sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

REFLEXÕES DE FIDEL - Decifrando o pensamento do novo presidente.

Decifrando o pensamento do novo presidente dos Estados Unidos

NÃO é muito difícil. Depois da tomada de posse, Barack Obama declarou que para a devolução da base naval de Guantánamo a seu dono legítimo devia sopesar, em primeiro lugar, se prejudicava ou não, no mínimo, a capacidade defensiva dos Estados Unidos.

Logo acrescentou que, quanto à devolução do território ocupado a Cuba, devia considerar, sob quais concessões a parte cubana aceitaria essa solução, o que significa a exigência de uma mudança em seu sistema político, preço contra o qual, Cuba lutou durante meio século.

Manter uma base militar em Cuba contra a vontade do nosso povo, é uma violação dos mais elementares princípios do Direito Internacional. O presidente dos Estados Unidos tem faculdade para acatar essa norma sem condição alguma. O fato de não respeitá-la constitui uma ação de soberba e abuso de seu imenso poder contra um país pequeno.

Para compreender melhor o abuso do poder do império, deve se levar em conta as declarações publicadas pelo governo dos Estados Unidos, em 22 de janeiro de 2009, no site oficial da internet, depois da posse de Barack Obama. Biden e Obama resolveram apoiar decididamente a relação entre os Estados Unidos e Israel, e consideram que o indiscutível compromisso no Oriente Médio deve ser a segurança de Israel, o principal aliado dos Estados Unidos na região.

Os Estados Unidos nunca vão se afastar de Israel, e seu presidente e vice-presidente "acreditam firmemente no direito de Israel de proteger seus cidadãos", assegura a declaração de princípios, que retoma nesses pontos a política do governo do antecessor de Obama, George W. Bush.

É esse o modo de compartilhar o genocídio contra os palestinos em que caiu o nosso amigo Obama. Adoçantes similares oferece à Rússia, China, Europa, América Latina e ao resto do mundo, depois que os Estados Unidos converteram Israel numa importante potência nuclear que abosorve a cada ano uma porção considerável das exportações da próspera indústria militar do império, com que ameaça, com violência extrema, a população de todos os países de crença muculmana.

Abundam exemplos similares. Não faz falta ser adivinho. Podem ler, para mais informação, as declarações do novo chefe do Pentágono, experto em assuntos bélicos.

Fonte:Gramna Internacional.

FSM - Lula diz que "deus mercado" quebrou por falta de controle.

Amanda Cieglinski e Luana Lourenço
Enviadas Especiais, na Agência Brasil

Belém - Para uma platéia de mais de 8 mil pessoas e ao lado de quatro presidentes da América Latina, o presidente Luiz Inácio Lula Silva criticou, ontem (29) à noite, o Fundo Monetário Internacional (FMI), defendeu a intervenção do Estado na economia e voltou a dizer que a culpa pela crise financeira internacional é dos países ricos.

Lula e os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, Fernando Lugo, do Paraguai, e Rafael Correa, do Equador, participaram de um debate durante o Fórum Social Mundial.

“A crise não nasceu por causa do socialismo bolivariano do Hugo Chávez. Não nasceu por causa da Constituição de Evo Morales. A crise nasceu porque durante os anos 80 e 90 eles defenderam a lógica de que o Estado não podia nada e que o ‘deus mercado’ ia desenvolver o país e fazer justiça social. Esse 'deus mercado' quebrou por falta de controle, por irresponsabilidade”.

O presidente criticou instituições financeiras internacionais, como o FMI e o Banco Mundial, que em crises anteriores emprestavam dinheiro aos países pobres mas exigiam como contrapartida a redução de investimentos na área social.

“Parecia que eles eram infalíveis e nós, incompetentes. Espero que o FMI diga ao Barack Obama o que ele tem que fazer para consertar a economia. Diga à Alemanha como tem de resolver, ao Nicolas Sarkozy, ao Sílvio Berlusconi como vão cuidar das crises que eles criaram”, ironizou.

Ao se dirigir aos colegas de continente, Lula preferiu falar das semelhanças entre eles em suas trajetórias políticas até chegar à Presidência e evitou polemizar sobre as divergências em relação à Hidrelétrica de Itaipu, com Fernando Lugo, ou os problemas com o fornecimento de gás boliviano, com Evo Morales.

Durante o debate, Chávez, Correa, Lugo e Morales repetiram o discurso que fizeram durante a tarde pedindo união entre os países da América Latina para superar a crise e apresentar ao mundo um novo modelo de desenvolvimento. “Um outro mundo é possível, necessário e está nascendo agora na América Latina”, disse Chávez.

Nesta sexta-feira (30), Lula vai se reunir com o comitê internacional do Fórum Social Mundial e em seguida almoçar com a governadora do Pará, Ana Julia Carepa.
Fonte:Blog Vi o Mundo.

OBAMA - Pagamento de bônus em Wall Street é vergonhoso.

Esse pagamento de bônus incentiva os operadores do mercado financeiro a aumentarem o grau de risco das operações em que estão envolvidos. Além do mais, são pagos valores indecentes.
Carlos Dória

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, reagiu com indignação a um relatório publicado ontem, que informou que apesar do quase colapso do sistema financeiro, os executivos dos bancos e corretoras de Wall Street receberam US$ 18 bilhões em bônus no ano passado. Segundo Obama, o pagamento de bônus foi algo "vergonhoso", "ultrajante" e o "auge da irresponsabilidade".

"O presidente divide com o povo americano o ultraje a respeito disso", disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs.

"Quando eu li um artigo nesta quinta-feira que mostra que os banqueiros de Wall Street deram a si próprios US$ 20 bilhões em bônus, o mesmo montante que deram em 2004, e agora muitas dessas instituições cambaleiam e eles pedem ajuda aos contribuintes, e os contribuintes se encontram em posição difícil, se não houver ajuda o sistema inteiro irá desmoronar sobre nossas cabeças, isso é o auge da irresponsabilidade", disse Obama.

"Isso é vergonhoso", comentou.
Mais cedo, um relatório divulgado pelo "controller" do Estado de Nova York, Thomas DiNapoli, informou que em 2008 os executivos dos bancos e corretoras de Wall Street receberam US$ 18,4 bilhões em pagamentos de bônus. Segundo o relatório de DiNapoli, o valor dos bônus recebidos no ano passado pelos executivos teve queda de 44% sobre 2007. O relatório indica que o valor médio do bônus pago caiu 36,7% sobre 2007, para US$ 112.020.
Fonte:Tribuna da Imprensa.

BOLÍVIA - A nova constituição.

Renato Rovái

A nova Constituição boliviana.

O colega boliviano Oscar Vega Camacho escreveu um artigo para explicar um pouco mais do processo de aprovação da nova Constituição Boliviana. Fiz uma tradução rápida e publico-o. É bastante elucidativo do proceso político daquele país.Os resultados do referendo de 25 de Janeiro sobre a nova Constituição Boliviana e o artigo sobre a extensão dos latifúndios foram uma enorme e importante vitória da cidadania boliviana.

A Constituição foi aprovada por 62% dos votos válidos e um número maior ainda de pessoas, 70%, votaram por uma máxima extensão de 5.000 hectares para a propriedade de terras. Foi a primeira vez em toda a historia republicana da Bolívia, desde 1825, que a população teve a oportunidade de participar na formulação e no debate sobre a sua Constituição. E depois ainda pôde votar se queria aprová-la num referendo.

A nova Constituição é, como ensina o pensamento político tradicional, um pacto social que se construiu. Mas há uma novidade. Ela também foi um texto socialmente produzido.

Porque é resultado de acontecimentos históricos e lutas democráticas que se confluíram para demandar e propor uma profunda transformação do Estado e de sua relação com a sociedade, a partir da visibilização e, consequentemente, constitucionalização das diversas realidades regionais, sociais e culturais que conformam o país.

E, simultaneamente, com capacidade de soberania e autodeterminação também oferece condições para que o país participe de uma integração sul-americana emergente.

Ela nos dá condição de trabalhar para a transformação do Estado a partir dos princípios pluralistas que conformam a sociedade. Desde os pontos de vista econômico, jurídico, cultural e político, para que se construa uma transição para o Viver Bem, como denominam os povos nacionais indígenas. Uma sociedade complementar, justa e digna.
Fonte:Blog do Rovái.

ECONOMIA - Seguir a velha ortodoxia é burrice.

Por José Carlos de Assis

Fonte: JORNAL DO BRASIL (27.01.09)

Os economistas progressistas brasileiros têm aceitado com certa passividade o epíteto de heterodoxos. Na raiz grega, significa diferentes em relação a uma doutrina tradicional. Isso dá a entender que o heterodoxo é o que está errado, pois se opõe a regras validadas pela experiência. Entretanto, o que significa exatamente a ortodoxia econômica? Para simplificar, sem perder a essência, significa políticas monetárias restritivas e políticas fiscais de equilíbrio orçamentário a qualquer custo, tudo muito favorável aos ricos.

Keynes desmontou a ortodoxia convencional no plano teórico, e Roosevelt, na prática, este com o New Deal. Keynes mostrou que a criação do crédito e, portanto, da moeda, pertence tanto ao Estado quanto ao sistema bancário privado. Isso significa que o controle da moeda é algo mais complexo que simplesmente afrouxar ou reprimir a base monetária. Passa pela manipulação da taxa de juros, o que tem efeitos complexos na economia real, não podendo ser elevada ou baixada arbitrariamente.

O New Deal, por sua vez, mostrou que uma economia não se levanta de uma depressão profunda sem uma injeção vigorosa de gastos públicos financiados por déficit fiscal. É verdade que as exportações têm efeito expansionista, mas, em época de recessão, o mercado mundial costuma colapsar. A vitoriosa experiência do New Deal, expandida em parte da Europa no âmbito do antigo Mercado Comum, sepultou a velha ortodoxia e instituiu uma nova, a saber, a ortodoxia keynesiana.

Nossa história foi bem diferente, na medida em que não temos sido nem exatamente ortodoxos, nem heterodoxos completos. Aliás, o que a alta tecnocracia econômica brasileira sempre fez foi usar uma retórica ortodoxa por sobre instituições não exatamente heterodoxas, mas disfuncionais. Foi o caso, por exemplo, dos dois mais eminentes economistas ortodoxos brasileiros, Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões, que redesenharam nossas instituições financeiras nos anos 60.

Eles criaram o Banco Central, sim, um passo rumo à velha ortodoxia. Mas partilharam as funções monetárias do Banco Central com o Banco do Brasil, e deixaram no Banco Central algumas linhas de fomento para a agricultura. Sou altamente simpático a esse arranjo. Mas ele seguramente não é ortodoxo. Foi completamente desmontado em fins dos anos 80, com a supressão da Conta Movimento no Banco do Brasil, pelos economistas “progressistas” levados ao poder por Dílson Funaro.

Os dois eminentes ortodoxos criaram a correção monetária, e acabaram estendendo a correção monetária à moeda em fluxo no mercado aberto - algo que, seguramente, nada tem a ver com ortodoxia monetária. Essa distorção sobrevive ainda hoje, na forma de um mercado monetário (open) fundido com o mercado financeiro (títulos da dívida pública), o que deveria ser fonte permanente de incômodo para os ortodoxos tradicionais - assim como é para nós, ortodoxos keynesianos.

Essa institucionalidade, como é óbvio, distorce completamente as virtualidades teóricas da política monetária, além de que constitui uma base de taxa de juros extremamente elevada para a colocação de novos títulos da dívida pública. Mas não é tudo. Como a taxa básica de juros (Selic) indexa uma parte considerável dos títulos públicos, a política monetária tem um impacto fiscal considerável, tornando uma ficção contábil o orçamento aprovado pelo Congresso Nacional.

Em 1973, às vésperas de deixar o governo pela primeira vez, o professor Delfim deixou ao sucessor um belo presente heterodoxo: um instrumento legal pelo qual se autorizava a girar a dívida pública no âmbito monetário, sem contaminação fiscal. Em algum momento posterior, de que não me lembro, algum gestor público entendeu que seria mais ortodoxo pôr a política fiscal a serviço da monetária do que a política monetária a serviço da fiscal. E acabou com o expediente.

Se o espelho da ortodoxia velha é o sistema norte-americano, estamos muito longe da ortodoxia. Estamos mais perto se o paradigma for o recém-criado, em termos históricos, Banco Central Europeu. Mas aí temos realmente um problema. Desde a criação do euro, a Europa está virtualmente estagnada. Muita gente, como eu, supõe que essa estagnação se deve fundamentalmente à institucionalidade monetária e fiscal prescrita no Tratado de Maastricht. Além disso, há claras evidências de que, se não abandonar a ortodoxia estabelecida nesse Tratado, a União Européia não sairá da crise.

