sexta-feira, 27 de agosto de 2010

ANOS DE CHUMBO - Um elo entre dois atentados.

E pensar que o exército brasileiro criou uma farsa de IPM, dirigido por um tal coronel Job que, pasmem, inocentou os dois terroristas. Um morreu, e o outro, Capitão Machado, virou coronel e hoje, dizem, é professor no Colégio Militar de Brasília.
Eu estava presente no Rio Centro naquele show de primeiro de maio e poderia ter sido vítima desse ato terrorista.
O que é surpreendente é o jornal O Globo, porta-voz e grande beneficiário da ditadura, publicar a matéria que apresentamos a seguir.Amanhã, na certa, as viúvas da ditadura, a começar pelo deputado Bolsonaro, que aparece ao lado do Serra, hoje, no Clube de Aeronáutica, vão mandar cartas a esse jornal criticando a matéria publicada.Será que a Folha de São Paulo, que emprestou suas peruas para o transporte de presos políticos presos na Operação OBAM, financiada pelos empresários paulistas, irá publicar alguma coisa? Ou vai continuar pressionando o Tribunal de Justiça Militar, como faz hoje, para ter acesso ao inquérito que deu lugar a prisão da Dilma. Quer fazer uso eleitoral desse inquérito, para ajudar seu candidato que só faz cair nas pesquisas.
Carlos Dória

Elas jamais esqueceram aquelas feições. Era dia do aniversário de Lyda Monteiro, o primeiro depois de sua morte no atentado à OAB. Ao levar flores à sepultura, perto de uma das entradas do Cemitério São João Batista, na Zona Sul do Rio, Palmyra Monteiro de Figueiredo e Isis Bitencourt, irmã e sobrinha da vítima, se assustaram ao dar de cara com um sujeito estranho, parado diante do túmulo. Desconcertado, o homem disse qualquer coisa sobre a tragédia e saiu apressado. Meses depois, a surpresa de ambas seria maior.

A reportagem é de Chico Otavio e publicada pelo jornal O Globo, 27-08-2010.

Quando a imprensa exibiu fotos do sargento Guilherme Pereira do Rosário, morto no fracassado atentado ao Riocentro, Palmyra e Isis não tiveram dúvida: era a mesma pessoa do cemitério.

Como já fizera antes, ao explodir acidentalmente uma bomba em casa, queimando rosto e tórax, e como faria depois, no erro que custaria sua vida no Riocentro, o sargento falhara ao se expor. E, sem querer, as parentas de dona Lyda esbarraram, naquele 5 de dezembro de 1980, na visita ao cemitério, num promissor indício — jamais explorado — da autoria do atentado.

Rosário, ou “agente Wagner”

Sargento Rosário era o experiente “agente Wagner” da Seção de Operações de Informações do DOI-Codi no Rio. Junto com o “agente Guarani” e o “Doutor Diogo”, codinomes de outro sargento do Exército e de um tenente da PM lotados na mesma unidade, Wagner integrava o braço operacional de um grupo extremista que desencadeou uma série de ações explosivas, entre os anos 1970-80, na contramão do processo de abertura política.

Trinta anos após a morte de Lyda Monteiro, no dia 27 de agosto de 1980 — o “11 de Setembro carioca”, quando duas cartas-bomba explodiram na OAB e na Câmara Municipal (outra, enviada à Sunab, não estourou) —, o cruzamento de documentos oficiais com informações que emergem dos porões do regime indica que Rosário e Guarani ingressaram no grupo terrorista (no qual eram subordinados a oficiais do SNI, fora da cadeia de comando) por discordar do desmonte da máquina de prender e torturar do DOI.

Depoimentos prestados por oficiais da repressão ao projeto História Oral do Exército (1964-31 de março), da Biblioteca do Exército, mencionam os bolsões de insatisfação no DOI. Um general reformado, ouvido recentemente pelo GLOBO, confirmou o envolvimento de agentes do destacamento nas ações terroristas do período. Um coronel da reserva, que conhecia a fundo o pessoal do DOI, revelou que Rosário e Guarani faziam parte do grupo que atacou a OAB e o Riocentro.

Naquela época, o militar conhecido pelos colegas do DOI (Destacamento de Operações de Informações), na Rua Barão de Mesquita, Tijuca, como “agente Guarani”, pelo tom da pele e pelos traços que lembravam um índio, era o sargento paraquedista Magno Cantarino Motta — hoje, aos 65 anos, vivendo na reserva como segundo-tenente. Procurado esta semana, ele se negou a conversar com o repórter.

Em depoimento ao projeto História Oral, um oficial do DOI contou que, nos primeiros meses de 1980 — portanto antes da bomba da OAB —, fora procurado por agentes da Seção de Operações da unidade, que queriam a sua autorização para explodir a casa de força do Riocentro e “melar” a edição daquele ano do show em homenagem ao Dia do Trabalho. Isso significa que o plano do atentado que matou Rosário, praticado em abril de 1981, já existia pelo menos um ano antes. De acordo com o oficial, que garante ter repelido prontamente a ideia, o planejamento contava até com um croqui da casa de força.

Especialistas em explosivos, os dois sargentos eram considerados “altamente operacionais” na unidade. Rosário e Magno, formados na mesma turma da Brigada Paraquedista (64/3), foram cooptados para atuar na repressão no fim dos anos 60. Na Seção de Operações, descrevem os colegas, destacaram-se como “especialistas em prisões e atividades de choque como estouro de aparelhos e prisões que necessitavam do uso de força”.

Em 1975, convencido de que a luta armada de esquerda estava praticamente aniquilada, o governo Geisel deu início a um discreto desmonte do DOI. As missões, a partir de então, priorizariam a análise de dados — deixando os agentes “altamente operacionais”, gente acostumada a andar à paisana, omitir nomes e ter poderes acima das leis, de braços cruzados. Pouco depois, as bombas da direita começariam a explodir em vários alvos do país, em particular nas bancas que vendiam títulos da imprensa alternativa.

Quem conheceu bem os “agentes operacionais” do DOI sabe que, mesmo fora da cadeia de comando, eles jamais fariam ações sem o aval de militares graduados. Pelo menos dois oficiais do SNI em 1980, mas que haviam atuado no DOI nos anos mais sangrentos da repressão, tinham influência sobre os agentes da unidade: os coronéis Freddie Perdigão Pereira, da Agência Rio, e Ary Pereira de Carvalho, chefe de Operações da Agência Central, ambos citados em todas as listas de torturadores.

Perdigão, embora fora do DOI, frequentava periodicamente suas dependências, com forte liderança sobre os veteranos — ele esteve entre os responsáveis pela explosão da bomba na casa de força do Riocentro na noite da morte do sargento Rosário.

Mas o que fazia Rosário, meses antes, na sepultura de dona Lyda? Arrependimento? Documentos da repressão, obtidos no Arquivo Nacional, revelam que, enquanto as investigações sobre a autoria do atentado naufragavam em pistas frágeis — o único acusado, um civil chamado Ronald Watters, seria absolvido —, os militares monitoraram cuidadosamente os passos do filho único de dona Lyda, Luiz Felipe Monteiro, e de dirigentes da OAB que cobravam a punição dos culpados.

— Será que alguém tem coragem de dizer que eu não tenho direito de saber quem matou a minha mãe? — cobra Luiz Felippe Monteiro, que hoje estará na antiga OAB, às 13h40m (hora exata da explosão), para um ato em memória da mãe.

Fonte:IHU

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