sábado, 30 de maio de 2009

O FIM DE UM JORNAL MELHOR QUE OS SEUS DONOS.

Nos tempos que exercía minha atividade profissional, a Gazeta Mercantil era uma leitura diária indispensável.Nos últimos anos, nas mãos de um aventureiro, acabou tendo um fim que não merecia.
Carlos Dória


Thales Guaracy (*)

A imprensa anda de luto pela Gazeta Mercantil, o jornal que vem estertorando nas mãos da CBM, Companhia Brasileira de Multimídia, de Nelson Tanure. Seu fim não se dá pela crise da imprensa, que vai abalando grandes jornais do mundo, a começar pelo New York Times, nos Estados Unidos, com a prevalência crescente da internet sobre a mídia impressa. É apenas um caso de má administração e incompreensão da natureza de um negócio. Com a Gazeta, vai se encerrando parte da história do jornalismo brasileiro, mas ela ainda nos dá uma lição, sua última contribuição para o futuro.
Comecei a trabalhar na Gazeta em 1986, recém-saído da faculdade, depois de rápido estágio na TV Bandeirantes. Instalada num edifício da rua Major Quedinho, a Gazeta era um jornal venerável, considerado leitura obrigatória no mundo profissional. Sua circulação era menor que a da Folha de S. Paulo e de O Estado de S. Paulo, porém seu público era mais qualificado.
Possuía também um braço na TV, o programa Crítica e Autocrítica, capitaneado pelo seu diretor editorial, Roberto Muller, que ia ao ar no domingo à noite. Era uma alternativa para o público que queria ver uma conversa mais séria, ainda que às vezes meio sonolenta, em lugar das mesas redondas de futebol.
Na redação do jornal, havia uma constelação de estrelas do jornalismo, a começar pelo seu diretor, Matias Molina, o secretário de redação, Alexandre Gambirasio, e um time de repórteres tratados como primas-donas: Celso Pinto, José Casado, Getúlio Bittencourt, entre outros - todos premiados e com vasta folha de serviços prestados ao jornalismo brasileiro.
A Gazeta era não apenas um grande jornal de negócios, como uma escola de jornalismo. Isso incluía princípios como a imparcialidade e a honestidade absolutas; a obsessão pela informação correta, segundo elemento essencial para a credibilidade; a busca incansável pela notícia exclusiva, que fazia a diferença.
A disputa aberta e estimulada entre os repórteres pelo espaço da primeira página era uma forma de garantir a perseguição permanente pela qualidade, num mercado em que ainda não havia concorrentes importantes. A Gazeta valorizava o jornalista, que assinava todas as suas reportagens e era tratado como patrimônio da casa, a própria essência do negócio.
Parecia um negócio inexpugnável, e teria sido, não fossem os seus proprietários: a familia Levy, cujo patrono, o deputado federal Herbert Levy, deixara a administração do jornal ao filho Luiz Fernando para cuidar de suas atividades políticas. A gestão fez da Gazeta Mercantil o único órgão de imprensa em que trabalhei a atrasar salário. Porto seguro para a publicidade de bancos e outras empresas que tinham no jornal um veículo perfeito, o mal uso dos recursos fazia com que volta e meia a empresa entrasse em dificuldades.
Por sorte, naquela época, havia um grupo de empresários que, nos momentos mais difíceis, socorriam o jornal. Sabiam que ele era melhor que os seus donos. Agiam não por amizade, compromisso, ou mesmo medo, mas pelo entendimento de que o serviço prestado pela Gazeta era importante e insubstituível para a comunidade de negócios e o país.
Assim, o jornal prosseguiu não por causa de seus criadores, mas apesar deles; pertencia não a uma família, mas à sociedade. Sempre foi respeitado muito graças ao espírito de corpo dos jornalistas que nele trabalhavam, enquanto seus proprietários eram tratados com reserva.
Lembro de certa tarde em que eu, ainda um repórter principiante, fui fazer uma entrevista com o então diretor do Banco Central, Wadico Bucchi, em São Paulo. Encontrei Luiz Fernando Levy já na ante-sala, à espera de uma audiência. Levy continuou esperando, enquanto eu entrei na sua frente, atendido primeiro.
Para Bucchi, o repórter principiante merecia preferência em relação ao dono do próprio jornal onde trabalhava. Ele sabia que eu estava ali em busca de notícia, fazendo meu serviço para uma publicação de prestígio. Levy estava lá para pedir alguma coisa.
Quando o mercado se torna mais difícil, uma má gestão fica mais evidente e faz a diferença, sempre para pior. Surgiu o Valor Econômico, um concorrente que tomou da Gazeta boa parte de seu principal ativo: os jornalistas. A empresa mergulhou em dívidas e mesmo os seus mais antigos defensores desistiram de salvá-la. Acossado pelos credores, Levy entregou o título a Nelson Tanure, empresário do ramo de transportes, que resolveu investir em comunicação e cobriu-lhe dívidas.
Tanure não tem a mesma familiaridade com as qualidades que fizeram da Gazeta um grande veículo e poderiam recuperá-la. E anunciou que fecharia o jornal por conta da cobrança na Justiça de dívidas trabalhistas anteriores à sua gestão e que, segundo explicou no próprio jornal, não lhe dizem respeito.
Há hoje uma onda de empresários que arriscam tornar-se editores sem compreender a dependência desse negócio de sua matéria-prima essencial – gente. A Gazeta teve seus quadros reduzidos, os salários aviltados. A qualidade do jornal era até miraculosa, dadas as condições de trabalho.
O que assusta hoje na imprensa não é a mudança da mídia impressa para a digital. A verdadeira ameaça ao negócio é a entrada de gente com dinheiro e ousadia, mas sem conhecimento do riscado – sobretudo, da importância da separação entre Igreja e Estado. Para mercadores vindos de outras áreas, é difícil aceitar que não se barganha conteúdo jornalístico por dinheiro, e que a credibilidade, que exige o sacrifício do ganho fácil, é a fonte do sucesso duradouro nesse tipo de negócio.
A Gazeta virará agora uma embrulhada jurídica para que se saiba quem pagará as contas, se Levy ou se Tanure – um tipo de disputa à qual ambos, por sinal, estão habituados. Esse, porém, não é o verdadeiro fim da história. Jornal que sempre analisou em suas reportagens as causas do sucesso e do fracasso empresarial, a Gazeta fez de sua própria trajetória uma parábola do assunto que explorava.
Em sua agonia, a Gazeta deixa como ensinamento o que é capaz de levantar e também derrubar um negócio de comunicação, não importa qual seja sua plataforma – o papel, a TV ou o mundo virtual. E, nesses tempos tão cheio de dúvidas sobre o futuro do negócio da informação, reafirma a convicção de que, enquanto os bons princípios do jornalismo forem praticados, sempre haverá uma imprensa livre e economicamente forte para proteger a sua e a nossa liberdade.
(*) Jornalista
Fonte:blog Entrelinhas.

O GEORGE BUSH QUE NINGUÉM CONHECE.

Pedro Doria

George Bush é um intelectual. Em seu apartamento de Nova York, já descrito por um amigo como ‘uma Gibraltar literária’, o mestre vivia cercado de livros, entre eles muitos volumes raros.

Bush se interessa por todos os ramos do saber. Por exemplo, religião. O primeiro livro que escreveu foi uma biografia do profeta Maomé. O livro é elogiado por alguns dos principais mulás muçulmanos da atualidade.

Mas não é – nem poderia ser – de todo elogioso. Em seu estudo, Bush considerou Maomé ‘um impostor’, no sentido de que não era de fato profeta de Deus. Ainda assim, ele o considera ‘um homem admirável’, ‘irresistivelmente carismático’. O mestre é igualmente crítico do cristianismo.

Nos tempos de faculdade, seus colegas considevam Bush, que conhece grego clássico, hebraico e árabe, um homem de esquerda.

O primeiro George Bush, entenda-se. Nasceu em 1796, quando os EUA estavam recém independentes. O professor morreu em 1859. Era primo irmão do tetravô de George W. Bush.

George Bush I

None of us can control our ancestors. Like our children, they have minds of their own and invariably refuse to do our bidding. Presidential ancestors are especially unruly — they are numerous and easily discovered, and they often act in ways unbecoming to the high station of their descendants.

By whom I mean George Bush (1796-1859), first cousin of the president’s great-great-great-grandfather. It would be hard to find a more unlikely forebear. G.B. No. 1 was not exactly the black sheep of the family, to use a phrase the president likes to apply to himself. In fact, he was extremely distinguished, just not in ways that you might expect. Prof. George Bush was a bona fide New York intellectual: a dabbler in esoteric religions whose opinions were described as, yes, “liberal”; a journalist and an academic who was deeply conversant with the traditions of the Middle East.

There was a time when the W-less George Bush was the most prominent member of the family (he is the only Bush who made it into the mid-20th-century Dictionary of American Biography). A bookish child, he read so much that he frightened his parents. Later he entered the ministry, but his taste for arcane controversy shortened his career, and no church could really contain him. Ultimately, he became a specialist at predicting the Second Coming, an unrewarding profession for most, but he thrived on it.

In 1831 he drifted to New York City, just beginning to earn its reputation as a sinkhole of iniquity, and found a job as professor of Hebrew and Oriental languages at what is now New York University. That same year, he published his first book, “The Life of Mohammed.” It was the first American biography of Islam’s founder.

For that reason alone, the book would be noteworthy. But the work is also full of passionate opinions about the prophet and his times. Many of these opinions are negative — as are his comments on all religions. Bush often calls Muhammad “the impostor” and likens him to a successful charlatan who has foisted an “arch delusion” on his fellow believers. But he is no less critical of the “disastrous” state of Christianity in Muhammad’s day. And throughout the book, Bush reveals a passionate knowledge of the Middle East: its geography, its people and its theological intensity, which fit him like a glove. For all his criticism of Muhammad, he returns with fascination to the story of “this remarkable man,” who was “irresistibly attractive,” and the power of his vision.

“The Life of Mohammed” went out of print a century ago, and there it was expected to remain, in perpetuity. But in the early 21st century, it was reissued by a tiny publisher simply because of the historical rhyme that a man with the same name occupied the White House. The first George Bush never witnessed the Second Coming, but now his book was enjoying an unexpected afterlife.

Predictably, it enraged some readers in the Middle East, where rage is an abundant commodity. In 2004, Egyptian censors at Cairo’s Al-Azhar Islamic Research Academy denounced the book by President Bush’s “grandfather” as a slander on the prophet, and the State Department was forced to issue a document clarifying the family relationship. That document may have unintentionally fanned the flames when it pointed out that “The Life of Mohammed” never compares Muslims to insects, rats or snakes, though it does, on occasion, liken them to locusts.

The stage was set for conspiracy theories to spread across the Middle East like sandstorms. But then something really strange happened. The same censors read carefully through the book and in 2005 issued an edict that reversed their earlier ruling, admitting that it was O.K. Bush’s theological intensity might kill him with an American audience, but in the Middle East it seems to have allowed him to pass muster. Clearly this passionate religious scholar was no enemy of Islam. You could almost say that he was part of the family.

Perhaps the Egyptians could sense something honorable about this distant life, which dedicated itself to the search for knowledge. After George Bush died, a friend remembered the feeling of walking into his apartment, a third-story walk-up on Nassau Street, “a kind of literary Gibraltar,” where he would find the professor surrounded by his piles of rare and ancient volumes.

It all seems so improbable. George Bush? A bookworm? In a crummy apartment? A mystic might look at this history and find evidence that God is indeed inscrutable. But as the first George Bush knew, religions, like families, contain plentiful contradictions. As the current George Bush has discovered, no place can tease them out like the Holy Land.

MÍDIA - Novas tecnologias: caminho para uma mídia nova e democrática.

O Seminário de Comunicação da Contee (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino) começou nesta quinta-feira (28) com efusivas loas às novas tecnologias. Segundo os debatedores da mesa de abertura, a internet não só acabou com os “os atravessadores da informação” como também “marcou o fim do jornalismo impositivo”, em que “o leitor se torna refém dos jornalistas”.

