segunda-feira, 29 de setembro de 2008

ARTIGO - A volta do "circuit breaker", agora em versão câmbio flutuante.

Com a interrupção de hoje, 29 de setembro, o mecanismo conhecido como “circuit breaker” já foi acionado, no mercado de ações brasileiro, dez vezes. A origem foi sempre uma turbulência externa, que resultou em ataques especulativos contra a moeda nacional, no mercado de câmbio. A diferença da interrupção de hoje, em relação ás anteriores, é que esta é a primeira a ocorrer na vigência de um regime de câmbio flutuante.
Em 1997, no período da crise da Ásia, os negócios, no Brasil foram interrompidos duas vezes, em novembro, nos dias 7 e 12. Depois, na crise da Rússia, em 1998, o mecanismo foi acionado cinco vezes. As três primeiras em 21 de agosto, 4 e 17 de setembro. Em 10 de novembro, o pregão foi interrompido duas vezes. Na virada do regime cambial, em janeiro de 1999, o pregão foi suspenso nos dias 13 e 14 de janeiro.
Segundo as regras do mercado brasileiro, quando o Ibovespa atinge limite de baixa de 10% em relação ao fechamento do dia anterior, os negócios na Bolsa de São Paulo são interrompidos por trinta minutos. Reaberto o pregão, caso a variação do Ibovespa atinja uma oscilação negativa de 15% em relação ao dia anterior, os negócios são interrompidos por uma hora.
O mecanismo não é ativado na última meia hora do pregão. Ocorrendo a interrupção dos negócios na penúltima meia hora de negociação, na reabertura das transações, o horário será prorrogado em, no máximo, mais 30 minutos, sem qualquer outra interrupção, de tal forma que se garanta um período final de negociação de pelo menos 30 minutos corridos.Enviado por: José Paulo Kupfer .

ELEIÇÕES 2008 - A quem interessa o "silêncio da urna"?


Por Stela Guedes Caputo (*)
No dia 21/9, aproveitando seu espaço permanente no jornal “O Globo”, D. Eugenio Sales, cardeal-arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio, publicou artigo intitulado “No silêncio da urna”. Nele, o religioso reconhece que a atividade política atravessa um período de descrédito, por conta de tantos maus exemplos, e se pergunta, diante da constatação, o que diz a Igreja? Na resposta reafirma os princípios de Puebla para dizer que, a exemplo de Jesus, “bispos, sacerdotes e religiosos renunciam à militância partidária”. Além disso, garante que “leigos dirigentes da ação pastoral não devem usar de sua autoridade em função de partidos ou ideologias”. A explicação, segundo D. Eugenio, vem do Concílio Vaticano II, que determina ser a missão da Igreja, atribuída pelo próprio Cristo, de ordem religiosa e não política, econômica ou social.
Depois do panorama traçado, o cardeal convoca os leitores a separarem “o joio do trigo”. E é enfático quando ordena a negação do voto aos defensores do aborto, aos que são contra o ensino religioso, a quem está de acordo com o que ele chamou de “dignificação das anomalias sexuais”, da legalização do jogo e das drogas. A panfletagem partidária pública segue a mesma panfletagem feita pela coleção de livros católicos para as escolas públicas do Estado do Rio, lançada no final do ano passado, que recomenda o voto para candidatos que sejam contra o ensino religioso nas escolas, a condenação do aborto, a eutanásia e por aí vai...
No artigo, o sacerdote mantém a velha e hipócrita contradição de sua igreja que condena, sim, a militância política, mas a militância política de esquerda e libertária, seja ela de partidos políticos ou de movimentos sociais. A militância política partidária conservadora e de direita pode, esta é bem-vinda seja em livros didáticos para escolas públicas, ou nos jornais que se dizem isentos e neutros. Mas o problema não é essa já conhecida contradição. O problema é o abuso do poder econômico e da hegemonia da igreja católica, tanto para garantir seus livros didáticos católicos nas escolas públicas, ferindo o princípio constitucional do Estado laico, como para, nas vésperas das eleições municipais, usar em benefício de sua ideologia, um espaço aparentemente destinados às polêmicas, sim, ao debate, sim, mas não à propaganda eleitoral “gratuita”?
Pergunto se o mesmo espaço será dado aos que defendem o aborto? Aos que são contra a discriminação das diversas orientações sexuais (que foram discriminadas aos serem taxadas de anomalias)? Aos que defendem que escola pública não é lugar de missa, como insistem os recentes livros católicos? Aos que defendem a liberdade religiosa? A liberdade de acreditar em um Deus? em vários Deuses? Em nenhum Deus? Aos que acreditam que todo cidadão tem o direito de votar livremente sem nenhum cardeal lhe dizendo em quem votar ou como votar? O título do artigo de D. Eugenio pede silêncio nas urnas porque, mais uma vez, é com o silêncio contra seus privilégios que a igreja católica conta. Que ele aposte nisso eu entendo. O que não entendo é obedecermos. (*) Stela Guedes Caputo é jornalista e professora da UERJ.
Fonte: Blog Fazendo Média.

ARTIGO - A grande mentira.

As manifestações populares contra a ajuda do Tesouro aos ladrões de Wall Street (o qualificativo é de Timothy Egan, em artigo publicado na última quarta-feira pelo New York Times) revelam que os Estados Unidos se encontram divididos, mais do que nunca, entre ricos e pobres. Os sacrifícios recairão, como sempre, sobre os que trabalham e produzem bens tangíveis, não sobre os que tiram lucros das nuvens.
A grande bolha, inflada pela mentira, não é a dos empréstimos hipotecários; é o próprio mercado financeiro. Relembremos a maior lavagem cerebral da história, mediante o alinhamento dos formadores de opinião (menos alguns) na refundação, nos anos 90, do velho liberalismo, alicerçada na ficção de que o Estado deveria retirar as rédeas sobre a economia e deixá-la entregue às `leis` do mercado. Com essa desregulamentação, de acordo com Egan, `Wall Street recebeu luz verde para atuar como um cassino`.
Em meados da década de 70, diante da crise do petróleo, as teses de Friedrich Hayek, de 1944, contra a intervenção do Estado no mercado e o planejamento keynesiano da economia, passaram a ser rediscutidas. Enfim, o que se contestava era o welfare state, que taxava os lucros do capital em favor da sociedade. Essa política distributiva fora conquista dos trabalhadores do Ocidente, amparada na Revolução Soviética. Os países capitalistas se viam obrigados a ceder um pouco, a fim de conjurar a revolução mundial.
A crise da malograda globalização dos anos 20 eclodiu na queda da Bolsa de Nova York em 1929. A bancarrota, associada à grande desigualdade social daqueles anos, levaria Roosevelt, ao assumir o governo em 1933, à intervenção vigorosa - e planejada - no mercado, com a regulation até mesmo do funcionamento de lavanderias. Com isso, ele reergueu a economia e preparou a nação para a II Guerra Mundial.
Embora cercado de intelectuais destacados, o então governador de Nova York e futuro presidente tinha ouvidos mais atentos para um homem aparentemente inexpressivo, modesto assistente social, Harry Hopkins. Hopkins levara para o governo a solidariedade para com o povo trabalhador e miserável da América. Do diálogo entre os dois nasceria – antes mesmo que Keynes publicasse sua teoria sobre o emprego, os juros e o dinheiro – a arquitetura do New Deal, primeiro no Estado de Nova York, com o programa de ajuda aos desempregados, e, mais tarde, na Casa Branca, com a `Lei de Reconversão Industrial`. Os economistas, que participaram do planejamento da revolução rooseveltiana, colocaram sua inteligência acadêmica a serviço de uma férrea vontade política.
Collor iniciou a entrega da economia à nova ordem, mas o impeachment e o breve governo de Itamar interromperam o processo. Coube a Fernando Henrique, desmontar o Estado em favor do `mercado` internacional. A globalização da economia, com suas exigências, entre elas as da desnacionalização das grandes empresas privadas brasileiras (como a da Metal Leve), da abertura do mercado financeiro aos bucaneiros (como na entrega do Bamerindus ao HSBC) e da privatização das estatais, foi saudada pelo intelectual como um novo Renascimento – sob as luzes do Consenso de Washington. A nova ordem exigia a internacionalização do sistema financeiro. Uma de suas providências emblemáticas foi a salvação de banqueiros temerários e fraudadores, mediante o Proer – o que lhe permitiu transferir ativos de alguns bancos nacionais aos estrangeiros, abrindo-lhes o mercado sem reciprocidade. Com o exemplo dessa rede protetora, outros aventureiros se estabeleceram, como os controladores do Opportunity, entre eles alguns de seus auxiliares mais diletos, como Pérsio Arida e Elena Landau. Espera-se ato de contrição do ex-presidente.
Timothy Egan registra que só 10% dos mutuários de empréstimos hipotecários se encontram inadimplentes: os outros 90% estão em dia com seus compromissos. `Como pode esta minoria de maus empréstimos arruinar o capitalismo ocidental?`– pergunta. De acordo com o projeto enviado ao Congresso, o Secretário do Tesouro (hoje Henry Paulson) estará acima de qualquer outro poder do Estado. Suas decisões `may not be reviewed by any court of law or any administrative agency`, ou seja, estarão acima até mesmo da Suprema Corte.
As manifestações de quinta-feira diante de Wall Street trazem a esperança de que tudo isso possa mudar.
Mauro Santayana

CRISE FINANCEIRA - Bancos europeus são nacionalizados.

Turbulência atingiu o Bradford and Bingley, da Grã-Bretanha.

Autoridades de países europeus anunciaram nesta segunda-feira que mais dois bancos serão nacionalizados, devido à crise no mercado financeiro internacional.
Na Grã-Bretanha, o governo confirmou a nacionalização do Bradford & Bingley, que havia sido noticiada pela BBC no sábado. Em Bruxelas, a nacionalização de parte do Fortis também foi anunciada.
Já na Alemanha, o banco Hypo Real Estate disse que chegou a um acordo com outras instituições alemãs para receber um empréstimo.
Perda de confiança
O governo britânico confirmou que o banco Bradford & Bingley (B&B), uma das grandes operadoras de hipotecas do país, será nacionalizado.
O governo vai assumir controle da carteira de hipotecas do B&B, estimada em US$ 100 bilhões. Já a parte de poupança do banco, avaliada em US$ 40 bilhões, será comprada pelo Santander, da Espanha.
O ministro da Fazenda britânico, Alistair Darling, disse que os investidores perderam confiança no B&B e que o governo teve de agir para estabilizar o setor financeiro.
Autoridades financeiras da Holanda, Bélgica e Luxemburgo anunciaram a nacionalização de parte do banco e seguradora Fortis.
Os ministros dos três países concordaram em colocar cerca de US$ 18 bilhões no banco, para evitar que ele entre em colapso.
O premiê belga, Yves Leterme, disse que a ação dos três países é uma demonstração de que as autoridades não deixarão o Fortis falir.
Pelo acordo, o Fortis terá de vender a sua parte no banco holandês ABN Amro, que havia adquirido no ano passado.
Na Alemanha, o banco Hypo Real Estate anunciou que fez um acordo para obter um empréstimo de um consórcio de bancos alemães para aliviar sua difícil situação financeira.
O Hypo não revelou o nome dos bancos, nem o valor do negócio. A imprensa alemã especula que mais de US$ 51 bilhões serão emprestados ao banco.
O Hypo é um grande tomador de empréstimos no mercado financeiro e foi fortemente afetado pela crise global. A notícia sobre o empréstimo fez as ações do banco se desvalorizarem 63% nesta segunda-feira.
Fonte: BBC Brasil.

SAÚDE - Brasileiro adoece mais depois dos 60 anos.

