quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O PAPA NÃO É VATICANOCÊNTRICO.

O Papa não é vaticanocêntrico. Artigo de Leonardo Boff. 
 
“O Papa Francisco não conheceu o capitalismo central e triunfante da Europa, mas o capitalismo periférico, subalterno, agregado e sócio minoritário do grande capitalismo mundial. O grande perigo nunca foi o marxismo, mas a selvageria do capitalismo não civilizado. Este tipo de capitalismo tem gerado, em nosso Continente latino-americano, uma escandalosa acumulação de riqueza para poucos à custa da exclusão e pobreza para a grande maioria do povo”, escreve Leonardo Boff , teólogo, filósofo e escritor. O artigo é publicado no sítio Religión Digital, 03-01-2014. A tradução é do Cepat.
Fonte:http://goo.gl/8H0VAA
Eis o artigo.
Quem escuta as diferentes intervenções do bispo de Roma e atual papa sente-se em casa, e na América Latina. O Papa não é eurocêntrico, nem romântico e muito menos vaticanocêntrico. É um pastor “vindo do fim do mundo”, da periferia do velho cristianismo europeu, decadente e agônico (hoje apenas 24% dos católicos são europeus); proveniente de um cristianismo novo que tem sido elaborado ao longo de 500 anos na América Latina, com uma cara própria e com sua teologia.

O Papa Francisco não conheceu o capitalismo central e triunfante da Europa, mas o capitalismo periférico, subalterno, agregado e sócio minoritário do grande capitalismo mundial. O grande perigo nunca foi o marxismo, mas a selvageria do capitalismo não civilizado. Este tipo de capitalismo tem gerado, em nosso Continente latino-americano, uma escandalosa acumulação de riqueza para poucos à custa da exclusão e pobreza para a grande maioria do povo.

Seu discurso é direto, explícito, sem o álibi das metáforas frequentemente usadas no discurso oficial e “equilibrista” do Vaticano, que acaba por enfatizar mais a segurança e a equidistância do que a verdade e a clareza de sua própria posição.
A posição do Papa Francisco pelos pobres excluídos é muito clara: “Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem” visto que “existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres” (Exortação nº48). De forma contundente faz a denúncia: “o sistema social e econômico é injusto na sua raiz” (nº59); “devemos dizer não a uma economia da exclusão e da desigualdade social”. “Esta economia mata (...) O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois jogar fora. (...) Os excluídos não são ‘explorados’, mas resíduos, ‘sobras’”. (nº53)
Além disto, não se pode negar que estas formulações do Papa Francisco lembram o magistério dos bispos latino-americanos de Medellín (1968), Puebla (1979) e de Aparecida (2005), assim como o pensamento comum da teologia da libertação, que tem como eixo central a opção pelos pobres, o fim da pobreza e a favor da vida e da justiça social.
Há uma perceptível afinidade com o economista húngaro-norteamericano Karl Polanyi, o primeiro a denunciar a “Grande Transformação” (título do seu livro de 1944), que transforma a economia de mercado em uma sociedade de mercado. Nela tudo passa a ser uma mercadoria, até mesmo as coisas mais sagradas e mais vitais. Tudo é objeto de lucro. Tal sociedade se rege estritamente pela competição, pelo prevalecimento do individualismo e pela ausência de qualquer limite. Por isto não respeita nada e cria um caldo de violência, intrínseco à forma como ela se constrói e funciona. Duramente criticada pelo Papa Francisco (nº53), ela tem tido um efeito atroz. Nas palavras do Papa: “desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem dar-nos conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer e ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos em cuidar deles” (nº54).  Em uma palavra, vivemos tempos de grande desumanidade, impiedade e crueldade. Será que podemos nos considerar realmente civilizados, se entendermos por civilização a humanização do ser humano? Na verdade, trata-se de um retorno as formas primitivas de barbárie.
A conclusão final que o Pontífice decorre deste investimento é a de que “não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado” (nº204). E, desta maneira, ataca o coração ideológico e falso do sistema que impera.
E onde buscará por alternativas? Não irá beber da esperada Doutrina Social da Igreja. Respeita-a, mas observa: “não podemos evitar em ser concretos – sem pretender entrar em detalhes – para que os grandes princípios sociais não fiquem em meras generalidades que não interpelam ninguém”. (nº182). Buscará na prática humanitária do Jesus histórico. Não entende sua mensagem como uma regra petrificada no passado, mas como uma inspiração aberta para a história em constante mudança.  Jesus é alguém que nos ensina a viver e a conviver, a “reconhecer o outro, a curar as feridas, a construir pontes, a estreitar laços e a nos ajudar ‘a carregar as cargas uns dos outros’” (mº67).  Ao personalizar seu propósito disse: “A mim, interessa-me apenas procurar por aqueles que vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta, para que possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra” (nº 208). Esta intenção assemelha-se a Carta da Terra que aponta para valores e princípios de uma nova humanidade, que habita com cuidado e com amor o planeta Terra.
O sonho de Papa Francisco atualiza o sonho de Jesus histórico, o do Reino da justiça, do amor e da paz. Não estava na intenção de Jesus criar uma nova religião, já que eram muitas as que existiam em seu tempo, mas pessoas que amam, solidarizam-se, mostram misericórdia, e tomam a todos como irmãos e irmãs, porque todos são filhos e filhas para o Filho.
Este tipo de cristianismo não tem nada de proselitismo, mas conquista pela atração de sua bela e profunda humanidade. Tais valores são os que podem dar outro rumo à sociedade mundial.

POLÍTICA - Entrevista com Pepe Mujica.