No nosso caso, o governo esgotou os mecanismos de política de crédito para enfrentar a crise - exceto pelo fato de que o Banco Central ainda mantém em patamar extremamente elevado a taxa básica de juros. Infelizmente, como se sabe desde os anos 30, política monetária apenas não é suficiente para reverter uma recessão grande. É preciso agir fortemente do lado fiscal. Creio que o governo está se preparando para isso. Não é para menos, quando as estatísticas do Caged em dezembro assinalam uma perda de empregos superior a 600 mil no mês. Manter-se nos registros da velha ortodoxia diante disso não seria ortodoxia. Seria burrice.
Fonte:Blog do Desemprego Zero.

OBAMA, LULA E SARKOZY SÃO MODELOS DO SÉCULO XXI.

Escrito por Imprensa, postado em 19 de janeiro de 2009

Fonte: Notícias Terra

Vice-Presidente do think-thank Public Agenda e autor de Forgive Us Our Debts: The Intergenerational Dangers of Fiscal Irresponsibility, publicado nos Estados Unidos pela editora da Universidade de Yale, Andrew L. Yarrow defendeu, em artigo publicado na página de opinião do The Baltimore Sun, que a apologia da impossibilidade funcional dos governos está com os dias contados. E que um trio de líderes - formado pelo recém-eleito Barack Obama, o presidente francês Nicolas Sarkozy e o brasileiro Luiz Ignácio Lula da Silva - representam a ascendência, no mundo ocidental, do idealismo, do ativismo e da cooperação supra-partidária sobre o unilateralismo, a política mais convencional e o apadrinhamento de aliados característico da administração Bush.

Professor da American University e consultor do centrista Brookings Institution, Yarrow vai além e propõe o estabelecimento de uma nova era, calcada na imagem dos presidentes de Brasil, França e EUA. “Prestando atenção no simbolismo político dos três estadistas, vê-se que o mundo democrático está entrando em um novo período, tão definitivo e transformador quanto o pacto social-democrático de Franklin Delano Roosevelt após a Segunda Guerra Mundial, o chamado Consenso Liberal, ou a Ascensão Conservadora das últimas três décadas, marcadas pelas políticas de Ronald Reagan e Maragareth Thatcher”, escreve.

Para o historiador, que deixou a reportagem do The New York Times para investir na vida acadêmica, completando a pós-graduação Universidade de Harvard e trabalhando no governo Bill Clinton, o comprometimento com a Justiça Social dos três líderes está um passo à frente da Terceira Via de Clinton e Tony Blair, representada no Brasil pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. O cerne do sucesso dos três líderes, diz Yarrow, está na idéia de compaixão social condicionada à responsabilidade pessoal - no Brasil, com as contrapartidas exigidas pelo Bolsa Família, nos EUA, com o discurso de Obama voltado para o ativismo social dos mais abastados e a necessidade de a comunidade afro-americana voltar a investir nos valores de fortalecimento familiar - e em uma visão internacionalista comprovada pela movimentação de Paris e Brasília durante a mais recente crise no Oriente Médio, trabalhando ativamente por uma trégua entre Israel e os palestinos.

O Terra conversou com o professor da American University sobre sua previsão de que os próximos anos no mundo ocidental serão moldados pela ação de Lula, Obama e Sarkozy. Yarrow só não quis emitir opinião sobre a sucessão presidencial no Brasil, tema que acompanha de longe e com enorme atenção - a se julgar por seus questionamentos sobre a possível candidatura da ministra Dilma Roussef em 2010.

O senhor diz que o Lula, Obama e Sarkozy desafiam, cada um a seu modo, a política convencional. Pode explicar melhor esta sua observação?

Lula, Obama e Sarkozy são, os três, líderes políticos pós-partidários. Eles combinam um comprometimento com a inclusão e a justiça social com um crescimento econômico que beneficie ao mesmo tempo trabalhadores e empresários. Eles refutam os moribundos modelos advindos do “Consenso de Washington”, o capitalismo neo-liberal pós-Reagan e Thatcher, calcado na desregulamentação dos mercados. Mas também não são estatizantes per se, não se aproximam de modelos socialistas tal qual os conhecemos. Lula com o PT, Obama com os Democratas, e Sarkozy com os gaullistas e os democrata-cristãos, estabeleceram rupturas com as culturas políticas mais características de seus grupos partidários.

O senhor fala do Consenso Liberal dos anos 30 e da Revolução Conservadora dos 70-80. O que esperar da era de Lula-Obama-Sarkozy?

A era de Lula-Obama-Sarkozy é marcada por um retorno, em âmbito interno, das políticas de crescimento econômico emparelhadas com a busca de Justiça Social. Os três também representam, não apenas através de seus atos, mas por suas próprias trajetórias de vida, um mundo mais multi-cultural, mais globalizado. Em política externa, talvez menos com Obama, embora ele tenha se comprometido com a tese durante a campanha eleitoral, os três são arquitetos de um novo internacionalismo, que acredita na intervenção em casos de emergências humanitárias, em casos de genocídio e grandes epidemias, por exemplo.

O senhor diz também que os três são “figuras ultra-públicas”. Pode explicar melhor esta idéia?

Lula, Obama e Sarkozy são três figuras extremamente carismáticas. E, embora manchados um pouco por problemas relacionados às suas atividades pessoais, especialmente o líder francês, os três restauraram a fé na vida pública e fizeram com que os cidadãos de seus países acreditassem na eficácia do governo novamente. Obama e Lula, particularmente, inspiram esperança e conseguiram trazer para o tabuleiro político parcelas do eleitorado que não tinham voz em seus respectivos países. E os três são figuras públicas dispostas a atos dramáticos, que chamam atenção para aspectos críticos tanto de situações internas quanto de crises internacionais.

Quando o senhor fala de Lula em seu artigo, um dos destaques é a noção de ‘responsabilidade condicional’ colocada novamente na mesa a partir da fórmula do Bolsa Família. Por que acredita que este aspecto é tão fundamental na consolidação do fenômeno Lula?

É a idéia de que, não esquecendo que o governo deve ajudar a incrementar o bem-estar da população, e provê-los segurança, os indivíduos devem assumir uma maior responsabilidade pessoal pelas suas vidas. Lula e Obama defendem um novo contrato social - diferente tanto do liberal do pós-guerra quanto do consenso conservador dos anos 80 - que oferece um balanço entre as responsabilidades do Estado e as do cidadão comum.

Como o senhor definiria cada um destes três líderes que, de acordo com o senhor, estariam redefinindo ideologicamente o mundo ocidental?

Lula, Obama e Sarkozy são homens que chegaram à liderança política emergindo de áreas distantes das elites tradicionais de Brasil, Estados Unidos e França. Eles chegaram ao poder através de seu carisma, da capacidade de fazer com que a população acreditasse em seus esforços em relação a melhoria da vida em seus países, e da coragem de abraçarem novas filosofias, calcadas em extraordinária capacidade de organização e mobilização política.
Fonte:Blog do Desemprego Zero.

INTERVENÇÂO DO ESTADO OU CAPITALISMO DE ESTADO?

Por Ricardo Young

Fonte: CartaCapital

Hoje à tarde, aqui em Davos, ocorreu uma situação que seria hilária não fosse séria e preocupante. A rede CNBC resolveu organizar, junto com o Fórum Econômico, um dos mais ambiciosos debates em torno da crise global. Convidou os mais renomados comentaristas econômicos e economistas que mantêm colunas em jornais ou revistas de grande penetração junto ao público corporativo. Nesse grupo, encontravam-se personalidades como Nouriel Roubini, Joseph Stiglitz e Nicholas Stern, reconhecidos pelas ferozes críticas que têm feito ao sistema financeiro internacional, sendo o último um dos maiores expoentes do “establishment” a liderar as discussões sobre a necessidade do mundo lançar-se ao desafio de uma economia de baixo carbono (ver relatório Stern).

Pois bem, a intenção do debate era a de responder 3 perguntas-chave sobre a crise:

1. Qual a presunção presente na formulação das políticas que maior dano causou para a economia global?

2. Quais as falhas de regulação que causaram o maior choque sistêmico?

3. Quais as falhas genuínas do mercado?

É interessante notar que já na formulação das perguntas, sobretudo a terceira, há um viés que coloca o mercado como sujeito de uma determinada ação volitiva.

O grupo de experts , cerca de uma centena, se debruçou sobre as perguntas e cada um teve aproximadamente 10 a 15 minutos para expressar sua opinião. Depois do debate, houve uma votação eletrônica para se obter uma posição coletiva próxima ao agregado das contribuições individuais.

Nas primeiras respostas relatadas pelos grupos, relativas a primeira pergunta, ficaram claras algumas tendências que, segundo estes experts, levaram o mundo à bancarrota: falsa crença no poder do mercado de se autorregular; incentivos para se tomar grandes riscos; analfabetismo financeiro por parte dos agentes econômicos; baixa governança e falta de transparência das instituições financeiras; fundamentalismo econômico; crença na modelagem matemática sobre o bom senso; impunidade; falta de orientação ética e moral…enfim, questões que, se colocadas há um ano, seriam consideradas coisas do movimento antiglobalização, mais apropriado ao Fórum Social que ao Econômico.

O debate começou a esquentar quando alguns economistas insinuaram que a omissão dos governos se deu em função da pressão dos grupos de interesse sobre os governantes; estes economistas também cobravam quem pagaria o desastre de 50 milhões de desempregados. “Se eu fabrico produtos tóxicos e os ponho no mercado, sem as precauções necessárias, causarei dano e irei para a cadeia. Quem vai para a cadeia desta vez?” perguntou um revoltado economista inglês. Quem pagará pelas desastrosas conseqüências de um mercado financeiro irresponsável?

No final, o clima só não pesou de vez em função da habilidade da moderadora Maria Bartinomo. Âncora da CNBC e especialista em Wall Street, ela conseguiu que o show continuasse sem maiores danos. Mas ficou evidente que os responsáveis até ontem pela exuberância dos mercados perderam a mão de vez sobre eles e a entrada dos governos passou a ser aceita como um “mal necessário”.

Porém, a discussão não parou aí. Se os estados serão os parceiros da economia agora, qual será a qualidade política dos governos em questão? A participação dos governos, a depender da qualidade dos tecnocratas ou mesmo de interesses políticos manifestos, não trará mais ônus no futuro, em um mercado que pode levar até uma década para se recuperar…?

Paradoxalmente, a fala plenária seguinte foi a do premiê Chinês Wen Jiabao. Ele discorreu sobre os sólidos fundamentos da economia chinesa. Falou sobre progresso social e inclusão dentro dos limites de um desenvolvimento ambientalmente amigável. Falou do papel do Estado na promoção da segurança dos mercados e quanto os créditos chineses vêm aumentando em função da solidez dos bancos. Ensaiou uma lição de moral aos dirigentes dos países em crise, alegando que confiança é o maior balizador de um mercado que funciona e que ela é construída no longo prazo e com a continuidade de políticas firmes de regulação e incentivos. Enfim, era o supremo líder comunista, dando lições ao mundo capitalista de como se desenvolvem mercados com segurança e benefícios para todos.

Ora, em um momento em que até os liberais fundamentalistas cedem à intervenção do Estado na economia, aquela economia com a maior intervenção estatal do planeta vem a público pregar a nova agenda anticrise. Há quem diga que isso na China se tornou possível em função de uma tecnocracia treinada nas melhores universidades do mundo e desenvolvida em uma meritocracia neoconfucionista. Ouvindo este tipo de argumento, depois de participar do debate com os melhores economistas do mundo sobre as responsabilidades governamentais na crise, chego à conclusão de que o mundo procura governantes à altura da tarefa que se tem pela frente.

Não parecem existir muitos no momento, mas a era Obama poderá trazer novidades.
Fonte: Blog Desemprego Zero.

MEIO AMBIENTE - Destruição da Amazônia.

Amazônia sofreu destruição de 17% em cinco anos, diz ONU

Desmatamento chega a área equivalente à da Venezuela.

Um relatório prestes a ser divulgado pelo Programa da ONU para o Meio Ambiente (Pnuma) aponta que 17% da Floresta Amazônica foram destruídos em um período de cinco anos, entre 2000 e 2005.
A informação foi noticiada pelo jornal francês Le Monde na quinta-feira, e foi confirmada à BBC Brasil pelo Pnuma.

Segundo o jornal, durante este período foram queimados ou destruídos 857 mil km² de árvores - o equivalente ao território da Venezuela.

A maior parte do desmatamento ocorreu no Brasil, mas os outros sete países que também abrigam a floresta estão sendo responsabilizados pela Pnuma, com exceção da Venezuela e do Peru.

'Irreversível'

"A progressão das frentes pioneiras na Amazônia e as transformações que elas introduziram são tantas que o movimento de ocupação dessa última fronteira do planeta parece irreversível", disse o órgão da ONU ao Le Monde.