A expectativa de vida no Brasil passou de 69,3 para 72,7 anos em uma década, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um terço dos homens e um quinto das mulheres nascidos entre 2000 e 2005, porém, não chegarão nem aos 65 anos. E para piorar, o tempo de vida saudável dos brasileiros após os 60 anos é bem inferior ao de países desenvolvidos.
Por aqui, chega a 13,5 anos o período que os homens passam doentes e 11,5 anos, para as mulheres. "As pessoas passam mais de uma década com condições de vida precárias, o que tem impacto nas finanças públicas, com perda de produtividade e custos hospitalares", diz o autor da pesquisa, Milko Matijascic, diretor do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Na comparação com outros países em desenvolvimento, a situação só é pior na Índia, Rússia e África do Sul.
Os indicadores de expectativa de vida saudável no Brasil são iguais aos que México e Argentina apresentavam no início da década de 1990, e equivalentes aos de países como Finlândia, EUA e Alemanha na década de 1970. Até 2025, o número de idosos deve dobrar no País. Isso traz à tona novos problemas. Já sobrecarregado, o sistema de saúde brasileiro atende 20 milhões de idosos, ou 10,5% da população.
Em 17 anos terá 40 milhões de pessoas com mais de 65 anos em suas filas. "Nossos idosos têm, muitas vezes, péssimas condições socioeconômicas", diz a diretora do Departamento de Atenção Básica do Ministério da Saúde, Claunara Schilling. "O analfabetismo é determinante para a saúde". O mesmo vale para a previdência.
Dados de 2005, mostram que apenas 42,6% das aposentadorias concedidas naquele ano resultaram de fatores previsíveis, como idade ou tempo de contribuição. Ou seja, 57,4% foram resultado de fatores de risco, como invalidez, doenças e acidentes. "Além dos gastos com saúde, existem outros mais difíceis de serem medidos, como a necessidade de uma pessoa receber os cuidados de um familiar, que fica impedido de trabalhar", diz Matijascic.
Na lista dos fatores de risco figuram doenças crônicas como hipertensão e diabetes, responsáveis pela principal causa de mortes no País: as doenças cardiovasculares. Entre essas, o acidente vascular cerebral (AVC) é destaque: mais de 90 mil mortes em 2005. Estima-se que 40% dos pacientes que sobrevivem a um AVC ficam com seqüela moderada ou grave, e 25% permanecem com algum grau de limitação física.
Outra conseqüência das doenças circulatórias, a insuficiência renal, obriga 80 mil pessoas a passarem por diálise no País. Segundo Claunara, o ministério aposta na ampliação do Programa Saúde da Família (PSF) para responder à demanda que se forma nos serviços de alta complexidade. A expectativa da pasta é atender 70% da população até 2011. Hoje, a cobertura é de aproximadamente 50%. "Temos cobertura razoável, com mais de 28 mil equipes", diz Claunara.
Matijascic concorda. Investir na prevenção é mais barato que tratar os pacientes depois da doença instalada. O pesquisador acredita que investimentos sociais podem mudar o atual quadro, que tem reflexos diretos na capacidade produtiva e na competitividade do País. "A desigualdade é diminuída não só com programas de transferência de renda, mas com investimentos em serviços sociais, como a saúde".
A lógica é simples: quanto menor o investimento do Estado em saúde, maior o gasto de famílias e empresas com esse item. O custo, no caso das empresas, tende a ser repassado para a sua produção, o que diminui a competitividade. "Os países mais competitivos são os que investem em segurança social. O gasto com saúde, por exemplo, não é preocupação para uma empresa sueca", diz Matijascic.
No consultório de Clineu Almada, professor de geriatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 50% dos pacientes têm menos de 60 anos. São pessoas preocupadas com a terceira idade que bate à porta. Muitos acompanharam o envelhecimento de seus pais, e as doenças que o tempo trouxe.
A expectativa é ir mais longe do que eles. "As pessoas com mais de 65 anos normalmente têm de três a cinco doenças associadas", diz o geriatra. "Não ter nenhuma doença é privilégio para poucos idosos". Se depender da postura dessa "nova geração", essa perspectiva pode mudar. Para os que já chegaram à terceira idade doentes, resta "gerenciar a doença", afirma o médico.
Fonte: Tribuna da Imprensa.

ELEIÇÕES AMERICANAS - McCain não sabe o que fazer com Palin.

Argemiro Ferreira.

Ao invés de diminuir, o esforço da campanha republicana para "proteger" Sarah Palin da mídia torna-se mais rigoroso e sofisticado. A esta altura, as dúvidas já parecem a ponto de forçar a revisão da chapa. Se ficar claro que o desempenho de Palin até agora reflete as qualificações dela, escreveu ontem Bob Herbert no "New York Times", McCain e seu partido têm de pensar no país e substituí-la.
A oposição à permanência na chapa da governadora do Alasca passou a vir também de colunistas conservadores - como Kathleen Parker, que antes refutava as críticas à escolha de Palin mas agora, escrevendo no website da também conservadora "National Review", foi contundente ao explicar que as circunstâncias mudaram, com a crise financeira e o surgimento "de um quadro mais complicado".
"O que vimos e ouvimos, depois, da companheira de chapa de John McCain, deixa cada vez mais claro que Palin é um problema. Tenha ela feito seus estudos de forma apressada demais ou não, o fato é que não sabe o suficiente sobre economia e política externa para deixar os americanos despreocupados com uma presidente Palin, caso venha a ocorrer a eventualidade da promoção dela", escreveu Parker.
Renúncia pode ser a única saída
A colunista Parker lembrou que antes tinha ficado encantada com a escolha de Palin. Elogiara seu bom senso, a graciosidade, o charme e até algumas ações no curto período em que foi prefeita e governadora. "Ela era a antítese e a nêmesis da presunção e da grosseria (...), uma feminista diferente, que personalizava a mãe trabalhadora moderna e bem sucedida".
Foi engraçado enquanto durou, disse Parker, mas as entrevistas recentes de Palin a Charles Gibson, Sean Hannity e Katie Couric revelaram uma candidata sóbria, atraente, confiante - mas simplesmente não é do ramo, está fora de sintonia. "Ninguém odeia mais do que eu dizer essas coisas. Como tantas mulheres, eu estava torcendo por ela, queria o melhor para ela, ansiava por um desempenho brilhante dela."
Parker chegou à conclusão de que "se BS fosse moeda", Palin teria o suficiente para cobrir as perdas de Wall Street - sendo BS ("bullshit") o equivalente, em português, a "bobagem", se quisermos evitar o chulo. "Como ela é mulher - e a primeira a entrar para uma chapa presidencial republicana - ficamos relutantes em dizer o que sabemos, penosamente, ser a verdade", assinalou.
Parker acha que McCain a esta altura não pode voltar atrás na escolha. Correria o risco de atrair a indignação fatal da base republicana. Daria a impressão de que é incapaz de tomar decisões certas. Mas Palin pode salvá-lo se renunciar invocando razões pessoais, para dedicar mais tempo ao bebê recém-nascido. Quem criticará a mãe que põe a família em primeiro lugar? "Faça-o pelo país", recomendou Parker à vice de McCain.
Que diabo ela anda falando?
No domingo a polêmica sobre Sarah Palin dividiu até o painel de jornalistas do programa Fox News Sunday, no qual Chris Wallace e Juan Williams divergiram dos demais. "Que diabo ela está falando (que conhece política externa porque o Alasca é vizinho da Rússia)?" - perguntou Wallace a um senador republicano. Pouco depois, Williams encurralava Brit Hume e o neoconservador Bill Kristol.
Enquanto eles falavam na Fox, na ABC McCain via-se forçado a corrigir o que Palin afirmara na véspera. Apesar de protegida contra a mídia, ela foi interrogada na Pensilvânia por um estudante e disse que os EUA deviam atravessar a fronteira do Afeganistão e atacar o Paquistão - o que McCain rejeita, como disse no debate com Obama e repetiu agora, jurando ser também a posição de sua vice.
Será que tais desmentidos bastarão? A campanha de McCain ainda não sabe como fazer: o vídeo gravado em 2005 de um exorcismo de Sarah Palin. Ela é purificada na igreja Assembléia de Deus de sua cidade. Um pastor queniano a purifica, declarando-a protegida por Jesus contra Satã e todas as formas de feitiçaria. As imagens continuam a circular pelo YouTube.
Judith Warner, autora de best-seller recente, "Perfect Madness: Motherhood in the age of Anxiety", faz um blog no site do "New York Times" e analisou a foto de Palin com Henry Kissinger - encontro promovido pela campanha de McCain. O ex-secretário de Estado tinha uma cara indulgente. Warner a viu como uma reedição de Elle Woods, a heroína meio debilóide do filme "Legally Blonde".
É cruel também para ela
No filme, o charme da caloura abre caminho para ela na escola de Direito de Harvard. Eis a tese, pouco convincente: apenas com a inteligência nativa qualquer moça decente supera colegas elitistas e arrogantes de Harvard. Elle Woods virou modelo para as jovens: basta, para impor-se, ser bonitinha, sabida - e bobinha. A escritora rejeita: "É preciso trabalho, estudo. Muito trabalho, muito estudo."
Warner analisou a foto de Palin/Woods sentada no sofá azul, Kissinger ao lado. A vice de McCain, disse, implora clemência à câmera. Todos percebem algo de errado ali. No filme a heroína pode tudo porque acredita em si mesma. Mas a vida real é bem diferente da fantasia de Hollywood. "E a incompetência tem suas conseqüências políticas e pessoais", advertiu Warner.
A partir daí, Judith Warner chega a uma conclusão inevitável: "Francamente, passei a pensar, neste momento pós-Kissinger, pós-Katie-Couric, que a indicação de Palin (para candidata republicana à vice-presidência) não é apenas um insulto às mulheres (e aos homens) dos Estados Unidos da América. É também um ato de crueldade para com ela própria".
Fonte:Tribuna da Imprensa.

domingo, 28 de setembro de 2008

DENÚNCIA - Perito suiço em amianto foi pago pela indústria brasileira do amianto.