O jornalista Renato Rovai, editor da Revista Fórum, lembrou três momentos desta década em que a grande mídia perdeu a batalha da informação: 1) o “golpe midiático” malsucedido de abril de 2002 para depor o presidente venezuelano, Hugo Chávez; 2) o fiasco do governo Aznar e da mídia espanhola na tentativa de manipular as eleições presidenciais de 2004, que foram precedidas de um ataque terrorista em Madri; 3) a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, em 2006, minando a despudorada ofensiva dos barões da mídia em favor da oposição.

“A internet mostrou que estão abertos os caminhos para democratizar os meios de comunicação. A grande mídia ainda exerce uma ditadura muito poderosa, mas está mais vulnerável do que nunca”, assinalou Rovai. Segundo ele, a luta pela democratização da mídia não pode ficar restrito aos comunicadores. “Esse debate tem de se espraiar – e mais na área de educação do que em qualquer outra”, agregou o editor da Fórum, elogiando a iniciativa da Contee.

Para Rovai, até mesmo uma reforma como a agrária não sobrevive sem um suporte midiático vigoroso e alternativo. “É preciso haver ampla diversidade informativa, um ambiente democrático de comunicação, para que a reforma agrária, uma vez feita, não seja derrotada. Sem uma mídia do nosso lado, não teremos como enfrentar essa batalha em seu processo de formação.

”A checagem nas mãos do leitor

Depois de 12 anos na grande imprensa — e após sofrer “demissão de quatro veículos por razões ideológicas” —, Plínio Teodoro é colaborador da Caros Amigos, mantém um blog e vê alento na internet. Para ele, as novas tecnologias permitem um novo receptor da informação e diminui a arbitrariedade. “Hoje existem mais possibilidades para um leitor checar na fonte o que este ou aquele jornal está dizendo.”

A partir da web, diz Plínio, é possível desmascarar farsas como a cobertura da ocupação da Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, do grupo Opportunity, do banqueiro Daniel Dantas. “A TV Globo não teve êxito ao inventar que o MST usou jornalistas como escudos humanos — e também não disse que quem levou os jornalistas da Globo para a fazenda foi um avião do Opportunity.”
Plínio Teodoro lamenta os paradigmas atuais do jornalismo, em que “acabaram as grandes reportagens” e “os vazamentos propositais expõem sempre pessoas interessadas se articulando com jornalistas”. Mas pondera: “Estamos num dos melhores momentos da história para fazer comunicação e democratizar a mídia. O público nunca teve condições — como tem agora — de fazer a sua própria investigação contestar o que a grande mídia tenta nos enfiar goela abaixo”.

A credibilidade sob suspeita

O novo tempo das comunicações é igualmente exaltado pelo pesquisador Venicio A. de Lima, da Universidade de Brasília (UnB). “Com a internet, o monopólio da credibilidade da grande mídia é questionado e, muitas vezes, liquidado. A internet tem muito mais pluralidade do que a grande mídia oferece, ofereceu ou um dia vai oferecer”.

Venício concorda com Rovai: apesar de vulnerável, a grande mídia ainda tem poderes descomunais. É o que permite que, nos dias de hoje, “o chamado escândalo político seja essencialmente um escândalo midiático, como diz o (sociólogo americano) John B. Thompson”. De acordo com o pesquisador da UnB, há uma distorção quando o poder da mídia chega a ser maior que o do próprio Estado. “O que deve ocorrer é o contrário. O Estado não só pode como tem o dever de intervir nas comunicações para garantir os direitos da maioria.”

Parafraseando o revolucionário italiano Antonio Gramsci (1891-1937), Venício afirma que “a sobrevivência do velho nas comunicações ainda causa muito estrago, apesar de o novo estar florescendo”. É nesse “novo”, porém, que se fortalece a luta contra a ditadura midiática. “Não vamos nunca democratizar a velha mídia. Temos de tentar regulá-la, combatê-la, fazer sua crítica — mas temos também de pensar em uma nova. Nosso dever é criar outra mídia.”

De São Paulo,
André Cintra

O SEU BIFE VEM DAQUI.

Revista Sustenta

Domingo de sol, família reunida. Diante da churrasqueira, à espera do ponto ideal da picanha, é improvável que alguém pare e pergunte de onde teria vindo aquele pedaço de carne. "Do supermercado da esquina" seria a resposta mais rápida. "Do frigorífico" seria outra, mais elaborada. Mas e antes? E quando esse bife ainda era parte de um boi inteiro, vivo, andando por um pasto? Você já se perguntou como terá sido o processo até ele chegar à sua mesa? Sem querer estragar seu almoço, a maneira como é produzida a carne que comemos - e tudo o que se consome em qualquer lugar do mundo - merece um pouco mais de nossa atenção. Ela tem relação com as questões socioambientais que o mundo se vê obrigado a enfrentar hoje para garantir seu futuro.
A carne brasileira é um dos principais vetores do desmatamento da Amazônia, segundo um estudo de 2008 que dimensiona a rede complexa que une nossos hábitos do dia a dia à destruição da maior área contínua de floresta tropical do mundo. Intitulado "Conexões sustentáveis São Paulo - Amazônia: Quem se beneficia com a destruição da Amazônia?", o trabalho, elaborado por jornalistas das ONGs Repórter Brasil e Papel Social Comunicação, verifica os impactos ambientais e sociais causados pelo avanço da agropecuária, do extrativismo, das plantações de soja e até dos financiamentos públicos e privados sobre a floresta.

A pesquisa foi divulgada durante o seminário "Conexões sustentáveis: São Paulo - Amazônia", uma iniciativa do Fórum Amazônia Sustentável e do Movimento Nossa São Paulo. O evento reuniu dezenas de lideranças locais e nacionais para debater as relações de interdependência entre São Paulo e a Amazônia. A escolha da cidade como fio condutor da pesquisa se deu porque é ela o maior centro consumidor e distribuidor de produtos da Amazônia - e porque até o regime de chuvas da cidade tem ligação com a preservação da floresta. "A Amazônia tem papel fundamental na concentração de nuvens de chuva em São Paulo. A chuva começa a se formar no Atlântico, se adensa sobre a floresta tropical e, ao esbarrar nos Andes, retorna e cai em São Paulo", afirma Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental (ISA).

Poder de compra

As investigações tiveram como limite geográfico a região da bacia do rio Xingu, área entre os estados do Mato Grosso e Pará com 51 milhões de hectares e mais da metade do território protegido por terras indígenas e áreas de preservação. A partir dos setores-chave da economia local - madeira, grãos, carne e financiamento -, o grupo investigou os processos de comercialização que têm em suas bases situações ilegais, como atuação em área embargada, promoção do desmatamento ou mesmo o relacionamento com fornecedores que atuam de maneira ilegal e com uso de trabalho escravo. O relatório aponta os estudos de casos de empresas presentes na região que têm problemas como esses, mas um dos coordenadores do trabalho, Leonardo Sakamoto, da ONG Repórter Brasil, diz que o objetivo não é apontar culpados. "São apenas exemplos. O importante é acompanhar o que as empresas fazem a partir da denúncia: há as que vão procurar resolver esses problemas e há as que dão de ombros, se recusam a discutir."

Seu parceiro na coordenação do projeto, Marques Casara, da Papel Social, reforça a posição do consumidor nessa história. Apesar de estar na ponta final da cadeia, quem compra tem poder de provocar mudanças. "O consumidor pode usar seu poder de compra para pressionar a rede de varejo a adquirir apenas produtos de fornecedores que tenham cadeia produtiva legal." São opiniões que vão ao encontro de Beto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que ressalta a importância de envolver o mercado na luta por um avanço nas políticas públicas. "Sem regularização fundiária, que só o governo pode fazer, não haverá bons negócios na Amazônia." Bom negócio na Amazônia, completa Veríssimo, é fazer pecuária em áreas já desmatadas sem avançar mais sobre a floresta, fazer mineração em áreas determinadas, manejo para exploração e saída dos produtos da floresta, respeito à natureza. "Já há empresas compromissadas com a sustentabilidade. As grandes mineradoras na Amazônia estão buscando uma exploração mais cuidadosa, que dialogue mais com o século 21."

É mais barato derrubar.

Para pôr um freio no ritmo de destruição, o consumidor não precisa abrir mão de comer carne, comprar móveis ou usar óleo de soja. Basta riscar da lista de compras aquelas marcas que insistem em violar princípios éticos e de responsabilidade. Nesse sentido, é útil acompanhar o levantamento que o relatório faz de cada setor produtivo na Amazônia, a começar pela pecuária. O Brasil é o maior exportador mundial de carne. É um mercado que não para de crescer - e, para atendê-lo, cresce também o número de rebanhos: de 2000 para cá, o número de cabeças de gado foi de 170 milhões para 206 milhões no país - 74 milhões delas estão na Amazônia, onde há mais boi do que gente. O grande problema desse crescimento é que ele se tornou o principal vetor para a derrubada da matas. A estimativa é de que 78% do desmatamento na Amazônia tenha sido motivado pela pecuária .

São Félix do Xingu, cidade no sul do Pará, aparece no relatório como caso emblemático para ilustrar a expansão pecuária na Amazônia: em 1997, as fazendas desse município de 84 mil quilômetros quadrados comportavam menos de 30 mil cabeças, de acordo com o Sindicato dos Produtores Rurais (SPR) do município. Em dez anos, o contingente passou para 1,7 milhão de animais. No Mato Grosso, os números também impressionam. De acordo com um diagnóstico do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em 2007 havia 39 frigoríficos funcionando em 24 municípios, somando uma capacidade de abate de 22 mil cabeças por dia. O mesmo estudo identifica seis unidades em processo de ampliação e nove plantas em construção - o que deve dobrar o número de abates.

Além de combater as diversas irregularidades encontradas nessas áreas, é fundamental deter a expansão dessas pastagens. Não se trata de impedir o crescimento do setor, mas aumentar a produtividade das áreas já desmatadas: os especialistas dizem que seria possível criar ao menos três vezes mais gado nessas terras com o uso de tecnologias simples. Por que, então, a derrubada continua? Porque, em curto prazo, é mais barato invadir uma nova área florestal e transformá-la em pasto do que investir na produtividade das áreas já usadas. Em longo prazo, no entanto, é o que se sabe: as conseqüências dessa escolha serão desastrosas.

Madeira "esquentada"

A extração da madeira também ganha análise detalhada no estudo, já que 23% do que é tirado da floresta é consumido em São Paulo. São cerca de 12,7 milhões de metros cúbicos de madeira amazônica abastecendo a cidade. Para tentar restringir o fluxo de produção ilegal, autoridades paulistas já adotaram medidas. Em sua gestão, a ex-prefeita Marta Suplicy baixou portarias impedindo a compra de mogno. E em 2005 o então governador Geraldo Alckmin e o ex-prefeito José Serra assinaram decretos estaduais e municipais com o objetivo de assegurar a procedência legal desses materiais, exigindo que tenham origem de áreas de desmatamento autorizado.


Mesmo assim, de acordo com a pesquisa, empresas criminosas escapam do crivo dos órgãos públicos por meio de vários mecanismos que "esquentam" a madeira ilegal. Isso acontece, por exemplo, quando madeireiros conseguem que um Plano de Manejo Florestal Sustentável seja aprovado, usando na verdade uma área que já foi explorada: apesar de retirar árvores de uma área qualquer, eles informam na documentação que as toras saíram da área aprovada.


A cadeia de produção da soja é outra que foi rastreada pela pesquisa. Apesar de a expansão do grão ter se dado principalmente no Cerrado, o aumento da demanda no mercado internacional impulsionou uma maior penetração da cultura na Amazônia. Em muitas áreas, ela tornou-se motivação direta de queimadas e desmatamentos para a conversão em lavoura. Além das conseqüências ambientais, esse avanço traz conseqüências para povos indígenas, comunidades tradicionais e assentados. Dos 19 municípios apontados pelo governo federal como principais focos de desmate no Mato Grosso, seis se localizam em áreas parcialmente integradas à área de proteção.

Desmatamento zero.

Um último aspecto analisado pelo relatório "Conexões sustentáveis" é o financiamento de todas essas atividades. O estudo mostra como, desde a ditadura militar, generosos investimentos de instituições públicas e privadas vêm bancando as atividades produtivas na floresta, sem que se levassem em conta os impactos socioambientais dos empreendimentos.