Além do desmatamento, a grande corrida pela apropriação das gigantescas reservas de terra e das matérias-primas da região também tem um papel importante na deterioração da Amazônia, segundo o jornal.

"O modelo de produção dominante não leva em conta critério algum de desenvolvimento sustentável, conduz à fragmentação dos ecossistemas e à erosão da biodiversidade", afirmou o Pnuma.

A entidade também condenou a situação das populações que habitam a floresta, que "vivem uma situação de grande pobreza". "A riqueza retirada da exploração dos recursos naturais não é reinvestida na região", disse.

O Le Monde conclui o artigo citando que o Pnuma pede um maior envolvimento internacional para ajudar financeiramente os países que abrigam a floresta, e cita como possível caminho o Fundo Amazônia, que prevê o investimento de fontes estrangeiras para desenvolver projetos que combatem o desmatamento.

O Pnuma prevê que o relatório final, com mais dados ainda sigilosos, seja divulgado durante o encontro anual de seu conselho administrativo, marcado entre 16 e 20 de fevereiro em Nairóbi, no Quênia.
Fonte:BBC BRASIL.

CALCULADORA PREVÊ CHANCE DE DIVÓRCIO.

Economista cria 'calculadora que prevê chance de divórcio'

A economista americana Betsey Stevenson desenvolveu uma ‘calculadora do casamento’ que poderia prever as chances de divórcio.
A ferramenta, disponível na internet, funciona com uma comparação de estatísticas dos divórcios realizados nos Estados Unidos com os dados fornecidos pelos usuários.

O “cálculo” resulta da análise de informações como idade, tempo de casamento, número de filhos e grau de escolaridade do usuário.

Essas informações são então comparadas com estatísticas do Censo americano sobre os divórcios realizados no país. Dessa forma, o usuário da calculadora recebe uma estimativa do percentual de pessoas com perfis similares que se divorciaram no passado e faz projeções sobre as chances de divórcio dentro de cinco anos.

“Com a calculadora do casamento, você pode descobrir como muitas pessoas com perfil parecido se divorciaram”, explica Stevenson.

“Em resumo, o passado está sendo usado para determinar o futuro com essa calculadora”, disse G.Cotter Cunninghma, diretor do site divorce360.com, que hospeda a ferramenta.

Riscos

Segundo Stevenson, pesquisadora da Universidade da Pensilvânia e especialista em casamentos e divórcis, o risco de divórcio é menor para pessoas que possuem pelo menos grau superior de escolaridade e se casam mais velhas.

Ela afirma que, entre as pessoas que se casaram nos últimos anos, a taxa de divórcio é menor entre aquelas que se casaram depois dos 30 anos. Ela explica ainda que, quanto mais cedo se casa, maiores são as chances de divórcio.

“Apesar de ser difícil identificar o que está causando essa relação, a partir dessas informações eu aconselharia meus amigos a casarem quando estiverem mais velhos”, disse a economista.
Fonte: BBC BRASIL.

ONGs ESTRANGEIRAS.

Termina no dia 2 de fevereiro (segunda-feira, próxima) o prazo - já prorrogado por 90 dias, em novembro de 2008 - para Organizações Não Governamentais (ONGs) estrangeiras que atuam no Brasil se recadastrarem junto ao Ministério da Justiça. A partir desta data, quem não concluir o processo estará impedido de continuar no país. Em entrevista à Agência Brasil, o secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, adiantou que as áreas em que deve ocorrer maior depuração são as de organizações ligadas a comunidades indígenas, à Amazônia e à adoção de crianças. “O prazo não será prorrogado. A partir do dia 2, quem não se recadastrou não poderá mais atuar. A não ser que faça um cadastro novo. Mas, para aqueles que recebem verba pública, será exigido comprovar atuação legal há pelo menos três anos no Brasil”, explicou o secretário. Na tentativa de fechar o cerco a organizações ilegais, o secretário informou que já está na Casa Civil, para serem oficializadas, medidas para garantir maior controle também em relação às ONGs nacionais em terras indígenas e na Amazônia. Tuma Júnior ressaltou que o objetivo do endurecimento das exigências não é o de criminalizar as organizações, mas sim o de “prestigiar as sérias”, que prestam serviços de qualidade. “Esperamos que toda atuação e repasse de recursos, especialmente de verbas públicas, possam ter a transparência necessária”, frisou o secretário, ao lembrar que as organizações estrangeiras deverão prestar contas anualmente ao ministério. O secretário garantiu que o governo federal terá instrumentos efetivos para impedir a atuação das organizações que tentarem permanecer na ilegalidade: “Vamos ter uma série de ações combinadas com a Polícia Federal e a Secretaria de Direitos Humanos. O que a gente tem verificado é que muitas que não se recadastraram, preferiram se transformar em organizações nacionais. Isso facilitará a fiscalização posterior”, concluiu o secretário Romeu Tuma Júnior. (Agência Estado/O Povo Online/Redação)/AEPET.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

EUA - Estado da Califórnia à beira da bancarrota.

Califórnia à beira da bancarrota.
29-Jan-2009

O Estado da Califórnia pode suspender pagamentos a partir de 1 de Fevereiro, avisou o secretário do Orçamento da Califórnia, John Chiang.

A Califórnia é o mais rico e o mais populoso estado norte-americano, com 36,5 milhões de habitantes, e se fosse um país independente seria a oitava economia mundial. O estado tem sido duramente atingido pela crise e tem um défice orçamental superior a 40 mil milhões de dólares. O governador Arnold Schwarznegger já pediu ajuda federal a Obama.
O Estado da Califórnia atravessa uma grave crise orçamental e está em risco de não conseguir pagar as despesas já a partir de 1 de Fevereiro. Chiang avisou mesmo que os subsídios de desemprego e as bolsas de estudo podem não ser pagos em Fevereiro.

A Califórnia tem um défice superior a 40 mil milhões de dólares, que continua a crescer devido a diminuição das receitas provocada pela crise. O governador Schwarzenegger mandou instalar um quadro electrónico, perto do seu gabinete, que indica em tempo real o défice orçamental, que aumenta 500 dólares por segundo.

Schwarzenegger pretende aumentar os impostos para enfrentar o défice orçamental, nomeadamente um aumento temporário do IVA, mas não tem conseguido aprovar a medida no parlamento estadual. Na Califórnia uma tal medida precisa de ser aprovada com uma maioria de dois terços no parlamento.

No final de Dezembro, o governador da Califórnia anunciou que os trabalhadores do estado passariam a ter dois dias de férias não pagas por mês (o que significa uma redução de salário), ameaçou também com a possibilidade de diminuir ainda mais os salários e até de despedimentos sem indemnizações.

Os analistas económicos salientam que a bolha imobiliária era ainda maior na Califórnia do que no resto dos Estados Unidos e pensam que a Califórnia sairá da crise mais tarde que os outros Estados norte-americanos.
Fonte:Esquerda,net

SAÚDE - Dez lunchinhos saudáveis para o seu filho.

Batata frita, bolachas recheadas, salgadinho, balas, bolos e doces em geral são um mal na dieta de qualquer criança. Para substituir essas guloseimas nada saudáveis, a American Dietetic Association (ADA, Sociedade Americana de Dieta – organização que congrega o maior número de profissionais das áreas de nutrição e alimentação dos Estados Unidos) criou uma lista com 25 lanchinhos, também chamados de snacks, para você dar ao seu filho. Quando bater vontade de comer aquele bolinho recheado de chantilly e coberto de chocolate, ofereça a ele uma das opções abaixo, que além de serem saborosas e fáceis de fazer, são elaboradas com ingredientes muito mais nutritivos. E os pimpolhos podem até se aventurar na cozinha para prepará-las. Para conferir todas as receitas, visite o site da ADA.

1) No liquidificador, bata leite desnatado, morangos congelados e banana por 30 segundos para um milk shake cremoso.
2) Recheie uma bisnaguinha com salada de atum ou ovo cozido.
3) Polvilhe a pipoca que acabou de ficar pronta com queijo parmesão ralado (a pipoca deve ser feita no micro-ondas e sem qualquer tipo de gordura).
4) Faça uma massa de manteiga de amendoim com flocos de milho. Forme pequenas bolas e passe sobre bolachas maisena trituradas.
5) Para fazer uma banana split menos calórica e mais saudável, cubra-a com bolas de iogurte light de morango e baunilha congelado e salpique com o cereal favorito de seu filho.
6) Esquente um waffle (se possível, de farinha integral) e cubra-o com iogurte e fatias de pêssego fresco ou frutas vermelhas.
7) Sanduíches tradicionais no pão de forma integral podem ficar mais divertidos se cortados com formas para fazer bolachas (foto) – estrela, coração, formas geométricas, formato de animais etc.
8) Em um copo alto, alterne camadas de iogurte do sabor preferido de seu filho com tangerina, framboesa, morango, pêssego e amora. Coroe o copo com um pouco de granola.
9) No micro-ondas, esquente uma batata pequena, já assada e cortada pela metade, coberta com queijo magro (queijo branco, mussarela light ou requeijão light) e polvilhada de salsinha ou outro tempero da preferência de seu filho.
10) Unte um pedaço de pão pita pequeno com mostarda, coloque uma fatia de presunto de peru, queijo magro e alface. Você pode enrolá-lo para formar um wrap.

Para mergulhar!

Totopes com salsa- Mergulhe cenouras baby e tomates cereja em molho ranch light;
- Mergulhe morangos e pedaços de maçã em iogurte de baixas calorias;
- Mergulhe torradinhas de pão pita em hommus (pasta de grão de bico);
- Mergulhe totopes (tortilhas chips) em salsa de tomate.
Fonte: Revista Época.

FSM - "Crítica do FSM já foi introjetada pelo próprio Fórum Econômico de Davos".

Pochmann: "Crítica do FSM já foi introjetada pelo próprio Fórum Econômico de Davos"

Por Brunna Rosa.

Durante o Fórum Sindical Mundial, na mesa sobre "Energia, soberania e trabalho decente -- perspectiva para o desenvolvimento sustentável", nesta quinta-feira, 29, o presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) e colunista da revista Fórum, Marcio Pochmman, falou rapidamente com a revista Fórum sobre o enorme desafio deste Fórum Social Mundial.

"A avaliação crítica do Fórum Social Mundial já foi introjetada pelo próprio Fórum Econômico, o Davos. Aquela crítica apresentada pelo FSM em 2001 hoje também está em Davos", sustenta Pochmman. Essa perspectiva não significa que haja motivos para euforia, já que o mundo enfrenta uma crise financeira.

O presidente do Ipea acredita, no entanto, que o momento histórica seja extremamente apropriado para mudanças. "Do ponto de vista histórico, o que está acontecendo hoje é uma vitória para os movimentos, mas a crise não necessariamente significa mudanças. A crise também é destruição e justamente por isso as alternativas e ações dos movimentos sindicais, sociais tornam-se mais complexas", pondera.
Fonte:Revista Fórum.

TESTEMUNHO

José Saramago.

Parece que a coisa vai bem encaminhada. O presidente dos Estados Unidos, que não se chama Messias, mas Barack Obama, assinou ontem uma lei denominada de Equidade ou Igualdade Social. A “responsável” directa deste documento foi uma mulher, uma trabalhadora que, tendo descoberto que havia levado toda a vida a ganhar menos exactamente por ser mulher, apresentou queixa contra a empresa e ganhou o pleito. Como numa prova desportiva de estafetas, esta mulher branca, chamada Lilly Ledbetter, passou o testemunho ao corredor seguinte, um negro com nome muçulmano, 44º. presidente da nação norte-americana. De repente, o mundo parece-me mais limpo, mais prometedor. Por favor, não me roubem esta esperança.
Fonte:O Caderno de Saramago.

MÍDIA - A melhor estratégia para criar nova mídia.

Nos Estados Unidos, as redes de TV perdem importância, perdem dinheiro (a eleição de Obama, como se sabe, foi a primeira pautada pela internet). Na Europa e na América do Norte, jornais demitem, são vendidos para outros donos; as tiragens despencam. Mas a crise da mídia corporativa (que ainda mantém enorme poder no mundo inteiro) não é só econômica. E não tem a ver, apenas, com o naufrágio da economia dos Estados Unidos.

Por Rodrigo Vianna, em seu blog

“Há uma crise de objetividade, de credibilidade. A mídia perdeu a aura de neutralidade. Caiu esse mito. Com ele, caiu também a autoridade dos meios para ditar o que as pessoas devem pensar", diz Pascoal Serrano, do site espanhol Rebelión. Serrano foi um dos palestrantes no Fórum Mundial de Mídia Livre, que acontece em Belém do Pará.