por CONCEIÇÃO LEMES

Guarde este nome: David Bernstein. E este termo: biopersistência. A partir de agora, “ouvirá” falar bastante de ambos. No centro da discussão, o amianto branco, ou crisotila, utilizado no Brasil. Com a palavra, primeiro, as instituições defensoras do mineral no País. Seus sites expressam suas posições. O da Comissão Nacional dos Trabalhadores do Amianto (CNTA) divulga: “A menor taxa de biopersistência: ‘Estudos recentes confirmam que o crisotila brasileiro é menos nocivo á saúde humana no mundo’. A declaração é do médico David M. Bernstein em abordagem sobre os efeitos do mineral para a saúde (sic)”. “‘Hoje, diferente do que ocorreu no passado, não há nenhum risco para os trabalhadores, que aderiram ao uso controlado e responsável, assim como para a população que utiliza produtos que contém o crisotila e o mundo precisa saber disso (sic)’”, destaca Adilson Santana, vice-presidente da CNTA, ao comentar, no boletim da entidade, a Conferência Internacional do Amianto, realizada na cidade do México, em 2007. “A Conferência foi marcada por diversas palestras, que deram um panorama geral sobre o amianto crisotila e a defesa dos recursos naturais, como o do médico e pesquisador David Bernstein (sic) ...”O Instituto Brasileiro do Crisotila (IBC) propaga: “Em temperaturas acima de 800ºC o amianto crisotila sofre decomposição térmica, transformando-se em forsterita (...); a forsterita não é fibrosa, sendo inócua à saúde humana. Estudos de biopersistência evidenciam o fato do produto ter baixo potencial de toxicidade (...) Esses dados foram confirmados pelo renomado médico toxicologista suíço, Dr. David Bernstein (sic).” O objetivo principal do IBC é fazer lobby a favor dos interesses da indústria.O site do Grupo Eternit, o maior do setor de amianto no Brasil, expõe: “Biopersistência significa o tempo de permanência das fibras no pulmão antes de serem eliminadas. Enquanto as do amianto crisotila permanecem no máximo dois dias e meio no pulmão, as do anfibólio ficam mais de um ano. Os trabalhadores das indústrias que seguem as regras do uso controlado estão totalmente seguros”.“O discurso sindical é xerox do discurso empresarial”, considera Eliezer João de Souza, presidente da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea). A engenheira de segurança do trabalho Fernanda Giannasi, auditora fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em São Paulo e coordenadora da Rede Virtual-Cidadã pelo Banimento do Amianto para a América Latina, põe o dedo na ferida: “CNTA =IBC=Eternit = David Bernstein + biopersistência”.Bernstein defende que o tempo que a fibra de amianto persiste no pulmão é que indica o seu grau de nocividade. É o que ele chama de biopersistência. Em 1999, ao participar de uma audiência pública sobre o tema na Câmara dos Deputados, em Brasília, foi saudado como “cientista suíço, autoridade máxima e de reconhecimento internacional em estudos de fibras e partículas”.Na ocasião, apresentou-se como pesquisador independente e disse, entre outras coisas, que: 1) a crisotila da mina de Cana Brava, em Minaçu, norte do Estado de Goiás, fica pouco tempo no pulmão, o que eliminaria o risco de ser cancerígena; 2) o amianto brasileiro seria seguro e não faria mal à saúde; 3) suas pesquisas sobre biopersistência, feitas com ratos de laboratório, teriam orientado a Comissão Européia na classificação de fibras. Fora, inclusive, convidado a participar dela.INDÚSTRIA BRASILEIRA DO AMIANTO FINANCIOU BERNSTEINFaltou com verdade aos deputados brasileiros. Físico de formação e estadunidense de nascimento, Bernstein acabou se dedicando à toxicologia e foi morar na Suíça.
Recentemente, sua máscara de neutralidade e independência lhe foi arrancada em plena Corte do Distrito de Ellis County, Texas, Estados Unidos. A audiência era para tratar do processo de indenização de vítima de mesotelioma contra a empresa Geórgia Pacific (G-P), que fabricava produtos à base de crisotila, também conhecido como calídria, proveniente da mina da Union Carbide na Califórnia. Bernstein compareceu na condição de expert para defender a G-P, como o fizera anteriormente para a Union Carbide . O tiro saiu pela culatra. Ao ser interpelado pelo advogado dos familiares da vítima, Rick Nemeroff, revelou, entre outras coisas, que a indústria brasileira do amianto financiou suas pesquisas com a crisotila. A transcrição do depoimento tem 143 páginas. Abaixo alguns trechos importantes. Você vai descobrir que certas informações disseminadas por e sobre Bernstein, inclusive no Brasil, não correspondem à verdade factual. P refere-se às perguntas dos advogados. R, às respostas de Bernstein.(...)P. Doutor, quanto você recebe atualmente por hora de trabalho?R. Em moeda local, na Suíça, meu preço é 506 francos-suíços por hora.P. Convertidos em dólares americanos, é quanto?R. Suponho que US$ 415 por hora.(...)P. Você tem falado a este júri sobre seus estudos com crisotila. Eles foram realizados a pedido da Union Carbide [dos Estados Unidos], do setor de mineração da crisotila no Brasil, do Instituto de Asbesto e do governo do Canadá. Isso é correto?R. Correto. P. Suponho que contou a este júri que, nas décadas de 1960 e 1970, quando você descobriu que a crisotila causava mesotelioma, os seus estudos não eram financiados por esses grupos, eram?R. Eles foram financiados por outros grupos.P. Outros grupos?R. Hum-hum.P. E, agora, que trabalha para grupos de mineração ou industrialização da crisotila, você próprio está se distanciando dos seus estudos iniciais, dizendo: no passado, nós cometemos erros, demos doses exageradas para os ratos e assim por diante. Isso é parte do seu testemunho, aqui, ao júri?R. É parte dele.(...)P. Quanto os advogados, representando a Union Carbide, ajudaram a financiar seus estudos? Conte a este júri quanto você recebeu deles para fazer o trabalho que você está fazendo hoje neste tribunal?R. Eles me pediram para fazer uma avaliação científica.P. Quanto eles pagaram em dinheiro para você? Pode ser em francos ou dólares.R. Eu não tenho isso em mãos no momento.P. Refrescaria a sua lembrança se eu lhe mostrasse que os representantes da Union Carbide [um dos clientes de Bernstein e ré em muitos casos de amianto nos Estados Unidos] admitem ter pago a você US$ 400.623,30 por sua participação em audiências de litígio? (...)Corte. Ouça. Pode me ouvir? Pode me ver e ouvir? Leia meus lábios. Quanto a Union Carbide, por meio dos advogados dela, pagou a você? R. Não tenho o total exato na minha frente. Me lembro que é cerca de 100 mil francos suíços.(...)P. Você nos falou a respeito dos seus estudos; repetidamente disse que a EPA [Agência de Proteção Ambiental, dos EUA] e a Comissão Européia vieram até você para fazer alguma coisa. Nem a EPA nem a Comissão Européia jamais procuraram você para fazer um estudo sobre amianto, procuraram?R. Não, eles não me procuraram.P. Então, se este júri ficou com a impressão de que EPA e a Comissão Européia procuraram você devido às suas opiniões sobre amianto, isso seria incorreto, certo?R. Sim.(...)P. Eu entendo que epidemiologia (...) é o estudo das pessoas e de fatores que causam doenças. Você concorda comigo?R. Concordo.P. E você, senhor, não é epidemiologista?R. Eu não sou.P. Então, seria justo afirmar que você estuda amianto em ratos para ver o que acontece?R. É verdade.P. Em relação às suas qualificações, senhor, você não é higienista industrial, é?R. Eu não sou.P. E não é médico?R. Eu não sou.P. E não é patologista?R. Eu não sou.(…)P. E o senhor discorda de todas as agências que dizem que o amianto crisotila pode causar mesotelioma [câncer agressivo e fatal de pleura, pulmão, peritônio, pericárdio e diafragma; a média de sobrevida após o diagnóstico é de 1 ano], não é correto?R. Correto. P. E você discorda de todos os países que baniram o amianto, inclusive daquele que você escolheu morar, não é correto? R. Correto.P. E as suas conclusões são baseadas nos estudos financiados por esta companhia, com licença, não por esta companhia, mas financiados por companhias que atuam na mineração e fabricação de produtos com amianto crisotila?(...) “SILÊNCIO CONSTRANGEDOR SOBRE A QUANTIA PAGA CHEIRA MAL”As pesquisas de Bernstein e suas conclusões foram usadas pela indústria no mundo inteiro, inclusive no Brasil, com os objetivos de: inocentar a crisotila dos males do amianto, adiar leis e regulamentos de restrição ou banimento do mineral e não pagar indenizações às vítimas. Desde o início do século 20, já se sabia que o amianto causa asbestose, mais conhecida como “pulmão de pedra”. A doença provoca o “endurecimento” do pulmão, levando pouco a pouco à perda progressiva da capacidade respiratória; pode evoluir para a morte -- a chamada morte lenta. Na década de 1940, comprovou-se que era cancerígeno.Em 3 de setembro, esta repórter enviou seu primeiro e-mail a David Bernstein. Perguntou:1) Sabemos que teve pesquisas financiadas pela indústria brasileira do amianto. O senhor confirma isso? Que companhia, especificamente, financiou seu trabalho? 2) Se a informação que temos é totalmente verdadeira, poderia nos dizer quanto recebeu? Para que pesquisas esses financiamentos foram utilizados? Uma delas é sobre a biopersistência da crisotila brasileira. Há outras?Primeiro e-mail, nenhuma resposta. Segundo, idem. Terceiro, também. No quarto: “Todos os financiamentos estão referidos na primeira página de cada publicação e se você quiser mais informação, por favor, contate as respectivas companhias”.Solicitamos então o envio de uma cópia dos trabalhos por e-mail. Ou, considerando que eram públicos, que dissesse o nome das empresas que o financiaram e quanto pagaram. Esquivou-se, de novo: “Estou viajando e não os tenho disponíveis. Você pode fazer o download deles no website da revista Inhalation Toxicology. Espero que você leia as publicações”. Ao mesmo tempo, questionamos Marina Júlia de Aquino, presidente-executiva do IBC. Por meio de sua assessoria da imprensa, devolveu, por e-mail, a bola para Bernstein: “Quando o Instituto Brasileiro do Crisotila foi criado, o Dr. David Bernstein já havia realizado suas pesquisas. A pergunta, portanto, deve ser encaminhada diretamente a ele”.Perguntamos também à Eternit. Apesar de vários e-mails e contatos telefônicos desta repórter com assessoria de imprensa do Grupo, silêncio total. A indústria brasileira que financiou as pesquisas de Bernstein sobre a crisotila foi justamente a mineradora do Grupo Eternit, a SAMA, em Minaçu, norte de Goiás. A SAMA é responsável pela única mina de amianto em exploração no Brasil -- a de Cana Brava. Descobrimos duas publicações, onde a SAMA é citada como financiadora; ironicamente, uma delas, no próprio site do IBC, em português e inglês. “Cheira mal o silêncio constrangedor de Bernstein e de seus clientes, quando solicitados a divulgar quanto a indústria brasileira do amianto pagou pelos serviços do cientista”, vaticina o consultor ambiental Barry Castleman, autor do livro Asbestos: Medical and Legal Aspects (Amianto: Aspectos Médicos e Legais).Castleman é, desde 1999, consultor do Banco Mundial e da Comissão Européia para assuntos relativos ao amianto. É também testemunha-expert nas Cortes americanas sobre matérias de saúde pública e história corporativa do amianto. Por ano, atua em 20 a 30 processos, quase todos casos de mesotelioma. Ele denuncia: “Bernstein continuará sendo pago pelos negócios do amianto, inclusive do Brasil, enquanto houver ações financiadas pela indústria para defender seus produtos. Ele é o fim de uma longa tradição de cientistas contratados para publicar pesquisas e conclusões em saúde pública favoráveis à indústria do amianto”.“Em 1999, quando o Bernstein depôs na Câmara dos Deputados, bem que estranhamos o fato de ele só andar com o pessoal da indústria. Agora sabemos o motivo”, observa Fernanda Giannasi. “Bernstein participa de uma orquestração internacional muito bem engendrada para sustentar em todo o mundo a ausência de nocividade da fibra assassina. Médicos das nossas mais prestigiosas faculdades de medicina fazem parte dela. Bernstein, como dizem os americanos, é o melhor que o dinheiro pode comprar.”Laurie Kazan-Allen, coordenadora do International Ban Asbestos Secretariat (Secretariado Internacional pelo Banimento do Amianto, o IBAS), sediado na Inglaterra, fustiga: “Já que David Bernstein não é epidemiologista, não é higienista industrial, não é médico ou patologista e todas as entidades científicas rejeitam as conclusões dele de que a crisotila não é cancerígena, estou muito curiosa para saber que serviços ele presta para merecer tanto dinheiro dos réus do amianto, as mineradoras e indústrias do setor”."O argumento dele é ridículo", afirma o médico David Egilman, professor adjunto de Clínica Médica da Brown University, em Massachusetts, EUA, e testemunha em disputas judiciais para uma companhia que foi proprietária de uma mina de amianto. “Ele só enxerga ‘biopersistência’ no pulmão e todo mundo concorda que a crisotila causa câncer no pulmão. A crisotila é o tipo de fibra mais ‘biopersistente’ na pleura; assim, se ‘biopersistência’ é a questão-chave para a carcinogenicidade, então a crisotila é a principal causa de mesotelioma. Para tanto dinheiro assim, eles deveriam ter arranjado uma teoria melhor.”“O fato de a crisotila ser menos biopersistente não significa que seja inócua à saúde; é como fumaça do cigarro”, compara o médico Ubiratan de Paula Santos, professor colaborador da disciplina de Pneumologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Incor/HC/FMUSP). “A fumaça não tem biopersistência alguma. Entra e vai embora. Mas, ao fumar todo dia, você vai provocando e renovando a lesão. Resultado: assim como o cigarro no longo prazo pode causar câncer de pulmão, a crisotila pode ocasionar câncer de pulmão e mesotelioma.” Barry Castleman
Geoffrey Tweedale
Laurie Kazan-Allen
Ubiratan de Paula Santos Na verdade, o trabalho de Bernstein segue o modelo da “ciência do tabaco”. Sempre que algo pode ameaçar a sua sobrevivência, cria-se uma nova teoria para protelar a discussão. É o que David Michaels chama de ciência da defesa do produto no seu livro Doubt is Their Product (Dúvida é o produto deles). O título vem de um memorando interno da indústria do tabaco que dizia "a dúvida é o nosso produto".“O memorando dizia que enquanto se mantivesse o debate sobre se fumar mata, seria possível retardar as normas reguladoras”, expõe Castleman. “É o que a indústria do amianto faz desde a década de 1930, quando já se manipulavam as pesquisas para que a discussão não ganhasse repercussão e o assunto não entrasse em debate. Sempre havia um cientista importante que tinha feito uma pesquisa que negava o malefício descoberto.”"Quantos estudos que atestaram a ‘ausência de risco’ da crisotila não foram financiados ou apoiados de certa forma pela indústria do amianto? Eu estou tentando me lembrar de um!”, ironiza o historiador especializado em negócios corporativos, professor e pesquisador inglês Geoffrey Tweedale, autor do livro Defending the Indefensible: The Global Asbestos Industry and its Fight for Survival (Defendendo o Indefensível: A Indústria Global do Amianto e sua Luta pela Sobrevivência). O também historiador JocK McCulloch é seu co-autor. Tweedale é taxativo: “As táticas usadas pela indústria do amianto no Brasil não são novas; foram formuladas e usadas ao longo de décadas. Certamente na Europa a indústria do amianto influenciou (e muitas vezes financiou) médicos, jornalistas e políticos de várias maneiras. No Reino Unido, eu não estou a par de nenhum caso de pagamento de propina para sindicalistas e membros do judiciário. Nesse sentido, a situação brasileira é talvez ainda mais surpreendente”.“DENÚNCIAS GRAVES”. “CONFLITO DE INTERESSES FLAGRANTE” De fato, a história se repete. O que o Brasil fez foi apenas reproduzir o modelo que existia lá fora. Nada de novo. A indústria brasileira financiou a pesquisa de Bernstein que “livra cara” da crisotila brasileira. Curiosamente, bancou e banca boa parte das pesquisas sobre amianto dos médicos Mário Terra Filho, Ericson Bagatin e Luiz Eduardo Nery, respectivamente, professores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É deles o estudo que levou à conclusão de que nenhum trabalhador brasileiro que começou a trabalhar com amianto após 1980 adoeceu. Um mantra repetido à exaustão pelo lobby do amianto.A reportagem Médicos disseram que Manoel estava bem de saúde. Mas ele tinha câncer no pulmão, publicada pelo Viomundo em 14 de julho, denunciou ainda que:1) Mário Terra Filho, Ericson Bagatin e Luiz Eduardo Nery, responsáveis por pesquisas com amianto, são os mesmos médicos que, através de empresa privada que mantêm em sociedade, participam das Juntas Médicas de Acordos Extrajudiciais com fins de indenização das vítimas pelos danos provocados pela exposição ao amianto.2) Desse modo, fazem pesquisa sobre o amianto -- financiada inclusive com dinheiro público --, diagnóstico de ex-empregados do setor -- como consultores da empresa e com financiamento privado -- e ainda interferem no valor das indenizações, já que indicam o grau de incapacidade e a classe correspondente no referido Acordo. Privado e público se confundem na cabeça dos ex-empregados. Onde começa um e termina o outro?3) Apresentam conflito de interesse tanto na relação médico-paciente quanto na realização de suas pesquisas sobre amianto.4) Omitem informações importantes aos órgãos de fomento à pesquisa científica do País.5) Escondem informações cruciais às comissões de ética em pesquisa das suas próprias instituições. Foi o que aconteceu com o projeto Exposição ambiental ao asbesto: avaliação dos riscos e efeitos na saúde apresentado à Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa (CAPPesq) da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. O orçamento previsto era de 4 milhões de reais. Foi revelado à CAPPesq apenas 1 milhão de reais do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq). Sonegou-se que boa parte do valor restante seria financiado pela indústria do amianto no Brasil.“Nada disso foi dito nem descrito quando [2006] da apresentação do projeto à CAPPesq”, afirma Euclides Castilho, seu presidente à época e professor titular do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP. “Vejo como uma situação grave. Demonstra conflito de interesse flagrante. Fere a resolução 196/96 da Conep.” Conep é a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. É uma comissão do Conselho Nacional de Saúde. Seu princípio maior é o controle social, a defesa da sociedade. Professor Euclides Castilho, Fernanda Giannasi e Eliezer de Souza: encontro na Faculdade de Medicina da USP para se solidarizar com o ex-presidente da CAPPesq e solicitar seu apoio para apuração das denúncias. “A conduta deles é muito típica de médicos financiados pela indústria”, observa Geoffrey Tweedale. “Nomeie um país onde isso não tenha acontecido. Não existe!”Laurie Kazan-Allen compara o caso à situação na Índia: “A vergonhosa situação da comunidade médica na Índia em relação aos trabalhadores do setor do amianto é bem parecida ao escândalo dos pesquisadores brasileiros que receberam financiamento da indústria do amianto para fazer pesquisa que, convenientemente, mostrou que a crisotila brasileira não é perigosa”. Semana passada, em conjunto com vários colegas indianos, Laurie lançou, simultaneamente, em Bombaim e Amsterdã o livro India’s Asbestos Time Bomb (Amianto, uma Bomba Relógio na Índia). Coincidentemente, um relatório que, entre outras bombas, condena médicos indianos por acordos secretos com a indústria local do amianto. “Como esses médicos conseguem dormir, sabendo que estão agindo contra nós, trabalhadores?”, indigna-se Eliezer de Souza, presidente da Abrea, contaminado pelo amianto. “É muita desumanidade, irresponsabilidade e falta de ética.”“As denúncias publicadas pelo Viomundo mudaram a história no Brasil. São um divisor de águas: antes e depois delas”, afirma Fernanda Giannasi, símbolo da luta contra o amianto no País. “Muita gente foi enganada por esses médicos da indústria travestidos de pesquisadores neutros e professores éticos das nossas mais importantes universidades.”“Os juízes, ao lerem um relatório deles, aceitavam-no como a grande verdade científica. Os trabalhadores acreditavam que estavam sendo encaminhados a médicos ilibados de faculdades da maior credibilidade. Políticos os reverenciavam assim como a imprensa nacional que, antes de publicar qualquer queixa nossa, ia ouvir essas ‘autoridades médicas’”, ilustra Fernanda Giannasi. “Agora, está provado que nem os médicos nem as pesquisas deles são isentas. Ao contrário. A pesquisa é um relatório feito sob encomenda para a indústria do amianto. Eles macularam a imagem de suas instituições, que acabaram legitimando as teses da segurança do uso da crisotila no país e sua inocuidade à saúde pública.”CREMESP ABRE SINDICÂNCIA. USP PROMETE APURAÇÃO ISENTABaseados nas reportagens Aldo Vicentin, mais uma vítima do Amianto e Médicos disseram que Manoel estava bem de saúde. Mas ele tinha câncer no pulmão, publicadas pelo Viomundo, a Abrea solicitou ao Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e às instituições envolvidas a apuração das denúncias. A Abrea representa milhares de vítimas do amianto no País, organizadas em seis estados da nossa federação -- São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná, Goiás e, mais recentemente, Minas Gerais. “São fatos graves que estão sendo denunciados”, diz o médico Henrique Carlos Gonçalves, presidente do Cremesp. “A luta dos trabalhadores expostos ao amianto é perfeitamente correta do ponto de vista social. E o Cremesp, além de ser um órgão de fiscalização do exercício da Medicina, é historicamente comprometido com as lutas sociais.” O Cremesp abriu imediatamente a sindicância nº 096142. Na USP, a denúncia foi feita diretamente ao diretor clínico do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, o professor José Otávio Auler Jr. O alvo é o professor Mário Terra Filho, chefe do Ambulatório de Pneumologia Ocupacional do Incor, subordinado ao HC-FMUSP. Rapidamente, o doutor Auler criou uma comissão de averiguação para apurar o caso; ela tem até 18 de outubro para apresentar suas conclusões. “A apuração será isenta, neutra”, promete.
Dr. Henrique Gonçalves, presidente do Cremesp, e Eliezer de Souza, presidente da Abrea. Professor José Otávio Auler Jr, diretor clínico HC-FMUSPNa Unicamp, a denúncia foi encaminhada à coordenadora do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas, a professora Carmen Sílvia Bertuzzo. O alvo é Ericson Bagatin, professor de saúde ocupacional. “Abrimos uma sindicância para apurar esses fatos; estamos no meio dessa averiguação”, informa a professora Carmen. “Assim que terminarmos, encaminharemos nosso parecer final.”“Esse projeto de pesquisa não passou pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unifesp”, diz o seu coordenador, o professor José Osmar Pestana Medina. “A questão está sendo discutida no âmbito da USP e do Conselho Regional de Medicina.” O alvo é Luiz Eduardo Nery, professor de Pneumologia.CERTIDÃO DE ÓBITO DE MANOEL: AMIANTO NÃO APARECE. “MEDO”.A reportagem Manoel estava bem de saúde. Mas ele tinha câncer no pulmão foi publicada no dia 14 de julho. Em 6 de agosto Manoel de Souza e Silva Júnior, 64 anos, faleceu em decorrência de um câncer de pulmão causado por amianto e cigarro. Trabalhou na SAMA de agosto de 1982 a novembro de 1996. “Está muito difícil. A gente sente bastante falta do Manoel”, chora a esposa, dona Maria Lúcia, que em agosto completaria 45 anos de casamento. “A minha vida se foi.”
“Na última vez em que o Manoel foi ao escritório da SAMA fazer exame, tinha biscoito, lanchinho”, relembra. “O Manoel disse: ‘querem comprar a gente com isso’. Estava inconformado, enfurecido. Tinha perdido um amigo, o Ildo, que trabalhava no escritório e morreu de câncer do pulmão. Disseram que era porque fumava demais. O Ildo nunca pôs um cigarro na boca e ainda falava para todo mundo não fumar!”“Nesses anos todos, aquela cambada de safados da SAMA e os médicos ficaram impunes. Não imaginavam que um operário fosse abrir o bico”, fala já com orgulho. “Agora, quero que todos paguem, inclusive os médicos da Junta Médica. Não só pelo o que fizeram com o Manoel, mas por todos os operários que foram vítimas do mesmo esquema.” “Bem no fim, quando tinha apenas alguns momentos de lucidez, o Manoel pediu para mim e os sete filhos: ‘Não larguem a luta. Vão até o fim’”, emociona-se. “Nós iremos!”“Em Goiás, o medo de represálias da SAMA é tamanho que a palavra amianto não aparece na certidão de óbito do meu pai”, revela a filha Lúcia de Souza e Silva Marques, a Lucinha. “E isso apesar de apresentarmos o laudo do doutor Ubiratan de Paula Santos, da disciplina de Pneumologia da Faculdade de Medicina da USP, atestando que o câncer de pulmão foi causado pelo amianto e pelo cigarro.”“Nós insistimos para que constasse a palavra amianto”, enfatiza Cláudia de Souza e Silva, outra filha do senhor Manoel. “O mais próximo que a médica chegou foi fibrose pulmonar, que é um problema que pode ser causado pelo amianto.” No caso do amianto, essa fibrose é denominada asbestose. “Inegavelmente, há um conluio, envolvendo os médicos da Junta Médica e o ‘doutor’ David Bernstein, para ocultar os casos de doenças relacionadas ao amianto e contribuir para a invisibilidade delas no País”, arremata Fernanda Giannasi.“A ‘ausência’ de doentes e de estatísticas adia o debate para o banimento da fibra cancerígena. Sob o pretexto de haver dúvidas se o amianto brasileiro goiano é realmente nocivo, nossos políticos se esquivam de pôr fim a esta tragédia ecossanitária sem precedentes na história industrial moderna. A dúvida é produto deles, não nosso. Nós temos certeza. O amianto mata!”