O resultado é que, agora, o governo se vê forçado a criar mecanismos para conter a devastação. Ou seja, apagar incêndios que o próprio governo, anos atrás, ajudou a criar. Um desses mecanismos é a Resolução 3.545 do Conselho Monetário Nacional, que, ao condicionar recursos para custear a produção à regularidade do registro fundiário das fazendas e a licenças ambientais, fez com que financiamentos públicos despencassem até 15%. Por outro lado, a procura de produtores para regularizar a situação de suas terras teria aumentado em 60%, de acordo com projeção do ministro Minc.

O ministro aponta os desafios a serem enfrentados na região: "Queremos desmatamento ilegal zero e isso não se consegue apenas com Ibama e Polícia Federal. Você fecha uma serraria ilegal em uma hora, mas não substitui 50 empregos em uma hora. Tem que haver um novo modelo de sustentabilidade". Apesar do tamanho do problema, ele se diz otimista com o futuro da Amazônia, citando o lançamento de 40 planos de manejos para reservas extrativistas em novembro, entre outras medidas que devem se beneficiar do recém-lançado Fundo Amazônia. Se bem usados, os recursos talvez possam frear a devastação que consome a floresta. E evitar que o churrasco de cada dia não cause indigestão em nossas consciências. (Colaborou Natalia Viana)

Por Micheline Alves e Natália Viana.
Fonte:Repórter Brasil

"AS FIGURINHAS CARIMBADAS" DO GLOBONEWS E CIA - Disk Fonte: O jornalismo papagaio de repetição.

Ficou faltando o Veloso, das contas públicas. É dessa forma, sem permitir o contraditório, que é praticamente imposto à sociedade, a "verdade absoluta" ou o "pensamento único".São convidados sempre aqueles "especialistas" que ela sabe de antemão, que vão dizer aquilo que ela quer ouvir, que se encaixam na sua linha editorial.
Leiam a seguir o texto do Leonardo Sakamoto.
Carlos Dória

Blog do Sakamoto, por Leonardo

Disk Fonte: o jornalismo papagaio de repetição.

Não existe imparcialidade jornalística. Qualquer estudante de jornalismo aprende isso nas primeiras aulas. Quando você escolhe um entrevistado e não outro está fazendo uma opção, racional ou não, por isso a importância de ouvir a maior diversidade de fontes possível sobre determinado tema. Fazer uma análise ou uma crítica tomando partido não é o problema, desde que não se engane o leitor, fazendo-o acreditar que aquilo é imparcial.

Infelizmente, muitos veículos ou jornalistas que se dizem imparciais, optam sistematicamente por determinadas fontes, sabendo como será a análise de determinado fato. Parece até que procuram o especialista para que legitime um ponto de vista. Ou têm preguiça de ir além e fugir da agenda da redação, refrescando suas matérias com análises diferentes. Dois amigos, grandes jornalistas com anos de estrada, ajudaram a fazer uma lista exemplar do que estou falando.

Vale ressaltar que boa parte destas fontes são especialistas sérios, reconhecidos em seus campos de atuação e que já deram importantes contribuições à sociedade. Como disse um desse amigos, terem posições conservadoras ou liberais não os descredencia. É um direito que eles têm. O problema são as mídias que sempre, sempre, sempre procuram esses mesmos caras para repercutir. Sempre eles. E somente eles.

Façam um teste e procurem esses nomes no seu jornal, revista, rádio, TV, site preferidos.

Questões trabalhistas? Disk Pastore
(O sociólogo José Pastore, mas sem dizer que ele dá consultoria para a Confederação Nacional da Indústria e a empresários que têm interesse direto no assunto)

Constitucionalismos? Disk Ives Gandra
(O respeitável jurista do Opus Dei não vacila jamais)

Ética? Disk Romano
(O professor de filósofia Roberto Romano)

Questões sindicais? Disk Leôncio
(O cientista político Leôncio Martins Rodrigues)

Ética na política? Disk Gabeira
(O deputado federal Fernando Gabeira, que viaja bastante de avião…)

Ética dos juros? Disk Eduardo Giannetti
(O professor do Ibmec é quase um gênio)

Pau no governo Lula? Disk Marco Antônio Villa
(Historiador. Tiro e queda. Mais pau no governo Lula? Disk Lúcia Hippólito - com a vantagem de ser uma das meninas do Jô)

Relações internacionais? Disk Rubens Barbosa
(Ex-embaixador. Precisa diversificar? Disk Celso Lafer, o ex-chanceler)

Mercado financeiro? Disk Arminio Fraga, o ex-BC
(Não rolou? Disk Gustavo Loyola? Ocupado? Ah, então vamos no Disk Maílson mesmo)

Mercado financeiro mundial? Disk Paulo Leme
(O cara está em Wall Street, pô, sabe tudo…)

Segurança pública? Disk Zé Vicente
(Ele é durão, estava lá dentro, mas fala como sociólogo. E com a vantagem de não ficar falando em direitos humanos para qualquer “resistência seguida de morte”. É o coronel esclarecido…)

Partidos? PT especificamente? Disk Bolívar
(O cientista político Bolívar Lamounier, mas, por favor, não diga que ele é filiado ao PSDB)

Geografia? História? Demografia? Sociologia? Socialismo? Política? Geopolítica? Raça? Relações internacionais? Coréia? Pré-sal? Cotas? Mensalão? América Latina? MST? Pugilistas cubanos? Liberdade de imprensa? Farc? Tarso Genro? Disk Demétrio Magnoli
(Se te ocorrer algum outro assunto, ligue para ele também)

CANETA OU FERRAMENTA?

Frei Betto *

Adital

Quantos advogados você conhece? Uns tantos, certamente. Mas na hora de socorrer o seu computador pifado, consertar o vazamento da pia da cozinha ou traduzir-lhe o manual de funcionamento do novo televisor, que você lê, lê e não entende, a quem recorre?

O Brasil é uma nação de bacharéis. Como abrigamos a mais longa escravidão das três Américas - 350 anos -, ainda guardamos, do período colonial, resquícios elitistas, como julgar que profissões técnicas são para incompetentes que não chegam a doutor... Boa profissão é a que domina a caneta, e não a ferramenta.

Você sabia que de cada 100 brasileiros(as) no mercado de trabalho, 72,4% (ou exatos 71,5 milhões de pessoas), nunca fizeram um curso profissionalizante? Entre os desempregados, 66,4% (5,3 milhões de pessoas) nunca passaram por um curso de educação profissional. O dado é do IBGE, divulgado no último 22 de maio.


O mais grave é o poder público, como diria aquele deputado do castelo, estar "pouco se lixando" para a qualificação de nossos trabalhadores. Segundo o IBGE, em 2007 apenas 22,4% dos alunos de cursos profissionalizantes estavam matriculados em escolas públicas.

Dos que buscam tais cursos, 53% dependem de ofertas de ONGs, sindicatos e instituições particulares. O famoso Sistema S (como Senai, Senac, Sebrae), que recebe robustas verbas do governo, forma apenas 20% dos interessados em qualificação.

Mesmo os cursos existentes nem sempre primam pela qualidade. Entre os matriculados, 80,9% frequentavam cursos que não exigiam escolaridade prévia... O que explica o alto número de analfabetos virtuais em profissões técnicas. Consertam a geladeira, mas são incapazes de redigir um bilhete explicando a causa do defeito.

Na mesma pesquisa, o IBGE constatou que são analfabetos 13,5 milhões de brasileiros(as) (9,5% da população) com mais de 15 anos de idade. E de 1,8 milhão que frequentavam salas de aula, 810 mil (45%) admitiram não saber ler nem escrever um simples recado.

A falta de motivação é a principal causa de desinteresse por cursos profissionalizantes. O Brasil é o reino do improviso. O auxiliar de eletricista aprende na prática, assim como o de cozinha acredita que, amanhã, a intimidade com o fogão fará dele um chef. Muitos (14,1%) admitiram não poder pagar um curso dessa natureza. E 8,9% se queixaram da falta de escola na região.

Dos alunos em cursos profissionalizantes, 17,6% frequentavam cursos técnicos de nível médio. E apenas 1,5% cursos de graduação tecnológica equivalente ao nível superior. O mais procurado é o curso de informática (41,7%), seguido de comércio e gestão (14%) e indústria e manutenção (11,25). Ao todo, 215 mil estudantes, o que representa um índice muito baixo, dada as dimensões do país e de suas necessidades.

Esse quadro explica, em parte, a razão do nosso subdesenvolvimento - ou eterna situação de país emergente. O MEC promete que, até o fim de 2010, o Brasil passará de 185 mil para 500 mil vagas em cursos profissionalizantes. As escolas - hoje, 140 - serão 354.

Um das causas dessa realidade preocupante foi a lei de 1988, proposta pelo presidente FHC e aprovada pelo Congresso, que proibiu a União de criar novas escolas técnicas federais. Felizmente Lula a revogou em 2005.

Falta ao atual governo corrigir outro erro crasso: o EJA (Educação de Jovens e Adultos, que substituiu o antigo supletivo), embora acolha trabalhadores em suas aulas, não propõe educação profissionalizante. Isso explica o alto índice de evasão - 42,7% dos matriculados não concluem o curso, sobretudo no Nordeste (56%).

Muitas vezes o horário de aulas coincide com o do trabalho (o que induz à evasão de quase 30% dos alunos), e a metodologia de ensino ignora Paulo Freire e os recentes avanços da educação popular.

O Brasil precisa trocar o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento - pelo PAD, Programa de Aceleração do Desenvolvimento, sobretudo humano. Sem recursos humanos qualificados, uma nação está fadada a sempre depender do mercado externo e, portanto, do jogo cruel da especulação internacional, da flutuação de divisas conversíveis e das concessões aos importadores que jamais abrem mão de suas políticas protecionistas.

Sem educação o Brasil não tem solução. Nem salvação.

CANETA OU FERRAMENTA.

Frei Betto *

Adital

Quantos advogados você conhece? Uns tantos, certamente. Mas na hora de socorrer o seu computador pifado, consertar o vazamento da pia da cozinha ou traduzir-lhe o manual de funcionamento do novo televisor, que você lê, lê e não entende, a quem recorre?

O Brasil é uma nação de bacharéis. Como abrigamos a mais longa escravidão das três Américas - 350 anos -, ainda guardamos, do período colonial, resquícios elitistas, como julgar que profissões técnicas são para incompetentes que não chegam a doutor... Boa profissão é a que domina a caneta, e não a ferramenta.

Você sabia que de cada 100 brasileiros(as) no mercado de trabalho, 72,4% (ou exatos 71,5 milhões de pessoas), nunca fizeram um curso profissionalizante? Entre os desempregados, 66,4% (5,3 milhões de pessoas) nunca passaram por um curso de educação profissional. O dado é do IBGE, divulgado no último 22 de maio.


O mais grave é o poder público, como diria aquele deputado do castelo, estar "pouco se lixando" para a qualificação de nossos trabalhadores. Segundo o IBGE, em 2007 apenas 22,4% dos alunos de cursos profissionalizantes estavam matriculados em escolas públicas.

Dos que buscam tais cursos, 53% dependem de ofertas de ONGs, sindicatos e instituições particulares. O famoso Sistema S (como Senai, Senac, Sebrae), que recebe robustas verbas do governo, forma apenas 20% dos interessados em qualificação.

Mesmo os cursos existentes nem sempre primam pela qualidade. Entre os matriculados, 80,9% frequentavam cursos que não exigiam escolaridade prévia... O que explica o alto número de analfabetos virtuais em profissões técnicas. Consertam a geladeira, mas são incapazes de redigir um bilhete explicando a causa do defeito.

Na mesma pesquisa, o IBGE constatou que são analfabetos 13,5 milhões de brasileiros(as) (9,5% da população) com mais de 15 anos de idade. E de 1,8 milhão que frequentavam salas de aula, 810 mil (45%) admitiram não saber ler nem escrever um simples recado.

A falta de motivação é a principal causa de desinteresse por cursos profissionalizantes. O Brasil é o reino do improviso. O auxiliar de eletricista aprende na prática, assim como o de cozinha acredita que, amanhã, a intimidade com o fogão fará dele um chef. Muitos (14,1%) admitiram não poder pagar um curso dessa natureza. E 8,9% se queixaram da falta de escola na região.