Em uma das mesas, jornalistas brasileiros e convidados da Argentina, Uruguai, México, Espanha e França debateram: A Mídia e a Crise. O brasileiro Bernardo Kucinski (professor do USP) disse que boa parte da mídia adotou um tom "catastrofista" na cobertura da crise econômica mundial. "No Brasil, especialmente, houve uma torcida pra dar tudo errado, torcida pra levar o governo Lula ao fiasco."

Kucinski afirmou que a melhor cobertura da crise, surpreendentemente, veio de jornais dos Estados Unidos: "Foram a fundo, para mostrar como o carnaval das hipotecas tinha a ver com um modelo de sociedade que dominou os Estados Unidos nos últimos anos, onde todos sonhavam em virar sócios do crescimento capitalista".

Para o jornalista Altamiro Borges, que dirige o site Vermelho (PCdoB), "o grosso das corporações midiáticas é também culpada pela crise, porque fez a propaganda, durante anos, do desmonte do Estado, do desmonte da idéia de Nação, do desmonte do mundo do trabalho".

A argentina Sandra Russo, do Página 12, fez uma crítica aos jornais e sites de "esquerda": "Trabalhamos muitas vezes com uma linguagem envelhecida, que só convence aqueles que já estão convencidos de nossas teses. Nosso grande inimigo não é a mídia convencional, mas a frase feita e o lugar-comum, que não atraem novos leitores."

Os debatedores defenderam a criação de instrumentos mais eficazes, para conquistar o público hoje descontente com a mídia convencional. "Não queremos mais ser marginais, alternativos. Precisamos ser grandes", disse o uruguaio Joaquim Constanzo, da agência IPS.

O diretor da Carta Maior, Joaquim Palhares, propôs uma articulação internacional de sites, para criar um grande portal mundial que se contraponha às agências de notícias dominantes. Mas, a proposta de criar veículos fortes, reduzindo a fragmentação hoje existente, encontra resistências.

Em outra mesa de debates em Belém, a professora Ivana Bentes (UFRJ) e o jornalista Renato Rovai, da Revista Fórum, defenderam a "horizontalidade", ou seja: acreditam que é preciso apostar em centenas, milhares de pequenos sites e produtores de mídia, que poderiam assim enfrentar o poder dominante da grande mídia.

Respeito muito a opinião de Rovai e Ivana, que estudam o assunto há vários anos. Mas, pessoalmente acredito que é preciso criar um Portal que reúna os jornalistas e os sites já existentes. A tal "horizontalidade", parece-me, não serve para enfrentar corporações de mídia que, apesar de debilitadas, ainda conseguem pautar o país (como vimos nas vésperas do primeiro turno, em 2006). E essas corporações já dominam também boa parte da produção de notícias na internet.

Um Portal não acabaria com autonomia de ninguém, cada blog ou site seguiria com total autonomia. Mas, haveria mais força para criar uma nova "agenda" de notícias.

O que você acha?

Penso nessas questões enquanto passeio pelo ginásio calorento, numa escola da periferia de Belém, onde acontece o Fórum Mundial de Mídia Livre. Agora, já não há palestrantes nas mesas. A temperatura passa dos 30 graus. O abafamento amazônico derruba minha pressão, mas não tira a empolgação de mais de duzentas pessoas, que formam um grande círculo no centro do ginásio.

Não há mesa "dirigindo os trabalhos", não parece haver hierarquia nas discussões. A maioria absoluta dos participantes tem menos de 30 anos. Há brasileiros, mexicanos, espanhóis, italiano. E também gente dos Estados Unidos e da África.

De pé, um rapaz de boné fala em nome das rádios comunitárias de Belém — perseguidas pela polícia, segundo ele.

Do lado de fora, num estúdio improvisado, voluntários transmitem os debates. Comunicação viva!

Aqui, o povo não parece ocupado em reclamar da mídia corporativa brasileira. A idéia é construir outra mídia!

A "horizontalidade" impera. Mas, será que basta?

FILME - Lula, o Filho do Brasil começa a ser filmado em São Paulo.

Lula retornou na quarta-feira (28) ao célebre estádio da Vila Euclides — arena que o aclamou líder metalúrgico —, interpretado por Rui Ricardo Dias, ator, mineiro de Santa Maria do Suaçuí. Rui faz o papel principal do filme Lula, o Filho do Brasil, produção orçada em R$ 12,5 milhões que reconstitui mais da metade da vida do presidente da República, desde a infância dramática no sertão de Pernambuco até a campanha grevista do ABC que o jogou nos porões do Dops, polícia política dos anos 70

Aos 30 anos de idade, 33 mais novo que Lula, Rui guarda alguma semelhança com o personagem que encarna — na voz, nos gestos e até na silhueta. Ele engordou 8 quilos desde o início de dezembro, quando o cineasta Fábio Barreto o elegeu para a missão. Os cuidados com o figurino são muitos. As roupas que ele veste, iguais à que Lula usava — calça cáqui, camisa azul com o maço de cigarros no bolso esquerdo, blusão bege.

Cobre o rosto do ator uma barba espessa e de fios escuros, como era a barba de Lula, e reforçada por um bigode postiço que a caracterizadora Ana Van Steen providenciou. Ele mantém o dedo mínimo da mão esquerda puxado para trás e preso por uma fita de esparadrapo.

Lula, o Filho do Brasil é uma biografia baseada no livro homônimo da jornalista Denise Paraná. "A história é uma superação das perdas", revela Barreto. "Meu trabalho é o de humanizar o mito vivo que é o Lula, só não vamos entrar na fase política." Lula, o próprio, não participa do enredo.

O roteiro começa com Aristides, pai de Lula, indo embora de casa, em 1945. O capítulo derradeiro é a morte da mãe, Eurídice Ferreira de Melo, dona Lindu, em 1980 — Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, estava preso. O PT não existia.

Nos arredores do centro de São Bernardo do Campo, Vila Euclides — oficialmente Estádio 1º de Maio — é um marco na trajetória de Lula. Aqui ele fez comícios acalorados para multidões e tinha dia que eram 80 mil os seus seguidores. Desafiou os generais que governavam o País e o poderio das montadoras.
Às 10h10 da manhã, o gramado do campo de futebol, encharcado e enlameado, estava tomado por um agitado set de filmagem e por 600 figurantes. "Vale a pena, é o que a gente gosta de fazer", disse Welington Pingo, diretor de produção do projeto.

Claudia Castro, a loura de boné camuflado, primeira-assistente de direção, dita o ritmo, debaixo de chuva fina: "Ok gente, vamos rodar. Desliguem os celulares. Vamos tirar bonés e gorros. Pessoal, junta aqui um pouco, separa aquele bolo ali. Silêncio, quero concentração, aê, aê. Ok, som, rodando, câmara. Ação!"

Palanque

"Lula, Lula", entoam os operários do filme que está na terceira semana de gravações e chegará às telas em janeiro de 2010. Amparado por anônimos ele sobe na mesa de madeira, seu palanque.

Rui não conhece Lula pessoalmente. Não tinha um ano quando o metalúrgico ocupou Vila Euclides, em 1978. Para bem representar fez "uma imersão na vida do presidente", até curso de torneiro mecânico no Senai da Mooca. "Eu me emociono muito", conta o ator. "Quando me disseram que eu ia fazer o Lula fiquei muito agitado."

Leu, estudou, pesquisou, recorreu a arquivos que narram percalços e triunfos de Lula. Até aprendeu e decorou palavras de ordem. "Companheiros", ele brada, os indicadores para o céu. "Eles pensam que a gente é burro, eles pensam que a gente não lê. Que a gente não se informa."

Eles, para quem Lula apontava, eram os empresários de quem exigiam melhores salários e condições de trabalho nos pátios. "Eles não querem dar nada. Querem que a gente trabalhe mais e mais e querem que a gente negocie. Nós vamos negociar é parado."

"Greve, greve", respondem os figurantes, braços erguidos. "Essa decisão não é a decisão do Lula", retoma o ator. "Não é a decisão do presidente de um sindicato, mas de toda uma classe trabalhadora. Aí fora tá cheio de polícia. É importante não aceitar provocação de jeito nenhum."

"Vamos parar juntos", conclama. E puxa o coro que ficou para a história. "Trabalhador unido jamais será vencido."
Fonte:Site O Vermelho.

ANOS DE CHUMBO - Para que não se esqueça, jamais.

por Michelle Amaral da Silva.

Prédio onde funcionava centro de tortura vira museu de resgate da história de presos políticos.

Jonathan Constantino,

de São Paulo (SP)

Após cerca de um ano e meio de luta e pressão do Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo junto ao Governo do Estado, foi reinaugurado, no último 24 de janeiro, o Memorial da Resistência, antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (Deops/SP).

Após reforma, o memorial reabre com uma nova concepção museológica para preservação da memória “de milhares de combatentes, que nunca aceitaram a opressão das classes dominantes e seus instrumentos ditatoriais”. De acordo com o jornalista Ivan Seixas, diretor do Fórum, “resgatar este velho prédio e transformá-lo num símbolo de resistência é a manifestação de quem luta pela democracia e não quer esconder nossa história. E nem apagar as pistas de sangue deixadas por carrascos impunes até os dias de hoje”.

Reconstituição das celas

Com a pressão realizada pelo Fórum, conseguiu-se a mudança do nome do Memorial e a realização de uma significativa reforma. Em agosto de 2007, foi apresentado o projeto de remodelamento, e sua implantação iniciou-se em agosto de 2008.

Na reforma foram reconstituídas celas, a fim de apresentar as reais condições a que os presos eram submetidos. Com ajuda de ex-presos, também foram refeitas inscrições nas paredes para resgatar as frases de resistência e solidariedade que haviam sido apagadas. Também foram instalados equipamentos audiovisuais por meio dos quais os visitantes podem informar-se sobre o que foi o espaço.

Na avaliação de Seixas, para cumprir seu papel histórico e didático, o Memorial deve ter um destino militante. “Projetos e programações devem sensibilizar a sociedade sobre a importância da luta pela Anistia, a Justiça de Transição e os Direitos Humanos para a Democracia. Para nós do Fórum dos ex-Presos e Perseguidos Políticos, o objetivo maior é completar a transição democrática, consolidar e aprofundar a democracia”, salientou.

Sem precedentes

Segundo Kátia Filipini, museóloga da Estação Pinacoteca do Estado “não temos conhecimento de nenhum outro projeto do tipo, no Brasil. O que sabemos é que há um museu na Argentina, ligado à Escola Superior de Mecânica da Armada (Esma), e que no Chile há um projeto em implantação”.

Sobre a importância do Memorial como instrumento de preservação e resgate da memória, ela afirma que “o museu é uma boa tentativa nessa luta e, como seu foco principal é a Ação Educativa e Cultural, desde já estão em projeto seminários, debates e palestras para contribuir nesse sentido”.

De acordo com o secretário da cultura, João Sayad, presente à solenidade de inauguração, a recaracterização do Memorial deveria ter sido ainda mais dramática, para retratar melhor o que foi aquele período. Para ele, o modo como as celas haviam sido apresentadas na última reforma, assemelhavam-se mais a salas confortáveis de um hotel. Estiveram presentes à solenidade de inauguração o governador do Estado de São Paulo, José Serra, e os secretários da Cultura, João Sayad, e da Justiça e Defesa da Cidadania, Luiz Antônio Marrey, o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão, que representou o ministro da Justiça, Tarso Genro; o diretor da Pinacoteca do Estado, Marcelo Araújo, e Rogério Sottili, representando o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, além de Raphael Martinelli que, juntamente com Ivan Seixas falou em nome do Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo.

Histórico

Localizado no Largo Manoel Osório, próximo à estação Luz da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), o prédio onde hoje funciona a Estação Pinacoteca, anexo da Pinacoteca do Estado, foi projetado em 1914 por Ramos de Azevedo, destinado a ser um armazém para a Ferrovia Sorocabana.

Porém, em 1949, durante o governo do General Eurico Gaspar Dutra, o Deops/SP, criado 25 anos antes com a finalidade de combater os movimentos sociais e outras manifestações originárias de “ideologias exóticas”, como o anarquismo e o sindicalismo, é transferido para o prédio do antigo armazém. Assim, passa a ser o cenário sombrio no qual se desenrolaram diversos atentados de lesa-humanidade, amplificados durante a ditadura civil-militar de 1964-1984.

Inaugurado em 2002 com o nome de Memorial da Liberdade, o atual Memorial da Resistência passou por inúmeros processos de transformação, o que acarretou a descaracterização do prédio. Foram destruídas duas celas, localizadas no térreo, e chamado “Fundão”, que era formado por antigas celas reforçadas, que funcionavam como solitárias. Além disso, o espaço recebeu pinturas modernas e sofisticadas, foram destruídos os banheiros que eram utilizados pelos presos e raspadas inscrições deixadas nas paredes das celas por presos políticos de diversas gerações.

As reformas e nome atribuído ao Memorial, então, desencadearam o descontentamento de grupos ligados às vítimas da violência durante a ditadura militar, de modo especial o Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo.
Fonte: Brasil de Fato.

