Ombudsman da Folha não lê a Folha – ou mente.
Prefiro acreditar que a ombudsman da Folha, Suzana Singer, não lê a Folha a imaginar que ela agiu de má fé ao omitir na coluna deste domingo que quem está dando o “file mignon” do WikiLeaks no Brasil é o site Opera Mundi, a partir da jornalista Natália Viana e não o seu jornal, pelas mãos do repórter especial Fernando Rodrigues.
Aliás, Rodrigues, de forma correta, em texto de 1 de dezembro, escreveu o que segue, dando crédito a quem merecia:
“Ontem, a jornalista Natalia Viana, responsável pela divulgação do WikiLeaks em português, escreveu: “Nas próximas semanas, [os documentos] vão mostrar ao público brasileiro histórias pouco conhecidas de negociações do governo por debaixo do pano, informantes que costumam visitar a embaixada norte-americana, propostas de acordo contra vizinhos, o trabalho de lobby na venda dos caças para a Força Aérea Brasileira e de empresas de segurança e petróleo.”
Já a ombudsman, para justificar que a velha mídia é mais importante que nova mídia publicou neste domingo o trecho abaixo. Se não vier a corrigir o seu erro, ficará claro que está tentando reescrever a história a partir dos interesses de quem lhe paga o salário. O que, convenhamos, é algo muito feio.
A Folha foi muito bem na cobertura do vazamento dos documentos diplomáticos. O “filé mignon” das mensagens, com as notícias mais importantes, ficou com as publicações dos EUA e da Europa, num exemplo de miopia do fundador do WikiLeaks -espera-se de alguém que é da internet que pense além do eixo Nova York-Londres.
Mas o jornalista Fernando Rodrigues obteve, com exclusividade, os telegramas referentes ao Brasil. Os textos estão traduzidos na Folha.com (http://bit.ly/hguIiA).
E vem mais por aí. Assange disse ao canal “ABC News” que ainda há documentos que “vão incomodar lideranças mentirosas, corruptas e assassinas do Bahrein ao Brasil”. Terão sido exemplos aleatórios?
Fonte: Blog do Rovai.
Carlos Augusto de Araujo Dória, 82 anos, economista, nacionalista, socialista, lulista, budista, gaitista, blogueiro, espírita, membro da Igreja Messiânica, tricolor, anistiado político, ex-empregado da Petrobras. Um defensor da justiça social, da preservação do meio ambiente, da Petrobras e das causas nacionalistas.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
POLÍTICA - Aécio anuncia outro PSDB em 2014.
Em entrevista gravada para o programa Roda Viva, na tarde desta segunda-feira, o ex-governador mineiro e senador eleito Aécio Neves falou com entusiasmo de uma nova cara do PSDB para 2014, que em nada lembra o partido derrotado pela terceira vez consecutiva nas eleições presidenciais deste ano.
Este partido tem a cara dele, é claro, mas Aécio tomou todo o cuidado do mundo para não personificar a tese da ”refundação” do PSDB e não antecipar as discussões sobre o nome dos tucanos para 2014, antes mesmo que a presidente eleita Dilma Rousseff, tome posse.
Depois de três semanas de férias, o ex-governador voltou bronzeado, animado e afiado no discurso para assumir o papel de principal líder da oposição assim que o Congresso Nacional reabrir suas portas no começo de fevereiro.
Diálogo com todas as forças políticas, reformas constitucionais, meritocracia no funcionalismo público, aproximação com os sindicatos, ética na política, resgate das bandeiras da social-democracia, defesa das privatizações feitas no governo FHC: Aécio voltou com o cardápio completo de futuro candidato que, por enquanto, só quer discutir o programa do partido.
Para não perder tempo, acompanhado apenas da fiel assessora de imprensa Heloísa Neves, Aécio almoçou antes do programa com o governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, e saiu dos estúdios da TV Cultura direto para uma conversa com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o primeiro político a lhe telefonar quando saiu de férias após a campanha eleitoral.
O diálogo com a oposição começa nesta terça-feira, em Brasília, num jantar já marcado com o governador reeleito de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente nacional do PSB, um dos seus intelocutores preferidos.
Os dois vivem se elogiando mutuamente e seus nomes estão em todas as listas de presidenciáveis para 2014, apontados como as novas grandes lideranças políticas do pós-Lula. No Brasil, como sabemos, mal acaba uma campanha eleitoral, e já começa a discussão de nomes para a próxima.
Num momento em que “tem muita gente tirando senha na fila para dinamitar pontes”, como disse na entrevista, Aécio quer desde já ser ele mesmo a ponte com partidos que estiveram “do outro lado” na eleição nacional, mas o apoiaram em Minas, como é o caso do PSB e do PDT.
É o ponto de partida para romper o crescente isolamento dos tucanos que esvaziou seus palanques em 2010, na maior parte do país. “Sou um tucano, como vocês sabem…”, brincou Aécio, que evitou as bolas divididas.
O senador eleito, porém, admitiu erros na última campanha presidencial, como incorporar o discurso conservador e temas religiosos no segundo turno. “Isto foi um retrocesso, não só para o partido como para o país. Não deve se repetir”.
De bem com a vida, Aécio constatou que “está faltando arte na política”, citando várias vezes seu avô Tancredo Neves para contornar perguntas sobre o fato de ser “a bola da vez” na oposição, depois de se ver passado para trás na fila tucana em 2006 e 2010. “Um ensinamento de Tancredo foi nos mostrar que, em política, as oportunidades têm que surgir naturalmente, não podem ser uma obsessão, um desejo pessoal”.
O entrevistado riu quando comentei que, às vezes, isto acontece… Aécio garantiu que não quer disputar nenhum cargo no partido, e só pensa no momento em exercer seu mandato de senador. Como bom mineiro, sabe que precisa agir com cuidado porque José Serra ainda não desistiu nem de controlar o PSDB nem de uma nova candidatura presidencial.
Vale a pena assistir à entrevista, que irá ao ar hoje pela TV Cultura, a partir das 22 horas. Velhos amigos, Aécio e Marília Gabriela, a apresentadora do programa, deram uma lição de como é possível falar de política com leveza e bom humor, sem confundir cara feia com seriedade.
Fonte: Balaio do Kotscho.
Este partido tem a cara dele, é claro, mas Aécio tomou todo o cuidado do mundo para não personificar a tese da ”refundação” do PSDB e não antecipar as discussões sobre o nome dos tucanos para 2014, antes mesmo que a presidente eleita Dilma Rousseff, tome posse.
Depois de três semanas de férias, o ex-governador voltou bronzeado, animado e afiado no discurso para assumir o papel de principal líder da oposição assim que o Congresso Nacional reabrir suas portas no começo de fevereiro.
Diálogo com todas as forças políticas, reformas constitucionais, meritocracia no funcionalismo público, aproximação com os sindicatos, ética na política, resgate das bandeiras da social-democracia, defesa das privatizações feitas no governo FHC: Aécio voltou com o cardápio completo de futuro candidato que, por enquanto, só quer discutir o programa do partido.
Para não perder tempo, acompanhado apenas da fiel assessora de imprensa Heloísa Neves, Aécio almoçou antes do programa com o governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, e saiu dos estúdios da TV Cultura direto para uma conversa com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o primeiro político a lhe telefonar quando saiu de férias após a campanha eleitoral.
O diálogo com a oposição começa nesta terça-feira, em Brasília, num jantar já marcado com o governador reeleito de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente nacional do PSB, um dos seus intelocutores preferidos.
Os dois vivem se elogiando mutuamente e seus nomes estão em todas as listas de presidenciáveis para 2014, apontados como as novas grandes lideranças políticas do pós-Lula. No Brasil, como sabemos, mal acaba uma campanha eleitoral, e já começa a discussão de nomes para a próxima.
Num momento em que “tem muita gente tirando senha na fila para dinamitar pontes”, como disse na entrevista, Aécio quer desde já ser ele mesmo a ponte com partidos que estiveram “do outro lado” na eleição nacional, mas o apoiaram em Minas, como é o caso do PSB e do PDT.
É o ponto de partida para romper o crescente isolamento dos tucanos que esvaziou seus palanques em 2010, na maior parte do país. “Sou um tucano, como vocês sabem…”, brincou Aécio, que evitou as bolas divididas.
O senador eleito, porém, admitiu erros na última campanha presidencial, como incorporar o discurso conservador e temas religiosos no segundo turno. “Isto foi um retrocesso, não só para o partido como para o país. Não deve se repetir”.
De bem com a vida, Aécio constatou que “está faltando arte na política”, citando várias vezes seu avô Tancredo Neves para contornar perguntas sobre o fato de ser “a bola da vez” na oposição, depois de se ver passado para trás na fila tucana em 2006 e 2010. “Um ensinamento de Tancredo foi nos mostrar que, em política, as oportunidades têm que surgir naturalmente, não podem ser uma obsessão, um desejo pessoal”.
O entrevistado riu quando comentei que, às vezes, isto acontece… Aécio garantiu que não quer disputar nenhum cargo no partido, e só pensa no momento em exercer seu mandato de senador. Como bom mineiro, sabe que precisa agir com cuidado porque José Serra ainda não desistiu nem de controlar o PSDB nem de uma nova candidatura presidencial.
Vale a pena assistir à entrevista, que irá ao ar hoje pela TV Cultura, a partir das 22 horas. Velhos amigos, Aécio e Marília Gabriela, a apresentadora do programa, deram uma lição de como é possível falar de política com leveza e bom humor, sem confundir cara feia com seriedade.
Fonte: Balaio do Kotscho.
sábado, 4 de dezembro de 2010
MÍDIA - Quem odeia mais Julian Assange?
Quem odeia mais Julian Assange?
Wikileaks fornece um retrato mundial onde ninguém sai ileso e apresenta um planeta tão apodrecido que a podridão norteamericana até se dilui e resulta um pouco menos nojenta. Um retrato, aliás, que põe no alvo precisamente aqueles países contra os quais os EUA vêm apontando. Não sei se o melhor ainda está por vir, se os telegramas trarão novidades, se tudo passa pelo filtro dos jornais que recebem informação exclusiva, ou se têm razão as teorias conspiratórias que já circulam na internet. O certo é que, até agora, quem parece ter menos motivos para odiar Assange são os....Estados Unidos. O artigo é de Isaac Rosa.
Isaac Rosa
“No fim das contas, acreditamos que no longo prazo tudo isso não terá um impacto negativo sobre o poder ou o prestígio dos Estados Unidos”.Geoff Morrell, portavoz do Pentágono
Não gostaria de estar na pele de Julian Assange, fundador de Wikileaks, cuja cabeça foi posta a prêmio. Sabemos que a Interpol está atrás dele, que o governo dos Estados Unidos quer trancafiá-lo e a ultradireita do Tea Parthy executá-lo. Mas Assange não só vai ficar sem poder ir de férias aos EUA por uma boa temporada. Do jeito que vão as coisas, ele não poderá por o pé em quase nenhum país do mundo.
O chamado cablegate apresenta-se com um jogo de pulso entre os EUA e Assange, mas na verdade, se tomamos o que tem sido publicado, o governo norteamericano não parece o mais prejudicado. Sim, é verdade que os deixou envergonhados, obrigou-os a dar explicações a seus aliados e a recompor seus sistemas de comunicação e sua rede de informantes. Mas tirando isso, e a confirmação do que todos sabíamos – que os EUA espionam em defesa de seus interesses -, não fica muito atrás em comparação ao que se conta sobre outros países.
Nos disseram que o cablegate poria os EUA contra as cordas. No entanto, com o revelado até agora, são os outros que estão expostos: segundo os telegramas, a Rússia é uma máfia estatal, o Irã segue buscando a bomba nuclear, a Venezuela ajuda o Irã, que ajuda Cuba e Bolívia, o Paquistão apoia o terrorismo, os países árabes falam mal do Irã, a China faz a cama da Coréia, Berlusconi é um fraco vaidoso que inspira cuidado, a presidente argentina está no psiquiatra, a Turquia não é de confiança, a Espanha é submissa aos pedidos do embaixador.
Wikileaks fornece um retrato mundial onde ninguém sai ileso e apresenta um planeta tão apodrecido que a podridão norteamericana até se dilui e resulta um pouco menos nojenta. Um retrato, aliás, que põe no alvo precisamente aqueles países contra os quais os EUA vêm apontando. Não sei se o melhor ainda está por vir, se os telegramas trarão novidades, se tudo passa pelo filtro dos jornais que recebem informação exclusiva, ou se têm razão as teorias conspiratórias que já circulam na internet. O certo é que, até agora, quem parece ter menos motivos para odiar Assange são os....Estados Unidos.
(*) Isaac Rosa publicou as novelas “La malamemoria” (1999), posteriormente reelaborada em “Outra maldita novela sobre la guerra civil”! (2007), “El vano ayer” (2004), e “El país del miedo” (2008). Sua última novela, “El país del miedo”, recebeu o Prêmio Fundación José Manuel Lara para a melhor novela de 2008. Artigo publicado no jornal Público, de Madri.
Fonte: Agência Carta Maior.
Wikileaks fornece um retrato mundial onde ninguém sai ileso e apresenta um planeta tão apodrecido que a podridão norteamericana até se dilui e resulta um pouco menos nojenta. Um retrato, aliás, que põe no alvo precisamente aqueles países contra os quais os EUA vêm apontando. Não sei se o melhor ainda está por vir, se os telegramas trarão novidades, se tudo passa pelo filtro dos jornais que recebem informação exclusiva, ou se têm razão as teorias conspiratórias que já circulam na internet. O certo é que, até agora, quem parece ter menos motivos para odiar Assange são os....Estados Unidos. O artigo é de Isaac Rosa.
Isaac Rosa
“No fim das contas, acreditamos que no longo prazo tudo isso não terá um impacto negativo sobre o poder ou o prestígio dos Estados Unidos”.Geoff Morrell, portavoz do Pentágono
Não gostaria de estar na pele de Julian Assange, fundador de Wikileaks, cuja cabeça foi posta a prêmio. Sabemos que a Interpol está atrás dele, que o governo dos Estados Unidos quer trancafiá-lo e a ultradireita do Tea Parthy executá-lo. Mas Assange não só vai ficar sem poder ir de férias aos EUA por uma boa temporada. Do jeito que vão as coisas, ele não poderá por o pé em quase nenhum país do mundo.
O chamado cablegate apresenta-se com um jogo de pulso entre os EUA e Assange, mas na verdade, se tomamos o que tem sido publicado, o governo norteamericano não parece o mais prejudicado. Sim, é verdade que os deixou envergonhados, obrigou-os a dar explicações a seus aliados e a recompor seus sistemas de comunicação e sua rede de informantes. Mas tirando isso, e a confirmação do que todos sabíamos – que os EUA espionam em defesa de seus interesses -, não fica muito atrás em comparação ao que se conta sobre outros países.
Nos disseram que o cablegate poria os EUA contra as cordas. No entanto, com o revelado até agora, são os outros que estão expostos: segundo os telegramas, a Rússia é uma máfia estatal, o Irã segue buscando a bomba nuclear, a Venezuela ajuda o Irã, que ajuda Cuba e Bolívia, o Paquistão apoia o terrorismo, os países árabes falam mal do Irã, a China faz a cama da Coréia, Berlusconi é um fraco vaidoso que inspira cuidado, a presidente argentina está no psiquiatra, a Turquia não é de confiança, a Espanha é submissa aos pedidos do embaixador.
Wikileaks fornece um retrato mundial onde ninguém sai ileso e apresenta um planeta tão apodrecido que a podridão norteamericana até se dilui e resulta um pouco menos nojenta. Um retrato, aliás, que põe no alvo precisamente aqueles países contra os quais os EUA vêm apontando. Não sei se o melhor ainda está por vir, se os telegramas trarão novidades, se tudo passa pelo filtro dos jornais que recebem informação exclusiva, ou se têm razão as teorias conspiratórias que já circulam na internet. O certo é que, até agora, quem parece ter menos motivos para odiar Assange são os....Estados Unidos.
(*) Isaac Rosa publicou as novelas “La malamemoria” (1999), posteriormente reelaborada em “Outra maldita novela sobre la guerra civil”! (2007), “El vano ayer” (2004), e “El país del miedo” (2008). Sua última novela, “El país del miedo”, recebeu o Prêmio Fundación José Manuel Lara para a melhor novela de 2008. Artigo publicado no jornal Público, de Madri.
Fonte: Agência Carta Maior.
POLÍTICA - Os bastidores da campanha de Dilma - parte 2.
As angústias de 2009
O ano de 2009 não foi nada simples nem para a candidata, nem para o estafe que já trabalhava na organização da sua pré-campanha. Desde o começo daquele ano, o jornalista Oswaldo Buarim estava com ela na Casa Civil, com a preocupação de torná-la mais conhecida e melhorar seu relacionamento com a mídia. Além dele, contratado pelo PT, o marqueteiro João Santana já fazia pesquisas qualitativas e gravava imagens de arquivos. Pelo governo, fundamentalmente Franklin Martins, Gilberto Carvalho e Marco Aurélio Garcia, além de Clara Ant, preparavam o terreno da candidata tanto do ponto de vista dos debates programáticos, que fariam parte da agenda de 2010, como de questões que precisavam de respostas no dia a dia. Quem conduzia as negociações políticas era o presidente do PT, Ricardo Berzoini.
A avaliação era que 2009 não seria um ano fácil, principalmente porque a crise financeira, que havia estourado em setembro de 2008, prometia derrubar todas as projeções de crescimento para aquele ano. Havia quem falasse em perda de até cinco pontos no PIB. Lula falava em marolinha e a oposição, em tsunami.
Para não deixar a crise sufocar o país, o governo programou uma série de medidas anticíclicas. Em 25 de março, foi lançado o Minha Casa, Minha Vida, que projetava a construção de 1 milhão de casas para famílias de baixa renda. Ao mesmo tempo, a área econômica concedia isenção de IPI a automóveis e produtos da linha branca, e o governo ainda trabalhava para lançar o marco regulatório para exploração do pré-sal, que acabou acontecendo no final de agosto.
A doença
Mas em abril, Dilma foi surpreendida com a descoberta de um linfoma, que precisaria ser tratado com urgência para não evoluir. A ministra viveu dias de angústia até decidir, na manhã de 25 de abril, anunciar que fazia tratamento por quimioterapia. Na decisão, foi importantíssima a ação do secretário de Comunicação Social do governo, Franklin Martins. Foi ele quem a convenceu que o melhor caminho era abrir o jogo com a imprensa e com a população. O drama de Dilma, por um desses caminhos tortos, acabou tornando-a ainda mais conhecida do grande público, principalmente porque o caso foi tratado à exaustão pela mídia comercial. Em geral, de maneira correta. Mas, em alguns casos, com um viés que buscava comprometer a sua candidatura, como visto na edição 2.011 da revista Veja, que acusa o governo de tentar “transformar um assunto grave e delicado” em “trunfo para a campanha presidencial”.
Enquanto a notícia do câncer de Dilma ainda era absorvida, em 14 de maio, numa manobra com lances cinematográficos, os senadores da oposição não viajaram na quinta à noite para as suas bases, como sempre fazem os parlamentares, e na sexta pela manhã criaram a CPI da Petrobras, em um plenário esvaziado, pegando os governistas de surpresa. O senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) foi o responsável pela leitura, em plenário, do requerimento para a instalação e a criação da comissão. O governo foi hábil e controlou a comissão. E a Petrobras também foi rápida e criativa, lançando um blogue, onde respondia, simultaneamente à publicação das matérias na imprensa comercial, todas as perguntas que lhe eram encaminhadas. A iniciativa desarmou a oposição, que aos poucos abandonou os trabalhos.
Entretanto, em 9 de agosto, a ex-secretária da Receita Federal Lina Maria Vieira, em entrevista à Folha de S. Paulo, afirmou que a ministra havia sugerido que fosse concluída rapidamente a investigação das empresas da família Sarney, pelo órgão que ela comandava. “Falamos sobre amenidades e, então, ela me perguntou se eu podia agilizar a fiscalização do filho do Sarney”, disse Lina ao jornal. Parte da imprensa transformou o episódio em tráfico de influência e colocou várias cascas de banana no caminho da ministra, para que o fato se transformasse em algo similar ao que a crise do caseiro Francenildo foi para Antônio Palloci.
A última pedrada com que a campanha de Dilma teve que lidar, ainda em 2009, foi a aprovação do PNDH3, proposto pelo Ministério dos Direitos Humanos em dezembro. Num primeiro momento, como o plano passou formalmente pela Casa Civil, ele foi atribuído à ministra. A verdade é que o governo se assustou com a repercussão do PNDH3, e a campanha petista anotou que ele tinha potencial para danos políticos futuros, como acabou ocorrendo.
Contudo, o fim do ano reservou boas notícias. Dilma liderou a comitiva brasileira na Conferência do Clima em Copenhague e, mesmo disputando o noticiário com Serra e Marina, que também foram ao encontro, conseguiu aproveitar o evento para aparecer como liderança, tanto do ponto vista interno como externo. A crise parecia debelada e, mesmo sem ter crescido naquele ano, a projeção era de uma recuperação forte em 2010.
Mas o fato mais importante daquele final de 2009 ocorreu em 10 dezembro, quando foi ao ar um programa de 10 minutos do PT, no qual estavam todos os ingredientes que seriam utilizados por João Santana na campanha deste ano, principalmente no segundo turno. A famosa peça da escada, por exemplo, onde se compara o governo FHC e Lula e se fala em coisa de pobre e coisa de rico, fazia parte da peça. Como também a do jogo de baralho, em que um negro vai virando as cartas, citando programas do governo, e diz que Lula inverteu o jogo. Com aquele programa, Dilma chegou ao final do ano com as pesquisas lhe atribuindo 20%.
Àquela altura, os que trabalhavam pensando no cenário de 2010 avaliavam que, mesmo sendo um ano duríssimo, tinha sido superado com bons resultados. Para 2010, sabia-se que a economia voltaria a crescer e que a candidata já estaria livre da peruca, que tinha lhe acompanhado o ano todo, dando-lhe um ar fake.
Para 2010, em uma reunião de avaliação, o estafe da campanha havia chegado à conclusão que tinham tudo a favor: previsão de grande crescimento econômico, otimismo da população com o país, a agenda de futuro (Olimpíadas e Copa) e ainda contavam com um “Pelé” ao lado, no caso, Lula e sua popularidade próxima a 80%. Por isso, tudo indicava uma campanha ainda mais dura que o normal, porque só restava à oposição a desqualificação e a baixaria. A previsão estava correta.
FOnte:Blog do Rovai.
O ano de 2009 não foi nada simples nem para a candidata, nem para o estafe que já trabalhava na organização da sua pré-campanha. Desde o começo daquele ano, o jornalista Oswaldo Buarim estava com ela na Casa Civil, com a preocupação de torná-la mais conhecida e melhorar seu relacionamento com a mídia. Além dele, contratado pelo PT, o marqueteiro João Santana já fazia pesquisas qualitativas e gravava imagens de arquivos. Pelo governo, fundamentalmente Franklin Martins, Gilberto Carvalho e Marco Aurélio Garcia, além de Clara Ant, preparavam o terreno da candidata tanto do ponto de vista dos debates programáticos, que fariam parte da agenda de 2010, como de questões que precisavam de respostas no dia a dia. Quem conduzia as negociações políticas era o presidente do PT, Ricardo Berzoini.
A avaliação era que 2009 não seria um ano fácil, principalmente porque a crise financeira, que havia estourado em setembro de 2008, prometia derrubar todas as projeções de crescimento para aquele ano. Havia quem falasse em perda de até cinco pontos no PIB. Lula falava em marolinha e a oposição, em tsunami.
Para não deixar a crise sufocar o país, o governo programou uma série de medidas anticíclicas. Em 25 de março, foi lançado o Minha Casa, Minha Vida, que projetava a construção de 1 milhão de casas para famílias de baixa renda. Ao mesmo tempo, a área econômica concedia isenção de IPI a automóveis e produtos da linha branca, e o governo ainda trabalhava para lançar o marco regulatório para exploração do pré-sal, que acabou acontecendo no final de agosto.
A doença
Mas em abril, Dilma foi surpreendida com a descoberta de um linfoma, que precisaria ser tratado com urgência para não evoluir. A ministra viveu dias de angústia até decidir, na manhã de 25 de abril, anunciar que fazia tratamento por quimioterapia. Na decisão, foi importantíssima a ação do secretário de Comunicação Social do governo, Franklin Martins. Foi ele quem a convenceu que o melhor caminho era abrir o jogo com a imprensa e com a população. O drama de Dilma, por um desses caminhos tortos, acabou tornando-a ainda mais conhecida do grande público, principalmente porque o caso foi tratado à exaustão pela mídia comercial. Em geral, de maneira correta. Mas, em alguns casos, com um viés que buscava comprometer a sua candidatura, como visto na edição 2.011 da revista Veja, que acusa o governo de tentar “transformar um assunto grave e delicado” em “trunfo para a campanha presidencial”.
Enquanto a notícia do câncer de Dilma ainda era absorvida, em 14 de maio, numa manobra com lances cinematográficos, os senadores da oposição não viajaram na quinta à noite para as suas bases, como sempre fazem os parlamentares, e na sexta pela manhã criaram a CPI da Petrobras, em um plenário esvaziado, pegando os governistas de surpresa. O senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) foi o responsável pela leitura, em plenário, do requerimento para a instalação e a criação da comissão. O governo foi hábil e controlou a comissão. E a Petrobras também foi rápida e criativa, lançando um blogue, onde respondia, simultaneamente à publicação das matérias na imprensa comercial, todas as perguntas que lhe eram encaminhadas. A iniciativa desarmou a oposição, que aos poucos abandonou os trabalhos.
Entretanto, em 9 de agosto, a ex-secretária da Receita Federal Lina Maria Vieira, em entrevista à Folha de S. Paulo, afirmou que a ministra havia sugerido que fosse concluída rapidamente a investigação das empresas da família Sarney, pelo órgão que ela comandava. “Falamos sobre amenidades e, então, ela me perguntou se eu podia agilizar a fiscalização do filho do Sarney”, disse Lina ao jornal. Parte da imprensa transformou o episódio em tráfico de influência e colocou várias cascas de banana no caminho da ministra, para que o fato se transformasse em algo similar ao que a crise do caseiro Francenildo foi para Antônio Palloci.
A última pedrada com que a campanha de Dilma teve que lidar, ainda em 2009, foi a aprovação do PNDH3, proposto pelo Ministério dos Direitos Humanos em dezembro. Num primeiro momento, como o plano passou formalmente pela Casa Civil, ele foi atribuído à ministra. A verdade é que o governo se assustou com a repercussão do PNDH3, e a campanha petista anotou que ele tinha potencial para danos políticos futuros, como acabou ocorrendo.
Contudo, o fim do ano reservou boas notícias. Dilma liderou a comitiva brasileira na Conferência do Clima em Copenhague e, mesmo disputando o noticiário com Serra e Marina, que também foram ao encontro, conseguiu aproveitar o evento para aparecer como liderança, tanto do ponto vista interno como externo. A crise parecia debelada e, mesmo sem ter crescido naquele ano, a projeção era de uma recuperação forte em 2010.
Mas o fato mais importante daquele final de 2009 ocorreu em 10 dezembro, quando foi ao ar um programa de 10 minutos do PT, no qual estavam todos os ingredientes que seriam utilizados por João Santana na campanha deste ano, principalmente no segundo turno. A famosa peça da escada, por exemplo, onde se compara o governo FHC e Lula e se fala em coisa de pobre e coisa de rico, fazia parte da peça. Como também a do jogo de baralho, em que um negro vai virando as cartas, citando programas do governo, e diz que Lula inverteu o jogo. Com aquele programa, Dilma chegou ao final do ano com as pesquisas lhe atribuindo 20%.
Àquela altura, os que trabalhavam pensando no cenário de 2010 avaliavam que, mesmo sendo um ano duríssimo, tinha sido superado com bons resultados. Para 2010, sabia-se que a economia voltaria a crescer e que a candidata já estaria livre da peruca, que tinha lhe acompanhado o ano todo, dando-lhe um ar fake.
Para 2010, em uma reunião de avaliação, o estafe da campanha havia chegado à conclusão que tinham tudo a favor: previsão de grande crescimento econômico, otimismo da população com o país, a agenda de futuro (Olimpíadas e Copa) e ainda contavam com um “Pelé” ao lado, no caso, Lula e sua popularidade próxima a 80%. Por isso, tudo indicava uma campanha ainda mais dura que o normal, porque só restava à oposição a desqualificação e a baixaria. A previsão estava correta.
FOnte:Blog do Rovai.
FUTEBOL - Está chegando a hora.
Com o Flu, o clamor e o humor da multidão em delírio.
Pedro do Coutto
A torcida do Fluminense, confiando no time, no técnico Murici e na vitória na decisão de domingo, deu ao povo do Rio uma rara demonstração de amor ao clube, de sacrifício nas filas e de entusiasmo na voz e no coração, comprando todos os ingressos colocados à venda. Marcou as áreas de venda com o clamor e o rumor de uma multidão que vai se repetir no desfecho do Engenhão contra o Guarani. Jogamos para a vitória, depende só de nós, vamos firmes para a luta. Os tricolores formam a terceira torcida do Rio e a segunda do país. Explico: no RJ, ficamos atrás só de Flamengo e Vasco.
Em termos nacionais, só atrás do Flamengo. O Vasco não tem público fora do estado. A torcida do Corintians domina apenas em São Paulo. A do Atlético em Minas. A do Internacional no Rio Grande do Sul. Romper fronteiras e limites regionais só as do Fla e do Flu. Frase, aliás, deixada pelo jornalista Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues, tricolor como ele, fundador do Jornal dos Sports, a quem o país deve, de fato, a construção do Maracanã.
Mas esta é outra questão. Pertence ao passado. Como ao passado pertencem as decisões históricas que assisti em 41 na Gávea, em 46 em São Januário, em 51 no Maracanã, em 59, 64, 69, 70, 84. São tantas que, confesso, não me lembro de todas. Mas foram marcos da minha vida, nesta véspera de voltar meus olhos para o Estádio João Havelange, Arena do Engenhão. Havelange, além de nome de estádio, é presidente de honra e grande benemérito atleta do Fluminense. O ex-presidente da FIFA dá seu nome ao segundo coliseu do esporte do Rio. Fica para sempre. Como ficou Mario Filho, nome eterno do Maracanã, teatro e templo do futebol.
Mas enquanto dezenas de milhares de torcedores apaixonados passavam mais de 48 horas ma fila, revezando-se, à busca da esperança e da emoção, mais uma vez os cambistas e os suspeitos de sempre entravam em ação. Os ingressos esgotaram-se nas bilheterias aos preços oficialmente fixados. Porém a procura continua e os tíquetes que podem conduzir à sensação de felicidade, ou promessa dela, como escreveu Contardo Caligaris, tempos atrás na Folha de São Paulo ao abordar a psicologia do torcedor apaixonado, vão reaparecer nas mãos de exploradores dos outros. Na tarde de ontem, sábado, na manhã de hoje nas ruas do Engenho de Dentro, subúrbio carioca, cenário e desfecho da Taça do Brasileiro. Vão emergir e atender a uma reserva ilegal de mercado. Isso revela o que sempre sustentei, nos tempos em que trabalhei no Correio da Manhã. A televisão não tira público dos estádios. Ao contrário. Acrescenta.
Um processo inevitável já que os estádios não podem aumentar sua capacidade e a população não para de crescer. Quando o Mário Filho foi inaugurado, para a Copa de 50, o Rio possuía 2 milhões e 500 mil habitantes, segundo o IBGE. Sua população hoje, 60 anos depois, é de 6 milhões e 400 mil pessoas. O televisamento era – e sempre foi – a solução lógica. Basta partir da seguinte comparação: um milhão de pessoas querem ver o desfecho deste domingo. O Estádio João Havelange só pode acolher no máximo de 42 mil a 45 espectadores. A televisão, na realidade, democratiza os espetáculos. Todos eles. Esportivos ou artísticos. A diferença entre o esporte e a arte é o desfecho imprevisível, de um lado, e a representação pré-estabelecida de outro.
Vamos em frente. Está chegando a hora. Na TV ou no Engenhão os corações tricolores batem e seguem firmes. Na arte, na técnica, na emoção do time vamos todos escrever mais um capítulo, em três cores, da bela história da Rua Álvaro Chaves, nas Laranjeiras. História eterna.
Fonte: Tribuna da Imprensa.
Pedro do Coutto
A torcida do Fluminense, confiando no time, no técnico Murici e na vitória na decisão de domingo, deu ao povo do Rio uma rara demonstração de amor ao clube, de sacrifício nas filas e de entusiasmo na voz e no coração, comprando todos os ingressos colocados à venda. Marcou as áreas de venda com o clamor e o rumor de uma multidão que vai se repetir no desfecho do Engenhão contra o Guarani. Jogamos para a vitória, depende só de nós, vamos firmes para a luta. Os tricolores formam a terceira torcida do Rio e a segunda do país. Explico: no RJ, ficamos atrás só de Flamengo e Vasco.
Em termos nacionais, só atrás do Flamengo. O Vasco não tem público fora do estado. A torcida do Corintians domina apenas em São Paulo. A do Atlético em Minas. A do Internacional no Rio Grande do Sul. Romper fronteiras e limites regionais só as do Fla e do Flu. Frase, aliás, deixada pelo jornalista Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues, tricolor como ele, fundador do Jornal dos Sports, a quem o país deve, de fato, a construção do Maracanã.
Mas esta é outra questão. Pertence ao passado. Como ao passado pertencem as decisões históricas que assisti em 41 na Gávea, em 46 em São Januário, em 51 no Maracanã, em 59, 64, 69, 70, 84. São tantas que, confesso, não me lembro de todas. Mas foram marcos da minha vida, nesta véspera de voltar meus olhos para o Estádio João Havelange, Arena do Engenhão. Havelange, além de nome de estádio, é presidente de honra e grande benemérito atleta do Fluminense. O ex-presidente da FIFA dá seu nome ao segundo coliseu do esporte do Rio. Fica para sempre. Como ficou Mario Filho, nome eterno do Maracanã, teatro e templo do futebol.
Mas enquanto dezenas de milhares de torcedores apaixonados passavam mais de 48 horas ma fila, revezando-se, à busca da esperança e da emoção, mais uma vez os cambistas e os suspeitos de sempre entravam em ação. Os ingressos esgotaram-se nas bilheterias aos preços oficialmente fixados. Porém a procura continua e os tíquetes que podem conduzir à sensação de felicidade, ou promessa dela, como escreveu Contardo Caligaris, tempos atrás na Folha de São Paulo ao abordar a psicologia do torcedor apaixonado, vão reaparecer nas mãos de exploradores dos outros. Na tarde de ontem, sábado, na manhã de hoje nas ruas do Engenho de Dentro, subúrbio carioca, cenário e desfecho da Taça do Brasileiro. Vão emergir e atender a uma reserva ilegal de mercado. Isso revela o que sempre sustentei, nos tempos em que trabalhei no Correio da Manhã. A televisão não tira público dos estádios. Ao contrário. Acrescenta.
Um processo inevitável já que os estádios não podem aumentar sua capacidade e a população não para de crescer. Quando o Mário Filho foi inaugurado, para a Copa de 50, o Rio possuía 2 milhões e 500 mil habitantes, segundo o IBGE. Sua população hoje, 60 anos depois, é de 6 milhões e 400 mil pessoas. O televisamento era – e sempre foi – a solução lógica. Basta partir da seguinte comparação: um milhão de pessoas querem ver o desfecho deste domingo. O Estádio João Havelange só pode acolher no máximo de 42 mil a 45 espectadores. A televisão, na realidade, democratiza os espetáculos. Todos eles. Esportivos ou artísticos. A diferença entre o esporte e a arte é o desfecho imprevisível, de um lado, e a representação pré-estabelecida de outro.
Vamos em frente. Está chegando a hora. Na TV ou no Engenhão os corações tricolores batem e seguem firmes. Na arte, na técnica, na emoção do time vamos todos escrever mais um capítulo, em três cores, da bela história da Rua Álvaro Chaves, nas Laranjeiras. História eterna.
Fonte: Tribuna da Imprensa.
MST - Efeitos de uma vaia consagradora.
A homenagem da Câmara a João Pedro Stedile. Efeitos de uma vaia paradoxalmente consagradora
Antonio Cechin e Jacques Távora Alfonsin, comentam a homenagem da Câmara dos Deputados a João Pedro Stédile.
Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais, autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.
Jacques Távora Alfonsin é advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado.
Eis o artigo.
Na homenagem que a Câmara dos deputados prestou a João Pedro Stedile, esta semana, conferindo-lhe a Medalha de Mérito Legislativo "por seus serviços prestados para a sociedade", algumas vaias tentaram tirar o efeito dos aplausos entusiasmados que ele recebeu.
Para quem acompanha o trabalho desse líder do MST, a trajetória dedicada, corajosa e perseverante que tem marcado sua luta em favor das/os trabalhadoras/es sem terra e à causa da reforma agrária, não é difícil identificar de quem partiu a grosseria e os motivos que a inspiraram.
A oposição que os latifundiários do país movem contra tudo o que possa afetar seus privilégios, acomodada historicamente fortemente na bancada ruralista do Congresso Nacional, não podia aceitar uma honraria como essa, que reconhece na pessoa do João Pedro tudo aquilo que serve de resposta e contestação à concentração desumana da propriedade da terra, por eles promovida, a um produtivismo que não se importa de matá-la, à sujeição estúpida desse bem de vida, reduzido à simples mercadoria, cujos frutos devem ser abortados se não derem bom lucro, ainda que isso custe a fome de milhões.
Foi uma vaia, portanto, que tentou abafar o ruído daquelas verdades ocultas pelo poder da grande propriedade rural, como a da conquista indiscriminada do nosso território, em conluio com transnacionais dedicadas à exploração agrícola, à venda de venenos, à fraude dos registros públicos, à manipulação das leis em benefício próprio, ainda que isso custe a violação dos nossos direitos sobre as áreas de fronteira, dos nossos mananciais, da segurança de posse das/os quilombolas e das/os índias/os.
Foi uma vaia ao discernimento crítico oportuno e necessário capaz de identificar todos aqueles fatores de injustiça social que estão acoplados a megaprojetos agroexportadores. Esses não distinguem a diferença fundamental que caracteriza um direito de propriedade, mesmo quando esse respeita só minimamente a sua função social, aquela que identifica a relação-pertença entre o dono e o seu bem, mas não esquece a relação-destino desse mesmo bem, a qual não pode ser garantida em prejuízo alheio. A pretexto de aumentar nossas divisas, esse tipo de exploração da terra não hesita em levar consigo a floresta, a água, a fauna e a flora que a natureza nos deu de graça.
Foi uma vaia partida dos abusos e dos tradicionais desvios de direito, de que não estão excluídos nenhum dos Poderes Públicos, sempre que sacrificam as/os sem-terra, sob a justifitiva de que, em defesa deles próprios (!?) a lei tem que ser respeitada, mesmo que isso custe a sua morte, como aconteceu o ano passado, em São Gabriel, com o assassinato do sem-terra Elton Brum da Silva.
Foi uma vaia partida de quem não se envergonha de obstruir qualquer tentativa do Executivo, ou do Congresso Nacional, de imporem a revisão dos índices de produtividade das terras do país, coisa defasada há décadas, nem de permitir a tramitação de qualquer projeto de lei tendente a punir a exploração do trabalho escravo. Se os meios para esconder essa sujeira exigir despistes do tipo criação de CPMIS contra as/os sem-terra, presença diária na mídia para a sua criminalização, nenhum escrúpulo seja considerado suficiente para impedi-los.
Foi uma vaia à justa indignação de que estão possuídas/os as/os brasileiras/os empenhadas em apoiar as reivindicações dos direitos humanos fundamentais do povo pobre do nosso país, em sindicatos, ONGs, Igrejas, espaços políticos alternativos onde ele ao menos é ouvido contra o coronelismo armado de jagunços, de manobras de bastidores empreendidas em Bancos, em órgãos Públicos, em “tenebrosas transações” como diz Chico Buarque.
Foi uma vaia, enfim, de vendilhões, bem como o daqueles que Jesus Cristo expulsou a relho de dentro do templo. Hoje, o templo da cidadania e da dignidade humana, que deveria estar sendo venerado reciprocamente, por todas/os brasileiras/os, a ponto de erradicar a pobreza, como diz a nossa Constituição Federal e recomenda o mais elementar princípio de bom senso, não alcança ser reconhecido por aquela gente que vaiou o João Pedro. Não poderia haver prova melhor, portanto, de que a homenagem que ele recebeu se justificou e foi mais do que merecida.
Fonte:IHU
Antonio Cechin e Jacques Távora Alfonsin, comentam a homenagem da Câmara dos Deputados a João Pedro Stédile.
Antonio Cechin é irmão marista, miltante dos movimentos sociais, autor do livro Empoderamento Popular. Uma pedagogia de libertação. Porto Alegre: Estef, 2010.
Jacques Távora Alfonsin é advogado do MST e procurador do Estado do Rio Grande do Sul aposentado.
Eis o artigo.
Na homenagem que a Câmara dos deputados prestou a João Pedro Stedile, esta semana, conferindo-lhe a Medalha de Mérito Legislativo "por seus serviços prestados para a sociedade", algumas vaias tentaram tirar o efeito dos aplausos entusiasmados que ele recebeu.
Para quem acompanha o trabalho desse líder do MST, a trajetória dedicada, corajosa e perseverante que tem marcado sua luta em favor das/os trabalhadoras/es sem terra e à causa da reforma agrária, não é difícil identificar de quem partiu a grosseria e os motivos que a inspiraram.
A oposição que os latifundiários do país movem contra tudo o que possa afetar seus privilégios, acomodada historicamente fortemente na bancada ruralista do Congresso Nacional, não podia aceitar uma honraria como essa, que reconhece na pessoa do João Pedro tudo aquilo que serve de resposta e contestação à concentração desumana da propriedade da terra, por eles promovida, a um produtivismo que não se importa de matá-la, à sujeição estúpida desse bem de vida, reduzido à simples mercadoria, cujos frutos devem ser abortados se não derem bom lucro, ainda que isso custe a fome de milhões.
Foi uma vaia, portanto, que tentou abafar o ruído daquelas verdades ocultas pelo poder da grande propriedade rural, como a da conquista indiscriminada do nosso território, em conluio com transnacionais dedicadas à exploração agrícola, à venda de venenos, à fraude dos registros públicos, à manipulação das leis em benefício próprio, ainda que isso custe a violação dos nossos direitos sobre as áreas de fronteira, dos nossos mananciais, da segurança de posse das/os quilombolas e das/os índias/os.
Foi uma vaia ao discernimento crítico oportuno e necessário capaz de identificar todos aqueles fatores de injustiça social que estão acoplados a megaprojetos agroexportadores. Esses não distinguem a diferença fundamental que caracteriza um direito de propriedade, mesmo quando esse respeita só minimamente a sua função social, aquela que identifica a relação-pertença entre o dono e o seu bem, mas não esquece a relação-destino desse mesmo bem, a qual não pode ser garantida em prejuízo alheio. A pretexto de aumentar nossas divisas, esse tipo de exploração da terra não hesita em levar consigo a floresta, a água, a fauna e a flora que a natureza nos deu de graça.
Foi uma vaia partida dos abusos e dos tradicionais desvios de direito, de que não estão excluídos nenhum dos Poderes Públicos, sempre que sacrificam as/os sem-terra, sob a justifitiva de que, em defesa deles próprios (!?) a lei tem que ser respeitada, mesmo que isso custe a sua morte, como aconteceu o ano passado, em São Gabriel, com o assassinato do sem-terra Elton Brum da Silva.
Foi uma vaia partida de quem não se envergonha de obstruir qualquer tentativa do Executivo, ou do Congresso Nacional, de imporem a revisão dos índices de produtividade das terras do país, coisa defasada há décadas, nem de permitir a tramitação de qualquer projeto de lei tendente a punir a exploração do trabalho escravo. Se os meios para esconder essa sujeira exigir despistes do tipo criação de CPMIS contra as/os sem-terra, presença diária na mídia para a sua criminalização, nenhum escrúpulo seja considerado suficiente para impedi-los.
Foi uma vaia à justa indignação de que estão possuídas/os as/os brasileiras/os empenhadas em apoiar as reivindicações dos direitos humanos fundamentais do povo pobre do nosso país, em sindicatos, ONGs, Igrejas, espaços políticos alternativos onde ele ao menos é ouvido contra o coronelismo armado de jagunços, de manobras de bastidores empreendidas em Bancos, em órgãos Públicos, em “tenebrosas transações” como diz Chico Buarque.
Foi uma vaia, enfim, de vendilhões, bem como o daqueles que Jesus Cristo expulsou a relho de dentro do templo. Hoje, o templo da cidadania e da dignidade humana, que deveria estar sendo venerado reciprocamente, por todas/os brasileiras/os, a ponto de erradicar a pobreza, como diz a nossa Constituição Federal e recomenda o mais elementar princípio de bom senso, não alcança ser reconhecido por aquela gente que vaiou o João Pedro. Não poderia haver prova melhor, portanto, de que a homenagem que ele recebeu se justificou e foi mais do que merecida.
Fonte:IHU
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
POLÍTICA - Bastidores da campanha de Dilma - 1
Escrevi para a Fórum de novembro, que ainda está nas bancas, uma matéria de 47 mil toques sobre a campanha que levou Dilma à presidência da República. Ela tem muitos bastidores que fui juntando durante o processo eleitoral e, como diz meu amigo Idelber Avelar, modéstia às favas, acho que vale a pena ser lida. Por isso vou publicá-la em três (grandes) partes de hoje até domingo. Segue a primeira matéria.
Dilma, antes de ser a candidata
Ela foi uma das últimas escolhidas de Lula para compor seu primeiro ministério e acabou se tornando a sua preferida para a missão mais importante, sucedê-lo. Mas durante um bom tempo, seu principal desafio foi o de convencer o PT de que estava preparada para a missão
Por Renato Rovai
Em 21 de junho de 2005, Dilma Rousseff foi ao Ministério das Minas e Energia para acertar os últimos detalhes com secretários, assessores e principalmente com o presidente da Empresa Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim – escolhido para ocupar interinamente a função de ministro até que o presidente Lula fizesse os últimos arranjos para garantir a governabilidade em um momento tão difícil. A posse de Dilma na Casa Civil estava marcada para as 16 horas. Ela assumiria o cargo em substituição a José Dirceu, histórica liderança petista afastada do cargo em meio à crise do mensalão.
Dilma foi escolhida pelo presidente para a função porque Lula decidira que precisava de alguém que não deixasse o governo parado enquanto a crise política prosseguia. Um gerente, não um articulador, no cargo. A coordenação política do governo e o enfrentamento da crise seriam realizados diretamente por ele, com a contribuição de Jaques Wagner, então ministro das Relações Institucionais, e Márcio Thomas Bastos, à época ministro da Justiça. À Dilma, estava reservado o papel de fazer o governo andar.
Lula foi conversar com os partidos para construir uma base política sólida no Congresso. Naquele momento, o PMDB tinha apenas dois ministérios e o PP estava fora do primeiro escalão, sendo que ocupava a presidência da Câmara com o deputado Severino Cavalcanti. Enquanto empossava Dilma, o presidente já negociava o Ministério das Cidades com o PP e a ampliação da cota do PMDB para quatro ministérios. O das Minas e Energia era um dos que entrara na negociação. No dia 6 de julho, Silas Rondeau deixava a presidência da Eletrobrás e assumia a pasta. O acordo estava selado, e o governo constituía uma maioria estreita no Congresso.
Dilma passava a fazer parte do círculo mais próximo do presidente Lula, na ocasião mais difícil do seu primeiro mandato. E desempenhou, naquele período de pouco mais de um ano antes da reeleição, um papel fundamental para que o governo tivesse uma lista de realizações, que permitisse ao presidente buscar a reeleição com chances reais de vitória.
No início de 2007, com Lula reeleito, vários nomes começaram a ser cogitados para disputar a sucessão pelo PT. Entre eles, Tarso Genro, Marta Suplicy, Fernando Haddad, Patrus Ananias e até mesmo Antônio Palocci, que havia caído no episódio do caseiro Francenildo. Havia gente que defendia, porém, que o partido não teria condições de construir uma alternativa viável para vencer a eleição e que deveria abrir mão da cabeça de chapa para fazer um acordo com Ciro Gomes (PSB). Várias lideranças importantes do petismo consideravam essa hipótese como bastante razoável, em conversas de bastidores. De vez em quando, o nome de Dilma era citado como mais um dos prováveis na bolsa de apostas. E quem sempre incluía a ministra entre os nomes fortes era o ex-deputado José Dirceu, que costumava dizer nas conversas sobre o tema: “prestem atenção na Dilma”.
O curioso é que ela entrava nas listas de apostas como opção porque possuía um perfil gerencial, já que no PT se imaginava que a disputa teria esse contorno se, do outro lado, estivesse José Serra, que acabara de vencer a eleição para o governo de São Paulo. Além disso, Dilma tinha um passado totalmente livre de denúncias e havia sido designada para comandar o principal programa do segundo mandato, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Mas seu nome era desdenhado por muitos. Os que não viam possibilidades de ela concorrer diziam, entre outras coisas que “não era conhecida”, “não tinha experiência com campanhas eleitorais”, “era dura demais”, “faltava-lhe tato político” e “criava muitas áreas de conflito”. Nesse período, não foram incomuns histórias de ministros que eram duramente cobrados por Dilma. Quando essas histórias se tornaram públicas, a ministra soltou uma frase irônica e que dialogou com a crítica: “Não sou criticada porque sou dura, mas porque sou mulher. Sou uma mulher dura, cercada por ministros meigos”, brincou. Mas, de repente, esse seu comportamento, mais ríspido e fechado, passou a ser encarado de outra forma por alguns personagens do primeiro escalão. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, considerado um dos mais próximos de Dilma, passou a desarmá-la usando a frase: “Dilminha, não fala assim que eu gamo.” A maneira brincalhona, desenvolvida por ele para lidar com o temperamento da ministra, teria ajudado não só outros ministros e executivos do governo a se relacionar com a “gerentona do PAC” como também fez com que ela passasse a ser mais delicada no trato com seus parceiros de governo.
Contudo, para Lula, isso não era um problema. Tanto que, em agosto de 2007, o jornal espanhol El Pais já especulava sobre o nome de Dilma para a sucessão de Lula. Assinada pelo correspondente do jornal Juan Arias, a reportagem fazia a seguinte análise: “Lula, ao convertê-la em ministra da Casa Civil, em seu braço direito e ao também ter encomendado a ela seu grande projeto econômico, o PAC, catapultou-a a ser a candidata natural à sua sucessão, visto que sua agremiação, o Partido dos Trabalhadores (PT), após a crise de 2005, não tem neste momento um candidato capaz de recolher a herança de popularidade de Lula.”
O cala-boca em Agripino e as eleições municipais
Em dezembro de 2007, realizou-se o 3º Processo de Eleições Diretas do PT (PED). E mesmo com a discreta participação de Dilma nas questões do partido, aquele debate se tornou fundamental para que a sua candidatura seguisse adiante. No primeiro turno daquele PED, realizado no dia 2, o deputado federal Ricardo Berzoini teve 129.191 votos (43,75%). Jilmar Tatto, 60.578, (20,51%), José Eduardo Cardozo, 55.891 (18,93%) e Valter Pomar, 33.755, (11,43%). Berzoini e Tatto foram para o segundo turno, que se deu no dia 16. Berzoini venceu.
Entre outros pontos, aquele PED construiu uma nova maioria no PT. Isso porque em vez de o grupo majoritário oferecer a vaga na Secretaria-Geral para o segundo colocado no pleito, Jilmar Tatto, o cargo foi negociado com o grupo de José Eduardo Cardozo, que viria a se tornar um dos coordenadores da campanha de Dilma. Também foi naquele pleito que foi abortado um movimento, externo e interno, que considerava a possibilidade de o candidato ser de outro partido da base. Pouco lembrado, esse episódio foi extremamente importante para a sucessão.
No primeiro semestre de 2008, pelas movimentações de Lula, formou-se a convicção de que Dilma era a sua escolhida para a sucessão presidencial. Nos bastidores petistas, o que se dizia é que o presidente bateu o martelo a favor dela quando começou a andar com Dilma pelas obras do PAC e viu as pessoas dizendo que queriam tirar fotos com “a mulher do Lula”.
O ano de 2008, porém, não começou bem para o governo. Em janeiro, eclodiu o escândalo dos cartões corporativos, que causou a demissão da ministra de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, e levou o ministro dos Esportes, Orlando Silva, a ter de enfrentar um processo absurdo por conta da compra de uma tapioca. A oposição entrou com um pedido de CPI e, no fim de março de 2008, já em clima de prévia das eleições municipais, uma reportagem publicada pela revista Veja acusava o Palácio do Planalto de montar um dossiê, que detalhava gastos da família de FHC quando este ocupara a presidência da República. A reportagem afirmava que os documentos estariam sendo usados para intimidar a oposição na CPI dos Cartões Corporativos.
Na sequência, em 28 de março, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem indicando que a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, teria dado a ordem para a organização do dossiê. Em 4 de abril, Dilma reconheceu que havia um banco de dados com aquelas informações, mas descartou que se tratasse de um dossiê. Evidente que aquilo não foi suficiente para acalmar a oposição. E a ministra foi convocada, em 7 de maio, para audiência na Comissão de Infra-Estrutura do Senado Federal, onde ficou à disposição dos senadores para tratar do assunto do suposto dossiê contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Naquele dia, Dilma mostrou que tinha estatura para ser a candidata do PT à sucessão de Lula. Ela foi ao Senado para ser abatida e saiu fortalecida.
O senador José Agripino Maia (DEM/RN) leu o seguinte trecho de uma entrevista que ministra deu à Folha de S. Paulo em 2003, e que só foi publicada em 2005:
Folha – Que lembranças a sra. guardou dos tempos de cadeia?
Dilma Rousseff – A prisão é uma coisa em que a gente se encontra com os limites da gente. É isso que às vezes é muito duro. Nos depoimentos, a gente mentia feito doido. Mentia muito, mas muito.
Após ler este trecho, Agripino sugeriu que se a ministra mentia muito durante a ditadura, também poderia estar mentindo sobre o vazamento de dados. A resposta de Dilma foi demolidora:
“Eu fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar falar a verdade para os torturadores, entrega os seus iguais. Eu me orgulho de ter mentido na tortura, senador. Porque mentir na tortura não é fácil. Salvei companheiros da tortura e da morte. Uma ditadura policiada é a impossibilidade de se dizer a verdade em qualquer circunstância. Não é possível supor que se dialogue no choque elétrico, no pau-de-arara. Na tortura, quem tem coragem e dignidade fala mentira. Isso integra a minha biografia, que eu tenho imenso orgulho.” E ainda acrescentou: “Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia. E eu acredito, senador, que nós estávamos em momentos diferentes da nossa vida em 70.”
Todos os veículos de comunicação reverberaram o “cala-boca” no líder do DEM, considerado por muitos como um dos senadores mais articulados do plenário. O escândalo do dossiê submergiu porque a forma firme e segura como Dilma reagiu à provocação de Agripino fez com que até senadores de oposição ficassem incomodados. Arthur Virgilio (PSDB/AM) levantou e saiu da sala depois daquele diálogo. Dilma começava a mostrar que era boa marinheira em águas turbulentas. E que, nos momentos difíceis, crescia, o que já havia ocorrido no episódio da crise do mensalão. As eleições municipais de 2008, mais do que um teste sobre a popularidade do governo, foram fundamentais para a construção de alianças regionais que apontassem para uma grande aliança capaz de eleger Dilma em 2010. Naquele momento, no PT, não se falava em outra candidatura. Dilma não era só a candidata de Lula, mas se tornara o nome do partido. Foi também na eleição municipal de 2008 que Lula começou a articular para neutralizar Aécio, sabendo da importância que Minas Gerais teria no resultado eleitoral de 2010. Na ocasião, Lula já estava convicto que o candidato do PSDB seria José Serra.
Há quem considere que, por esse motivo, ele deixou que se fizessem as articulações por Fernando Pimentel na disputa de Belo Horizonte. À época, em conversas reservadas, o prefeito alegava que, ao patrocinar uma candidatura conjunta com Aécio na capital mineira – a de Márcio Lacerda (PSB) –, plantava uma aproximação com o tucano, que seria benéfica ao partido em 2010. Nos cálculos de Pimentel, Aécio o apoiaria para o governo do estado e poderia inclusive ir buscar abrigo num partido aliado, como o PSB, se o clima entre ele e Serra atingisse níveis de tensão muito altos.
A direção nacional do PT era refratária à tese. E foram muitas as reuniões de dirigentes nacionais tentando demover Pimentel de seguir aquele caminho. Lula, porém, não fez movimentos que desautorizassem o prefeito. Isso permitia ao prefeito de Belo Horizonte dizer que tinha a compreensão de Lula e de outros ministros, incluindo Dilma, para as suas articulações.
A consolidação de Serra
Encerrada as eleições municipais de 2008, a mídia, principalmente a paulista, não teve dúvida em apontar o grande vencedor: José Serra. E praticamente lançou a sua candidatura à presidência. O primeiro parágrafo de um artigo assinado por Elio Gaspari, logo após o segundo turno, ilustra o tom das análises:
“A TENACIDADE (assim mesmo, a palavra toda em letras maiúsculas) e o sangue-frio de José Serra fizeram dele o maior vencedor da eleição de domingo. Aliou-se ao PMDB, elegeu seu poste, derrotou os adversários internos e, num lance de sorte cronológica, habilitou-se para uma liderança política qualificada para tratar com os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira.”
Lula contra-atacou e anunciou, pela primeira vez em público, que Dilma era a sua candidata. Ao contrário do que se costuma dizer, naquele momento, o PT já tinha absorvido o seu nome. O que havia, e isso perdurou até a primeira parte da campanha, era uma grande dúvida se ela seria capaz de empolgar a militância. Dúvida que, em muitos casos, beirava o ceticismo. Os discursos de Dilma eram considerados exageradamente técnicos, cansativos e sem emoção pela quase totalidade dos dirigentes petistas.
O primeiro “teste de fogo” público de Dilma com a militância aconteceu no Fórum Social de Belém, em janeiro de 2009. Ela foi convidada a falar num seminário organizado pela Secretaria de Mulheres do PT, na tenda de Cuba. A intenção era debater a participação feminina nos espaços do poder. Mais de duas mil pessoas esperavam a ministra naquela tarde de um sol escaldante. Um dia antes, num encontro com cerca de cem integrantes do Conselho Internacional do Fórum, ao comentar a proposta dos organizadores de realizar o próximo evento, em 2011, no exterior, Lula disse que “se for ainda em 2010 vou participar como presidente. Agora, se for em 2011, já vai ser a Dilma”. Não havia mais mistério algum sobre quem seria a candidata do presidente.
Foi nesse clima que a ministra chegou ao evento, ladeada pela governadora do estado, Ana Júlia Carepa. A governadora estava, então, com a popularidade em baixa (e não se recuperou, tanto que foi derrotada pelo tucano Simão Jatene, em outubro último) e, mesmo assim, ao falar, ofuscou o discurso de Dilma.
A fala da ministra da Casa Civil foi longa, enfadonha, técnica e sem empolgação, o que deixou muitos dirigentes petistas e militantes do Fórum ressabiados. Algumas pessoas começaram a achar que talvez fosse o caso de se criar um plano B para a hipótese de Dilma não vir a empolgar. E seus índices nas pesquisas ainda estavam na casa de um dígito. De qualquer maneira, mesmo sem brilhar, ao terminar o discurso, Dilma foi cercada pelos militantes de base que queriam cumprimentá-la, tirar fotos e pedir para que ela assinasse suas camisas. Dilma ficou uma meia hora atendendo o público. Havia algo difícil de explicar, porque aquele fenômeno não era comum. Outras lideranças haviam passado pelo mesmo espaço, produzido discursos muito mais animados, e não tinham sido tão assediados quanto ela. Parecia que o fato de seu discurso ser mais ou menos empolgante não era assim tão significativo para uma boa parte da militância. O que importava é que Lula a tinha escolhido para ser sua sucessora. E ponto.
Naquele Fórum Social Mundial, outro fato ficou evidente: as divergências entre Dilma e Marina, por conta dos projetos hidrelétricos na Amazônia, haviam tomado uma proporção tal que dificultava, inclusive, a relação cordial entre ambas. Os petistas tomaram vários cuidados para que elas não se cruzassem nos eventos. E Marina já começava a ponderar a saída do PT, que viria a ocorrer no dia 19 de agosto daquele ano. Aliás, foi no Fórum Social Mundial, numa mesa que dividiu com Leonardo Boff, que Marina talvez tenha ouvido pela primeira vez uma multidão cantar: “Brasil, urgente, Marina presidente”.
Durante o ano de 2009, ficava claro tanto para Lula quanto para a maior parte dos dirigentes do PT que o candidato da oposição seria Serra e que Dilma polarizaria a disputa com ele. No meio daquele ano, se iniciou o esforço para que ela fosse a única candidata da base governista, de maneira que a disputa pudesse ser decidida, se possível, no primeiro turno. O então presidente do PT, Ricardo Berzoini, quem conduziu as negociações com o PMDB e os demais partidos da base. Ele consegu ir costurando as alianças com quase todos os partidos, e as chances da candidatura Ciro Gomes se viabilizar vão diminuindo. Berzoini e o grupo que trabalhava as alianças avaliava que, num dado instante, o próprio PSB desistiria da opção Ciro, principalmente por conta das questões regionais relacionadas principalmente ao Nordeste, como no caso de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, do Piaui e mesmo do Ceará, onde Cid Gomes era candidato à reeleição e preferia ir à disputa sem ter de enfrentar, por exemplo, a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins. Além disso, ainda havia o que negociar no Espírito Santo, onde o senador Renato Casagrande queria ser candidato a governador e precisava do apoio do PT.
Em meio a essas articulações, Marina se lançou candidata, e o jogo dá uma pequena embolada. A tese de Ciro Gomes, que viria a se confirmar, era de que com Marina na disputa, o segundo turno era inevitável. E Ciro avaliava que num segundo turno com Serra, Dilma teria problemas, pois o PV tenderia a apoiar o tucano.
O ano de 2009 terminou com Dilma participando de um encontro de prefeitos em Guarulhos, marcando a entrada deles nas articulações para fortalecer sua candidatura nos planos estaduais. Aliás, foi numa reunião com prefeitos, ainda em setembro de 2009, na sede nacional do PT, em Brasília, que Dilma ouviu pela primeira vez, em público, que teria de mudar sua postura se quisesse vencer a eleição. Entre os prefeitos presentes, estavam Ary Vanazzi (São Leopoldo/RS), João Coser (Vitória/ES), Elói Pietá (ex-prefeito de Guarulhos/SP) e Moema Gramacho (Lauro de Freitas/Bahia). Os participantes questionaram sobre a sua forma técnica de discursar e a sua pouca intimidade com os eleitores. A reunião não tinha sido convocada para isso, mas no meio da conversa, as sugestões e cobranças começaram a pipocar. Dilma ouviu com atenção e não reagiu mal às críticas. Ao contrário, fez um diálogo honesto com os prefeitos presentes e explicou que não era Lula, mas que queria contar com eles para melhorar sua performance.
No final de 2009, antes da entrada do ano eleitoral, houve, ainda, o 4º Processo de Eleições Diretas do PT (PED). Todas as chapas que disputaram, sem exceção, apoiaram o nome de Dilma como pré-candidata do partido. Nem Lula, na candidatura de 2002, teve esse privilégio – no processo, disputou uma prévia com o senador Eduardo Suplicy. Nesse período, já começavam a aparecer os que acreditavam que as coisas estavam se encaminhando bem para que a eleição pudesse ser decidida no primeiro turno, mesmo com a anunciada candidatura de Marina Silva.
No PT, a avaliação era a de que, sem um partido forte, sem alianças e sem tempo na TV, Marina não iria longe. Teria uma votação próxima à de Heloísa Helena (PSOL). Eram poucos que imaginavam que a candidata verde pudesse chegar aos 10%. Talvez nem no próprio PV alguém acreditasse numa votação de 20%.
Em fevereiro de 2010, Dilma é oficialmente homologada pré-candidata do PT. Serra ainda não tinha definido sua candidatura, mas Aécio já tinha saído do jogo em dezembro do ano anterior. No Congresso do partido, o discurso de Dilma já estava um pouco melhor, a postura da candidata também já era mais amigável e sua imagem era outra. Além da cirurgia plástica, que havia suavizado alguns dos seus traços faciais, a candidata tinha abandonado a “peruca básica” com a qual escondeu a perda de cabelos, por conta do tratamento do linfoma em 2009.
No Congresso petista, a sensação dos dirigentes era de que o partido que tinha elegido o primeiro presidente operário também elegeria a primeira mulher presidenta da República. O otimismo era geral. Não havia quem criticasse os movimentos da pré-campanha. E mesmo no debate das propostas do plano de governo, que foi conduzido por Marco Aurélio Garcia, as polêmicas não eram tão emocionantes quanto em outros tempos.
O primeiro tempo do jogo estava terminando com gosto de vitória. Mas muita emoção ainda estava reservada para o momento decisivo da disputa. Dilma já era candidata. Mas isso não era tudo. Havia uma campanha pela frente.
Fonte: Blog do Rovai
Dilma, antes de ser a candidata
Ela foi uma das últimas escolhidas de Lula para compor seu primeiro ministério e acabou se tornando a sua preferida para a missão mais importante, sucedê-lo. Mas durante um bom tempo, seu principal desafio foi o de convencer o PT de que estava preparada para a missão
Por Renato Rovai
Em 21 de junho de 2005, Dilma Rousseff foi ao Ministério das Minas e Energia para acertar os últimos detalhes com secretários, assessores e principalmente com o presidente da Empresa Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim – escolhido para ocupar interinamente a função de ministro até que o presidente Lula fizesse os últimos arranjos para garantir a governabilidade em um momento tão difícil. A posse de Dilma na Casa Civil estava marcada para as 16 horas. Ela assumiria o cargo em substituição a José Dirceu, histórica liderança petista afastada do cargo em meio à crise do mensalão.
Dilma foi escolhida pelo presidente para a função porque Lula decidira que precisava de alguém que não deixasse o governo parado enquanto a crise política prosseguia. Um gerente, não um articulador, no cargo. A coordenação política do governo e o enfrentamento da crise seriam realizados diretamente por ele, com a contribuição de Jaques Wagner, então ministro das Relações Institucionais, e Márcio Thomas Bastos, à época ministro da Justiça. À Dilma, estava reservado o papel de fazer o governo andar.
Lula foi conversar com os partidos para construir uma base política sólida no Congresso. Naquele momento, o PMDB tinha apenas dois ministérios e o PP estava fora do primeiro escalão, sendo que ocupava a presidência da Câmara com o deputado Severino Cavalcanti. Enquanto empossava Dilma, o presidente já negociava o Ministério das Cidades com o PP e a ampliação da cota do PMDB para quatro ministérios. O das Minas e Energia era um dos que entrara na negociação. No dia 6 de julho, Silas Rondeau deixava a presidência da Eletrobrás e assumia a pasta. O acordo estava selado, e o governo constituía uma maioria estreita no Congresso.
Dilma passava a fazer parte do círculo mais próximo do presidente Lula, na ocasião mais difícil do seu primeiro mandato. E desempenhou, naquele período de pouco mais de um ano antes da reeleição, um papel fundamental para que o governo tivesse uma lista de realizações, que permitisse ao presidente buscar a reeleição com chances reais de vitória.
No início de 2007, com Lula reeleito, vários nomes começaram a ser cogitados para disputar a sucessão pelo PT. Entre eles, Tarso Genro, Marta Suplicy, Fernando Haddad, Patrus Ananias e até mesmo Antônio Palocci, que havia caído no episódio do caseiro Francenildo. Havia gente que defendia, porém, que o partido não teria condições de construir uma alternativa viável para vencer a eleição e que deveria abrir mão da cabeça de chapa para fazer um acordo com Ciro Gomes (PSB). Várias lideranças importantes do petismo consideravam essa hipótese como bastante razoável, em conversas de bastidores. De vez em quando, o nome de Dilma era citado como mais um dos prováveis na bolsa de apostas. E quem sempre incluía a ministra entre os nomes fortes era o ex-deputado José Dirceu, que costumava dizer nas conversas sobre o tema: “prestem atenção na Dilma”.
O curioso é que ela entrava nas listas de apostas como opção porque possuía um perfil gerencial, já que no PT se imaginava que a disputa teria esse contorno se, do outro lado, estivesse José Serra, que acabara de vencer a eleição para o governo de São Paulo. Além disso, Dilma tinha um passado totalmente livre de denúncias e havia sido designada para comandar o principal programa do segundo mandato, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Mas seu nome era desdenhado por muitos. Os que não viam possibilidades de ela concorrer diziam, entre outras coisas que “não era conhecida”, “não tinha experiência com campanhas eleitorais”, “era dura demais”, “faltava-lhe tato político” e “criava muitas áreas de conflito”. Nesse período, não foram incomuns histórias de ministros que eram duramente cobrados por Dilma. Quando essas histórias se tornaram públicas, a ministra soltou uma frase irônica e que dialogou com a crítica: “Não sou criticada porque sou dura, mas porque sou mulher. Sou uma mulher dura, cercada por ministros meigos”, brincou. Mas, de repente, esse seu comportamento, mais ríspido e fechado, passou a ser encarado de outra forma por alguns personagens do primeiro escalão. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, considerado um dos mais próximos de Dilma, passou a desarmá-la usando a frase: “Dilminha, não fala assim que eu gamo.” A maneira brincalhona, desenvolvida por ele para lidar com o temperamento da ministra, teria ajudado não só outros ministros e executivos do governo a se relacionar com a “gerentona do PAC” como também fez com que ela passasse a ser mais delicada no trato com seus parceiros de governo.
Contudo, para Lula, isso não era um problema. Tanto que, em agosto de 2007, o jornal espanhol El Pais já especulava sobre o nome de Dilma para a sucessão de Lula. Assinada pelo correspondente do jornal Juan Arias, a reportagem fazia a seguinte análise: “Lula, ao convertê-la em ministra da Casa Civil, em seu braço direito e ao também ter encomendado a ela seu grande projeto econômico, o PAC, catapultou-a a ser a candidata natural à sua sucessão, visto que sua agremiação, o Partido dos Trabalhadores (PT), após a crise de 2005, não tem neste momento um candidato capaz de recolher a herança de popularidade de Lula.”
O cala-boca em Agripino e as eleições municipais
Em dezembro de 2007, realizou-se o 3º Processo de Eleições Diretas do PT (PED). E mesmo com a discreta participação de Dilma nas questões do partido, aquele debate se tornou fundamental para que a sua candidatura seguisse adiante. No primeiro turno daquele PED, realizado no dia 2, o deputado federal Ricardo Berzoini teve 129.191 votos (43,75%). Jilmar Tatto, 60.578, (20,51%), José Eduardo Cardozo, 55.891 (18,93%) e Valter Pomar, 33.755, (11,43%). Berzoini e Tatto foram para o segundo turno, que se deu no dia 16. Berzoini venceu.
Entre outros pontos, aquele PED construiu uma nova maioria no PT. Isso porque em vez de o grupo majoritário oferecer a vaga na Secretaria-Geral para o segundo colocado no pleito, Jilmar Tatto, o cargo foi negociado com o grupo de José Eduardo Cardozo, que viria a se tornar um dos coordenadores da campanha de Dilma. Também foi naquele pleito que foi abortado um movimento, externo e interno, que considerava a possibilidade de o candidato ser de outro partido da base. Pouco lembrado, esse episódio foi extremamente importante para a sucessão.
No primeiro semestre de 2008, pelas movimentações de Lula, formou-se a convicção de que Dilma era a sua escolhida para a sucessão presidencial. Nos bastidores petistas, o que se dizia é que o presidente bateu o martelo a favor dela quando começou a andar com Dilma pelas obras do PAC e viu as pessoas dizendo que queriam tirar fotos com “a mulher do Lula”.
O ano de 2008, porém, não começou bem para o governo. Em janeiro, eclodiu o escândalo dos cartões corporativos, que causou a demissão da ministra de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, e levou o ministro dos Esportes, Orlando Silva, a ter de enfrentar um processo absurdo por conta da compra de uma tapioca. A oposição entrou com um pedido de CPI e, no fim de março de 2008, já em clima de prévia das eleições municipais, uma reportagem publicada pela revista Veja acusava o Palácio do Planalto de montar um dossiê, que detalhava gastos da família de FHC quando este ocupara a presidência da República. A reportagem afirmava que os documentos estariam sendo usados para intimidar a oposição na CPI dos Cartões Corporativos.
Na sequência, em 28 de março, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem indicando que a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, teria dado a ordem para a organização do dossiê. Em 4 de abril, Dilma reconheceu que havia um banco de dados com aquelas informações, mas descartou que se tratasse de um dossiê. Evidente que aquilo não foi suficiente para acalmar a oposição. E a ministra foi convocada, em 7 de maio, para audiência na Comissão de Infra-Estrutura do Senado Federal, onde ficou à disposição dos senadores para tratar do assunto do suposto dossiê contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Naquele dia, Dilma mostrou que tinha estatura para ser a candidata do PT à sucessão de Lula. Ela foi ao Senado para ser abatida e saiu fortalecida.
O senador José Agripino Maia (DEM/RN) leu o seguinte trecho de uma entrevista que ministra deu à Folha de S. Paulo em 2003, e que só foi publicada em 2005:
Folha – Que lembranças a sra. guardou dos tempos de cadeia?
Dilma Rousseff – A prisão é uma coisa em que a gente se encontra com os limites da gente. É isso que às vezes é muito duro. Nos depoimentos, a gente mentia feito doido. Mentia muito, mas muito.
Após ler este trecho, Agripino sugeriu que se a ministra mentia muito durante a ditadura, também poderia estar mentindo sobre o vazamento de dados. A resposta de Dilma foi demolidora:
“Eu fui barbaramente torturada, senador. Qualquer pessoa que ousar falar a verdade para os torturadores, entrega os seus iguais. Eu me orgulho de ter mentido na tortura, senador. Porque mentir na tortura não é fácil. Salvei companheiros da tortura e da morte. Uma ditadura policiada é a impossibilidade de se dizer a verdade em qualquer circunstância. Não é possível supor que se dialogue no choque elétrico, no pau-de-arara. Na tortura, quem tem coragem e dignidade fala mentira. Isso integra a minha biografia, que eu tenho imenso orgulho.” E ainda acrescentou: “Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia. E eu acredito, senador, que nós estávamos em momentos diferentes da nossa vida em 70.”
Todos os veículos de comunicação reverberaram o “cala-boca” no líder do DEM, considerado por muitos como um dos senadores mais articulados do plenário. O escândalo do dossiê submergiu porque a forma firme e segura como Dilma reagiu à provocação de Agripino fez com que até senadores de oposição ficassem incomodados. Arthur Virgilio (PSDB/AM) levantou e saiu da sala depois daquele diálogo. Dilma começava a mostrar que era boa marinheira em águas turbulentas. E que, nos momentos difíceis, crescia, o que já havia ocorrido no episódio da crise do mensalão. As eleições municipais de 2008, mais do que um teste sobre a popularidade do governo, foram fundamentais para a construção de alianças regionais que apontassem para uma grande aliança capaz de eleger Dilma em 2010. Naquele momento, no PT, não se falava em outra candidatura. Dilma não era só a candidata de Lula, mas se tornara o nome do partido. Foi também na eleição municipal de 2008 que Lula começou a articular para neutralizar Aécio, sabendo da importância que Minas Gerais teria no resultado eleitoral de 2010. Na ocasião, Lula já estava convicto que o candidato do PSDB seria José Serra.
Há quem considere que, por esse motivo, ele deixou que se fizessem as articulações por Fernando Pimentel na disputa de Belo Horizonte. À época, em conversas reservadas, o prefeito alegava que, ao patrocinar uma candidatura conjunta com Aécio na capital mineira – a de Márcio Lacerda (PSB) –, plantava uma aproximação com o tucano, que seria benéfica ao partido em 2010. Nos cálculos de Pimentel, Aécio o apoiaria para o governo do estado e poderia inclusive ir buscar abrigo num partido aliado, como o PSB, se o clima entre ele e Serra atingisse níveis de tensão muito altos.
A direção nacional do PT era refratária à tese. E foram muitas as reuniões de dirigentes nacionais tentando demover Pimentel de seguir aquele caminho. Lula, porém, não fez movimentos que desautorizassem o prefeito. Isso permitia ao prefeito de Belo Horizonte dizer que tinha a compreensão de Lula e de outros ministros, incluindo Dilma, para as suas articulações.
A consolidação de Serra
Encerrada as eleições municipais de 2008, a mídia, principalmente a paulista, não teve dúvida em apontar o grande vencedor: José Serra. E praticamente lançou a sua candidatura à presidência. O primeiro parágrafo de um artigo assinado por Elio Gaspari, logo após o segundo turno, ilustra o tom das análises:
“A TENACIDADE (assim mesmo, a palavra toda em letras maiúsculas) e o sangue-frio de José Serra fizeram dele o maior vencedor da eleição de domingo. Aliou-se ao PMDB, elegeu seu poste, derrotou os adversários internos e, num lance de sorte cronológica, habilitou-se para uma liderança política qualificada para tratar com os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira.”
Lula contra-atacou e anunciou, pela primeira vez em público, que Dilma era a sua candidata. Ao contrário do que se costuma dizer, naquele momento, o PT já tinha absorvido o seu nome. O que havia, e isso perdurou até a primeira parte da campanha, era uma grande dúvida se ela seria capaz de empolgar a militância. Dúvida que, em muitos casos, beirava o ceticismo. Os discursos de Dilma eram considerados exageradamente técnicos, cansativos e sem emoção pela quase totalidade dos dirigentes petistas.
O primeiro “teste de fogo” público de Dilma com a militância aconteceu no Fórum Social de Belém, em janeiro de 2009. Ela foi convidada a falar num seminário organizado pela Secretaria de Mulheres do PT, na tenda de Cuba. A intenção era debater a participação feminina nos espaços do poder. Mais de duas mil pessoas esperavam a ministra naquela tarde de um sol escaldante. Um dia antes, num encontro com cerca de cem integrantes do Conselho Internacional do Fórum, ao comentar a proposta dos organizadores de realizar o próximo evento, em 2011, no exterior, Lula disse que “se for ainda em 2010 vou participar como presidente. Agora, se for em 2011, já vai ser a Dilma”. Não havia mais mistério algum sobre quem seria a candidata do presidente.
Foi nesse clima que a ministra chegou ao evento, ladeada pela governadora do estado, Ana Júlia Carepa. A governadora estava, então, com a popularidade em baixa (e não se recuperou, tanto que foi derrotada pelo tucano Simão Jatene, em outubro último) e, mesmo assim, ao falar, ofuscou o discurso de Dilma.
A fala da ministra da Casa Civil foi longa, enfadonha, técnica e sem empolgação, o que deixou muitos dirigentes petistas e militantes do Fórum ressabiados. Algumas pessoas começaram a achar que talvez fosse o caso de se criar um plano B para a hipótese de Dilma não vir a empolgar. E seus índices nas pesquisas ainda estavam na casa de um dígito. De qualquer maneira, mesmo sem brilhar, ao terminar o discurso, Dilma foi cercada pelos militantes de base que queriam cumprimentá-la, tirar fotos e pedir para que ela assinasse suas camisas. Dilma ficou uma meia hora atendendo o público. Havia algo difícil de explicar, porque aquele fenômeno não era comum. Outras lideranças haviam passado pelo mesmo espaço, produzido discursos muito mais animados, e não tinham sido tão assediados quanto ela. Parecia que o fato de seu discurso ser mais ou menos empolgante não era assim tão significativo para uma boa parte da militância. O que importava é que Lula a tinha escolhido para ser sua sucessora. E ponto.
Naquele Fórum Social Mundial, outro fato ficou evidente: as divergências entre Dilma e Marina, por conta dos projetos hidrelétricos na Amazônia, haviam tomado uma proporção tal que dificultava, inclusive, a relação cordial entre ambas. Os petistas tomaram vários cuidados para que elas não se cruzassem nos eventos. E Marina já começava a ponderar a saída do PT, que viria a ocorrer no dia 19 de agosto daquele ano. Aliás, foi no Fórum Social Mundial, numa mesa que dividiu com Leonardo Boff, que Marina talvez tenha ouvido pela primeira vez uma multidão cantar: “Brasil, urgente, Marina presidente”.
Durante o ano de 2009, ficava claro tanto para Lula quanto para a maior parte dos dirigentes do PT que o candidato da oposição seria Serra e que Dilma polarizaria a disputa com ele. No meio daquele ano, se iniciou o esforço para que ela fosse a única candidata da base governista, de maneira que a disputa pudesse ser decidida, se possível, no primeiro turno. O então presidente do PT, Ricardo Berzoini, quem conduziu as negociações com o PMDB e os demais partidos da base. Ele consegu ir costurando as alianças com quase todos os partidos, e as chances da candidatura Ciro Gomes se viabilizar vão diminuindo. Berzoini e o grupo que trabalhava as alianças avaliava que, num dado instante, o próprio PSB desistiria da opção Ciro, principalmente por conta das questões regionais relacionadas principalmente ao Nordeste, como no caso de Pernambuco, do Rio Grande do Norte, do Piaui e mesmo do Ceará, onde Cid Gomes era candidato à reeleição e preferia ir à disputa sem ter de enfrentar, por exemplo, a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins. Além disso, ainda havia o que negociar no Espírito Santo, onde o senador Renato Casagrande queria ser candidato a governador e precisava do apoio do PT.
Em meio a essas articulações, Marina se lançou candidata, e o jogo dá uma pequena embolada. A tese de Ciro Gomes, que viria a se confirmar, era de que com Marina na disputa, o segundo turno era inevitável. E Ciro avaliava que num segundo turno com Serra, Dilma teria problemas, pois o PV tenderia a apoiar o tucano.
O ano de 2009 terminou com Dilma participando de um encontro de prefeitos em Guarulhos, marcando a entrada deles nas articulações para fortalecer sua candidatura nos planos estaduais. Aliás, foi numa reunião com prefeitos, ainda em setembro de 2009, na sede nacional do PT, em Brasília, que Dilma ouviu pela primeira vez, em público, que teria de mudar sua postura se quisesse vencer a eleição. Entre os prefeitos presentes, estavam Ary Vanazzi (São Leopoldo/RS), João Coser (Vitória/ES), Elói Pietá (ex-prefeito de Guarulhos/SP) e Moema Gramacho (Lauro de Freitas/Bahia). Os participantes questionaram sobre a sua forma técnica de discursar e a sua pouca intimidade com os eleitores. A reunião não tinha sido convocada para isso, mas no meio da conversa, as sugestões e cobranças começaram a pipocar. Dilma ouviu com atenção e não reagiu mal às críticas. Ao contrário, fez um diálogo honesto com os prefeitos presentes e explicou que não era Lula, mas que queria contar com eles para melhorar sua performance.
No final de 2009, antes da entrada do ano eleitoral, houve, ainda, o 4º Processo de Eleições Diretas do PT (PED). Todas as chapas que disputaram, sem exceção, apoiaram o nome de Dilma como pré-candidata do partido. Nem Lula, na candidatura de 2002, teve esse privilégio – no processo, disputou uma prévia com o senador Eduardo Suplicy. Nesse período, já começavam a aparecer os que acreditavam que as coisas estavam se encaminhando bem para que a eleição pudesse ser decidida no primeiro turno, mesmo com a anunciada candidatura de Marina Silva.
No PT, a avaliação era a de que, sem um partido forte, sem alianças e sem tempo na TV, Marina não iria longe. Teria uma votação próxima à de Heloísa Helena (PSOL). Eram poucos que imaginavam que a candidata verde pudesse chegar aos 10%. Talvez nem no próprio PV alguém acreditasse numa votação de 20%.
Em fevereiro de 2010, Dilma é oficialmente homologada pré-candidata do PT. Serra ainda não tinha definido sua candidatura, mas Aécio já tinha saído do jogo em dezembro do ano anterior. No Congresso do partido, o discurso de Dilma já estava um pouco melhor, a postura da candidata também já era mais amigável e sua imagem era outra. Além da cirurgia plástica, que havia suavizado alguns dos seus traços faciais, a candidata tinha abandonado a “peruca básica” com a qual escondeu a perda de cabelos, por conta do tratamento do linfoma em 2009.
No Congresso petista, a sensação dos dirigentes era de que o partido que tinha elegido o primeiro presidente operário também elegeria a primeira mulher presidenta da República. O otimismo era geral. Não havia quem criticasse os movimentos da pré-campanha. E mesmo no debate das propostas do plano de governo, que foi conduzido por Marco Aurélio Garcia, as polêmicas não eram tão emocionantes quanto em outros tempos.
O primeiro tempo do jogo estava terminando com gosto de vitória. Mas muita emoção ainda estava reservada para o momento decisivo da disputa. Dilma já era candidata. Mas isso não era tudo. Havia uma campanha pela frente.
Fonte: Blog do Rovai
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
MÍDIA - As revelações do Wikileaks.
Mauro Santayana: as revelações do WikiLeaks e paranoia americana.
Dentre os documentos diplomáticos divulgados, há um, sobre o Brasil, que merece comentário especial. Os norte-americanos, ao analisarem nossa política estratégica, afirmam que há uma tradicional "paranoia" do Brasil com relação à Amazônia.
Por Mauro Santayana, no Jornal do Brasil
O vocábulo vem a calhar, como dizem nossos irmãos portugueses. Paranoia, segundo os especialistas, é uma visão paralela da realidade, uma deturpação mental, que pode designar personalidade reduzida e atormentada pelo medo, mas também identificar alguém que se julga em plano superior, como um titã, ou um deus. Se partirmos dessa definição científica, os Estados Unidos são exemplo clássico de nação paranoica.
O que é a grande virtude dos Estados Unidos, a colonização do território pelos puritanos ingleses, e sua obstinação pela liberdade, pode ser entendido, também, como fragilidade. O fundamentalismo protestante, que se expressou na perseguição às bruxas e na violência contra os pecadores, é bem reconstituído por Nathaniel Hawthorne em A Letra Escarlate, e pela peça clássica de Arthur Miller The crucible (As Feiticeiras de Salém ). Nessa obra, Miller faz inteligente ligação entre a intolerância ensandecida dos peregrinos e a "caça às bruxas" do macartismo dos anos 50.
A paranoia norte-americana se revela na oscilação entre o medo e a megalomania, que lhes serve como escudo contra o sentimento de perseguição de que padecem. Enfim, em termos modernos de psiquiatria, trata-se de um temperamento bipolar, ou psicose maníaco-depressiva. Até mesmo na ficção, na fantasia, os Estados Unidos expressam sua paranoia, ao criar heróis como o super-homem, capazes de vencer a gravidade, blindar o corpo, ou adquirir a fisiologia da aranha e a força dos titãs.
É assim que se explica a preocupação da Secretaria de Estado dos Estados Unidos em conhecer a íris dos dirigentes paraguaios (e provavelmente de muitos outros políticos do mundo), além de suas impressões digitais e seu DNA: que perigo pode representar para os Estados Unidos o pequeno país mediterrâneo da América do Sul, com as dificuldades econômicas que todos conhecem?
Esse jogo dialético da paranoia, entre o medo e a megalomania, encontra expressão política clara em O Destino Manifesto. A ideia de que devem proteger-se contra os inimigos deve ser vencida pela ampliação de suas "virtudes", mediante a expansão territorial.
No mesmo ano em que John O'Sullivan criava a expressão na Democratic Review (1857), o presidente Buchanan (hoje marca de uísque) dizia, ao assumir o cargo, em março, que "a expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, do Ártico à América do Sul, é o destino de nossa raça, e nada pode detê-la". A expansão já se iniciara, com a usurpação da maior parte do México, na Guerra de 1848-49, e seria retomada por McKinley, na anexação do Havaí e na conquista das possessões espanholas no Caribe e nas Filipinas.
Os Estados Unidos se acham perseguidos pelo jornalista Julian Assange. É clara a ligação entre o seu trabalho e o pedido de que seja preso, sob a estranha acusação de estupro na Suécia.
A história da cobiça sobre a Amazônia é bem conhecida, para que não seja paranoica a nossa preocupação com a área. Essa cobiça levou-os e aos ingleses a criarem o Anglo-Bolivian Syndicate, que pretendia ocupar um enclave no noroeste amazônico, a partir do Acre.
Há mais coisas a vir, das revelações do WikiLeaks, e muitas delas, pelo que se anuncia, nos trarão constrangimentos, porque denunciarão atos de subserviência, talvez mesmo de traição explícita, de personalidades políticas brasileiras. Há quem veja nos vazamentos uma intenção deliberada de policy makers americanos, a fim de provocar a cizânia entre os países, que a sua paranoia identifica como eventuais adversários. Embora tudo seja possível, isso parece improvável.
Fonte: JB online
Dentre os documentos diplomáticos divulgados, há um, sobre o Brasil, que merece comentário especial. Os norte-americanos, ao analisarem nossa política estratégica, afirmam que há uma tradicional "paranoia" do Brasil com relação à Amazônia.
Por Mauro Santayana, no Jornal do Brasil
O vocábulo vem a calhar, como dizem nossos irmãos portugueses. Paranoia, segundo os especialistas, é uma visão paralela da realidade, uma deturpação mental, que pode designar personalidade reduzida e atormentada pelo medo, mas também identificar alguém que se julga em plano superior, como um titã, ou um deus. Se partirmos dessa definição científica, os Estados Unidos são exemplo clássico de nação paranoica.
O que é a grande virtude dos Estados Unidos, a colonização do território pelos puritanos ingleses, e sua obstinação pela liberdade, pode ser entendido, também, como fragilidade. O fundamentalismo protestante, que se expressou na perseguição às bruxas e na violência contra os pecadores, é bem reconstituído por Nathaniel Hawthorne em A Letra Escarlate, e pela peça clássica de Arthur Miller The crucible (As Feiticeiras de Salém ). Nessa obra, Miller faz inteligente ligação entre a intolerância ensandecida dos peregrinos e a "caça às bruxas" do macartismo dos anos 50.
A paranoia norte-americana se revela na oscilação entre o medo e a megalomania, que lhes serve como escudo contra o sentimento de perseguição de que padecem. Enfim, em termos modernos de psiquiatria, trata-se de um temperamento bipolar, ou psicose maníaco-depressiva. Até mesmo na ficção, na fantasia, os Estados Unidos expressam sua paranoia, ao criar heróis como o super-homem, capazes de vencer a gravidade, blindar o corpo, ou adquirir a fisiologia da aranha e a força dos titãs.
É assim que se explica a preocupação da Secretaria de Estado dos Estados Unidos em conhecer a íris dos dirigentes paraguaios (e provavelmente de muitos outros políticos do mundo), além de suas impressões digitais e seu DNA: que perigo pode representar para os Estados Unidos o pequeno país mediterrâneo da América do Sul, com as dificuldades econômicas que todos conhecem?
Esse jogo dialético da paranoia, entre o medo e a megalomania, encontra expressão política clara em O Destino Manifesto. A ideia de que devem proteger-se contra os inimigos deve ser vencida pela ampliação de suas "virtudes", mediante a expansão territorial.
No mesmo ano em que John O'Sullivan criava a expressão na Democratic Review (1857), o presidente Buchanan (hoje marca de uísque) dizia, ao assumir o cargo, em março, que "a expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, do Ártico à América do Sul, é o destino de nossa raça, e nada pode detê-la". A expansão já se iniciara, com a usurpação da maior parte do México, na Guerra de 1848-49, e seria retomada por McKinley, na anexação do Havaí e na conquista das possessões espanholas no Caribe e nas Filipinas.
Os Estados Unidos se acham perseguidos pelo jornalista Julian Assange. É clara a ligação entre o seu trabalho e o pedido de que seja preso, sob a estranha acusação de estupro na Suécia.
A história da cobiça sobre a Amazônia é bem conhecida, para que não seja paranoica a nossa preocupação com a área. Essa cobiça levou-os e aos ingleses a criarem o Anglo-Bolivian Syndicate, que pretendia ocupar um enclave no noroeste amazônico, a partir do Acre.
Há mais coisas a vir, das revelações do WikiLeaks, e muitas delas, pelo que se anuncia, nos trarão constrangimentos, porque denunciarão atos de subserviência, talvez mesmo de traição explícita, de personalidades políticas brasileiras. Há quem veja nos vazamentos uma intenção deliberada de policy makers americanos, a fim de provocar a cizânia entre os países, que a sua paranoia identifica como eventuais adversários. Embora tudo seja possível, isso parece improvável.
Fonte: JB online
ANOS DE CHUMBO - Inês: "manter Jobim é homenagear Médici e copiar Pinochet.
Para variar, Maria Inês Nassif escreve magistral artigo na pág. A10 do Valor de hoje: “Divã para livrar o país da síndrome do quepe”.
“O período militar é um cadáver insepulto”, diz ela na primeira linha.
Nassif lembra que a campanha presidencial de 2010 bateu de novo na porta dos quartéis.
Foi o que fez Padim Pade Cerra no Clube da Aeronáutica, no Rio, em reunião sem jornalistas: lembrou que Dilma tinha sido guerrilheira.
Ou seja: “A contaminação da oposição pelo velho udenismo (ou seja, FHC e Padim Pade Cerra – PHA) trouxe junto o hábito de pedir a tutela dos quartéis, quando seu projeto político não consegue se viabilizar pelo voto”, diz ela.
E aí, se forja um consenso: “… a direita tem legitimidade para levar o confronto ao limite (o Golpe – PHA), enquanto, do centro à esquerda, os atores políticos se tornam irresponsáveis se não estiverem sempre conciliando” (como escolher e manter no Ministério da Defesa um serrista como Nelson Johnbim – PHA).
Aí, Inês Nassif enfrenta todo o PiG (*) tupiniquim e põe o dedo na ferida: Nassif acredita no WikiLeaks.
Johnbim se fortaleceu no Governo Lula ao detonar a investigação sobre o homem da caixa preta da Republica – o passador de bola apanhado no ato de passar bola, Daniel Dantas.
Fortaleceu-se ao detonar todos os que tentaram institucionalizar a revisão dos crimes de tortura no regime militar.
Johnbim está sentado em cima da tortura e fez o que os militares brasileiros – jamais confrontados – queriam: manter a tortura intocada – PHA
Raymundo Faoro disse ao Mino Carta, quando Johnbim começou a despontar, ao lado de Fernando Henrique Cardoso, na Constituinte: não confie nesse rapaz.
Faoro também era gaúcho e conhecia chimangos e maragatos.
Esse mesmo Johnbim aparece agora no WikiLeaks – e só o Brasil não leva o WikiLeaks a sério … –, onde “expôs suas divergências com o Ministério das Relações Exteriores a ninguém menos que o Embaixador dos Estados Unidos. “
“Gentilmente cedeu ao embaixador a informação dada confidencialmente por seu chefe, o Presidente da República, sobre o estado de saúde do presidente da Bolívia.”
“O Ministério da Defesa – e, portanto, as Forças Aramadas – não se integra a um governo legitimamente eleito, mas se mantém no Governo com altíssimo grau de autonomia, graças às ondas de pânico criadas por grupos de direita”, (como seu companheiro de apartamento funcional, Pade Cerra – PHA).
“E paga o mico das inconfidências de um ‘ministro da Defesa invulgarmente ativo’, segundo definição do próprio Sobel em um de seus telegramas.”
Johnbim na Defesa é uma singela homenagem ao regime militar, insepulto:
“Não deve ser à toa que … a turma que se forma este ano na Academia Militar de Agulhas Negras (Aman) tenha se batizado com o nome de Emilio Garrastazu Médici, presidente militar do período mais sangrento da ditadura”, diz Inês Nassif.
Fonte: Conversa Afiada.
“O período militar é um cadáver insepulto”, diz ela na primeira linha.
Nassif lembra que a campanha presidencial de 2010 bateu de novo na porta dos quartéis.
Foi o que fez Padim Pade Cerra no Clube da Aeronáutica, no Rio, em reunião sem jornalistas: lembrou que Dilma tinha sido guerrilheira.
Ou seja: “A contaminação da oposição pelo velho udenismo (ou seja, FHC e Padim Pade Cerra – PHA) trouxe junto o hábito de pedir a tutela dos quartéis, quando seu projeto político não consegue se viabilizar pelo voto”, diz ela.
E aí, se forja um consenso: “… a direita tem legitimidade para levar o confronto ao limite (o Golpe – PHA), enquanto, do centro à esquerda, os atores políticos se tornam irresponsáveis se não estiverem sempre conciliando” (como escolher e manter no Ministério da Defesa um serrista como Nelson Johnbim – PHA).
Aí, Inês Nassif enfrenta todo o PiG (*) tupiniquim e põe o dedo na ferida: Nassif acredita no WikiLeaks.
Johnbim se fortaleceu no Governo Lula ao detonar a investigação sobre o homem da caixa preta da Republica – o passador de bola apanhado no ato de passar bola, Daniel Dantas.
Fortaleceu-se ao detonar todos os que tentaram institucionalizar a revisão dos crimes de tortura no regime militar.
Johnbim está sentado em cima da tortura e fez o que os militares brasileiros – jamais confrontados – queriam: manter a tortura intocada – PHA
Raymundo Faoro disse ao Mino Carta, quando Johnbim começou a despontar, ao lado de Fernando Henrique Cardoso, na Constituinte: não confie nesse rapaz.
Faoro também era gaúcho e conhecia chimangos e maragatos.
Esse mesmo Johnbim aparece agora no WikiLeaks – e só o Brasil não leva o WikiLeaks a sério … –, onde “expôs suas divergências com o Ministério das Relações Exteriores a ninguém menos que o Embaixador dos Estados Unidos. “
“Gentilmente cedeu ao embaixador a informação dada confidencialmente por seu chefe, o Presidente da República, sobre o estado de saúde do presidente da Bolívia.”
“O Ministério da Defesa – e, portanto, as Forças Aramadas – não se integra a um governo legitimamente eleito, mas se mantém no Governo com altíssimo grau de autonomia, graças às ondas de pânico criadas por grupos de direita”, (como seu companheiro de apartamento funcional, Pade Cerra – PHA).
“E paga o mico das inconfidências de um ‘ministro da Defesa invulgarmente ativo’, segundo definição do próprio Sobel em um de seus telegramas.”
Johnbim na Defesa é uma singela homenagem ao regime militar, insepulto:
“Não deve ser à toa que … a turma que se forma este ano na Academia Militar de Agulhas Negras (Aman) tenha se batizado com o nome de Emilio Garrastazu Médici, presidente militar do período mais sangrento da ditadura”, diz Inês Nassif.
Fonte: Conversa Afiada.
PETRÓLEO - Quem são os "trairas"
Quem são os traíras que votaram contra a Petrobrás
Itagiba, Gabeira e Rodrigo Maia, os melhores amigos do Cerra
O Conversa Afiada republica post do blog Amigos do Presidente Lula:
Os 71 traidores da Pátria que votaram contra o Pré-sal para os brasileiros
Por 204 votos a favor, 66 contra, 2 abstenções e 3 obstruções, os deputados aprovaram na noite desta quarta-feira (1º) o projeto do marco regulatório do pré-sal, que institui o modelo de partilha e cria o Fundo Social.
Os 71 traidores (66 contra + 2 abstenções + 3 obstrução) votaram contra o povo brasileiro ficar com uma parcela maior da riqueza, e entregá-las para os estrangeiros. Por isso o voto dele significa que foi um voto de lesa-pátria e de lesar o povo brasileiro.
Tucanos e DEMos são os partidos mais traidores do Brasil:
PSDB: 94% de traição (34 do contra e 2 a favor)
DEMOS: 92% de traição (22 do contra e 2 a favor)
PR: 33% de traição (7 do contra e 14 a favor)
PPS: 25% de traição (1 do contra e 3 a favor)
PV: 13% de traição (1 do contra * Gabeira, e 7 a favor)
PDT: 13% de traição (2 do contra e 13 a favor)
PSB: 11% de traição (2 do contra e 16 a favor)
PMDB: 3% de traição (1 do contra * Raul Henry, e 37 a favor)
PTC: só um deputado presente (Paes de Lira/SP) e fez obstrução.
PCdoB, PHS, PMN, PP, PRB, PSC, PSOL, PT, PTB só tiveram votos a favor, nenhuma traição.
O levantamento não levou em conta os deputados faltosos, computando apenas os que compareceram à sessão.
Relação dos deputados traíras:
AMAPÁ:
Lucenira Pimentel /PR/AP
BAHIA:
Fábio Souto /DEM/BA
Jorge Khoury /DEM/BA
José Carlos Aleluia /DEM/BA
João Almeida /PSDB/BA
Jutahy Junior /PSDB/BA
CEARÁ:
Raimundo Gomes de Matos /PSDB/CE
DISTRITO FEDERAL:
Jofran Frejat /PR/DF
ESPÍRITO SANTO:
Luiz Paulo Vellozo Lucas /PSDB/ES
Capitão Assumção /PSB/ES (Obstrução)
GOIÁS:
Sandro Mabel /PR/GO
João Campos /PSDB/GO
Leonardo Vilela /PSDB/GO
Professora Raquel Teixeira /PSDB/GO
MARANHÃO:
Davi Alves Silva Júnior /PR/MA
Pinto Itamaraty /PSDB/MA
MINAS GERAIS:
Marcos Montes /DEM/MG
Vitor Penido /DEM/MG
Ademir Camilo /PDT/MG
Júlio Delgado /PSB/MG
Eduardo Barbosa /PSDB/MG
Paulo Abi-Ackel /PSDB/MG
Rafael Guerra /PSDB/MG
Rodrigo de Castro /PSDB/MG
MATO GROSSO:
Wellington Fagundes /PR/MT
Thelma de Oliveira /PSDB/MT
PARÁ:
Lira Maia /DEM/PA
Lúcio Vale /PR/PA
Nilson Pinto /PSDB/PA
Zenaldo Coutinho /PSDB/PA
PARAÍBA:
Rômulo Gouveia /PSDB/PB
Major Fábio /DEM/PB (Obstrução)
PERNAMBUCO:
Raul Henry /PMDB/PE
Bruno Araújo /PSDB/PE
Bruno Rodrigues /PSDB/PE
PIAUÍ:
José Maia Filho /DEM/PI
Júlio Cesar /DEM/PI
PARANÁ:
Alceni Guerra /DEM/PR
Cassio Taniguchi /DEM/PR
Eduardo Sciarra /DEM/PR
Luiz Carlos Setim /DEM/PR
Alfredo Kaefer /PSDB/PR
Gustavo Fruet /PSDB/PR
Luiz Carlos Hauly /PSDB/PR
RIO DE JANEIRO:
Rodrigo Maia /DEM/RJ
Rogerio Lisboa /DEM/RJ
Andreia Zito /PSDB/RJ
Marcelo Itagiba /PSDB/RJ
Otavio Leite /PSDB/RJ
Fernando Gabeira /PV/RJ
RIO GRANDE DO NORTE:
Rogério Marinho /PSDB/RN
RORAIMA:
Francisco Rodrigues /DEM/RR
Sá /PR/RR
RIO GRANDE DO SUL:
Germano Bonow /DEM/RS
Cláudio Diaz /PSDB/RS
SANTA CATARINA:
Paulo Bornhausen /DEM/SC
Paulo Bauer /PSDB/SC
SERGIPE:
Albano Franco /PSDB/SE
Mendonça Prado /DEM/SE
Pedro Valadares /DEM/SE (Abstenção)
SÃO PAULO:
Walter Ihoshi /DEM/SP
William Woo /PPS/SP
Duarte Nogueira /PSDB/SP
Emanuel Fernandes /PSDB/SP
José C Stangarlini /PSDB/SP
Lobbe Neto /PSDB/SP
Silvio Torres /PSDB/SP
Vanderlei Macris /PSDB/SP
Fernando Chiarelli /PDT/SP (Abstenção)
Paes de Lira /PTC/SP (Obstrução)
TOCANTINS:
João Oliveira /DEM/
Fonte: Blog Conversa Afiada.
Itagiba, Gabeira e Rodrigo Maia, os melhores amigos do Cerra
O Conversa Afiada republica post do blog Amigos do Presidente Lula:
Os 71 traidores da Pátria que votaram contra o Pré-sal para os brasileiros
Por 204 votos a favor, 66 contra, 2 abstenções e 3 obstruções, os deputados aprovaram na noite desta quarta-feira (1º) o projeto do marco regulatório do pré-sal, que institui o modelo de partilha e cria o Fundo Social.
Os 71 traidores (66 contra + 2 abstenções + 3 obstrução) votaram contra o povo brasileiro ficar com uma parcela maior da riqueza, e entregá-las para os estrangeiros. Por isso o voto dele significa que foi um voto de lesa-pátria e de lesar o povo brasileiro.
Tucanos e DEMos são os partidos mais traidores do Brasil:
PSDB: 94% de traição (34 do contra e 2 a favor)
DEMOS: 92% de traição (22 do contra e 2 a favor)
PR: 33% de traição (7 do contra e 14 a favor)
PPS: 25% de traição (1 do contra e 3 a favor)
PV: 13% de traição (1 do contra * Gabeira, e 7 a favor)
PDT: 13% de traição (2 do contra e 13 a favor)
PSB: 11% de traição (2 do contra e 16 a favor)
PMDB: 3% de traição (1 do contra * Raul Henry, e 37 a favor)
PTC: só um deputado presente (Paes de Lira/SP) e fez obstrução.
PCdoB, PHS, PMN, PP, PRB, PSC, PSOL, PT, PTB só tiveram votos a favor, nenhuma traição.
O levantamento não levou em conta os deputados faltosos, computando apenas os que compareceram à sessão.
Relação dos deputados traíras:
AMAPÁ:
Lucenira Pimentel /PR/AP
BAHIA:
Fábio Souto /DEM/BA
Jorge Khoury /DEM/BA
José Carlos Aleluia /DEM/BA
João Almeida /PSDB/BA
Jutahy Junior /PSDB/BA
CEARÁ:
Raimundo Gomes de Matos /PSDB/CE
DISTRITO FEDERAL:
Jofran Frejat /PR/DF
ESPÍRITO SANTO:
Luiz Paulo Vellozo Lucas /PSDB/ES
Capitão Assumção /PSB/ES (Obstrução)
GOIÁS:
Sandro Mabel /PR/GO
João Campos /PSDB/GO
Leonardo Vilela /PSDB/GO
Professora Raquel Teixeira /PSDB/GO
MARANHÃO:
Davi Alves Silva Júnior /PR/MA
Pinto Itamaraty /PSDB/MA
MINAS GERAIS:
Marcos Montes /DEM/MG
Vitor Penido /DEM/MG
Ademir Camilo /PDT/MG
Júlio Delgado /PSB/MG
Eduardo Barbosa /PSDB/MG
Paulo Abi-Ackel /PSDB/MG
Rafael Guerra /PSDB/MG
Rodrigo de Castro /PSDB/MG
MATO GROSSO:
Wellington Fagundes /PR/MT
Thelma de Oliveira /PSDB/MT
PARÁ:
Lira Maia /DEM/PA
Lúcio Vale /PR/PA
Nilson Pinto /PSDB/PA
Zenaldo Coutinho /PSDB/PA
PARAÍBA:
Rômulo Gouveia /PSDB/PB
Major Fábio /DEM/PB (Obstrução)
PERNAMBUCO:
Raul Henry /PMDB/PE
Bruno Araújo /PSDB/PE
Bruno Rodrigues /PSDB/PE
PIAUÍ:
José Maia Filho /DEM/PI
Júlio Cesar /DEM/PI
PARANÁ:
Alceni Guerra /DEM/PR
Cassio Taniguchi /DEM/PR
Eduardo Sciarra /DEM/PR
Luiz Carlos Setim /DEM/PR
Alfredo Kaefer /PSDB/PR
Gustavo Fruet /PSDB/PR
Luiz Carlos Hauly /PSDB/PR
RIO DE JANEIRO:
Rodrigo Maia /DEM/RJ
Rogerio Lisboa /DEM/RJ
Andreia Zito /PSDB/RJ
Marcelo Itagiba /PSDB/RJ
Otavio Leite /PSDB/RJ
Fernando Gabeira /PV/RJ
RIO GRANDE DO NORTE:
Rogério Marinho /PSDB/RN
RORAIMA:
Francisco Rodrigues /DEM/RR
Sá /PR/RR
RIO GRANDE DO SUL:
Germano Bonow /DEM/RS
Cláudio Diaz /PSDB/RS
SANTA CATARINA:
Paulo Bornhausen /DEM/SC
Paulo Bauer /PSDB/SC
SERGIPE:
Albano Franco /PSDB/SE
Mendonça Prado /DEM/SE
Pedro Valadares /DEM/SE (Abstenção)
SÃO PAULO:
Walter Ihoshi /DEM/SP
William Woo /PPS/SP
Duarte Nogueira /PSDB/SP
Emanuel Fernandes /PSDB/SP
José C Stangarlini /PSDB/SP
Lobbe Neto /PSDB/SP
Silvio Torres /PSDB/SP
Vanderlei Macris /PSDB/SP
Fernando Chiarelli /PDT/SP (Abstenção)
Paes de Lira /PTC/SP (Obstrução)
TOCANTINS:
João Oliveira /DEM/
Fonte: Blog Conversa Afiada.
POLÍTICA - A traição de Jobim.
Mair Pena Neto.
A presidente eleita Dilma Rousseff tem uma excelente oportunidade de se livrar de um grande problema no nascedouro. Desconvidar, se é que o convite foi feito, o ministro da Defesa Nelson Jobim para continuar à frente da pasta em seu governo. O argumento seria de traição à pátria por passar informações privilegiadas aos Estados Unidos, como revelaram os documentos vazados pelo site Wikileaks.
A palavra traição pode soar forte, já que Jobim não entregou nenhum dado que ameaçasse a segurança do país, mas se valeu do cargo para transmitir ao embaixador do EUA no Brasil, Clifford Sobel, informações confidenciais, às quais só teve acesso pelo cargo que ocupa.
Jobim jamais poderia ter dito ao embaixador americano, dias depois de uma visita do presidente Lula a La Paz, da qual participou, que o presidente boliviano Evo Morales teria um diagnóstico de câncer e citado, inclusive, uma oferta brasileira de um tratamento em São Paulo. A doença de qualquer presidente é um assunto estratégico de cada país, e, no caso de Morales, tinha um caráter ainda mais relevante por se tratar de um desafeto do governo americano. O ministro brasileiro não é nenhum inocente para alegar que teria feito apenas um comentário. Ele sabia, se o fato for confirmado, que detinha uma informação importante e de grande interesse para os EUA. Se a passou foi com algum propósito cuja explicação deve à sociedade brasileira.
Se tal fato parece insuficiente, Jobim incorreu em falta ainda mais grave ao falar ao embaixador de inclinação antiamericana do Itamaraty e acusar um colega de governo, o então secretário- geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, de ter ódio aos EUA e trabalhar para criar problemas nas relações.
A política externa brasileira deu um salto de qualidade no governo Lula e ganhou respeitabilidade mundial para ser exposta, mesmo que sob a ótica individual e limitada, por um ministro de governo, que deveria ser investigado desde já com vistas a uma possível exoneração caso os fatos fossem comprovados. Os EUA não negaram a veracidade dos documentos de sua diplomacia, apresentados pelo Wikileaks, e os relatos das correspondências são detalhados o suficiente para incriminar os envolvidos.
A Jobim, como ministro do governo brasileiro, jamais competiria externar a um representante estrangeiro orientações da política externa do país. As revelações do Wikileaks expuseram também um brasileiro subalterno, que funcionou como fonte de informação do governo americano. O protagonismo do Brasil no cenário internacional foi conquistado arduamente para ser ridicularizado por um político que parece se orientar pela famosa frase de Juracy Magalhães de que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.
O presidente Lula peca ao minimizar os documentos secretos da diplomacia americana e colocar a palavra de Jobim contra a de Sobel sem a menor investigação. Se pretende evitar problemas no último mês de seu governo, ao menos poderia impedir o prosseguimento dos mesmos no mandato de sua sucessora.
Jobim sempre foi um bufão, ávido de poder, que prestou péssimos serviços ao país, atuando contra o Plano Nacional de Direitos Humanos e contribuindo para prejudicar a Operação Satiagraha ao denunciar em reunião da coordenação do governo a compra pela Abin de equipamentos de escutas telefônicas que poderiam ter grampeado o então presidente do STF Gilmar Mendes. A suposta escuta, que jamais foi comprovada, custou o afastamento do diretor-geral da agência de inteligência, Paulo Lacerda
Já os serviços prestados aos EUA foram reconhecidos pelo embaixador Sobel, que classificou o ministro da Defesa como “um dos mais confiáveis líderes no Brasil”. Confiável certamente para os EUA, mas não para o Brasil.
Fonte: Direto da Redação.
A presidente eleita Dilma Rousseff tem uma excelente oportunidade de se livrar de um grande problema no nascedouro. Desconvidar, se é que o convite foi feito, o ministro da Defesa Nelson Jobim para continuar à frente da pasta em seu governo. O argumento seria de traição à pátria por passar informações privilegiadas aos Estados Unidos, como revelaram os documentos vazados pelo site Wikileaks.
A palavra traição pode soar forte, já que Jobim não entregou nenhum dado que ameaçasse a segurança do país, mas se valeu do cargo para transmitir ao embaixador do EUA no Brasil, Clifford Sobel, informações confidenciais, às quais só teve acesso pelo cargo que ocupa.
Jobim jamais poderia ter dito ao embaixador americano, dias depois de uma visita do presidente Lula a La Paz, da qual participou, que o presidente boliviano Evo Morales teria um diagnóstico de câncer e citado, inclusive, uma oferta brasileira de um tratamento em São Paulo. A doença de qualquer presidente é um assunto estratégico de cada país, e, no caso de Morales, tinha um caráter ainda mais relevante por se tratar de um desafeto do governo americano. O ministro brasileiro não é nenhum inocente para alegar que teria feito apenas um comentário. Ele sabia, se o fato for confirmado, que detinha uma informação importante e de grande interesse para os EUA. Se a passou foi com algum propósito cuja explicação deve à sociedade brasileira.
Se tal fato parece insuficiente, Jobim incorreu em falta ainda mais grave ao falar ao embaixador de inclinação antiamericana do Itamaraty e acusar um colega de governo, o então secretário- geral do Ministério das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, de ter ódio aos EUA e trabalhar para criar problemas nas relações.
A política externa brasileira deu um salto de qualidade no governo Lula e ganhou respeitabilidade mundial para ser exposta, mesmo que sob a ótica individual e limitada, por um ministro de governo, que deveria ser investigado desde já com vistas a uma possível exoneração caso os fatos fossem comprovados. Os EUA não negaram a veracidade dos documentos de sua diplomacia, apresentados pelo Wikileaks, e os relatos das correspondências são detalhados o suficiente para incriminar os envolvidos.
A Jobim, como ministro do governo brasileiro, jamais competiria externar a um representante estrangeiro orientações da política externa do país. As revelações do Wikileaks expuseram também um brasileiro subalterno, que funcionou como fonte de informação do governo americano. O protagonismo do Brasil no cenário internacional foi conquistado arduamente para ser ridicularizado por um político que parece se orientar pela famosa frase de Juracy Magalhães de que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.
O presidente Lula peca ao minimizar os documentos secretos da diplomacia americana e colocar a palavra de Jobim contra a de Sobel sem a menor investigação. Se pretende evitar problemas no último mês de seu governo, ao menos poderia impedir o prosseguimento dos mesmos no mandato de sua sucessora.
Jobim sempre foi um bufão, ávido de poder, que prestou péssimos serviços ao país, atuando contra o Plano Nacional de Direitos Humanos e contribuindo para prejudicar a Operação Satiagraha ao denunciar em reunião da coordenação do governo a compra pela Abin de equipamentos de escutas telefônicas que poderiam ter grampeado o então presidente do STF Gilmar Mendes. A suposta escuta, que jamais foi comprovada, custou o afastamento do diretor-geral da agência de inteligência, Paulo Lacerda
Já os serviços prestados aos EUA foram reconhecidos pelo embaixador Sobel, que classificou o ministro da Defesa como “um dos mais confiáveis líderes no Brasil”. Confiável certamente para os EUA, mas não para o Brasil.
Fonte: Direto da Redação.
ECONOMIA - Apropriação indébita:como os ricos estão tirando nossa herança comum.
A concentração de renda e a destruição ambiental continuam sendo os nossos grandes desafios. São facetas diferentes da mesma dinâmica: na prática, estamos destruindo o planeta para a satisfação consumista de uma minoria, e deixando de atender os problemas realmente centrais. Como explicar que, com tantas tecnologias, produtividade e modernidade, estejamos reproduzindo o atraso?
Por Ladislau Dowbor[01 de dezembro de 2010 - 10h28]
A concentração de renda e a destruição ambiental continuam sendo os nossos grandes desafios. São facetas diferentes da mesma dinâmica: na prática, estamos destruindo o planeta para a satisfação consumista de uma minoria, e deixando de atender os problemas realmente centrais. Como explicar que, com tantas tecnologias, produtividade e modernidade, estejamos reproduzindo o atraso? Em particular, como a sociedade do conhecimento pode se transformar em vetor de desigualdade?
O prêmio Nobel Kenneth Arrow considera que os autores de "Apropriação indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum", Gar Alperovitz e Lew Daly, "se baseiam em fontes impecáveis e as usam com maestria. Todo mundo irá aprender ao ler este livro". Eu, que não sou nenhum prêmio Nobel, venho aqui contribuir com a minha modesta recomendação, transformando o meu prefácio em instrumento de divulgação. Mania de professor, querer comunicar o entusiasmo de boas leituras. E recomendação a não economistas: os autores deste livro têm suficiente inteligência para não precisar se esconder atrás de equações. A leitura flui.
A quem vai o fruto do nosso trabalho, e em que proporções? É a eterna questão do controle dos nossos processos produtivos. Na era da economia rural, os ricos se apropriavam do fruto do trabalho social, por serem donos da terra. Na era industrial, por serem donos da fábrica. E na era da economia do conhecimento, a propriedade intelectual se apresenta como a grande avenida de acesso a uma posição privilegiada na sociedade. Mas para isso, é preciso restringir o acesso generalizado ao conhecimento, pois se todos tiverem acesso, como se cobrará o pedágio, como se assegurará a vantagem de minorias?
Um argumento chave desta discussão é, naturalmente, a legitimidade da posse. De quem é a terra, que permitia as fortunas e o lazer agradável dos senhores feudais? Apropriação na base da força, sem dúvida, legitimada em seguida por uma estrutura de heranças familiares. Uma vez aceito, o sistema funciona, pois na parte de cima da sociedade forma-se uma aliança natural ditada por interesses comuns.
Na fase industrial, um empresário pega um empréstimo no banco -e para isso ele já deve pertencer a um grupo social privilegiado- e monta uma empresa. Da venda dos produtos, e pagando baixos salários, tanto auferirá lucros pessoal como restituirá o empréstimo ao banco. De onde o banco tirou o dinheiro? Da poupança social, sob forma de depósitos, poupança esta que será transformada na fábrica do empresário. Aqui também, vale a solidariedade dos proprietários de meios de produção, e o resultado de um esforço que é social será em boa parte apropriado por uma minoria.
Mudam os sistemas, evoluem as tecnologias, mas não muda o esquema. Na fase atual, da economia do conhecimento, coloca-se o espinhoso problema da legitimidade da posse do conhecimento. A mudança é radical, relativamente aos sistemas anteriores: a terra pertence a um ou a outro, as máquinas têm proprietário, são bens "rivais". No caso do conhecimento, trata-se de um bem cujo consumo não reduz o estoque. Se transmitimos o conhecimento a alguém, continuamos com ele, não perdemos nada, e como o conhecimento transmitido gera novos conhecimentos, todos ganham. A tendência para a livre circulação do conhecimento para o bem de todos torna-se, portanto, poderosa.
A apropriação privada de um produto social deve ser justificada. O aporte principal de Alperovitz e de Daly, neste pequeno estudo, é de deixar claro o mecanismo de uma apropriação injusta -Unjust Deserts- que poderíamos explicitar com a expressão mais corrente de apropriação indébita. Ao tornar transparentes estes mecanismos, os autores na realidade estão elaborando uma teoria do valor da economia do conhecimento. A força explicativa do que acontece na sociedade moderna, com isto, torna-se poderosa.
Para dar um exemplo trazido pelo autor, quando a Monsanto adquire controle exclusivo sobre determinada semente, como se a inovação tecnológica fosse um aporte apenas dela, esquece o processo que sustentou estes avanços. "O que eles nunca levam em consideração, é o imenso investimento coletivo que carregou a ciência genética dos seus primeiros passos até o momento em que a empresa toma a sua decisão. Todo o conhecimento biológico, estatístico e de outras áreas sem o qual nenhuma das sementes altamente produtivas e resistentes a doenças poderia ter sido desenvolvida -todas as publicações, pesquisas, educação, treinamento e ferramentas técnicas relacionadas sem os quais a aprendizagem e o conhecimento não poderiam ter sido comunicados e fomentados em cada estágio particular de desenvolvimento e, então, passados adiante e incorporados também por uma força de trabalho de técnicos e cientistas- tudo isto chega à empresa sem custo, um presente do passado" (55). Ao apropriar-se do direito sobre o produto final, e ao travar desenvolvimentos paralelos, a empresa canaliza para si gigantescos lucros da totalidade do esforço social, que ela não teve de financiar. Trata-se de um pedágio sobre o esforço dos outros. Unjust Deserts.
Se não é legítimo, pelo menos funciona? A compreensão do caráter particular do conhecimento como fator de produção já é antiga. Uma jóia a este respeito é um texto 1813 de Thomas Jefferson:
"Se há uma coisa que a natureza fez que é menos suscetível que todas as outras de propriedade exclusiva, esta coisa é a ação do poder de pensamento que chamamos de idéia... Que as idéias devam se expandir livremente de uma pessoa para outra, por todo o globo, para a instrução moral e mútua do homem, e o avanço de sua condição, parece ter sido particularmente e benevolentemente desenhado pela natureza, quando ela as tornou, como o fogo, passíveis de expansão por todo o espaço, sem reduzir a sua densidade em nenhum ponto, e como o ar no qual respiramos, nos movemos e existimos fisicamente, incapazes de confinamento, ou de apropriação exclusiva. Invenções não podem, por natureza, ser objeto de propriedade". (1)
O conhecimento não constitui uma propriedade no mesmo sentido que a de um bem físico. A caneta é minha, faço dela o que quiser. O conhecimento, na medida em que resulta de um esforço social muito amplo, e constitui um bem não rival, obedece a outra lógica, e por isto não é assegurado em permanência, e sim por vinte anos, por exemplo, no caso das patentes, ou quase um século no caso dos copyrights, mas sempre por tempo limitado: a propriedade é assegurada por sua função social -estimular as pessoas a inventarem ou a escreverem- e não por ser um direito natural.
O merecimento é para todos nós um argumento central. Segundo as palavras dos autores, "nada é mais profundamente ancorado em pessoas comuns do que a idéia de que uma pessoa tem direito ao que criou ou ao que os seus esforços produziram".(96) Mas na realidade, não são propriamente os criadores que são remunerados, e sim os intermediários jurídicos, financeiros e de comunicação comercial que se apropriam do resultado da criatividade, trancando-o em contratos de exclusividade, e fazem fortunas de merecimento duvidoso. Não é a criatividade que é remunerada, e sim a apropriação dos resultados: "Se muito do que temos nos chegou como um presente gratuito de muitas gerações de contribuições históricas, há uma questão profunda relativamente a quanto uma pessoa possa dizer que "ganhou merecidamente" no processo, agora ou no futuro."(97)
As pessoas, em geral, não se dão conta das limitações. Hoje 95% do milho plantado nos EUA é de uma única variedade, com desaparecimento da diversidade genética, e as ameaças para o futuro são imensas. Teremos livre acesso às obras de Paulo Freire apenas a partir de 2050, 90 anos depois da morte do autor. O livre acesso às composições de Heitor Villalobos será a partir de 2034. Isto está ajudando a criatividade de quem? Patentes de 20 anos há meio século atrás podiam parecer razoáveis, mas com o ritmo de inovação atual, que sentido fazem? Já são 25 milhões de pessoas que morreram de Aids, e as empresas farmacêuticas (o Big Pharma) proíbem os países afetados de produzir o coquetel, são donas de intermináveis patentes. Ou seja, há um imenso enriquecimento no topo da pirâmide, baseado não no que estas pessoas aportaram, mas no fato de se apropriarem de um acúmulo historicamente construído durante sucessivas gerações.
Nesta era em que a concentração planetária da riqueza social em poucas mãos está se tornando insustentável, entender o mecanismo de geração e de apropriação desta riqueza é fundamental. Os autores não são nada extremistas, mas defendem que o acesso aos resultados dos esforços produtivos devam ser minimamente proporcionais aos aportes. "A fonte de longe a mais importante da prosperidade moderna é a riqueza social sob forma de conhecimento acumulado e de tecnologia herdada", o que significa que "uma porção substantiva da presente riqueza e renda deveria ser realocada para todos os membros da sociedade de forma igualitária, ou no mínimo, no sentido de promover maior igualdade".(153)
Um livro curto, muito bem escrito, e, sobretudo, uma preciosidade teórica, explicitando de maneira clara a deformação generalizada do mecanismo de remuneração, ou de recompensas, que o nosso sistema econômico gerou. Trata-se aqui de um dos melhores livros de economia que já passaram por minhas mãos. Bem documentado, mas sempre claro na exposição, fortemente apoiado em termos teóricos, na realidade o livro abre a porta para o que podemos qualificar de teoria do valor, mas não da produção industrial, e sim da economia do conhecimento, o que Daniel Bell qualificou de "knowledge theory of value". A Editora Senac tomou uma excelente iniciativa ao traduzir e publicar este livro. Vale à pena. (www.editorasenacsp.com.br)
Nota:
(1) Citado por Lawrence Lessig, The Future of Ideas: the Fate of the Commons in an Connected World - Random House, New York, 2001, p. 94.
[Autor de Democracia Econômica e de Da propriedade Intelectual à Sociedade do Conhecimento, disponíveis em http://dowbor.org.
Gar Alperovitz and Lew Daly - Apropriação Indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum - Editora Senac, São Paulo 2010, 242 p.].
* Doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e consultor de diversas agências das Nações Unidas
Publicado por Adital
Fonte: Revista Fórum.
Por Ladislau Dowbor[01 de dezembro de 2010 - 10h28]
A concentração de renda e a destruição ambiental continuam sendo os nossos grandes desafios. São facetas diferentes da mesma dinâmica: na prática, estamos destruindo o planeta para a satisfação consumista de uma minoria, e deixando de atender os problemas realmente centrais. Como explicar que, com tantas tecnologias, produtividade e modernidade, estejamos reproduzindo o atraso? Em particular, como a sociedade do conhecimento pode se transformar em vetor de desigualdade?
O prêmio Nobel Kenneth Arrow considera que os autores de "Apropriação indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum", Gar Alperovitz e Lew Daly, "se baseiam em fontes impecáveis e as usam com maestria. Todo mundo irá aprender ao ler este livro". Eu, que não sou nenhum prêmio Nobel, venho aqui contribuir com a minha modesta recomendação, transformando o meu prefácio em instrumento de divulgação. Mania de professor, querer comunicar o entusiasmo de boas leituras. E recomendação a não economistas: os autores deste livro têm suficiente inteligência para não precisar se esconder atrás de equações. A leitura flui.
A quem vai o fruto do nosso trabalho, e em que proporções? É a eterna questão do controle dos nossos processos produtivos. Na era da economia rural, os ricos se apropriavam do fruto do trabalho social, por serem donos da terra. Na era industrial, por serem donos da fábrica. E na era da economia do conhecimento, a propriedade intelectual se apresenta como a grande avenida de acesso a uma posição privilegiada na sociedade. Mas para isso, é preciso restringir o acesso generalizado ao conhecimento, pois se todos tiverem acesso, como se cobrará o pedágio, como se assegurará a vantagem de minorias?
Um argumento chave desta discussão é, naturalmente, a legitimidade da posse. De quem é a terra, que permitia as fortunas e o lazer agradável dos senhores feudais? Apropriação na base da força, sem dúvida, legitimada em seguida por uma estrutura de heranças familiares. Uma vez aceito, o sistema funciona, pois na parte de cima da sociedade forma-se uma aliança natural ditada por interesses comuns.
Na fase industrial, um empresário pega um empréstimo no banco -e para isso ele já deve pertencer a um grupo social privilegiado- e monta uma empresa. Da venda dos produtos, e pagando baixos salários, tanto auferirá lucros pessoal como restituirá o empréstimo ao banco. De onde o banco tirou o dinheiro? Da poupança social, sob forma de depósitos, poupança esta que será transformada na fábrica do empresário. Aqui também, vale a solidariedade dos proprietários de meios de produção, e o resultado de um esforço que é social será em boa parte apropriado por uma minoria.
Mudam os sistemas, evoluem as tecnologias, mas não muda o esquema. Na fase atual, da economia do conhecimento, coloca-se o espinhoso problema da legitimidade da posse do conhecimento. A mudança é radical, relativamente aos sistemas anteriores: a terra pertence a um ou a outro, as máquinas têm proprietário, são bens "rivais". No caso do conhecimento, trata-se de um bem cujo consumo não reduz o estoque. Se transmitimos o conhecimento a alguém, continuamos com ele, não perdemos nada, e como o conhecimento transmitido gera novos conhecimentos, todos ganham. A tendência para a livre circulação do conhecimento para o bem de todos torna-se, portanto, poderosa.
A apropriação privada de um produto social deve ser justificada. O aporte principal de Alperovitz e de Daly, neste pequeno estudo, é de deixar claro o mecanismo de uma apropriação injusta -Unjust Deserts- que poderíamos explicitar com a expressão mais corrente de apropriação indébita. Ao tornar transparentes estes mecanismos, os autores na realidade estão elaborando uma teoria do valor da economia do conhecimento. A força explicativa do que acontece na sociedade moderna, com isto, torna-se poderosa.
Para dar um exemplo trazido pelo autor, quando a Monsanto adquire controle exclusivo sobre determinada semente, como se a inovação tecnológica fosse um aporte apenas dela, esquece o processo que sustentou estes avanços. "O que eles nunca levam em consideração, é o imenso investimento coletivo que carregou a ciência genética dos seus primeiros passos até o momento em que a empresa toma a sua decisão. Todo o conhecimento biológico, estatístico e de outras áreas sem o qual nenhuma das sementes altamente produtivas e resistentes a doenças poderia ter sido desenvolvida -todas as publicações, pesquisas, educação, treinamento e ferramentas técnicas relacionadas sem os quais a aprendizagem e o conhecimento não poderiam ter sido comunicados e fomentados em cada estágio particular de desenvolvimento e, então, passados adiante e incorporados também por uma força de trabalho de técnicos e cientistas- tudo isto chega à empresa sem custo, um presente do passado" (55). Ao apropriar-se do direito sobre o produto final, e ao travar desenvolvimentos paralelos, a empresa canaliza para si gigantescos lucros da totalidade do esforço social, que ela não teve de financiar. Trata-se de um pedágio sobre o esforço dos outros. Unjust Deserts.
Se não é legítimo, pelo menos funciona? A compreensão do caráter particular do conhecimento como fator de produção já é antiga. Uma jóia a este respeito é um texto 1813 de Thomas Jefferson:
"Se há uma coisa que a natureza fez que é menos suscetível que todas as outras de propriedade exclusiva, esta coisa é a ação do poder de pensamento que chamamos de idéia... Que as idéias devam se expandir livremente de uma pessoa para outra, por todo o globo, para a instrução moral e mútua do homem, e o avanço de sua condição, parece ter sido particularmente e benevolentemente desenhado pela natureza, quando ela as tornou, como o fogo, passíveis de expansão por todo o espaço, sem reduzir a sua densidade em nenhum ponto, e como o ar no qual respiramos, nos movemos e existimos fisicamente, incapazes de confinamento, ou de apropriação exclusiva. Invenções não podem, por natureza, ser objeto de propriedade". (1)
O conhecimento não constitui uma propriedade no mesmo sentido que a de um bem físico. A caneta é minha, faço dela o que quiser. O conhecimento, na medida em que resulta de um esforço social muito amplo, e constitui um bem não rival, obedece a outra lógica, e por isto não é assegurado em permanência, e sim por vinte anos, por exemplo, no caso das patentes, ou quase um século no caso dos copyrights, mas sempre por tempo limitado: a propriedade é assegurada por sua função social -estimular as pessoas a inventarem ou a escreverem- e não por ser um direito natural.
O merecimento é para todos nós um argumento central. Segundo as palavras dos autores, "nada é mais profundamente ancorado em pessoas comuns do que a idéia de que uma pessoa tem direito ao que criou ou ao que os seus esforços produziram".(96) Mas na realidade, não são propriamente os criadores que são remunerados, e sim os intermediários jurídicos, financeiros e de comunicação comercial que se apropriam do resultado da criatividade, trancando-o em contratos de exclusividade, e fazem fortunas de merecimento duvidoso. Não é a criatividade que é remunerada, e sim a apropriação dos resultados: "Se muito do que temos nos chegou como um presente gratuito de muitas gerações de contribuições históricas, há uma questão profunda relativamente a quanto uma pessoa possa dizer que "ganhou merecidamente" no processo, agora ou no futuro."(97)
As pessoas, em geral, não se dão conta das limitações. Hoje 95% do milho plantado nos EUA é de uma única variedade, com desaparecimento da diversidade genética, e as ameaças para o futuro são imensas. Teremos livre acesso às obras de Paulo Freire apenas a partir de 2050, 90 anos depois da morte do autor. O livre acesso às composições de Heitor Villalobos será a partir de 2034. Isto está ajudando a criatividade de quem? Patentes de 20 anos há meio século atrás podiam parecer razoáveis, mas com o ritmo de inovação atual, que sentido fazem? Já são 25 milhões de pessoas que morreram de Aids, e as empresas farmacêuticas (o Big Pharma) proíbem os países afetados de produzir o coquetel, são donas de intermináveis patentes. Ou seja, há um imenso enriquecimento no topo da pirâmide, baseado não no que estas pessoas aportaram, mas no fato de se apropriarem de um acúmulo historicamente construído durante sucessivas gerações.
Nesta era em que a concentração planetária da riqueza social em poucas mãos está se tornando insustentável, entender o mecanismo de geração e de apropriação desta riqueza é fundamental. Os autores não são nada extremistas, mas defendem que o acesso aos resultados dos esforços produtivos devam ser minimamente proporcionais aos aportes. "A fonte de longe a mais importante da prosperidade moderna é a riqueza social sob forma de conhecimento acumulado e de tecnologia herdada", o que significa que "uma porção substantiva da presente riqueza e renda deveria ser realocada para todos os membros da sociedade de forma igualitária, ou no mínimo, no sentido de promover maior igualdade".(153)
Um livro curto, muito bem escrito, e, sobretudo, uma preciosidade teórica, explicitando de maneira clara a deformação generalizada do mecanismo de remuneração, ou de recompensas, que o nosso sistema econômico gerou. Trata-se aqui de um dos melhores livros de economia que já passaram por minhas mãos. Bem documentado, mas sempre claro na exposição, fortemente apoiado em termos teóricos, na realidade o livro abre a porta para o que podemos qualificar de teoria do valor, mas não da produção industrial, e sim da economia do conhecimento, o que Daniel Bell qualificou de "knowledge theory of value". A Editora Senac tomou uma excelente iniciativa ao traduzir e publicar este livro. Vale à pena. (www.editorasenacsp.com.br)
Nota:
(1) Citado por Lawrence Lessig, The Future of Ideas: the Fate of the Commons in an Connected World - Random House, New York, 2001, p. 94.
[Autor de Democracia Econômica e de Da propriedade Intelectual à Sociedade do Conhecimento, disponíveis em http://dowbor.org.
Gar Alperovitz and Lew Daly - Apropriação Indébita: como os ricos estão tomando a nossa herança comum - Editora Senac, São Paulo 2010, 242 p.].
* Doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e consultor de diversas agências das Nações Unidas
Publicado por Adital
Fonte: Revista Fórum.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
MÍDIA - Wikileaks e o Brasil.
WikiLeaks: 2.855 documentos sobre o Brasil.
Reproduzo artigo de Natália Viana, publicado no sítio Opera Mundi:
Fui convidada por Julian Assange e sua equipe para trazer ao público brasileiro os documentos que interessam ao nosso país. Para esse fim, o Wikileaks decidiu elaborar conteúdo próprio também em português. Todos os dias haverá no site matérias fresquinhas sobre os documentos da embaixada e consulados norte-americanos no Brasil.
Por trás dessa nova experiência está a vontade de democratizar ainda mais o acesso à informação. O Wikileaks quer ter um canal direto de comunicação com os internautas brasileiros, um dos maiores grupos do mundo, e com os ativistas no Brasil que lutam pela liberdade de imprensa e de informação. Nada mais apropriado para um ano em que a liberdade de informação dominou boa parte da pauta da campanha eleitoral.
Buscando jornalistas independentes, Assange busca furar o cerco de imprensa internacional e da maneira como ela acabada dominando a interpretação que o público vai dar aos documentos. Por isso, além dos cinco grandes jornais estrangeiros, somou-se ao projeto um grupo de jornalistas independentes. Numa próxima etapa, o Wikileaks vai começar a distribuir os documentos para veículos de imprensa e mídia nas mais diversas partes do mundo.
Assange e seu grupo perceberam que a maneira concentrada como as notícias são geradas – no nosso caso, a maior parte das vezes, apenas traduzindo o que as grandes agências escrevem – leva um determinado ângulo a ser reproduzido ao infinito. Não é assim que esses documentos merecem ser tratados: “São a coisa mais importante que eu já vi”, disse ele.
Não foi fácil. O Wikileaks já é conhecido por misturar técnicas de hackers para manter o anonimato das fontes, preservar a segurança das informações e se defender dos inevitáveis ataques virtuais de agências de segurança do mundo todo.
Assange e sua equipe precisam usar mensagens criptografadas e fazer ligações redirecionados para diferentes países que evitam o rastreamento. Os documentos são tão preciosos que qualquer um que tem acesso a eles tem de passar por um rígido controle de segurança. Além disso, Assange está sendo investigado por dois governos e tem um mandado de segurança internacional contra si por crimes sexuais na Suécia. Isso significou que Assange e sua equipe precisam ficar isolados enquanto lidam com o material. Uma verdadeira operação secreta.
Documentos sobre Brasil
No caso brasileiro, os documentos são riquíssimos. São 2.855 no total, sendo 1.947 da embaixada em Brasília, 12 do Consulado em Recife, 119 no Rio de Janeiro e 777 em São Paulo.
Nas próximas semanas, eles vão mostrar ao público brasileiro histórias pouco conhecidas de negociações do governo por debaixo do pano, informantes que costumam visitar a embaixada norte-americana, propostas de acordo contra vizinhos, o trabalho de lobby na venda dos caças para a Força Aérea Brasileira e de empresas de segurança e petróleo.
O Wikileaks vai publicar muitas dessas histórias a partir do seu próprio julgamento editorial. Também vai se aliar a veículos nacionais para conseguir seu objetivo – espalhar ao máximo essa informação. Assim, o público brasileiro vai ter uma oportunidade única: vai poder ver ao mesmo tempo como a mesma história exclusiva é relatada por um grande jornal e pelo Wikileaks. Além disso, todos os dias os documentos serão liberados no site do Wikileaks. Isso significa que todos os outros veículos e os próprios internautas, bloggers, jornalistas independentes vão poder fazer suas próprias reportagens. Democracia radical – também no jornalismo.
Impressões
A reação desesperada da Casa Branca ao vazamento mostra que os Estados Unidos erraram na sua política mundial – e sabem disso. Hillary Clinton ligou pessoalmente para diversos governos, inclusive o chinês, para pedir desculpas antecipadamente pelo que viria. Para muitos, não explicou direto do que se tratava, para outros narrou as histórias mais cabeludas que podiam constar nos 251 mil telegramas de embaixadas.
Ainda assim, não conseguiu frear o impacto do vazamento. O conteúdo dos telegramas é tão importante que nem o gerenciamento de crise de Washington nem a condenação do lançamento por regimes em todo o mundo – da Austrália ao Irã – vai conseguir reduzir o choque.
Como disse um internauta, Wikileaks é o que acontece quando a superpotência mundial é obrigada a passar por uma revista completa dessas de aeroporto. O que mais surpreende é que se trata de material de rotina, corriqueiro, do leva-e-traz da diplomacia dos EUA. Como diz Assange, eles mostram “como o mundo funciona”.
O Wikileaks tem causado tanto furor porque defende uma ideia simples: toda informação relevante deve ser distribuída. Talvez por isso os governos e poderes atuais não saibam direito como lidar com ele. Assange já foi taxado de espião, terrorista, criminoso. Outro dia, foi chamado até de pedófilo.
Wikileaks e o grupo e colaboradores que se reuniu para essa empreitada acreditam que injustiça em qualquer lugar é injustiça em todo lugar. E que, com a ajuda da internet, é possível levar a democracia a um patamar nunca imaginado, em que todo e qualquer poder tem de estar preparado para prestar contas sobre seus atos.
O que Assange traz de novo é a defesa radical da transparência. O raciocínio do grupo de jornalistas investigativos que se reúne em torno do projeto é que, se algum governo ou poder fez algo de que deveria se envergonhar, então o público deve saber. Não cabe aos governos, às assessorias de imprensa ou aos jornalistas esconder essa ou aquela informação por considerar que ela “pode gerar insegurança” ou “atrapalhar o andamento das coisas”. A imprensa simplesmente não tem esse direito.
É por isso que, enquanto o Wikileaks é chamado de “irresponsável”, “ativista”, “antiamericano” e Assange é perseguido, os cinco principais jornais do mundo que se associaram ao lançamento do Cablegate continuam sendo vistos como exemplos de bom jornalismo – objetivo, equilibrado, responsável e imparcial.
Uma ironia e tanto.
Fonte: Blog do Miro.
Reproduzo artigo de Natália Viana, publicado no sítio Opera Mundi:
Fui convidada por Julian Assange e sua equipe para trazer ao público brasileiro os documentos que interessam ao nosso país. Para esse fim, o Wikileaks decidiu elaborar conteúdo próprio também em português. Todos os dias haverá no site matérias fresquinhas sobre os documentos da embaixada e consulados norte-americanos no Brasil.
Por trás dessa nova experiência está a vontade de democratizar ainda mais o acesso à informação. O Wikileaks quer ter um canal direto de comunicação com os internautas brasileiros, um dos maiores grupos do mundo, e com os ativistas no Brasil que lutam pela liberdade de imprensa e de informação. Nada mais apropriado para um ano em que a liberdade de informação dominou boa parte da pauta da campanha eleitoral.
Buscando jornalistas independentes, Assange busca furar o cerco de imprensa internacional e da maneira como ela acabada dominando a interpretação que o público vai dar aos documentos. Por isso, além dos cinco grandes jornais estrangeiros, somou-se ao projeto um grupo de jornalistas independentes. Numa próxima etapa, o Wikileaks vai começar a distribuir os documentos para veículos de imprensa e mídia nas mais diversas partes do mundo.
Assange e seu grupo perceberam que a maneira concentrada como as notícias são geradas – no nosso caso, a maior parte das vezes, apenas traduzindo o que as grandes agências escrevem – leva um determinado ângulo a ser reproduzido ao infinito. Não é assim que esses documentos merecem ser tratados: “São a coisa mais importante que eu já vi”, disse ele.
Não foi fácil. O Wikileaks já é conhecido por misturar técnicas de hackers para manter o anonimato das fontes, preservar a segurança das informações e se defender dos inevitáveis ataques virtuais de agências de segurança do mundo todo.
Assange e sua equipe precisam usar mensagens criptografadas e fazer ligações redirecionados para diferentes países que evitam o rastreamento. Os documentos são tão preciosos que qualquer um que tem acesso a eles tem de passar por um rígido controle de segurança. Além disso, Assange está sendo investigado por dois governos e tem um mandado de segurança internacional contra si por crimes sexuais na Suécia. Isso significou que Assange e sua equipe precisam ficar isolados enquanto lidam com o material. Uma verdadeira operação secreta.
Documentos sobre Brasil
No caso brasileiro, os documentos são riquíssimos. São 2.855 no total, sendo 1.947 da embaixada em Brasília, 12 do Consulado em Recife, 119 no Rio de Janeiro e 777 em São Paulo.
Nas próximas semanas, eles vão mostrar ao público brasileiro histórias pouco conhecidas de negociações do governo por debaixo do pano, informantes que costumam visitar a embaixada norte-americana, propostas de acordo contra vizinhos, o trabalho de lobby na venda dos caças para a Força Aérea Brasileira e de empresas de segurança e petróleo.
O Wikileaks vai publicar muitas dessas histórias a partir do seu próprio julgamento editorial. Também vai se aliar a veículos nacionais para conseguir seu objetivo – espalhar ao máximo essa informação. Assim, o público brasileiro vai ter uma oportunidade única: vai poder ver ao mesmo tempo como a mesma história exclusiva é relatada por um grande jornal e pelo Wikileaks. Além disso, todos os dias os documentos serão liberados no site do Wikileaks. Isso significa que todos os outros veículos e os próprios internautas, bloggers, jornalistas independentes vão poder fazer suas próprias reportagens. Democracia radical – também no jornalismo.
Impressões
A reação desesperada da Casa Branca ao vazamento mostra que os Estados Unidos erraram na sua política mundial – e sabem disso. Hillary Clinton ligou pessoalmente para diversos governos, inclusive o chinês, para pedir desculpas antecipadamente pelo que viria. Para muitos, não explicou direto do que se tratava, para outros narrou as histórias mais cabeludas que podiam constar nos 251 mil telegramas de embaixadas.
Ainda assim, não conseguiu frear o impacto do vazamento. O conteúdo dos telegramas é tão importante que nem o gerenciamento de crise de Washington nem a condenação do lançamento por regimes em todo o mundo – da Austrália ao Irã – vai conseguir reduzir o choque.
Como disse um internauta, Wikileaks é o que acontece quando a superpotência mundial é obrigada a passar por uma revista completa dessas de aeroporto. O que mais surpreende é que se trata de material de rotina, corriqueiro, do leva-e-traz da diplomacia dos EUA. Como diz Assange, eles mostram “como o mundo funciona”.
O Wikileaks tem causado tanto furor porque defende uma ideia simples: toda informação relevante deve ser distribuída. Talvez por isso os governos e poderes atuais não saibam direito como lidar com ele. Assange já foi taxado de espião, terrorista, criminoso. Outro dia, foi chamado até de pedófilo.
Wikileaks e o grupo e colaboradores que se reuniu para essa empreitada acreditam que injustiça em qualquer lugar é injustiça em todo lugar. E que, com a ajuda da internet, é possível levar a democracia a um patamar nunca imaginado, em que todo e qualquer poder tem de estar preparado para prestar contas sobre seus atos.
O que Assange traz de novo é a defesa radical da transparência. O raciocínio do grupo de jornalistas investigativos que se reúne em torno do projeto é que, se algum governo ou poder fez algo de que deveria se envergonhar, então o público deve saber. Não cabe aos governos, às assessorias de imprensa ou aos jornalistas esconder essa ou aquela informação por considerar que ela “pode gerar insegurança” ou “atrapalhar o andamento das coisas”. A imprensa simplesmente não tem esse direito.
É por isso que, enquanto o Wikileaks é chamado de “irresponsável”, “ativista”, “antiamericano” e Assange é perseguido, os cinco principais jornais do mundo que se associaram ao lançamento do Cablegate continuam sendo vistos como exemplos de bom jornalismo – objetivo, equilibrado, responsável e imparcial.
Uma ironia e tanto.
Fonte: Blog do Miro.
POLÍTICA| - Ministério da Dilma
Dilma aceita (por enquanto) algumas indicações de Lula.
Pedro do Coutto
Qualquer ser humano razoavelmente informado acima de 35 anos – para Sastre, a idade da razão – sente e sabe muito bem quais as pessoas que gostam e se afinam com ele, quais as indiferentes, quais as que o rejeitam. Existe ainda mais um degrau na classificação: quais as que o detestam. No meio dessa escala de valores subjetivos, porém concretos, existem também os que admiram a capacidade do outro, mas não conseguem gostar dele. Que fazer? A vida é assim. Entretanto, não é difícil analisar e perceber as diversas situações por onde caminham as simpatias, antipatias e os impulsos humanos. Com base na reportagem de Kennedy Alencar e Valdo Cruz, Folha de São Paulo de 30 de novembro, pode-se adaptar o raciocínio a que me refiro à disposição da presidente eleita Dilma Rousseff em formar sua equipe de governo.
Ela não sintoniza, tampouco desejaria manter Nelson Jobim no Ministério da Defesa. Concordou, pouco à vontade, com a sugestão do presidente que a elegeu. Mas resistiu. Tanto assim que só aceitou finalmente convidá-lo a permanecer, retirando de sua área administrativa a Aviação Civil. Vai deixá-lo restrito ao setor das Forças Armadas. Lula está pedindo também, segundo Alencar e Cruz, pela permanência de Fernando Haddad no MEC. Dilma ainda não respondeu definitivamente. Fica claro, assim, que, por sua vontade não o manteria.
Outro aparentemente incômodo na pasta das Relações Institucionais é Alexandre Padilha. Outro peso é Marco Aurélio Garcia como assessor especial no Itamarati. Sérgio Gabrielli, na Petrobrás, ela também não gostaria que permanecesse. Basta ver que anunciou sua permanência apenas por mais um ano. O mandato que ela inicia em janeiro, como todos sabem, é de quatro anos.
Dois nomes foram afastados, de plano, pela sucessora de Lula: Henrique Meirelles do Banco Central , Celso Amorim das Relações Exteriores. Sequer desejou manter qualquer tipo de conversa com ambos. Jamais permaneceriam. Uma incógnita é o atual ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, em relação a quem Dilma está encontrando dificuldade de acomodar no seu governo. Por quê? Provavelmente porque ele não é indicação de sua total vontade. Deixará o posto em que se encontra. Especula-se que iria para as Comunicações.
Estou enfocando esses aspectos para acentuar um caminho de analisar pesquisas de vontade, rumo que identifiquei há mais de 20 anos. Foi um trabalho pelo qual não recebi até hoje. Não faz mal. Ganhei experiência. A ponto de concluir que as afirmações sólidas são sempre de ponta. Nelas não há vacilações. Na engrenagem de análise, acrescento, divide-se o número maior pelo menor e assim chega-se a um coeficiente. O processo, atualmente, é muito usado em levantamentos de avaliação de governos. O governo Lula, por exemplo, pelo IBOPE, tem aprovação de 78% e desaprovação de apenas 4. Resultado excepcional. Mas esta é outra questão.
O fato é que algumas indicações de Lula são do agrado de Roussef. É o caso de Guido Mantega e Gilberto Carvalho. Sinal de convergência absoluta. De outro lado, um elenco de convites integrais de Dilma: Antonio Palocci, que chegou a seu lado na primeira entrevista à imprensa depois de confirmada a vitória nas urnas. Alexandre Tombini no Banco Central, Miriam Belchior no Planejamento, permanência de Luciano Coutinho no BNDES, nomeação de José Eduardo Cardozo para a Justiça e, ao que tudo indica, de José Patriota para o Itamaraty. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal são ainda incógnitas. Em política nem tudo que se quer se faz. Inclusive tem mais o seguinte: um governo tem mandato. Ministros não. Aceitou por enquanto, hoje, podem não ser mantidos amanhã. Depende dos fatos e dos impulsos do poder.
Pedro do Coutto
Qualquer ser humano razoavelmente informado acima de 35 anos – para Sastre, a idade da razão – sente e sabe muito bem quais as pessoas que gostam e se afinam com ele, quais as indiferentes, quais as que o rejeitam. Existe ainda mais um degrau na classificação: quais as que o detestam. No meio dessa escala de valores subjetivos, porém concretos, existem também os que admiram a capacidade do outro, mas não conseguem gostar dele. Que fazer? A vida é assim. Entretanto, não é difícil analisar e perceber as diversas situações por onde caminham as simpatias, antipatias e os impulsos humanos. Com base na reportagem de Kennedy Alencar e Valdo Cruz, Folha de São Paulo de 30 de novembro, pode-se adaptar o raciocínio a que me refiro à disposição da presidente eleita Dilma Rousseff em formar sua equipe de governo.
Ela não sintoniza, tampouco desejaria manter Nelson Jobim no Ministério da Defesa. Concordou, pouco à vontade, com a sugestão do presidente que a elegeu. Mas resistiu. Tanto assim que só aceitou finalmente convidá-lo a permanecer, retirando de sua área administrativa a Aviação Civil. Vai deixá-lo restrito ao setor das Forças Armadas. Lula está pedindo também, segundo Alencar e Cruz, pela permanência de Fernando Haddad no MEC. Dilma ainda não respondeu definitivamente. Fica claro, assim, que, por sua vontade não o manteria.
Outro aparentemente incômodo na pasta das Relações Institucionais é Alexandre Padilha. Outro peso é Marco Aurélio Garcia como assessor especial no Itamarati. Sérgio Gabrielli, na Petrobrás, ela também não gostaria que permanecesse. Basta ver que anunciou sua permanência apenas por mais um ano. O mandato que ela inicia em janeiro, como todos sabem, é de quatro anos.
Dois nomes foram afastados, de plano, pela sucessora de Lula: Henrique Meirelles do Banco Central , Celso Amorim das Relações Exteriores. Sequer desejou manter qualquer tipo de conversa com ambos. Jamais permaneceriam. Uma incógnita é o atual ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, em relação a quem Dilma está encontrando dificuldade de acomodar no seu governo. Por quê? Provavelmente porque ele não é indicação de sua total vontade. Deixará o posto em que se encontra. Especula-se que iria para as Comunicações.
Estou enfocando esses aspectos para acentuar um caminho de analisar pesquisas de vontade, rumo que identifiquei há mais de 20 anos. Foi um trabalho pelo qual não recebi até hoje. Não faz mal. Ganhei experiência. A ponto de concluir que as afirmações sólidas são sempre de ponta. Nelas não há vacilações. Na engrenagem de análise, acrescento, divide-se o número maior pelo menor e assim chega-se a um coeficiente. O processo, atualmente, é muito usado em levantamentos de avaliação de governos. O governo Lula, por exemplo, pelo IBOPE, tem aprovação de 78% e desaprovação de apenas 4. Resultado excepcional. Mas esta é outra questão.
O fato é que algumas indicações de Lula são do agrado de Roussef. É o caso de Guido Mantega e Gilberto Carvalho. Sinal de convergência absoluta. De outro lado, um elenco de convites integrais de Dilma: Antonio Palocci, que chegou a seu lado na primeira entrevista à imprensa depois de confirmada a vitória nas urnas. Alexandre Tombini no Banco Central, Miriam Belchior no Planejamento, permanência de Luciano Coutinho no BNDES, nomeação de José Eduardo Cardozo para a Justiça e, ao que tudo indica, de José Patriota para o Itamaraty. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal são ainda incógnitas. Em política nem tudo que se quer se faz. Inclusive tem mais o seguinte: um governo tem mandato. Ministros não. Aceitou por enquanto, hoje, podem não ser mantidos amanhã. Depende dos fatos e dos impulsos do poder.
EUA - Aula de imperialismo contemporâneo.
Blog do Emir.
Os EUA se tornaram uma potência imperial na disputa pela sucessão da Inglaterra como potência hegemônica, com a Alemanha. As duas guerras mundiais – tipicamente guerras interimperialistas, pela repartição do mundo colonial entre as grandes potências, conforme a certeira previsão de Lenin – definiram a hegemonia norteamericana à cabeça do bloco de forças imperialistas.
No final da Segunda Guerra, os EUA tiveram que compartilhar o mundo com a URSS – a outra superpotência, não por seu poderio econômico, mas militar, que lhe dava uma paridade política. Foi o período denominado de “guerra fria”, que condicionava todos os conflitos em qualquer zona do mundo, que terminavam redefinidos no seu sentido no marco do enfrentamento entre os dois grandes blocos que dominavam a cena mundial.
Nesse período os EUA consolidaram seu poderio como gendarme mundial, poder imperial que tinha se iniciado na América Latina e o Caribe e que se estendeu pela Europa, Asia e Africa. Invasões, ocupações, golpes militares, ditaduras – marcaram a trajetória imperial norteamericana. Montaram o mais gigantesco aparelho de contra inteligência, acoplado a um monstruoso aparato militar.
Terminada a guerra fria, com a desaparição de um dos campos e a vitória do outro, esses mecanismos não foram desmontados. A OTAN, nascida supostamente para deter o “expansionismo soviético”, não foi desmontada, mas reciclada para combater os novos inimigos: o “terrorismo”, o “islamismo”, o “narcotráfico”, etc.
Os documentos publicados confirmam tudo o que os aparentemente paranoicos difundiam sobre os planos e as ações dos EUA no mundo. Eles são a única potência global, aquela que tem interesses em qualquer parte do mundo e, se não os tem, os cria. Que pretende zelar pela ordem norteamericana no mundo, a todo preço – com ameaças, ataques, difusão de noticias falsas, ocupações, etc., etc.
Qualquer compreensão do mundo contemporâneo que não leve em contra, como fator central a hegemonia imperial norteamericana, não capta o essencial das relações de poder que regem o mundo. A leitura dos documentos é uma aula sobre o imperialismo contemporâneo.
Os EUA se tornaram uma potência imperial na disputa pela sucessão da Inglaterra como potência hegemônica, com a Alemanha. As duas guerras mundiais – tipicamente guerras interimperialistas, pela repartição do mundo colonial entre as grandes potências, conforme a certeira previsão de Lenin – definiram a hegemonia norteamericana à cabeça do bloco de forças imperialistas.
No final da Segunda Guerra, os EUA tiveram que compartilhar o mundo com a URSS – a outra superpotência, não por seu poderio econômico, mas militar, que lhe dava uma paridade política. Foi o período denominado de “guerra fria”, que condicionava todos os conflitos em qualquer zona do mundo, que terminavam redefinidos no seu sentido no marco do enfrentamento entre os dois grandes blocos que dominavam a cena mundial.
Nesse período os EUA consolidaram seu poderio como gendarme mundial, poder imperial que tinha se iniciado na América Latina e o Caribe e que se estendeu pela Europa, Asia e Africa. Invasões, ocupações, golpes militares, ditaduras – marcaram a trajetória imperial norteamericana. Montaram o mais gigantesco aparelho de contra inteligência, acoplado a um monstruoso aparato militar.
Terminada a guerra fria, com a desaparição de um dos campos e a vitória do outro, esses mecanismos não foram desmontados. A OTAN, nascida supostamente para deter o “expansionismo soviético”, não foi desmontada, mas reciclada para combater os novos inimigos: o “terrorismo”, o “islamismo”, o “narcotráfico”, etc.
Os documentos publicados confirmam tudo o que os aparentemente paranoicos difundiam sobre os planos e as ações dos EUA no mundo. Eles são a única potência global, aquela que tem interesses em qualquer parte do mundo e, se não os tem, os cria. Que pretende zelar pela ordem norteamericana no mundo, a todo preço – com ameaças, ataques, difusão de noticias falsas, ocupações, etc., etc.
Qualquer compreensão do mundo contemporâneo que não leve em contra, como fator central a hegemonia imperial norteamericana, não capta o essencial das relações de poder que regem o mundo. A leitura dos documentos é uma aula sobre o imperialismo contemporâneo.
POLÍTICA - Falta novidade no governo de Dilma.
Estamos todos de acordo que, ao eleger Dilma Rousseff nas eleições de outubro, os brasileiros optaram pela continuidade do governo Lula, que chega ao final com inéditos índices de aprovação em todas as pesquisas. Também é verdade, porém, que toda troca de governo gera grandes expectativas, renova esperanças, sugere novos caminhos e novas caras na condução do país.
Pelo que vimos até agora, exatamente a um mês da posse da presidente eleita, não há grandes surpresas nem novidades na indicação dos nomes já confirmados para o governo de Dilma. Tudo bem que em time que está ganhando não se mexe, mas o jogo político é um pouco mais complicado do que o futebol.
Todos sabemos, de outro lado, que em alguns setores do governo as coisas já não vinham funcionando bem, em especial na área de serviços públicos, exigindo mudanças de métodos e no comando das gestões. Até no futebol, quando há troca de técnico, muda-se também o jeito de jogar e a escalação do time
Não é porque mais de 80% da população apóia Lula que a população está satisfeita com o trabalho do governo nas áreas de saúde, segurança, transportes, educação e saneamento, por exemplo, como demonstram as mesmas pesquisas.
Nem se trata de saber se é certo manter ou não os mesmos nomes ou fazer uma troca de cadeiras de ministros, mas de estabelecer um critério para a população saber, desde o primeiro dia, que o governo brasileiro está sob nova administração. Mais do que nomes, são sinais simbólicos que marcam a passagem de um governo para outro.
Embora tenha 37 cargos ministeriais para distribuir entre os aliados e tentar agradar a todos os partidos, às lideranças, tendências e bancadas dos partidos, mais os governadores e os interesses regionais, sem falar nas sugestões do presidente Lula _ ou seja, um quebra-cabeças difícil de montar, já que a oferta é maior do que a demanda e as contas não fecham _ é vital para Dilma reservar um espaço para ela mesma e surpreender a freguesia com algo ou alguém que ninguém esperava.
Oito anos atrás, por exemplo, nesta mesma época, o então candidato eleito Lula surpreendeu o PT e o mundo ao nomear o médico sanitarista Antonio Palocci para o Ministério da Fazenda e o banqueiro tucano Henrique Meirelles para o Banco Central. Não parou por aí. Procurou saber quem eram os melhores profissionais para as áreas de Agricultura e Comércio Exterior, respectivamente Roberto Rodrigues e Luiz Furlan, e não se preocupou em saber que ambos tinham acabado de apoiar ostensivamente a campanha do seu adversário, José Serra. Os dois foram nomeados ministros do governo do PT.
Ninguém está sugerindo que Dilma vá recrutar quadros no PSDB, no DEM e no PPS, até porque lá parecem estar em falta, mas ela poderia abrir seu olhar para a sociedade e pensar em perfis como o de Drauzio Varella, para a Saúde, e de Danilo Miranda, para a Cultura, há anos o grande animador e gestor do SESC de São Paulo. Nem sei se eles pertencem a algum partido.
É verdade que já tem paulista demais nesta história, e os aliados nordestinos, os grandes vitoriosos desta eleição, têm todo o direito de reclamar e reivindicar mais espaço no governo da presidente eleita. Certamente é danado de grande o desafio colocado para Dilma. Mas vai ficar maior ainda se continuar esta queda-de-braço entre PT e PMDB para ver quem fica com o maior naco da Esplanada.
Seria bom não esquecer o que aconteceu com o PMDB em dezembro de 2002, quando o partidão também não se contentou com os ministérios que lhe ofereceram, e bateu o pé para ficar também com o de Minas e Energia. Irritado com a ganância, Lula mandou José Dirceu, o coordenador político da transição, dizer ao PMDB que então o partido não ficaria mais com ministério nenhum. E deu no que deu: a grande crise política de 2005. Como se costuma dizer, é impossível governar o país sem o PMDB, e é muito difícil governar com ele.
Custa acreditar que um partido grande como o PMDB não tenha mais ninguém a oferecer ao país além de Moreira Franco e Edison Lobão. Parceiro na vitória, o partido do vice Michel Temer agora também é responsável pelo governo e precisa conter a sua gula para não ser um permanente gerador de crises, assim como o PT precisa se convencer de que não pode ser um partido de oposição no governo.
O problema não é saber se o presidente Lula está dando ou não muito palpite no governo da companheira Dilma, mas se a presidente eleita será capaz de indicar ao país os melhores nomes para cada função, tanto do ponto de vista político como profissional, independentemente de serem homens ou mulheres, brancos ou negros, altos ou baixos. Que sejam brasileiros de qualidades incontestáveis, acima de qualquer suspeita. Para isso, ela precisa começar a apresentar alguma novidade e, em algum momento, surpreender o distinto público para mostrar a que veio. Ainda é tempo.
Fonte: Balaio do Kotscho.
Pelo que vimos até agora, exatamente a um mês da posse da presidente eleita, não há grandes surpresas nem novidades na indicação dos nomes já confirmados para o governo de Dilma. Tudo bem que em time que está ganhando não se mexe, mas o jogo político é um pouco mais complicado do que o futebol.
Todos sabemos, de outro lado, que em alguns setores do governo as coisas já não vinham funcionando bem, em especial na área de serviços públicos, exigindo mudanças de métodos e no comando das gestões. Até no futebol, quando há troca de técnico, muda-se também o jeito de jogar e a escalação do time
Não é porque mais de 80% da população apóia Lula que a população está satisfeita com o trabalho do governo nas áreas de saúde, segurança, transportes, educação e saneamento, por exemplo, como demonstram as mesmas pesquisas.
Nem se trata de saber se é certo manter ou não os mesmos nomes ou fazer uma troca de cadeiras de ministros, mas de estabelecer um critério para a população saber, desde o primeiro dia, que o governo brasileiro está sob nova administração. Mais do que nomes, são sinais simbólicos que marcam a passagem de um governo para outro.
Embora tenha 37 cargos ministeriais para distribuir entre os aliados e tentar agradar a todos os partidos, às lideranças, tendências e bancadas dos partidos, mais os governadores e os interesses regionais, sem falar nas sugestões do presidente Lula _ ou seja, um quebra-cabeças difícil de montar, já que a oferta é maior do que a demanda e as contas não fecham _ é vital para Dilma reservar um espaço para ela mesma e surpreender a freguesia com algo ou alguém que ninguém esperava.
Oito anos atrás, por exemplo, nesta mesma época, o então candidato eleito Lula surpreendeu o PT e o mundo ao nomear o médico sanitarista Antonio Palocci para o Ministério da Fazenda e o banqueiro tucano Henrique Meirelles para o Banco Central. Não parou por aí. Procurou saber quem eram os melhores profissionais para as áreas de Agricultura e Comércio Exterior, respectivamente Roberto Rodrigues e Luiz Furlan, e não se preocupou em saber que ambos tinham acabado de apoiar ostensivamente a campanha do seu adversário, José Serra. Os dois foram nomeados ministros do governo do PT.
Ninguém está sugerindo que Dilma vá recrutar quadros no PSDB, no DEM e no PPS, até porque lá parecem estar em falta, mas ela poderia abrir seu olhar para a sociedade e pensar em perfis como o de Drauzio Varella, para a Saúde, e de Danilo Miranda, para a Cultura, há anos o grande animador e gestor do SESC de São Paulo. Nem sei se eles pertencem a algum partido.
É verdade que já tem paulista demais nesta história, e os aliados nordestinos, os grandes vitoriosos desta eleição, têm todo o direito de reclamar e reivindicar mais espaço no governo da presidente eleita. Certamente é danado de grande o desafio colocado para Dilma. Mas vai ficar maior ainda se continuar esta queda-de-braço entre PT e PMDB para ver quem fica com o maior naco da Esplanada.
Seria bom não esquecer o que aconteceu com o PMDB em dezembro de 2002, quando o partidão também não se contentou com os ministérios que lhe ofereceram, e bateu o pé para ficar também com o de Minas e Energia. Irritado com a ganância, Lula mandou José Dirceu, o coordenador político da transição, dizer ao PMDB que então o partido não ficaria mais com ministério nenhum. E deu no que deu: a grande crise política de 2005. Como se costuma dizer, é impossível governar o país sem o PMDB, e é muito difícil governar com ele.
Custa acreditar que um partido grande como o PMDB não tenha mais ninguém a oferecer ao país além de Moreira Franco e Edison Lobão. Parceiro na vitória, o partido do vice Michel Temer agora também é responsável pelo governo e precisa conter a sua gula para não ser um permanente gerador de crises, assim como o PT precisa se convencer de que não pode ser um partido de oposição no governo.
O problema não é saber se o presidente Lula está dando ou não muito palpite no governo da companheira Dilma, mas se a presidente eleita será capaz de indicar ao país os melhores nomes para cada função, tanto do ponto de vista político como profissional, independentemente de serem homens ou mulheres, brancos ou negros, altos ou baixos. Que sejam brasileiros de qualidades incontestáveis, acima de qualquer suspeita. Para isso, ela precisa começar a apresentar alguma novidade e, em algum momento, surpreender o distinto público para mostrar a que veio. Ainda é tempo.
Fonte: Balaio do Kotscho.
GUERRA DO RIO - Desvio de armas, drogas e dinheiro.
Segurança do Rio apura desvio de armas e drogas
A cúpula da Segurança do Rio investiga desvios de dinheiro e armas do tráfico de drogas, além de facilitação de fuga de traficantes, supostamente informados com antecedência por policiais sobre as operações.
A reportagem é de Diana Brito e Hudson Corrêa e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 01-12-2010.
Com 1.600 homens envolvidos na ação, as polícias Militar e Civil não relataram nenhuma apreensão de dinheiro nem apresentaram números e a descrição exata das armas apreendidas.
Um dos indícios de irregularidade é que o Exército, com 800 militares, relatou a apreensão de "US$ 50 mil mais R$ 20 mil" no sábado, totalizando R$ 106 mil.
Mas, na versão da 22ª Delegacia de Polícia, na Penha, a quantia apreendida pelo Exército foi menor: de US$ 27 mil mais R$ 29 mil (total de R$ 75,1 mil) . Procurado de novo, o Comando Militar do Leste não quis comentar.
A Polícia Federal, que participou com 300 policiais, informava ter apreendido R$ 39.850 de um traficante.
Uma autoridade que pediu para não ter o seu nome divulgado disse que está havendo no Alemão "uma verdadeira caça ao tesouro", o que está deixando vários policiais indignados.
Suspeita-se que o dinheiro que deveria ter sido apreendido tenha saído da favela em mochilas de policiais, enquanto carros de polícia eram usados para levar pertences como televisores.
Contrariados por presenciar esses furtos, integrantes do Bope (Batalhão de Operações Especiais) atiravam nas telas de TVs que estavam sendo levadas, disse uma fonte à Folha.
Sobre as armas, uma pessoa envolvida na operação disse que a PF apreendeu em menos ações mais armas, de maior poderio e mais novas.
Ontem, a secretaria disse que apreendeu 135 armas -velhas, em sua maioria.
Só em dois carros do traficante Negão, a PF achou oito fuzis, sendo dois AK 47, um AR-15 e um FAL 762, além de oito pistolas e um revólver. Todos em bom estado.
O Bope levou 11 armas apreendidas, incluindo duas metralhadoras, à PF. Poderia ter levado para a Polícia Civil.
A cúpula da segurança também investiga denúncias e indícios de que policiais teriam avisado traficantes sobre o cerco, em troca de dinheiro, permitindo a fuga dos bandidos.
Em agosto, a Folha revelou que a Secretaria de Segurança investiga a existência de uma "caixinha" do tráfico da Rocinha para pagar policiais que dão informações sobre ações contra o tráfico.
Fonte - IHU
A cúpula da Segurança do Rio investiga desvios de dinheiro e armas do tráfico de drogas, além de facilitação de fuga de traficantes, supostamente informados com antecedência por policiais sobre as operações.
A reportagem é de Diana Brito e Hudson Corrêa e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 01-12-2010.
Com 1.600 homens envolvidos na ação, as polícias Militar e Civil não relataram nenhuma apreensão de dinheiro nem apresentaram números e a descrição exata das armas apreendidas.
Um dos indícios de irregularidade é que o Exército, com 800 militares, relatou a apreensão de "US$ 50 mil mais R$ 20 mil" no sábado, totalizando R$ 106 mil.
Mas, na versão da 22ª Delegacia de Polícia, na Penha, a quantia apreendida pelo Exército foi menor: de US$ 27 mil mais R$ 29 mil (total de R$ 75,1 mil) . Procurado de novo, o Comando Militar do Leste não quis comentar.
A Polícia Federal, que participou com 300 policiais, informava ter apreendido R$ 39.850 de um traficante.
Uma autoridade que pediu para não ter o seu nome divulgado disse que está havendo no Alemão "uma verdadeira caça ao tesouro", o que está deixando vários policiais indignados.
Suspeita-se que o dinheiro que deveria ter sido apreendido tenha saído da favela em mochilas de policiais, enquanto carros de polícia eram usados para levar pertences como televisores.
Contrariados por presenciar esses furtos, integrantes do Bope (Batalhão de Operações Especiais) atiravam nas telas de TVs que estavam sendo levadas, disse uma fonte à Folha.
Sobre as armas, uma pessoa envolvida na operação disse que a PF apreendeu em menos ações mais armas, de maior poderio e mais novas.
Ontem, a secretaria disse que apreendeu 135 armas -velhas, em sua maioria.
Só em dois carros do traficante Negão, a PF achou oito fuzis, sendo dois AK 47, um AR-15 e um FAL 762, além de oito pistolas e um revólver. Todos em bom estado.
O Bope levou 11 armas apreendidas, incluindo duas metralhadoras, à PF. Poderia ter levado para a Polícia Civil.
A cúpula da segurança também investiga denúncias e indícios de que policiais teriam avisado traficantes sobre o cerco, em troca de dinheiro, permitindo a fuga dos bandidos.
Em agosto, a Folha revelou que a Secretaria de Segurança investiga a existência de uma "caixinha" do tráfico da Rocinha para pagar policiais que dão informações sobre ações contra o tráfico.
Fonte - IHU
SAÚDE - SUS em perigo.
Setores da saúde veem em Côrtes 'viés' privatista e temem pelo SUS
Mais do que a frustração de petistas que cobiçavam o cargo, a indicação do secretário de Saúde do Rio, Sérgio Côrtes, para ministro do setor no governo Dilma provocou inquietação de integrantes do movimento sanitário do País.
A reportagem é de Lígia Formenti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 01-12-2010.
Pai de uma das bandeiras de campanha da presidente eleita na área de saúde, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), Côrtes é visto como defensor da ampliação da participação do setor privado na saúde pública - algo considerado por grupos mais tradicionais como um ataque ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O receio desses setores é de que o futuro ministro transforme num movimento nacional o modelo de parceria público-privada na saúde que, no Rio, conta com as organizações sociais.
Côrtes, que já foi interventor na Saúde do Rio durante a gestão do ministro petista Humberto Costa - primeiro ocupante da pasta no governo Lula - e diretor do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), ao assumir a secretaria do Rio não economizou críticas ao sistema de funcionamento dos hospitais.
Para ele, a melhor forma de profissionalizar e garantir qualidade no atendimento era alterar a forma de gestão. Substituiu laboratórios de hospitais pelo serviço de empresas contratadas. Tentou, a exemplo de outros secretários, reduzir as cooperativas. Mas não conseguiu.
Além de considerarem exagerada a defesa pela terceirização da saúde, sanitaristas desprezam a proposta das UPAs criada por Côrtes e encampada por Dilma. A ênfase no atendimento de urgência, afirmam, é uma medida que está longe de resolver problemas. Em termos de custo-benefício, o ideal seria investir pesado na assistência básica.
Para petistas, Côrtes representa mais do que uma simples ameaça de terceirização do sistema de saúde. O grupo, que teve de abrir mão do comando da pasta para o PMDB ainda no primeiro mandato de Lula, nunca mais conseguiu reaver a área.
FONTE: IHU
Mais do que a frustração de petistas que cobiçavam o cargo, a indicação do secretário de Saúde do Rio, Sérgio Côrtes, para ministro do setor no governo Dilma provocou inquietação de integrantes do movimento sanitário do País.
A reportagem é de Lígia Formenti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 01-12-2010.
Pai de uma das bandeiras de campanha da presidente eleita na área de saúde, as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), Côrtes é visto como defensor da ampliação da participação do setor privado na saúde pública - algo considerado por grupos mais tradicionais como um ataque ao Sistema Único de Saúde (SUS).
O receio desses setores é de que o futuro ministro transforme num movimento nacional o modelo de parceria público-privada na saúde que, no Rio, conta com as organizações sociais.
Côrtes, que já foi interventor na Saúde do Rio durante a gestão do ministro petista Humberto Costa - primeiro ocupante da pasta no governo Lula - e diretor do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), ao assumir a secretaria do Rio não economizou críticas ao sistema de funcionamento dos hospitais.
Para ele, a melhor forma de profissionalizar e garantir qualidade no atendimento era alterar a forma de gestão. Substituiu laboratórios de hospitais pelo serviço de empresas contratadas. Tentou, a exemplo de outros secretários, reduzir as cooperativas. Mas não conseguiu.
Além de considerarem exagerada a defesa pela terceirização da saúde, sanitaristas desprezam a proposta das UPAs criada por Côrtes e encampada por Dilma. A ênfase no atendimento de urgência, afirmam, é uma medida que está longe de resolver problemas. Em termos de custo-benefício, o ideal seria investir pesado na assistência básica.
Para petistas, Côrtes representa mais do que uma simples ameaça de terceirização do sistema de saúde. O grupo, que teve de abrir mão do comando da pasta para o PMDB ainda no primeiro mandato de Lula, nunca mais conseguiu reaver a área.
FONTE: IHU
POLÍTICA EXTERNA - Relatos de Jobim.
Relatos de Jobim à diplomacia americana irritam Itamaraty.
Alvo dos mais recentes vazamentos de documentos da diplomacia dos Estados Unidos, pelo site Wikileaks, o ministro da Defesa, Nélson Jobim, irritou a diplomacia brasileira devido à informação de que teria confirmado ao governo americano o diagnóstico de câncer no presidente da Bolívia, Evo Morales. Segundo telegrama de 2009 a Washington, do embaixador Clifford Sobel, Jobim, após um encontro em La Paz entre Morales e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teria informado aos EUA que o governo brasileiro até ofereceu tratamento em São Paulo para o presidente boliviano.
A reportagem é de Sérgio Leo e publicada pelo jornal Valor, 01-12-2010.
A transmissão, a outro governo, de um suposto segredo de Estado de um aliado do Brasil é uma falta "grave", na avaliação de um graduado diplomata. No Palácio do Planalto, porém, o caso foi minimizado. Segundo um assessor de Lula com trânsito na equipe da presidente eleita Dilma Rousseff, o governo está decidido a não dar atenção a "telegramas de embaixador", e eventuais comentários de Jobim sobre Morales não teriam poder de afetar a relação com o governo da Bolívia. O governo boliviano negou ontem que Morales tenha tido câncer e informou que ele foi operado por médicos cubanos de um "desvio de septo".
Jobim também divulgou nota negando ter acusado o ex-secretário-geral do Itamaraty Samuel Pinheiro Guimarães de ter "ódio aos EUA", como consta em outro telegrama vazado no Wikileaks. Mas nada falou sobre Morales - que, recentemente, em uma cerimônia em La Paz, com Jobim, acusou os EUA de apoiarem conspirações contra o governo boliviano.
A rivalidade entre o Itamaraty e Jobim, cotado para permanecer ministro no governo Dilma Rousseff, é evidente na leitura dos telegramas confidenciais vazados na internet pelo Wikileaks. Os textos escritos em 2008 e 2009, pelo então embaixador Clifford Sobel, mostram que os americanos viam Jobim como seu maior aliado contra o Ministério de Relações Exteriores, no esforço para firmar acordos na área de Defesa com os EUA.
O acordo, alvo de repetidos contatos e viagens de autoridades dos dois governos, foi firmado apenas em abril de 2010, mas incluiu, discretamente, até permissão para missões de fiscalização em instalações militares e civis dos dois países.
O ministro Jobim é descrito, pelo embaixador, como "talvez um dos mais confiáveis líderes no Brasil". Sobel lembra que o ministro pertenceu ao Supremo Tribunal Federal e afirma que "ele mantém uma forte reputação de integridade que é rara entre os líderes brasileiros". Notando que o Itamaraty procurava encurtar e esvaziar a visita de Jobim aos EUA, onde o ministro queria tratar do acordo de Defesa, Sobel descreveu o ministro da Defesa como um homem decidido a "desafiar a supremacia histórica do Itamaraty em todas as áreas de política externa".
Numa avaliação do que significava ter Jobim no ministério, na época, Sobel prevê que Lula teria de dar a última palavra na disputa "entre um ministro da Defesa invulgarmente ativo e interessado em desenvolver laços mais firmes com os EUA e um Ministério de Relações Exteriores que está firmemente comprometido em manter controle sobre todos aspectos da política externa e manter uma distancia calculada entre o Brasil e os Estados Unidos".
Pelo relato de Sobel, Jobim se mostra um ministro afinado com algumas linhas gerais do governo Lula, como a reivindicação de transferência tecnológica no campo militar, a defesa de uma política de contenção, sem hostilidades, do governo de Hugo Chávez na Venezuela, a relutância em aceitar acusações de apoio às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia por parte de governos vizinhos e a crítica aos EUA pelos obstáculos colocados no passado à venda de aviões da Embraer aos venezuelanos.
Mas, enquanto os diplomatas são descritos como um "problema" no esforço por um acordo de Defesa, Jobim foi descrito como um aliado que permitiria uma aliança com o Brasil nesse campo passando por cima do Itamaraty. O acordo assinado somente em 2010, de fato, colocou o ministério da Defesa como único responsável pelas medidas necessárias para por em prática a cooperação entre Brasil e EUA.
O comportamento de Jobim descrito por Sobel nos telegramas confidenciais vazados ontem mostra que, na tentativa de assegurar a confiança dos americanos, o ministro chegou a entrar em detalhes sobre o delicado tema da doença de Evo Morales, tratado com Lula durante visita do brasileiro a La Paz, em janeiro de 2009. Jobim, diz Sobel, teria dito que Lula ofereceu a Morales exames e tratamento em um hospital de São Paulo.
Embora houvesse relatos públicos de que Morales sofria de "sinusite aguda", Jobim, segundo Sobel, teria dito que os problemas sentidos pelo boliviano eram "na verdade, causados por um sério tumor e a cirurgia seria uma tentativa de removê-lo". Jobim teria dito, inclusive, que o tumor poderia explicar por que Morales parecia extraordinariamente distraído nos encontros da época. O tratamento teria sido adiado, porém, segundo o ministro, até o referendo constitucional previsto para o fim daquele mês, na Bolívia. O Ministério da Defesa não quis se pronunciar sobre o relato de Sobel a respeito de Jobim e Morales.
Fonte:IHU
Alvo dos mais recentes vazamentos de documentos da diplomacia dos Estados Unidos, pelo site Wikileaks, o ministro da Defesa, Nélson Jobim, irritou a diplomacia brasileira devido à informação de que teria confirmado ao governo americano o diagnóstico de câncer no presidente da Bolívia, Evo Morales. Segundo telegrama de 2009 a Washington, do embaixador Clifford Sobel, Jobim, após um encontro em La Paz entre Morales e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teria informado aos EUA que o governo brasileiro até ofereceu tratamento em São Paulo para o presidente boliviano.
A reportagem é de Sérgio Leo e publicada pelo jornal Valor, 01-12-2010.
A transmissão, a outro governo, de um suposto segredo de Estado de um aliado do Brasil é uma falta "grave", na avaliação de um graduado diplomata. No Palácio do Planalto, porém, o caso foi minimizado. Segundo um assessor de Lula com trânsito na equipe da presidente eleita Dilma Rousseff, o governo está decidido a não dar atenção a "telegramas de embaixador", e eventuais comentários de Jobim sobre Morales não teriam poder de afetar a relação com o governo da Bolívia. O governo boliviano negou ontem que Morales tenha tido câncer e informou que ele foi operado por médicos cubanos de um "desvio de septo".
Jobim também divulgou nota negando ter acusado o ex-secretário-geral do Itamaraty Samuel Pinheiro Guimarães de ter "ódio aos EUA", como consta em outro telegrama vazado no Wikileaks. Mas nada falou sobre Morales - que, recentemente, em uma cerimônia em La Paz, com Jobim, acusou os EUA de apoiarem conspirações contra o governo boliviano.
A rivalidade entre o Itamaraty e Jobim, cotado para permanecer ministro no governo Dilma Rousseff, é evidente na leitura dos telegramas confidenciais vazados na internet pelo Wikileaks. Os textos escritos em 2008 e 2009, pelo então embaixador Clifford Sobel, mostram que os americanos viam Jobim como seu maior aliado contra o Ministério de Relações Exteriores, no esforço para firmar acordos na área de Defesa com os EUA.
O acordo, alvo de repetidos contatos e viagens de autoridades dos dois governos, foi firmado apenas em abril de 2010, mas incluiu, discretamente, até permissão para missões de fiscalização em instalações militares e civis dos dois países.
O ministro Jobim é descrito, pelo embaixador, como "talvez um dos mais confiáveis líderes no Brasil". Sobel lembra que o ministro pertenceu ao Supremo Tribunal Federal e afirma que "ele mantém uma forte reputação de integridade que é rara entre os líderes brasileiros". Notando que o Itamaraty procurava encurtar e esvaziar a visita de Jobim aos EUA, onde o ministro queria tratar do acordo de Defesa, Sobel descreveu o ministro da Defesa como um homem decidido a "desafiar a supremacia histórica do Itamaraty em todas as áreas de política externa".
Numa avaliação do que significava ter Jobim no ministério, na época, Sobel prevê que Lula teria de dar a última palavra na disputa "entre um ministro da Defesa invulgarmente ativo e interessado em desenvolver laços mais firmes com os EUA e um Ministério de Relações Exteriores que está firmemente comprometido em manter controle sobre todos aspectos da política externa e manter uma distancia calculada entre o Brasil e os Estados Unidos".
Pelo relato de Sobel, Jobim se mostra um ministro afinado com algumas linhas gerais do governo Lula, como a reivindicação de transferência tecnológica no campo militar, a defesa de uma política de contenção, sem hostilidades, do governo de Hugo Chávez na Venezuela, a relutância em aceitar acusações de apoio às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia por parte de governos vizinhos e a crítica aos EUA pelos obstáculos colocados no passado à venda de aviões da Embraer aos venezuelanos.
Mas, enquanto os diplomatas são descritos como um "problema" no esforço por um acordo de Defesa, Jobim foi descrito como um aliado que permitiria uma aliança com o Brasil nesse campo passando por cima do Itamaraty. O acordo assinado somente em 2010, de fato, colocou o ministério da Defesa como único responsável pelas medidas necessárias para por em prática a cooperação entre Brasil e EUA.
O comportamento de Jobim descrito por Sobel nos telegramas confidenciais vazados ontem mostra que, na tentativa de assegurar a confiança dos americanos, o ministro chegou a entrar em detalhes sobre o delicado tema da doença de Evo Morales, tratado com Lula durante visita do brasileiro a La Paz, em janeiro de 2009. Jobim, diz Sobel, teria dito que Lula ofereceu a Morales exames e tratamento em um hospital de São Paulo.
Embora houvesse relatos públicos de que Morales sofria de "sinusite aguda", Jobim, segundo Sobel, teria dito que os problemas sentidos pelo boliviano eram "na verdade, causados por um sério tumor e a cirurgia seria uma tentativa de removê-lo". Jobim teria dito, inclusive, que o tumor poderia explicar por que Morales parecia extraordinariamente distraído nos encontros da época. O tratamento teria sido adiado, porém, segundo o ministro, até o referendo constitucional previsto para o fim daquele mês, na Bolívia. O Ministério da Defesa não quis se pronunciar sobre o relato de Sobel a respeito de Jobim e Morales.
Fonte:IHU
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