Dos alunos em cursos profissionalizantes, 17,6% frequentavam cursos técnicos de nível médio. E apenas 1,5% cursos de graduação tecnológica equivalente ao nível superior. O mais procurado é o curso de informática (41,7%), seguido de comércio e gestão (14%) e indústria e manutenção (11,25). Ao todo, 215 mil estudantes, o que representa um índice muito baixo, dada as dimensões do país e de suas necessidades.

Esse quadro explica, em parte, a razão do nosso subdesenvolvimento - ou eterna situação de país emergente. O MEC promete que, até o fim de 2010, o Brasil passará de 185 mil para 500 mil vagas em cursos profissionalizantes. As escolas - hoje, 140 - serão 354.

Um das causas dessa realidade preocupante foi a lei de 1988, proposta pelo presidente FHC e aprovada pelo Congresso, que proibiu a União de criar novas escolas técnicas federais. Felizmente Lula a revogou em 2005.

Falta ao atual governo corrigir outro erro crasso: o EJA (Educação de Jovens e Adultos, que substituiu o antigo supletivo), embora acolha trabalhadores em suas aulas, não propõe educação profissionalizante. Isso explica o alto índice de evasão - 42,7% dos matriculados não concluem o curso, sobretudo no Nordeste (56%).

Muitas vezes o horário de aulas coincide com o do trabalho (o que induz à evasão de quase 30% dos alunos), e a metodologia de ensino ignora Paulo Freire e os recentes avanços da educação popular.

O Brasil precisa trocar o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento - pelo PAD, Programa de Aceleração do Desenvolvimento, sobretudo humano. Sem recursos humanos qualificados, uma nação está fadada a sempre depender do mercado externo e, portanto, do jogo cruel da especulação internacional, da flutuação de divisas conversíveis e das concessões aos importadores que jamais abrem mão de suas políticas protecionistas.

Sem educação o Brasil não tem solução. Nem salvação.

CORPO EM PORÃO PODE SER DE ROSA LUXEMBURGO.

Marcio Damasceno

De Berlim para a BBC Brasil

Rosa Luxemburgo é considerada um dos maiores nomes da esquerda alemã.
Um cadáver guardado por décadas no porão do hospital universitário Charité, uma das mais importantes instituições científicas da Alemanha, pode ser o da famosa revolucionária Rosa Luxemburgo, segundo o diretor do departamento de medicina legal da instituição, Michael Tsokos.

"Há semelhanças espantosas com Rosa Luxemburgo", disse o especialista, após exames minuciosos feitos no corpo.

O torso de mulher, sem cabeça, mãos e pés, foi submetido a diversos exames, incluindo tomografia computadorizada. "A mulher sofria de artrose e tinha pernas de comprimentos diferentes, exatamente como Rosa Luxemburgo", acrescentou.

De acordo com resultado de análises laboratoriais para determinar a idade, a morta tinha entre 40 e 50 anos. Luxemburgo tinha 48 anos quando morreu.

Pés e mãos

Para Tsokos, a falta de pés, mãos e cabeça seria resultado dos arames de aço que foram amarrados com pesos nos pulsos, tornozelos e no pescoço para que o corpo não retornasse à superfície.

O especialista diz que acredita ser possível que os fios metálicos e a correnteza da água tenham provocado a separação dos membros.

Deputados da oposição, líderes do partido de esquerda Die Linke (A Esquerda), reivindicaram nesta sexta-feira a intervenção do governo federal alemão para que o mistério seja esclarecido rapidamente. A revolucionária é padroeira da agremiação.

A militante marxista foi assassinada com um tiro na cabeça em janeiro de 1919, após ser sequestrada e espancada por membros de uma organização paramilitar, a mando do governo social-democrata alemão. Depois, o corpo foi jogado em um canal fluvial de Berlim.

Um corpo encontrado no canal no dia 31 de maio de 1919 foi enterrado como sendo o de Rosa Luxemburgo.

DNA

O médico legista diz crer, com base na análise do relatório da autópsia realizada na época, que o corpo enterrado como sendo o da revolucionária pertencia a uma outra mulher, provavelmente alguém que se suicidou no mesmo canal.

Nas anotações, os legistas da época não atestam uma diferença no tamanho das pernas do cadáver, nem outras características físicas peculiares a Rosa Luxemburgo.

Ela apresentava uma deformação na coluna, que fazia com que andasse mancando. A cabeça da autopsiada também não apresentava marcas de tiro. O túmulo de Luxemburgo se encontra vazio, depois de ter sido saqueado pelos nazistas em 1935.

"Sob a pressão dos militares, que tinham pressa em resolver o caso, os médicos emitiram o atestado usando uma outra morta afogada", avalia Tsokos.

Ele reconhece, no entanto, que só poderá ter a prova definitiva por meio de exames de DNA. "Só assim poderemos ter uma identificação inequívoca", afirma.

Tsokos espera poder comparar o material genético com mostras retiradas de uma sobrinha de Luxemburgo, que viveria em Varsóvia, para comprovar a identidade do corpo.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

SINDICATOS - Economistas dos EUA defendem resindicalização de trabalhadores.

Um grupo de 40 importantes economistas dos Estados Unidos - incluindo, entre outros, Joseph Stiglitz, Jeffrey Sachs e James Galbraith - assinou uma declaração defendendo a importância de os trabalhadores voltarem a fazer parte de sindicatos para enfrentar a crise econômica. Só 7,5% dos trabalhadores do setor privado dos EUA estão neste momento representados por uma organização sindical. E, em todo ano de 2007, menos de 60 mil trabalhadores conseguiram ocupar uma posição sindical mediante eleições sancionadas pelo governo.

SinPermiso

Ainda que seu colapso tenha dominado a cobertura recente dos notícias nos meios de comunicação, o setor financeiro não é o único segmento da economia estadunidense que atravessa graves dificuldades. As instituições que governam o mercado de trabalho também fracassaram, gerando a insólita e insana situação atual, em que a remuneração dos trabalhadores norte-americanos estancou, apesar do aumento de sua produtividade.

Com efeito, entre 2000 e 2007, a renda familiar média das pessoas em idade economicamente ativa caiu 2000 dólares, uma queda sem precedentes. Nesse período, praticamente todo o crescimento econômico do país foi parar nas mãos de um reduzido número de ricos estadunidenses. Uma das razões de peso que explicam esse passo, de uma prosperidade amplamente compartilhada a uma desigualdade crescente é a erosão da capacidade dos trabalhadores de se organizarem sindicalmente e de negociarem coletivamente.

Uma resposta natural dos trabalhadores, incapazes de melhorar sua situação econômica é se organizarem sindicalmente para negociar uma participação mais equitativa nos resultados da economia, e esse desejo está bem refletido nas pesquisas recentes. Milhões de trabalhadores – mais da metade dos que têm cargos executivos – disseram que desejam a presença de sindicatos em seu posto de trabalho. Contudo, só 7,5% dos trabalhadores do setor privado estão neste momento representados por uma organização sindical. E, em todo ano de 2007, menos de 60 000 trabalhadores conseguiram ocupar uma posição sindical mediante eleições sancionadas pelo governo. O que é que explica tamanho hiato?

O problema é que o processo eleitoral supervisionado pelo Comitê Nacional de Relações de Trabalho degenerou-se e se tornou hostil, com campanhas ferozes da classe patronal para evitar a sindicalização, às vezes ao ponto de incorrerem em flagrante violação da legislação trabalhista. Os simpatizantes dos sindicatos são rotineiramente ameaçados e mesmo demitidos, e têm poucos recursos efetivos para se defenderem legalmente. E, quando os trabalhadores conseguem superar essa pressão e votar pela presença dos sindicatos nos postos de trabalho, dada a resistência patronal, uma em cada três vezes não conseguem contratos.

Para remediar essa situação, o Congresso está debatendo a oportunidade da Lei de Liberdade de Eleição dos Empregados (EFCA, em sua sigla em inglês). Essa lei cumpriria três propósitos: em primeiro lugar, daria aos trabalhadores a oportunidade de usar um mecanismo de listas majoritárias – instituindo um procedimento simples para que os trabalhadores possam indicar, com uma mera assinatura, seu apoio à presença sindical no posto de trabalho -, ou de pôr em marcha eleições supervisionadas pelo Comitê Nacional de Relações Trabalhistas; em segundo lugar, triplicaria a punição dos empresários que demitissem sindicalistas ou violassem outras leis trabalhistas ; e, em terceiro lugar, criaria um processo capaz de garantir que se dê aos empregados recém sindicalizados uma oportunidade justa para obter um primeiro contrato, podendo recorrer a uma arbitragem depois de 120 dias de negociações infrutíferas.

A EFCA refletirá melhor os desejos dos trabalhadores do que a atual “guerra em torno da representação”. A lei também rebaixará os níveis de aridez e desconfiança que agora acompanham, amiúde, as eleições sindicais sob o atual sistema.

Uma maré crescente só levanta todos os botes quando o trabalho e a classe patronal negociam em condições de igualdade relativa. Nas últimas décadas, o grosso do poder de negociação tem estado do lado patronal. A recessão atual seguirá debilitando a capacidade dos trabalhadores de negociarem individualmente. Mais do que nunca, os trabalhadores precisam atuar coletivamente.

A EFCA não é uma panacéia, mas restauraria certo equilíbrio em nossos mercados de trabalho. Como economistas, acreditamos que é de vital importância avançar na reconstrução de nossa vida econômica e robustecer nossa democracia fortalecendo a voz do povo trabalhador nos postos de trabalho.

Assinam essa declaração: Henry J. Aaron, Brookings Institution; Katharine Abraham, Universidade do Maryland; Phillipe Aghtion, Instituto de Tecnologia de Massachusetts [MIT, na sua sigla em inglês]; Eileen Appelbaum, Universidade Rutgers; Kenneth Arrow, Universidade Stanford; Dean Baker, Centro para a Pesquisa em Economia e Política; Jagdish Bhagwati, Universidade Columbia; Rebecca Blank, Brookings Institution; Joseph, Universidade Rutgers; Alan S. Blinder, Universidade Princeton; William A . Darity, Universidade Duke; Brad DeLong, Universidade da Califórina/Berkeley; John DiNardo, Universidade de Michigan; Henry Farber, Universidade Princeton; Robert H. Frank, Universidade Cornell; Richard Freeman, Universidade Harvard; James K. Galbraith, Universidade do Texas; Robert J. Gordon, Universidade Noroeste; David Lee, Universidade Princeton; Frank Levy, MIT; Lisa Lynch, Universidade Brandeis; Ray Marshall, Universidade do Texas; Lawrence Mishel, Instituto de Política Econômica; Robert Pollin, Universidade do Massachusetts; William Rodgers, Universidade Rutgers; Dani Rodrik, Universidade Harvard; Jeffrey D. Sachs, Universidade Columbia; Robert M. Solow, MIT; William Spriggs, Universidade Howard; Joseph E. Stiglitz, Universidade Columbia; Peter Temin, MIT; Mark Thoma, Universidade do Oregon; Lester C. Thurow, MIT; Laura Tyson, Universidade da Califórnia/Berkeley; Paula B. Voos, Universidade Rutgers; David Weil, Universidade Boston; Edward Wolff, Universidade Nova York.

Tradução: Katarina Peixoto
Fonte:Agência Carta Maior.

UNE - Justiça concede a UNE posse definitiva do terreno no Rio.

Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro negou, por unanimidade, na terça-feira (26) a apelação proposta pelo estacionamento irregular que invadiu o terreno da sede histórica da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) na Praia do Flamengo, 132, Rio de Janeiro.

A sede funcionou até 1964, quando foi metralhada e incendiada pelos militares. Depois disso, o local foi invadido por um estacionamento clandestino, na década de 1980. A disputa judicial pelo terreno já durava 10 anos. A decisão tem caráter definitivo.

''A medida extingue a disputa pela posse do terreno. Não cabe mais nenhum recurso. A Justiça reafirmou: o terreno pertence a UNE e a UBES'', afirma o advogado das entidades, Márcio André Mendes Costa.

“Embora o Estado brasileiro nos tenha devolvido, em 1994, a propriedade do terreno, ainda precisávamos da posse do mesmo para concluir essa etapa do processo. Agora, estamos nos mobilizando para iniciar a reconstrução da sede o quanto antes”, declara Lúcia Stumpf, presidente da UNE.

Fonte: UNE

ELEIÇÕES 2010 - Dilma Rousseff, nossa candidata se consolida.