Em entrevista inédita no Brasil, ele debate causas do fracasso do “socialismo real” e afirma: para superar sistema, é preciso começar pelo choque de valores
Cada vez mais popular tanto nas redes sociais como na mídia tradicional, o presidente do Uruguai, Pepe Mujica, arrisca-se a sofrer um processo de diluição de imagem semelhante ao que atingiu Nelson Mandela. Aos poucos, cultua-se o mito, esvaziado de sentidos — e se esquecem suas ideias e batalhas. Por isso, vale ler o diálogo que Pepe manteve, no final do ano passado, com o jornalista catalão Antoni Traveria. Publicada no site argentino El Puercoespínentrevista revela um presidente que vai muito além do simpático bonachão que despreza cerimônias e luxos.
Mujica, que viveu a luta armada e compartilhou os projetos da esquerda leninista, parece um crítico arguto das experiências socialistas do século XX. Coloca em xeque, em especial, uma crença trágica que marcou a União Soviética e os países que nela se inspiraram: a ideia de que o essencial, para construir uma nova sociedade, era alterar as bases materiais da produção de riquezas. ”Não se constrói socialismo com pedreiros, capatazes e mestres de obra capitalistas”, ironiza o presidente. Não se trata de uma constatação lastimosa sobre o passado ou de um desalento. Mujica mantém-se convicto de que o sistema em que estamos mergulhados precisa e pode ser superado. Mas será um processo lento, como toda a mudança de mentalidades, e precisa priorizar o choque de valores: tornar cada vez mais clara a mediocridade da vida burguesa e apontar modos alternativos de convívio e produção. Leia a seguir, alguns dos trechos centrais da entrevista:
“A batalha agora é muito mais longa. As mudanças materiais, as relações de propriedade, nem sequer são o mais importante. O fundamental são as mudanças culturais e estas transformações exigem muitíssimo tempo. Mesmo nós, que não podemos aceitar filosoficamente o capitalismo, estamos cercados de capitalismo em todos os usos e costumes de nossas vidas, de nossas sociedades. Ninguém escapa à densa malha do mercado, a sua tirania. Estamos em luta pela igualdade e para amortecer por todos os meios as vergonhas sociais. Temos que aplicar políticas fiscais que ajudem a repartir — ainda que seja uma parte do excedente — em favor dos desfavorecidos. Os setores proprietários dizem que não se deve dar o peixe, mas ensinar as pessoas a pescar; mas quando destroçamos seu barco, roubamos sua vara e tiramos seus anzóis, é preciso começar dando-lhes o peixe”.
“A vida é muito bela e é preciso procurar fazer as coisas enquanto a sociedade real funciona, ainda que seja capitalista. Tenho que cobrar impostos para mitigar as enormes dificuldades sociais; ao mesmo tempo, não posso cair no conformismo crônico de pensar que reformando o capitalismo vou a algum lado. Não podemos substituir as forças produtivas da noite para o dia, nem em dez anos. São processos que precisam de coparticipação e inteligência. Ao mesmo tempo em que lutamos para transformar o futuro, é preciso fazer funcionar o velho, porque as pessoas têm de viver. É uma equação difícil. O desafio é bravo. Há quem siga com o mesmo que dizíamos nos anos 1950. Não se deram conta do que ocorreu no mundo e por quê ocorreu. Sinto como minhas as derrotas do movimento socialista. Me ensinam o que não devo fazer. Mas isso não significa que vá engolir a pastilha do capitalismo, nesta altura de minha vida”.
“Não sei se vão me dar bola, mas digo aos jovens de hoje que aprendemos mais com o fracasso e a dor que com a bonança. Na vida pessoal e na coletiva pode-se cair uma, duas, muitas vezes, mas a questão é voltar a começar. E é preciso criar mundos de felicidade com poucas coisas, com sobriedade. Refiro-me a viver com bagagem leve, a não viver escravizado pela renovação consumista permanente que é uma febre e obriga a trabalhar, trabalhar e trabalhar para pagar contas que nunca terminam. Não se trata de uma apologia da pobreza, mas de um elogio à sobriedade — não quero usar a palavra austeridade, porque na Europa está sendo muito prostituída, quando se deixa as pessoas sem trabalho em nome do ‘austero’”.
“Em toda a história do Uruguai, o presidente repartia as licenças de rádio e TV com o dedo. Tivemos a ideia de abrir consultas e processos democráticos baseados em méritos. Pensamos e realizamos! O que certa imprensa diga não me preocupa. Já os conheço. O problema que o diário [uruguaio] El País pode me criticar e se, algum dia, estiver de acordo e me elogiar. Seria sinal de que ando mal”.

POLÍTICA - O pai dos 99%.

Diário do Centro do Mundo

O pai dos 99%

by Paulo Nogueira
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Etienne de La Boétie é o pai dos “99%” – a vasta maioria da sociedade para a qual cabe uma pequena parcela de um bolo quase todo devorado pelo restante “1%”, para usar expressões vinculadas a um movimento que marcou intensamente 2011, o “Ocupe Wall Street”.
La Boétie escreveu aos 18 anos, em 1548, um pequeno grande livro chamado “Servidão Voluntária”. Nele,La Boétie sustentava que são as pessoas que dão poder aos tiranos. Por isso elas são mais dignas de desprezo do que os ditadores de ódio.
Foi o primeiro livro francamente libertário. Foi usado pelos protestantes franceses como uma inspiração para reagir à violência dos católicos, expressa tenebrosamente no Massacre de São Bartolomeu, na segunda metade do século XVI. Milhares de protestantes que tinham acorrido a um casamento da família real francesa foram mortos por forças católicas.

La Boétie
Mais tarde, o tratado circulou entre revolucionários em vários momentos da história. Em 1789, por exemplo. Os teóricos do anarquismo foram também fortemente influenciados por la Boétie. O autor avisa, logo no início de “Servidão Voluntária”, que seu objetivo é entender como “tantas pessoas, tantas vilas, tantas cidades, tantas nações sofrem sob um tirano que não tem outro poder senão o que a sociedade lhe concede”.
La Boétie formou-se com louvor advogado pela Universidade de Toulouse, e depois foi um juiz especialmente admirado pela integridade. Arbitrou, por seu caráter libertário e equânime, muitas disputas entre católicos e protestantes.
Morreu aos 33 anos. Deixou todos os seus papéis a um amigo que o imortalizaria num ensaio sublime sobre a amizade: Montaigne. Tinham-se aproximado na juventude, depois que Montaigne leu com encanto uma cópia manuscrita de "Servidão Voluntária". É com base na amizade entre ele e la Boétie que Montaigne escreveu seu célebre tratado sobre a amizade. “Dois amigos formam uma unidade tão absoluta que é como se fossem dois tecidos em que é impossível ver a costura que os junta”, disse Montaigne.
Montaigne tinha 31 anos quando seu amigo morreu. Ficou arrasado a ponto de se recolher e largar tudo que fazia. A dor da morte de la Boétie acabaria sendo vital para que ele começasse a escrever seus Ensaios.
O livro de La Boétie foi lido durante muito tempo em edições clandestinas por pequenos grupos de gente culta e rebelde. Um editor francês, muito tempo depois da morte de Montaigne, teve a idéia de publicar o tratado de La Boétie como um apêndice dos Ensaios, logo depois do que tratava da amizade e do próprio La Boétie.
Foi então que “Servidão Voluntária” ganhou reconhecimento em grande escala.
Quando os “99%” se insurgem contra a desigualdade em várias partes do mundo, eles podem até não saber – mas estão prestando um tributo a um gênio que ainda na universidade compôs linhas perenes contra a tirania e os tiranos.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

POLÍTICA - Que justiça é essa?

