, está na hora de a mídia de direita, mesmo estando infiltrada por facções radicais reacionárias em postos-chaves, vir a público se explicar e fazer seu mea-culpa.

Nunca foi tão válida a expressão atribuída ao próprio Roberto Marinho: “O mais importante é o que nós não publicamos”.