José Dirceu

Volto ao tema das eleições de 2010, da tática do PT e da política de alianças, hoje apoiado na pesquisa Vox Populi encomendada pelo partido e publicada essa semana pela mídia e em meu blog. O levantamento, excelente para o PT, nos dá o cenário atual da disputa para a presidência da República e para o governo dos principais Estados do país: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul.

A primeira conclusão é que a candidatura Dilma Rousseff se consolidou não apenas no PT, mas no eleitorado brasileiro. Já passou de 20% e está empatada com as de Aécio Neves e Ciro Gomes. A segunda é que por ser do Sul, do Rio Grande, Dilma tende a crescer e tirar a vantagem que a oposição construiu naquela região do país desde nossa vitória em 2002. A terceira é que ela ainda tem muito para crescer no Norte, Nordeste e em todo o país: 54% dos eleitores ainda não sabem que Dilma é apoiada pelo presidente Lula.

Mas a eleição não é só nacional, é também estadual, e tem importância para consolidarmos nossas alianças não só com o PMDB, que hoje tem 7 governadores, mas também com o PSB, que tem 3, o que nos leva à necessidade de fazermos alianças com esse partido em Estados prioritários ou, no mínimo, construir nestes dois palanques.

Chama atenção na pesquisa a situação de São Paulo, onde o PMDB já apóia o PSDB (que também tem apoio do DEM e do PTB-PPS-PV) e o PT ainda não tem candidato e nem uma aliança. Mesmo não sendo boa sua situação no levantamento, o PT tem uma base eleitoral de 35% dos votos no Estado. Também conta com a disputa entre o demo Gilberto Kassab, e os tucanos Geraldo Alckmin e Aloysio Nunes Ferreira Filho na base do governo Serra, e com a promessa da candidatura única de Orestes Quércia ao Senado, o que não se sustentará.

Neste contexto, Minas Gerais passa a ser a principal questão para nossa vitória em 2010. Seu governador, Aécio Neves, pode ser candidato ao Senado, apoiando seu vice Antonio Augusto Anastásia para o governo; ser vice de José Serra; ou mesmo sair do PSDB, renunciando ao mandato em setembro, dentro do prazo exigido pela legislação eleitoral. Para nós, do PT, a pior hipótese é sua candidatura a vice-presidente, o que poderia inclusive nos levar a uma aliança em Minas com o PMDB, mesmo não tendo (o PT) a cabeça de chapa. Vale lembrar que hoje, a situação em Minas é de disputa interna no PT, entre duas correntes lideradas por Patrus Ananias e Fernando Pimentel. Apesar do bom resultado nas pesquisas para nós - mas que são encabeçadas por Hélio Costa, senador e ministro peemedebista, nosso aliado - unidos temos mais chances reais de vencer as eleições.

No Rio de Janeiro, caminhamos para a consolidação da aliança com o PMDB de Sérgio Cabral. Temos grandes possibilidades de um palanque forte e com chances de reeleger o governador e eleger um senador e do PT.

Já na Bahia, a situação não é fácil. Se é fato que o governador Jacques Wagner tem todas as condições de se reeleger, há crise na aliança com o PMDB no Estado. Os peemedebistas se aproximaram do DEM, e o PSDB, por sua vez e pela primeira vez na história do carlismo na Bahia, tende a uma aliança com os ex-pefelistas, o que acende uma luz de alarme.

No Rio Grande do Sul, o PMDB está a cavaleiro para construir uma aliança com o PSDB (dado o desgaste de Yeda Crusius); ou com o bloco PDT-PSB-PC do B e com apoio do PTB, que poderia apoiar ou não Dilma Rousseff. O PT fica com uma candidatura forte (mais de 30% de votos), mas isolado para o 2º turno.

Se acrescentarmos a esses cenários as dificuldades que temos com o PMDB no PA, TO e no MS e a oposição deste partido ao governo Lula em SP Paulo, PE, AC, e SC, veremos que apesar da real possibilidade de alianças nos Estados de RJ, GO, RO, PR, AL, SE, CE, PI, MA, AP, AM, ES, PB, RN, será nos estados de Minas, Rio e Bahia que decidiremos o futuro da aliança nacional.

Junto ao PSB, e sem desconsiderar a pré-candidatura de Ciro Gomes, temos grandes chances de consolidar a aliança nacional com coligações nos Estados governados por esse partido: CE, PE e RN; e podemos montar palanques ainda na PB. Agora, tanto para o PSB, como para o PDT, o PC do B, o PR e mesmo o PMDB, contará também a eleição para o Senado e a Câmara dos Deputados, o que para o PT é decisivo e fundamental para a governabilidade no próximo governo.

A preferência nacional de 29% dos eleitores pelo PT permite ao partido eleger uma grande bancada de deputados e senadores. Assim, fica clara a necessidade de priorizar a eleição nacional - a de presidente e de senadores e deputados; e de construir palanques nos Estados, possivelmente tendo o PT que abrir mão de candidaturas legítimas e naturais, em nome do projeto nacional e da maioria no Congresso Nacional.
Fonte:Blog do Zé Dirceu

AGRONEGÓCIO RECEBE MAIS VERBAS QUE AGRICULTURA FAMILIAR.

No entanto, é a agricultura familiar que produz os alimentos que consumimos, enquanto o agronegócio produz e exporta basicamente alimentos para consumo animal.
Carlos Dória

O Ministério da Agricultura liberou, para os anos de 2009 e 2010, R$ 93 bilhões para financiar o agronegócio, enquanto a agricultura familiar ficou com R$ 15 bilhões. Comparando com o último ano, enquanto o valor destinado ao agronegócio teve aumento em R$ 15 bilhões, a agricultura familiar teve um acréscimo de apenas R$ 2 bilhões.

Para a Via Campesina – organização que reúne movimentos sociais de quatro continentes – estes números são um erro para a soberania alimentar brasileira. A representante da organização, Maria Costa, lamenta o projeto de desenvolvimento no campo do país:

“Nós [agricultores familiares] somos responsáveis por mais de 70% da produção de alimentos neste país. Passar R$ 93 bilhões para o agronegócio, que continua endividado, gerando despesas mesmo recebendo um volume de subsídio enorme do Estado brasileiro, é preocupante. Isso significa que vamos continuar por um caminho que a história está mostrando que não está certo.”

Maria Costa acredita que o Ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, comete equívocos ao declarar que o agronegócio tem ajudado o Brasil no contexto de crise mundial.

“Nós discordamos consideravelmente das defesas que ele faz, porque o que o agronegócio representa na balança comercial não está computado os grandes desastres [ambientais e sociais] e nós, com a crise mundial, não podemos deixar de computar essas questões.”

Segundo a Via Campesina, um planejamento melhor para a agricultura familiar, destinando maiores verbas para o setor, traria benefícios para a sociedade.
Fonte:MST

ANOS DE CHUMBO - Coronel Curió irá a júri popular.

Acusado de assassinar um menor de rua, com um tiro nas costas, em 1993, o coronel Sebastião Curió, será julgado por júri popular no próximo dia 05, em Sobradinho (DF). Além do menino assassinado, outro rapaz sofreu sérias lesões corporais.

O julgamento estava previsto para 2008 no Tribunal de Justiça do Pará, mas foi adiado inúmeras vezes. Essa não é a única denúncia de atrocidades envolvendo o coronel. Em 1981, durante a ditadura militar, o acampamento da Encruzilhada Natalino foi cercado pelo Exército, comandado pelo coronel Curió, no Rio Grande do Sul. Ninguém poderia entrar, ninguém poderia sair. O acampamento foi declarado “área de Segurança Nacional”.

Pouco antes disso, também durante a ditadura, Curió foi capitão do processo repressivo que resultou no sumiço dos 58 guerrilheiros do Araguaia, entre 1972 a 1975.
Em 1980 ele retorna ao Pará, como interventor federal para “colocar ordem” no garimpo. Como ele mesmo conta, em entrevista concedida à UnB Agência em 2007: “Na época, eu era chefe do Setor de Informações do Exército e fui mandado para lá para conseguir conduzir aqueles homens numa política favorável ao governo. A intenção inicial não era dar apoio social nem comercial, mas sim político-ideológica.” E foi assim que ele “desviou” os trabalhadores de qualquer intenção de lutar por seus direitos. Oito anos depois, fundou um município na região do garimpo com seu nome, Curionópolis.

Em abril deste ano, ele foi condenado a pagar R$ 1,1 milhão por improbidades administrativas ocorridas entre 2001 e 2004, durante sua penúltima gestão como prefeito do município. A decisão suspende os direitos políticos de Curió por cinco anos. Seu mandato como prefeito havia sido cassado em 2008 pelo Tribunal Superior Eleitoral. Ele foi condenado por compra de votos e abuso do poder econômico.

(Com informações de O Globo)/MST

SAÚDE - Chiclete causa overdose de cafeína em adolescente italiano.

BBC Brasil

Os chicletes continham cafeína equivalente a três xícaras de café.

Um adolescente de 13 anos foi diagnosticado com intoxicação por cafeína na Itália depois de consumir dois chicletes cafeinados, segundo um estudo de caso publicado na edição desta sexta-feira da revista científica The Lancet.

Segundo o relato dos médicos, o garoto foi levado pela mãe ao Hospital Monaldi, em Nápoles, depois de ter chegado em casa agitado e agressivo, diferente de seu comportamento normal.

Os exames indicaram que ele apresentava taquicardia (147 batimentos/minuto), estava ofegante e com pressão alta. De acordo com o estudo, o paciente reclamava ainda de dores abdominais, dor ao urinar e ardência nas pernas.

Depois de levar o filho para casa, a mãe encontrou o pacote de chicletes com cafeína na mochila do menino. Ele então admitiu ter ingerido dois dos chicletes no dia anterior.

Os chicletes continham cerca de 160 mg de cafeína e portanto, o adolescente havia ingerido o equivalente a 320 mg - um pouco mais do que a quantia presente em três xícaras de café.

"O paciente provavelmente tinha sensibilidade à cafeína e, ao levar em consideração seu consumo habitual da substância, as 320 mg provaram ser uma quantidade significativa para ele", afirmou o médico Francesco Natale, responsável pelo atendimento do garoto.

Os autores afirmam ainda que a condição física do garoto só foi completamente recuperada cerca de duas semanas depois do consumo dos chicletes. Além disso, o adolescente perdeu três dias de aula por conta da intoxicação.

"O consumo de chiclete estimulante deveria ser considerado em casos de intoxicação por cafeína. O risco de intoxicação é alto em crianças e adolescentes se levarmos em conta a pouca exposição à substância e a venda irrestrita desses estimulantes", concluiu Natale.

PETRÓLEO - Pré-sal, a maior descoberta ocidental.

Confiram a seguir a entrevista concedida ao jornal “O Globo”, na internet, no dia 23/05, pela especialista norte-americana Antonia Juhasz, que acaba de lançar o livro “A tirania do petróleo”, pela Ediouro. A entrevista do “O Globo Online” se diferencia, em muito, a da versão impressa de “O Globo”, do dia 24/05, que omitiu diversos trechos fundamentais da crítica da autora à tirania das chamadas Big Oil (Exxon/Mobil, Royal-Dutch Shell, BP, Chevron, Conoco/Philips e Total). A versão impressa contém muitas informações da especialista, que enfatizam as estratégias das Big Oil para ter acesso às reservas petrolíferas mundiais, entre outros meios, através de forte “lobby”, além das já conhecidas invasões ao Iraque. Os relatos da especialista são deveras educativos às autoridades governamentais, parlamentares e para toda a sociedade brasileira, sobretudo, no momento em que se discute as mudanças no atual marco regulatório do petróleo [Lei 9478/97]. As denúncias da especialista vêm reforçar, também, as críticas à criação da CPI da Petrobrás e pela importância estratégica do retorno da Lei 2004/53, que criou o monopólio estatal do petróleo e a Petrobrás. Esse chamamento vem sendo feito pela AEPET, pelo Sindipetro-RJ e demais entidades de petroleiros, vêm ganhando muito apoio de outras organizações da sociedade brasileira, de parlamentares e de personalidades. “O petróleo tem que ser nosso!”. Boa leitura. (Redação)

PRÉ-SAL, A MAIOR DESCOBERTA OCIDENTAL

Ramona Ordoñez (O Globo Online)

Especialista americana acredita que reservas da Exxon podem competir com Tupi. A descoberta da gigante Exxon Mobil no pré-sal na Bacia de Santos poderá ter reservas de petróleo capazes de competir com as de Tupi como a maior descoberta do Hemisfério Ocidental nos últimos 30 anos. Mas o Brasil precisa ter cuidado com os elevados custos e os impactos ambientais. O alerta é da escritora norte-americana Antonia Juhasz, autora do livro `A tirania do petróleo`, lançado aqui pela Ediouro.