Diário do Centro do Mundo

Até quando vão torturar Genoino?

by Paulo Nogueira
Que justiça é essa?
Que justiça é essa?

Para ver quanto é absurdo o que estão fazendo com Genoino, basta atentar para o seguinte.
A Globo deve cerca de 1 bilhão de reais – comprovadamente – por conta de uma trapaça fiscal na compra dos direitos da Copa de 2002.
E ninguém cobra – embora tudo esteja documentado.
Os três irmãos Marinhos, como mostra a revista americana de negócios Forbes, são donos, juntos, da maior fortuna do país, superior a 50 bilhões de reais.
Mesmo assim, com tanto dinheiro, a Globo não paga o que deve e ninguém cobra.
Genoino, em compensação, acaba de receber da Justiça dez dias para pagar uma dívida de 468 mil reais por ter feito alguma coisa que ninguém sabe o que é, tais e tantas as incoerências do processo do Mensalão.
A retirada mensal dos Marinhos é, certamente, bem superior aos 468 mil reais cobrados de Genoino.
Mas para Genoino é um dinheiro que ele simplesmente não tem.
Seu patrimônio, como sabe a Justiça, consiste de uma casa modesta num bairro classe média de São Paulo, o Butantã.
Contra a Globo, a Justiça é pusilânime.
Contra Genoino, é um leão.
Não bastasse tudo, Genoino convalesce de um problema cardíaco sério. Parece que a cada semana decidem atormentá-lo, como que para testar seu coração combalido.
No final do ano, Joaquim Barbosa, em seu melhor estilo natalino, negou a ele que pudesse ficar em sua casa em São Paulo para cumprir sua prisão domiciliar temporária.
Por quê? JB falou em “interesse público”, mas quem acredita nisso acredita em tudo, como disse Wellington.
Não bastasse, JB deu a entender que em fevereiro Genoino volta à cadeia. Isso significa que Genoino está enfrentando uma torturante contagem regressiva. Cada hora que passa é uma hora a menos para ele no convívio com os seus.
Insisto: tudo isso sem que haja culpa comprovada. Tudo isso enquanto ninguém dá satisfações sobre meia tonelada de cocaína encontrada num helicóptero de um amigo de Aécio.
Isto é o Brasil que a Globo ajudou tanto a construir: injusto, abjeto, sem nexo. Rigor contra quem está no chão, complacência com os verdadeiramente poderosos.
Em sua histórica investida contra Catilina, um senador que conspirava para se tornar ditador de Roma, Cícero clamou: “Até quando você vai abusar da nossa paciência?”
Pois é.
Até quando este Brasil iníquo vai abusar da nossa paciência?

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

ECONOMIA - Artigo do professor Jorge Beintein, da Universidade de Buenos Aires.

Annus horribilis (mirabilis)


2013: ponto de inflexão na longa decadência ocidental


por Jorge Beinstein [*]
 
A "crise global" (ainda se continua a chamá-la assim) continua seu curso, vai-se aprofundando com o correr dos anos, deteriora as instituições das potências centrais, rompe os tecidos económicos e culturais que davam coesão a essas sociedades, deixa a descoberto como decadência, ou seja, como processo de deterioração geral irreversível. Também vai chegando aos denominados "países emergentes" derrubando o mito do rejuvenescimento capitalista a partir da periferia, da superação burguesa do neoliberalismo ocidental graças à intervenção do estado.

Os anos 2008 e 2013 constituem períodos em que se acelerou o declínio do capitalismo. Em ambos os casos o desastre teve como origem o centro imperial para a seguir propagar-se em direcção ao conjunto do sistema global. Poderíamos estabelecer um corte ainda mais preciso e fixar os meses de Setembro de 2008 e Setembro-Outubro de 2013 como os "momentos" nos quais a história universal incrementou bruscamente sua velocidade quando a acumulação de degradações produziu um grande salto de quantidade em qualidade. Do ponto de vista dos amos do sistema é possível falar de "annus horribilis", ou seja, anos de grandes desgraças, ainda que do lado das vítimas, dos milhares de milhões de seres humanos que habitam o subsolo do planeta burguês se possa afirmar que se trata do "annus mirabilis", de períodos em que o sistema avança claramente para a sua ruína, ou seja, de acontecimentos "maravilhosos" que alentam a esperança da possível conquista de um mundo melhor.

Em 15 de Setembro de 2008, nos Estados Unidos, o gigante financeiro Lehman Brothers declarou-se em quebra e o American International Group (AIG), considerado o líder mundial de seguros e serviços financeiros, precisou ser resgatado pela Reserva Federal. A crise provocada pelo desinchar da bolha imobiliária norte-americana propagou-se rapidamente, estalaram outras bolhas imobiliárias e bursáteis na Europa e na Ásia e os governos das grandes potências injectaram nos anos seguintes vários milhões de milhões de dólares a fim de impedir o afundamento do sistema financeiro internacional, pilar decisivo da economia mundial. Não conseguiram recompor a sua dinâmica anterior nem tão pouco a das estruturas produtivas, mas conseguiram sim evitar (adiar) a derrocada.

Assim, a partir de 2008 a massa financeira global, que se vinha expandindo de maneira exponencial, deixou de crescer. Na realidade, experimentou um decréscimo suave – é o que constatamos quando comparamos a especulação em "produtos financeiros derivados" (cerne do parasitismo financeiro global) com o Produto Bruto Mundial. Em meados de 1998 esses negócios equivaliam a cerca de 2,4 vezes o valor nominal da economia planetária, chegaram a 4,3 vezes pelos fins de 2002, a 8,5 vezes em fins de 2006 e a 11,7 vezes em meados de 2008 em pleno delírio especulativo, baixando lentamente desde então: 10,5 em fins de 2009, 10,6 em meados de 2011, caindo para 8,9 em fins de 2012 e para 8,6 em meados de 2013 [1] .

O estancamento da massa financeira, pior ainda o seu desinchar, marca o fim do longo crescimento drogado do capitalismo global durante a financiarização neoliberal. Desde os anos 1970 verificou-se a reconversão financeira do capitalismo que permitiu a reprodução ampliada da área imperial do sistema: os estados centrais endividavam-se e subsidiavam a indústria (gastos militares, reduções fiscais de todo tipo, etc) e travavam a desaceleração do consumo (subsídios aos desempregados), as empresas endividavam-se para continuar a investir e os consumidores endividavam-se sustentando esses grandes mercados. Por outro lado, as quedas tendenciais nas taxas de lucros produtivos de grandes grupos económicos eram mais que compensadas pela expansão dos negócios financeiros.