FSM - Chico Mendes é homenageado com o plantio de seringueiras.

"Por que apareceu dinheiro para resolver a crise da economia e não há recursos para resolver a crise ambiental global, que é muito pior que a financeira?" - perguntou a senadora Marina Silva (PT-AC), no ato que homenageou a memória e a luta do líder ambientalista Chico Mendes, na Universidade Federal do Pará Redação - Carta Maior

BELÉM - O líder ambientalista e sindical Chico Mendes, assassinado há 20 anos no Acre, foi homenageado quarta-feira durante o Fórum Social Mundial, em Belém. Organizado pela Fundação Perseu Abramo, o evento terminou com o plantio de cinco mudas de seringueiras no campus da Universidade Federal do Pará (UFPA). A senadora Marina Silva (PT-AC) fez um discurso emocionado, no qual lembrou o seringueiro e criticou a falta de investimentos mundiais para preservação do meio ambiente.

"Por que apareceu dinheiro para resolver a crise da economia e não há recursos para resolver a crise ambiental global, que é muito pior que a financeira?", questionou a ex-ministra do Meio Ambiente. Além de Chico Mendes, a senadora lembrou de outros "mártires da Amazônia", entre eles a missionária Doroty Stang, assassinada em 2005, no interior do Pará.

O presidente da Fundação Perseu Abramo, Nilmário Miranda, ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, se referiu ao ambientalista como "a figura mais emblemática" da defesa da Amazônia. "O Acre era um lugar em que o crime organizado, a corrupção tomou conta do estado. As agressões ao meio ambiente eram também agressões aos direitos humanos e à democracia. E o Chico Mendes conseguiu reverter isso. Transformou-se em um modelo para o restante do mundo", destacou.

Um ativista indiano, que plantou uma das mudas, comparou a luta de Chico Mendes à perseguição de ambientalistas na Índia, onde, segundo ele, cinco pessoas foram mortas por protestarem contra a destruição de rios.
Fonte:Agência Carta Maior.

GUANTÁNAMO, UMA INDECÊNCIA DE 110 ANOS.

Em cumprimento a promessas de campanha, Obama decidiu pela proibição da tortura e pelo fechamento da prisão - como também das demais prisões secretas da CIA (Agência Central de Espionagem) espalhadas pelo mundo, nas quais se terceirizava a prática da tortura. Mas Guantánamo é ainda uma indecência jurídica e uma relíquia colonial do império sonhado pelos EUA no século 19. A análise é de Argemiro Ferreira.

Argemiro Ferreira

Por enquanto, só o que o governo do presidente Barack Obama ousou dizer sobre a baía de Guantánamo, extensa área do território cubano sob controle indecente dos EUA há 110 anos, foi a referência à mudança do status que lhe dera o antecessor George W. Bush, ao transformá-la em prisão infame e centro de tortura, chamada há três anos pela Anistia Internacional de "Gulag do nosso tempo".

Em cumprimento a promessas de campanha, Obama decidiu pela proibição da tortura e pelo fechamento da prisão - como também das demais prisões secretas da CIA (Agência Central de Espionagem) espalhadas pelo mundo, nas quais se terceirizava a prática da tortura. Mas Guantánamo é ainda uma indecência jurídica e uma relíquia colonial do império sonhado pelos EUA no século 19.

Ocupada pela força das armas, Guantánamo já então era intolerável. Ainda o é hoje. Os próprios americanos, por uma questão de dignidade e bom senso, há muito deviam tê-la devolvido como excrescência ofensiva não só ao povo cubano, cuja liberdade os EUA alegam defender, mas a toda a América Latina - já que impingida a partir de lei americana doméstica e abusiva, que tratava de destinação de verbas do Exército.

De olho em Cuba, desde 1824.

A ocupação de Guantánamo data de 1898. Resultou de pacote intervencionista em meio à luta dos cubanos pela independência da Espanha, então potência colonial. Concebida em 1823, a Doutrina Monroe ("a América para os Americanos") pareceu a alguns oferecer uma face "virtuosa" dos EUA, por advertir nações de fora do hemisfério de que não deviam se imiscuir nas questões do continente.

Os latino-americanos logo perceberiam que se buscava apenas atender às próprias ambições dos EUA, cuja atenção voltava-se para Cuba e Porto Rico já em 1824. O então secretário de Estado John Quincy Adams, depois presidente (1825-1829), avisou Simón Bolívar de que a doutrina não autorizava "os fracos a serem insolentes com os fortes", motivo pelo qual devia ficar longe de Cuba e Porto Rico.

Ao preparar a I Conferência Pan-Americana, boicotada por Washington, Bolívar já não tinha ilusões: "Os EUA parecem destinados pela Providência a espalhar a miséria em nome da liberdade", disse em 1829. De fato, a truculência britânica nas Malvinas, Honduras, Guatemala fora ignorada, enquanto os EUA tomavam o Texas e a Califórnia do México, depois invadido, e separavam o Panamá da Colômbia, além de outras intervenções.

Cobiçada desde 1824, quase comprada por US$100 milhões em 1848, Cuba entrava ainda no contexto dos 10 anos de oposição dos EUA à federação centro-americana. Ante a iminente vitória de Cuba sobre a Espanha (e a esperada conquista da independência), as cadeias de jornais Hearst e Pulitzer inventaram a "esplêndida guerrinha" de Ted Roosevelt e seus Rough Riders, retratados como heróis.

A fala macia e o porrete de Ted.

Porto Rico foi anexada como o Texas. Cuba resistiu. Acabou sob controle, com a alegação dos EUA de que tinham ajudado a guerra da independência. De 1898 em diante o Caribe virou mar territorial americano. Nascia o império colonial, que tinha ainda Filipinas e Guam, do outro lado do mundo. Festejado como herói, Ted Roosevelt elegeu-se vice do presidente William McKinley no ano seguinte, 1900.

A Emenda Teller, de 1898, negava expressamente qualquer intenção dos EUA de anexar Cuba. E em 1901 o senador Orville H. Platt, a pretexto de prevenir desejos imperiais da Alemanha sobre a ilha, redigiu a emenda à lei de verbas do Exército: proibia Cuba de assinar tratado dando poderes a outro país sobre seus negócios internos, endividar-se ou impedir ali um programa sanitário americano. E mais.

Na Emenda Platt os EUA arrogavam-se o direito de intervir nos assuntos internos de Cuba, a pretexto de "manter a ordem e a independência", podendo comprar ou arrendar áreas para instalar estações navais ou carboníferas. A principal delas era a baía de Guantánamo. No mesmo ano, Cuba foi forçada a incluir a emenda na sua Constituição e a assinar tratado assegurando o poder dos EUA sobre a área.

Obviamente os EUA - já sob Roosevelt, presidente a partir de 1901 devido ao assassinato de McKinley - deitaram e rolaram. Já em 1906 mandaram-se tropas, "a convite", para sufocar revolta e "restaurar a ordem". Enviavam navios de guerra, negavam reconhecimento de regimes, etc. Só em 1934 revogou-se afinal a Emenda Platt, graças à política da Boa Vizinhança. Mas não o arrendamento de Guantánamo.

Caloteiro e péssimo inquilino.

A manutenção de Guantánamo, antes de virar prisão, já se elevava, por ano, a US$ 36 milhões. Servia para provocar Cuba, que repudia a transação ilegítima e imoral. O aluguel é o sonho de todo inquilino: fixado pelo próprio, em 90 anos (de 1903 a 1993) subiu apenas de US$ 2 mil para US$ 4.085. Nessa proporção, deve estar hoje nuns US$ 4.200, o que mal paga apartamento de dois quartos em Manhattan.

Arrogante e prepotente, o inquilino sempre impôs sua vontade como valentão de rua. Caloteiro, já que só paga o que quer, ainda controla a área e hostiliza o dono légitimo da propriedade. Cuba, ao contrário, comporta-se como o senhorio ideal: desde que Fidel Castro chegou ao poder, sequer desconta os cheques do aluguel. Teme que isso possa legitimar a indecência histórica imposta pelos EUA.

Há 16 anos, quando Bill Clinton chegou à Casa Branca, o escritor Tom Miller, autor do livro Trading With the Enemy: A Yankee Travels through Castro's Cuba, recordou no New York Times a história vergonhosa de Guantánamo - rebatizada no Pentágono, amante de sopa de letras, como Gitmo. Não se imaginava que ainda viria vergonha maior - a prisão-centro de torturas, obra de Bush II em 2001.

Antes de Fidel, a área pode ter sido a base ideal para o lazer de militares amantes de prostíbulos, cassinos e consumo de drogas - cortesia de gangsters como Meyer Lansky, à sombra dos ditadores apadrinhados em Washington. Talvez haja em Miami quem sonhe com a volta aos velhos tempos. Mas Obama, mesmo vencedor da Flórida, pode fazer a coisa certa: acabar com essa indecência de 110 anos.
Fonte: Agência Carta Maior.

FSM - Acampamento da juventude, o resto é preconceito.

Multifacetado, multiracial, multicolorido e multisonoro, o Acampamento da Juventude confirma, em sua edição amazônica, a fama de espaço de maior diversidade dentro do Fórum. Para entender tudo isso, só mesmo indo lá. Porque é da síntese entre o conhecido e o estranho que brota uma outra possibilidade, quem sabe até, um outro mundo. O recado do acampamento parece mesmo ser este: ou aprendemos uns com os outros, ou morremos com os nossos preconceitos.

João Manoel de Oliveira

BELÉM - A liberalidade dos comportamentos, o gestual agressivo de uns poucos, o figurino inusual de outros tantos, o cheiro de fumaça e incenso no ar, pouca roupa, tatuagens de dragão e borboleta, camisetas de algodão e jeans, saias com estampas orientais, ícones revolucionários já absorvidos pelo mercado fashion, negros e loiras ostentando dreadlocks (que não nasceu com os hastafaris, mas entre antigos povos da Índia), índios tatuando brancos, e estudantes, muitos estudantes num trotoir incessante que parece sem destino. É mais ou menos isso o que vê um primeiro olhar lançado sobre o Acampamento Intercontinental da Juventude do Fórum Social de Belém.

A impressão woodstockiana é inevitável. Como no festival hippie de quarenta anos atrás, os acampados de Belém bradam palavras de ordem contra a guerra, ainda defendem (e alguns mais corajosos exercitam) o amor livre e criticam o capitalismo. Os tempos e o fato de estarem num fórum social, acrescentaram novas bandeiras ao repertório: ensino público gratuito e de qualidade, preservação ambiental. Nada muito novo, é verdade. Mas como afirma Ricardo Barazzetti, gaúcho de Caxias do Sul, integrante do Kizomba (campo do movimento estudantil ligado ao PT), “hoje, nenhuma luta faz sentido se não estiver agregada à defesa da preservação de todas as formas de vida do planeta”.

Para além da "bichogrilagem", o acampamento abriga debates sobre temas importantes como direitos humanos, quilombolas, indígenas, reforma urbana, mulheres, saúde, economia solidária, internet, democracia participativa, energia e educação. “Um laboratório de práticas socialmente transformadoras cujo objetivo é a produção de referências simbólicas comuns”, anuncia, pomposamente, o site oficial do evento: .

A ONG Unione Italiana Sport per Tutti (UISP) que já esteve no Fórum de Nairóbi e que montou quadras para a prática de vôlei e futebol dentro do acampamento de Belém, veio ao Brasil neste espírito: “Vemos o esporte como forma ideal para integração, liberdade, solidariedade, enfim, todas as expressões humanas. Nossa ONG é parceira de movimentos ambientalistas e de igualdade racial como o Mondiatti Antirazzisti.” A proposta parece ter funcionado. Na tarde de quarta-feira, um dos times na quadra de vôlei reunia uma loira suíça, um negro carioca, dois japoneses paulistas e uma índia amazonense.

Caminhando entre as barracas, o acampado vai se deparar com uma frase instigante: “Não estamos atrapalhando o trânsito. Nós somos o trânsito”. É o slogan da Critical Mass, movimento global criado em San Francisco da Califórnia que visa disseminar o uso racional dos automóveis substituindo-os, sempre que possível, pelas bicicletas. “Danny Souza, 40 anos, geógrafo, está no acampamento para divulgar o movimento. “Tenho carro, mas no ano passado, percorri 2.600 km de bicicleta só indo e voltando do trabalho”. Danny diz que o movimento não é ligado a nenhum partido. Bem ao contrário dos estudantes filiados ao PSOL que estão em grande número no acampamento, organizaram espaços próprios e mantém uma agenda de eventos, quase todos com críticas ao governo federal.