Como a senhora avalia as descobertas de petróleo no pré-sal pelo Brasil?

ANTONIA JUHASZ: Eu apenas alertaria o Brasil para ter em mente os inúmeros problemas sérios associados à grande produção de petróleo, além de ter cuidado com aqueles aos quais se alia. A descoberta da Exxon Mobil na costa brasileira pode ter petróleo suficiente para rivalizar com Tupi como a maior descoberta do Hemisfério Ocidental em 30 anos. Entre os vários abusos corporativos da Exxon, há um processo por violação de direitos humanos na Indonésia e em outros países. Os brasileiros também deveriam estar atentos para os elevados custos ambientais da exploração “offshore” (no mar).

Qual é sua opinião sobre o programa brasileiro de etanol e o biodiesel?

ANTONIA: Em lugar de considerar os combustíveis alternativos como o etanol, que, já se viu, substituem e elevam os preços de grãos vitais para a alimentação, eu recomendo reduzir o uso de todos os combustíveis e investir agressivamente em transporte público de massa, cidades mais adequadas a pedestres, ciclovias e sistema de energia verde.

As petrolíferas têm lucros elevados, mas também investem em fontes alternativas?

ANTONIA: Todas as grandes petrolíferas têm gasto milhões de dólares em anúncios e relações públicas para convencer as pessoas de que estão fazendo maciços investimentos em fontes alternativas e renováveis de energia. Examinei as declarações de Imposto de Renda de cada uma das grandes petrolíferas e descobri que nenhuma delas gasta mais que 4% de seu orçamento total de pesquisa em fontes alternativas de energia verde, e a maioria gasta menos que isso. A melhor era a BP. E se 4% representam bastante dinheiro em vista do mega-orçamento da BP, dificilmente justifica que a empresa se renomeie “Beyond Petroleum” (além do petróleo). As empresas estão fazendo investimentos simbólicos em energia alternativa para agradar a opinião pública, enquanto pressionam os povos e seus governos para que lhes deem acesso a todos os cantos do Planeta, onde podem usar métodos cada vez mais destrutivos para tirar até a última gota de petróleo da Terra..

Não é ilusão pensar que as Big Oil vão parar de investir no aumento da produção?

ANTONIA: Sim. É aqui que entramos. Temos de regulamentar as operações das petrolíferas, para assegurar que estas sejam consistentes com necessidades sociais mais amplas, com o Planeta em que vivemos.

Como conciliar essas duas tendências?

ANTONIA: Temos de regular nossas economias para investir em alternativas ao petróleo. Mas continuaremos a precisar dele. Precisamos regulamentar a indústria para torná-la limpa e segura e amigável ao meio ambiente. Isso certamente significa que algumas áreas de produção petrolífera terão de permanecer fora de alcance - como as areias petrolíferas de Alberta (Canadá) ou a área de xisto no Meio-Oeste americano. São escolhas que precisamos fazer para sobreviver como espécie neste Planeta.

No primeiro e no segundo choques do petróleo (1971 e 1979/80), as petrolíferas eram conhecidas como as Sete Irmãs. O que mudou agora?

ANTONIA: Após o segundo choque do petróleo, as Sete Irmãs (Exxon, Mobil, Chevron, Texaco, Gulf, BP e Shell) se fundiram, tornando-se quatro, que engoliram outras petrolíferas pelo caminho. As maiores delas - Exxon e Mobil - se uniram em 1999, formando a maior petrolífera da história e a maior empresa do mundo. A Chevron comprou a Gulf em 1985 e a Texaco em 2001 (esta tinha comprado outra empresa, a Getty Oi, em 1984). A Chevron depois comprou a Unocal, da Califórnia, em 2005. A BP comprou Amoco e Arco em 1989 e 200. Enquanto a Shell comprou várias pequenas empresa que antes pertenciam à Satandard Oil (forçada pelo governo americano a se dividir em 1911). A consequência é que o poder que as sete detinham ficou ainda mais centralizado e se consolidou nas mãos de um grupo menor ainda de empresas, as Big Oil (Exxon/Mobil, Royal-Dutch Shell, BP, Chevron, Conoco/Philips e Total).

As Big Oil têm forte influência no governo dos EUA?

ANTONIA: Devido a seus lucros vultosos e sem paralelo, as Big Oil têm sido a indústria mais influente na política americana - particularmente durante os dois governos Bush. Essa influência começou com o surgimento da Standard Oil Company, há 150 anos. Com a eleição de Barack Obama, os americanos escolheram o candidato que prometeu acabar com a `tirania do petróleo`. A indústria petrolífera americana gastou mais dinheiro que nunca e fazendo lobby junto ao governo federal para influenciar na tomada de decisões políticas. Ainda não está claro quão longe irá Obama na mudança de rumo.

Por que as petrolíferas têm tanto poder, nos EUA e no mundo?

ANTONIA: O petróleo é central para a economia global e, por isso, influencia significativamente o poder detido pelas petrolíferas. As dez maiores petrolíferas divulgaram lucros de mais de US$ 167 bilhões só em 2006 - quase US$ 50 bilhões a mais que as dez principais empresas no segundo setor mais lucrativo, o bancário.

As maiores petrolíferas de capital aberto nos Estados Unidos, e aquelas com a maior influência nas decisões políticas americanas, são Exxon/Mobil, Shell, BP, Chevron, ConocoPhillips, Valero e Marathon. Juntas, ela lucraram mais de US$ 80 bilhões em 2007, o que faz delas a 67ª maior economia do Planeta. Mesmo com a queda do preço do petróleo, as grandes petrolíferas estão reduzidno as perdas com lucros notavelmente crescentes de seus setores de refino e comercialização. Esse poder financeiro sem paralelo se traduz em poder político direto, nas comunidades locais em todo o mundo.

Os grandes conflitos globais, como a guerra do Golfo Pérsico nos anos 1990 e, hoje, a do Iraque, aconteceram apenas para beneficiar as Big Oil?

ANTONIA: Não. Eu me concentro, em meu livro, nas duas guerras dos EUA contra o Iraque e argumento que o petróleo é essencial, apesar de não ser o único motivo, para essas invasões e ocupações. Especialmente na atual guerra do Iraque, o governo Bush e as petrolíferas passaram os últimos seis anos tentando convencer o novo governo iraquiano a aprovar a lei Iraquiana dos Hidrocarbonetos, que levaria o Iraque de um sistema petrolífero nacionalizado, quase fechado, às empresas americanas, em um quase totalmente privatizado, com virtualmente todo o petróleo do Iraque aberto ao controle de petrolíferas estrangeiras. As petrolíferas americanas, claro, continuam profundamente comprometidas em obter acesso ao petróleo do Iraque.

Na atual crise mundial com o desaquecimento da economia, os preços do petróleo estão em queda, como as Big Oil enfrentarão isso?

ANTONIA: As petrolíferas não têm enfrentado queda nos lucros. Em 2008, o ganho da Exxon/Mobil aumentou cerca de US$ 5 bilhões em relação a 2007, e o da Chevron, em US$ 7 bilhões. Seus lucros aumentaram graças à força dos setores de refino e comercialização. As companhias ganharam muito em 2007 e agora elas se ajustaram de volta aos níveis de 2005. A cotação do petróleo vai mais que se recuperar, se os elementos que levaram àquela alta permanecerem: 1) A desregulamentação dos mercados futuros de petróleo; 2) O poder político e econômico sem precedentes das petrolíferas; e 3) Um mundo construído para a dependência do petróleo, um recurso cujo pico global de produção, acredita-se, será atingido em 2020.

As Big Oil deverão continuar investindo no aumento da produção, mesmo com a atual queda mundial da demanda?

ANTONIA: As petrolíferas, sejam de capital aberto, privadas ou estatais, terão de continuar produzindo petróleo por um bom tempo. Não apenas para proteger o Planeta, mas reverter o aquecimento global, precisamos impor restrições maiores sobre onde as petrolíferas poderão ir em busca de petróleo e que métodos podem usar.

Como os mercados financeiros passaram a ter tanta influência nos preços atuais do petróleo?

ANTONIA: A negociação em mercado futuro de petróleo começou na Bolsa Mercantil de Nova Iorque (Nymez) em 1984, como resposta à “crise” dos 1970, com o propósito específico de quebrar a capacidade da OPEP fixar preços, ao mudar o controle de preços da OPEP para a Nymex.

O plano funcionou. Hoje, o preço do barril de petróleo é grandemente determinado pelas ações dos operadores do mercado futuro, incluindo aqueles trabalhando pelas e para as Big Oil. As petrolíferas, junto com os maiores bancos americanos, a Enron e outros do gênero, fizeram lobby para remover a supervisão do governo e a regulação da maior parte dessas operações - de modo que esse mercado é um dos menos regulados do mundo.

Analistas estimam que cerca de metade do preço do barril deva-se exclusivamente às operações das comercializadoras de energia.

Ramona Ordoñez (jornalista)

Publicado originalmente: O Globo Online/AEPET.

Programa Nacional do PT na televisão.



Foi ao ar nesta quinta-feira (28) o programa nacional do Partido dos Trabalhadores. Com 10 minutos de duração, o programa mostrou como as políticas públicas elaboradas pelo PT fizeram o Brasil diminuir desigualdades, gerar empregos e promover desenvolvimento com distribuição de renda e inclusão social.

Também destacou que, na contramão do neoliberalismo, o governo do PT consolidou o país como um dos mais bem preparados do mundo para a superação da crise econômica internacional.

O programa teve a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de lideranças nacionais, incluindo cinco ministros.

AS CARTILHAS DE SÃO PAULO.

Mauro Santayana

Entre os livros escolares da primeira metade do século passado, se destacava Contos pátrios, de autoria de Olavo Bilac e Coelho Neto. Na mesma época, foi traduzido para o português um dos mais importantes compêndios de leitura escolar na Itália, Cuore, de Edmond De Amicis. Os dois livros, o brasileiro e o italiano, de estilos bem diferentes, se identificavam em um objetivo comum: o da construção da nacionalidade, mediante o respeito aos valores da solidariedade familiar e comunitária como base da coesão política. O livro do jornalista Edmond De Amicis foi editado em 1888, poucos anos depois da unificação italiana, promovida por Cavour e Garibaldi, quando ainda eram vivas as repercussões da luta armada. Fazia falta trabalhar a fim de que vários Estados independentes se unificassem sob uma só bandeira, e que ela se consolidasse no coração das crianças.

Contos pátrios foi redigido logo depois de proclamada a República, e editado em 1904, e até 1962, quando deixou de ser adotado, teve 46 edições. Bilac, republicano e nacionalista, estava naturalmente preocupado com o novo regime, tanto assim que se exilou em Minas, durante o período autoritário de Floriano Peixoto. Os relatos são também amarrados aos valores éticos, como o patriotismo, a solidariedade, o respeito aos pobres, a importância do trabalho honrado.

Outro grande autor de textos escolares foi o paulista Tales de Andrade, que localizava seus relatos na cidade de Piracicaba e em seu entorno rural. Saudade faz lembrar, na medida certa da linguagem, o Cuore. Mas a boa literatura escolar não se limitava a esses livros. Até o fim dos anos 50, os textos didáticos não ensinavam apenas a ler; ensinavam a pensar, fundavam-se nos sentimentos comuns do povo brasileiro e na autoestima nacional nos tempos de Vargas e Juscelino.