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Mas finalmente a bolha estalou no ano de 2008. O que se verificou a partir de então foi uma degradação financeira-produtiva "controlada" – as dívidas públicas e privadas das potências centrais tradicionais continuaram a crescer, a União Europeia estancou-se para entrar finalmente em recessão, o Japão transitou um caminho ainda mais dramático (devido a Fukushima) e os Estados Unidos tiveram um crescimento anémico que ao longo de 2012-2013 ameaçava converter-se em estancamento o directamente em recessão. O sistema havia entrado numa nova etapa.

Guerra e petrodólares
A crise de 2008 não terminou com a onda militarista dos Estados Unidos. Pelo contrário, potenciou-a. Muito antes dessa crise, frente ao seu enfraquecimento financeiro e produtivo, a elite imperial estava convencida de que só a utilização da sua superioridade militar podia reverter os retrocessos económicos ou pelo menos travar seu desenvolvimento. A vitória ocidental na Guerra-fria parecia confirmar essa hipótese. A avalancha militarista da era Reagan durante os anos 1980, continuada pela presidência de George Bush (pai) havia dado a estocada final na União Soviética, obrigando-a a competir numa corrida armamentista que ultrapassou sua capacidade económica e burocrática em declínio. Liquidada a URSS os Estados Unidos surgiam como a única superpotência militar, o planeta ficava à sua disposição.

Agora, desde há algo mais de uma década, assistimos a uma espécie de mega Vietname diversificado em vários espaço geográficos com diferentes intensidades e modalidades. O olhar do Império ao resto do mundo é principalmente militar, a periferia surge perante os olhos da sua elite dominante como um vasto campo de batalha.

Os golpes de estado em Honduras (2009) e no Paraguai (2012), o agravamento das intervenções sobre a Colômbia e a Venezuela e as actividades de desestabilização em outros países latino-americanos assinalam que o Império lançou uma ofensiva de grande alcance sobre a região. A isto devemos somar o desenvolvimento de uma segunda frente de guerra na África cujo momento mais dramático foi a destruição da Líbia, mas apontando ao mesmo tempo ao mundo árabe. Ambas as ofensivas convergem com o prosseguimento da longa guerra no Médio Oriente e na Ásia Central: a terceira frente e a instalação de uma quarta frente de forças militares cada vez mais extensa e intensa na Ásia-Pacífico, apontando contra a China.

Nos princípios da década actual os Estados Unidos apresentavam quatro mega frentes simultâneas, toda a periferia não controlada pelo Ocidente encontrava-se atacada ou ameaçada. Desse modo a agressividade dos falcões da era Bush (quando o seu secretário da Defesa Ronald Runsfeld afirmava que os Estados Unidos podiam desenvolver com êxito duas guerras ao mesmo tempo) foi a seguir ampliada na era Obama.

O duplo rosto do Império (decadência económica e social por um lado e militarismo pelo outro) sugere perguntar se a onda militar é sustentável no médio-longo prazo. Na realidade, não é seguro que possa ser sustentada nem sequer no curto prazo. Basta verificar que os gastos militares reais dos Estados Unidos aproximam-se dos 1,3 milhões de milhões de dólares se aos gastos do Departamento da Defesa somarmos aqueles com finalidades militares de outras áreas da administração pública (Departamento do Estado, Departamento da Energia, NASA, etc) e os interesses pagos pelo endividamento necessário para a sua realização. Essa cifra equivale no Orçamento de 2013 à quase totalidade da arrecadação prevista de impostos pessoais directos ou a 140% do défice fiscal projectado.

Assim, se a militarização não é economicamente sustentável, devemos interrogar-nos acerca da existência de alguma lógica, alguma racionalidade superior que explique o fenómeno. Wallerstein respondeu a essa pergunta há alguns anos e de maneira contundente: os Estados Unidos encontrar-se-iam perante a alternativa de aceitar um declínio honroso (opção "racional") ou então jogar a casa pela janela. Em resumo: as elites imperiais ao seguirem o segundo caminho demonstrariam que se tornaram "loucas", que a decadência rompeu sua racionalidade. A explicação é simples, directa, mas em última instância superficial, ignora sobretudo a conexão necessária entre racionalidade e realidade, entre o teoricamente viável e a viabilidade prática da teoria que condiciona a racionalidade, que lhe faz por os pés sobre a terra. Encontramo-nos entre a dinâmica histórica concreta da racionalidade instrumental (da racionalidade burguesa) tal como se apresenta nos princípios do século XXI, enquanto expressão da evolução, das contradições, dramas, necessidades, possibilidades das forças imperialistas dominantes que a desenvolvem, neste caso as elites ocidentais. Trata-se de uma racionalidade só interessada na eficácia dos mecanismos de preservação e expansão do poder, cada vez mais atolada no curto prazo, absolutamente desinteressada das consequências no longo prazo. Nesse sentido, o encadeamento de "soluções racionais" de problemas concretos pode chegar a ser um caminho seguro para o desastre, para a explosão do sistema, o esforço racional (e amoral) de recomposição, de preservação do capitalismo decadente, tornar-se auto-destruição.

O Ocidente encontra-se embarcado numa guerra planetária – um dos seus objectivos é o saqueio dos recursos naturais da periferia, em primeiro lugar os energéticos. O êxito do empreendimento lhe permitiria realizar uma drástica contenção dos custos produtivos, assegurando níveis aceitáveis nas taxas de lucro dos grandes grupos industriais e, em consequência, amplos benefícios e expansões de negócios das redes financeiras... e do parasitismo consumista das classes médias e altas dos Estados Unidos e Europa.

