NO CHILE, FEZ-ME A MELHOR ESCOLHA!, POR RÔMULO DE ANDRADE MOREIRA

NO CHILE, FEZ-ME A MELHOR ESCOLHA!
Rômulo de Andrade Moreira[1]
“Quantas coisas quisera eu dizer, hoje, brasileiros, quantas histórias, lutas, desenganos, vitórias que tenho levado por anos no coração para lhes dizer, pensamentos e saudações. Saudações das neves andinas, saudações do Oceano Pacífico, palavras que eu, ao passar, ouvi dos operários, dos mineiros, dos pedreiros, de todos os habitantes da minha longínqua pátria.”[2]
O Chile elegeu ontem (19) como seu novo presidente, o ex-líder estudantil Gabriel Boric, de 35 anos, rejeitando o pinochetista e ultradireitista José Antonio Kast, e sinalizando claramente que o povo chileno exige uma mudança no sistema político e na ordem econômica neoliberal.
O país, aliás, já havia dado uma lição de democracia plural ao eleger como presidenta da Assembleia Constituinte (formada por 77 mulheres e 78 homens) uma indígena mapuche, a acadêmica Elisa Loncón, de 58 anos, nascida em uma comunidade humilde de Araucanía, num claro e positivo sinal político para as mulheres e para os povos indígenas, desde sempre subtraídos das decisões do poder político e do poder econômico, e que resistem a um conflito histórico de terras no sul do país.
Gabriel Boric, que será o mais jovem presidente da história do país, foi um dos líderes dos protestos estudantis de 2011, considerados as maiores manifestações populares desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990. Naquele época, há vinte anos, os estudantes exigiam, e conseguiram em parte, gratuidade na educação superior chilena, até então majoritariamente privada e com preços altíssimos, mesmo nas universidades públicas.
Oito anos depois, a partir de outubro de 2019, Gabriel Boric, já agora como deputado federal eleito desde 2014, voltou a liderar novas manifestações populares, depois do aumento no metrô em Santiago, protestos que se espalharam por todo o país e que ficaram conhecidos como Estallido Social ou Primavera Chilena, e a partir dos quais conseguiu-se o necessário apoio popular para mudar a Constituição do Chile, resquício do lixo autoritário da era Pinochet, um general corrupto e sanguinário.[3]
Boric foi o candidato mais votado da história chilena, sendo escolhido por 4,6 milhões de pessoas, representando cerca de 55,8% dos eleitores, contra 44,1% do adversário. A sua vitória significa, sobretudo, uma derrota para a política neoliberal do direitista Sebastián Piñera, um dos Chicago boys que ajudaram o ditador Augusto Pinochet a implantar uma economia de mercado que, além de reprimir violentamente as liberdades civis e acabar com os direitos sociais, destruiu a economia chilena, criando toda uma geração de endividados que pagam caro por direitos básicos, como educação e saúde, além de uma pletora de aposentados miseráveis.
Sim, é verdade que os números do PIB e da renda per capita chilena são relativamente satisfatórios, mas, sabe-se a que custo! As privatizações em série e o corte absurdo de gastos em serviços públicos evitaram (obviamente) o aumento da dívida pública, mas o Chile segue entre os países mais desiguais do mundo.
Aliás, a situação caótica que vive o Chile, graças aos Chicago boys, deve-se também, de certa maneira, ao ministro da Economia do Brasil, Paulo Guedes, que viveu no Chile nos anos 80, e só saiu de Santiago com sua mulher depois de ter surpreendido a polícia secreta revistando seu apartamento.[4]
A propósito, em fevereiro de 2019, numa entrevista ao Financial Times, o ex-Posto Ipiranga (hoje, como se sabe, ele manda pouco, ou quase nada), afirmou que “o Chile que encontrei era mais pobre do que Cuba e a Venezuela hoje, e os ‘Chicago boys’ consertaram o país. Hoje o Chile é como a Suíça”, disse ele, ignorando o desemprego de 21% que o país registrava em 1983, em plena ditadura. E, com seu estilo histriônico e falastrão, arrematou: “as pessoas da esquerda têm cabeças moles e bom coração; e as pessoas da direita têm cabeças duras, e… corações não tão bons. Quando os liberais chegam ao poder, isso é boa notícia, não má notícia”.
Vê-se!
Enfim, oxalá o Brasil siga o mesmo caminho do Chile e escolha no próximo ano sair das trevas para a esperança, pois, afinal de contas, como falou Zaratustra, “é preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançarina.”[5]
“Vou dizer-lhes que não guardem ódio, que só queiram que sua pátria viva. E que a liberdade cresça nas profundezas do Brasil como uma árvore eterna. Eu gostaria de dizer a você, Brasil, muitas coisas silenciosas, sentidas nestes anos entre a pele e a alma, sangue, dores, triunfos, o que devem se dizer os poetas e o povo: será outra vez, um dia.”[6]
[1] Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal da Universidade Salvador – UNIFACS. Pós-graduado pela Universidade de Salamanca.
[2] NERUDA, Pablo. Canto General. Chile: Pehuén Editores, 2014, p. 174 (tradução livre).
[3] Após o fim da ditadura chilena, revelou-se a existência de contas mantidas secretamente em bancos no exterior. Enquanto investigava casos de lavagem de dinheiro, uma subcomissão do Senado dos Estados Unidos acabou encontrando os valores mantidos pelo ex-general e sua família no Riggs Bank, organização com sede em Washington e filiais em Londres. Pinochet e sua família mantinham, segundo o Senado americano, cerca de US$ 8 milhões em contas na instituição – os valores teriam sido depositados entre 1994 e 2002. Somado ao de outras contas em outros bancos estrangeiros, o valor subia para quase US$ 15 milhões. A investigação revelou, em 2004, que Pinochet conseguira transferir, enquanto estava detido na Espanha, cerca de US$ 1,6 milhão do total para uma conta nos EUA. Em 2018, a Suprema Corte chilena ordenou à família do ex-general que devolvesse aos cofres públicos parte dos valores – cerca de US$ 5,1 milhões, de acordo com a sentença. (Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-47670966. Acesso em 20 de dezembro de 2021).
[4] O ministro da Economia foi viver no Chile a convite de Jorge Selume Zaror, ex-diretor de Orçamento do regime de Pinochet, atuando como pesquisador e acadêmico da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile, então comandada por Selume Zaror. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/perfil/paulo-guedes/. Acesso em 20 de dezembro de 2021.
[5] NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Editora Martin Claret, 1999, p. 29.
[6] NERUDA, Pablo. Canto General. Chile: Pehuén Editores, 2014, p. 174 (tradução livre).
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