Visivelmente espantado com a gritaria dos estudantes de outro matiz, a UJS do PCdoB, William Akay, 23 anos, indígena do povo Wai-Wai e morador da aldeia Mapuera às margens do rio Trombeta (divisa entre Pará e Amazonas), diz que não está gostando do Fórum: “Parece que índio não pode viver como qualquer outro povo, tem que viver como bicho”, reclama diante do permanente assédio de brancos que, sem pedir licença, postam-se ao seu lado para tirar fotografias. “Não somos animais de um zoológico. Eu ainda consigo dizer que não quero, mas eles (apontando para outros jovens índios de seu povo), não sabem falar português e não podem fazer nada”.

A secundarista Raísa Rosa, 17 anos, também não pode fazer nada quando, na marcha de abertura do Fórum, foi assaltada por dois homens que lhe roubaram a bolsa com todos os documentos, algum dinheiro e a máquina fotográfica. Mas Raísa não se deu por vencida. Passou a tarde exibindo um cartaz onde se lia “Fui assaltada. Preciso de dinheiro para voltar para casa”. O pedido, escrito em português, espanhol e inglês, fez brotar a solidariedade entre os acampados que, em poucas horas, garantiram com moedas e notas de baixo valor, os R$ 98,00 que Raísa precisava para comprar a passagem de volta ao Maranhão. – O assalto fez com que você ficasse com uma impressão ruim do Fórum?, pergunta o repórter. “Claro que não. Isto aqui é uma mostra do mundo e eu adoro o mundo”.

Nem todos, entretanto, conseguem decifrar o espírito do acampamento. É o caso do auxiliar de escritório belenense César Raimundo Gomes, 18 anos, que confessa não ter “nenhuma identificação com aquilo lá”. O rapazote vai mais longe: “Sugiro que os jovens de Belém se mantenham afastados da UFRA”.

UFRA é sigla que designa a Universidade Federal Rural da Amazônia, cujo campus abriga o Acampamento. A estrutura foi montada para receber 20 mil pessoas e, ao menos até a última quarta-feira (28), os 120 banheiros químicos e os 300 chuveiros montados em barracões de madeira fina e sem cobertura, se mostravam suficientes para a demanda higiênica dos 17 mil que chegaram a Belém. Não havia filas também nos pontos de alimentação onde predomina um cardápio de frutas regionais, verduras, legumes e grãos.

É possível encontrar Coca-Cola “o líquido negro do imperialismo”, mas disfarçada e servida em sacos de plástico transparente (“para pensar que é suco de açaí”, confessa uma vendedora ambulante) com direito a canudinho. Fernanda Torres, paranaenses de 20 anos, estudante de Gestão Ambiental, acha “um absurdo” a venda de refrigerante no Fórum e reclama que das garrafas de água e papéis que conferem um aspecto de aterro sanitário a alguns espaços do acampamento. Há críticas também ao trânsito na rodovia de acesso e temores com a segurança já que boatos sobre assaltos e até estupros circulam de boca em boca. Nada, contudo, foi registrado pelos policiais que atuam naquela área. “Quando tem show e o pessoal bebe um pouquinho, é que a gente fica mais esperto. Mas está tudo calmo”, conta o PM Anderson.

Por falar em trilha sonora, ritmos afros, carimbós, rocks, mpbs, bregas, heavy metals e mantras convivem quase harmoniosamente no lugar. E é assim, multifacetado, multiracial, multicolorido e multisonoro que o acampamento confirma, em sua edição amazônica, a fama de espaço de maior diversidade dentro do Fórum. Para entender tudo isso, só mesmo indo lá. Porque é da síntese entre o conhecido e o estranho que brota uma outra possibilidade, quem sabe até, um outro mundo. O recado do acampamento parece mesmo ser este: ou aprendemos uns com os outros, ou morremos com os nossos preconceitos.
Fonte: Agência Carta Maior.

FSM - O ano do futuro.

Os acontecimentos que marcam o início de 2009 são de tal modo importantes que se o mundo não puder conhecer a posição do Fórum Social Mundial sobre eles é possível prever que o FSM corre o risco de se tornar irrelevante.

Boaventura de Sousa Santos

A grande mídia divulgou à saciedade o diagnóstico da situação mundial feita pelo Forum Econômico Mundial (FEM) na sua reunião deste ano. É um diagnóstico sombrio que coincide em muitos pontos com os diagnósticos feitos pelo Fórum Social Mundial (FSM) em suas sucessivas edições desde 2001. Não interessa saber se o FSM teve razão antes do tempo ou se o FEM tem razão tarde de mais. Interessa, sim, refletir sobre o fato de o FSM não ter tido a influência ou exercido a pressão que se desejaria sobre os decisores políticos. Em parte, isso deve-se a uma opção do FSM: ser um espaço aberto a todos os movimentos e organizações que lutam de forma pacífica por um outro mundo possível, sem deixar que tal abertura seja comprometida por decisões políticas, nunca possíveis de obter por consenso.

Sempre defendi que esta opção, sendo acertada, não devia ser assumida de forma dogmática. Deveria ser possível identificar, em cada momento histórico, um pequeno conjunto de temas sobre os quais fosse possível identificar ou gerar um grande consenso. Sobre eles, o FSM, enquanto tal, deveria tomar uma posição que seria assumida por todos os movimentos e organizações que participam no FSM, dando assim origem a agendas parciais mas consistentes de políticas nacionais- globais. Os acontecimentos que marcam o início de 2009 parecem dar razão a esta posição. Eles são de tal modo importantes que se o mundo não puder conhecer a posição do FSM sobre eles é de prever que o FSM corra o risco de se tornar irrelevante. Passo a mencionar alguns desses acontecimentos.

A tragédia de Gaza. Está demonstrado que foram cometidos crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante a mais recente invasão israelita da faixa de Gaza. Que consequências retira o FSM deste fato? Que medidas propõe para que estes crimes não fiquem impunes?

China ou Suma Kawsay? É verdade que o neoliberalismo não foi morto pelo ativismo do FSM. Cometeu suicídio. Isso está patente nas pseudo-soluções que se apontam para o desastre. Uma coisa é certa: os cidadãos do mundo sabem como os Estados protegem os bancos; só não sabem como protegem as pessoas. Sobre as muitas dimensões da crise o FSM tem uma reflexão consistente. Qual a posição do FSM? De um lado, as economias centrais imploram à China que “forcem” os seus cidadãos a consumir, mesmo sabendo que se os níveis de consumo atingissem os da Europa e da América do Norte seriam precisos três planetas para garantir a sustentabilidade do único planeta que temos.

Do outro lado, e bem nos antípodas desta proposta, o notável protagonismo dos povos indígenas do continente americano tornou possível que as suas concepções de desenvolvimento em harmonia com a natureza fossem consagradas nas Constituições da Bolívia e do Equador. Trata-se do princípio de “viver bem”, o Suma Kawsay dos Quechuas ou o Suma Qamana dos Aymaras. De que lado está o FSM?

Cuba: cinquenta anos de futuro? A Revolução Cubana celebra este ano o seu cinquentenário. A Europa e a América do Norte podiam ser o que são hoje sem a revolução cubana, mas o mesmo não se pode dizer da América Latina, África e Ásia, ou seja, das regiões onde vive 85% da população mundial. Cuba deseja a solidariedade crítica do mundo progressista para superar uma situação que, a não mudar, é inviável enquanto solução socialista. Onde está a solidariedade do FSM? Onde está a crítica?

O Comando Africano (AFRICOM). Começou a ser visível a interferência do Comando Africano, recentemente criado pelo Departamento de Defesa dos EUA, na política de vários países africanos. É de prever e temer a crescente tensão militar no continente. Será este um tema em que o FSM pode ter razão a tempo e dar a conhecer ao mundo a sua posição?

O fim do 11 de Setembro. Que há de comum entre a decisão do Presidente Obama de encerrar a prisão de Guantánamo e suspender os julgamentos e a decisão do Ministro Tarso Genro de conceder asilo ao ex-militante esquerdista Cesare Battisti? São duas decisões corajosas dos governos de dois países importantes (o primeiro em declínio, o segundo em ascensão), assinalando ao mundo que a vertigem securitária que assolou o mundo depois do 11 de Setembro chegou ao fim. A melhor segurança cidadã é a que decorre do primado do direito e do aprofundamento da democracia. A justiça de exceção está para a justiça como a música militar (sem ofensa) está para a música clássica. O mundo tem direito a saber que medidas vai tomar o FSM para apoiar estas decisões, que, como é de esperar, terão os seus detractores.

NOTA DA REDAÇÃO: O livro mais recente de Boaventura de Sousa Santos se intitula Vozes do Mundo, publicado pela Civilização Brasileira.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).
Fonte:Agência Carta Maior.

O FILME NÃO É MAIS AQUELE.

O filme não é mais aquele, mas Davos e o sistema não sabem.

A conclusão de que o mundo, por mais insólito que se possa imaginar, tem uma feição única – aquela a que nos acostumaram os filmes de Hollywood – parece induzir que contra o velho não há o que fazer. Somos iguais desde as estrelas da Alfa, a Davos. Para o Fórum, o filme não é mais esse – mas que fazer?

Enio Squeff

No filme “Guerra nas Estrelas”, de George Lucas, há uma cena que parece sugerir, mais que tudo, o que vem a ser um dos lugares-comuns do sistema dominante não apenas nas artes. Há um deserto – ou coisa que o valha – a indicar um planeta qualquer no sistema solar. Aparentemente, tudo é estranho: os seres dos vários planetas que circulam tranquilamente pela cidade poeirenta remetem à visão de um bestiário medieval. Mas é tudo a antecâmara de um baile de máscaras: logo os seres com a aparência de elefantes, robôs, patas de aranha e sabe-se lá mais o quê, entram numa espécie de saloon – aquele que aparece em todos os velhos filmes de faroeste.

A conclusão de que o mundo, por mais insólito que se possa imaginar, tem uma feição única – que é aquela a que nos acostumaram os filmes de Hollywood – parece induzir que contra o velho – ou o sistema – não há o que fazer. Somos iguais desde as estrelas da Alfa, a Davos.

No Fórum Social Mundial que se realiza em Belém, nada sugere o bestiário de antanho – mas os saris, os turbantes, os corpos pintados de alguns indígenas, a brancura quase à palidez dos europeus (espera-se que não tenham insolação com o calor de Belém) repisaram, no desfile de abertura, com mais de cem mil pessoas, que o mundo possível não é de outro planeta. Difícil estabelecer, no entanto, sequer como hipótese, que a diversidade cultural, que parece predominar também neste Fórum, termine, enfim, e de novo, na imutabilidade da tal cena de um saloon. Ou no duelo final fora dele. Sabemos que os índios raramente freqüentam bares; que os muçulmanos presentes ao evento, previsivelmente não marcam encontros com bebidinhas como parte do seu “happy hour”.

Há uma certeza generalizada, em suma, de que o mundo não se resolve em duelo finais em botecos ou em combates de rua: por mais que a oposição a Davos seja a palavra de ordem universal em Belém, a grande maioria dos que participam do Fórum Social Mundial afigura-se não se imaginar a partir para o confronto armado como nos sugerem as obras sobre as lutas sociais de Kathe Kolwitz ou de Gustave Doré.

A frase de Brecht, “Pobre do país que precisa de heróis” ao que tudo indica, vem a predominar no Fórum como uma espécie alerta, ou antes, de aquiescência justamente em relação à inutilidade dos tais derramamentos de sangue. A desgraça do mundo adviria da necessidade de alguém se tornar mártir para impor suas idéias e, com ela, as mudanças. Eric Hobsbawm defende uma tese quase insólita sobre a Primeira Guerra: ela se deu como uma espécie desejo coletivo, ou melhor, a crença à esquerda e à direita, do poder “regenerador” das carnificinas. E as revoluções, como a bochevique as justificariam, o que, afinal, milhões de mortos depois, não deu em nada. Ou em muito pouco.

Onde a lógica do confronto, do cruento não previsto pelo Fórum – mas temido por Davos?

Indiretamente parece ser esse um dos temas do Fórum. A diversidade cultural que deu origem à palavra “bárbaro” – para os gregos seria essa a definição do estrangeiros e seus costumes exóticos – difundiu-se ao longo da história, principalmente do Ocidente, como um mote para a supressão do outro. Parece residir também, em última análise, a regra do sistema que engendrou grande parte da arte principalmente do cinema, na versão mais completa que é a da indústria de Hollywood. E que, a propósito, encontraria no Fórum Social Mundial um contraponto inclusive ao que o sistema prevê; e que a história, em princípio não desmente.

E é, aliás, o que parece estar sendo relevado em Belém e que é o velho ramerrão do que se pode chamar de “filosofia de Saloon”. Passados oito Fóruns Sociais Mundiais não se sabe de incidentes ou de “atentados à propriedade” como fruto da pregação anticapitalista. Apesar de tudo, a afiliada da Globo, em Belém, não se deu por achada: tratou de pedir um destacamento inteiro da polícia de Choque, para se postar à frente do edifício que a abriga. O mesmo se deu com um hotel também na avenida: seu dono providenciou às pressas um engradamento à frente do saguão com homens da Guarda Nacional de sentinela. Crença inquebrantável de que tudo se resolva num duelo final?

