quarta-feira, 30 de novembro de 2022

The Intercept_Brasil: A imprensa alimenta o racismo.

 


Quarta-feira, 30 de novembro de 2022Contragolpe | A imprensa alimenta o racismo

Quando se perguntar por que o Brasil elegeu um governo retrógrado, pare e veja o que os grandes jornais fizeram contra o racismo. 
Ali pelos anos 1990, alguns dos principais veículos jornalísticos brasileiros tinham uma norma não escrita de que fotos de negros não iam para a capa de jornais ou revistas. Havia uma crença, tanto no editorial quanto na publicidade, de que “negro não vende”. Era o tempo dos veículos impressos, a internet ainda não havia chegado, e a capa mais atraente tinha mais chances de se diferenciar nas bancas, da qual os jornais dependiam. Em 1988, o publicitário Ênio Mainardi disse explicitamente que “preto desvaloriza um produto”. Nessa mesma época, perdurava também o hábito de colocar uma “gostosa” na capa — com essa expressão mesmo, tal qual era dito em reuniões editoriais de final de semana para se referir a uma mulher bonita e com roupa sensual. Sou testemunha ocular das situações que descrevo aqui, parte do dia a dia das redações em que trabalhei nos últimos 30 e poucos anos. Há um incômodo, porque tais costumes nunca foram alardeados de forma ostensiva Eram frases soltas ou sugestões de fotos “derrubadas” sem uma explicação clara. Só começamos a ligar os pontos em mesas de bar, conversando com colegas de outras redações grandes que tinham experiências similares. As memórias, ainda que longínquas no tempo, foram ganhando nitidez nos últimos anos. Mais especificamente de 2015 em diante, quando o Brasil começou a ter manifestações de rua pró-golpe militar. Ali, uma boa parte da minha geração, que assistiu e celebrou a redemocratização em meados dos anos 1980, começou a se perguntar: onde foi que nós erramos para termos tanta gente à vontade de ir a público pedir a volta da ditadura? A pergunta voltaria diuturnamente pelos próximos sete anos em que o pior do país viria a florescer, incluindo a eleição de um governo antidemocrático, cujo principal representante havia saudado um torturador da ditadura durante uma votação ao vivo no Congresso brasileiro. Era o então deputado Jair Bolsonaro no impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Quando virou presidente, Bolsonaro nomeou Sérgio Camargo para a Fundação Palmares, um homem negro que não acredita em racismo e ataca o que chamou de "vitimismo" dos negros, ainda que as estatísticas demonstrem claramente que são eles os alvos majoritários de ações policiais assassinas e os que vivem em situação de maior vulnerabilidade social.As reminiscências do cotidiano nas redações no final do século passado vão e voltam à mente porque, desde que a democracia ficou sob ameaça com Jair Bolsonaro, passei a questionar também qual é a parte que cabe ao jornalismo neste latifúndio. Quando o jornal O Estado de S. Paulo publicou na semana passada uma foto de mãos negras segurando uma arma para ilustrar uma reportagem sobre o horrendo assassinato de professores e estudantes provocado por um jovem branco nazista, no Espírito Santo, tive parte da resposta.O Estadão nasceu pelas mãos de um grupo de republicanos em 1875, disposto a criar “um diário de notícias para combater a monarquia e a escravidão”, segundo a descrição do próprio jornal. Mas, desde então, poucos negros foram pauta de notícias positivas na capa do jornal. As exceções eram os heróis nacionais, como Pelé, ou cantores como Gilberto Gil. Vale lembrar que a luta contra a escravidão é relativa quando se trata do grupo que trabalhou pela proclamação da República – que praticamente não reconhecia os negros como cidadãos. Assim, o Estadão mostra que, passado mais de um século desde a sua fundação, ainda reproduz o desdém com o racismo arraigado, como aconteceu no episódio da semana passada. Foram necessárias muitas reclamações e críticas públicas para que o jornal viesse a reconhecer o “erro”. Erro este que jamais deveria ter repetido.  É difícil e delicado apontar o dedo para veículos onde já trabalhei e onde tenho colegas fantásticos, que colaboram para aperfeiçoar a qualidade da democracia com o seu trabalho. Mas isso não nos isenta de cobrar coerência e responsabilidade, até mesmo de quem ajudou você a se formar como profissional. Está na hora de admitir que os veículos brasileiros estão envelhecendo, e envelhecendo mal. São jornais vorazes em apontar o dedo para os erros da esquerda, dos progressistas, mas incapazes de fazer um "mea culpa" na hora de debater o papel que às vezes exercem contra a democracia. Reproduzir racismo é atentar contra o regime democrático, que só existe se valer para todos os cidadãos e cidadãs por igual.O problema não é uma exclusividade do Estadão. A Folha de S.Paulo ainda defende seus indefensáveis artigos sobre “racismo reverso”, publicados no ano passado e neste ano, como liberdade de opinião. A mesma leitura enviesada que os golpistas em frente ao quartel fazem da liberdade de expressão.Cabe também outro questionamento claro. Quantos veículos jornalísticos no Brasil chamaram, nestes quatro anos, o governo militar de Jair Bolsonaro de extrema direita ou ultradireita? Só os jornais independentes e a imprensa estrangeira — Financial TimesBBC e El País, por exemplo — assim o chamam desde a sua posse em 2019. Os grandes veículos precisam encarar sua "terra plana" particular, seu mito de democracia falho e elitista, que estimulou uma segregação, um "nós contra eles" que está fora das campanhas políticas. Nós, os democratas limpinhos, contra eles que não compreendem nossa leitura. Não. A imprensa é capaz de blindar um país de um estado mal-intencionado com sua série de reportagens, como as do orçamento secreto, publicadas pelo mesmo Estadão, tanto quanto é capaz de fingir que não tem nada a ver com as mazelas que se prolongam há décadas. Não há tempo nem energia para se manter a hipocrisia depois dos últimos sete anos. Quem se propõe a informar e formar a opinião de uma sociedade precisa assumir a arrogância que ajudou a fomentar um quadro deletério para a democracia. Não cabem mais supostos erros e escorregadas que reforçam o racismo e fragilizam a vida em sociedade. A meta é espelhar o melhor da sua sociedade, e não o pior. Ninguém luta contra a escravidão, como diz o slogan do Estadão, se reforça valores do regime escravocrata guardava no passado, olhando o negro como inferior. Já chega.
Carla Jimenez
Colunista

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