A Secretaria de Educação de São Paulo distribuiu livros à rede estadual de ensino, destinados às crianças, que são uma ofensa aos pobres, já que os ricos não frequentam escolas públicas. Um deles, em quadrinhos, sob o argumento de que facilitaria o aprendizado da leitura, está recheado de ilustrações obscenas e textos apenas chulos, com linguagem de sarjeta. A pretexto de levar às crianças temas da atualidade – de acordo com a Folha de S.Paulo de ontem – distribuiu outra publicação, sob o título de Poesia do dia, poetas de hoje para os leitores de agora, em que se recomenda desprezar o amor e preferir o estupro, entre outros conselhos no mesmo estilo. Se os autores sabiam a que público se dirigiam, merecem a indignação do povo brasileiro, porque veem as crianças pobres como pequenos bandalhos, interessados em relatos fesceninos. Se quiseram imitar o método Paulo Freire, cometeram uma contrafacção perversa e criminosa. Ao contrário do que muitos pensam, os trabalhadores são muito ciosos da boa formação moral dos filhos, e naturalmente irão receber esses textos com indignação.

É um erro entender a educação como um meio de ajustar o aluno a seu tempo, quando esse tempo é inconveniente ao homem. A educação deve ser teleológica. Os alunos têm que ser preparados não para submeter-se a uma sociedade deformada pela injustiça mas, sim, para mudá-la. A educação deve libertar o homem, e essa libertação não se encontra na banalização do sexo, no repúdio ao amor, no ódio psicopata contra a vida. As sociedades totalitárias – como a do neoliberalismo – sempre estimulam a liberdade dos costumes, a fim de distrair os povos de seus direitos reais, de sua essencial dignidade.

A edição de livros escolares se tornou um negócio gigantesco, com grandes interesses comerciais em jogo. As editoras pressionam as autoridades em busca da adoção de seus livros na rede oficial, usando dos meios de convencimento conhecidos. Suspeita-se também que haja um sistema de trocas, em que o aprovador de hoje pode vir a ser o editado de amanhã. Ao escândalo (porque se trata de um escândalo) atual, o governo de São Paulo só pode responder com a instituição de um inquérito rigoroso, antes que a Assembleia Legislativa tome a iniciativa da investigação.

Tal como na Itália do Risorgimento e no Brasil da transição republicana, somos hoje chamados a mobilizar o povo para a construção de uma sociedade solidária dentro de um projeto nacional soberano. O ensino fundamental é o melhor trecho do caminho para a cidadania. Mas, aos pobres, desprovidos de tudo, também se nega, e de forma criminosa, o direito constitucional de participar do destino da nacionalidade.
Fonte:JB

EM DEFESA DA PETROBRÁS.

Na Base *

Adital

O coordenador da Federação Única dos Petroleiros, João Antonio de Moraes, fala nesta entrevista sobre o ato em defesa da Petrobras e as segundas intenções do tucanato em relação à empresa. Veja a seguir:

Na Base - Na sua opinião, quais são as verdadeiras intenções dos parlamentares do PSDB ao pedir a instalação da CPI da Petrobras?

João Antônio de Moraes - Quando os tucanos governaram o Brasil deram de bandeja, através das privatizações, ao setor privado e às multinacionais quase todas as nossas riquezas. Apenas não conseguiram privatizar a Petrobrás, devido a grande mobilização da sociedade. Portanto, é isso que está por trás da instalação desta CPI: tentar desmoralizar a Petrobrás para facilitar a sua privatização. Como não conseguiram, resolveram acabar com o monopólio estatal e abriram a exploração das nossas jazidas para as empresas privadas. A atual legislação (Lei 9.478/97) permite que multinacionais explorem e produzam o petróleo e gás do Brasil. Em consequência disso, várias empresas estrangeiras já possuem áreas do pré-sal, a maior área petrolífera descoberta no mundo, desde os anos 80. Essa CPI pode causar dificuldades estruturais e de financiamento para a Petrobrás, deixando as multinacionais ainda mais à vontade para explorar o pré-sal.
Portanto, não há dúvidas de que a CPI está a serviço das multinacionais petrolíferas, que disputaram o nosso petróleo nos leilões criados pelo PSDB e mantidos pelo atual governo.
Inclusive, mesmo com as denúncias de favorecimento e de entreguismo, em relação às privatizações, o governador tucano de São Paulo, José Serra, ainda privatizou a Cesp, a maior geradora de energia do país. O PSDB tem o DNA da privatização e é isso que está por trás da CPI contra a Petrobrás.


NB - Historicamente, cada vez que a Petrobras é ameaçada surge um movimento nacional em sua defesa. E agora, o que podemos esperar dos movimentos populares, sociais, sindicais e de estudantes em relação a este novo ataque da direita?

AM - Os movimentos sociais brasileiros construíram uma unidade importante na 3ª Plenária da campanha O Petróleo tem que ser nosso!, que aconteceu nos dias 12 e 13 de maio em Guararema (SP). Além disso, ainda repercute na mídia, o ato nacional realizado no centro do Rio de Janeiro, dia 21/05, que reuniu cerca de cinco mil pessoas, parando a Avenida Rio Branco e abraçando a sede da Petrobrás, num ato simbólico de defesa da estatal. Portanto, o tucanato pode sim ter dado um tiro no pé ao provocar os brasileiros de garra e luta que não hesitam em sair em defesa da empresa.

NB - O senador Papaléo Pães (PSDB/PA), chamou a FUP de pelega por se manifestar contra a instalação da CPI , qual será a resposta do movimento sindical a esta acusação?

AM - Quando somos atacados por parlamentares entreguistas entendemos que as nossas ações estão corretas, assim como a nossa representatividade e capacidade de organização da nossa categoria, através da FUP. A nossa resposta foi clara no ato do dia 21, organizado pela Federação, que mostrou, mais uma vez, a credibilidade da nossa entidade perante as organizações sociais e o povo brasileiro.

NB - Como foi a participação da delegação baiana no ato do dia 21 de maio no centro do Rio que reuniu mais de cinco mil pessoas ?

AM - Os companheiros do Sindicato do Ramo Químico/Petroleiro (BA) deram um grande exemplo de engajamento nesta luta e patriotismo e foram fundamentais no ato. O sindicato enviou um ônibus com 40 companheiros, que viajaram mais de 40 horas para se somarem à mobilização por uma nova lei do petróleo e contra a CPI privatista. Os mais de cinco mil manifestantes que participaram do ato saudaram a disposição de luta e combatividade do povo baiano.


* Boletim Informativo oficial do Sindicato dos Trabalhadores do ramo Químico / Petroleiro do Estado da Bahia

BRASIL - Professores de ética.

Frei Betto *

É tautológico falar em falta de ética no Congresso Nacional. Os escândalos se sucedem, do deputado que está "se lixando" para a opinião pública aos funcionários do Senado que, a exemplo de notórios senadores, ostentam um padrão de vida muito superior a seus vencimentos e à renda declarada.

Felizmente há exceções. Lástima que a indignação e o protesto de parlamentares íntegros tenham pouca ressonância nas ruas. Em geral, noticiam-se farra de passagens aéreas, castelos mirabolantes, mansões paradisíacas. Poucos tomam conhecimento da coerência de parlamentares incorruptíveis, incapazes, inclusive, de aceitar caixa dois em suas campanhas eleitorais.

A corrupção decorre da falta de caráter. Esta se manifesta, de modo especial, quando a pessoa se vê investida de uma função de poder, do policial que extorque o comerciante ou do delegado que embolsa pagamento de fianças ao empresário que suborna o funcionário público para obter licitações fajutas; do prefeito que se apropria dos recursos da merenda escolar a parlamentares que se julgam no direito de pagar, com dinheiro público, o salário de sua empregada doméstica.

Como dar um basta em tanta maracutaia? Difícil. O ser humano padece de duas limitações insuperáveis: defeito de fabricação e prazo de validade. É o que a Bíblia chama de "pecado original". Sempre haverá homens e mulheres desprovidos de caráter, de princípios éticos, dispostos a não perder a primeira oportunidade de enriquecimento ilícito. A solução não reside no cultivo das virtudes, que tem sua importância. Fosse assim, os colégios religiosos, onde estudaram Collor e Maluf, seriam fábricas de anjos.

A solução é criar, via profunda reforma política, instituições que inibam os corruptos e mecanismos de controle popular. Em suma, tornar a nossa democracia, meramente delegativa, mais representativa e, sobretudo, participativa.

Enquanto a solução não aparece, sugiro que convidem, para ministrar um curso de ética no Congresso Nacional, Suas Excelências José Gomes da Costa, Rodrigo Botelho, Francisco Basílio Cavalcanti, Clélia Machado, Sebastião Breta e Fagner Tamborim.

O que essas pessoas fizeram não deveria ser considerado extraordinário. No entanto, frente aos casuísmos, ao nepotismo, à malversação, ao cinismo de parlamentares tentando justificar o injustificável, convém propalar o exemplo desses professores de ética.

José Gomes da Costa é gari da prefeitura de São Paulo. Ganha R$ 600 por mês. Vinte e seis vezes menos que um deputado federal. Com este salário, sustenta a si e três filhos. Dia 18 de maio último, ao varrer a rua, encontrou um cheque do Banco do Brasil no valor de R$ 2.514,95. José precisaria trabalhar quatro meses, sem nenhuma despesa, para acumular esta quantia. Procurou uma agencia do banco e devolveu o cheque. Motivo: vergonha na cara.

Gari, Rodrigo Botelho encontrou, em 26 de maio de 2008, durante Campeonato Mundial de Tênis de Mesa, no Rio, mochila com R$ 3 mil em dinheiro. Viu o nome do dono nos documentos, chamou-o pelo microfone e devolveu. Rodrigo é normal, tem caráter.

Francisco Basílio Cavalcante, faxineiro do aeroporto de Brasília, pai de 5 filhos, ganha salário mínimo. No dia 10 de março de 2004, encontrou uma bolsa de couro no banheiro do aeroporto. Dentro, US$ 10 mil e um passaporte. Se fosse juntar o salário que ganha, sem gastar um só centavo, levaria 3 anos e 4 meses para obter igual soma.

Francisco declarou: "Tem que ser assim. O que não é nosso precisa ser devolvido. Um dinheiro que não é da gente não pode ser do bem. Não pode trazer felicidade".

Clélia Machado, 29, é auxiliar de serviços gerais e faz bico como manicure. Sozinha, cria duas filhas, uma de 7 anos, outra de 9. Sua renda mensal não chega a R$ 550. Todos os dias ela faz a faxina do banheiro do posto da Polícia Rodoviária Federal em Seberi (RS), onde trabalha há três anos. A 11 de março de 2008, encontrou, junto à privada, um pé de meia enrolado em papel higiênico. Dentro, US$ 6.715.
Clélia entregou os dólares aos policiais. Entrevistada, declarou: "Bem que podia ser meu de verdade. Mas já que não me pertencia, devolvi na hora. Era o certo a fazer".

O gari Sebastião Breta, 43, da prefeitura de Cariacica (ES), devolveu os R$ 12.366,00 que achou num malote no lixo. O nome do homem que fora roubado estava gravado numa etiqueta. Sebastião ganha salário mínimo.
Indagado se pensou em ficar com o dinheiro, disse: "Nunca. Desde a primeira vez que vi sabia que devia devolver. Quando não consigo pagar as minhas contas fico doido, pensava o tempo todo como estaria o dono do dinheiro, imaginava que ele também não podia pagar suas contas porque tinha perdido tudo. Eu e minha mulher não conseguiríamos dormir à noite. Acho esquisito pegar o que não é da gente".

Fagner Tamborim, 17 anos, entregador de jornais na cidade de Pirajuí, a 398 km de São Paulo, ganha R$ 90 por mês. Enquanto pedalava sua bicicleta, encontrou na rua um malote com R$ 6 mil. Devolveu-o ao dono. "Vi que tinha muito dinheiro e cheques. Levei pra minha mãe, que ligou para o banco".

O melhor do Brasil é o brasileiro, não necessariamente nossos parlamentares.

RÚSSIA CRIA ESCOLA DE BLOGUEIROS ESTATAL.

De olho no grande número de acessos no país, o governo da Rússia criou a Escola de Blogueiros do Kremlin para avaliar as melhores formas de tornar populares entre os jovens os assuntos de interesse de Moscou.

REDAÇÃO ÉPOCA

NOVA ESTRATÉGIA.

O presidente russo, Dmitry Medvedev, durante um encontro com líderes da União Europeia. Kremlin começa a apostar na internet para aumentar apoioHá alguns meses vários órgãos da imprensa ocidental têm registrado que o governo russo começou uma ofensiva para criar ferramentas de comunicação na internet, especialmente sites que defendem a ideologia do presidente Dmitry Medvedev e do primeiro-ministro Vladimir Putin. Mas nesta semana foi inaugurada uma novidade inusitada – a Escola de Blogueiros do Kremlin.