Eram mais de cem mil pessoas na avenida Nazaré a gritarem sua discordância com o mundo inventado por Davos. Nada indica que essa gente queira seguir o roteiro daquela Guerra das Estrelas sempre presente no sistema e que, no frigir dos ovos, Spielberg e tutti quanti defendem.

Para o Fórum, o filme não é mais esse – mas que fazer?
Enio Squeff é artista plástico e jornalista.
Fonte:Agência Carta Maior.

FSM - Trabalho escravo é pauta do Fórum.

Leonardo Sakamoto

Trabalho escravo é pauta do Fórum Social Mundial.

O Fórum Social Mundial nasceu como contraponto direto ao Fórum Econômico Mundial e tudo o que ele representa. “Se opõe a toda visão totalitária e reducionista da economia, do desenvolvimento e da história” – explica sua carta de princípios – “e ao uso da violência como meio de controle social pelo Estado”. O Fórum Econômico ocorre todo ano, desde 1971, na cidade de Davos, Suíça. Nele, os líderes das maiores potências refletem sobre as conseqüências da globalização e tentam decidir, dentro de salas de portas trancadas, os rumos da economia mundial. O objetivo do Fórum Social, criado em 2001, é a democratização dessas reflexões e decisões.

Fórum, pois é um espaço livre para a reflexão e exposição de idéias, de entidades e movimentos a indivíduos. Social, porque seu eixo único e central é o homem, livre de qualquer forma de opressão, em sua relação com o meio e com os outros. Mundial, pois reúne em um único espaço experiências vividas da Finlândia à África do Sul, do México ao Japão.

O trabalho escravo será pauta do FSM 2009, repetindo o que ocorreu nas outras edições do encontro. Nesta, porém, o tema ganha uma conotação diferente uma vez que a Amazônia está no centro dos holofotes. A região concentra no Brasil a maior incidência de trabalho escravo e não é por acaso. Como em vários cantos do país e do mundo, esse crime é a consequência mais vergonhosa de um modelo de desenvolvimento perverso. Erradicar o trabalho escravo não é só libertar os modernos escravos. É colocar em questão este modelo.

Abaixo, posto o programa do principal evento sobre trabalho escravo contemporâneo, no qual terei a honra de falar. Quem estiver por Belém, por favor não deixe de vir.

Dia 29 de janeiro
Oficina: Escravizados no século 21
Organização: Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo e Frente Nacional contra o Trabalho Escravo
8h30 às 12h30, Tenda Irmã Dorothy Stang (UFRA)

1) Panorama mundial e nacional
Abertura: Ministro Paulo Vanucchi (SEDH)
Mediação: Luis Machado (OIT)
Trabalho escravo/panorama mundial: Aidan Mc Quade (Dir. Anti Slavery International)
Trabalho escravo no Brasil/na Amazônia: Jacquelinne Carrijó, AFT (Sinait/GM)
Debate

2) O que está em jogo
Mediação: Senador José Nery (PSOL/PA)
Quem são eles? patrões e escravos – Antonieta Vieira (USP)
Desenvolvimento perverso: José Batista Gonçalves Afonso (CPT)
Conexões amazônicas: Leonardo Sakamoto (Repórter Brasil)
Crime múltiplo - Felício Pontes (ANPR/MPF)
Debate

3) Erradicar
Mediação: Xavier Plassat (CPT)
Desafios da repressão: Luis Camargo (ANPT/MPT)
Experiências no Brasil e fora: Antônio Filho (CDVDH Açailândia/BR) – Emmanuel Otoo (Free the Slaves/W. África) – Lucas Benitez (Coalition of Immokalee Workers, Flórida/EUA)
Debate
Fonte: Blog do Sakamoto.

SAÚDE - Carlos Minc proibe o amianto no MMA.

Carlos Minc proíbe amianto no Ministério do Meio Ambiente

por CONCEIÇÃO LEMES, especial para o Viomundo.

Nesta quinta-feira, em Belém, o ministro Carlos Minc anuncia portaria que bane o amianto no Ministério do Meio Ambiente e em todos os órgãos a ele ligados: Instituto Brasileiro de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Serviço Florestal Brasileiro (SFB), Agência Nacional de Águas (ANA), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O anúncio será no Fórum Social Mundial (FSM), na tenda da Confederação dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).

De acordo com a portaria, a utilização de produtos que contenham fibras da substância – comprovadamente tóxica – também está proibida. Entre as doenças causadas pelo amianto, estão a asbestose (doença crônica pulmonar que provoca endurecimento do órgão), câncer de pulmão e mesotelioma de pleura (membrana que reveste o pulmão), pericárdio (membrana que reveste o coração) e peritônio (membrana que recobre a cavidade abdominal.

“É um passo a mais na nossa luta de muitos anos”, afirma Minc. “É preciso que, através de ações, a sociedade pressione e lute pelo banimento completo desse produto no Brasil. Não queremos fechar as indústrias, mas que elas troquem as tecnologias sujas por limpas, como já acontece nos países europeus.”

Possivelmente o Ministério da Saúde será o próximo a banir o amianto nas suas instalações e órgãos relacionados.

MANIFESTO EM SOLIDARIEDADE À FERNANDA GIANNASI

A engenheira Fernanda Giannasi, auditora fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em São Paulo é símbolo da luta antiamianto no Brasil.

“Fernanda é uma mulher de coragem”, afirma Carlos Minc.“Ela chamou a atenção para o problema do amianto assim como Chico Mendes para a questão dos seringais”.

“Fernanda nos alimentou esse tempo todo com informações, provas, para banirmos o amianto”, disse anos atrás o médico Roberto Gouveia, ex-deputado federal pelo PT-SP. “Ela foi ameaçada, se arriscou, mas nunca desistiu.”

Na segunda-feira, dia 26, o Instituto Brasileiro da Crisotila (IBC) publicou no seu site Denúncia Pública contra a Auditora Fiscal Fernanda Giannasi:

CLIQUE AQUI E AQUI

Em Belém, no Fórum Social Mundial, os participantes da oficina Amianto: a globalização do risco e o fortalecimento dos movimentos construídos por baixo repeliram a acusação.

Nesta quarta-feira, dia 28, em solidariedade à Fernanda Giannasi e repúdio ao IBC começou a circular este manifesto no FSM:

O Instituto Brasileiro do Crisotila (IBC) é a entidade que representa e defende os interesses da indústria do amianto no Brasil, faz propaganda e lobby do setor junto a políticos, juízes, órgãos governamentais, imprensa.

A engenheira Fernanda Giannasi é auditora fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em São Paulo. Incorruptível, exerce a função de funcionária pública de maneira exemplar. É referência nacional e internacional na luta contra o amianto, matéria-prima comprovadamente cancerígena para os seres humanos.

Por isso, nós, participantes do Fórum Social Mundial, reunidos hoje, 28 de janeiro 2009, em Belém, na tenda da Confederação Brasileira dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), repudiamos a ‘Denúncia Pública contra a Auditora Fiscal Fernanda Giannasi’. De autoria do lobby a favor da fibra assassina, está publicada no site do IBC.

Às verdades demonstradas, sistematicamente, à luz do dia, pela auditora fiscal, os seus difamadores respondem, covardemente, com mentiras, acusações levianas e injuriosas. Um jogo torpe, por baixo do pano, em que vale tudo para tirar do caminho os que contrariam os seus intere$$e$.

A acusação de que a defensora dos direitos humanos e da saúde dos trabalhadores atua de forma “ilegal e irresponsável” é totalmente descabida. O uso do amianto é proibido hoje em todo o Estado de São Paulo. O que Fernanda Giannasi faz é cumprir a legislação em vigor, autuando as empresas fora da lei, já que esse mineral põe em risco a saúde dos trabalhadores e consumidores. É graças também ao incansável trabalho de Fernanda Giannasi que hoje as vítimas da fibra assassina começam a ter reconhecimento e visibilidade social de suas doenças.

Enfim, o que Fernanda Giannasi faz, diariamente, há quase 30 anos, é em defesa dos trabalhadores, da sociedade civil em geral e do próprio serviço público brasileiro. Que bom seria que o seu exemplo fosse seguido por todos os auditores fiscais do Brasil.

Nós conhecemos Fernanda Giannasi e sabemos que essa corajosa mulher não se vende – por dinheiro algum. Por isso, nós, participantes da oficina ‘Amianto: a globalização do risco e o fortalecimento dos movimentos construídos por baixo’, não nos calaremos diante desta calúnia contra Fernanda Giannasi.

Também não deixaremos que o podero$o lobby amiantófilo cale a principal voz do Brasil contra o amianto. A difamação de Fernanda Giannasi é só mais um exemplo dos mil e um ardis usados pelos promotores da catástrofe sanitária do amianto em nosso país.

Dessa nossa parte, além de assinarmos este manifesto, o encaminharemos ao Ministro Carlos Luppi, do Trabalho e Emprego, e demais autoridades públicas. Divulgaremos também em sites, jornais de nossas categorias e listas de discussões.

À Fernanda Giannasi, nossa irrestrita solidariedade. Ao Instituto Brasileiro do Crisotila e demais lobistas do setor, nosso total repúdio.
FONTE: Blog VI O MUNDO.

FAZENDEIRO QUE DÁ NOME A VACAS OBTÉM MAIS LEITE.

Muitos fazendeiros tratam suas vacas como seres inteligentes.

Vacas felizes produzem mais leite, de acordo com pesquisadores da Universidade de Newcastle, no norte da Inglaterra.

O animal que recebe um nome e é tratado com "um toque mais pessoal" pode aumentar a produção em até 285 litros por ano.

O estudo, realizado pela Faculdade de Agricultura, Alimentos e Desenvolvimento Rural, envolveu 516 fazendeiros em toda a Grã-Bretanha.

Os pesquisadores concluíram que os fazendeiros que davam nome aos animais - 46% - obtinham uma produção maior do que os que não batizaram as vacas.

Sessenta e seis por cento dos fazendeiros que participaram do estudo disseram que "conheciam todas as vacas de seu rebanho".

Quase 10% disseram que animais que temiam seres humanos pareciam ter pouca disposição para produzir leite.

O fazendeiro Dennis Gibb, co-proprietário da Fazenda Eachwick Red House, nos arredores de Newcastle, disse que acredita ser "de vital importância" que cada vaca seja tratada como um indivíduo.

'Personalidade'

"Elas não são apenas nosso ganha-pão, elas são parte da família", afirmou.

"Nós amamos nossas vacas aqui em Eachwick e cada uma delas tem um nome."

"Coletivamente nós nos referimos a elas como 'nossas senhoras' mas nós sabemos que todas e cada uma delas têm sua própria personalidade."

Catherine Douglas, que coordenou a pesquisa, disse: "O que o nosso estudo mostra é o que muitos fazendeiros bons, atenciosos acreditavam há muito tempo."

"Nossos dados sugerem que, no total, os fazendeiros que produzem leite na Grã-Bretanha consideram suas vacas seres inteligentes capazes de viver uma gama de emoções."

"Dar mais importância a conhecer os animais individualmente e chamá-los pelo nome pode, sem custo adicional ao fazendeiro, levar a um aumento significativo na produção de leite", afirmou Douglas.

O estudo foi divulgado na revista especializada Anthrozoos.
Fonte:BBC BRASIL.

CRISE AUMENTA RISCO POLÍTICO EM OITO PAÍSES.

Crise aumenta risco político em 8 países europeus, diz estudo.

Protestos na Grécia em dezembro influenciaram ranking.

A crise econômica global provocou uma queda na estabilidade mundial e colocou oito países europeus em posição de maior risco de instabilidade política, segundo uma pesquisa da seguradora americana Aon Corp, uma das maiores do mundo.
Estônia, Grécia, Hungria, Islândia, Letônia, Lituânia, Eslováquia e Eslovênia caíram na escala de segurança da Aon - de baixo risco para médio-baixo risco - por causa da sua vulnerabilidade à crise.

O Brasil segue na categoria de médio-baixo risco. Na América Latina, o país de menor risco é o Chile. Na mesma categoria que o Brasil, a segunda de menor risco, estão também México e Costa Rica.

A cada ano, a empresa avalia as possibilidades de que vários países do mundo venham a sofrer guerras, atos de terrorismo, greves, rebeliões, interferência política e outros problemas, além da probabilidade de que dêem um calote em suas dívidas ou que tenham sua cadeia de fornecimento afetada.

Mas, segundo a seguradora, em 2009 a previsão de riscos reflete especialmente o impacto da crise econômica.