var tell_a_friend = new Control.Modal('tell_a_friend_modal',{
opacity: 0.7,
afterOpen: function() { $('tell_a_friend_name').focus(); }
});
ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Leider Lincoln (28/09/2008 - 21:55)Eu sou de Goiás e Catalão, a cidade em que moro, também pode ser vítima de mineradoras. Anotem o nome do defensor mor do amianto na Câmara: Carlos Alberto Leréia, do PSDB.
Fonte: Blog Vi o Mundo.

ARTIGO - Não há solução capitalista para a crise financeira.

Vamos ajudar os drogados do lucro ( = os capitalistas) a libertarem-se do seu vício, visto que só por si não o conseguirão fazer!A actual crise financeira mostra-nos o que é o sistema capitalista: uma economia construída sobre o vento e sempre à procura do lucro fácil. Nos últimos dias o que se passou verdadeiramente foi que milhões de dólares pura e simplesmente desapareceram. E muitos milhares de milhões de dólares no último ano se eclipsaram como num passe de magia. Hoje, ironia das ironias, são os ultra-liberais de ontem e a própria Meca do neo-liberalismo ( os Estados Unidos da América) que se converteram ao intervencionismo estatal na economia, ao avançarem para as maiores nacionalização jamais feitas em pleno regime capitalista, numa escala muito maior do que as nacionalizações dos bancos e empresas portuguesas em 1975, e muitas outras realizadas noutros países por governos ditos socialistas.Quem disse que os capitalistas e os liberais eram contra o intervencionismo estatal, ou contra as nacionalizações?São-no sim, mas só quando se trata de socializar e estatizar os apoios sociais para as populações, ao passo que se mostram completamente partidários da estatização e do intervencionismo quando se trata de montar colossais operações militares que lhes agradem, ou então quando há que ir em socorro dos bancos e das instituições financeiras que sofrerem grandes prejuízos na economia de casino em que se converteu o capitalismo global.Os milhares de milhões de dólares que o governo norte-americano já injectou, e que se propõe ainda injectar mais, só tem como objectivo garantir que aqueles jogadores – sim, porque se trata disso mesmo, de jogadores – continuem a jogar, graças a uma fuga para a frente.É como dar-lhes a possibilidade de refazer o jogo, desde o início, quais jogadores de poker detentores de uma reserva ilimitada de trunfos. A verdade, porém, é que eles jogam com o nosso trabalho, e são os trabalhadores que irão pagar aquelas ruinosas jogadas. E quando a crise tiver passado, e os bancos recomeçarem a obter lucros, não faltarão certamente prestimosas medidas governamentais a obsequiar os capitalistas. Ou seja, o que se trata, mais uma vez, é de privatizar os lucros e socializar os prejuízos.Numa época como esta não será mau de todo pensar e interrogarmo-nos sobre o sentido e significado das privatizações em geral, alardeada por políticos e economistas liberais, assim como das tão afamadas deslocalizações de empresas, da alta especulativa dos preços das matérias-primas, da redução das pensões com consequências negativas para as populações mais pobres e carenciadas.Por tudo isso é que precisamos de nos preparar para ajudar os drogados do lucro a libertarem-se do seu vício, visto que só por si não o conseguirão. Não há solução para o capitalismo por muito intervencioncionismo estatal que se promova a fim de salvar os pilares capitalistas: a avidez e a ganância do lucro, a dominação e opressão dos pobres e explorados, o militarismo, a destruição da natureza.Pôr em xeque um sistema baseado no lucro e na exploração do trabalho e de milhares de seres humanos deve ser o objectivo permanente de quem sabe que não há solução definitiva para a crise capitalista senão fora do próprio sistema capitalista, e que, enquanto este se mantiver, não deixarão de inevitavelmente emergir crises estruturais que afectarão a vida de milhões de seres humanos.
Fonte: Blog Pimenta Negra.

CURIOSIDADES - Você pediria dicas sobre investimentos a uma vidente?