De acordo com o blog Net.effect, do site da revista americana Foreign Policy, a escola foi inaugurada em 14 de maio, com uma palestra de Alexey Chadayev, um cientista político com fortes ligações com o Kremlin que edita o site Liberty.ru e que escreveu o livro Putin: sua idelogia. Na palestra, Chadayev falou sobre os objetivos das “atividades de informação na blogosfera” em 2009 e, segundo as informações disponíveis, o primeiro trabalho da escola será uma série de vídeos no Youtube com forte cunho ideológico sobre projetos do governo.

No fim de abril, o próprio presidente Dmitry Medvedev passou a se comunicar com o público pela internet, ao criar um blog pessoal. Foi uma inovação se comparado ao comportamento de seu antecessor, Vladimir Putin, que continua receoso de interagir com o público, mas que escreverá sua primeira coluna na revista Pioneiro Russo nesta sexta-feira (29).

Vale lembrar que se o Kremlin está começando só agora a usar a internet para difundir sua ideologia, a Rússia é acusada há muito tempo de usar a rede para prejudicar adversários políticos. Em agosto de 2008, por exemplo, quando o país se envolveu em uma guerra com a Geórgia, uma série de ataques virtuais foram registrados contra sites comerciais e do governo de Tbilisi. Antes disso, em maio de 2007, sites de bancos, lojas, provedores e agências governamentais da Estônia saíram do ar por conta de ataques virtuais. Na mesma semana, o governo estoniano havia anunciado a retirada de um memorial soviético do centro de sua capital, que gerou diversos protestos na Rússia.
Fonte:Revista Época

NOVA LEI DO PETRÓLEO - Ocupação pacífica do Congresso dia 3 de junho.

Escrito por Leonardo Severo

CUT e FUP convocam ato "Em Defesa da Petrobrás, do Patrimônio Público e por uma nova lei do Petróleo"

Não à privatização!Integrada à campanha "Por uma nova lei do petróleo, pela retomada do monopólio estatal e em defesa da Petrobrás pública e com compromisso social", a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) estão convocando para a próxima quarta-feira, dia 3 de junho, uma "Ocupação pacífica do Congresso Nacional", data da instalação oficial da CPI da Petrobrás.

Para o secretário geral da CUT, Quintino Severo, mais do que nunca, "neste momento é fundamental a unidade do movimento sindical e social em defesa da Petrobrás e do patrimônio público nacional", daí a importância da atuação conjunta para "ampliar a defesa do nosso petróleo e do gás contra os que querem destruir a imagem da Petrobrás, paralisar os investimentos e, com isto, diminuir o ritmo do desenvolvimento do país".

Nos últimos dias, foram feitas mobilizações unitárias vitoriosas que envolveram as Centrais Sindicais e o conjunto das entidades populares nos estados do Rio de Janeiro (21/05) e do Rio Grande do Norte (26/5). As próximas manifestações ocorrerão em Curitiba (2/6), Brasília (03/06) e Manaus (11/06).

"Como a Petrobrás responde por mais de 10% do PIB nacional e por quase 60% dos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a ação orquestrada pelo PSDB e pelo DEM representa clara sabotagem ao país, uma tentativa desesperada de paralisar os avanços sociais", declarou o secretário de Política Sindical da CUT Nacional, Vagner Freitas, reforçando o significado do dia 3 de junho.

O coordenador da FUP, João Antonio de Moraes, também condenou a irresponsabilidade demo-tucana, mas lembrou que ela faz parte da trajetória neoliberal "dos mesmos que durante oito anos tentaram sucatear e privatizar a Petrobrás, propondo, inclusive, mudar o nome da empresa para Petrobrax". Moraes lembrou que o objetivo da oposição de direita é "retardar o máximo possível a exploração do pré-Sal".

"Por trás da CPI, está também a intenção de dificultar ou impedir mudanças na legislação do setor petróleo, beneficiando o cartel multinacional com as atuais regras que permitem a continuidade dos leilões das nossas reservas de petróleo e gás, o que é um crime de lesa-Pátria", enfatizou Antonio Carlos Spis, membro da executiva nacional da CUT e líder histórico dos petroleiros.

Entre as propostas da campanha está a mudança na Lei do Petróleo, restabelecendo o monopólio estatal e o fim dos leilões; o fim da exportação do petróleo cru e investimento na indústria; fazer a mensuração da riqueza do pré-Sal com a conclusão do processo exploratório, com um inventário de onde está, qual a quantidade e quem ganhou nos leilões e a implantação de um Fundo Social Soberano de Investimento, voltado para as necessidades do povo brasileiro, como educação, saúde, trabalho, moradia e reforma agrária.
Fonte:CUT/FUP

A DEFESA DA CORÉIA & BELICOSIDADE DOS EUA.

por Workers World.

Quem nos Estados Unidos prestar atenção ao noticiário dos media corporativos deve pensar que a República Democrática Popular da Coreia violou o Tratado Abrangente de Proibição de Testes. Certo?

Só que tal tratado não existe.

Uns 180 países assinaram-se, mas apenas 148 o ratificaram. Segundo o sítio web da Comprehensive Nuclear-Test-Ban Treaty Organization, "Todos os 44 Estados listados especificamente no Tratado – aqueles com capacidades de tecnologia nuclear no momento das negociações finais do Tratado em 1996 – devem assinar e ratificar antes de o CTBT entrar em vigor". (ctbto.org)

Nove daqueles 44 Estados nucleares não ratificaramo tratado, apesar de o terem assinado a uns 13 anos atrás. Portanto, o tratado não está e nunca esteve em vigor.

O governo que mais parece protestar quando um país como a RDPC efectua testes tem sede em Washington. Mas, será que pode imaginar? O Senado dos EUA não ratificou o tratado. De facto, é a recusa de Washington que constitui o principal obstáculo para o tratado CTBT entrar em vigor.

Os EUA testaram as primeiras bombas atómicas do mundo em 1945 e quase imediatamente lançaram duas delas sobre cidades japonesas, matando 220 mil pessoas nos locais e deixando outras 200 mil tão envenenadas pela radioactividade que morreram logo após. Desde aquele tempo até assinarem o tratado em 1996, os EUA testaram 1032 armas nucleares.

Este número de testes com ogivas é maior do que aquele que foi executado por todos os restantes países do mundo em conjunto, do início até o presente.

Assim, como pode o mundo ter qualquer confiança num tratado de proibição de testes nucleares se o país que testou um número tão enormemente desproporcionado de armas não o ratificará?

A RDPC efectuou com êxito dois testes subterrâneos de dispositivos nucleares, um em 2006 e outro em 25 de Maio. Ela não lançou quaisquer bombas sobre ninguém. De facto, as suas tropas nunca combateram em qualquer outro lugar senão a Coreia, e isso para expulsar invasores estrangeiros.

A determinação da RDPC de dedicar recursos substanciais à construção de um dissuasor nuclear reflecte a história trágica da Coreia. Primeiro invadida e anexada pelo colonialismo do Japão, a seguir ocupada pelas tropas dos EUA no fim da II Guerra Mundial, a Coreia sofreu terrivelmente com a ascensão do imperialismo no século XX.

Os EUA criaram uma ditadura militar fantoche no Sul, a qual em 1948 declarou-se República da Coreia. Foi só então que as forças revolucionárias, que haviam libertado a parte norte da Coreia das garras de ferro do Japão, responderam declarando a constituição da RDPC, não como um Estado permanente que ratificaria a divisão da Coreia, mas como um reconhecimento da realidade. O objectivo da RDPC e do povo coreano como um todo sempre foi reunificar o país. Dentro de dois anos, contudo, a RDPC estava a combater uma nova guerra contra invasores imperialistas – desta vez centenas de milhares de tropas estado-unidenses.

Vários milhões de coreanos, civis e soldados, foram mortos na guerra de 1950-53. Uns 53 mil soldados americanos morreram. Embora a guerra acabasse num cessar-fogo com os dois lados aproximadamente onde estavam no princípio, os ocupantes estado-unidenses da Coreia do Sul recusaram-se a assinar um tratado de paz com a RDPC. E assim as coisas permaneceram desde então, com 30 a 40 mil tropas dos EUA a ocuparem o Sul.

Muitos países – o primeiro deles foram os Estados Unidos – declaram que tinham de ter armas nucleares para a auto-defesa. Ninguém tem um direito mais forte a um dissuasor nuclear do que a RDPC, a qual durante mais de meio século enfrentou a ameaça constante de nova agressão da mais poderosamente armada superpotência imperialista.

Se Washington fosse sincera acerca de querer avançar para um mundo livre do nuclear, ela começaria por assinar um tratado de paz com a RDPC, ratificar o CTBT e remover as suas tropas de ocupação da Coreia.


27/Maio/2009
Articles copyright 1995-2009 Workers World. Verbatim copying and distribution of this entire article is permitted in any medium without royalty provided this notice is preserved.

O original encontra-se em http://www.workers.org/2009/editorials/korea_0604/

Este editorial encontra-se em http://resistir.info/ .

MÃOS LIMPAS?

José Saramago

Baltasar Garzón é uma das pessoas mais influentes que a sociedade espanhola produziu na última metade do século XX. Ao juiz Garzón devemos alguns dos momentos mais luminosamente democráticos que conhecemos: o processamento do general Pinochet e a investigação contra os crimes da guerra e do franquismo. Nesse segundo caso, Garzón considerava que Franco e outros 44 membros dos seus governos e da Falange cometeram “delitos contra Altos Organismos da Nação” e também de “detenção ilegal com desaparecimento de pessoas num âmbito de crimes contra a humanidade”. Pois bem, a investigação contra estes crimes exasperou os franquistas, que ainda os há em Espanha, até ao ponto de processar Garzón, a quem acusam de prevaricar, porque iniciou processos, dizem, sabendo que os responsáveis estavam mortos. Assina a queixa um tal Bernard, antigo dirigente da Fuerza Nueva, grupo ultra-direitista muito activo na repressão de antifranquistas, e actual presidente de uma associação sindical que cinicamente diz “defender” o estado de Direito e que copiou o nome de Mãos Limpas da nunca esquecida iniciativa italiana.

Que fez Baltasar Garzón? Fora das associações judiciais, com as suas intrigas e as suas confrontações, fora da fúria, que não é só política, que os franquistas sentem contra as iniciativas que a sociedade adopte para limpar-se da ditadura, o que vemos é uma actuação que introduz o senso comum nos tribunais. Há um juiz corajoso que em vez de enredar-se em leis para justificar silêncios e omissões busca os resquícios que as leis permitem para que às vítimas da guerra e do franquismo se lhes reconheçam direitos e se esclareça a sua memória. Garzón entendeu que tinham direito a recuperar os corpos enterrados em fossas comuns, ou a saber onde estão as então crianças que foram separadas com violência das suas famílias, por isso pôs em marcha um processo que logo continuou noutras instâncias, porém, ele foi o precursor e isso não se perdoa. O terrível, o incompreensível, é que os herdeiros do franquismo tenham encontrado eco no Tribunal Supremo de Espanha onde Garzón terá que declarar como imputado pela causa contra o franquismo. Diz o Supremo que “sem valorar nem pré-julgar o sucedido, entende que não se dão as condições para rejeitar a admissão a trâmite desta queixa”, que a hipótese de prevaricação não é nem absurda nem irracional. Isso é o que dizem cinco magistrados, cinco, do Supremo. A ver agora o que diz a sociedade espanhola, sempre tão apaixonada quando se trata de defender causas justas. Deixará, sem fazer ouvir a sua voz, que a Fuerza Nueva, perdão, Mãos Limpas, use e abuse do Direito? Permitirá, sem protesto, que conceitos como Estado de Direito, pelo qual tanto lutaram os antifranquistas, sejam utilizados contra as vítimas, para que uma vez mais caiam no esquecimento? Já não se trata de Garzón, de cuja amizade me honro, mas sim de que não se divirtam à nossa custa. Prevaricar não é actuar para ampliar o Direito, prevaricar é não ter actuado antes. E troçar da justiça é aceitar como normal que os franquistas venham dar lições de escrúpulo democrático.
Fonte:O Caderno de Saramago.