A "guerra do petróleo" está associada a outra guerra: a financeira, focalizada na desgastada hegemonia do dólar que gira em torno de um factor decisivo: os petrodólares. Em 2012 as exportações globais de petróleo atingiram aproximadamente os 2 milhões de milhões de dólares, mas este comércio "físico" gerou negócios especulativos nos mercados de produtos financeiros derivados da ordem dos 30 milhões de milhões [2] equivalente a cerca de 42% do Produto Bruto Mundial desse ano ou a umas duas vezes do Produto Bruto dos Estados Unidos ou umas 13 vezes o valor das suas importações. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial os negócios petrolíferos (tanto comerciais como financeiros) foram realizados em dólares e desde princípios dos anos 1970 em "petrodólares" sem base ouro, mas o declínio da moeda norte-americana e do peso económico relativo da superpotência causaram a redução paulatina da hegemonia do dólar. Não foi só o deslocamento dos Estados Unidos no mercado petrolífero global e sim do conjunto dos países do Primeiro Mundo cujo consumo petrolífero relativo vem declinando. Controlar as principais áreas produtivas e redes de comercialização é para os Estados Unidos e seus sócios europeus mais o Japão não só uma prioridade "energética" agravada pela entrada na era do estancamento da extracção global do petróleo como também um gravíssimo tema financeiro. Se a procura de dólares chegar a declinar de maneira decisiva e, em consequência, seu preço relativo em relação às outras moedas internacionais importantes (em especial as emergentes, como o yuan e o rublo) e também do ouro, então poderia ruir todo o edifício parasitário norte-americano arrastando o conjunto do primeiro mundo. Os Estados Unidos já não seriam capazes de sustentar seu consumo civil nem seus gastos militares alimentados por um défice comercial e fiscal pago com papéis (dólares e títulos do Tesouro).

Em 1970 o primeiro mundo consumia 70% da produção petrolífera global. Quando estourou a "Primeira Guerra do Golfo", em 1991, essa proporção havia descido para 54%. No ano de 2005 caía para 49,6% e em 2012 para 41,2% [3] . A "guerra da eurasia" iniciada em 1991 e acelerada uma década depois pretendia o controle ocidental sobre uma área que abarcava as bacias do Mar Cáspio e do Golfo Pérsico abrigando cerca de dois terços das reservas mundiais de petróleo. A vitória militar teria encurralado a Rússia (segundo promotor mundial de petróleo em 2012) obrigando-a a submeter-se ao Ocidente.

Mas os Estados Unidos não puderam ganhar essa guerra e, quando tentaram sancionar o Irão deixando de comprar o seu petróleo e obrigando a União Europeia a fazer o mesmo, os iranianos puderam vender o produto à China substituindo o dólar pelo yuan ou à Índia em troca de ouro. O primeiro mundo já não é o mercado maioritário do petróleo e tão pouco consegue controlar sua produção. Em consequência, sua dominação financeira declina rapidamente.

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A ruptura de 2013
No ano de 2013 verificaram-se três factos decisivos.

Em primeiro lugar a ofensiva militar-planetária dos Estados Unidos iniciada nos princípios dos anos 1990 (pós guerra fria) encontrou pela primeira vez uma barreira que não pôde transpor, sua intervenção na Síria não pôde passar (como havia acontecido no caso líbio ou, antes, na Jugoslávia, Iraque ou Afeganistão) à etapa da acção directo, neste caso com a realização de bombardeamentos maciços sobre esse país. Sua confrontação com a Rússia fez fracassar a operação em Setembro de 2013. Não faltaram comunicadores ocidentais a qualificar o facto como o começo de uma nova guerra-fria. Na realidade tratou-se do fim da pós guerra-fria e a entrada numa nova era marcada pelo enfraquecimento militar estratégico dos Estados Unidos. Só na zona do Médio Oriente e Ásia central ficam em posição difícil seus vassalos tradicionais como a Arábia Saudita, Israel ou Turquia e aumenta a influência da Rússia que por exemplo assinou em Novembro um acordo de integração militar com a Arménia, Bielorrússia e Cazaquistão que se projecta ser rapidamente ampliado ao Tajiquistão ao mesmo tempo que se estreitam as relações militares russo-egípcias.

Não se trata de um simples deslocamento de influências nessas regiões e sim, também, de um duro golpe à imagem de omnipotência da sua máquina militar e ao conjunto de interesses económicos e políticos directamente vinculados à mesma. E o que é muito mais grave: verificou-se uma brutal perda de eficácia do principal instrumento de dissuasão global dos Estados Unidos. Isto não significa o fim das suas agressões mas causa um notável desconcerto estratégico que agrava a crise de percepção no seu mais alto círculo de poder.

O segundo acontecimento significativo foi a ameaça de cessação de pagamentos do estado norte-americano, em Outubro de 2013. Pela segunda vez nesta década, os Estados Unidos estiveram à beira do incumprimento com uma dívida pública federal que nesse momento atingia os 16,7 milhões de milhões de dólares, equivalente a 105% do seu Produto Interno Bruto do ano 2012 (em fins de Novembro de 2013 superava os 17,2 milhões de milhões de dólares), mas somadas todas as dívidas públicas e privadas chega-se a algo mais de 360% do PIB. Não se verificou o incumprimento mas sim a evidência de uma grave deterioração político-institucional. Durante dias as cúpulas politicas brincavam com o incumprimento, intercambiavam chicanas e golpes baixos até chegar à data limite de 17 de Outubro tentando sacar vantagens com uma bomba financeira que se houvesse explodido teria produzido uma catástrofe financeira global sem precedentes e certamente afundado a economia estado-unidense na hiper recessão. Agora todos esperam o próximo jogo do incumprimento sem que se saiba em que pode terminar.

O pano de fundo é a deterioração financeira de uma economia esmagada pelas dívidas cujos estalidos cada vez mais fortes põem a descoberto uma classe política que brinca com a cessação de pagamentos e a explosão do capitalismo global como se estivesse disputando o resultado de uma partida de beisebol ou de alguma eleição municipal. A tragédia é assumida com absoluta frivolidade, a decadência anestesia as elites dirigentes.

Estes dois factos – o fracasso político-militar na Síria mais o escândalo político-institucional do incumprimento (e o pântano económico no qual se apoia) – estimulam um terceiro fenómeno desestruturante: o esgotamento da unipolaridade imperial, a rápida perda de poder relativo mundial dos Estados Unidos. Isso impulsiona o avanço de potências regionais e de pelo menos duas que aspiram um papel global destacado: a Rússia e a China. Contudo esses movimentos não impõem a construção de um mundo multipolar, ou seja, a repartição completa do planeta entre um grupo reduzido de impérios. O que vem ocorrendo (e agora se acelera) é um processo de despolarização (e não de multipolarização ) onde nem uma nem três super-potências podem controlar o sistema global. É a hierarquia imperial do capitalismo como tal, manipulada por um amo ou vários, que percorre toda a história do sistema, que se encontra em decadência. Isso envolve em primeiro lugar os velhos pólos como os Estados Unidos, as grandes potências europeias ocidentais (Alemanha, Inglaterra, França) e Japão. Mas também as potências novas ou renovadas, pois a economia chinesa se vem desinchando seguindo assim a rota que marcam ao seu sistema industrial exportador os seus grandes clientes declinantes: os Estados Unidos, Japão e a União Europeia. A economia russa estanca-se em 2013 e as previsões para 2014 são piores, a recessão na Europa afecta suas exportações energéticas. A Índia e o Brasil não se encontram em melhor situação, em ambos os casos a economia estanca-se e ameaça entrar em recessão. Todas as grandes economias encontram-se presas pela crise, as tradicionais e as emergentes, as aferradas ao neoliberalismo e as que praticam o capitalismo de estado. O motor da decadência é o G7 enquanto os BRICS vão entrando gradualmente (por agora) no processo comum.