"Você está infeliz, desanimado? Tem tido mais azar do que de costume?" Estas palavras impressas em um volante afixado no interior de um vagão do metrô lotado, na semana passada, referiam-se aparentemente ao sentimento de ansiedade geral alimentado pela extraordinária montanha-russa financeira em que o país foi atirado. A propaganda da vidente prometia "resultados garantidos em 24 horas para qualquer problema".Existem centenas de videntes profissionais e conselheiros espirituais de alto nível na cidade, prontos para satisfazer a sede de informações sobre as forças que controlam a nossa vida. E agora, com a turbulência que varre os mercados financeiros, alguns videntes falam mesmo que está havendo um boom em seus negócios, relacionado às profundas preocupações das pessoas com dinheiro."Antes o problema era apenas o amor. Agora é o dinheiro", disse Mary T. Browne, que a revista Forbes já definiu como a "vidente ouvida por Wall Street", porque entre seus clientes há executivos do setor financeiro, além de várias celebridades. "As pessoas não pensam no amor quando não conseguem pagar o aluguel. O amor é maravilhoso até que você precisa se preocupar com a sobrevivência, mas, hoje em dia, ninguém mais pode contar com uma proteção segura."Browne, 50, faz questão de distinguir-se das que ela chama de "ciganas que exploram o medo das pessoas". Trajando freqüentemente roupas Chanel, prevê o futuro há 28 anos, trabalhando no seu escritório no setor do comércio de carnes, em Manhattan, e em sua casa, em Woodbury, Connecticut, a US$ 400 a sessão.Ela conta que descobriu essa sua especialidade quando tinha sete anos e ajudava a atender ao telefone na agência funerária da família em Iowa. Mary diz que viu o espírito de uma mulher arrumando as flores ao redor do caixão, e lembra que sua avó comentou: "Você tem um dom".Mary recebeu recentemente muitos cartões de agradecimentos, como os de dois clientes que ela desaconselhara a deixar o emprego, há 18 meses, para aceitar cargos mais bem pagos no Bear Stearns. "Isso aconteceu antes da quebra da empresa", diz. O Bear Stearns, ameaçado de falência, foi adquirido pelo JP Morgan Chase & Co. em março, e muitos dos seus funcionários perderam o emprego.Há alguns anos, Mary Browne é fantástica em investimentos em ouro. "Quando alguém me faz uma pergunta, vem uma imagem na minha cabeça", explicou. Ela lembra de um cliente que perdeu muito dinheiro, mas depois conseguiu ganhá-lo de volta seguindo seus conselhos. "Quando olhei para ele só vi barras de ouro."Em um apartamento no East Village, em frente à Tompkins Square Park, outra vidente, Rosanna Schaffer-Shaw, ex-especialista em dança do ventre, oferece seus conselhos sob o nome de Fahrusha, que, segundo ela, significa borboleta ou falena (espécie de mariposa), em árabe. "Prefiro borboleta", diz Schaffer-Shaw, que se especializou em tarôs e quiromancia, além de interpretação de fotografias e comunicação com animais."As pessoas estão preocupadas com o emprego", afirma a quiromante, na sala pintada de vermelho vivo na qual realiza as sessões, a US$ 150 cada. Em uma estante estão duas bolas de cristal, velas e uma pluma."As pessoas perguntam mais sobre empregos estáveis, mesmo que não trabalhem no setor financeiro", prossegue.Uma tarde, recentemente, Rosanna atendeu a clientes que pediram para ser identificados apenas pela inicial, porque temiam que o fato de recorrer a uma vidente poderia criar problemas no trabalho.E., por exemplo, que pretende associar-se a outro cliente de Schaffer-Shaw, um banqueiro de investimentos chinês, perguntou sobre a economia de Xangai, onde planejam abrir uma empresa para fabricar iogurte.Ela queria saber se as ações que comprou no mercado chinês voltariam a subir depois da recente queda, e quais sabores e coberturas sua companhia deveria oferecer.P., que até recentemente ocupava um cargo de executivo em uma importante empresa financeira, disse que costuma consultar Rosanna e ela é muito cuidadosa. "Atualmente, nesse marasmo financeiro, estou muito preocupado com o que devo fazer daqui para a frente com minha carteira de investimentos .
Fonte: Blog da Juliana

ELEIÇÕES AMERICANAS - Lula será um amigo de Obama em temas globais, diz democrata.

Richardson foi único hispânico a participar da disputa das primárias.

O governador democrata do Estado do Novo México, Bill Richardson, acredita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é ''uma importante figura internacional'' e será ''um grande amigo do senador (Barack) Obama em temas globais'', caso o democrata chegue à Casa Branca.
Richardson, o único hispânico a participar da disputa das primárias pelo Partido Democrata, conversou com a BBC Brasil na sexta-feira, pouco antes do primeiro debate entre os dois candidatos presidenciais, o democrata Barack Obama e o republicano John McCain.
O governador nasceu na Califórnia e é filho de pais mexicanos. Ex-embaixador dos Estados Unidos na ONU, Richardson fez de sua experiência em política internacional um dos trunfos de sua campanha durante as primárias.
O líder do Novo México passeava pelo campus da Universidade de Mississippi, juntamente com o assessor horas antes do debate.
'Brasil, Pelé!'
Ao ser abordado, Richardson sorriu e disse: ''Brasil, Pelé!'', quando viu o microfonone da BBC Brasil.
De acordo com o governador, os democratas querem mudar a política dos Estados Unidos em relação à América Latina.
''Queremos dar mais atenção a Brasil, Argentina e Chile. Queremos ter uma boa relação de cooperação com o Brasil''.
''Precisamos mandar a mensagem de que a América Latina é importante. Mas o governo Bush não presta atenção à América Latina.''
Fim do embargo
Entre as medidas que Richardson julga necessárias para não alienar os aliados latino-americanos dos Estados Unidos está promover uma reforma imigratória.
Os Estados Unidos promoveram um longo debate sobre o tema, mas o projeto de reforma imigratória defendido, por sinal, pelo candidato John McCain e pelo senador democrata Edward Kennedy acabou não sendo aprovado.
O governador chega até a dizer que os democratas estariam dispostos a pôr fim ao embargo contra Cuba, um tema-tabu na política americana.
''Sim, mas em troca, Cuba teria que adotar algumas reformas .
Fonte: BBC Brasil.

ARTIGO - A pensar o impensável: um cancelamento da dívida e um ano de jubileu....

A pensar o impensável: Um cancelamento da dívida e um ano jubileu com uma reabilitação.

por Michael Hudson.

Atingimos o ponto em que podemos finalmente ser capazes de romper a membrana de dissonância cognitiva que tem estado a cegar o povo. Um curso simples de ciências económicas – principiando no secundário, continuado numa faculdade e a seguir refinado numa pós-graduação – deveria explicar aos estudantes porque é errado acreditar na publicidade que a Wall Street apregoou durante o último meio século: A promessa enganadora de que uma economia pode enriquecer seguindo a matemática da "mágica do juro composto". A irrealidade desta promessa deveria ser imediatamente evidente ao examinar a matemática do crescimento exponencial . Já no tempo da Revolução Americana, economistas financeiros popularizavam o contraste que Malthus a seguir imitaria na sua teoria da população: Dívidas crescem a taxas "geométricas", ao passo que a própria economia cresce apenas "aritmeticamente", de um modo mais lento e mais linear. Tudo o que é necessário é colocar esta ideia junto à definição básica do balanço: As poupanças de uma pessoa são emprestadas e tornam-se dívidas de outras pessoas. Assim, a "mágica do juro composto" para os poupadores significa igualmente uma "mágica do endividamento explosivo" em outros lugares na economia. E na medida em que os credores insistem em proteger-se do inevitável incumprimento pela tomada de posse do colateral, é natural que a maior parte das dívidas da economia seja devida aos seus maiores activos: terra e edifícios. Isto explica porque dívidas hipotecárias têm de ser reembolsáveis e "libertas de toxicidade". A "mágica do juro composto" refere-se à tendência das poupanças para duplicar e reduplicar exponencialmente, com uma ascensão correspondente no que os devedores devem do outro lado do balanço. Esta matemática tem estado a operar ao longo da história, desde quando o encargo do juro foi inventado na Suméria em algum momento por volta do ano 2750 AC. Em toda sociedade conhecida, o efeito foi concentrar riqueza nas mãos das pessoas com dinheiro. Nos últimos anos, nem mesmo é necessária a posse de moeda para fazer isso. O poder para endividar outros a si próprio pode ser alcançado através da livre criação de crédito. Contudo, o resultante crescimento exponencial explosivo no endividamento deve entrar em colapso no ponto em que o seu juro e outros encargos inerentes (agora aumentados por comissões exorbitantes, multas sobre cheques sem fundos, custos com cartões de crédito e outras penalidades) absorvem todo o excedente económico. A DÍVIDA NÃO PODE SER PAGA Este é o ponto que foi atingido – e ultrapassado – no dias de hoje. Ele desenvolveu-se ao longo de muitas décadas. Mas há uma grande relutância em aceitar o facto de que a dívida não pode ser paga. "Os pobres são honestos", como me explicou um banqueiro, e acreditam que "uma dívida é uma dívida" e deve ser paga. (Não é isto em que acreditam Donald Trump, Bear Stearns ou a AIG, mas eles estão no topo da pirâmide económica, não na sua base). Ao longo de anos numerosos editores rejeitaram livros que lhes propus sobre o assunto. Eles explicavam-me: "Ninguém quer ler como a bolha irá arrebentar – pelo menos enquanto ela não se romper. Você não poderia escrever um livro sobre como ganhar um milhão de dólares com o colapso económico que está para vir? Isso seria um best-seller, Prof. Hudson. Mas dizer às pessoas que elas não podem pôr poupanças de lado e pagar pela sua aposentadoria é como dizer-lhes que terão mau sexo depois dos 50 anos de idade. Isso não vende. Volte quando tiver boas notícias". Estas são palavras que ouço desde meados da década de 1980. Passei muito tempo a olhar através da história a fim de verificar como o fracasso em eliminar a sobrecarga da dívida levou ao colapso da república imperial de Roma, e ao do Império Otomano que no fim do século XIX era conhecido como "o saqueador do Egipto" e "a ruína da Pérsia". Também publiquei uma série de quatro colóquios de assiriologistas e arqueólogos que descreviam como anteriormente, desde cerca de 2500 até talvez 3000 aC, os babilónios e outros governantes do Oriente Próximo souberam manter livres os seus cidadãos livres e preservar a sua propriedade da terra por meio da anulação de dívidas pessoais e agrárias ao assumirem o trono – um verdadeiro "feriado fiscal" – ou quando as condições económicas ou militares garantiam uma Reabilitação (Clean Slate) geral. (A série foi financiada e publicada pelo Peabody Museum de Harvard e agora está disponível junto à CDL Press ). Estas reabilitações foram adoptadas literalmente, quase palavra por palavra, no Ano do Jubileu Bíblico, Leviticus 25. Até a mesma palavra hebraica, deror, foi utilizada para andurarum babilónico proclamado pelos governantes da dinastia Hamurabi de 2000 a 1600 aC. Assim, para mim é notável que homens de hoje que se afirmam líderes cristãos ignorem o facto de que no próprio primeiro sermão dado por Jesus, na Nazaré (Lucas 4:14-30), ele desenrolou o pergaminho de Isaías 61 e prometeu que tinha vindo "para proclamar o Ano do Senhor", o Ano Jubileu. Esta era a "boa notícia" literal que pregava a Bíblia, como os pergaminhos do Mar Morte ilustraram abundantemente. Mas é um sinal do poder da ideologia do credor que mesmo a essência deste documento fundador da civilização ocidental tenha sido ignorado por uma visão distorcida daquela cristandade primitiva. O judaísmo e outras religiões foram entusiastas, o que não é surpreendente. A passagem de Lucas sobre este sermão fundador de Jesus conclui destacando que "todas as pessoas na sinagoga ficaram furiosas quando ouviram isto. Elas levantaram-se, acompanharam-no para fora da cidade e levaram-no para a beira da colina sobre a qual a cidade fora construída, a fim de lançá-lo abaixo no despenhadeiro". Lançarem-no no despenhadeiro! Foi a isto que os revoltantes senadores romanos da extrema direita conduziram os seguidores dos irmãos Graco na colina do Senado, num exercício de violência política que impediu Roma de conceder alívio para a dívida no fim do segundo século AC. Tito Lívio, Diodorus, Plutarco e outros historiadores da época atribuíram a previsível queda do Império Romano às suas duras leis do endividamento orientadas a favor dos credores. Mas hoje, há historiadores a publicar livros especulando que talvez o problema estivesse nas canalizações de chumbo ou nas taças de chumbo do seu vinho, ou doença, ou super-extensão imperial, ou superstição – tudo excepto a causa para a qual os próprios historiadores romanos apontavam. Ainda estamos a viver com as consequências da revolução oligárquica de Roma. Que é o que torna tão importante as audiências desta semana no Congresso sobre a dádiva de US$700 mil milhões. Primeiro através da força militar e a seguir através da sujeição à dívida e a servidão, Roma deixou como herança para a Europa um corpo de leis baseado na propriedade e orientado para o credor. Mas desde o século XIII, país após país alterou o equilíbrio outra vez em favor dos devedores – para salvá-los da escravização pela dívida, das prisões para devedores, do endividamento permanente, para lhes dar uma reabilitação ao nível individual. LUTERO, MARX E A USURA Handel organizou a primeira execução de O Messias como um acto beneficente a fim de conseguir dinheiro para salvar devedores de prisões irlandesas, e todos os anos aquele oratório era repetido com essa finalidade caritativa. Martinho Lutero advertiu acerca da matemática do juro composto como o monstro Caco , a devorar tudo. Mas as denúncias de Lutero quanto à usura são excluídas das suas obras publicadas em inglês, e estão disponíveis nesta língua apenas no Volume III de O Capital de Marx e no Livro III das suas Teorias da Mais Valia. A discussão do juro e da banca tornou-se tão marginalizada que mesmo quando eu ensinava a cadeira "Moeda e bancos" na New School de Nova York, em fins da década de 60 e princípios da de 70, isto não fazia parte do núcleo do currículo e era tratado como um tópico especial. (Felizmente, este não é o caso no lugar em que estou agora na Universidade de Missouri, em Kansas City. Mas levou muito tempo para chegar aqui). Por trás desta alteração na escolha legislativa estava a percepção de que nenhuma economia se pode manter com o fardo de dívidas a crescerem a taxas exponenciais mais rapidamente do que cresce a própria economia. Nenhuma economia pode crescer a taxas exponenciais fixas, só as dívidas é que se podem multiplicar desta forma. Eis porque a dádiva de US$700 mil milhões do sr. Paulson aos seus colegas da Wall Street não pode funcionar. O que isto pode conseguir é proporcionar uma transferência ocasional de riqueza para iniciados que já estão a jogar o sistema débito-crédito e a sugar rendimentos financeiros para si próprios. Todos os banqueiros da Wall Street, correctores e administradores de fundos com quem tenho falado durante muitas décadas sabem disto. Eis porque eles se pagam a si próprios bónus anuais tão grandes e grandes salários a cada ano. A ideia é sacar tanto quanto puderem. Tal como no velho ditado: "Você só tem de fazer uma fortuna uma vez na vida". Eles têm estado a guardar as suas fortunas em outros lugares, ano após ano, principalmente em activos tangíveis: imobiliário (livre de hipotecas), mobiliário fino, barcos e troféus artísticos. O plano deles agora é aperfeiçoar o que já era bom – tomar os US$700 mil milhões de Paulson e fugir. Não se trata de uma "salvação do sistema financeiro". Trata-se de uma dádiva – para iniciados, para liquidarem todas as suas apostas más. Companhias de todas as categorias livrar-se-ão das suas hipotecas más, e também dos seus maus empréstimos de carros, pagamentos de mobiliário, empréstimos com cartões de crédito, empréstimos a estudantes – todas dívidas que qualquer actuário competente poderia ter dito desde o início que nunca poderiam ter sido pagas. A NOVA CLEPTOCRACIA Não é isto o que o secretário do Tesouro Paulson reconhece, o que é uma vergonha para ele. Na última sexta-feira de Setembro ele foi acompanhado pelo presidente do Fed, Bern Bernanke, a cantarem em uníssono um estribilho publicitário para a nova cleptocracia da América que soa tão falso que o Congresso e o público americano devem ouvir as desafinações. O Financial Times de Londres, bem como um grande número de europeus percebe isto. Isto é que tem estado a conduzir a taxa de câmbio do dólar esta semana. Parece mais fácil para os estrangeiros reconhecer a ameaça da transformação da democracia americana numa cleptocracia opressora. Esta mudança é sempre repentina, organizada sob condições de emergência. Aqueles com memória de 12 anos atrás verão George Bush a desempenhar o papel de Boris Yeltsin na Rússia, em 1996, a pagar aos contribuidores da sua campanha dando-lhes todo o excedente económico que o governo poderia expropriar no infame plano "empréstimos por acções" aplaudido e apoiado pelo secretário do Tesouro de Clinton (e actual conselheiro de Obama) Robert Rubin. (Moral: precisaremos ter um Putin no nosso futuro próximo para bloquear o golpe anti-democrático?) Quão irónico é isto tudo! Remontando à década de 1970, havia a teorização de que as economias russa e americana estavam a convergir. A ideia era que ambas moviam-se rumo a mais centralizados controles de Estado, financiamento de Estado, subsídio de Estado e um complexo industrial-militar. Ninguém esperava que a convergência se verificasse ao estilo Yeltsin com dádivas do governo a iniciados a fim de criar um novo grupo de multimilionários financeiros – os "sete banqueiros" sob Yeltsin em 1996, e a gang de hoje do Compadrio Capitalista do sr. Paulson. Vamos examinar os eufemismos como um exercício de duplo pensamento orwelliano. O sr. Paulson defendeu o seu "programa de alívio para activos perturbados" ("troubled asset relief program", TARP) afirmando que "activos hipotecários ilíquidos ... perderam valor ... sufocando o fluxo de crédito que é tão vitalmente importante para a nossa economia". O crédito que é "tão vitalmente importante" assumiu a forma de maus empréstimos. Contra a pretensão do sr. Paulson, o problema não está em que eles são "ilíquidos". Se este fosse o problema, ele seria meramente temporário. Os bancos do Federal Reserve são destinados a proporcionar liquidez – com bons colaterais, naturalmente. CREDORES DEVEM ASSUMIR AS PERDAS Como observou o colunista Martin Wolf, do Financial Times, na quarta-feira 24 de Setembro, o problema é que o valor facial dos empréstimos hipotecários e uma série de outros maus empréstimos excede de longe os actuais preços de mercado ou os preços que provavelmente serão concretizados este ano, no próximo ano ou no ano seguinte a este. Eles estão empacotados no que a imprensa financeira denomina correctamente como "produto tóxico". O salvamento não é eficiente, escreve ele, "porque só se pode tratar da insolvência pela compra de maus activos a muito acima do seu verdadeiro valor, garantindo portanto grandes perdas para os contribuintes e proporcionando um salvamento ilimitado para a maior parte dos investidores irresponsáveis" [1] . "O caminho mais simples para recapitalizar instituições – conclui ele – é forçá-las a aumentar o património líquido e suspender os dividendos. Se isto não funcionasse, poderiam ser forçadas a conversões de dívida em acções. A atractividade de permutas dívida-acções é que elas criariam perdas para os credores, as quais são essenciais para a saúde a longo prazo de qualquer sistema financeiro". Esta é a chave: se as dívidas não podem ser pagas, então os credores devem assumir as perdas. Estes maus empréstimos são tóxicos porque só podem ser vendidos com uma perda – nem que seja porque os investidores estrangeiros já não confiam na honestidade dos banqueiros de investimento ou nos administradores de dinheiro dos EUA. Aqui está o problema que o Congresso não está desejoso de constatar e enfrentar. Muitos destes empréstimos são absolutamente fraudulentos. E eles estão a ser vendidos por vigaristas. Vigaristas que trabalham para bancos. Vigaristas que utilizam a fraude contabilística – tal como a fraude que levou ao despedimento de Maurice Greenber da AIG e dos seus émulos na Fannie Mae, Freddie Mac e outras companhias que entraram em contabilidade tipo Enron. Não é isto o que a mágica do juro composto prometera. Mas é onde ela tem de acabar, com inevitabilidade matemática. Esta mágica foi uma publicidade chamariz de administradores de dinheiro da Wall Street e promotores do "capitalismo fundo de pensões" (ou "capitalismo popular" como era chamado no Chile pelos Chicago Boys a trabalharem para o regime assassino do general Pinochet, e pelos conservadores da Margaret Thatcher na Inglaterra). A promessa é que se as pessoas confiarem estes fundos a indivíduos que fazem muito, muito mais do que prometem, mas têm a vantagem da selecção natural de serem muito, muito cobiçosos, elas receberão uma perpétua duplicação de juros. É supostamente desta forma que as pensões dos trabalhadores americanos ainda serão pagas – pela mágica, não pelo investimento directo. Os aposentados em perspectiva são supostos assegurarem uma boa vida pelo investimento das suas poupanças em empréstimos a assaltantes corporativos que demitiram, despediram, reduziram e externalizaram estes mesmos trabalhadores. O truque é convencer os empregados a entregarem os fundos de pensão a administradores financeiros cuja ideia era fazer dinheiro da economia pela extracção de juros e dividendos dos trabalhadores, proprietários de casas e companhias que estavam a ser compradas com a alavancagem da dívida. Em última análise é a alavancagem da dívida por si própria que é suposta alimentar ganhos de capital. Isto levou à loucura. A solução mais louca de todas para o governo seria dar ao sector extractivo financeiro ainda mais dinheiro – fundos que nenhum prestamista privados está desejoso de proporcionar, nem mesmo fundos abutre. Nenhuma firma privada foi capaz de descobrir o que o sr. Paulson e o desventurado sr. Bernanke estão hipocritamente a prometer: que um acordo viável, mesmo uma quase criação de dinheiro, pode ser feito comprando lixo agora e esperando que "a economia" fique boa. Simplesmente, o que é "a economia" que se supõe efectuar esta façanha notável senão seus devedores hipotecários e corporativos? O governo deve fazer tal como os funcionários responsáveis pela imposição da lei agiram para impedir o que o Countrywide Financial e outros prestamistas predatórios faziam: empurrar Hipotecas com Taxa Ajustável explosiva e hipotecas com "situação líquida negativa" para devedores, em termos que muitas vezes começavam por um isco e terminavam num anzol. As companhias privadas podiam ser desafiadas e o seu conjunto de comissões penalizadoras rejeitado por um tribunal. Mas talvez o Congresso possa arquitectar uma lei que imponha estes termos duros aos eleitores. Seria como se vivêssemos num sistema em que o povo votasse de acordo com o seu próprio interesse. Promessas de que os "contribuintes" serão capazes de recuperar grande parte deste dinheiro são uma ficção. Se houvesse uma esperança de recuperar este dinheiro, então os investidores lá de fora – fundos estrangeiros de compras, bancos estrangeiros, fundos de riqueza soberana do estrangeiro – teriam estado desejosos de comprar o Bear Stearns, o Lehman Brothers, a AIG e outras companhias a algum preço. Mas eles não quiseram tocar nisto a preço nenhum. Por que deveria então o Tesouro dos EUA pagar até três vezes o dinheiro para a Guerra do Iraque, que acabará por ser perdido, depois de pagar os jogadores pelas suas próprias más apostas? Estes banqueiros já colocaram todo o risco do lado dos seus clientes e, fizeram lobby para reescrever as leis da bancarrota, em favor dos devedores. Tal como o assunto agora se apresenta, os US$700 mil milhões serão utilizados a fim de financiar os bónus deste ano, salários e comissões de vendas de milhões de dólares deste ano, e para contribuir ainda mais para os fundos de aposentadoria com paraquedas dourados que administradores financeiros sifonaram a fim de proporcionar segurança líquida para si próprios. Assim, estamos de volta ao lema básico destes dias: "Você só tem de fazer uma fortuna uma vez na vida". Para eles, agora é o momento de tornar estas fortunas tão grandes quanto puderem. Porque a partir daqui é tudo colina abaixo. Porque os bancos não concederão empréstimos Aqui está porque a lógica governamental da dádiva é falaciosa: Trata-se de uma dádiva, não de um salvamento (bailout). Um salvamento é concebido para manter o barco a flutuar. Mas o barco Wall Street existente, carpinteirado pelos banqueiros de investimento que procuravam descarregar o seu lixo, deve afundar. A questão no momento em que afunda é simplesmente de saber quem será capaz de agarrar os botes de salvação e quem se afogará. Há uma razão para os bancos não concederem empréstimos: a habitação e o imobiliário comercial já estão tão pesadamente hipotecados que não há valor de renda (rental value) disponível (sobre e acima de despesas operacionais, impostos correntes e serviço da dívida) para penhorar aos bancos. Ainda custa mais comprar uma casa do que arrendá-la. Nenhum aumento do montante de crédito, excepto hiper-inflação, pode curar isto. Nenhuma redução da taxa de juro levará bancos a arriscarem-se a fazer um novo mau empréstimo – isto é, um empréstimo que provavelmente apodrecerá e acabará com o banco a assumir uma perda depois de o mutuário abandonar o imóvel ou incumprir. Saberá o Congresso o que é que lhe estão a dizer para fazer? Suponha-se que "contribuintes" estejam a espremer dinheiro para fora das "tóxicas" hipotecas lixo que compraram de investidores que compraram estes maus empréstimos. O único meio de fazer isso seria os preços do imobiliário serem elevado para níveis ainda mais elevados. Isto significa uma proporção ainda mais elevada de salários líquidos dos compradores de casa em perspectiva. O sr. Paulson percebe isto. Foi por isso que ele orientou a Fannie Mae e o Freddie Mac a inflacionarem mais os preços de todo o imobiliário. Pelo menos para os actuais possuidores de hipotecas serem pagos pelos actuais devedores a venderem para o proverbial "louco maior". A esperança no plano de Paulson é que haja suficientes "loucos maiores" com bastante dinheiro para tomarem emprestado de ainda mais enlouquecidos novos prestamistas hipotecários. Só a Fannie Mae, o Freddie Mac e a Federal Housing Agency estão desejosas de fazer empréstimos tão loucos, e isto é só porque estão a ser orientados pelo sr. Paulson para actuar neste caminho enlouquecido. Aqui está o problema em seguir as ordens do sr. Paulson e conceder ainda mais empréstimos: Todo conselheiro imobiliário conhecido prevê uma nova queda de 20 a 30 por cento nos preços da propriedade ao longo dos próximos doze meses. Isto é actualmente a previsão padrão. O seu significado é que além de estarem inscritos na contabilidade os mais de cinco milhões de atrasados e arrestados que o sr. Paulson já reconheceu, ainda mais famílias terão abandonado o combate por esta altura do próximo ano. Irá o fundo de dádiva dos US$700 mil milhões tentar receber de volta despejando muita gente das suas casas – para pagar o suficiente ao "contribuinte" a fim de salvar o Countrywide, Washington Mutual e outros prestamistas predatórios por empréstimos que Procuradores Gerais do estado denunciaram como fraudulentos? Para o governo começar mesmo a recuperar uma parte do valor dos US$700 mil milhões das hipotecas lixo compradas teria de forçar os novos compradores de casas a pagarem aos bancos ainda maior fatia do seu rendimento. E se eles assim o fizessem teriam menos rendimento para gastar em bens e serviços. O mercado interno encolheria, e as receitas fiscais cairiam aos níveis estaduais, locais e federal. O encargo da dívida deflacionaria a economia, provocando uma retracção geral posterior. De modo que é aqui que a dissonância cognitiva entra em campo: É necessário, e mesmo inevitável, para o volume de dívida descer – não subir – restaurar o equilíbrio. Como explicou Alan Meltzer do American Enterprise Institute (logo de onde!), a Merrill Lynch pôde ser vendida a 22 centavos de dólar, e a economia sobreviveu à liquidação do Lehman Brothers e do Bear Stearns. Tais cancelamentos de dívida são uma pré-condição para amortizar as dívidas hipotecárias da América a níveis que sejam comportáveis. Mas o plano do sr. Paulson é de combate a esta maré. Ele quer que a Wall Street seja mantida a arrecadar dinheiro a expensas da economia como um todo. Foram estes grandes bancos que fizeram lobby no Congresso para nomear des-regulamentadores, bancos cujos responsáveis pagam-se a si próprios enormes bónus e concedem-se enormes paraquedas dourados. Eles foram os líderes na grande campanha de desinformação acerca da mágica do juro composto. E agora estão prestes a obter o resultado do seu suborno. A pretensão é que não pagá-los ameaçaria "a economia". A realidade é que isto só travaria o comportamento predatório deles. Pior do que isso, para a economia como um todo, uma assunção pelo governo destes maus empréstimos impediria a amortização da dívida que a economia necessita! Ainda pior. Se o Congresso viesse a ser tão destrutivo absorvendo US$700 mil milhões de maus empréstimos (para começar), os vendedores farão exactamente os que fizeram os cleptocratas da Rússia. Eles apanharão o seu dinheiro e mudar-se-ão para fora, para um país de divisa "dura". Isto ajudará a fazer com que o dólar entre em colapso. Subirão os custos da gasolina e os preços das demais importações. A América será transformada numa economia de estilo russo pós-soviética, tendo dotado uma nova cleptocracia interna de iniciados, os quais utilizam alguns dos seus ganhos financeiros para financiar as campanhas de Yeltsins americanos, tais como McCain. Assim, vamos admitir que economia tomou um caminho errado durante as últimas décadas. Como observou John Kay: "Quando o pó assentar, muitos bancos e hedge funds terão perdido mais dinheiro nas suas actividades de trading no ano passado ou pouco mais do que o fizeram em toda a sua história ... A busca do valor para o accionista prejudicou tanto o valor para o accionista como o próprio negócio". [2] Preocupa-me que o salto de quarta-feira no Dow Jones médio assinale que os grandes decidiram que há uma boa oportunidade de a vasta dádiva ser aprovada. Os protestos republicanos parecem-me ter como objectivo não tanto realmente travar a medida, mas declarar publicamente para registo que se opõem a ela – antes de por ela votarem. Quando público acordar para a grande dádiva, os republicanos poderão dizer: "Foi um Congresso democrata que fez isso, não fomos nós. Leia os nossos protestos angustiados ". Toda a gente está a tentar cobrir-se. Com boas razões. Não os deixem falar em nome dos eleitores e a seguir actuar contra a economia, apregoando que estão a tentar salvá-la. Uma dádiva desta magnitude sem precedentes iria estropiá-la tão prolongadamente quanto se possa discernir.
24/Setembro/2008
Notas [1] Martin Wolf, “Paulson's plan was not a true solution to the crisis”, Financial Times, September 24, 2008. [2] John Kay, “How we let down the diligent folk at the Halifax”, Financial Times, September 24, 2008. O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=10330 . Tradução de JF. Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

ELEIÇÕES AMERICANAS - John McCain III, o aventureiro das eleições americanas.

Num país que enfrenta duas guerras e a pior crise econômica desde a Grande Depressão, não seria estranho pensar que o eleitorado norte-americano, historicamente com instinto conservador, optasse pelo candidato mais tradicional, mais seguro, mais prudente.
Quem é esse candidato na campanha atual? O terceiro de uma dinastia de marinheiros cujas façanhas se estenderam por vários continentes, ou o filho de um imigrante do Quênia que o abandonou pouco depois de nascer? O senador que percorreu os corredores do Capitólio durante um quarto de século ou o novato em sua primeira legislatura? O político septuagenário que herdou a cadeira de Barry Goldwater e aprendeu com Ronald Reagan ou o jovem negro que foi educado como trabalhador social nas ruas de Chicago?

Pelo visto até agora na campanha americana, por paradoxal que seja, não é John McCain e sim Barack Obama que oferece mais prudência, consistência e serenidade.

A decisão de suspender sua campanha e o primeiro debate eleitoral é a última prova do caráter vulcânico e imprevisível de John McCain e um prelúdio da montanha russa que poderia ser a sua presidência.

A despeito dos resultados que esse movimento pode acarretar nas pesquisas - ainda incertos -, o golpe de efeito anunciado na quarta-feira politizou desnecessariamente o debate no Congresso sobre o plano de salvação de Wall Street e deu à campanha toda um ar de emergência e de irrelevância, que impede que ela cumpra a missão a que toda campanha eleitoral está destinada: transmitir aos cidadãos os projetos do próximo presidente.

Trata-se de uma aposta extremamente arriscada, invocando o amor à pátria, que deixa Obama sem margem de manobra e que priva o eleitorado da necessária confrontação de idéias, sobretudo quando existem grandes desafios pela frente.

Pelo que se conhece da cronologia, não seria de estranhar que o movimento fosse, além disso, uma aposta improvisada, decidida em meio a uma torrente de notícias adversas para a candidatura republicana, depois que McCain recebeu uma ligação de Obama com a proposta - muito mais sensata - de elaborar uma declaração conjunta sobre a crise.

Tão improvisada quanto parece ter sido a outra grande decisão tomada por McCain desde que é candidato: a designação de Sarah Palin como companheira de cédula. A ignorância de Palin sobre qualquer assunto relevante da administração de um país já é palpável. A própria Barbara Bush o reconheceu. A campanha republicana sabe disso, e protege Palin de qualquer escorregão, que acontecerá mais cedo ou mais tarde, agora ou - pior ainda - quando estiver na Casa Branca.

McCain falou com ela durante poucas horas apenas antes de lhe oferecer o cargo. Mas foi suficiente para ele. Rejeitou todos os conselhos e seguiu seu instinto, o instinto de soldado, de homem de ação, de valente, de quem não conhece o medo, do amante do risco.

A aposta dessa vez pareceu acertada - brilhante, como McCain gosta -, e funcionou durante alguns dias, pelo tempo exato em que o entusiasmo da imprensa e a curiosidade do público se concentraram na nova estrela. Mas bastou a força dos fatos, o estrondo financeiro, para que Palin fosse reduzida à sua verdadeira dimensão.

Hoje, a campanha republicana esconde Palin dos jornalistas e reza para que o balão não murche completamente antes de 4 de novembro.

Já se sabia do caráter temperamental de McCain. Ele mesmo o reconhece e existem dezenas de anedotas, mais ou menos simpáticas, que o demonstram. Mas não se sabia tanto que esse caráter também está impresso em sua política e dá a ela uma tendência ziguezagueante que está chegando a preocupar os que deveriam ser seus aliados.

Um editoral do The Wall Street Journal criticou na quinta-feira a decisão de McCain de suspender sua campanha. É a segunda vez em uma semana que isso ocorreu. Antes disso, o candidato republicano foi repreendido pela elite conservadora por sua proposta de destituir o presidente da SEC (organismo regulador do mercado) e pelo tom exageradamente populista adotado em relação à crise.

Antes de ser um populista e um radical - 48 horas antes -, McCain era um oficialista. "Os fundamentos da economia estão sólidos", disse ao saber do terremoto no sistema financeiro.

Vários de seus críticos dizem que ele se deixa levar pela última coisa que se passa pela cabeça e presta atenção ao último que lhe fala ao ouvido. Já mudou três vezes os responsáveis por sua campanha.

Sua última viagem o levou, desta vez em menos de 24 horas, da ferocidade de seus ataques a Obama - até Karl Rove disse que pareciam excessivos - ao bipartidarismo e à causa comum. E ainda faltam 40 dias de campanha!

Fonte: El PaísTradução: Eloise De Vylder/Site O Vermelho.

ELEIÇÕES 2008 - Falta uma semana: quem subiu e quem caiu nas pesquisas.

Ricardo Kotscho: quem subiu e quem caiu nas pesquisas .

Aqui em São Paulo precisamos consultar a folhinha para nos lembrarmos que daqui a apenas uma semana iremos às urnas para eleger nosso novo prefeito. É hora de fazer um balanço de quem subiu e de quem caiu neste mês e meio de campanha no rádio e na TV.

Foi uma campanha diferente. Fora dos lugares visitados pelos candidatos neste domingo cinzento e frio, não há até agora sinais exteriores de campanha eleitoral na maior cidade do país.
Quase não se vê carros com adesivos dos candidatos, os postes continuam limpos, rararamente se vê uma bandeira, não se ouve a barulheira dos carros de som, como em outras cidades deste imenso Brasil por onde passei nesta campanha municipal.
As últimas pesquisas mostram um crescimento do PT nas 79 principais cidades do país, onde moram 46,5 milhões de eleitores, como revela alentado levantamento publicado hoje na “Folha” pelo colega Fernando Rodrigues. Em 33 destes municípios, petistas estão em primeiro ou segundo lugar nas pesquisas.
Ao contrário do que escrevi num dos meus primeiros textos sobre eleições, os programas dos candidatos no rádio e na televisão alteraram, sim, as posições em várias capitais.
Em alguns casos, de forma radical. Alguns exemplos:
São Paulo: Marta Suplicy manteve-se o tempo todo com boa folga na liderança desde o início e está no segundo turno, mas inverteram-se as posições entre seus dois concorrentes diretos. Alckmin começou com 31% em julho e caiu para 20% na última pesquisa. No sentido inverso, Kassab começou com 13% e chegou agora a 24%. Ou seja, Alckmin saiu 11 pontos na frente e agora está os mesmos 11 pontos atrás de Kassab, que tem o maior tempo e o melhor programa na televisão.
Rio de Janeiro: o bispo Marcelo Crivella começou na frente e agora pode nem ir para o segundo turno, atropelado por Eduardo Paes, do PMDB, empurrado pelo governador Sergio Cabral, e pelo verde Fernando Gabeira, adotado pelos tucanos, que começaram lá no fundo das pesquisas e agora devem decidir a eleição carioca.
Fortaleza: a prefeita Luizianne Lins e o demo Moroni Torgan começaram empatados em 30%, mas a petista disparou e agora tem 25 pontos de vantagem sobre seu principal concorrente, podendo ser reeleita já no primeiro turno. O marqueteiro dela é o velho e bom Duda Mendonça.
Recife: o desconhecido secretário municipal João Costa, indicado pelo prefeito petista João Paulo para a sua sucessão, também começou na rabeira das pesquisas, teve sua candidatura impugnada na Justiça, mas agora pode resolver a parada já no próximo domingo.
Salvador: disparado na frente das pesquisas no início da campanha, o demo ACM Neto agora está pau a pau com o prefeito João Henrique, do PMDB, e o petista Walter Pinheiro, que começou na laterna, para ver quem se classifica para o segundo turno na disputa mais emocionante e acirrada destas eleições.
Porto Alegre: tudo indicava mais uma disputa ente petistas (a deputada federal Maria do Rosário) e anti-petistas (o atual prefeito José Fogaça, atualmente no PMDB), mas a bela e firme Manuela D´Ávila, do PCdoB, correu por fora e agora a disputa do segundo turno está indefinida.
Belo Horizonte: a capital mineira foi palco de uma reviravolta, puxando do último para o primeiro lugar nas pesquisas o candidato do governador tucano Aécio Neves e do prefeito petista Fernando Pimentel, o milionário "socialista" Márcio Lacerda, que até outro dia poucos conheciam em Minas.
Em resumo: de acordo com o levantamento do Fernando Rodrigues, mais uma vez é a eleição em São Paulo que vai decidir qual o partido será o campeão de votos nestas eleições.
Hoje, para minha surpresa, o partido que governa mais gente nas 79 maiores cidades do país é o DEM. São 13,3 milhões de pessoas, depois que o demo Gilberto Kassab assumiu a prefeitura de São Paulo em lugar do tucano José Serra, que deixou o cargo para se eleger governador. Em segundo lugar, vem o PT, com 9,4 milhões e, em terceiro, o PMDB, com 7,2 milhões.
Pelas últimas pesquisas, o PT agora poderá governar até 24,9 milhões em 2009, um recorde histórico, mas tudo dependerá do resultado de São Paulo, onde o segundo turno está indefinido, com Marta tecnicamente empatada tanto com Alckmin como com Kassab.
Fonte: iG/Site O Vermelho.

MÍDIA - Presidente da ABL: mídia só cultiva a "liberdade de empresa".

“No Brasil não existe liberdade de imprensa, existe liberdade de empresa”, afirmou o presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cícero Sandroni, no encerramento do seminário "Brasil, brasis – liberdade de expressão: base da democracia", realizado na sede da ABL na noite desta quinta-feira (25/09). Todos os debatedores defenderam a liberdade de imprensa, mas levantaram problemas que ela enfrenta para a sua plena consolidação no País.
Sandroni argumentou que nos seus 50 anos de jornalismo percebeu que, por causa de pressões dos conglomerados econômicos e do Estado, o jornalista não possui liberdade de expressar seu pensamento, mas apenas cumpre pautas que se alinhem com os interesses dos financiadores dos veículos de comunicação.
"Eu acho até natural que os meios de comunicação defendam os interesses dos grupos que os financiam, mas não é aquela liberdade de imprensa que gostaríamos que existisse", avaliou Sandroni.
Bucci critica influência da publicidade.

A mesma linha de pensamento foi apresentada pelo ex-presidente da Radiobrás Eugênio Bucci. Ele criticou o poder exercido pela publicidade, principalmente dos governos, nos veículos de comunicação. Segundo Bucci, a verba de publicidade dos municípios, dos estados e da federação interfere na produção de conteúdo dos veículos, cerceando a liberdade de imprensa.
"O Estado é um dos maiores anunciantes do mercado brasileiro. Isso significa que nos veículos mais fracos a verba vinda do poder público é essencial para o seu funcionamento. Isso cria uma porta de influência, interferência e de pressão do poder público sobre a existência dos próprios veículos. Isso conspira contra os requisitos formais da liberdade de imprensa", alerta Bucci.
O controle dos veículos de comunicação pelo Estado é, para o ex-Ministro da Justiça Célio Borja, o maior obstáculo à liberdade de expressão. Segundo ele, ao influenciar a produção de informação, o poder torna a versão oficial dos fatos hegemônica no cenário nacional em detrimento das opiniões individuais.
"Hoje a repressão sobre os veículos e sobre as opiniões está muitíssimo limitada, mas a repressão não é a única forma de dominação dos veículos", afirmou Borja.
Jornalista deve usar crítica para lutar contra controle
Na opinião do ex-presidente da Radiobrás, para lutar contra esse controle é necessário que "os jornalistas exerçam a liberdade". Para tanto, os profissionais devem "olhar com desconfiança", não deixando serem cooptados pelo poder econômico, político e dos grupos de influência.
“A liberdade floresce mais na crítica que no aplauso”, afirmou Bucci.
A cientista política, historiadora e jornalista Lucia Hippólito também prega a crítica como meio de alcançar a liberdade de imprensa. Ela afirma que o poder e o pensamento se relacionam mal, "porque o poder não aceita críticas e o pensamento é, em si, uma forma crítica de expressão".

Analfabetismo impede a liberdade de imprensa

O jornalista e professor universitário José Marques de Melo levantou outra barreira para o pleno exercício da liberdade de imprensa no País. Mesmo com a Constituição de 88, que propiciou "um dos momentos mais fecundos" da atividade dos meios de comunicação no País, a maior parte da população continua fora desse processo em "bolsões marginalizados da cultura letrada".
"Ao ingressar no século XXI, o Brasil sofre de um mal endêmico. Sua imprensa permanece restrita a uma fatia minoritária da sociedade. É reduzido o número de brasileiros que são leitores regulares de livros, revistas e jornais", analisou Melo.
O advogado Sérgio Bermudes lembrou que o direito à liberdade de imprensa está presente, assim como na Constituição Brasileira, na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O documento, que completa seu 60º aniversário este ano, diz em seu artigo 19: "Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão. Este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e procurar receber informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras".
Fonte: Comunique-se/Site O Vermelho.

ARTIGO - Saque e restituição.

Mostra no Museu Judaico de Berlim põe em questão política de preservação dos museus europeus, diante do saque artístico e cultural feito pelos nazistas em relação a famílias judaicas no passado.

Flávio Aguiar

O Museu Judaico de Berlim expõe no momento a mostra “Saque e restituição”, dedicada a história das famílias judaicas que tiveram seu patrimônio artístico e cultural saqueado pelos nazistas nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, ou durante o conflito.Na mostra, há mais documentação e relatos do que objetos de arte. Ela acompanha a trajetória de quadros (a maioria), esculturas e livros que ou foram confiscados das famílias judaicas ou foram vendidos por estas em circunstâncias desfavoráveis. Ou seja, muitas vezes essas famílias eram forçadas a vender seu patrimônio seja por leis ou por serem obrigadas a emigrar.O mais impressionante da mostra é o detalhismo e a discriminação a que os nazistas chegaram na “apropriação” deste patrimônio. Em primeiro lugar, eles seguiam políticas diversificadas. Nos países do Ocidente (França, Holanda, Bélgica, a própria Alemanha e outros), a política era “tomar e preservar”. Nos países do Leste europeu, sobretudo na União Soviética, a política era “tomar e destruir”, em nome de neutralizar o suposto “complô judaico-comunista” para solapar o nacional-socialismo. Tudo, neste último caso, era visto como “arte ou cultura degeneradas”, não merecendo preservação. Ao contrário, sua destruição era um “serviço” prestado à “civilização superior” que estava por vir.Com a documentação extensa, pelo menos no que se referia ao Ocidente da Europa e à Alemanha, não foi muito difícil para os aliados, depois do fim da guerra, empreender e administrar a restituição aos ex-donos ou seus herdeiros. Criaram a Comissão Aliada de Arte. Mas houve custos e percalços inesperados.Nem todas as obras de arte expropriadas ou vendidas em condições adversas foram adquiridas por próceres nazistas, como Herrman Göring, que era um grande colecionador, além de presenteador, tendo oferecido quadros ao próprio Führer Adolf Hitler. Muitos dos quadros foram adquiridos ou foram parar em museus, que, depois da guerra, não se conformavam em devolve-los a seus antigos donos.Os processos de devolução tornaram-se demorados e custosos, e sua organização exigia apresentação de documentos comprobatórios, testemunhas, e a contratação dispendiosa de escritórios de advocacia especializados.A mostra do Museu Judaico é muito engenhosa e rigorosa neste sentido. Além de demonstrar o saque perpetrado pelos nazistas, exibe que se criou, nos anos do pós-guerra, uma verdadeira “indústria da restituição”. Quase nenhum dos quadros restituídos às famílias ficou no patrimônio destas. A maioria foi revendida a museus ou a colecionadores particulares. Não se tratava apenas de uma “impulsão a negócios” de herdeiros (muitas vezes os donos originais tinham morrido, alguns assassinados pelos próprios nazistas) sem compromisso estético ou de memória com as obras recuperadas.A recuperação das obras exigia gastos e dívidas consideráveis em viagens e comissões a advogados, que só a venda das obras podia saldar. Companhias de aviação ofereciam pacotes especiais para quem, dos Estados Unidos, quisesse viajar à Europa em busca de seus quadros de família, com comida kosher e tudo o mais. Uma exceção pungente a esse quadro de bons negócios foi o de um filho que, exasperado com a resistência que um museu lhe oferecia, negociou um bom preço e comprou o quadro que anos antes sua mãe vendera aos nazistas por uma bagatela, e deu-lhe de presente no seu nonagésimo nono aniversário.A vernissage da exposição transcorreu em meio a polêmicas. Recebi em mãos um manifesto de mulheres que tiveram seus pedidos de restituição negados. Além disso, levantava-se sistematicamente a pergunta: e o resto? Isto é: houve, com todas as suas contradições, uma política de restituição aos judeus cujo patrimônio artístico foi saqueado pelos nazistas. Mas o que fazer, como se vem debatendo, com o que os países do Ocidente saquearam de outros povos, como na Ásia, na África, nas Américas, na Oceania e inclusive na própria Europa, como no caso da Grécia?Museus e instituições do Ocidente levantam questões de segurança: dizem estar prontos à devolução, mas questionam se isso adiantaria, uma vez que os países reclamantes “não teriam condições” de proteger as próprias obras. O argumento é dúbio e conveniente, uma vez que essa suposta “falta de condições”, se verdadeira, foi provocada muitas vezes pelas políticas de saqueio econômico levadas a cabo pelos países das instituições que hoje detém a “posse” dos objetos em questão. No caso da restituição às famílias judaicas, o processo só se apressou com o fim da Guerra Fria, e com uma convenção assinada por dezenas de países em Washington, em 1998. No caso da corrente (ou correnteza?) de objetos levados de países pobres para países ricos ao longo dos séculos de exploração e domínio coloniais, só um marco regulatório concertado num organismo como a ONU, ou a ela conexo (como a UNESCO) poderia dirimir as dúvidas e criar uma baliza de direito para dirimir dúvidas e disputas. Mas será isso possível num momento em que as crises endêmicas do capitalismo triunfante desse começo de século XXI levam à contestação das arenas internacionais (como a própria ONU) em favor do novo imperialismo emergente do recrudescimento da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Européia de um lado, e a Rússia e a emergente China, dos outros lados?Enquanto o mundo das artes, das culturas e das nações se debate entre tais perguntas, uma boa leitura sobre o tema é o livro “Eu fui Vermeer”, do escritor irlandês Frank Wynne, lançado no mercado brasileiro pela Cia. das Letras. Trata-se de (mais) uma biografia, bastante bem escrita, apesar do estilo romanceado, de Han van Meegeren, falsário holandês que, por motivos pessoais e estéticos, criou brilhantes (algumas, pelo menos) telas atribuídas a Johannes Vermeer e outros pintores do século XVII, e as vendeu como autênticas a diversos museus europeus. Preso depois da Guerra como colaborador dos nazistas, por vender “tesouros nacionais” da Holanda ao invasor nazista, Meegeren teve de se posicionar diante de uma questão dilemática: se confessasse a verdade, seria solto e salvo, mas perderia sua obra; se não confessasse, seria condenado à morte, mas salvaria “seu” patrimônio artístico da vergonha e da execração.A narrativa de Wynne lembra outra falsificação famosa, a empreendida por James McPherson, no século XVIII, que literalmente inventou poemas que ele mesmo atribuía a um poeta celta do século III, Ossian, da antiga Escócia. Quando sua fraude foi descoberta, no século XIX, seus poemas atribuídos a Ossian já tinham sido traduzidos no mundo inteiro, inspirado Goethe e Chateaubriand, entre outros, e se transformado numa das pedras fundamentais da construção do Romantismo e da então moderna prosa poética. “O Guarani” e “Iracema” de Alencar são netos desta necessária “fraude literária”. Sic transit gloria mundi.PS – Peço desculpas aos leitores e internautas da Carta Maior pela prolongada ausência. Estive imerso em dois processos complexos, o de obtenção definitiva do visto de residência na Alemanha e o de mudança de casa. Ambos me levaram a desapertar e apertar centenas de parafusos durante algumas semanas, além de mover cargas pesadas de um lado para o outro, seja no sentido físico, seja no espiritual, para constituir a nova moradia. Terminados os processos, volto à escrita dos artigos habituais. Enquanto isso o capitalismo passou de uma bonança aparente a uma crise (crise, ou renovação periódica?) anunciada no sistema financeiro norte-americano que ameaça uma tsunami em escala mundial; na Alemanha o Partido Social Democrata entrou numa crise interna que pode redesenhar o panorama europeu, e o CSU, partido de direita, perdeu neste domingo passado uma hegemonia de 40 anos na Baviera, hoje o estado mais populoso e rico do país. Trataremos disso em seguida, além de outros assuntos. Não desligue, fique na linha.
Fonte: Agência Carta Maior.