domingo, 23 de setembro de 2018

Giro das 11h: haverá armação no caso Adélio?

Áudios de Pedro Félix "adulando" Lula e Haddad

POLÍTICA - A gratidão para mim é o sentimento mais nobre. Viva o Pedro Félix.

Adulador de Lula, autor de áudios que viralizaram, sonhou que recebeu chaves de Moro para tirar o ex-presidente da cadeia

22 de setembro de 2018 às 15h00
Ouça acima alguns dos áudio de “adulador” de Lula
Áudios para ‘adular’ Lula e Haddad são gratidão por feitos no Nordeste, diz autor
Mensagens que viralizaram pelo WhatsApp brotaram da história de Pedro Félix, que trocou a roça pela construção e por conta de políticas sociais viu sua vida, da família e dos amigos se transformar
Em Lavras de Mangabeira, no interior do Ceará, a 434 quilômetros de Fortaleza, o sol esturricante é comum.
A cidade de 31 mil habitantes tem como principais atividades econômicas a agricultura, a pecuária e o trabalho nas indústrias localizadas nos municípios da microrregião do Cariri — uma das regiões visitadas pela Caravana Lula pelo Brasil, há um ano.
Em Mangabeira, um dos seis distritos da zona rural de Lavras, povoado em sua maior parte por agricultores, a rotina é de carências.
Lá nasceu e vive até hoje Pedro Félix Diniz, de 44 anos.
Pedro se identifica como construtor, porque faz um conjunto de atividades entre pedreiro, mestre de obras e operador na recuperação de edificações, ao lado de uma equipe de amigos.
Com pouco estudo, trabalhador da roça desde a infância ao lado dos cinco irmãos e do pai, que com mais de 70 anos continua com seu roçado, ficou conhecido nos últimos meses por gravar áudios engraçados e espalhar por redes sociais.
Neles, manifesta seu carinho extremo pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – “hoje acordei com uma vontade danada de adular Lula…”, diz em um dos mais famosos.
Os áudios, como ele conta, representam um reconhecimento das mudanças ocorridas em sua vida pessoal e em sua região depois dos governos de Lula
Depois da proibição da candidatura do líder petista pelo Tribunal Superior Eleitoral, Pedro Félix incorporou o entendimento de que “Haddad é Lula”.
E passou a gravar frases transferindo sua “adulação” para o candidato oficializado pelo PT à presidência da República.
Fernando Haddad, segundo colocado nas pesquisas eleitorais, segue em busca da transferência das intenções de voto que davam a liderança ao ex-presidente.
Muitos chegaram a achar que os áudios eram feitos por algum comediante, ou tinham orientação publicitária.
Pedro, por sua vez, fica assustado quando é chamado para participar de algum programa de rádio.
Os áudios, como ele conta, representam um reconhecimento das mudanças ocorridas em sua vida pessoal e em sua região depois dos governos de Lula.
São sua forma de “lutar” para que o país volte a oferecer condições para os que querem trabalhar, investir e, como ele, “melhorar de vida”.
Dividir sandálias
“Eu falo em tom de brincadeira quando digo que vou dar meu dedo mindinho ao doutor para implantar no Lula, ou quando peço para ser preso com o Lula, mas isso tudo traduz minha verdade. Esse homem mudou minha vida e a de minha família. E o Haddad é o candidato capaz de fazer voltar os programas que foram implantados da época dele até o impeachment da Dilma”, ressalta.
Da infância à adolescência, Pedro tinha de dividir sandálias com o irmão que tivesse o número do pé mais próximo do dele, todas as vezes em que o pai comprava calçados para a família.
“O dinheiro não dava para comprar para todo mundo, então meu pai comprava um par para dois filhos. Um calçava durante a manhã e o outro à tarde e a gente se dividia sobre os lugares para onde iria trabalhar para não ir descalço onde a falta de sapato fizesse os pés doerem mais.”
Um dia, no período de entressafra, quando não há nada a ser plantado e as pessoas procuram atividades provisórias para ganhar um dinheirinho até voltar ao roçado, ele arrumou uma ocupação como ajudante de pedreiro.
Pôs na cabeça: “Prefiro essa vida do que trabalhar na roça”.
Achou que tinha encontrado ali sua vocação.
Aprendeu tudo direitinho, voltou para a plantação ao lado do pai e dos irmãos, mas continuou em paralelo como ajudante em obras diversas.
“Muitas vezes, o pessoal não confiava em mim, não achava que eu soubesse fazer direito. Então eu dizia ‘deixa eu trabalhar de graça. Vou aprendendo e você vai vendo que eu sei fazer. Se eu errar, pago o prejuízo’.”
Ganhou confiança, chamou colegas para montar uma equipe e começou, ele mesmo, a trabalhar em reformas de casas, consertos, pintura.
Mais adiante, passou a construir e a ganhar mais credibilidade.
A vida continuava dura, mas tinha ficado um pouco melhor.
Reflexo de políticas sociais
As políticas públicas que passaram a influenciar a vida das pessoas pobres no Nordeste a partir de 2003 não demoraram a surtir efeito.
Com a transferência de renda, a valorização do salário mínimo e a oferta de crédito surge uma nova classe consumidora.
As economias de pequenas cidades e microrregiões se transformam.
Não à toa, em recente entrevista ao Jornal da Globo, Haddad observou que o PIB no Nordeste cresceu em ritmo chinês na década passada.
E entre os que passaram a ter possibilidade de ter em casa uma televisão de plasma, uma geladeira nova e mais moderna, um telefone celular, escola para as crianças, também veio a vontade de reformar ou pintar a casinha.
Pedro sentiu o impacto positivo disso tudo.
Conta que desse período até 2016, trabalhou tanto que a vida de extrema pobreza que levava se transformou.
Ele hoje é dono de duas casas.
A primeira, onde vivem seus pais e irmãos, e outra onde mora com a mulher e os dois filhos.
A sua, diz com orgulho, “tem primeiro andar”.
Foi também o primeiro morador da cidade a comprar um automóvel Gran Siena, da Fiat.
“Cheguei todo feliz na concessionária para tirar meu carrinho sonhado. Na época, custou R$ 45 mil. Nunca pensei que chegaria a isso algum dia.”
Pedro ajuda até hoje familiares e prossegue com sua equipe fazendo trabalhos no município.
Mas reclama que sente o tranco da crise econômica, que os pedidos não são como antes, o trabalho caiu.
Reflexo do golpe
“Dá para viver, mas o que temos notado desse governo para cá é uma queda grande para todo mundo. Eu faço estes áudios por brincadeira, mas também porque precisamos da volta do Lula. E eu sei que o Haddad vai retomar a linha de trabalho implantada no governo dele e da Dilma”, afirma, prometendo fazer “tudo o que for possível para contribuir para a transferência de votos de Lula para Haddad”.
“Oxe, menino. Lula é Haddad e Haddad é Lula.”
Sobre o fato de ter um candidato cearense na disputa, Ciro Gomes (PDT), afirma que não vê problema.
“O voto do Lula é do Lula. As pessoas até gostam do Ciro, mas entre ele e o candidato do Lula, vamos votar no Haddad.”
Ele só tem uma reclamação, mas que considera superável.
“Só tenho problema com o Camilo Santana (atual governador do Ceará, do PT, que tem como candidato em sua chapa o senador emedebista Eunício Oliveira). Fiquei chateado com ele porque está unido com o Eunício e o Eunício é do MDB do Temer, ajudou no impeachment da Dilma. Mas se é para ajudar o PT, aqui em casa estaremos com Camilo também.”
E explica. “O que acontece é que hoje a gente vive muito preocupado com a situação do país. As pessoas voltaram a viver em dificuldade outra vez. Eu fiquei espantado com a amplitude que minhas mensagens tiveram, mas se elas puderem ajudar a eleger o Haddad, já estou satisfeito. Muitas pessoas que não iam votar nele já me procuraram para dizer que mudaram de ideia depois de conversar comigo. Falo e brinco dessa forma porque sou louco pelo Lula de verdade, porque senti na pele os efeitos do governo dele.”
Quando indagado sobre o candidato a presidente pelo PSL, Jair Bolsonaro, Pedro Félix diz que não o vê como uma ameaça ao PT, ao menos no Nordeste.
“Não é daqui, não demonstra conhecer a sofrência (sic) do nosso povo com a seca, não vai trazer nada de bom para os nordestinos. Já Haddad tem todo o caminho a percorrer que foi deixado por Lula e que nos ajudou a melhorar. E não foi pouco não, pode perguntar para as outras pessoas”, acrescenta.
Lavras de Mangabeira fica a 60 quilômetros de distância de Juazeiro do Norte, uma das maiores cidades do Ceará, onde está previsto comício com Haddad nas próximas semanas.
O sonho de Pedro, agora, é ir até lá para ouvir “o que o substituto do Lula vai falar” e, se conseguir, tirar uma foto ao lado de Haddad.
O sonho maior, de estar ao lado de Lula, nunca foi realizado, mas ele diz que espera um dia conseguir realizá-lo.
“Se Haddad me receber em Juazeiro levo até minha bicicleta (que é constantemente citada nos áudios e utilizada no seu trabalho) para ele sentar nela”, diz.
Mídia espontânea
A ideia de Pedro Félix de fazer áudios começou em 2016, logo após o impeachment de Dilma Rousseff. Mas os áudios viralizaram mesmo depois da prisão de Lula, no primeiro semestre.
As mensagens contagiaram primeiro os amigos próximos, passaram a ser reproduzidas para várias cidades do Ceará e ganharam o Brasil.
“Olha só isso”, contou rindo o publicitário Alexandre Fernandes, que tinha acabado de receber um dos áudios de um colega, durante almoço de trabalho no restaurante Francisco – ponto frequente de encontro de políticos e assessores parlamentares em Brasília, na última semana.
“Em Fortaleza todo mundo conhece essas mensagens, só não tem muita ideia de quem é o cara que está por trás delas”, afirmou o engenheiro agrônomo Marcio Rodrigues, brasiliense que mora há 15 anos na capital cearense e vai todo mês a Brasília.
Com a formalização da candidatura de Haddad, Pedro Félix passou a ter o ex-ministro e ex-prefeito paulistano como principal alvo.
A mídia espontânea é direta e ele tem, inclusive, na imagem que ilustra seu perfil no aplicativo WhatsApp, uma foto dele com os dizeres “Haddad é Lula”.
“Tive um sonho em que estava debaixo de um pé de goiabeira e o Lula me pedia para adular Fernando Haddad. Disse a ele: homem, pois já está adulado”, afirma, numa das mensagens.
“Eu tinha coragem de passar os 12 anos na cadeia mais Lula”, ressalta em outra, com sotaque carregado.
“Meu sonho era pegar um dedo que tenho aqui e o doutor fazer um transplante para colocar nele, para ele ficar com os dedos completos, sem faltar mais nada”, diz.
“Quando como uma galinha capoeira cozinhada com cuscuz, não lembro de outra pessoa não. Só do Lula. Fico imaginando, será que o bichinho já almoçou nesse instante?”, arremata na seguinte.
“Se pudesse, faria tudo o que digo”
Felix revela já ter feito mais de 500 áudios, pelas suas contas, e não tem noção da quantidade de vezes que foram reproduzidos.
Já concedeu inúmeras entrevistas, com esta, ao Brasil de Fato.
“Sei de gente na Paraíba, Pernambuco e Maranhão que está recebendo essas mensagens. É uma coisa fora do comum, nunca pensei que fosse chegar a uma repercussão desse tamanho”, conta.
“Somos do sertão, pessoas pobres e sem chances. O Brasil teve muitos presidentes, mas só o Lula conseguiu fazer tanta coisa. O que eu falo sai de dentro de mim, do meu coração. Se pudesse, faria tudo aquilo que digo nos áudios”, destaca.
Na avaliação da professora da faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) e doutora em Ciência da Informação, Márcia Marques, a repercussão dos áudios de Pedro Félix é reflexo do que tem acontecido nos últimos tempos em todo o mundo, que está mexendo com o “fazer” da comunicação e levando os profissionais a avaliarem outras formas de comunicar.
“As pessoas não comentam mais nas redes sociais uma postagem, vão lá e fazem elas mesmas. Esse protagonismo está aparecendo e tem sido muito favorecido pela mídia digital. É interessante e tem conseguido passar o recado. Tem uma característica que foge da mídia hegemônica”, afirma.
“Ele segue, ao seu modo, o caminho que o pessoal da Porta dos Fundos (conjunto de vídeos que viralizaram na internet e depois resultaram em um programa, veiculado na televisão) começou lá atrás, reservadas as proporções por que lá os participantes eram profissionais de comunicação e o Pedro, não. Hoje todo mundo sabe imitar uma repórter de TV, todo mundo sabe agir como um repórter de rádio”, destaca a professora.
Para a profissional em marketing Fernanda Estelita Soares, iniciativas do tipo são formas de expressão que têm tudo para serem expandidas neste período eleitoral, sobretudo num momento em que são publicadas informações falsas (as fake news) e contratados robôs para sugestionar os eleitores sobre os atuais candidatos.
“Os áudios do Pedro Félix consistem numa forma natural de se expressar da população mais simples. Representam uma outra via encontrada pela massa para passar sua mensagem diante do império da mídia tradicional. E, ainda por cima, trazem o apelo bem-humorado do sotaque do homem simples nordestino”, explica a professora.
“Não me espantarei se souber de vários apresentados por autores diferentes.”
Enquanto isso, Pedro segue com suas atividades e seu jeito. Está longe de ser rico e trabalha duro ao lado da sua equipe.
Tanto que não pode atender celular durante o dia, quando está nas obras.
Volta para casa durante a noite. O telefone quebrou e, em vez de trocar por um mais novo, mandou consertar.
Mas sabe que os pais, ele e os irmãos possuem outras condições econômicas em relação aos anos 1990 e que os filhos estão sendo criados, hoje, em situação bem melhor do que a dele.
Não pede um governo de vantagens, nem benefícios, só a chance de continuar tendo a oportunidade de ser chamado para mais serviços. E ver as pessoas próximas também levando uma vida melhor. “Com menos sofrência.”

sábado, 22 de setembro de 2018

Haddad se emociona ao falar de injustiça contra Lula

Haddad se emociona ao falar de injustiça contra Lula

A facada em Bolsonaro e a conspiração em curso

ANOS DE CHUMBO - Episódio conhecido como "Chacina da Chácara"

Por causa da traição do Cabo Anselmo, um estudante, namorado da minha prima, foi assassinado junto com mais cinco companheiros,a, no que ficou conhecido como a Chacina da Chácara, em Pernambuco. O traidor não poupou nem sua companheira chamada Soledad, que estava grávida de um filho seu. Minha prima, que não tinha nenhum envolvimento com política, foi presa por namorar um "subversivo", que eles caçavam. Ficou um ano presa, sofreu torturas, porque os caras queriam que ela revelasse detalhes da organização que ele pertencia e onde estava escondido, coisas que ela não tinha a menor ideia. Depois de solta, tinha que se apresentar todo mês, no DOI-CODI da rua Barão de Mesquita, na Tijuca e, isso, até que soube que seu namorado tinha morrido, quando deixaram ela em paz.
E tem gente que tem saudades da ditadura, ou pior, a negam.
PS. Urariano Mota escreveu um livro no qual revela detalhes da vida da Soledad, companheira do traidor.
Cabo Anselmo, que foi responsável pela prisão e morte de vários resistentes da ditadura, como disse a autora do livro "Born Subversive", continua livre e solto, passeando no calçadão da Av. Atlântica, enquanto Lula, outro combatente da ditadura continua preso na masmorra de Curitiba.

 
Urariano Mota 

Memória da ditadura, memória da filha de um bravo


Em dados objetivos, um jornalista diria que o livro Nasci Subversiva será lançado em dezembro, pela Mundo Aflora Edições. A obra foi publicada primeiro em inglês sob o título de “Born Subversive”. E sua autora, Nadejda Marques, é filha única de Jarbas Pereira Marques, um dos militantes assassinados no Recife sob encomenda do Cabo Anselmo.

Jarbas foi um dos 6 executados no mesmo massacre que levou Soledad Barrett em 1973. E mais diria: este livro fala de uma Nadejda mulher, extraordinária na sobrevivência e luta, que se tornou Pesquisadora de Direitos Humanos nas universidades de Stanford e Colorado, nos Estados Unidos.

Mas nós escritores, com a memória do maldito tempo que os militares ameaçam hoje com a sua volta, temos o dever e a graça de falar duas ou três coisas. A primeira delas é que este é um livro de experiência amadurecida, mas que guarda no seu amadurecimento o paradoxo do frescor. Isso porque a recordação de Nadejda fala do que aconteceu ontem como se houvesse acontecido hoje de manhã: 

“Conheci meu pai através de algumas fotografias antigas em preto e branco: cinco no total. A primeira era uma pequena foto do tipo das que se usavam para carteira de identidade. Eu vi essa foto em um livro intitulado Dossiê dos mortos e desaparecidos durante o a Ditadura desde 1964 no Brasil. O livro foi escrito por iniciativa da Comissão de Famílias de Mortos e Desaparecidos e o Instituto Estudos da Violência do Estado, IEVE. Das páginas daquele livro meu pai me olhou diretamente nos olhos e eu olhei para ele. Primeiro, busquei algum aspecto físico que eu pudesse reconhecer. A foto não era muito boa. "Eu pareço com ele?", perguntei a mim mesma. Minha avó paterna costumava me dizer que eu e ele tínhamos os mesmos olhos. - Será? Lá estava ele, na minha frente, bidimensional em preto e branco. Sua vida e morte narradas em um curto parágrafo e uma pequena fotografia. Agora que já vivi mais do que meu pai por mais de uma década, não pude evitar o pensamento de que tudo teria sido diferente se ele não tivesse sido morto. Às vezes, fico observando como meu esposo e minha filha brincam seus jogos favoritos. Haveria algum vínculo especial entre as meninas e seus pais? Como seria essa relação? Sinto falta do que não tive”. 

A segunda coisa é que Nadejda Marques fala da sua luta e marcas sem desespero. Serena, se assim podemos dizer, quando na verdade é fala calma sobre o que mais sofreu, como se fosse um novo Cristo a caminhar sobre as ondas do mar. Mas como é verdadeira! Num dos trechos mais tocantes, o livro conta para todos nós, de todos os tempos e idades: 

“A mentira causa dor, mas também dói. Sei disso porque também sei mentir. Quando criança aprendi a mentir e talvez algumas mentiras tenham salvo minha vida. Aprendi a mentir porque acreditava que estava protegendo os que eu amo... Talvez a mentira que mais tenha me marcado seja o dia em que menti sobre minha mãe. Tinha treze anos e voltava da escola em um ônibus escolar, quando um estranho subiu. O homem sentou-se duas cadeiras de onde eu estava e não falou com nenhuma das crianças. Eu acho que ele nem falou com o motorista. Talvez tenham trocado um cumprimento, ou um gesto com as mãos, com os olhos. O ônibus chegou na minha parada. 

O homem olhou para fora do ônibus, se aproximou de mim, apontou para minha mãe em pé em frente ao nosso prédio e puxando conversa perguntou: 

- Aquela é a sua mãe? 

Lá, estava ela, em pé, me esperando. Sempre linda. Carrego essa imagem comigo. Ela nem sempre me esperava no ponto do ônibus, mas nesse dia lá estava ela. Com um lenço na cabeça, uma moda de quando ela era mais jovem, penso eu, ou talvez de quando estávamos em Cuba. Mas, entrei em pânico, porque naquele momento eu achava que era uma coisa que chamava a atenção. Meu irmão e minha irmã talvez estivessem na escola ainda. Minha mãe me esperava, e provavelmente almoçaríamos juntas. Eu balancei a cabeça e franzi um pouco a boca. Calmamente eu respondi: 

- Não senhor. Não é. Não conheço essa mulher”

Mas este apresentador não é parte estranha à história de Nadejda Marques. Eu conheci e conversei com Jarbas Pereira Marques, pai de Nadejda, em um momento inapagável do Recife em 1972. Tanto, que escrevi sobre esse encontro em “Soledad no Recife” e no mais recente romance “A mais longa duração da juventude”. Nele, Tercinha, mãe de Nadejda, se torna Nelinha. A própria Nadejda se faz Krupskaia. E o personagem Vargas, cujo modelo é Jarbas, ocupa um lugar marcante de heroísmo angustiado e do maior amor e dignidade, em suas horas finais: 

“- Sente aqui, bem junto – e descem sobre o sofá da sala. 

Vargas põe o rosto de Nelinha entre as mãos: 

- Me prometa. Aconteça o que acontecer, você continuará a sua vida. Entende? Dê à nossa filha a tranquilidade que eu não tive. Saiba, amor: estes dias passarão. Repita: estes dias passarão. Repita comigo: estes dias passarão. 

Nelinha repete como em uma prece: 

- Estes dias passarão.

- Você merece toda a felicidade do mundo – Vargas fala. – Você é digna do amor maior que não pude dar. 

- Por quê? Fale, Vargas. 

- Eu só quero que você saiba. Eu sou um homem. Eu te amo com todas as minhas forças. Só isso. Eu sou um homem. Eu sou apenas menor que o meu coração. 

- O que houve?! 

- Nada não. Eu estou com febre. Deve ser isso. 

- A polícia te procura?

- Acho que não. Mas se me acontecer alguma coisa, pegue Krupskaia e desapareça, entende? Se eu não voltar amanhã, avise à minha mãe. Diga que estou com o pensamento nela. Que no futuro estaremos juntos, eu, você e Krupskaia, entende? – Vargas se ajoelha: - Eu prometo que tu não serás machucada. Eu me entrego somente a meu amor. Eu me entrego a você”. 

Neste livro, pude contar: a palavra pai aparece 146 vezes. Mãe, 132. Tortura, 42. Ditadura, 63. Brasil, 309 vezes. Na verdade, o Brasil, a tortura, pai e mãe estão em todas as paginas como uma teia inescapável, clara ou implícita. Como uma razão de ser e de viver: 

“Talvez eu tenha resolvido escrever este livro porque quando moramos no Rio, minha mãe, nervosa e ainda tremendo, mas em voz clara me contou que viu o homem que a traiu e matou meu pai e seus companheiros: o Cabo. Ele torturou e matou o meu pai e seus companheiros e estava caminhando calmamente no calçadão de Copacabana em pleno Rio de Janeiro! Ele vive entre nós. Vez ou outra ele concorda em dar entrevistas e posar para a mídia local. Ele mente. Ás vezes ele tenta posar como celebridade ou como um herói da ditadura. Às vezes se faz de vítima. Bem sabe ele que sempre que aparece é como uma ameaça velada tripudiando dos que caíram. 

- Era ele. Eu o reconheci e ele caminhava normalmente como se nada tivesse acontecido”. Hoje, no bairro recifense da Macaxeira, tem uma rua de nome Jarbas Pereira Marques. A Macaxeira é um bairro operário, da famosa fábrica de tecidos de Pernambuco. Faz sentido. No Recife das lutas libertárias, no meu romance e neste livro da filha Nadejda, Jarbas Pereira Marques continua vivo. Ele é memória indispensável deste tempo do Brasil de novos enfrentamentos. Presente, Nadejda Marques, presente, Jarbas Pereira, presente, Tercinha.
* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa duração da juventude” 

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O mundo todo já sabe da farsa jurídica contra Lula!

POLÍTICA - Também sempre achei isso. Não vejo ninguém falar em combater esses desvios.


Marcelo Zero: Sonegação, evasão de divisas e juros estratosféricos desviam muito mais do que a corrupção política


Tomaz Silva/Fotos Públicas
Os Mitos Sobre a Corrupção e as Eleições
por Marcelo Zero, via whatsapp
O nosso país já teve muitos intérpretes, de Gilberto Freyre a Florestan Fernandes, passando por Sérgio Buarque de Hollanda, Raimundo Faoro, Caio Prado Júnior e Celso Furtado, entre vários outros.
Todos eles interpretaram o Brasil a partir de vários fatores estruturais de natureza diversa: econômica, social, política, histórica, cultural etc.
Entretanto, há também a ubíqua e superficial “interpretação moralista do Brasil”, que intenta “explicar” os problemas da nação, não com fundamento em fatores estruturais e históricos da nossa formação, mas com base em supostas deficiências éticas e morais e na predominância da corrupção.
Muito ao gosto das classes médias tradicionais e conservadoras, essa “interpretação” do país, não é, evidentemente, algo novo. Na realidade, ela sempre esteve presente em embates políticos no Brasil contemporâneo.
Com efeito, a luta contra governos mais progressistas sempre foi feita sob a égide do “combate à corrupção”.
Foi assim no embate contra Getúlio, cujo suicídio, impulsionado pelo udenismo, acabou por levar ao poder Jânio Quadros, o qual, com sua vassoura moralizadora, além de não ter dado nenhuma resposta ao problema da corrupção, abriu caminho para a aventura autoritária do golpe de 1964, realizado também sob o manto moralizador do combate aos corruptos e aos comunistas.
Mais recentemente, a introdução das políticas neoliberais no Brasil foi legitimada pela “caça aos marajás” e aos “corruptos”.
Ultimamente, predomina na mídia conservadora e na oposição, uma “nova” versão dessa interpretação, o neoudenismo.
Tal como as antigas versões, o neoudenismo não explica realmente nada, apenas vocifera contra a impunidade, sem se debruçar sobre as causas concretas e estruturais dos problemas do país e da própria corrupção.
Obviamente, essas causas não se relacionam tanto com a suposta impunidade, que vem sendo combatida com o crescente fortalecimento das instituições independentes de controle e a promoção da transparência, mas sim com a privatização do Estado brasileiro e com a exclusão econômica, social e política de vastas parcelas da população.
Mas embora o neoudenismo não explique nada e, portanto, não tenha nada de concreto e racional a propor, ele serviu, como no passado, para reiterar ataques aos governos progressistas do PT e, de forma mais ampla e profunda, para criminalizar a atividade política, judicializar a política e extinguir a soberania popular embasada no voto.
A direita brasileira, órfã do neoliberalismo fracassado, não tem nenhum discurso propositivo viável, para além do regresso do paleoliberalismo, e se dedica desesperadamente à exploração demagógica dos “escândalos” seletivos amplificados pela moral de ocasião.
Ele também serve para criar alguns mitos, que se tornaram praticamente “senso comum” na mídia conservadora e em vastos setores da população, especialmente entre os setores mais conservadores das classes médias.
Tais mitos alimentam uma visão profundamente distorcida do processo político recente e da própria sociedade brasileira. Daí a importância de desmascará-los.
1- Nunca houve tanta Corrupção como nos Governos do PT
Na realidade, é o contrário. Como bem afirmou o empresário tucano Ricardo Semler, em seu famoso artigo publicado na Folha de São Paulo, “nunca se roubou tão pouco”.
Com efeito, uma análise fria do período histórico recente do Brasil, elaborada sem uma contaminação com a histeria neoudenista, demonstra que os governos Lula e Dilma foram os que mais contribuíram para o combate à corrupção, ao atacar as suas causas e os fatores que a exacerbam.
Em primeiro lugar, tais governos fortaleceram extraordinariamente as instituições de controle da administração estatal e promoveram intensamente a transparência da gestão pública.
As operações especiais da polícia federal passaram de ao redor de 6 ao ano, nos governos do PSDB, para cerca de 250 ao ano, nos governos do PT. Nas duas gestões de FHC, tais operações somaram somente 48. Nas gestões Lula e Dilma, tais operações especiais já ascendem a 2.226.

Fonte: PF (Relatórios 1995-2013); gráfico elaborado pelo autor do artigo
A Controladoria Geral da República, motivo de chacota pública no governo anterior ao de Lula, tornou-se uma eficiente instituição que fiscaliza com rigor as verbas federais destinadas aos municípios.
As procuradorias e o Ministério Público foram igualmente fortalecidos e, hoje, desempenham suas funções com independência e desenvoltura.
Extinguiu-se a triste figura do “engavetador-geral”, com a escolha de procuradores independentes, indicados pelo corpo técnico das instituições.
O mesmo aconteceu no âmbito da Polícia Federal, que passou a ser dirigida por delegados sem vínculo político com o governo, como aconteceu nos tempos do PSDB.
O notável fortalecimento do Judiciário, ocorrido em período recente, também contribuiu para que os ilícitos fossem apurados com maior rigor e celeridade.
De essencial importância foi a aprovação, no período dos governos do PT, de leis fundamentais para o combate à corrupção, como a Lei das Organizações Criminosas.
Esta última permite, agora, que os corruptores, que antes eram ignorados nas investigações, sejam também processados e punidos, como está se vendo na chamada Operação Lava-Jato.
Ao mesmo tempo, com a criação do Portal da Transparência, a Lei de Acesso à Informação e várias outras medidas semelhantes, a administração pública federal tornou-se muito mais receptiva ao “detergente da luz do sol”, para usar a expressão famosa do juiz Louis Brandeis.
A sociedade civil atenta e informada exercerá sempre o melhor controle sobre o Estado.
Observe-se que esse comprometimento com o combate à corrupção e com a transparência na administração pública se estende também ao campo internacional.
O Brasil é um dos membros fundadores da Open Government Partnership, iniciativa internacional destinada a promover as boas práticas administrativas e programas e projetos que visam aumentar a transparência dos governos e submetê-los a um maior controle da sociedade.
Em segundo lugar, os governos de Lula e Dilma iniciaram um processo de “desprivatização” do Estado, direcionando fortemente as políticas públicas para o combate à exclusão econômica e social da maioria da população.
Concomitantemente, geraram também um processo lento, mas seguro, de construção e fortalecimento de cidadania, que tende a colocar o aparelho estatal sob a égide e controle de um verdadeiro interesse público, e não mais sob o tacão de alguns interesses privados dos grupos secularmente dominantes.
De fato, os governos Lula e Dilma iniciaram uma verdadeira revolução social no Brasil, retirando cerca de 36 milhões de pessoas da pobreza extrema e propiciando a ascensão à classe média, ou à classe trabalhadora, a cerca de 42 milhões de cidadãos brasileiros.
Essa melhoria substancial das condições de vida da população antes desassistida, inclusive no que tange às oportunidades educacionais, também tende, de forma indireta, a arrefecer a ocorrência do fenômeno da corrupção no Brasil.
O país tem hoje uma cidadania mais crítica e reivindicadora, que é o fundamento último de qualquer ação de controle efetivo do Estado.
Os programas sociais e as outras medidas de combate às desigualdades e à pobreza, ao contrário do que se disse nos últimos anos, fizeram emergir cidadãos mais atuantes e conscientes de seus direitos.
Observe-se que política nacional de participação social do PT, embora tímida, vinha abrindo as portas do Estado brasileiro aos setores populares, portas antes acessíveis apenas aos representantes do poder econômico e a grupos fortes e articulados.
Ademais, os governos do PT robusteceram o Estado e suas carreiras públicas.
A Convenção da ONU contra Corrupção considera o fortalecimento do funcionalismo público, inclusive mediante o pagamento de salários adequados, como uma das principais medidas preventivas contra a corrupção.
Evidentemente, esse amplo leque de programas e ações contra a corrupção e os desvios aumentou substancialmente as denúncias, fundamentadas ou não, de casos de corrupção, o que pôde ocasionar a falsa impressão de que a corrupção havia crescido.
A mídia conservadora, que confessadamente atua como um partido político de direita, tendia a reforçar essa falsa impressão, muitas vezes exagerando o escopo das denúncias e, por vezes, apresentando simples suspeitas, algumas sem nenhum fundamento, como provas irrefutáveis de culpabilidade.
Assim, o Brasil, nos governos do PT, não viveu uma crise de corrupção. Viveu, isto sim, a crise do fim de sua histórica impunidade. O que antes era varrido para debaixo do tapete, aparecia e era investigado a sério, mesmo com todas as distorções criadas por juízes e procuradores partidarizados.
Porém, a luta efetiva contra a corrupção, um mal histórico do Brasil e de muitos outros países, está apenas começando.
É necessário avançar muito mais. É preciso, sobretudo, transformar a revolução social ocorrida nos governos do PT numa revolução política.
Assim sendo, o próximo e essencial passo é uma Reforma Política profunda.
Com efeito, tal reforma é fundamental para limitar a influência avassaladora do poder econômico sobre o sistema de representação e o aparelho do Estado.
Ela é essencial para colocar as instituições e políticas públicas a serviço do cidadão comum e dos setores populares e, dessa forma, desatar, em definitivo, as amarras políticas ao nosso desenvolvimento ditadas pelo presidencialismo de coalizão, a sobre representação de interesses dos grandes grupos econômicos e tantas outras mazelas do Estado brasileiro.
2- A Corrupção é o maior Problema do Brasil
Não é. Ao contrário do que apregoa a ubíqua visão neoudenista e moralista, que tende a “explicar” todas as mazelas do país mediante a corrupção, a corrupção estrito senso está longe de ser nosso principal problema.
É claro que a corrupção, principalmente a corrupção dos agentes públicos, é um problema sério, que precisa ser combatido, como, de fato, está.
Mas há outros fenômenos que acarretam prejuízo bem maior ao erário público.
No Brasil, embora não existam estatísticas precisas sobre o assunto, pode-se argumentar com facilidade que sonegação, os juros estratosféricos e a evasão de divisas desviam muito mais que a corrupção política estrito senso.