A despolarização global surge como um fenómeno complexo, com imagens contraditórias onde algumas potências retrocedem e outras avançam, onde algumas aparentam recuperar-se para a seguir voltar a declinar, outras parecem escapar da onda depressiva para mais adiante sofrer os impactos das forças entrópicas globais. É necessário entender os pormenores, as especificidades, mas sem perder de vista o panorama mais amplo: a decadência sistémica global.

A despolarização não instaura uma espécie de capitalismo global democratizado, com menos imperialismo, com mais autonomias nacionais ou regionais articuladas expandindo suas forças produtivas. A ilusão da despolarização progressista não é menos irreal que a da multipolaridade ordenada. A realidade apresenta o sistema a marchar rumo a convulsões cada vez maiores, rumo à generalização da desordem, a auto-destruição ambiental, a reprodução ampliada da economia tendendo a zero e anunciando converter-se em negativa. É o capitalismo em vias de esgotamento que se desarticula ao despolarizar-se, apresentando horizontes futuros de barbárie mas também de insurgências portadoras de utopias libertadoras.
(1) Fonte: Bank for International Settlements, www.bis.org/statistics/derstats.htm
(2) Gati Al-Jebouri, CEO Lukoil International Trading and Suply Company, Litasco SA, "International Oil Market and Oil Trading", Haute Ecole de Gestion, Geneva, September 19, 2008 & BP Statistical Review of World Energy, 2013
(3) BP Statistical Review of World Energy, 2013.

[*] Economista, Professor da Universidade de Buenos Aires.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

MÍDIA - O chororô do Globo.

O chororô de O Globo porque o governo Dilma vai bem no social



“Dilma vai bem no social e mal na economia”.  Esta é a manchete do alto da 1ª página de O Globo hoje, com matérias ocupando duas páginas internas sobre o assunto. Nenhuma novidade em se tratando do jornalão carioca, sua linha editorial é sempre esta: priorizar a economia, o mercado e relegar o avanço social à última de suas prioridades. No caso hoje, ainda que nas entrelinhas das matérias publicadas a respeito, é visível a contrariedade do Globo com a prioridade dada à área social pela gestão Dilma Rousseff.
Esta manchete principal do jornal – que mais se assemelha a título de editorial – chama para o balanço  que O Globo publica hoje, pelo qual, em sua avaliação, de 46 metas (mensuráveis) do governo Dilma, 24 já foram alcançadas ou devem ser até dezembro deste novo ano e 22 estão em ritmo lento e não devem ser cumpridas. O jornal é obrigado a reconhecer – e o faz – que a redução da miséria e do desemprego são pontos fortes do governo Dilma, mas registra que “as reformas não avançam e o crescimento do PIB deve ser o menor desde o governo Collor” (1990-1992).
O jornal bate nessa tecla, de que o pior desempenho do governo Dilma se dá no crescimento econômico e nas propostas de reforma política e tributária. Já os maiores avanços, estão na queda da miséria e do desemprego, além da criação de moradias no Minha Casa, Minha Vida. O material afirma, ainda, que o MST terminou 2013 com o menor número de invasões de terra em 11 anos de governos do PT. Foram 110, a maior trégua dada pelo movimento desde 2002, ano da 1ª eleição do presidente Lula, levantou o jornalão.
Estadão fala de “guerra psicológica” como se não fosse um de seus fomentadores
Já O Estado de S.Paulo esperou poucos dias para já vir com contundente críticas à presidenta Dilma por sua mensagem de final de ano em rede de rádio e TV. Sob o título “Uma retórica perigosa”, o Estadão dedicou seu principal editorial do 1º dia do ano a este pronunciamento da chefe do Estado, no qual ela denunciou que o governo é vítima de uma “guerra psicológica” e advertiu à nação de que isto pode ser prejudicial aos investimentos.
“Sem nada melhor para explicar e justificar a inflação alta, a estagnação econômica, a piora das finanças públicas e a deterioração das contas externas, a presidente Dilma Rousseff inventou uma estapafúrdia “guerra psicológica” de “alguns setores” contra o governo. Se esses “setores” criarem uma “desconfiança injustificada” em relação à política econômica, poderão, segundo ela, inibir investimentos”, começa o editorial.
“A presidente – aconselha o jornalão – deveria ter mais cuidado com seus marqueteiros, conhecidos pelos maus conselhos e por sua perigosa influência nas decisões – quase sempre de inspiração eleitoreira – tomadas pelo Executivo. Mas sobra uma dúvida: e se, desta vez, a turma do marketing for inocente de mais essa experiência ridícula vivida por sua cliente? Nesse caso, ela deveria ter mais cuidado com os próprios impulsos e pesar mais suas palavras, imaginando como reagirá um espectador medianamente inteligente e razoavelmente informado. Detalhe relevante: pesar mais as palavras antes de pronunciá-las.”
Para jornal, presidenta recorreu a “retórica totalitária”
Para o jornalão paulista “o sentido mais perverso dessa expressão aparece quando se culpam “alguns setores” pela inibição de investimentos. Esse é um velho e bem conhecido vício da retórica totalitária: apresentar os críticos como inimigos da pátria. Falta ver se o discurso de fim de ano terá sido o começo de uma escalada”, conclui o texto do Estadão.
Retórica totalitária? E que escalada? A presidenta da República simplesmente afirmou na rede de rádio e TV o que os brasileiros estão fartos de saber: há “guerra psicológica”, sim, contra o governo, quando torcem pelo aumento da inflação, desequilíbrio das contas públicas, corte de investimento, mudança da política de pleno emprego no país, arrocho salarial…Guerra psicológica ostensiva, estampada diariamente nos jornais, da qual o Estadão mesmo é um dos principais porta-vozes. Como sempre demonstrava aqui no blog, o ex-ministro José Dirceu.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

POLÍTICA - Novo prefeito de Nova Iorque.