'Problema político'

"A crise do crédito está deixando de ser apenas um problema econômico para se tornar um problema político", disse Miles Johnstone, diretor de Riscos Políticos da Aon, nos Estados Unidos.

"Quando uma economia está em baixa, o governo tem menos recursos disponíveis para lidar com algumas questões problemáticas, o que poderia levar a uma instabilidade política", explicou.

A empresa cita como exemplo recentes protestos violentos na Grécia, na Lituânia, na Letônia, na Islândia e na Bulgária.

A crise também fez com que a seguradora criasse a categoria de altíssimo risco para colocar países cujas condições se deterioram ainda mais no ano passado - Afeganistão, República Democrática do Congo, Irã, Iraque, Coréia do Norte, Somália e Zimbábue.

Por outro lado, outros 13 países melhoraram sua situação no ranking de risco, como a Colômbia, a Síria e a Líbia.
Fonte:BBC BRASIL.

CÃES - Levar um "beijo" de seu cão não faz mal.

Estudo demonstra que levar uma lambida do cachorro ou dividir a cama com ele não oferece tanto risco à saúde como se pensa.

Veterinária ressalta a importância de lavar as mãos antes e depois de brincar com os animaisUma pesquisa realizada pela veterinária Kate Stenske, da Kansas State University, mostrou que o contato próximo entre cães e os seus donos não traz riscos para a saúde humana. Segundo a pesquisadora, dormir ao lado do cão de estimação ou levar uma lambida no rosto não causa doenças.

O estudo de Kate, que será publicado na próxima edição do American Journal of Veterinary Research, analisou os riscos relacionados à bactéria Escherichia coli, causadora de problemas comuns como infecções intestinais. Para isso, a veterinária coletou amostras de fezes de cães e de seus proprietários.

A pesquisa demonstrou que, na maioria dos casos, o micro-organismo encontrado nos seres humanos é mais resistente - e, por isso, mais perigoso à saúde - do que o encontrado entre os cães. Em 10% dos casos, cães e seus proprietários compartilhavam o mesmo tipo da bactéria E. coli. Isso quer dizer que, na maior parte das vezes, os humanos são mais perigosos para os cães - ao transmitir uma bactéria mais resistente - do que o contrário. Apesar disso, Kate recomenda sempre ter bom senso na prática da higiene pessoal: é fundamental lavar bem as mãos antes de preparar alguma refeição ou de brincar com seu cachorro, por exemplo.

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A veterinária afirma ainda que o interesse pelo tema nasceu em função da relação quase paternal que os donos desenvolvem com seus cachorros de estimação. "Há estudos que mostram que 84% das pessoas dizem o cão é como um filho para eles", diz. Para Kate, a conclusão de seu estudo traz vantagens físicas e psicológicas para cães e proprietários, uma vez que libera os carinhos entre eles.

O próximo passo, segundo Kate, é analisar a relação da E. coli em gatos e seus proprietários. Segundo a veterinária, o estudo pode trazer novidades sobre o tema, já que a relação entre felinos e humanos é diferente da nossa relação com os cães.
Fonte:Revista Época.

VENHAM RECEBER AS VOSSAS MEDALHAS DA LIBERDADE.

por John Pilger.

A 13 de Janeiro George W. Bush entregou "medalhas presidenciais da liberdade", o maior reconhecimento da América à devoção à liberdade e paz. Entre os recipientes destas estava Tony Blair, o mentiroso épico que, com Bush, tem responsabilidade pela destruição física, social e cultural de uma nação inteira; John Howard, o antigo primeiro-ministro da Austrália e pequeno vassalo americano que dirigiu o governo mais abertamente racista na era moderna do seu país; e Álvaro Uribe, o presidente da Colômbia, cujo governo, de acordo com o último estudo desse estado assassino, é "responsável por 90 porcento de todos os casos de tortura".

Tal como a sátira foi tornada redundante quando Henry Kissinger e Rupert Murdoch foram honrados pelas suas contribuições para o melhoramento da humanidade, a cerimónia de Bush foi pelo menos esclarecedora do sistema do qual ele e o seu refrescante sucessor são produtos. Embora mais espectacular no seu histrionismo coreografado, a tomada de posse de Barack Obama transmitiu a mesma mensagem Orwelliana de verdade invertida: da brutalidade do poder criminal, senão mesmo da guerra infinita. A continuidade entre as duas administrações foi tão macia como a odiosa jura de lealdade de Bono, e simbolizada pelo juramento presidencial do presidente Obama na escadaria do Congresso – onde, dias antes, a Casa dos Representantes, dominada pelo partido do novo presidente, os Democratas, votou 390-5 para apoiar os ataques israelenses em Gaza. O fornecimento de armas americanas usadas nos massacres foi previamente autorizado por uma margem similar. Estas incluíam os mísseis Hellfire que tiram o ar dos pulmões, rebentam fígados e amputam braços e pernas sem necessidade de estilhaços: um "avanço importante", de acordo com a literatura da especialidade. Como senador, então presidente eleito, Obama não levantou objecções ao envio célere destas armas com tecnologia de ponta [sic] para Israel – no valor de 22 mil milhões de dólares – a tempo para o há já muito planeado assalto à população cercada e indefesa de Gaza. Isto é compreensível: é assim que o sistema funciona. Em nenhum outro tema o Congresso e o presidente, republicanos e democratas, conservadores e liberais, proporcionam um apoio tão absoluto. Em comparação, o Reichstag alemão nos anos 30 era um tesouro de debate democrático e com princípios.

Isto não significa que presidentes e membros do Congresso não reconheçam os lobistas de Israel no seu meio como bandidos e chantagistas políticos, embora nunca o digam em público. Chegam até mesmo a distrair-se em angariações de fundos sionistas e viagens pagas até ao objecto do seu ardor. Mas temem-nos. Enquanto os olhos se humedeciam a 20 de Janeiro pelo primeiro presidente afro-americano, quem se lembrava da corajosa congressista afro-americana Cynthia McKinney, a primeira a ser eleita pela Geórgia, que apoiou os palestinos e foi devidamente expulsa do seu cargo por uma campanha de difamação sionista? Por seu lado, o actual "cessar-fogo unilateral" falso em Gaza foi preparado para não embaraçar, por enquanto, o seu novo homem na Casa Branca, cujo único reconhecimento do "sofrimento" dos palestinos há muito foi eclipsado pelas juras de fidelidade a Tel Aviv (até prometendo Jerusalém como capital de Israel, o que nem Bush fez) e pela nomeação daquela que é provavelmente a administração mais pró-sionista desta geração.

Tão merecedores como Blair, Howard ou Uribe da Medalha de Liberdade de Bush, outros exigem o seu lugar nessa companhia. Com o ataque a Gaza, um momento decisivo de verdade e mentiras, princípios e cobardia, paz e guerra, justiça e injustiça, tenho dois nomeados. O meu primeiro vai para o governo e a sociedade de Israel (eu verifiquei, a medalha pode ser atribuída colectivamente). "Poucos de nós", escreveu Arthur Miller, "conseguem facilmente abdicar da visão que a sociedade deve, de alguma maneira, fazer sentido. O pensamento que um Estado tenha perdido a cabeça e esteja a punir tantas pessoas inocentes é intolerável. E assim, as provas têm de ser negadas internamente".

A ironia gritante disto devia ser clara em todo Israel, mas no entanto a sua negação encorajou um culto militarista e racista que usa todos os epítetos contra os palestinos que foram um dia dirigidos aos judeus, com a excepção do extermínio – e mesmo este não está totalmente excluído, como referiu o ministro da defesa adjunto, Matan Vilinai, com a sua ameaça de uma shoa (holocausto).

Em 1948, o ano em que o direito de existir foi concedido a Israel e retirado à Palestina, Albert Einstein, Hannah Arendt e outros judeus proeminentes nos Estados Unidos avisaram a administração para não se envolver com fascistas como Menachem Begin, que descreveu os palestinos como os nazis, como untermenchen – "animais com duas pernas". Tornou-se primeiro ministro de Israel. Este fascismo, que não era anunciado abertamente muitas vezes, foi o precursor do Likud e Kadima. Estes são hoje partidos políticos mainstream , cuja influência no tratamento dos palestinos cobre um "consenso" nacional que é a fonte do terror na Palestina: as expropriações brutais e controlos pérfidos, a humilhação e crueldade pelo estatuto. O espelho disto é a violência doméstica em casa. Os soldados regressam da sua "guerra" contra mulheres e crianças palestinas e fazem a guerra com os seus. Os jovens brancos no exército do apartheid sul-africano faziam o mesmo. Quando Desmond Tutu descreveu a sua experiência na Palestina e em Israel como "pior que o apartheid ", destacou que nem mesmo na África do Sul da supremacia branca havia os equivalentes às estradas para "judeus apenas". Uri Avnety, um dos mais corajosos dissidentes israelenses, diz que os líderes do seu país sofrem de "insanidade moral": um pré-requisito, devo dizer, para ser premiado para a Medalha da Liberdade de Bush.

O meu outro nomeado para a Medalha da Liberdade de Bush é o grupo amorfo conhecido como jornalismo ocidental, que sempre se vangloriou da sua liberdade e imparcialidade. Oiçam o modo como "porta-vozes" e embaixadores israelenses são entrevistados. Como as suas mentiras oficiais são respeitosamente recebidas, quão minimamente são desafiadas. Eles são um de nós, não vêm? Calmos e com um linguajar ocidental, até loiros, ou mulheres atraentes. A voz assustada e atrapalhada em linha de Gaza não é de um de nós. Esta é a mensagem subliminar. Oiçam os locutores usando apenas expressões pejorativas para os palestinos: palavras como "militantes" para os resistentes à invasão, muitos deles heróis, uma palavra nunca usada, e "conflito" por massacre. Notem a propaganda incessante que sugere que há duas forças iguais disputando uma "guerra", e não um povo acossado, atacado e esfomeado pela quarta maior potência militar do mundo, que se assegura de que este não tem lugar onde se refugiar. E reparem nas omissões – a BBC não menciona, antes das reportagens, que uma força estrangeira controla os movimentos dos seus repórteres, como fez na Sérvia e na Argentina, nem explica porque mostra apenas relances da extraordinária cobertura feita pela al-Jazeera do interior de Gaza.

Há mitos disseminados, também: que Israel sofreu terrivelmente com os milhares de mísseis disparados a partir de Gaza. Na verdade, o primeiro Qassam caseiro foi disparado para Israel em Outubro de 2001 e a primeira vítima mortal foi apenas em Junho de 2004. Vinte e quatro israelenses foram mortos deste modo, comparando com os 5 000 palestinos, mais de metade dos quais em Gaza, pelo menos um terço destes crianças. Agora imaginem se os 1,5 milhões de habitantes de Gaza fossem judeus ou refugiados kosovares. "A única atitude honrada para a Europa e a América é usar a força militar para tentar proteger o povo do Kosovo…", declarou o Guardian a 23 de Março de 1999. Inexplicavelmente, o Guardian ainda não apelou a uma "atitude honrada" para proteger o povo de Gaza.

É assim a regra das vítimas aceitáveis e das vítimas inaceitáveis. Quando os repórteres quebram esta regra são acusados de "preconceito contra Israel" e pior, a sua vida é tornada um inferno pelo ciber-exército hiperactivo que redige queixas, fornece material genérico e treina gente por todo o mundo para denegrir trabalho "anti-judeu" que não leu. Estas campanhas vociferantes são complementadas por ameaças de morte anónimas, que eu e outros já sofremos. A sua última táctica é invadir os websites. Mas é apenas desespero, porque os tempos estão a mudar.

Por todo o mundo, as pessoas que antes eram indiferentes ao arcano "conflito" no Médio Oriente começam agora a fazer a pergunta que a BBC e a CNN raramente fazem: Por que é que Israel tem o direito à existência, mas a Palestina não tem? Também se perguntam porque é que os fora-da-lei desfrutam de imunidade no mundo pristino do balanço e da objectividade? Os "porta-vozes" fluentes de Israel representam o regime mais fora-da-lei existente na Terra, incluindo as tiranias exóticas, de acordo como o registo de resoluções das Nações Unidas desrespeitadas e violações da Convenção de Genebra. Em França, 80 organizações estão a trabalhar para levantar processos criminais por crimes de guerra contra os líderes de Israel. A 15 de Janeiro o jornalista israelense Gideon Levy escreveu no Há'aretz que os generais israelenses "não serão os únicos a esconder-se em aviões El Al sob pena de serem presos [no estrangeiro]".

Um dia, outros jornalistas e os seus editores e produtores poderão ser chamados não apenas para explicar porque não contaram a verdade acerca destes criminosos, mas até para se sentarem no banco dos réus ao seu lado. Nenhuma Medalha de Liberdade de Bush vale isso.

O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=520 . Traduzido por João Camargo.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .