terça-feira, 21 de maio de 2013

POLÍTICA -Delfim deveria depor na Comissão da Verdade.

Ele não torturou pessoalmente ninguém, mas abriu as portas para o terror de estado ao assinar o AI-5.
Delfim
Delfim
O maior desafio da Comissão Nacional da Verdade é responsabilizar penalmente as pessoas que teriam praticado torturas e homicídios. Não há possibilidade jurídica de que isso ocorra com os agentes da repressão, a não ser que a Anistia seja revista. Como decidiu o Supremo Tribunal Federal, a Lei de Anistia e a emenda constitucional 26/85, que convocou a Assembleia Nacional Constituinte e, no art. 4º, § 1º, continuam válidas.
Todas as regras alegadas para crimes de tortura são posteriores e não podem atingir fatos anteriores em razão da regra da irretroatividade da lei penal. É possível, porém, esmiuçar ainda mais o que se chama de “criminalidade de estado”, situação em que o estado deixa a posição de guardião dos direitos para se portar como violador de direitos fundamentais. Apesar de existir na sociedade o “fetiche da pena” — para usar a expressão dos juristas Dimitri Dimoulis e Ana Lúcia Sabadell —, não se pode desprezar a importância de identificar os autores das nefandas violações de direitos fundamentais e expô-los.
Delfim Netto não pendurou ninguém no pau-de-arara e seria incapaz de colocar uma pessoa na cadeira do dragão. Apesar disso, é um dos responsáveis pelas atrocidades ocorridas depois do AI-5. Por que ainda não foi convocado para depor na CNV?
No dia 13 de dezembro de 1968, o Conselho de Segurança Nacional reuniu-se para a deliberação sobre o AI-5. Ele era formado pelo presidente da república, vice, ministros e o chefe do SNI. Nessa reunião, ele, que era ministro da Fazenda, foi um dos entusiastas e signatários do ato preparado pelo Ministro da Justiça Gama e Silva. Com sua aprovação, o Brasil viveu o recrudescimento da ditadura, com o fechamento do Congresso por tempo indeterminado.
Dentre outras medidas ditatoriais, estava suspenso o habeas corpus em casos de crimes políticos e contra a segurança nacional (art. 10). Isso foi o que mais contribuiu para a instalação da poderosa indústria da tortura. Preso alguém, com base no AI-5, o poder judiciário estava manietado, não podendo conceder ordem de habeas corpus e sequer apreciar a legalidade da prisão. Qualquer pessoa razoavelmente informada conhece a advertência de Montesquieu de que todo homem com poder tende à prática do abuso e age até encontrar o limite. Poder ilimitado é sinônimo de abuso, truculência e violência.
Apesar disso, Delfim Netto achou pouco: “Direi mesmo que creio que ela não é suficiente”. De duas uma: ou não lhe ocorreu que se estavam abrindo as portas para a tortura — o que não é verossímil, pois ele está longe de ser um ingênuo —, ou ele não se importou com a vida e a integridade das pessoas que seriam submetidas à brutalidade da repressão. Delfim estava presente também à fundação da Operação Bandeirantes, a Oban, o grupo de empresários que financiava a repressão.
Delfim não sujou as mãos com o sangue das vítimas, não ouviu os gritos dos torturados e nem se encarregou de ocultar cadáveres. Mas seu endosso macula indelevelmente sua biografia, como a de todos os signatários do AI-5. Apesar disso, ele anda por aí, aos 84 anos, ainda com pose de economista influente, como se nada tivesse a ver com essa triste memória.
É preciso que a Comissão Nacional da Verdade intime Delfim para que ele esclareça para o Brasil sua posição naquele triste período. Instalado confortavelmente no poder, Delfim propiciou que se instalasse a mais tenebrosa máquina de tortura já existente no Brasil e deve ter algo a dizer sobre isso. 
Em convescote com o empresário Henning Boilesen (centro), cabeça da Oban
Em convescote com o empresário Henning Boilesen (centro), cabeça da Oban

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