Diário do Centro do Mundo

O novo prefeito de Nova York e sua opção pelos pobres

by Paulo Nogueira
Uma família diferente
Uma família diferente

Diz o NY Times: “Ele deu voz aos nova-iorquinos esquecidos – os 46% que vivem na pobreza ou perto dela, os 50 000 sem teto, os milhões que estão fora das áreas de segurança econômica e afluência aristocrática.”

O Times estava se referindo a Bill de Blasio, 52 anos, democrata que se elegeu espetacularmente prefeito de Nova York. Surgido do nada dentro do mundo político americano, Blasio venceu as eleições com 40 pontos de diferença sobre o candidato republicano. Não foi uma vitória, foi um esmagamento.

Blasio se elegeu com a seguinte plataforma: combater a desigualdade social, combater a desigualdade social e ainda combater a desigualdade social.

Para isso, em sua plataforma estavam coisas como o aumento dos impostos para os ricos.

Pausa para uma reflexão: você vê algum candidato à presidência no Brasil falando em aumentar imposto dos ricos?

Bem, Blasio foi duramente atacado pela plutocracia novaiorquina. Vasculharam seu passado e brandiram contra ele um passado ativista no qual ele se colocou a favor dos sandinistas na Nicarágua. Até sua lua de mel em Cuba foi usada contra Blasio.

Mas os novaiorquinos não ouviram a elite financeira. E abarrotaram Blasio de votos numa vitória que, para muitos, simboliza o retorno aos Estados Unidos de uma coisa chamada ‘esquerda’. Blasio se declara um “socialista democrático”.
Blasio é uma figuraça. Ele é casado com uma mulher negra que, antes do casamento, só tivera relacionamentos lésbicos. Os dois têm dois filhos adolescentes, um menino e uma menina.

O garoto tem um cabelo afro que acabou virando destaque na mídia americana. Um vídeo em que o menino fala do pai viralizou nos Estados Unidos.
Blasio, de origem italiana, teve uma infância conturbada. O pai perdeu uma perna numa guerra e mesmo assim, ao voltar, foi perseguido pelo Estado, sob a acusação de ser comunista.

O homem se perdeu: passou a beber, se divorciou e se afastou da família. Acabou por se matar com um tiro de rifle no peito. “Com ele aprendi o que não fazer”, diz Blasio. Ele tirou o sobrenome paterno em sua vida profissional e ficou com o da mãe.

Blasio conta que teve conversas interessantes com empresários que o viam com desconfiança. A um deles, cujo avô era um homem sem nada, ele lembrou que em outros tempos gente pobre tinha oportunidade de ascender. “O empresário, ao lembrar do avô, entendeu o meu ponto”, diz Blasio.
Obama, que apoiou Blasio, foi uma enorme decepção para os pobres americanos.

Blasio parece ser diferente. Tem mais conteúdo e foi eleito para mitigar a desigualdade social. Ele falou muito na parábola de Dickens de “duas cidades” dentro de uma só, uma riquíssima e outra miserável. (É uma imagem absolutamente adequada ao Brasil.)

Num gesto notável, estendeu a mão para a comunidade islâmica de Nova York, alvo de espionagem constante depois do Onze de Setembro. Disse que a perseguição e o preconceito vão acabar em sua gestão.

Os novaiorquinos deram uma chance à sorte ao escolhê-lo maciçamente e preterir o candidato republicano sob o qual as “duas cidades” permaneceriam e, com elas, a pobreza abandonada de milhões de pessoas.

Parabéns, mais que a Blasio, aos novaiorquinos.

O texto acima foi publicado em novembro, quando Blasio venceu a eleição. É publicado de novo hoje, quando ele toma posse.

MÍDIA - A manipulação e o partidarismo têm um preço.

247 – A Rede Globo tem um plano para reverter sua queda de audiência em 2014: focar em públicos novos. O anúncio foi feito por Carlos Henrique Schroder, que assumiu há um ano o cargo de diretor-geral, em almoço de final de ano com jornalistas.
A emissora vive uma crise de audiência. O Jornal Nacional, seu programa mais importante, registrou em 2013 seu pior ano da história em audiência. Apenas nos últimos dois anos, 2012 e 2013, a queda foi de 18,4%, e na última década, despencou 30%. No caso desse ano que passou, uma das razões é a péssima audiência da novela que antecede o noticiário, Além do Horizonte, prejudicando também o JN.
Outra razão é que, assim como jornais e revistas, as emissoras de televisão também têm perdido público para a internet. No caso da emissora da família Marinho, mesmo no horário nobre (das 18h à meia-noite), em que estão concentradas as principais atrações, a queda da audiência foi maior, caindo de 24,6 pontos (2012) para 23,2 pontos (2013).
Segundo Schroder, o plano para 2014 é flexibilizar e experimentar mais. O diretor enfatizou a necessidade de oferecer produtos que atraiam o público que está indo para a TV paga sem perder o telespectador mais tradicional.

ANOS DE CHUMBO - Trevas, nunca mais

Clóvis Rossi na FSP
 
Trevas, nunca mais

O cinquentenário do golpe de 1964 é uma lembrança das vantagens da democracia reconquistada
Passei a noite de 31 de março de 1964 para 1º de abril pulando, no DKW azul de meu pai, da sede do governo paulista, então no Palácio dos Campos Elíseos, para o QG do Exército, à época na rua Conselheiro Crispiniano, no centrão, cobrindo para o jornal carioca "Correio da Manhã" o que mal sabia que viria a ser o golpe que faz 50 anos logo mais.
Após 50 anos, só um fanático negaria o quanto o país mudou para melhor em termos institucionais, por muito que falte para chegar a ser plenamente civilizado.
Para a grande maioria dos brasileiros, que não viveu aquela madrugada nem as trevas densas que a ela se seguiram, é difícil compreender o avanço que é os jornalistas já não precisarmos mais fazer plantão às portas dos quartéis. Ou ser obrigado a decodificar o Almanaque do Exército para tentar entender se a promoção a general de fulano ou beltrano podia significar mais fechamento ou alguma abertura.
Por falar em "Correio da Manhã", meu primeiro emprego, acabou sufocado pela ditadura, mesmo tendo publicado dois dos três editoriais mais notórios de todos os tempos ("Basta" e "Fora"), cobrando a deposição do presidente João Goulart.
Depois se arrependeu e passou a ser crítico do novo regime, o que levou a uma implacável perseguição, incluída forte pressão sobre os anunciantes, até quebrar.
Um caso como esse, apenas uma entre as milhares de arbitrariedades e violências praticadas no período 1964/1985, torna até risível, hoje, achar que os governos do PT pretendem acabar com a liberdade de imprensa. Que gostariam de ter uma mídia domesticada, gostariam, como todos os governos, de qualquer signo.
Mas, na democracia, não dá para fazer o que a ditadura pôde fazer com o "Correio da Manhã".
Na democracia, quem quer grita "onde está Amarildo" --e os policiais responsáveis por seu desaparecimento acabam descobertos e punidos. Na ditadura, milhares de gritos similares foram silenciados e, mesmo depois de encerrado o ciclo, ainda não se chegou à verdade, do que dá prova a existências das "Comissões da Verdade".
O golpe que faz 50 anos em 2014 inaugurou um ciclo nefando na América Latina. Primeiro, caiu a Argentina (1966, com uma recaída 10 anos depois), depois o Uruguai, o Chile --até que todos os países sul-americanos e a maioria dos latino-americanos se transformassem em ditaduras, exceção feita a Venezuela, Colômbia, México e Costa Rica.
Cinquenta anos depois, caiu na rotina a realização de eleições presidenciais. Serão sete só este ano (El Salvador, Costa Rica, Colômbia, Panamá, Bolívia, Uruguai e o próprio Brasil).
No Brasil, aliás, será a sétima consecutiva, santa rotina que marca um recorde, como lembrou ontem Fernando Rodrigues.
É tal a rotina que posso ter a certeza de que jamais voltarei a fazer plantão à porta dos quartéis, mas nem por isso dá para esquecer que levou 35 anos para que um presidente legitimamente eleito passasse a faixa para outro presidente eleito nas mesmas condições.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Quem tem medo do Barbosão?