Segundo o SINPROFAZ – Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional, a sonegação desviou dos cofres públicos cerca de R$ 500 bilhões somente em 2014.
Brasileiros teriam mais de R$ 1 trilhão em paraísos fiscais, e a maior parte disso é, sem dúvida, dinheiro sonegado e evadido para lá ilegalmente. O caso do HSBC suíço é apenas a ponta de um gigantesco iceberg.
Os juros “desviam” outros R$ 200 bilhões. Por certo, esses juros altíssimos cobrados aos consumidores e às empresas causam um prejuízo enorme à economia produtiva de um modo geral.
Perto desse prejuízo colossal, o prejuízo da corrupção em senso estrito é bem menor.
Segundo o Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da FIESP (Federação das Indústrias de São Paulo), os prejuízos econômicos da corrupção, inclusive os indiretos, como os relativos a cancelamentos de investimentos, chegariam a R$ 67 bilhões de reais por ano.
Fonte: Auditoria Cidadã, SINPROFAZ, FIESP; gráfico formulado pelo próprio autor deste artigo
Como se vê, há outros tipos de desvios que causam prejuízo bem maior aos recursos públicos e colocam obstáculos muito mais difíceis ao nosso desenvolvimento econômico e social que a corrupção estrito senso.
Os juros estratosféricos e as amortizações da dívida pública, a evasão de divisas e a ampla e ubíqua sonegação desviam um volume muito superior de dinheiro público.
Contudo, o discurso neoudenista coloca ênfase praticamente exclusiva na corrupção, especialmente na corrupção política, porque os seus alvos são o Estado e o governo, não o capital e o poder econômico. Nesse sentido, o neoudenismo é irmão ideológico do neoliberalismo.
Ele também busca a “demonização” e a “deslegitimação” do Estado, o enfraquecimento dos governos progressistas, além, e isso é o mais grave, o enfraquecimento da própria democracia.
Na mídia conservadora, ela também fonte expressiva de sonegação e evasão, os grandes “escândalos”, fabricados ou reais, se resumem, normalmente, à corrupção política, visando à condenação do aparelho estatal e, sobretudo, de políticos de esquerda.
No contexto do neoudenismo, a indignação moral é seletiva em mais de um sentido. Condenam-se os corruptos, mas os corruptores são, em geral, poupados, via delações premiadas extremamente suspeitas, e a caracterização do mercado como fonte de todas as virtudes.
Os políticos progressistas, especialmente os do PT, foram e são submetidos implacavelmente à ira dos supostos combatentes da corrupção, mas os políticos da direita, muitas vezes envolvidos nos mesmos processos, e com provas materiais abundantes, são curiosamente ignorados, especialmente os do PSDB.
O poder político e suas instituições (partidos, Senado, Câmara, Presidência da República etc.) são objeto de escárnio, mas o poder econômico, centrado no capital financeiro internacionalizado, que corrompe e distorce o poder político, é poupado de julgamentos éticos.
Contudo, independentemente do tipo de desvio e da indignação seletiva promovida pelo neoudenismo, é preciso considerar que o grande problema do Brasil, o elemento maior que nos define como sociedade e que mais limita nosso desenvolvimento, tange à nossa histórica desigualdade e à nossa pobreza.
Há países que crescem a taxas extraordinárias, mesmo com índices muito elevados de corrupção sistêmica, como a China, por exemplo.
Porém, não há país realmente desenvolvido no mundo com um alto grau de desigualdade e pobreza.
Um país continental como o Brasil, com uma população que já alcança mais de 200 milhões, tem de fundamentar seu desenvolvimento econômico num mercado interno amplo e dinâmico, o que implica a criação de uma volumosa classe média ou classe trabalhadora, e o combate à desigualdade extrema e à pobreza.
Assim sendo, não há melhor forma de promover o desenvolvimento econômico que promover também o desenvolvimento social e a ampliação das oportunidades para uma população antes excluída quase que totalmente dos benefícios do crescimento.
O grande problema estrutural brasileiro, nosso grande limitador, nunca foi, portanto, a corrupção, nem tampouco as outras formas de desvio dos recursos públicos, mas sim os limites que a sociedade e a economia brasileiras impunham ao crescimento econômico, social e político da maior parte da nossa população.
A desigualdade, a exclusão, pobreza, a falta de acesso à Educação, não a corrupção, é que estão na origem dos nossos principais entraves e problemas.
Por conseguinte, e num sentido mais profundo, a desigualdade, a exclusão e a pobreza se constituem na Grande Corrupção do Brasil.
Junto com o longo histórico da escravidão, elas se constituem no “pecado original” que determina ou condiciona todos os outros. Esse é o nosso primeiro e fundamental problema econômico, social, político e ético.
3- O Combate à Corrupção como Sucedâneo da Política e Escusa para a Destruição da Democracia e da Economia Nacional
Ao contrário do que ocorre, por exemplo, na Europa, aqui a direita e a centro-direita tradicionais insuflaram, na crise instalada, um fascismo ascendente e apostaram tudo na ruptura democrática.
As nossas oligarquias econômicas e políticas, que nunca foram elites, no sentido que Pareto e Mosca emprestam ao termo, romperam com a democracia. Romperam com a democracia e romperam com o país. Essa é que é a triste verdade.
Insuflaram as forças mais retrógadas do Brasil para dar um golpe contra a presidenta honesta e colocar no poder a “turma da sangria”.
Saíram às ruas junto com Bolsonaro, MBL e outros grupos protofascistas, que pediam intervenção militar e condenavam a democracia e a política de um modo geral. Chocaram o ovo da serpente que injetaria veneno mortal em nossas instituições democráticas.
Em sua obsessão irracional de tirar o PT do poder a qualquer custo, abriram a caixa de Pandora do nosso fascismo tupiniquim, que agora floresce e os engole.
Na sua sanha em derrubar a presidenta eleita, destruíram a democracia e jogaram na lama o voto popular. Em sua tentativa de limar a credibilidade do PT, destruíram a legitimidade de todo o sistema de representação política.
Insuflaram também juízes e procuradores messiânicos contra PT e acabaram destruindo a construção pesada brasileira e assestaram golpe duríssimo contra a engenharia nacional.
Acabaram também com a nossa competitividade na exportação de serviços, setor estratégico que mais cresce no mundo.
Segundo estimativas da consultoria GO Associados, entre 2015 e 2019, a Operação Lava Jato deverá ser responsável por um impacto negativo de mais de três pontos percentuais do PIB.
O Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep) levantou um conjunto de informações que mostram o efeito devastador nos investimentos do país: em 2015 a força tarefa provocou a redução do equivalente a 2,0% do PIB em investimentos da Petrobrás e a diminuição do equivalente a 2,8% do PIB em investimentos das construtoras e empreiteiras.
Em 2016, calcula-se que a Operação tenha sido responsável pelo encolhimento de 5,0% dos investimentos em formação bruta de capital fixo no país, bem como tenha reduzido em mais de R$ 100 bilhões o faturamento das empresas arroladas na Lava Jato.
A indústria naval, uma das mais afetadas, chegou a empregar 82.472 mil trabalhadores em 2014, esse número caiu para 29.539 trabalhadores em 2018.
A justificativa oficial para o desinvestimento, a descapitalização e a alienação patrimonial que vêm ocorrendo na Petrobras está ancorada na ideia de que a Petrobras precisa se refazer dos prejuízos causados pela corrupção revelada pela Operação Lava Jato.
Contudo, a própria Petrobras anunciou, em 2014, que havia estimado os prejuízos com corrupção em apenas cerca de R$ 6,2 bilhões, muito menos que o prejuízo causado pela crise provocada pela Lava Jato no setor.
Observe-se que, nesse mesmo ano, o lucro bruto da empresa foi de R$ 80,4 bilhões, ou seja, os problemas com corrupção, ainda que envolvendo montantes significativos, atingiram apenas 7,7% do lucro da empresa.
No Brasil, o combate distorcido à corrupção causa prejuízos econômicos muito maiores que a corrupção em si, além de servir de biombo ideológico para a desnacionalização de vastos setores estratégicos.
Além dos prejuízos econômicos, erodiram a credibilidade da justiça e transformaram o próprio STF em biruta de aeroporto, que se move, de forma oportunista, conforme o vento político. Não há mais segurança jurídica no Brasil.
As instituições estão em frangalhos e o sistema de representação política tem hoje a legitimidade de um punguista de baixo meretrício.
Bolsonaro, uma aberração constrangedora, se firma como um candidato viável, superado unicamente por Lula e ameaçado, agora, por Fernando Haddad.
Alguns podem pensar que tudo isso foi um mero erro de cálculo. Erraram na dose autoritária e agora são obrigados a conviver com danos colaterais que podem ser consertados ou contidos.
Há, contudo, uma hipótese mais pessimista e realista: a ruptura com a democracia, com o voto popular e com o pacto da Constituição de 1988 foi planejada e veio para ficar.
É uma estratégia de longo prazo que intenta consolidar a agenda ultraneoliberal regressiva e uma “semidemocracia” que não permitirá mais a alternância de poder e quaisquer políticas que se desviem dos dogmas da ortodoxia econômica e de uma inserção internacional subalterna.
Assim, não se trata apenas de prender Lula. Trata-se de prender qualquer Lula.
As nossas instituições democráticas falharam porque não tinham um mínimo de solidez. E o ethos das nossas elites políticas sempre foi, no fundo, o de uma república bananeira.
Mediocridade não se improvisa. No nosso caso, temos uma prática de 500 anos. A redemocratização pós-ditadura nunca se completou. Não se sedimentou. Ficamos no meio do caminho de uma semidemocracia.
Agora, essa insuficiência histórica da nossa democracia se soma às novas exigências do capitalismo em crise, que exige limites substanciais à soberania popular.
É duro, mas temos de reconhecer: nas atuais condições do nosso capitalismo, novamente selvagem, a ruína da democracia e da política é funcional e necessária ao capitalismo financeiro internacionalizado. Não deve ser reconstruída. Tem de ser permanente.
Note-se que não se trata apenas de alijar a esquerda do cenário político, trata- se, sobretudo, de substituir os poderes que se fundam no voto popular por um poder que dele não dependa. Em 1964, foi a casta militar. Hoje é uma amálgama de castas burocráticas civis, aliada ideológica do poder econômico e midiático.
A tendência, caso esse cenário persista, é termos presidentes e parlamentos fracos, diretamente tutelados por juízes, procuradores, técnicos, economistas do mercado, empresários, barões da mídia, banqueiros, e porque não dizê-lo, grandes interesses estrangeiros.
A nossa brava classe média neoudenista com certeza aplaudiria um governo “técnico”, no qual políticos servissem apenas para carimbar decisões pré-estabelecidas pelos reais detentores do poder.
Teríamos, assim, a “política” ideal para o ultraneoliberalismo: a política despolitizada, que não produz alternativas, apenas reproduz o “consenso técnico” ditado por quem não tem voto e, portanto, qualquer compromisso com o povo.
Afinal, mesmo políticos de direita têm de ser sensíveis às pressões de eleitores. Mas, com a hegemonia do poder sem voto, as pressões a serem atendidas serão sempre basicamente as do mercado.
Remédios amargos poderão ser socados goela abaixo da população sem maiores constrangimentos por políticos fracos e descartáveis, provavelmente eleitos por um número muito pequeno de votos válidos.
Com o voto distrital, teríamos apenas grandes vereadores dedicados a defender interesses paroquiais.
A “grande política” estaria pré-decidida e seria intocável. Congelada em emendas constitucionais e cinzelada no granito dos grandes tratados internacionais de livre comércio.
Boa parte da nossa classe política, beócia incurável, ainda não percebeu o alçapão que para ela foi armado. Acha que é apenas Lula que ficará manietado.
Temer é, nessa quadra histórica, o político ideal: fraco, manipulável e indiferente à rejeição popular.
Outros poderão vir. Célebres nulidades, fascistas declarados, como Bolsonaro, os apolíticos da “nova política”, todos alinhados com o ethos excludente, colonial e escravagista do nosso grande Haiti.
Nessa equação política lúgubre falta, contudo, um pequeno detalhe: o povo brasileiro.
Restituir a soberania popular é, porém, apenas um primeiro e fundamental passo.
Será necessário também refundar as instituições democráticas, por meio de Assembleia Nacional Constituinte.
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