Carlos Chagas

A melhor resposta a essa pergunta seria dizer: “todo mundo”. Claro que uns mais, outros menos. O medroso mais recente parece ser o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, menos porque as  pesquisas revelam o presidente do Supremo Tribunal Federal com percentuais superiores a Aécio Neves e a Eduardo Campos, perdendo apenas para Dilma, mais porque a vaidade do sociólogo continua monumental.
Referindo-se como uma aventura  a hipotética candidatura de Barbosa ao palácio do Planalto, FHC negou-lhe “as características necessárias para conduzir o Brasil sem causar grandes crises”. Acrescentou faltar ao  ministro traquejo para a vida partidária, “pois uma coisa é ser juiz e outra ter a capacidade de liderar um país”.
Mesmo elogiando sua performance como relator do mensalão, “tendo atuado com perseverança e clareza”, agrediu possíveis    eleitores de Barbosa como despreparados que desejam um “salvador da pátria”, coisa que “não dá bom resultado e mostra que a nossa democracia ainda não está consolidada. É perigoso”.
Dispensa-se um diploma de psicólogo ou de psiquiatra para perceber nas palavras de Fernando Henrique três motivações: ressentimento, frustração e medo. Primeiro porque até hoje o ex-presidente da República não admite possa governar alguém  mais capaz do que ele. Assim pensa do Lula e de Dilma, com respingos para Aécio. Depois porque apesar de entrado nos anos, conserva aquele recôndito desejo de que ainda o venham buscar como candidato. Por último, revela o receio de Barbosa emplacar e chegar ao segundo turno, sufocando o sonho dos tucanos.
Mas não é apenas o ex-presidente que teme a candidatura do presidente do Supremo. No PT, os partidários da reeleição de Dilma não se assustam com a perspectiva do segundo turno,  caso o adversário venha a ser Aécio. Mas tremem diante  da hipótese de Barbosa, senão como “salvador da pátria”, ao menos como alguém desvinculado dos partidos e das práticas vigentes no mundo político. A tal  “coisa nova” que de vez em quando atropela as campanhas presidenciais, como se verificou com Jânio Quadros e, depois, com Fernando Collor.
Existem, no entanto, entre os companheiros, aqueles que torcem pela candidatura de Barbosa. São os adversários de Dilma, buscando a alternativa de fazer do Lula o candidato. Face a um crescimento do ministro, por certo que na dependência de sua decisão de concorrer,  só o Lula para garantir a preservação do poder.
Sintomático na entrevista de Fernando Henrique, voltando-se a ela, foi a sugestão que deu: Barbosa deveria começar na política candidatando-se a vice-presidente. Seria manobra para o PSDB apropriar-se da popularidade dele? Mas se não serve para presidente, como serviria para  substituto ou sucessor?
Em suma, o ano se inicia com o nome do presidente da mais alta corte nacional de justiça ocupando manchetes. Até  agora ele se mantém calado, sem alimentar especulações. Dispõe de três meses e pouco para meditar,  porque em abril encerra-se o prazo para magistrados se candidatarem, quando então precisarão filiar-se a partidos políticos. Barbosa já criticou todos  num só comentário, tempos atrás.  Partidos, porém, não lhe faltarão…

POLÍTICA - Roberto Jefferson tira férias do seu blog.

Do Blog do Mello.

 

Enquanto Dirceu e Genoíno penam na Papuda, Roberto Jefferson, único réu confesso da AP 470, tira férias de seu blog




Por que José Genoíno está preso e Roberto Jefferson, não, é a prova incontestável da utilização política do julgamento do tal mensalão pelo STF, especialmente por seu presidente Joaquim Barbosa.

Ambos têm problemas gravíssimos de saúde. Mas enquanto o petista Genoíno penou na Papuda e agora está de favor em casa de parente em Brasília, o ex-deputado Roberto Jefferson, que denunciou o tal mensalão, único réu confesso da AP 470, e que sumiu com R$ 4 milhões sem dar satisfações, passeia em casa e agora se dá ao luxo de 15 dias de férias de seu blog, como mostra a imagem acima.

Disso tudo, a falta de reação do PT é lamentável. Não é possível que se acocorem tanto e permitam as ilegalidades flagrantes (denunciadas por juízes insuspeitos de serem petistas) cometidas neste julgamento, que me recorda a famosa frase de Jarbas Passarinho na reunião que decidiu o AI-5: "Às favas todos os escrúpulos".

Atenção, PT, não bastam palavras de condenação e indignação. Discursos revoltados contra o julgamento da AP 470 para partidários e militantes não resolvem o problema. É preciso ação: política e judicial. Não é possível que Joaquim Barbosa e seus pares (por omissão) atropelem a Constituição sob o chicote da mídia.

Lembrem-se da sentença do poeta e compositor Torquato Neto: Levem um homem e um boi ao matadouro. O que berrar primeiro é o homem. Mesmo que seja o boi.

FELIZ ANO NOVO!

Aos caros amigos leitores, tudo de bom em 2014.